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História

Ao som do Jequibau

História de: Mário Albanese
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2008

Sinopse

Nascido em uma família bastante ligada a música, Mario Albanese, criador do Jequibau, cresceu em um ambiente musical, o que o influenciou durante toda a sua vida. O advogado, professor, jornalista, compositor e comunicador de rádio e televisão conta sua trajetória relembrando momentos de sua juventude e definindo sua carreira pelos acontecimentos mais importantes.

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História completa

P/1 – Senhor Mário, nós vamos começar o depoimento perguntando seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?

 

R – Eu nasci em São Paulo no bairro Paraíso, em 31 de outubro de 1931.

 

P/1 – E seu nome completo?

 

R – Mário Albanese. Seria Mário Petrillo Albanese, mas eu uso Mário Albanese.

 

P/1 – E, por favor, diga o nome do seu pai e da sua mãe?

 

R – Meu pai é Biaggio Albanese e minha mãe é Clara Petrillo Albanese.

 

P/1 – Senhor Mário, conta pra gente um pouco a origem da família do senhor, primeiro do seu pai e depois da sua mãe?

 

R – Isso é interessante porque o meu avô por parte de mãe, veio para São Paulo na mesma época que o maestro Farelli, pra lecionar música. Ele já tinha 50 anos, mais ou menos, e no navio conheceu a minha avó. Eles acabaram se casando. Ela era viúva, tinha um filho, o Luciano de nove anos, que era um músico excepcional, desses que já nascem prontos. Quer dizer que a descendência musical por parte de mãe foi absolutamente incisiva e genética, a música que eu tenho em mim é resultado disso. Ele constituiu uma família com ela tiveram cinco filhos. Clara, a minha mãe, em seguida veio meu tio Armando, a tia Yolanda, o tio Paulo e a tia Elisa. Cinco filhos, isso por parte de mãe. Por parte de pai, meu avô eu não conheci, eu só conheci a avó Maria Albanese, mas agora você vai me pegar, porque eu não sei a origem certa deles. Eu consegui chegar a isso porque tive que pesquisar realmente, mas dele o que eu tenho a dizer é que era um homem que tinha ouvido absoluto, gostava extremamente de música, era alfaiate. Alfaiate do tipo de hoje, que nós diríamos ser um sujeito voltado pra moda, muito avançado. Não é porque era meu pai, mas ele era um artista dentro de sua profissão. Ele adorava música, conhecia música profundamente, era craque do Teatro Municipal de tanto que gostava. A minha origem foi toda nesse ambiente, ambiente de música porque a minha mãe ficou viúva, não perdão ela ficou órfã de pai e mãe muito cedo e ela acabou herdando a classe de alunos do meu avô e com apenas 14 pra 15 anos, ela conseguiu... Trabalhando com música, conseguiu educar os irmãos menores formando-os, dando todo respaldo com música, coisa muito difícil. Ela foi um exemplo de vida, lecionou até o fim da vida dela com 70 anos. Meu pai morreu moço, morreu com 59 anos e minha mãe morreu com 70 e poucos. Então o que eu tenho a dizer é que eu sou fruto de um lar feliz, porque eles nunca se separaram, se davam muitíssimo bem e eu tenho uma irmã só que é a Suzi também formada em música, é professora e que mais eu posso dizer pra vocês?

 

P/1 – Deixa só eu perguntar uma coisa anterior, eles... Tanto a família do seu pai quanto a da sua mãe vieram da Itália?

 

R – Da Itália.

 

P/1 – E o senhor sabe a origem lá na Itália? Por que eles vieram pro Brasil?

 

R – O meu avô por parte de mãe está claro, ele veio pra lecionar música aqui. E por parte do meu pai eu nunca perguntei o porquê vieram, mas certamente vieram atraídos pelo que o Brasil representava. Eu creio que tenha sido por isso. Meu pai acabou nem se naturalizando, ele era italiano de nascimento, embora tenha vindo pra cá com dois anos. Então ele achava um absurdo que não o reconhecessem como brasileiro, hoje a gente poderia dizer: “Você teria que se naturalizar”, ninguém impediu, mas ele acabou morrendo italiano mesmo, ele praticamente não voltou mais para Itália, viveu o tempo todo aqui. A pergunta qual foi?

 

P/1 – De que região eles são?

 

R – Ele era de Potência, era uma região vizinha da Calábria da baixa Itália e por parte de minha mãe também era baixa Itália, Cecília.

 

P/1 – Então eles vieram... E o senhor sabe como seus pais se conheceram?

 

R – Os meus pais... Agora você me pegou também, sabe que filho não pergunta isso. Mas eu sei que eles ficaram... A família do meu pai, eles moravam próximos dali, deviam morar perto um do outro e a minha mãe era muito valorosa, bonita e cuidando de irmãos menores, certamente deve ter despertado uma tremenda atenção por parte da família Albanese. Foi assim que meu pai a conheceu, respaldado pelo carinho da família dele para com a minha irmã, a minha mãe que, com 15 anos, estava tutelando uma família e casaram-se. Desse casamento viemos eu e minha irmã e viveram felizes enquanto tiveram vida.

 

P/1 – O senhor falou que nasceu no Paraíso, não é? As famílias, tanto a do seu pai, quanto a da sua mãe, vieram pra essa região do Paraíso? Conta pra gente?

 

R – Que eu me lembre era na cidade, numa rua ali perto da Sete de Abril, a rua que eu falei, quando nós estávamos lá fora eu acabei falando o nome da rua, mas que agora não me ocorreu mais. Mas enfim era na cidade, certamente se você colocar isso na época em que eles viviam, a cidade pra nós hoje a cidade não era bem centro, mas se conheceram ali.

 

P/1 – Então eles moravam todas naquela região?

 

R – Na Sete de Abril, tem outro nome a rua, é uma rua ali próxima a Sete de Abril, eu já vou dizer, tão logo ela pintar na cabeça eu falo.

 

P/1 – Então seus pais se conhecem, casam e você sabe onde eles se casaram? Se eles casaram em alguma igreja?

 

R – Eu não saberia te dizer, meu anjo.

 

P/1 – E eles vão morar no Paraíso? Ou moraram em outro lugar primeiro?

 

R – Foram morar no Paraíso, onde viveram sempre, na Rua Tupinambás, que hoje tem outro nome no número 164. Foi onde eu nasci. Naquele tempo a gente nascia em casa.

 

P/1 – Essa casa ainda existe?

 

R – Essa casa, na época da guerra... Eles compraram, mas na época da guerra, meu pai era italiano, era um absurdo isso. Mas houve uma perseguição aos italianos, perseguição entre aspas. Mas o fato é que a colônia italiana sofreu certa pressão, muita gente quis tirar proveito dessa pressão e ia avançando nos bens das famílias, como foi o caso do Palmeiras, por exemplo, o Palmeiras Clube hoje, era Palestra Itália e teve que mudar de nome assim, de um momento para outro. Foi o caso de Pinheiros, que era Germânia e se tornou Pinheiros pra não perder todo domínio que eles tinham, toda propriedade que lhes diziam respeito. Então meu pai passou... Não tinha lá muita propriedade, mas as propriedades que tinha passaram para o nome dos filhos e no caso ficou tudo em nome da minha irmã, porque nós temos uma diferença de cinco anos, eu devia ser pequeno e eles passaram para o nome dela. Essa casa foi depois vendida para o Hospital Santa Joana que nós vimos nascer, hoje é uma maternidade bem conceituada aqui em São Paulo e o Hospital Santa Joana era bem em frente a minha casa. Era muito gozado, porque era um palacete e moravam poucas pessoas. Três pessoas moravam naquele palacete, esse palacete foi vendido para o hospital, a minha casa era bem em frente também, era um sobrado, eu tocava piano, as enfermeiras ficavam lá no sótão e elas pegavam o telefone e falavam: “Puxa, toca de novo essa, eu gostei muito dessa, gostei daquilo...” Foi muito gozado. Quando houve a venda dessa casa, ninguém queria... Eu não queria vender, minha irmã não queria vender, porque foi ali que nós nascemos. No fim, eu fui convencido pelo Doutor Amaro, hoje a rua chama-se Doutor Amaro, conversamos, lembramos coisas, porque eu vi tudo acontecendo ali, eu acompanhei tudo aquilo. Acabamos vendendo o hospital para ele, não discutimos preço e nem nada, ele pagou o que a gente achou que merecia e foi uma coisa muito bacana, viu? São coisas que a gente fala... Sabe quando não há negócio, quando tem aquela coisa “Não, então é isso” “Eu acho assim, assim” “Então ta bem, então vamos fazer desse jeito” e assim foi. A casa hoje, eu não passo lá, porque eu tenho imensa saudade, sabe? Toda a minha juventude eu passei ali, então às vezes eu evito passar pra não relembrar tudo. Mas se vocês forem, é uma pirambeira a Rua Tupinambás, hoje o Doutor Amaro, que é o nome do dono do hospital, já é falecido. Ele comprou todas aquelas casas, o hospital foi se expandindo, ele foi pra Rua do Paraíso, eu não sei se vocês conhecem uma rua também que tem e o hospital sai por aqui e sai por lá, ou entra por aqui, ou entra por lá. Enfim, ele ocupou todo aquele quarteirão, é uma beleza.

 

P/1 – E como era essa casa? O Senhor falou que era um sobrado, né?

 

R – Era um sobrado, o que tem de interessante foi que na época da Revolução Constitucionalista tinham os tiros na parede, eu era pequeno, mas eu via a parede com os furos e aí ficamos sabendo que é era por causa dessa revolução, que naquele local teria tido, não sei, mas o fato é que tinha. O que mais eu vou te contar da casa? A casa era um sobrado com um jardinzinho na frente, com um quintal grande que tinha um caramanchão no fundo, era a nossa casa.

 

P/1 – Tinha quantos quartos?

 

R – Tinha três quartos, cozinha e essas coisas todas. O corredor tinha até um porão, que a gente chama de porão, que dá ideia de coisa abafada, mas não é não, era um porão com altura suficiente, mas aí sim, mais adiante tinha um porão mesmo ali, com espaço reduzido, era praticamente uma sala.

 

P/1 – E essa casa foi o seu pai que construiu? Quer dizer ele mandou fazer essa casa pra vocês?

 

R – Não, devem ter comprado, depois foi reformada. Com o tempo eles foram construindo a vida deles, certamente eu não saberia dizer, mas eu acredito que tenha sido assim.  Até que chegaram a uma reforma bem substancial, enfim foi uma casa em que convivemos e vivemos muito bem sem problema algum.

P/1 – E nesse período da infância, o senhor se recorda... A gente queira perguntar um pouco das brincadeiras, que tipo de brincadeira tinha nessa época? Brincadeiras com colegas, com os amigos?

 

R – Bom, é inevitável isso. Jogávamos futebol naquela ladeira, imagina, era um absurdo, mas a gente jogava futebol ali do lado direito. Tinha o Cláudio, o Cláudio Leme que também tocava piano, em frente, tinha o Paulo Giovanini que era bem mais... A gente era criança, adolescente e ele já era homem feito que tocava na Rádio Tupi, então era uma coisa, um pianista... E o Paulo Giovanini depois foi pra Europa, estudou na Europa, depois foi pra Bauru onde ele tem um Conservatório com o nome dele. Paulo Giovanini, meu querido amigo, uma pessoa que me influenciou muito, sabe? Que me introduziu na vida artística, porque ele era mais velho e eu era louco por música então conclusão: ficamos muito amigos. As brincadeiras eram todas, de jogar futebol, brincadeira de criança, de pular cela e essas coisas... De pegador... Você sabe o que é pegador? É um correr e pegar o outro. Mas com isso uma infância feliz também, não tem nenhum tipo de reação negativa.

 

P/1 – E o senhor se lembra de algum episódio interessante da sua infância? Dessas brincadeiras?

 

R – O episódio interessante é que tinha um dos rapazes, sempre tem um. E que era... Ele tinha um perfil nazista, intimidava todo mundo e todo mundo aceitava a intimidação dele, por exemplo, a gente pegava o cara e ele dizia: “Não, você não me pegou” e você tinha pegado. Até que um dia eu resolvi me insurgir, né? Aí com o passar do tempo a coisa foi indo, foi indo e chegou um dia que eu disse: “Eu te peguei” o enfrentei e dali pra frente ficamos sem nos falar durante muito tempo. Depois crescemos e um dia no Tênis Clube, ele se encontra comigo, veio me abraçou, foi gostoso, porque esse desentendimento, vamos dizer assim, de criança ficou completamente superado. Mas isso é um incidente que marcou a minha personalidade, sabe? Como é que eu explicaria? Eu sou uma pessoa que tento compreender em vez de ser compreendido, eu acho que é muito mais lógico você... Se você tiver compreensão suficiente pra compreender é melhor do que você pretender ser compreendido, porque às vezes a pessoa não tem capacidade de compreender ou pela maneira como você fala ou pela forma, pelo conhecimento que você tem ou coisa parecida. Então fica difícil, eu sempre fui assim, no primeiro momento, vamos dizer: “Eu não te peguei, pego em outro” devo ter pensado, né? Uma vez, duas vezes e depois não, você está ferindo os meus princípios “Eu te peguei, isso é imoral, eu ter que admitir que eu não peguei.” Fiquei sem falar com ele e ele ficou intimidado comigo a partir dai. Mas depois nos encontramos, se você perguntar o nome dele, eu não sei, eu só sei que era Macarrão o apelido dele.

 

P/1 – E a escola? Qual foi a primeira escola?

 

R – A escola, a minha mãe me colocou no Externato Sagrado Coração de Jesus, a sábia... Minha mãe era incrível, como ela perdeu os pais muito cedo e teve a incumbência, a responsabilidade de educar os irmãos menores, inclusive, como eu já disso e repito, formando todo mundo, foi uma figura excepcional a minha mãe e... O que você perguntou?

 

P/1 – A escola?

 

R – Aí ela me levou na escola e disse: “Olha você vai pela parede, você atravessa a rua sempre no meio do quarteirão, olha para um lado, olha para outro, porque eu não vou poder te levar e nem te buscar.” Quer dizer que logo de cara eu já tive, com seis pra sete anos, que ser uma pessoa independente e responsável de fazer o que ela determinava. O que ela aconselhava, dizendo melhor. Nessa escola eu fiquei três anos e no quarto ano eu fui para o Dante Alighieri no Dante Alighieri eu passei para o ginásio, fiz o científico e depois entrei na faculdade.

 

P/1 – E a escolha do Dante foi pelo fato de ser da colônia italiana?

 

R – A idéia deles era de que eu aprendesse italiano, meu pai queria que eu aprendesse italiano e imagina que coisa engraçada, nem mal eu entro no Dante e vem a guerra em 1941 e com a guerra todos os professores de origem italiana tiveram que voltar para a Itália, aí não aprendi italiano, porque não se ensinava mais, o colégio virou Visconde de São Leopoldo e não era mais Dante Alighieri. Eu ainda cheguei a pegar depois à volta para Dante Alighieri, mas quer dizer, desse ponto de vista, foi ruim pra eles. Eles queriam tanto que eu falasse... Eu falo um pouco de italiano, mas eu falo por eufonia, vamos chamar assim, uma pessoa que é música tem uma facilidade de reproduzir línguas, fica uma coisa difícil, mas se você pegar a fundo eu deve cometer barbaridades falando italiano. Mas as pessoas... Ontem mesmo “Parla italiano”? Aí comecei a conversar, mas logo eu já vou parando e falo: “É bom parar por aqui, porque se a coisa complicar eu vou me estrepar.”.

 

P/1 – E seus pais falavam italiano em casa?

 

R – Ah, ele falava italiano sempre que podia, era muito gostoso ouvi-lo falar italiano e ele fazia uma coisa que... Ele fumava muito, ele fumava três maços de cigarro cubano, um cigarro sem filtro, um absurdo e aí quando ele fumava na frente de alguém isso eu conto, nas minhas palestras, ele já tinha consciência que a fumaça perturbava outras pessoas ali perto, entendeu? Então ele perguntava: “Posso fumar? A senhora não se importa que eu fume?” Falando em italiano, eu achava aquilo tão delicado. Tão bonito da parte dele, que é a consciência que hoje as pessoas ainda não conseguiram assimilar, de que o direito de um termina onde começa o do outro. Quer dizer, não precisa pensar mais do que isso, o meu direito termina onde começa o seu e o seu termina onde começa o meu e essa consciência a gente percebe que as pessoas não têm ainda, né? O convívio fica atritado porque as pessoas não têm esse tipo de conduta.

 

P/1 – Vocês frequentavam Associações ou grupos da colônia italiana?

 

R – Meu pai... Eu guardo até hoje, ele era sócio do Palmeiras, ele não frequentava o Palmeiras, mas ele fazia questão de ser sócio, adivinha? Pra contribuir, é muito bonito isso, eu me lembro do cobrador que ia, quer dizer era a idéia de cooperar, a idéia de origem, de respeito à origem e a coletividade, fazia isso assim, tanto é que eu... Até hoje não falei isso lá no Palmeiras, mas eu tenho a carteirinha dele ainda com o PI o Palestra Itália, naquela época.

 

P/1 – E vocês frequentavam alguma Associação de italianos? Da região da Calábria?

 

R – Aí não, realmente o Circo Italiano, eu já fui convidado pra tocar lá, toquei, fiz apresentações e coisa e tal, mas ter participação direta não, a não ser o Dante. O Dante foi até hoje, como ex-aluno eu tenho presença lá até hoje.

 

P/1 – Então vamos falar um pouco sobre esse período no Dante, o senhor entrou lá... Quantos anos o senhor tinha?

 

R – Eu tinha... Foi no quarto ano, então dez anos e fiquei até o científico são 17 pra 18 anos.

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente sobre esse período do Dante? Algum professor que tenha marcado? Colegas? Como que eram as brincadeiras?

 

R – Tem coisas muito gozadas, tem coisas interessantíssimas, é lógico que tem professores que marcaram, por exemplo, o meu professor de Geografia era o Jânio Quadros e ele nos pegou justamente eu saindo do primário e indo para o ginásio, eu tinha 11 anos e de repente... A Gazeta Esportiva era o jornal de veiculação entre a juventude que falava sobre futebol, sobre esportes, né? Todo mundo tinha e tinha o Del Nero, ele estava lendo a Gazeta Esportiva na classe, entra um professor com umas pastas, o cabelo desalinhado, a gravata toda assim, sabe? Com resquícios de barba assim, uma figura curiosa, era o Jânio. Ele deu um tapa na Gazeta Esportiva e pegou o menino, foi até a porta e o despachou “O primeiro que falar alguma coisa...” Bom, enfim, aí foi ditando as regras com aquele jeito dele de falar. Dizendo que quem abrisse a boca seria posto para fora e que não sei o quê. Ninguém piou dali pra frente. O nosso relacionamento com o professor, no caso, Jânio Quadros, foi muito boa, porque a autoridade que ele implantou foi uma autoridade sadia, sabe? Porque ele no fundo era uma pessoa que queria ser respeitada, mas ele respeitava também, ele não se negava a dar nota pra quem merecia. E tinha um aluno, ele imitava o Jânio, então o Jânio falava e ele... Era bem ao lado da minha carteira, ele imitava e eu não conseguia me segurar, porque era uma perfeição. Aí uma hora o Jânio falou assim: “Oi senhor, do que está rindo”? Eu muito cara de pau, porque era eu que estava rindo, olho pra trás como quem diz, não sou eu, ele sai de lá desembestado e me pega aqui e fala: “Eu estou falando com você, do que o senhor está rindo”? Certamente eu não teria dito nada, ele me expulsou, eu saí da sala e me deu zero, mas eu era bom aluno, conclusão, eu recuperei naquele mesmo mês e ele tirou o zero. Enfim pra mostrar também um lado dele muito bonito, o sujeito não guardou rancor e eu também não, obviamente. Ele nos acompanhou o ginásio todo e na formatura do ginásio, se é que a gente pode dizer que tenha sido formatura, ele foi nosso paraninfo e nós o elegemos vereador, eu não abro mão disso, fomos nós que o elegemos vereador, a molecada toda ficou apaixonada por ele, sabe? E daí surgiu até chegar a Presidência da República, agora vou ter que... Certa vez eu estava em Lisboa e ele tinha sido... Em 1961, ele tinha sido eleito Presidente da República, então a embaixada do... Era o Negrão de Lima o embaixador brasileiro, ele convidou os brasileiros que estavam em Lisboa para comparecer, para recepcionar o Presidente. E eu fui, fui convidado e fui, ah foi muito engraçado, porque quando chegou na hora, ele perfilado e todo mundo... Eu não o chamei pelo nome, eu falei: “Professor, o senhor se lembra de mim”? Ele olhou pra mim e falou: “Mário Albanese” e aí perdeu o protocolo, perdeu tudo, ele lembrou e foi muito gostoso. Em um instante eu falei um montão de coisa com ele. Enfim, esse foi um fato muito significativo, porque bem ou mal ele era o Presidente da República, aí eu falei... Já naquela época eu discutia a questão do problema... A problemática do direito autoral, o pagamento de direito autoral aos músicos, aos compositores e ele falou... Isso depois, nós combinamos de tomar uma atitude e ele respaldaria a atitude e realmente acabei fazendo a subchefia da Casa Civil da Presidência da República, aqui em São Paulo, tendo entendimento com a Casa Civil para criar um movimento no sentido de sanear a questão de pagamento dos direitos autorais. Mas voltando ao Dante que era a pergunta que você fez, não é? Esse fato foi um fato interessante, outro professor marcante foi Orlando Porreta, ele era... Pra mim também era incrível, ele se vestia muito bem, por exemplo, se o terno era azul era... É como eu estou aí sapato azul, meia azul, o terno voltado pro azul, gravata azul, a camisa acho que é também azul, né? Quer dizer é ton sur ton [tom sobre tom em francês], ele usava um lenço muito elegante, falava muito bem, era professor de História e teatralizava as coisas, as aulas dele eram fascinantes, porque era História, coisas acontecidas, verídicas, mas num tom de “estória” também, né? Quer dizer, preservando a veracidade dos fatos, mas contadas de uma forma muito agradável, as aulas eram muito gostosas. E outro professor que marcou muito foi o professor Francisco Sodero, porque ele volta e meia desaparecia, ele estava preso, era revolucionário e o Sodero foi o professor de Português que ele dizia... Ele me deu um livro Os Lusíadas de Camões, eu tenho até hoje. Ele falava coisas incríveis, ele dizia: “Mário, em Português tudo é discutível” Você pode ver o Pasquale Cipro Neto fala que tudo se discute, não tem nada que se diga: “É só assim, é assim e acabou” não, você tem sempre uma variante pra cá e pra lá. E ele foi uma pessoa que marcou muito, porque influenciou, hoje se eu escrevo, eu devo muito a ele, eu sempre o tenho em mente e volta e meia eu trabalho com três ou quatro dicionários. Então eu me lembro dele toda hora. Outro professor marcante foi o Lacase, é Francisco Lacase era professor de Matemática e Matemática era um inferno, eu gosto de Matemática na música, você sabe que você como músico faz uma Matemática inconsciente, entendeu? Você não percebe, mas está fazendo as mais intrincadas divisões, mas em sons, tanto é que Lagones dizia que música é matemática inconsciente. Ninguém faz música no sentido métrico só, olhando por esse lado, faz muito mais pelo aspecto emotivo. Mas voltando ao Lacase, ele conseguia fazer da Matemática, uma coisa extraordinariamente fácil, eu que não gostava, acabei gostando por mérito dele, a capacidade que ele tinha de se fazer entender, uma beleza. Em compensação quando terminou o ginásio nós fomos para o científico, os meus amigos, que eram: o Fiorito, o Lourenço e o Nardini, todos iam para o científico, eu queria ir pro clássico, porque eu queria... Eu falo, gesticulo, enfim o meu negócio era outro, eu queria ser advogado, porque a minha mãe não admitia que eu fosse apenas músico. Eu me formei no Conservatório Dramático Musical de São Paulo com 17 anos, 17 pra 18 anos e aí entrei na faculdade, né? Porque ela dizia: “Não, você não vai ser músico, você tem que ter outra profissão.” Foi uma sábia decisão e fui pra faculdade, mas eu estava falando de Dante Alighieri e aí quando entrei... Por causa deles pra não desmanchar o nosso time, né? Eu fui pro científico e no científico, eu não gostava de Física, eu não gostava de Química, o Faiguenboim, professor de Química, era gozador foi ele que criou o cursinho Anglo-Latino. Eu sei que um dia por uma razão qualquer, eu fiquei... Eu me senti diminuído e não fui mais, aí o Ítalo Lourenço foi me procurar em casa e falou: “Escuta, o que houve que você...” “Ah não, não gosto de Física e não sei o que lá” olha o que esse rapaz fez comigo, o meu amigo, ele morreu o ano passado, lamentável. Compramos uma lousa, ele passou todo o curso de Química e de Física e eu entendi tudo perfeitamente, passei e consegui. E aí procurei o diretor e falei: “Eu estou no lugar errado, não é essa a minha vocação, eu queria fazer...” aí eu terminei o resto do segundo ciclo que era ou científico ou clássico e terminei no clássico. Então foi isso que aconteceu. Fica aí a minha gratidão ao Ítalo, um grande amigo, amigo até o último momento da vida dele e ele fez isso, ficou 15 dias praticamente morando em casa passando tudo, pra você ver como são as coisas. Às vezes um deslize desse tipo muda a vida de uma pessoa. Eu já estava bem na música, todo mundo me paparicando pra cá e pra lá e aí eu lá com o Faiguenboim, com o outro lá que foi professor do... O maior físico que o Brasil teve, como era o nome dele? O Borello, ele era baixinho, tinha uma vareta assim, ele batia e falava tudo meio italiano e aquilo tudo era ruim pra mim, sabe? Coitado ele não tem culpa talvez a culpa fosse minha. O fato é que esses foram os aspectos negativos, se é que isso pode se chamar de negativo, tem muito mais de positivo, o positivo foi a definição de amigo, porque pode ter amigo melhor, mas não igual a esse. Esse foi mais do que amigo, foi uma pessoa que realmente se doou. “Por que você vai parar? Não, você vai continuar” ele foi lá e eu continuei. Estudamos juntos, ele foi pra Medicina e eu fui pra Direito, estudávamos juntos de tão amigos que a gente era, é uma beleza isso, eu acho que é uma coisa bacana.

 

P/1 – E já era escola mista?

 

R – Era escola mista e tinham as paixões, né? Esquece isso.

 

P/1 – E no Dante o senhor participava de alguma atividade além da sala de aula? Grêmio e essas coisas todas?

 

R – Ah tínhamos, nós fazíamos... Eu toquei no Dante numa dessas... Eu me esqueci de falar no Salvatore Kalignar professor, era muito gozado, nas aulas de música, a gente tinha que cantar todos os hinos. Ninguém cantava o hino na versão original, tinha sempre uma paródia, por exemplo, “japonês tem quatro filhos...” e outras. Que eu não vou poder falar e tinha também o hino que ele tinha composto pro Dante, ah menina, eu não vou poder falar, mas é muito gozado, a gente cantava fazendo cacófatos, sabe? Aquilo acabava dando uma palavra inconveniente, aí ele parava coitado. Um dia, ele chegou pra mim e disse assim: “Albanese, esse tung tung é robadaneri” quer dizer esse tung tung é música africana, vamos dizer assim. Querendo dizer que... Eu não sei o que ele queria dizer com tung tung, ele falava isso pra mim e eu ouvi, eu ia dizer o quê? Não falava nada, mas também foi uma figura marcante, porque as aulas de música eram muito gostosas quando eram realmente práticas. Porque de resto a parte teórica também foi boa, mas a parte prática que era gostosa, ele tocando, a gente cantando os hinos e marchando.

 

P/1 – E o senhor estava falando, saindo um pouco do Dante, que o senhor estudou no Conservatório, né? Como foi esse início de estudos na música?

 

R – A música como eu já disse, tem aspectos hereditários. A gente já nasce com uma predisposição, que eu acredito tenha sido o meu caso, tanto a minha mãe, eu falei que meu pai tinha ouvido absoluto e tinha e a minha mãe também, eu não tenho, mas eles tinham. A gente chama dentro da relatividade das coisas de ouvido absoluto a pessoa que ouve tudo e uma batida tem reflexo sonoro definido pra ele. É ruim, porque o sujeito com ouvido absoluto, todas as cromas, todos os semitons, semitom dá... Você que toca violino, você sabe que se você não pegar no lugar certinho, não tem traste, não tem nada no violino fica aquele negócio “uom, uom” isso é croma, né? Então isso deve ser uma angústia, a minha mãe, a gente estudando ali, ela solfejava todas as notas, era muito gozado. Tem alguns músicos que tem ouvido absoluto. E é fantástico pra eles e fantástico ainda foi, por exemplo, na casa do Paulinho Giovanni que morava em frente na Rua Tupinambás, uma menininha que devia ter uns três ou quatro anos, eu tocava qualquer nota e ela falava... É engraçado, porque você vai dizer: “Se ela fala é porque alguém ensinou” ou de onde ela aprendeu, como? De que jeito? Como explicar Mozart com cinco anos escrever música. Quer dizer ou você acredita na reencarnação ou eventualmente você terá que imaginar que ele tinha visão fotográfica, porque ele era filho de professor de música, então ele tinha... As coisas que o rodeavam certamente tinha músicas. Sinalização com toda a característica da escrita musical e o sujeito que tem visão fotográfica, ele tem ouvido absoluto pra poder registrar. Então eu penso que só pode ser isso, quando é gênio, é um cara que tem vários aspectos dos sentidos aguçados, né? Você deve ter assistido Perfume que o sujeito fazia tudo em função do olfato, né? E na música você faz em função do tato, no caso do piano você tem o tato e no caso dele também o violino, em função do ouvido e em função da visão, porque você olha a música, decodifica o que está escrito e toca. Se você tiver que fazer isso o tempo todo, então você tem o ouvido pra aferir pra ver se o que você está tocando é o certo, mas por que eu estou falando tudo isso?

P/1 – Porque eu tinha perguntado como começaram esses estudos... (pausa troca de fita).

 

P/2 – Uma dúvida assim quanto à escolha do piano porque o senhor disse que é uma coisa hereditária, né? A música na família, mas o que o levou a escolher o piano?

 

R – Primeiro porque o piano era o instrumento que a gente tinha lá, tinha violino, tinha bandolim também, a minha mãe tocava violino, tocava bandolim, mas o piano... O piano é um instrumento extraordinário. Ele é completo, eu tenho verdadeira paixão pelo piano, engraçado que... Piano acústico. Eu era contra teclado e essas coisas, eu dizia assim: “Quero ver você tocar no dia que faltar luz e tal”, mas não é que eu conheci uma clave nova, eu até vou contar porque a história é muito interessante, o meu genro, ele começou a criar cavalos árabes tem um haras de cavalos árabes, são lindos, lindos mesmo. Um dia ele falou: “Vou apresentar meus cavalos na hípica e eu queria te pedir um favor, você toparia fazer música"? Eu intimamente pensei... Eu já tinha tido um momento muito lindo na música e estava agora numa outra vibração fazendo outras coisas e eu falei: “Que coisa, eu vou voltar pra música compondo pra cavalo” pensei comigo mesmo. Mas depois eu comecei a raciocinar, os animais são muito suscetíveis à música, eu sei por que tenho uma cachorrinha que se você quiser vê-la quietinha, é só eu tocar e ela fica o tempo todo do meu lado. Fora isso, o cavalo é realmente um animal muito ligado à música, ele marcha... Você já deve ter visto isso, né? Em circo mesmo... Devem ter visto. Resolvi fazer, quando fui lá ver, o picadeiro tem serragem, muito pó, não tem acústica suficiente, eu falei: “Não vai dar.”. Mas eu nunca desisto aí me lembrei de que eu sempre tive um relacionamento muito bom com a Yamaha, a Yamaha nos bons tempos, que eu estava bem na música e tal, ela me convidava pra presidir concursos, pra participar de júri e eu fazia isso e nunca cobrei absolutamente nada. Aí eu pensei: “Vou à Yamaha, vou voltar na Yamaha” só que passaram os anos e eu pensei “Eles nem vão se lembrar de mim, mas eu vou” e fui e encontro a Yamaha, primeiro foram os órgãos, agora eram teclados. Bom, aí eu vejo aquela parafernália toda e escolhi um, sentei, ele ligou e eu comecei a tocar, então comecei a me entusiasmar, ele foi mostrando “Aqui pode isso, aqui pode aquilo”, mas isso eu pensando na apresentação.  Eu disse: “Eu gostei disso aqui... Mas eu não sei mexer nisso, eu só vou saber ligar, se você ligar e puser timbre de piano está tudo bem pra mim" e isso dava certo, porque você tinha uma intensidade de som muito maior, todo mundo poderia ouvir, aí colocamos o aparelho lá, clave nova e quando chegou à noite, tinham tirado “Ah, Mário nós tiramos do lugar, porque fica melhor lá”, então o que eu tinha feito, olha eu sabia ligar, tinha outro lado que era demo e esse demo era com orquestra. Então eu escolhi um dos demos que são vários que tinha uma orquestra e falei: “Começa com essa orquestra pra chamar a atenção, está começando alguma coisa” depois eu coloco no registro de piano e está tudo bem. Mas, porém, quando chega na hora, tinha um flash de luz na minha cara, menina, eu só podia ligar e não via mais nada. Conclusão, eu tive que realmente fazer tudo no piano e foi ótimo, eu vi aqueles cavalos lindos todos passando por aqui e eu ia improvisando, tocando coisas que o pessoal da música clássica não faz, mas que aquele que toca música clássica, que tem habilidade no campo do Jaz e da música popular,  faz tranquilo e foi um sucesso muito grande. Foi uma coisa muito boa, não vou arrepender jamais de ter feito. Esse aparelho foi pra minha casa e eu não sabia que título estaria comigo o aparelho, eu pensei: “Eles vão pegar agora em casa e tal” eu sei que foi pra minha casa e aí eu comecei a tocar. Eu vou explicar pra vocês por que uma pessoa que tocava piano acústico, de repente ficou apaixonada por um instrumento eletrônico, porque o piano acústico por mais que você... O piano tem 88 notas, mas geralmente, essa parte central é a que você usa mais, isso é normal. Então pensei comigo, você vai desgastar essa parte, essa parte vai ficar muito utilizada em detrimento da extremidade para o grave e extremidade para os agudos, então não vai haver equalização de som, chega aqui ele vai ficar um som já muito utilizado, o filtro gasta e dá diferença por mais que você afine e no piano eletrônico a equalização é impressionante, a última nota lá é um grave redondo e o agudo é um cristal. Mas me apaixonei, eu falava: “Eles vão tirar isso daqui, eu vou comprar, o que eu faço” aí um dia eles tiraram e na hora puseram outro, aí disseram: “O senhor assina aqui” não é dizer que o Amauri da Yamaha ia lá explicar, ninguém explicou nada, quando mandaram e falaram: “o senhor assina aqui” eu fui ler o que eu estava assinando, era um endórcima, endórcia é um empréstimo a que título? A título disso e disso, eu sei lá, mas com tanto que o instrumento ficasse comigo, estava tudo bem e ficou até hoje. É uma coisa fantástica, a minha vida mudou a partir daí. Eu comecei a compor de tudo quanto foi jeito, porque ele estimula, você pega um timbre, esse timbre é insinuante, ele desperta, ele te provoca, sabe? É uma coisa incrível. Eu agradeço ao Paulo por ter me convidado, o meu genro e agradeço a Yamaha porque realmente capitalizou tanta coisa e capitaliza ainda, porque sempre cada timbre dá uma referência, dá uma maneira de reagir, de conduzir musicalmente. Eu tenho feito muita coisa, pronto pergunte porque se não eu vôo aqui, né?

 

P/1 – Eu só queria retomar, porque o senhor começou a estudar no conservatório e já começou direto com o piano?

 

R – É... A pergunta foi por causa do piano, o piano era o instrumento que eu tinha, não era o único, eu falei que tinha violino, tinha bandolim, tinha outros instrumentos, mas o piano foi um no qual eu me afeiçoei. Ainda pequenos a gente já começou a mexer e a minha mãe me acompanhava, eu tocava, a minha tia também, todos tocavam em casa, todos. A minha tia Elisa tocava, a minha mãe como eu já disse era maestrina, professora, o tio Paulo tocava violino e piano. Então o ambiente era muito favorável pra música. E no Conservatório a idéia da minha mãe era que eu me formasse, que eu tivesse um diploma para que eu pudesse exercer eventualmente uma profissão, que eu tivesse aquilo que talvez ela não teve. Ela teve uma formação musical extra-escola e entrei no Conservatório e no Conservatório foi muito bom...

 

P/1 – Só te interromper um pouco, o senhor entrou com quantos anos?

 

R – Eu entrei com 17 anos, não espera um pouquinho, eu sou ruim nessas coisas, mas acho que foi de 16 pra 17 anos e terminei o curso, porque a gente não entrava no primeiro ano, eu já entrei no oitavo ano, quer dizer, eu fiquei o oitavo e o nono ano e fechei o curso, entendeu? O Conservatório era predominantemente frequentado por meninas. Então ai vem aquela coisa, você com todas as brincadeiras e minha mãe me obrigava a estudar e os caras... Eu tinha a bola, então eles ficavam lá, jogavam a bola pela janela e eles ficavam jogando e eu me matando pra fazer a hora que ela queria que eu estudasse, mas era muito, aparentemente, sacrificado, mas foi muito bom e os meus amigos também nunca tiveram a conotação, sabe? Muita gente deixou de estudar música porque achava que era coisa de mulher ou coisa parecida e naquela época toda menina prendada era iniciada em música, principalmente no piano, as famílias compravam... Ter um piano era de bom tom, era chique, tanto é que muitos pianos de caldas que têm no interior até hoje, são resultados dessa maneira de entender a coisa. No conservatório fui muito feliz, fui aluno do Rossini Tavares de Lima, eu cheguei a pegar o finalzinho de Mário de Andrade, Samuel Arcanjo, Alonso Aníbal da Fonseca, que foi meu professor de piano no Conservatório. Mas eu tinha uma professora extraordinária que era minha mãe inicialmente e depois a Dona Adelina Guimarães, ela era exatamente uma... Da classe do Lúdico Farelli, era da classe dele, ela era uma das assistentes dele, uma excelente professora. A formação que eu tive com ela foi extraordinária e depois no conservatório tinha um professor lá, que era o Alonso Aníbal da Fonseca, que eu me lembro todo dia, porque quando me dá a louca, eu vou atender o telefone e falo: “Alonso Aníbal da Fonseca”. Eu faço isso e de certa forma eu presto uma homenagem a ele, porque eu lembro dele a toda hora. Foi também um belíssimo professor, um pianista brilhante e a minha passagem pelo Conservatório foi excelente.

 

P/1 – E no conservatório o senhor aprendeu só o piano ou outros instrumentos?

 

R – Não, você aprende todos os complementos. Por exemplo, o Rossini Tavares de Lima e Mário de Andrade era folclore, Ciências Musicais e Acústicas hoje, né? Entre outras coisas, mas a sonoplastia, tudo isso você aprendia como Ciência da Música, era o Caldeira Filho. E depois tinha a história da música, tinha folclore, eu já falei, tinha harmonia que era o João Sep, um grande professor e eu fiquei... Tem um fato muito gozado só tinha menina, eu aparentemente, pelo que vocês estão observando, sou uma pessoa extrovertida, mas eu não sou assim não. Eu sou acanhado e eu ainda fico vermelho, eu mudo de cor, é gozado isso. Então pra vencer essa timidez... Quando fui pro Conservatório que vi que só tinha mulher, eu não sabia o que fazer e eu não ia, eu faltei por volta de uns seis meses. Depois de seis meses sem ir ao conservatório, avisaram na minha casa “Olha, o fulano não está aparecendo” aí a minha mãe mandou a minha irmã. Então minha irmã foi lá conversar, eu me lembro como se fosse hoje e me levou na aula do Sep, que era aula de Harmonia, ele tinha um rosto alongado e ele falava: “O seu irmão é acanhado, mas eu acho que ele é mesmo assanhado” porque aí eu me enturmei com as meninas, eu não fumava e levava cigarro. Imagina! E a minha mãe falava: “você está fumando”? “Mãe eu não estou fumando nada” elas pediam cigarro e eu levava, eu dava aquela de “Ah, ta bom”, mas eu mesmo não fumava nada e foi muito gozado porque ainda há pouco eu comentei com o Augusto que música popular só melhora, não piora, só melhora as condições de entendimento de qualquer músico e a gente... Eu tocava popular, o Sílvio Tancrete e o Rafael, nós somos três amigos até hoje e um tocava e os outros dançavam com as meninas. Na sala da diretoria, são situações do conservatório que foram excelentes pra mim, porque ali eu conheci muita gente boa, namorei muitas colegas, né? E foi tudo ótimo, maravilhoso.

 

P/1 – E quando você dá entrada na faculdade?

 

R – Então nem mal termina o conservatório, eu entro pra faculdade de Direito no Largo São Francisco e foi muito bacana isso, a gente... Pra entrar você tinha que fazer um exame de admissão e a seleção pra... É como é hoje, hoje eu acho que é melhor, porque têm muitas escolas e tal, você tem várias opções e tal. Naquela época, a faculdade tinha que ser ali, assim muitos candidatos pra poucas vagas e o meu ingresso felizmente foi na primeira vez, foi ótimo, eu me lembro que caía... Tinha o exame de Latim e o professor Alexandre Correia tinha uma fama de reprovar todo mundo e dito e feito quando chega no exame de Latim, eu vou fazer exame com o Alexandre Correia estava ele, tinha o Buzaide e tinha outro professor que eu sempre esqueço o nome, eram três professores. Então ia um aluno pra cá, outro pra lá e outro pra cá, então iam de três em três, a Maria que estava na frente do Mário, que sou eu, quando ela viu que ela ia cair com o Alexandre Correia pai, né? Porque tem o filho também, ela simplesmente saiu da sala e sobrou pra mim e eu fui com o Alexandre Correia, mas eu já tinha analisado a maneira dele se comportar, né? Então, por exemplo, ele dava um texto, abria um livro e você tinha que ler em Latim e se o sujeito começasse a gaguejar já reprovava de cara. Aí depois ele dizia: “Traduza” se você começasse gaguejando, pronto já ia para o vinagre. Eu li muito bem, ele falou: “Traduza” eu falei: “Não sei” assim seco, ele deve ter ficado... Penso eu, né? Isso são deduções... Ele deve ter pensado “Como é que o cara não cometeu nenhuma silabada, não cometeu nenhuma silabada, não cometeu nenhum erro lendo, não consegue traduzir?”. E eu fui muito seco “Não sei" aí ele começou a fazer perguntas, eu tirei de letra. Tudo que ele perguntava eu sabia, eu tinha estudado Latim com o professor Ronconi no Dante Alighieri e era bom aluno. Conclusão, no fim, eu entrei tranqüilo e aí também vai um mérito também para o professor. Quer dizer, essas deduções a que eu fiz referência agora a pouco, elas são lógicas, mas ele deve ter pensado: “Como é que um cara que não comete nenhum erro lendo, não saberia traduzir", é ridículo, né? Mas eu percebendo como ele se conduzia, eu falei: “Não, então eu prefiro ser reprovado sem entrar no OH, Oh, oh.” E no fim entrei legal, o curso foi... Aí eu criei o Show Arcadas, música, sempre a música na vida da gente, Show Arcadas e naquela época a palavra show era uma coisa muito linda “eu vou fazer um show.”. Show Arcadas, arcadas porque você sabe que a faculdade do Largo São Francisco tem as tradicionais Arcadas. Durante os anos todos, eu fui diretor do Show Arcadas e da Caravana Artística, havia uma caravana e a gente fazia shows de benemerência pra Hospital do Câncer, enfim, pra várias entidades, sempre com esse espírito. E com isso eu fui... Aí entra também a parte esportiva, eu sempre adorei esporte é uma loucura, um cara que é pianista, jogar futebol no gol e ainda futebol de salão, a minha mãe ficava apavorada, ela foi assistir aos jogos “Mas você... Meu filho e as suas mãos”? Eu falei: “Mãe eu ponho esparadrapo, eu faço isso, eu faço aquilo.” Olha, eu tive tanta sorte, eu joguei 20 anos e nunca fraturei nada, acho que é de tanto que ela rezava, viu? O que a minha mãe rezava pra gente, eu acho que foi por isso, porque eu não fraturei nada... Os jogadores... Os que jogavam no gol naquela época, tinham quatro ou cinco, teve um, como era nome dele? O goleiro do Palmeiras tinha nove fraturas, fraturar o dedo era coisa mais fácil do mundo. E o mais interessante é que o futebol de salão não era isso que vocês estão vendo agora, não tinha nem federação, a gente jogava no cimento. Então quer dizer pra você se expor a uma fratura jogando no gol, virando pra lá e pra cá era uma grandeza, né? Mas fui melhor atleta universitário, fui bicampeão paulista pela faculdade, tem algumas coisas dentro da atividade esportiva... Eu fui, imagina vice-campeão de remo, só competiram duas faculdades, a nossa pegou segundo lugar, eu falo que fui vice-campeão. Olha, tem passagens na Caravana Artística simplesmente deliciosas, a caravana viajava, né? Uma vez, nós fomos pra São José do Rio Preto e no trem sempre tem aqueles que aprontam, tinha cara que quando viam o cara dormindo, eles colocavam o jornal em baixo da poltrona e tocavam fogo, olha, estudantes de Direito não mediam as consequências. Bom, aí o trem parava na outra cidade, ameaçaram de deixar todo mundo em qualquer lugar, aí vinha o delegado da cidade. Aí a gente começava... A gente não, esses que aprontavam “Ah, o delegado....” o delegado também teve a mesma origem, né? Fez faculdade de Direito e assim nós conseguimos chegar a São José do Rio Preto. Em São José do Rio Preto uma turma... Eu só sei o que aconteceu, porque eu tocava piano, o Roberto Vinhas tocava violão e nós dois escapamos da expulsão da cidade, porque eles foram ao Automóvel Clube, pegaram bebida lá e distribuíram a bebida, devem ter distribuído, não vou usar a palavra furtado, pode ser, não sei. Eu só sei que eles conseguiram a bebida, todo mundo encheu a cara e no fim estava uma bagunça completa e total. No jornal do dia seguinte dizendo que nós tínhamos sido expulsos, com exceção feita do rapaz do piano, que sou eu e o Roberto Vinhas de boa memória, que tocava violão comigo. Mas nessa estada em São José do Rio Preto, eu me lembro muito bem que o Pixoxó, eu não vou contar as coisas que eles faziam, porque tem muita sacanagem na história, mas não vou contar, porque não dá pra contar, eu só vou contar que ele não tinha roupa, a roupa dele... Tinham jogado o Pixoxó inteirinho na água e a roupa dele molhou, ele só podia usar o smoking, ele estava lá de smoking, andava o dia todo com aquele smoking pra cima e pra baixo, foi muito divertido. Olha, o que a gente aprontou, a gente não, eles aprontaram porque eu estava tocando, né? Mas enfim...

 

P/1 – O que era essa Caravana Artística?

 

R – O que era? Foi fundado por um professor da faculdade e ela se propunha a propagar as tradições acadêmicas, entendeu? Tudo que dizia respeito ao estudante de direito e no meu caso, com o Show Arcadas, que era um apêndice da caravana artística, o Show Arcadas foi um nome que a gente deu, nós fazíamos o mesmo. Eu pegava alguns alunos que tinham alguma tendência artística, né? Um cantava... O Arnaldo, por exemplo, tocava gaita muito bem, o Arnaldo Cardoso França, o José Paulo cantava e a gente acompanhava no estilo Sílvio Caldas, aí eu já dizia que ele era o Sílvio Caldas das Arcadas, o Brenam tocava muito bem violão, o Roberto Vinhas era um excelente violonista e compositor também, eu também tocava, tinha outro que tocava e o nome está me escapando, ele tocava acordeom. Aí fazíamos esquetes, ou seja, você sabe o que é esquete, né? Aí fazíamos esquete, tudo muito divertido... Como eu era do Tênis Clube e era diretor do clube, eu levava o Show Arcadas pro Tênis Clube. E convidava sempre figuras emergentes da vida artística, eu já estava insinuado na vida artística, eu levei Cauby, eu levei Agostinho dos Santos, Sidney Moraes, a Leni Everson, eu levei o Sílvio Caldas, mas o Sílvio Caldas foi numa outra proposição, mas foi, o Patuque que tocava serrote, ele era cielista da orquestra na Rádio Nacional, mas tocava serrote. Você já viu tocar serrote? É serrote mesmo só que com um arco de violino e sai um som extraordinário parece um tereninho é lindo. Fizemos muita coisa, a tal ponto que hoje, se você for às associações dos antigos alunos da faculdade do Largo São Francisco você vai ver como membro honorário lá uma placa e tudo dedicada ao Mario Albanese 2006, em 2006 eu recebi uma placa, bacana. E a faculdade também me prestou... Não somente a mim, mas a outras pessoas também, eu recebi uma homenagem lá da faculdade, mas sempre vinculado à música, né? 

 

P/1 – E o pindura?

 

R – O pindura é sensacional, fazíamos pendura [tradição de estudantes de direito comemorar comendo por conta da casa] de tudo enquanto era jeito, nós fomos fazer uma vez um pindura e a gente pagava, sempre tinha alguém... Ninguém era... O meu grupo escolhia os lugares mais granfinos possíveis, você sabe o que é granfino, né? Os locais mais sofisticados e tal. Uma vez nós fomos ao bambu dar um pindura e o negócio pegou feio ali e estava o... Dos Diários Associados que foi deputado, me ajuda, eu ainda vou falar o nome dele. Ele estava lá e no fim, ele acabou pagando a conta pra gente, porque se não nós íamos acabar na cadeia naquele dia, a gente fazia o possível pra que a pessoa entendesse que aquilo era uma manifestação estudantil e que era um negócio tradicional do dia 11 de agosto, o dia da pindura, mas aquele dia ninguém queria entender nada e eu estava vendo que a coisa ia ficar realmente muito feia, o Edmundo Monteiro que pagou a nossa conta e nos livramos de qualquer outra coisa. Você pode fazer um intervalo, porque eu preciso consultar o horóscopo? (pausa)

 

P/2 – Eu queria saber durante a vida universitária, né? Como é que o senhor conseguia conciliar, porque o senhor falou de duas atividades, que eu imagino que tomavam bastante tempo que é o estudo de piano e o curso de Direito, né? E ainda jogava futebol de salão, tem alguma lembrança disso, era difícil?

 

R – Não, é bem dividido, né? Uma coisa acaba inserindo na outra, não tem jeito de você fazer uma demarcação. Eu entrei pra faculdade e comecei a associar a faculdade com música, foi a melhor coisa que eu fiz e realmente vocês perceberam que foi isso mesmo, foi muito bom. E quanto a minha vida artística, ela foi toda sendo incrementada dentro da faculdade. Eu me lembro, por exemplo, na faculdade eu conheci o Alfredo Borba que já era um nome conhecido, trabalhava na Rádio Record, o Blota Júnior, o Orlando Ribeiro, que era cantor e por sinal não se misturava no Show Arcadas, a gente não conseguia tê-lo junto. Quer ver quem também fazia parte? Agora eu esqueci o nome, mas tem muita gente famosa hoje, que fazia parte dessa minha passagem pela faculdade. Mas eu focava toda a minha ação em cima de jovens valores mesmo, né? E aí eu ia, como eu disse, com artistas que estavam despontando, então você imagina o Cauby no começo da carreira, o Agostinho dos Santos, o Sidney Morais, o Carlinhos Mafasolli, ah, eu vou esquecer gente, mas tinha muita gente. Então, esse pessoal participava das nossas apresentações e eram interessantíssimas, porque eu tinha pretensões de aparecer como compositor e eu preciso dizer que eu era, aliás, sempre fui uma pessoa um pouco à frente, sabe? Eu não fazia o usual, o trivial, o que estava no cardápio, eu sempre tinha que fazer alguma coisa que fosse diferente já por temperamento, né? Isso é o que a gente chamaria de precursor, quer dizer, uma pessoa que está antes do caminho, né? O caminho não está feito, mas você já está trilhando ali alguma coisa e na faculdade não fugiu a esse espírito também, tem muita gente que começou comigo, depois despontou em outras situações.  Cauby hoje é um nome conhecido, o Sidney Morais também, o Santo Morales, ele começou cantando boleros, mas ficou... Está vivo, é conhecidíssimo, Elza Laranjeira participou, aí inventava coisas, por exemplo, pra levar a Elza Laranjeira na faculdade, não tinha dinheiro, então a rainha das Arcadas, a gente usava desses expedientes, entendeu? Botava uma placa, alguma coisa, enfim isso não tem desonestidade alguma se você não tem meios, você cria situações, cria circunstâncias que possam viabilizar o teu objetivo. Então a passagem pela faculdade foi simplesmente excelente, porque a caravana marcou, o Show Arcadas marcou mais ainda porque no caso foi uma criação minha, marcou mais ainda, né? Porque a gente fez muita coisa, muita coisa assim de benemerência.

 

P/1 – E o curso? A parte de Direito?

 

R - O curso de Direito foi... Olha, que eu me lembre dos comentários da época é que tinha uma turma que falava: “Eu sou da turma Arca de Noé entra e deixa andar”. Por quê? Alguns professores, eu não digo todos, mas alguns professores, eles entendiam que se o aluno... Deixavam a critério do aluno, se o aluno não quiser estudar, não quiser prestar atenção, não quiser apreender é problema dele e a vida vai se encarregar de castigá-lo futuramente. O professor simplesmente fecha os olhos quer colar, cola, quer fazer, faz, alguns eram assim, então esse pessoal que pegava professores com esse entendimento, que entendiam a coisa dessa forma, que entendiam o curso dessa forma, iam passando sem maiores problemas. Eu peguei uma turma da pesada e hoje eu dou graças a Deus por ter realmente topado com professores extraordinários, são todos nomes de rua, praças, Basileu Garcia, Goffredo da Silva Teles, Lino Leme, Ataliba Nogueira, professor Gama e Silva, Miguel Reali que perdemos há pouco tempo, era um extraordinário professor, o Siqueira Ferreira. E são professores que não brincavam em serviço, quer dizer puxavam mesmo, né? E com eles eu acabei encontrando meios de vencer a dificuldade e alguns eu deixava... No meu caso alguns eu deixava de matéria dependência, você podia ter até duas dependências, quer dizer você passava de ano, mas carregava aquela matéria do ano anterior, até duas. Mas chegou uma hora que tinha que enfrentar o professor mais hora menos hora você vai ter que enfrentar. E na hora de enfrentar graças a Deus eu sempre me saí muito bem, isso despertou em mim muito interesse em analisar... Eu não sei se vocês prestaram atenção, mas quando eu falei do Alexandre Correia, o Alexandre Correia também foi meu professor de Direito Romano um excelente professor por sinal e o Goffredo da Silva Teles, as aulas terminavam e todo em pé aplaudindo... Ele está vivo, graças a Deus que Deus o preserve, uma coisa fantástica, sabe? Todo mundo com muito respeito, não é igual hoje que as pessoas ficam assim todas desconjuntadas olhando, professor era professor, o professor entrava você levantava, todo mundo engravatado bonitinho. O curso foi extraordinário e de alguns deles eu acabei até amigo. Foi o caso do... Eu acabei de falar, eu convivi com ele certo tempo, uma maravilha de pessoa, eu já vou dizer o nome. A faculdade me deu um relacionamento extraordinário primeiro por causa da música e agora por causa do espírito acadêmico, né? O espírito do que estudou na faculdade de Direito no Largo São Francisco me desculpem as outras, mas é diferente, é muito diferente. A gente cultua até hoje a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito, você tem que ver que coisa bonita, lá você vai encontrar desembargadores, juízes, promotores, delegados, advogados. E todo mundo, cada um no seu estágio profissional, vamos chamar dessa forma, mas absolutamente despido de qualquer... Sabe? Arrogância ou coisa parecida, pelo menos eu tenho sentido isso. No dia que visitei a Associação e encontrei alguns nessas circunstancias que acabei de dizer, mas todos eles muito despojados, conscientes do cargo que têm da postura que têm, do significado que o cargo lhes empresta e projeta, mas o fato é que o curso foi extraordinariamente benéfico pra mim. Eu me considero realizado, porque já tenho 50 anos de formado. Eu exerci a profissão, tenho uma ação muito destacada no campo do Direito do Consumidor, particularmente na questão do tabagismo. Nós temos uma ação que é única no mundo, o Código de Defesa do Consumidor que é de 1990,  é extraordinariamente moderno,  é referência pra outros estudos em outros países e mudou a vida da gente. Se vocês que estão me vendo aí analisarem um pouco, o Código de Defesa do Consumidor mudou a vida da gente, mas a gente não tinha noção da responsabilidade que as pessoas têm ao oferecer um produto de consumo, né? Por vezes, nem imaginavam que serviço também é consumo e esse Código nos permitiu inverter a obrigação de provar e com isso a ação tornou-se uma ação única no mundo. E eu sou advogado, eu e o Luís Moura somos advogado dessa ação. Então é uma coisa muito bacana, uma coisa que destaca, uma coisa que nos dá prazer, porque a gente não objetiva lucro pessoal, você está trabalhando pela saúde pública. Pela saúde ocupacional, é muito gostoso fazer isso e eu aconselho as pessoas que façam mesmo, porque o mundo de hoje, ele está muito... Falta... Eu não vou dizer nem educação, mas falta ética. As pessoas não estão sabendo se conduzir há um desrespeito flagrante a Lei, eu acho um absurdo, mas se você imaginar que pra você Lei era um risco que a gente colocava no chão pra brincar de amarelinha, você lembra? Perdia o jogo quem não acompanhava os riscos feitos ali. Então, isso é norma, é regra, é Lei, então quer dizer, todo mundo tem consciência daquilo ali, você põe o risco pra ver quem pula “Oh, daqui você vai saltar... quanto você alcança” e o risco é a medida, é a regra, então tudo tem regra. Vivemos em um país sem Lei, desrespeitando as Leis num país que fala que tem Lei que pega e tem Lei que não pega, Lei não é catapora pra pegar ou não pegar, a Lei é pra que as pessoas cumpram. Eu acho que só tenho que agradecer a esses professores todos, aos colegas que eu tenho, a formação que tenho eu só tenho que agradecer.

P/1 – E senhor Mário, o senhor termina a faculdade, o senhor falou que se formou há 50 anos e como se dá a entrada no mercado de trabalho na área jurídica?

 

R – Normalmente as pessoas... No meu caso, eu estava sempre muito na corda bamba, né? Ou vai pra cá, vai pra lá, sou músico, não sou músico, a minha mãe insistindo pra que eu não me definisse pela música ou pelo menos que a tivesse como um plus ou um algo a mais na minha vida pra não sofrer, ela era muito inteligente, muito sensível, ela sabia que o músico vai de zero ao 100 numa fração de segundos, se você quiser magoar um músico “Não gostei do que você fez” nossa Senhora isso matou o cara, sabe? Não façam isso jamais, não gostou fala: “Puxa é uma maravilha” pelo menos naquele momento ele vai ficar feliz, mas o músico vai... Essa suscetibilidade, essa sensibilidade aguçada de músico que por vezes é premonição até, né? Ele vai do inferno ao céu num instantinho e a minha mãe percebia tudo isso, percebia em mim, né? Então ela dizia: “Você tem...” um dia ela falou assim pra mim: “Mário, você é advogado meu filho, você é jornalista, porque você insiste em fazer programa de rádio”? E eu falei: “Puxa vida, mas o que será que leva a minha mãe a falar isso” eu fiquei pensando. (pausa) Então a pergunta é?

P/1 – O senhor estava falando da importância da sua mãe em insistir para o senhor não trabalhar só com música, né?

 

R – Ah, você estava falando em mercado de trabalho, né? Então, eu logo aos 17 anos, comecei lecionando, eu tenho uma facilidade tremenda pra ensinar, eu me comunico, eu consigo decodificar música e fazê-la uma coisa gostosa, sabe? É muito curioso isso de dizer, mas eu falo isso com particular orgulho até, eu tenho facilidade. Então eu comecei a lecionar muito cedo, meu primeiro caminho foi a música também, eu lecionava, ia à casa dos alunos, muitos iam a minha casa também, com isso eu sobrevivia e fazia o que gostava. Entrei pra faculdade e teve o Show Arcadas, aquela coisa toda que eu contei e o mercado de trabalho se abriu de diversas formas. Eu comecei a fazer rádio que era uma coisa maravilhosa, nunca devia ter parado, mas num determinado momento eu parei. E o rádio te dá uma oportunidade incrível. Rádio e depois comecei escrevendo, depois aí apareceu a televisão, na televisão eu fazia... Eu comecei na Tupi, imagina vocês hão de entender que eu tenho 76 anos, então eu sou do tempo... Não tinha televisão “Agora vamos ter televisão e o que era televisão” a gente via aqueles filmes na televisão e não entendia bem o que era aquilo. Eu fazia parte da revista feminina da TV Tupi, aliás, eu acho gozado, eles nunca me chamaram pra fazer parte, eu acho que chamaram uma ocasião, eles têm os ex-atuantes da TV Tupi. Eu estava nessa leva aí, eu fazia um programa na revista feminina com a... E o programa foi em frente, a partir dali eu comecei a fazer televisão mesmo no duro, eu fiz televisão na Record, fiz televisão na Gazeta, fiz televisão na Cultura.

 

P/1 – Mas o senhor fazia o quê?

 

R – Eu fiz um programa com o meu nome Mário Albanese.

 

P/1 – Mas conta pra gente que tipo de programa era? Como é que era?

 

R – Era um programa e a idéia... Eu sempre tive desafios, né? O desafio era o seguinte: a emissora não tinha dinheiro, começou na Cultura, a Cultura hoje a TV Cultura eram do grupo das Emissoras Associadas, era na Rua 24 de Maio? Não, era na Rua Sete de Abril, onde era o prédio do Diário da Noite, Diário de São Paulo, enfim na época o Diário Associados e lá em cima tinha a TV Cultura. Eu comecei fazendo o programa lá Mário Albanese, eu tocava piano, falava, contava, contava isso: “Olha, essa música é assim” sempre dando um elo pra que as pessoas que me assistiam se comunicassem comigo, o elo era minha fala “Eu vou tocar o quê? Vou tocar isso de fulano, notem isso, observem aquilo.” E essa conversa sempre foi muito aproximativa e muito estimulante. E aí quando a TV Cultura saiu da Rua Sete de Abril e foi pra onde é hoje, tinham dois estúdios, nesses dois estúdios eu fiz um programa. Tem um fato muito interessante que eu já vou contar pra vocês. Eu tinha o programa Mário Albanese que era às dez horas da noite do domingo e o Ibope pra medir audiência e tudo isso, estava começando, a partir das dez horas não tinha Ibope, então ninguém se ocupava em fazer programas, geralmente era filme e eu entrava no ar na TV Cultura. Então as pessoas que iam zapiando ali nas poucas emissoras que tinham, porque não eram muitas, e viam o programa ao vivo certamente teriam se interessado mais do que ficar vendo um filme que já viu ou que não viu. Aí o programa pegou a tal ponto que na época, se não me engano, foi o Vicente, não o Wilson Simonal, fez no Canal Sete, que era o canal de maior audiência, um programa em cima do meu. Isso era prova inequívoca que o horário estava gerando interesse. Esse programa ficou no ar algum tempo e depois eu fiz o Vamos Aprender Violão Pela Televisão, porque eu descobri dois violonistas, um era o Sílvio Sant Estevam e o outro o Macumbinha e com eles eu fiz Vamos Aprender Violão Pela Televisão, com patrocínio do Di Giorgio que este ano está completando 100 anos de produção de violões no Brasil. E o Reinaldo Di Giorgio, que era um sujeito de espírito arejado, topou. Então eu tinha um programa, veja só, eu tinha um programa na Rádio Excelsior O Assunto é Violão, tinha o programa na Rádio Nacional que era em frente, tinha um programa na Rádio América, que era de outra organização, olha que loucura. Aqui era a Organização Vitor Costa, a Rádio Nacional, a Rádio Excelsior tinha vinculação... Era independente e a Rádio América era do Grupo Bandeirantes, grupos diferentes, eu fazia tudo isso aí. Conclusão, eu tinha uma atividade e uma vivencia dentro do meio artístico muito grande. Muito grande mesmo e isso despertou o meu interesse em continuar, fui fazendo televisão, eu já disse todas que fiz e aí na Rádio Excelsior voltando um pouco atrás com o di Giorgio eu lancei um programa... Um concurso pra violonistas amadores e foi sensacional. Diversas faixas etárias, porque a gente não podia competir, uma pessoa... Uma criança com um adulto, então foi por faixa etária e nesse concurso se destacou o Du Assad Simão que é o maior Duo de violão do mundo hoje, o Du Assad e muitos outros violonistas. Quer dizer, a gente conseguiu revelar pessoas e projetar essas pessoas pra vida artística. Eles Saíram do meu programa e do tirocínio, do vislumbre do Reinaldo Di Giorgio que apoiava tudo, fez tudo comigo, apoiou o programa de televisão, apoiou o programa da rádio. E depois eu saí da Excelsior e fui parar na Rádio Record com o Henrique Lobo, o Henrique Lobo me levou pra Rádio Record e lá também fiz rádio, na Rádio Record tinha um programa chamado Improviso e aí o Henrique era o diretor artístico das duas emissoras. Ele era diretor artístico da Rádio Record e da Rádio Panamericana, que era do mesmo grupo. E quando o Henrique saiu, eu me senti na obrigação de sair também, ele era muito meu amigo, por ele é que fui pra Record, eu acabei saindo e deixei de fazer rádio, não minto, depois voltei fazendo rádio na Rádio Anchieta de Itanhaém, a gente formou um grupo de pessoas pra apresentar futebol na Rádio Itanhaém de Itanhaém, a Rádio Anchieta de Itanhaém e era uma equipe de São Paulo, que só fazia os clássicos, os jogos mais importantes e eu era comentarista. Foi muito gostoso tudo isso, eu não me arrependo de ter feito, sou também cronista esportivo, pertenço a Associação dos Cronistas Esportivos, tive uma atuação muito boa, nós conseguimos ser uma equipe premiada pelo... É um prêmio que chama Ford Aciesp, Ford porque a Ford que dava o prêmio e a Aciesp é Associação dos Cronistas do Estado de São Paulo. Então a minha atividade na rádio foi muito gostosa, muito boa, quando a Rádio Excelsior deixou de ser... Era uma rádio que fazia Blud Casting mesmo, quer dizer tudo que você possa imaginar, tinha grupos, tinha tudo, as rádios mantinham programas ao vivo com auditório, com orquestra, com grupos instrumentais, grupos vocais, cantores, cantoras, enfim tinha tudo isso. De repente, houve uma transformação completa e total, as coisas passaram a ter outro significado e chegamos ao que a música é hoje. As emissoras de rádio deixaram de fazer música a pretexto de não pagar direitos autorais, porque virou um escândalo, os caras cobravam tudo que tinham direito e não pagavam ninguém, o pior é que é isso, cobravam tudo e não pagavam ninguém. Aí elas passaram a ser emissoras de rádio/jornalismo que é o que mais impera, você pode notar que é isso, músicas são eventualmente um ou outro programa, mas em tese as principais emissoras fazem isso.

 

P/1 – Esse período que o senhor trabalhou em rádio, que período foi esse? De que década? Foi década de 50 ou mais pra frente?

 

R – Não, eu tenho certeza da época, era década de 60, Jequibau nasceu em 65 e em 65 eu estava com tudo isso na mão, eu escrevia programa de rádio, programa de televisão. Quer dizer a perspectiva de continuidade no meio artístico era enorme, imagina você que eu deixei tudo isso por capricho até, né? De certa forma, eu tinha um programa na Rádio Gazeta, na Rádio não, na TV Gazeta, aos sábados, às oito horas da noite, era o meu programa, então por quê? Porque a Gazeta estava numa dificuldade imensa. O diretor artístico era o Dodô, o Salvador Treds, ele está vivo graças a Deus, ele me convidou pra fazer o programa e eu fiz. Só que o programa, por exemplo, tinha um piano e o piano estava no terceiro andar, tinha que levar pro andar onde o programa seria realizado, aquilo se constituía numa dificuldade e depois o piano estava um bagaço danado, você tinha que arrumar, mandar afinar, ele tinha um som muito... Eu me lembro que eu inventei tantas coisas, mas consegui colocar o piano no ar, foi muito bom e o programa foi indo. Aí a Nestlé através do Marcelo Cotrim, o Marcelo falou: “Mário, a Nestlé está interessada em patrocinar teu programa” eu fiquei felicíssimo e nessa altura o Dodô perde o cargo que ele era o diretor artístico e o que entrou era um rapaz que eu nem quero guardar o nome, mas que realmente pisou na bola, esse rapaz me chama e diz assim: “Olha, nós vamos reformular a grade da emissora... Quer dizer reformular a programação, né? E gostaríamos de passar seu programa pra parte da tarde” eu virei e falei: “Olha, eu tenho fundada esperança de que o programa seja patrocinado, não tire do ar agora, porque isso vai acontecer mais hora, menos hora” o Cotrim sabia o que estava falando, citou nome, citou tudo e já estávamos agendando conversas nesse sentido, sabe? Entendimentos, conversas e entendimentos, mas ele insistiu que não “Você vai pra parte da tarde” eu falei: “Olha, então vamos fazer uma coisa, eu quero mais um programa, me despeço.” E assim terminou a minha vida, foi uma burrice, porque ninguém vai te procurar, se você esperar que as pessoas venham à sua casa pra dizer: “Fulano, volte pra televisão” tem trocentos mil caras querendo fazer televisão. Então eu acabei infelizmente largando tudo a troco de nada, eu não digo que me arrependa, mas eu acho que poderia ter tido um pouquinho mais de tolerância, quem sabe se na parte da tarde eu também não conseguiria o êxito que estava conseguindo ali às oito horas da noite. Enfim com isso eu perdi a oportunidade de continuar fazendo televisão.

 

P/1 – E aí nesse momento o senhor estava envolvido em outros projetos?

 

R – Ah não, aí nessa altura eu já estava na CETESB, né? Eu entrei pra CETESB por uma circunstância, eu entrei lá porque eu fui a convite do Mário Teles, ele disse: “Tem um almoço na CETESB, vamos comigo”? Eu fui e no almoço... Eu sou uma pessoa que se agrega, né? Eu falo, eu participo, eu converso “A gente não é idiota” então começamos a conversar e conversando e fala disso, fala daquilo e o presidente da CETESB, que era o Renato Della Togna, falou: “Mário, você tem o perfil pra trabalhar aqui” de fato se você pensar bem, eu tenho mesmo. E estou lá há 30 anos e graças a Deus adoro a CETESB, eu acho que a CETESB é uma empresa de Economia Mista que representa... Ela está inserida entre as maiores agências do mundo, agências ambientais do mundo, o trabalho que ela faz... Eu sempre digo pra você mensurar, pra você medir, pra você sentir o significado da CETESB é imaginar o que seria sem a CETESB, ela trabalha contra a poluição do ar, da água, do solo, ela não cuida da poluição interna, mas cuida da poluição externa e o faz extraordinariamente. É lógico que ela trabalha administrando absurdos, né? Hoje uma senhora disse: “Ah, mas isso não acontece só no Brasil”? Eu falei: “Não, isso está no ser humano” se o problema do aquecimento, o problema da poluição de rios, isso... Antes do Tietê, antes do Rio Pinheiros, o Tâmisa da Inglaterra estava poluído, as pessoas se utilizam do rio, se socorrem do rio pra sobreviver, se você pensar na vida anterior, muito anterior, as cidades nasceram em tese sempre ao lado de um rio, porque o rio as socorria, né? As favoreceriam, porque oferecem água, oferecem alimentação, uma pessoa pode banhar-se ali, mas em compensação os problemas foram surgindo, surgindo, surgindo e a coisa ficou realmente insustentável. A sustentabilidade da vida depende de quem? De você, você, de todo mundo que tenha consciência e faça a coisa correta e não é o que a gente percebe que acontece não, há muita discrepância de entendimento. Então a CETESB realmente, administra, como eu digo, isso é expressão minha, ela administra absurdos que não foram idealizados e não foram gerados por nós que estamos vivendo esse momento, mas sim pelos que nos antecederam que não tiveram visão, não tiveram comportamento compatível, que não respeitaram a natureza e a natureza hoje vai reagir e essa reação é isso tudo que vocês estão vendo aí.

 

P/1 – Então o senhor falou que está há 30 anos lá e não vai se aposentar? Não quer?

 

R – Não, enquanto eu tiver vida, eu vou trabalhar, meu anjo. Enquanto eu tiver vida eu vou trabalhar, eu acho que Deus me deu a oportunidade de estar lúcido, com essa vivacidade toda que eu sei que eu tenho, com essa energia toda que eu passo, sabe? Eu nasci pra isso, enquanto eu tiver fôlego, vamos continuar.

P/1 – O senhor citou aí o Jequibau, eu queria que o senhor explicasse um pouco o que é?

 

R – Explico sim. Olha, numa dessas retiradas da vida artística, eu me retirei pra casar e a minha intenção não era voltar mesmo.  Então quando eu casei, tive cinco filhos, a vida continuou e aí eu parti pra outras coisas, tive uma série de atividades, inclusive industrial e tal e num determinado momento, eu fui procurado pelo Brás Bacarim e pelo Paulo Queiroz, o Brás Bacarim trabalhava pra Cássio Muniz, advogado hoje, na época não era advogado, depois se formou advogado e o Paulo Queiroz era um cantor e a idéia era... Chantecler, o Cássio Muniz era Chantecler, ela produzia gravações mais pro campo da música regional ou da música chamada caipira e realmente ela criou um... Revelou artistas e criou uma situação muito favorável sobre o ponto de vista de resposta financeira, mas aí eles queriam avançar mais, eles queriam ganhar dinheiro também no campo da música moderna. Nessas alturas dos acontecimentos estava eclodindo... Em 58, 59 a Bossa Nova, você lembra que eu falei de ser precursor, pois justamente na época em que a Bossa Nova aconteceu eu consegui ter um sucesso popular, uma música chamada Você. E esse sucesso popular me alijou da Bossa Nova, porque quando você faz um sucesso, as pessoas vêem no sucesso um filão comercial, todo mundo quer ganhar dinheiro, eu nunca pensei nisso, mas na verdade é que todo mundo pensa e aí você é obrigado a acompanhar o sucesso, a fazer outras que eventualmente sejam... Tenham uma repercussão e sejam o sucesso que aquela foi e com isso a Bossa Nova surgiu e eu fico fora, não fui para aquele bendito concerto lá nos Estados Unidos. E passa-se o tempo, quando chega em 64, eu casado com filhos recebo a visita do Brás Bacarim e do Paulo Queiroz dizendo que queriam entrar no campo da música moderna popular e que eu poderia fazer... Que eles me ofereciam condições de estúdio pra poder fazer alguma coisa que representasse uma inovação. Eu já vinha fazendo esse tipo de coisa instintivamente, conclusão, desse trabalho... Eu vou fazer um hiato que preciso consultar o horóscopo, deve ser essa água que eu consumi, pare de novo filha, se não vai sair tudo muito nervoso e eu não quero... (pausa).

 

P/1 – O senhor estava falando então do Jequibau.

 

R – Então aí o Brás e o Paulo Queiroz estiveram lá em casa e eu achei a proposta muito interessante, porque eu já vinha fazendo coisas nesse sentido. Eu topei a parada e aí o que aconteceu? Veja como tudo acontece na hora certa, eu fui pra Rádio Record e na Rádio Record eu encontro o Ciro Pereira, o Ciro Pereira era um pianista que trabalhava na Record no tempo que ela era ali, acho que na Quintino Bocaiúva, se não me engano. Eu o conheci apresentado pelo Garoto, não sei se você sabe quem é o Garoto? Aníbal Augusto Sardinha, foi o maior instrumentista que o país teve e um dos maiores do mundo, se não o maior e o Garoto é que me apresentou ao Ciro, conclusão aí veio a história do sucesso do Você... Foi muito gozado, porque quando eu estava ainda na faculdade, as pessoas passavam cantando a música, eu achava que era algum colega de faculdade, eu lembro que eu fazia o Show Arcadas, eu pensava “É algum amigo meu” os caras passavam com a maior indiferença, eu só faltava parar o cara e falar: “Olha, escuta fui eu que fiz essa música.”. Eu não fazia isso, mas foi realmente uma coisa muito importante e na apresentação dessa música certa vez eu fui ao Astros do Disco e o Ciro já regendo a orquestra. Então a gente firmou uma amizade, primeiro por causa do garoto que foi quem nos uniu e depois a partir daí, eu chego e encontro o Ciro, o Ciro estava num momento muito... Ele e todos os maestros da Record, eles estavam de escanteio, vamos dizer assim, porque a Record pegou do Canal Nove a Elis Regina e o Jair Rodrigues e Moacir Franco e Luís Vieira, lembram-se do canal... Você não lembra, mas ela talvez se lembra do Canal Nove da TV Excelsior? Então, eles estavam fazendo... Eles estavam aparecendo bem, todos eles. E aí a Record, o que fez? Esse é um plano de guerra, né? Contratou todo mundo e disse: “Agora não vão fazer sombra pra gente” e aí a Elis teve aquele programa de Bossa Nova, o Luís Vieira ficou de escanteio, o Moacir também e ela e o Jair se despontaram no programa O Filho da Bossa, mas tudo isso pra falar do Ciro. Encontrei o Ciro, imagina o Ciro já tinha ganhado dois Roquetes Pinto, tinha sido diretor artístico da TV Record, quer dizer ele era um sujeito reconhecidamente importante no contexto da vida e da história da Rádio e TV Record da época. O Ciro estava ali ocioso, aí eu cheguei e perguntei: “O que você está fazendo”? “Não estou fazendo nada” porque ela levou os maestros que ela achou que deveria levar sem avaliar os que tinham ali. O fato é que foi isso que aconteceu, foi exatamente isso que aconteceu. Aí o Ciro falou: “É estamos aqui” ele estava lá na sala dos maestros, estava jogando mexe, mexe e aí comecei a falar “Eu estou fazendo isso assim, assim” e contei. Ele falou: “Puxa, eu adoro ritmo, tenho alguns estudos rítmicos também.” Aí começamos a trabalhar juntos e foi a melhor coisa que poderia ter acontecido pra ele e pra mim, pegamos no Breu foi indo, foi indo e chegamos ao Jaquibau, não sei se você sabe, o Jequibau é um compasso em cinco tempos. Você vai me perguntar por que os cinco? Eu vou te dizer, os cinco porque eu encontrei... Eu não, nós encontramos cantigas de roda em cinco (cantando) “A minha casa tem uma roseira, a minha casa tem uma roseira que dá rosa na primavera... A minha rosa tem...” cinco. Então a pergunta música folclórica? Música folclórica, ela não tem estrutura, ela vem... É um fio melódico, eu sei porque eu sou da Associação Brasileira de Folclore, ela é um fio melódico, não tem estrutura nenhuma, o músico pode fazer o acompanhamento disso como fez, inclusive foi gravada, mas ela é um fio melódico, então a pergunta é puxa, mas por que em cinco? Por que não em quatro se a quadratura, se a dualidade é a própria razão de ser de tudo, o homem/a mulher, o universo é bipolar, né? Pólo sul e pólo norte, tudo é ambivalente, pode notar o baixo/o alto, o branco/o negro, o sim/o não, o dia/a noite. Então quer dizer que a tendência é sempre a dualidade e lembram-se de que no começo da nossa fala aqui, eu disse que eu era um precursor? Eu já trazia essa indagação na cabeça por quê? Por quê? Como é que um sujeito toca... Um toca três e o outro em dois, Mozart fez isso, né? Na Flauta Mágica, ele pôs uma orquestra, uns tocando em três e outros tocando em dois e como dá certo? Essas perguntas hoje eu tiro de letra, mas era há muito tempo atrás. Então conclusão, era tudo instigante, né? Por que a música africana... Aí você é levado a raciocinar da seguinte maneira: os escravos que foram arrancados da África Ocidental e que vieram pro Brasil foram os mesmos, mesmos não, da mesma região, foram arrancados e foram para os Estados Unidos, isso tudo eu raciocinando, lá surge o Jaz e aqui em tese, entre aspas, o samba, né? Que são duas coisas absolutamente importantes no contexto da música mundial, na música pop, na música popular mundial. Aí começam a me perguntar por que a poliritmia do negro? Ele chega e encontra um capataz que é responsável por fazê-lo trabalhar, eles são de diversas origens, não era todo mundo ignorante, não vão dizer que esse era trabalhador, pegavam a cultura não, pegaram pessoas de diversos níveis sociais e arrancaram de lá e trouxeram e escravizaram essa gente tanto aqui quanto lá. E aqueles que conseguiam fugir... Não havia entendimento, não havia como se comunicar com o cara, o cara não era poliglota, ele era monoglota, ele falava Português e olhe lá e eles falavam africano. Então qual era o caminho? O caminho foi cantar a tristeza ou a comunicação entre eles era através da música, pra não suscitar nenhum tipo de sei lá... Eu estou... Tudo isso é criativo, eu estou raciocinando alto com vocês, então eles cantavam e se lamentavam através da música. Então o Blues nos Estados Unidos é exatamente o lamento do escravo americano. Aqui no Brasil, os que fugiram, constituíram os Quilombos e começaram a se organizar por uma liberdade que só viria muito tempo depois e como eles se comunicavam? Não tinha telégrafo, não tinha nada disso, era movimento percussivo, através de tambores. Então essa polirritmia era uma coisa fantástica e que eles foram introduzindo na cabeça da gente, essa polirritmia. Comecei a trabalhar isso, aí surgiu uma música em cinco tempos chamada Take Five do Paul Desmond, ele é autor da música, que foi propagada no mundo todo e um grande sucesso no conjunto em que o Paul Desmond atuava como saxofonista, no conjunto de David Blubek, a música era (cantarola) três e dois, três e dois. A minha observação: isso não é cinco, no Conservatório as aulas de teoria musical do Samuel Arcanjo, ele dizia que compasso quinário, compasso de cinco era compasso misto e traduzia assim ou dois mais três ou três mais dois, eu... Aluno você não fala nada, mas já naquela época era intrigante, por quê? Porque isso não formata, não explica o compasso de cinco, o compasso de cinco no meu modo de ver tem que ter uma natureza própria e não ser um três e um dois, isso é uma alternação de compasso, você percebe o compasso pela acentuação (cantarola) o primeiro tempo do três e o primeiro tempo do dois, é um compasso de três e um compasso de dois. Comecei a trabalhar em cima do cinco com o Ciro, foi muito gostoso, porque a gente mexeu e remexeu, pintou e bordou. Uma hora nós colocamos um biombo, eu tocava em cinco aqui e o baterista, que era o Xororó e o Pala, o Pala era um contrabaixista argentino, eles tocavam em dois, o pensamento era o seguinte... (TROCA DE FITA)

 

P/1 – Como era essa história dos cinco, senhor Mário?

 

R – Ah que linda.

 

P/1 – Conta pra gente essa história do cinco?

 

R – É muito curioso, sabe? Não é que eu seja místico ou coisa parecida, eu volto a repetir, a gente tem uma sensibilidade muito... Ela extrapola, quando você está ligado, você está em permanente comunicação, você está vibrando, ligado quer dizer você está sintonizado, então é muito importante... Às vezes eu fico bobo de ver como as coisas se sucedem mesmo essa entrevista hoje, ela vem num desencadeamento de coisas e coisas que estão acontecendo, então na vibração em que eu estou. Então o questionamento do cinco é que quando eu estou... Veja que coisa curiosa, os meus avós, você devem se lembrar que o meu avô casou com a minha avó e eles tiveram cinco filhos? Eu casei e tenho cinco filhos, se você... Tem where, when você tem os cinco W como, por que, quando e de que jeito que também são cinco. Se você pensar em toda a filosofia da música chinesa, ela é na escala pentatônica, escala de cinco sons chamada escala dos tons inteiros e isso criou toda uma dinastia, a filosofia oriental, eles imaginam que o mundo tenha acontecido de uma grande explosão, ou seja, de uma grande vibração, quando você fala explosão, é uma grande vibração de um som. Isso é muito curioso, porque no meu caso é impressionante como tem vinculação comigo, ne? O cinco está permanentemente ligado a tudo que eu faço e acabou culminando com a história do Jequibau. Eu acabei revelando para o mundo, porque hoje as escolas de música têm métodos de ensino, todos eles disciplinando a questão do cinco na música. A gente criou... Você vai ver, o livro está aí, você tem um ritm em daist é uma orientação em ritmo, o que faz a bateria, o que faz o contrabaixo, o que faz a guitarra, o que faz o solo e os desenhos se somam e eles têm disparidade de conduta. Então aquilo cria uma movimentação que é notável parece “cabotinice” falar isso, mas é mesmo, viu gente?

 

P/1 – Senhor Mário a gente...

 

R – São cinco também, são cinco as feridas de Cristo, e têm outras coisas que levam a gente a pensar, sabe? Principalmente essa questão da Filosofia Chinesa que me encanta muitíssimo, porque eles têm uma... Eles... A sensibilidade pelos sentidos na Filosofia Oriental é pelo ouvido, o ouvido é o único órgão do nosso corpo que não descansa, por isso se você tiver dormindo e cair alguma coisa, você vai despertar, porque teu ouvido está ali. Os olhos são diferentes se você acordar durante a noite e na escuridão por mais que você abra vista você não vai enxergar. Então você percebe a diferença, a vida no oriente, o ouvido incorpora e vai tudo pra dentro da gente, a visão ocidental é muito... A visão quer dizer a maneira de ver a vida, no ocidente é muito em cima da visão, é tudo daqui pra fora, eu quero ver para crer, não é isso? Mesmo a visualização de Jesus Cristo foi feita no pincel por pintores, eles é que formataram uma figura “Ah, ele era assim, ele era assado” e assim eles figuraram e até hoje a gente tem como pressuposto isso pra imaginar como seria Jesus Cristo, não tem fotografia. Então é uma maneira diferente de se posicionar. Tudo isso acabou repercutindo muito na minha maneira de ser e na minha maneira de enxergar as coisas, na minha maneira de agir. Eu vou mandar pra vocês todo um arrazoado a respeito do cinco, é muito interessante, vocês vão adorar.

 

P/1 – E senhor Mário, a gente já está...

 

R – Seu Mário não é nosso Mário, esse negócio de seu, eu acho um absurdo jogar a gente assim... Você não acha?  Não sou de ninguém, eu estou brincando, ta?

P/1 - Mário, a gente já está encerrando a nossa conversa aqui e aí a gente gostaria de falar um pouco sobre a sua vida pessoal, porque você falou que se casou e teve cinco filhos, né?

 

R – Eu casei, tive cinco filhos e só posso te dizer o seguinte: eu não tinha idéia de me separar jamais, eu me separei depois de 30 anos de casado, mas por quê? Porque a minha ex-mulher, isso é até virtude, não é defeito, é muito dedicada aos filhos, de certa forma eu acredito que ela tenha me esquecido um pouco. E conforme eles foram crescendo, foram tendo vida própria... A gente não cria filhos pra tê-los ali, eles se libertam, não é? Num determinado momento a vida ficou... Ficou um buraco entre a gente e foi uma pena tudo isso, eu me separei e estou casado com outra mulher com quem estou já faz 20 anos de forma que minha vida se resume nisso, não me queixo, o meu casamento foi... Os meus cinco filhos são os meus cinco sons, sons entre aspas, a palavra em inglês, né? Os meus cinco filhos são o prêmio da minha vida.

 

P/1 – Quais os nomes deles?

 

R – Mário Luís, Cláudia, Mário Eduardo, Mônica e Alessandro, um menino e uma menina, um menino e uma menina e um menino.

 

P/1 – Tem netos?

 

R – Tenho. Tenho uma barbaridade de netos, agora não me pergunte os nomes, porque vou me atrapalhar de tantos que tenho.

 

P/1 – Quantos têm?

 

R – 15.  Muito, mas também com cinco, né? Dá pra ter tudo isso, a gente está trabalhando para que a terra fique bem povoada para que não haja problema por falta de gente.

 

P/1 – Mário, a gente tem umas perguntas que a gente sempre faz quando encerra os depoimentos que é se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida, na sua trajetória o que você mudaria? Você falou que talvez não tivesse parado com a televisão, mas tem outras coisas que você gostaria de ter feito e não fez ou se arrependeu de ter feito?

 

R – Você sabe... Essa fase em que eu estou, nessa faixa etária que eu estou vivendo, ela é muito retrospectiva e não é porque “Ah o sujeito quer, ele pensa muito no passado” não, pelo contrário, eu penso é no futuro tanto é que estou fazendo tanta coisa. Se você soubesse nos empreendimentos que eu estou me metendo, é uma coisa bárbara, é como se eu fosse viver 200 anos, eu sei que não vou viver 200 anos, mas eu estou me empenhando nisso. Quer dizer, não tenho uma vida retrógrada, mas é inevitável que tudo... Vocês viram hoje pela nossa conversa quanta coisa tem, quanta coisa talvez eu tenha deixado de focar, de aduzir, de revelar pra vocês, não que eu não quisesse, mas porque elas foram superadas por aquilo que eu entendi que fosse mais importante pra nossa conversa, né? Eu gostaria de não ter sido sempre vanguarda, vanguarda é o quê? É aquilo que no militarismo a gente chama do pelotão do batalhão, que vai a frente pra abrir caminho ou porque eles têm melhores qualidades e condições pra poder abrir esse caminho pro batalhão todo que vem ali atrás. Então a vanguarda também é a mesma coisa e eu acredito e eu provo isso se vocês me honrarem com uma visita que eu terei prazer, eu provo isso e não tem meios de não provar. Sempre à frente, sempre um passo a frente, em qualquer assunto foi assim. Então esse anacronismo, essa falta de sincronia com o que está acontecendo, a sincronia teria me colocado no contexto do que está acontecendo e não eu falando... Por exemplo, às vezes eu fico em reuniões, eu tenho até que tomar lexotan, porque eu fico tão nervoso, tão excitado, porque as pessoas estão falando coisas que já foram feitas. Hoje mesmo eu fiquei profundamente nervoso, um sujeito, jornalista, eu falei: “Fulano, mas isso já aconteceu assim, assim” “Mas isso já...” Aí eu falei: “Não vou falar mais nada, porque ele não está entendendo nada” ele não conseguia apreender, ou seja, apanhar o que eu estava dizendo “Não faça isso, porque já foi feito é só dar continuidade a isso e tudo bem” “Não, porque vai ser assim, porque vai ser assado” está inventando a roda. Então são coisas que nesse ponto de vista, não que eu seja mais inteligente não é isso, a gente tem... Eu volto a insistir a sensibilidade que o músico tem é uma sensibilidade fantástica, você não me pergunte por que, mas eu sei... Eu percebo quando tem uma pessoa atrás olhando, eu olho e vejo alguém ali olhando, quer dizer você sente isso, o que é isso? É você estar antenado, é você estar na vibração, é você estar no contexto. Então às vezes eu fico... Agora, por exemplo, o meu maior empenho é fazer com que algumas coisas que estão acontecendo não passem despercebidas, mas elas não mexem na mídia. Por exemplo, teve aí o Corriel, que é o rei do fugent, ele gravou música minha do Usha Gaeta, ele fala textualmente numa reportagem feita pro Jornal O Globo “Conheci a música brasileira através de Nós dois e a Tarde de Usha Gaeta e Mário Albanese.”. E o cara teve aí e ninguém falou nada, ninguém disse nada, quer dizer pergunto eu se ele não tivesse conhecido a música brasileira talvez conhecesse por outro, mas sei lá quando? Como? E de que jeito? Mas se conheceu com a minha música feita com o Usha, puxa vida, a gente deveria ter alguém pra dizer: “Puxa como foi? Que tal”?. Está escrito, eu faço a música pra Carolina, Carolina é um soneto de Machado de Assis, que ele fez pra Carolina, mulher dele, quando morreu. E aí o Austregésilo de Athayde só pra encerrar, ele na época era presidente da Academia Brasileira de Letras,  me pediu que fizesse a música e foi um desafio, você não pode mexer, aquilo é algo enclausurado, eu não posso me dar o direito de mudar o que Machado de Assis fez, ainda mais na ausência dele. Foi um desafio e você tem que ver que coisa linda tirando a pretensão, sem pretensão, se tivesse feia... Eu toco pras pessoas e elas se emocionam é muito linda, ficou linda. Pois bem, agora se comemora o centenário da morte e sai uma página inteira na Folha de São Paulo, sai o facsímile de uma música e eu vou correndo olhar pra ver se é a minha porque foi entregue pra ele, foi feita... A Secretaria da Cultura fez uma apresentação comigo ao piano, o Austregésilo presente na Casa de Mário de Andrade, Museu da Literatura, você viu tudo ali, sabe? E nada, essas coisas magoam, porque você percebe que você está morto sem estar. Então a reportagem que saiu do Paulistano é porque eu mandei um e-mail dizendo assim: “Lamento dizer, sou velho sim, mas não estou morto, ainda estou vivo.” Juro por Deus que foi assim que falei: “Estou velho sim, eu reconheço, mas ainda estou vivo” como quem diz: “Eu fiz e onde estava você quando eu fiz.” Quer dizer é muito interessante agora nas comemorações da Academia Brasileira de Letras, você vê as coisas... Excrecências, umas coisas que não tem nada a ver, sabe? O que tem a ver é isso... Machado de Assis foi um dos fundadores da Academia, então a música deveria estar... O que eu ganhei? É essa pergunta que eu deixo pra vocês hoje, o que eu ganhei? Nada, nem o reconhecimento, que é lamentável, é lamentável a deside da Academia, das pessoas que administram hoje que não tem o que vocês têm aqui, a hombridade de preservar as pessoas, sejam elas quais forem tem uma história, todo mundo tem uma história e vocês têm tido a humildade de me ouvir todo esse tempo. Eu fico muito feliz, muito agradecido e desejoso que vocês continuem fazendo isso, porque é isso que a nossa vida carece: de respeitar o passado, não existe futuro se nós não tivermos passado gente! Sem passado você não tem nem presente. Então é isso, um grande abraço a todos, muito obrigado, vocês foram uns amores em me aturar, um beijo a todos.

 

P/1 – A gente é que agradece

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