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História

Ao som de Tonico e Tinoco

História de: Lázara de Matos Camargo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2005

Sinopse

Em seu relato, Lázara relembra momentos de sua infância, como as travessuras ao lado dos irmãos, fala sobre seu casamento, do qual nasceram sete filhos e como ela teve que trabalhar para sustenta-los depois do abandono do marido. Também contou sobre uma grande paixão que teve por um homem que sonhava reencontrar um dia e a quem dedicou a música “Sertaneja” de Tonico e Tinoco.

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História completa

P/1- Dona Lázara, nós já conversamos um pouco com a senhora lá na outra sala e já temos algumas informações, mas a gente gostaria de confirmar alguns dados que a senhora já nos deu. O nome da senhora completo, por favor.

 

R- Lázara de Matos Camargo.

 

P/1- Qual a data do seu nascimento?

 

R- 17 de abril 1924.

 

P/1- A senhora nasceu aonde?

 

R- Tijupá.

 

P/1- Estado de São Paulo?

 

R- Estado de São Paulo.

 

P/1- Qual o endereço da senhora hoje?

 

R- Rua Joaquim Alves Diniz, 704.

 

P/1- São Paulo capital?

 

R- Vila São Francisco, São Paulo.

 

P/1- Agora a gente vai tentar lembrar de coisas de sua vida, seu passado e eu queria começar com o seu pai, o nome do seu pai, o nome da sua mãe; quem foram essas pessoas e local de nascimento do pai, da mãe.

 

R-   Bem. Local de nascimento do meu pai, eu não sei, mas é Estado de São Paulo.

 

P/1- E como era o nome dele?

 

R- Gabriel Tolinho de Matos.

 

P/1- E da sua mãe?

 

R- Francisca Maria da Conceição.

 

P/1- E ela nasceu aonde? Também no Estado de São Paulo?

 

R- Nasceu numa cidade perto daqui, Conchas. Já ouviu falar?

 

P/1- Sei, sei. Perto de Laranjal Paulista, Conchas, Tatuí, aquela região. E os avós, a senhora sabe o nome deles, de que local eles eram?

 

R- O meu avô paterno era Paulino.

 

P/1- De onde ele era?

 

R- Também da mesma região. A minha avó era Ana. Meu avô materno era Salvador, Salvador Teles, este eu estou lembrando. E minha avó materna, Maria Teles.

 

P/1- Eram todos da mesma região?

 

R- Todos.

 

P/1- A família já está lá a muito tempo naquela região?

 

R- É. Eles morreram aqui, mas nasceram e se criaram e casaram, criaram seus filhos lá.

 

P/1- Como era a vida lá na cidade em Conchas, quando a senhora era pequena? Como é que se vivia lá, como era sua infância?

 

R-   Ah, muito feliz, porque criança é sempre feliz, não tem problema, se tem não é da criança, é dos outros, né, então muito feliz, porém pobre, né, mas saudável e feliz.

 

P/1- Viviam na cidade ou na roça?

 

R- Uma hora na roça, outra hora na cidade mas sempre por ali por perto, a gente sempre mudava.

 

P/1- Era sítio?

 

R- Era um pouco no sítio, um pouco na fazenda, outro na cidade, a gente tava sempre mudando, meu pai gostava de mudar. E eu também! Moro três anos numa casa, estou louca de vontade de mudar já.

 

P/1- Que beleza!

 

R- Não mudo porque aqui não tem jeito. Tenho uma casa e tenho vontade de vender e comprar outra, só para mudar. Mudar minha cama, mudar minhas coisas, parece que é tão gostoso na primeira noite que a gente vai dormir, que não tá naquela velha lá, tá na outra.

 

P/1- E quando a senhora era pequena gostava quando o pai fazia as mudanças?

 

R- Gostava. Gostava.

 

P/1- E ele trabalhava com o que?

 

R- Na roça e carpinteiro também.

 

P/1- E a mãe da senhora?

 

R- Minha mãe sempre em casa, cuidando de nós, cuidando de tudo.

 

P/1- Eram muitos irmãos?

 

R-   Eram sete.

 

P/1- Sete irmãos, homens e mulheres?

 

R- Bom, não. Sete irmãs e dois irmãos, me lembro bem agora.

 

P/1- São nove. Bastante gente. E lá na cidade, a senhora estudou na cidade mesmo, lá em Conchas?

 

R- Estudava em Fartura. Não em Conchas foi só mamãe.

 

P/1- Em Fartura. E qual escola era?

 

R- Só no Grupo Escolar de Fartura.

 

P/1- Ficou lá até que época?

 

R- Até 50.

 

P/1- Casou lá? E Quem era seu marido?

 

R-   Casei lá. Lázaro Vieira de Camargo.

 

P/1- Ele era também da região? Quer dizer, era Lázaro ele, Lázara a senhora...

 

R- Sim. Os dois nomão feio se ajeitou. O mesmo nome.

 

P/1- E como é que foi a adolescência, como é que conheceu o namorado, como é que vivia na cidade?

 

R- Andando, paras as festinhas, para os bailinhos, cineminha, essas coisas aí. Praça no jardim da cidade, em frente à Matriz.

 

P/1- A senhora trabalhava nessa cidade?

 

R- Não, quase não trabalhava não.

 

P/1- Só estudava?

 

R- É, bom, estudei só um pouco também, mas não fazia muita coisa não. Ajudava minha mãe em casa.

 

P/1- E seu marido, quando a senhora casou? Em que época, em que ano?

 

R-   Eu casei em 1940, 12 de outubro; Ish, tá perto de fazer 52 anos.

 

P/1- Tá pertinho, segunda-feira. E conheceu ele lá na cidade, na praça?

 

R- Na praça.

 

P/1- E como era esse passeio na praça, como era a vida lá na praça?

 

R- Andando, tomando sorvete, conversando.

 

P/2- A senhora falou que sua família lá era um pouco pobre, o seu pai tinha terras? Como é que era, conta isso...

 

R- Bom, tinha terras, mas você sabe, tendo terras não é rico, porque dinheiro não se tinha, né, então pobre mesmo.

 

P/2- O que que ele plantava?

 

R- Arroz, feijão, milho, batata doce, amendoim, essas coisas aí.

 

P/2- E a senhora trabalhava na roça também?

 

R- Eu ia lá para a roça, mas eu fazia mais é bagunça. Eu era igual moleque.

 

P/2- Era igual a que?

 

R- Moleque. Eu acompanhava o meu irmão, meu irmão muito trabalhador na roça, eu acompanhava ele, tudo que ele fazia de brincadeira e malvadeza, era comigo mesmo.

 

P/2- Que tipo de malvadeza a senhora gostava de fazer?

 

R- Ah, em trilha, assim, tinha um monte de mato, a gente amarrava um negocinho lá, a pessoa passava e caía um tombão. E a gente ficava escondido, eu e meu irmão. Ninguém via, o pai mandou nós cortar capim para as cavaladas lá, nós fomos. Mas chegando lá, meu irmão brigou com outros meninos e aquele facão que meu pai deu para a gente cortar o capim, ele em vez de cortar capim, começou a brigar com os outros: “É porque eu sou valente, vem aqui” e começou a fazer assim com o facão. Tudo coisa de 11 anos, 12 anos. De repente o facão escapou e foi para o mato. E agora para achar? Ele chorava e chamava eu: “Venha me ajudar!” E eu dava risada, “Você não era valente ué? Como é que você tava fazendo com o facão assim para assustar os outros?” E o medo de apanhar, né, meu pai, ele era...

 

P/2- Ele era muito severo?

 

R- Não, ele quase não... A gente também respeitava muito, né? Meu pai ele segurava, não deixava a gente ir para as festas. Mas eu ia, porque depois que eles dormiam, eu pulava a janela. Eu ia e depois antes de ficar de dia, eu já pulava a janela e dormia. Ficava bem lá dormindo. Mas era só eu, os outros não faziam assim não. Eu e meu irmão que era assim. Hoje eu sou uma pessoa de tanta responsabilidade, pode confiar em mim porque eu tenho mesmo muita responsabilidade. Conto tudo do meu dever, sou até boba de tão honesta, meu irmão também.

 

P/1- Mas fazer isso não significava ser desonesta, significava ser esperto, né, para se divertir.

 

R- É, gostava de pegar faca de ponta e falava para mim: “Quanto você aposta comigo que eu acerto a ponta da faca naquele caldeirão lá?”, o caldeirão que estava pendurado. E furava o caldeirão.

 

P/1- Nossa!

 

R- Era malvadeza.

 

P/1- E sua mãe, não dizia quando via?

 

R-   A minha mãe era muito boa. Meu era bravo para nós e para minha mãe também.

 

P/2- Era bravo como?

 

R- Ah, bravo, exigente, queria tudo certinho, a gente não podia fazer coisa errada, mas só que a gente fazia, mesmo assim. Mas a minha mãe, nossa, era um respeito para ele. Mas ele era bom sim, ele era bom. Eu lembro que eu ia nas festas de noite, depois eu vinha aqui montada no pescoço de meu pai, quando eu era pequena, quando cansava. Então era muito bom.

 

P/2- E qual eram as festas que a senhora gostava mais?

 

R- A gente ia em tudo, porque quando tem pouco, tudo que tem a gente vai, né? A gente vai no casamento, a gente ia no batizado, a gente ia no baile, a gente ia na festa junina; de fogueira, de quentão, de tanta coisa; de baile de sanfona, tudo isso a gente ia quando a gente era criança. Depois que fiquei moça eu ia também; mas depois que eu fiquei moça meu pai já não gostava que eu fosse, ele deixava algumas vezes, mas quando ele não deixava eu ia do mesmo jeito! Só se fosse muito longe, mas se fosse perto, não. Esperava todo mundo dormir, depois pulava a janela e ia.

 

P/1- E as outras irmãs eram mais calmas?

 

R- Mais calmas, era só eu que era assim.

 

P/1- E essas irmãs também casaram?

 

R- Casaram, casaram.

 

P/1- Lá mesmo no interior?

 

R-   É, lá mesmo no interior tem duas, três irmãs que já morreram, uma é mais nova que eu, as outras duas é mais velhas.

 

P/1- E seu marido era também da mesma cidade, ele trabalhava em que?

 

R- Da mesma cidade.

 

P/1- E fazia o que, qual atividade?

 

R- Ele tinha um sítio pequeno, ele plantava as coisas dele.

 

P/1- Ah, ele plantava. E quando a senhora casou, foi morar no sítio com ele?

 

R- Fui morar no sítio com ele.

 

P/1- E viveu muitos anos lá no sítio?

 

R- Uns 20 anos.

 

P/2- Como foi que a senhora conheceu o seu marido? A senhora lembra do dia?

 

R- Ah, o dia não dá para lembrar.

 

P/2- Mais ou menos assim, por onde ele andava?

 

R- Você diz o dia, ou o lugar?

 

P/2- O lugar.

 

R- Ah, o lugar lá da cidade de Fartura, onde a gente se ajuntava, todos os jovens de um lugar, de outro, era bom, divertido igual hoje, né, gostoso era muito saudável tudo, né?

 

P/1- E namorou muitos anos?

 

R- Não, naquele tempo a gente namorava e já logo casava. Acho que eu namorei uns quatro ou cinco meses e já foi o casamento.

 

P/1- E como é que foi o casamento?

 

R- Ah, festa, comida...

 

P/1- Conta a festa, tudo o que a senhora lembra deste casamento.

 

R- Era leitão assado, frango assado, aquele monte de comida. Baile, baile de sanfona, violão, cavaquinho, muito bonito. E o casamento, a gente morava numa chácara pertinho da cidade, né, e nós fomos a pé casar, fomos a pé. Era bem pertinho.

 

P/1- Casou na igreja, depois voltou para a casa, para a festa?

 

R- É, casei na igreja, depois voltei para a casa. A gente ficou só um pouquinho na festa, depois voltei para casa porque a gente já estava com tudo pronto, né? Viajar, lua de mel, isso não era com nós não, porque a gente não podia. Como fazem hoje, hoje os casamentos são mais bonitos, apesar de durar pouco.

 

P/1- Bom, é preferível então...

 

R- Apesar de durar pouco, é tudo mais bonito.

 

P/1- Outra coisa, lá nesse período que a senhora morou 20 anos, os seus filhos nasceram todos nessa época?

 

R- Nasceram. Foram um atrás do outro.

 

P/1- E quantos filhos foram?

 

R- Sete.

 

P/1- Sete. E quais são os nomes destes filhos?

 

R- Maria Inês, Maria Teresa, Maria Clara, Maria de Fátima, Ana Maria, Maria Benedita e José.

 

P/1- O mais novo é o José?

 

R- O mais velho que é o José.

 

P/1- Ah, então primeiro veio o filho, depois as filhas. E eles viveram todo o tempo lá com a senhora?

 

R- Viveram.

 

P/1- E nessa época como era a sua vida de casada?

 

R- Casada?

 

P/1- Como era a vida de casada lá no sítio com as crianças?

 

R- Ah, mais ou menos, sabe, não era boa como no tempo de minha mãe e meu pai; quando eu casei já não...Dava para a gente viver.

 

P/2- A senhora não era apaixonada por seu marido?

 

R- Era, mas depois ele começou a beber, aí acabou toda a paixão, pulou tudo pela janela.

 

P/2- Ele fazia que tipo de trabalho?

 

R- Trabalhava em roça, plantava as coisas, ele é trabalhador sim, dessas coisas aí não podia me queixar, amoroso com as crianças, mas tinha mania de beber, então já não era muito bom.

 

P/1- Era perto da cidade onde a senhora tinha o sítio? 

 

R- Era bem perto.

 

P/1- E as crianças estudavam?

 

R- As crianças estudavam. Ia a pé para a cidade.

 

P/1- Então era bem perto. Porque a senhora saiu de lá depois desses anos todos?

 

R- Porque a minha mãe depois mudou para São Paulo, a minha irmã; fiquei com vontade também.

 

P/1- Nessa época a senhora já era viúva, ou não?

 

R- Ainda não.

 

P/1- Ele veio também?

 

R- Veio mas depois foi embora. Foi embora e deixou nós aqui.

 

P/1- Aí ficou a senhora com os filhos aqui. E já eram crianças grandes aqui.

 

R- Já. Era pouca coisa um mais velho que o outro. Cresceu quase de uma vez, casou um atrás do outro também.

 

P/1- A senhora veio morar em São Paulo onde?

 

R- No Bairro do Limão.

 

P/1- Que ano a senhora chegou no Bairro do Limão?

 

R- Em 60.

 

P/1- E ficou muitos anos no Bairro do Limão ou não?

 

R-   Em 68 eu fui para Osasco.

 

P/2- Quando o seu marido foi é que foi que a senhora fez para viver?

 

R- Trabalhava de dia e de noite.

 

P/2- A senhora tinha trabalhado antes?

 

R- Já, mas não tanto. Trabalhei muito, muito mesmo.

 

P/2- Que tipo de trabalho a senhora fazia?

 

R- Eu trabalhava numa lavanderia, mas eu fazia faxina. Depois mudei, fui trabalhar numa pensão também fazendo faxina. Tudo o meu trabalho era esse. Aí depois eu trabalhava assim, mas eu tinha um trabalho na Vinte e Cinco de Março, ali num prédio 959 o número do prédio. Ali eu trabalhava e o prédio era inteirinho de comércio eu saía do meu trabalho e vinha trabalhar a noite ali, o comércio ia embora aí eu limpava a escadaria. Além da escadaria, tinha um moço bailarino que morava naquelas quitinetes, ali era época do comércio, mas tinha umas quitinetes, coisinha assim pequenininho, ele pedia para eu limpar, eu ganhava mais um pouquinho dele, ganhava um salário mínimo na limpeza, assim que eu fui fazendo.

 

P/2- E as crianças ficavam com quem?

 

R- Eles ficavam com eles mesmo.

 

P/1- E alguns já trabalhavam para ajudar a casa?

 

R- O mais velho, trabalhava muito já logo aprendeu a trabalhar de funileiro, foi trabalhar na Carroceria Graça lá na Vila Leopoldina, me ajudou bastante. E tinha uma menina que era mais velha aquela lá cuidava da casa, cuidava das crianças, levava as crianças na escola, buscava, depois ia para o ginásio de noite.

 

P/1- Era duro!

 

R- Era, mas...

 

P/1- A senhora vinha do Limão para trabalhar...

 

R- Nas Perdizes.

 

P/1- Vinha como, como é que a senhora fazia, tinha ônibus?

 

R- Ônibus. Descia na Barra Funda.

 

P/2- Sábado e domingo o que a senhora fazia?

 

R- Uh, imagina. Lavava roupa, hoje que é uma festa. Marina me conheceu lá no bairro, hoje chama Vila Lapa. Mas nos tempos que as crianças... Só trabalhava. Sábado e domingo eu limpava a casa, eu lavava a roupa. No mesmo prédio que eu trabalhava lá na Vinte e Cinco de Março, tinha umas fábricas de lenço, uns lenços fininho de náilon, sobrava muito aqueles pedacinho eu levava para fazer acolchoado para as crianças, para as crianças não passar frio. E também levava as camisas do menino que era bailarino para lavar e passar em casa, para mim trazer para ele para ganhar um pouquinho mais.

 

P/1- A senhora arrumava formas de...

 

P/2- E a sua mãe e a sua irmã, onde é que estavam nessa hora?

 

R- Também na mesma rua que eu, pertinho. Minha mãe dava uma mão, às vezes tinha que levar criança para tomar vacina, essas coisas. E sabe quem me ajudou também? O Juizado de Menor.

 

P/1- Sim, porque a senhora ficou com as crianças menores.

 

R-   E que que ele fazia? Me dava dinheiro mensal, ia receber lá em Pinheiros, na Rua Fradique Coutinho.

 

P/2- Mas a senhora recebia pensão do seu marido ou era pensão do juizado?

 

R- Do juizado.

 

P/2- E seu marido foi parar onde?

 

R- Meu marido abandonou nós.

 

P/2- E onde ele foi?

 

R- Foi para o mesmo lugar que morava, Fartura.

 

P/2- E a senhora nunca mais viu?

 

R- Aqui trabalhei, consegui aposentar e graças a Deus, hoje não tenho problema nem de saúde nem nenhum.

 

P/1- E ele nunca mandava pensão para ajudar os meninos?

 

R- Não, nunca.

 

P/1- Por isso que a senhora recebia do juizado.

 

R- Por isso que eu recebia do juizado. Então eu recebia de quatro criança na mão, cada uma que fazia 14, eles cortavam, assim foi. Depois quando ficou a outra que não tinha 14 ainda eu fui lá e disse: “Agora não vou mais receber não”. Não quis mais.

 

P/1- Porque?

 

R- Por que já estava só uma, ia ficar pouquinho, não vou receber mais não. Mas eu não lembro quanto era de dinheiro, mas dava para mim comprar alguma coisa, já ajudava.

 

P/1- Quando a senhora foi morar em Osasco, os filhos já estavam grandes?

 

R- Estavam grandes.

 

P/1- Mas solteiros ainda?

 

R- É, solteiros, estavam grandes; não, já tinha uma casada. Lá eu morei um tempo, depois eu mudei para cá.

 

P/1- Lá em Osasco a senhora trabalhava também?

 

R- Trabalhava, nunca deixei de trabalhar.

 

P/1- Fazendo o que, nessa época?

 

R- Limpeza.

 

P/1- Lá mesmo em Osasco, ou vinha fazer em São Paulo?

 

R- Na cidade, nas Perdizes mesmo.

 

P/1- De Osasco a senhora foi morar onde?

 

R- Eu fui morar na Vila de São Francisco.

 

P/1- E hoje a senhora mora lá com a família ou mora sozinha?

 

R-   A família. Com duas filhas.

 

P/1- São solteiras?

 

R- São. Ah, trabalhei também de 70 a 80, eu trabalhei de motorista de uma mulher. Ela tinha carro e ia trabalhar, entrava sete horas na Penha. Eu ia levar ela de madrugada para ficar trabalhando, de noite eu ia buscar. O marido dela morreu no carro junto comigo. Já passei tudo isso na vida.

 

P/1- Como foi?

 

R- Eu levava ela todo dia, mas ele não sei, gostava de ir também, levantava cedinho e ia junto; porque nenhum do dois guiava e ela já estava quase na hora de aposentar. Aí eu deixei ela, ela trabalhava numa pastelaria, então tinha que entrar muito cedo, deixei ela e depois viemos. E ele estava sentado atrás e ela sentada comigo, mas quando eu deixei ela eu falei: “Ah, senta aqui para frente, né, Seu Irineu, porque senão fica parecendo que eu sou chofer de praça” (risos). Parece que foi Deus que mandou eu fazer isso porque ele desceu e sentou na frente comigo. Mas depois ele estava aqui do meu lado e fazia com esta mão assim, na minha perna; aí eu pensei mal dele, ele ficou, aí eu olhei o rosto dele e ele estava com a cabeça baixa assim e caindo baba. O homem estava morrendo! Ainda tinha neblina, era muito cedinho. Vim correndo para o Hospital Municipal do Tatuapé, ali na Celso Garcia e socorreram ele e tudo, mas...Aí então tive que explicar tudo para a patroa.

 

P/1 - Ah sim...

 

R - Mas aí depois eles viram, né, tinha que morrer naquela hora e estava no carro comigo.

 

P/1- Alem desse trabalho como motorista a senhora teve outros trabalhos diferentes?

 

R- Não. Depois disso eu não trabalhei mais.

 

P/1- E lá na Zona Leste, essas duas filhas solteiras, a casa é da senhora, é delas?

 

R- É nossa.

 

P/1- É de vocês. A senhora parou de trabalhar quando? Faz muito tempo?

 

R- Faz tempo. Eu parei de trabalhar que eu comecei de trabalhar como motorista, né, eu ganhava mais ou menos; mas eu continuei pagando o INPS; quando eu fiz 65 anos aposentei, aí não trabalhei nunca mais.

 

P/2- Como é que é sua vida desde então? Melhorou, piorou?

 

R- Melhorou.

 

P/2- É? O que a senhora faz todo dia?

 

R- Nada.

 

P/2- Nada? Como é não fazer nada?

 

R- Corro atrás das coisas, hoje eu fui lá na Rua Augusta atrás de um inventário de uma propriedade no interior.

 

P/2- Faz quanto tempo que a senhora está aposentada?

 

R- Desde...Três anos.

 

P/2- Aí acorda vai ver uma conta, vai ver outra?

 

R- Isso, vou pagar conta, vou pagar conta de telefone, vou lá levar para registrar o inventário, porque só agora que saiu o inventário. Fui no banco, fui em um banco, depois fui em outro banco. Essas coisas assim, né? Domingo eu vou na Penha dançar, naqueles bailes lá no Círculo dos Trabalhadores.

 

P/1- A senhora faz parte desse grupo de pessoas idosas?

 

R- Faço.

 

P/1- E tem muitas festas, muitas atividades?

 

R- Tem, tem festa junina, tem festa baile do Havaí todo ano em novembro; tem viagem, excursão.

 

P/1- A senhora já fez alguma viagem com o grupo?

 

R- Eu fui em Aparecida, só uma vez. Não viajo muito não.

 

P/1- Gostou da viagem?

 

R- Gostei. Sempre gosto de lá. 

 

P/1- O grupo é interessante?   

 

R- Ah, é! É tudo a mesma coisa, é tudo a mesma da mesma família.

 

P/1- E são muitos?

 

R- Ah, nem dá para saber quanto.

 

P/1- E a sua família, como está agora?

 

R- Bem, com saúde.

 

P/1- Tem muitos netos?

 

R- Tenho, até perdi a conta já. 14 ou 15.

 

P/1- Nossa! Muitos netos. Bisnetos, não?

 

R- Bisneto também tenho. Deixa eu ver, tenho... Acho que eu tenho seis.

 

P/1- Seis bisnetos? É bastante gente.

 

P/2- Dona Lázara, a senhora lembra qual foi a coisa na sua vida que mais lhe marcou?

 

R- Lembro.

 

P/2- Que que foi?

 

R- É que eu tinha um namorado chamado Alfredo... Que eu nunca amei ninguém na minha vida, homem, né, igual aquele lá. Antes do homem que eu casei. E ele, na última vez que eu vi, ele cutucou uma varinha e tirou umas folhinhas e deu para mim. Podia ter trazido, eu tenho a varinha.

 

P/1- Ainda tem a varinha?

 

R- Tenho, mas tá meio pó.

 

P/2- Porque a senhora não casou com ele, o que aconteceu?

 

R- Não sei, acho que meu irmão atrapalhou. Mas eu amo até hoje, se eu ver acho que eu agarro! (risos)

 

P/1- E ele anda por onde? Não procurou descobrir não?

 

R- Também! Tem dias que dá uma vontade de botar a boca no trombone, porque às vezes tá casado, tá velhinho, tá tudo, né, porque ele é mais velho que eu uns cinco anos; cinco não, uns quatro.

 

P/2- E a senhora nunca deixou de pensar nele?

 

R- Nunca, nenhum dia. Então essa varinha me marcou, me marcou, me gravou, me filmou, me tudo. Não esqueço nunca; mas é uma saudade bonita, gostosa. Uma coisa que não tem cura, né? (fim da fita)

 

P/1- A senhora não tem ideia de onde ele vive, nada?

 

R- Ah, quando ele separou, né, foi para Marília. Mas como é que vou bater de porta em porta lá? Mas ele era muito bonito também, mas só que ele era meio preto.

 

P/2- E foi por isso que seu irmão atrapalhou? Como é que foi isso, a senhora lembra?

 

R- Não, não é por isso não porque meu irmão também gostava da irmã dele. A irmã dele não quis o meu irmão e meu irmão começou a brigar forte, a chutar cadeira, né, de não sei que, mas era de despeito porque a irmã dele o desprezou, então ele achava que não era justo, né, deve ser isso... Não estou gostando de falar muito nisso não.

 

P/2- Este tempo passou...

 

R- Ah, é? Eu falo sinto bem, eu falo, acho gostoso de lembrar, as minhas filhas falam para mim: “Porque você não vai para o Silvio Santos e pede na Porta da Esperança?”. Já assistiu? Então: “Porque não vai lá e acha o seu amado, nem que seja velhinho.”(riso)

 

P/2- E as suas filhas sabem?

 

R- Claro que sabem!

 

P/2- E seu marido sabia?

 

R- Não! Mas as filhas sabem, também porque também ele já não vive mais, então deixa saber, ué. Não tem mais problema!

 

P/1- Agora me diga uma coisa, para a senhora mudar o assunto: lá na sua cidade tinha estação de rádio, ouvia rádio?

 

R- Não. Tinha um... Alto falante. Hoje acho que tem.

 

P/1- Mas na época era auto falante, que ficava na praça.

 

R- É, punha disco lá, cantava.

 

P/1- E outra coisa, tinha jornalzinho, tinha revista, almanaque? O que que a senhora lia mais, almanaque, revista?

 

R- Tinha. Revista. E ficava admirando aquelas moças bonitas que tinha na revista, que tinha vontade ser igual elas.

 

P/1- E almanaque, tinha também?

 

R- Tinha, Almanaque do Pensamento.

 

P/1- Como era Almanaque do Pensamento?

 

R- Não me lembro mais, sei que achava coisa da vida da gente, também achava de agricultura, também achava isso. Signo, não sei que lá mais, que nasceu em tal dia, tal coisa, não me lembro muito bem. Tinha também sobre agricultura, quando que planta, quando que colhe, que lua, essas coisas. E tinha o jornal.

 

P/2- E dessa época, quando a senhora namorava ele, tem alguma música que a senhora lembra, que marca?

 

R- Tem.

 

P/2- Então, qual é a música?

 

R- Do Tonico e do Tinoco, cantava lá no alto falante.

 

P/2- Como era a música?

 

R- Não era Tonico e Tinoco não, era... Como é que era? “Sertanejo se eu pudesse, se papai do céu me desse um espaço para eu voar/Eu corria, eu corria, acabava com a tristeza só para não te ver chorar” É assim? “Saudade do Matão” também, essa daí, mas a que mais é a “Sertaneja”.

 

P/1- E outra coisa: qual é o maior sonho da senhora hoje?

 

R- O meu sonho, ah, quero ter um carro, que eu não tenho.

 

P/2- E não é encontrar o seu ex-namorado?

 

R- Não, isso eu já desisti; ele pode ter uma família, pode não dar certo, né, porque se for uma pessoa como eu, entende, não fica com raiva, faz amizade até. Mas nem todo mundo é igual, né? A gente não pode, não é preso. Porque se eu estou velhinha, ele também está e a mulher dele também deve estar; então é normal, se eu correr atrás de um velhinho, tem outra velhinha para ficar com ciúmes. Mas agora fosse eu, eu entendia. Bom, também não sei porque...

 

P/1- Se a senhora tivesse que dizer alguma coisa para as pessoas, para os seus filhos, seus netos, seus bisnetos, para a geração mais nova que a senhora, o que que a senhora diria para eles hoje?

 

R- O que eu diria ou o que que eu digo toda hora?

 

P/1- Ou o que a senhora diz toda hora, melhor ainda.

 

R- Que fuja da má companhia, que fuja das drogas; que nem converse com gente estranha, que não pegue nem um doce, nenhuma bala na porta da escola. É isso que eu falo para todos os jovens; para os meus e para os dos outros, é isso que eu falo.

 

P/1- Agora, me diga mais uma coisa: a senhora acha que foi importante ter registrado a sua história de vida hoje, aqui fazer esse depoimento?

 

R- Acho, né, porque faz muito tempo que eu não converso assim com ninguém. Porque eu não converso com ninguém; eu não converso com ninguém, nem com vizinho, com ninguém. Então eu achei bom. Mas, sabe, não tem quem pergunte nada para mim, né? Só os netos que perguntam umas perguntinhas, eu respondo; às vezes nem espera eu dar a resposta e sai correndo. Então eu não converso. Só às vezes, quando eu encontro a minha irmã, então a gente conversa bastante, a gente sai junto, do contrário, ninguém conversa comigo. Eles, as vezes conversam e eu vou conversar também e meu papo é diferente, não interessa para eles, né, mas com os meus netos e com os amigos dos meus netos, eu falo quase todo dia, assim que eu tenho chance, eu estou dando conselho e falo: “Ainda não estou com 100 anos, mas eu já vivi 100 anos”. Já sofri muito, tenho muito experiência, sou muito experimentada, muito sofrida, né, parece que eu tenho 100 anos de vida.

 

P/2- Que que a senhora, hoje, depois desses 100 anos de vida, o que a senhora, se pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que a senhora mudaria?

 

R-   Que que eu mudaria? Só queria ter aquilo que falei para você, eu queria um carro, mas parece não dá para comprar, juntar dinheirinho, mas nunca que chega lá que dá, porque eu nunca tenho a quantia, o carro está lá mais para cima, então...

 

P/2- A senhora gostaria de dizer mais alguma coisa para a gente gravar?

 

R- Não sei, você que sabe, o que quiser perguntar, eu respondo.

 

P/2- Tem alguma coisa que a senhora acha importante?

 

P/1- O que o seu coração esteja com vontade de dizer mais alguma coisa?

 

R- Por exemplo, eu posso fazer pergunta, assim? O que que tem aqui nessa casa?

 

P/1- Aqui nesse prédio? Ah, tem atividades as mais variadas, tem cursos para músicos, para teatro, bailarino, tem vários cursos.

 

R- Ensina a dançar?

 

P/1- Ensina a dançar, inclusive tem um curso para terceira idade que ensina a dançar tango.

 

R- E a gente consegue aprender?

 

P/2- Consegue, a senhora tem vontade de fazer?

 

R-   Eu tenho vontade de aprender a dançar direitinho.

 

P/1- Dona Lázara, muito obrigada pela ajuda, pelo trabalho da senhora e até uma outra ocasião.

 

R- Desculpa aí viu?

 

P/1- Não, nós é que agradecemos.

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