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História

Ao Rei do Armarinho

História de: Gilberto Afif Sarruf
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Infância em São Paulo. Trabalho do pai, imigrante sírio, no ramo de armarinhos. Lembranças da casa e brincadeiras da infância. Formação escolar. Início do trabalho na Ao Rei do Armarinho. O processo de modernização da loja, desde sua fundação. Perfil do consumidor e produtos comercializados. Transformações da venda de balcão ao autosserviço. Importância do bom atendimento. Características da Rua 25 de Março e agremiações. Venda no atacado e varejo e perfil do consumidor. Investimentos em publicidade e promoções. Relação com fornecedores. Atuação da associação dos lojistas da Rua 25 de Março e agremiações. Casamento e filhos. Sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Gilberto Afif Sarruf, nasci em São Paulo, em 14 de abril de 1948.

FAMÍLIA

Meu pai era chamado Afif Sarruf, nasceu em Homs, na Síria, em 1915, ele já é falecido. Minha mãe é nascida no Brasil, em São Paulo, e é filha de libanês com árabe... com sírio. Seu nome é Renée Lotaif Sarruf.

TRABALHO DOS PAIS

Meu pai veio pra cá pequeno, com oito anos de idade, e estudou um período, até crescer um pouco mais, e começou a trabalhar com os irmãos. Quando adquiriu aproximadamente 14, 15 anos, começou a trabalhar com comércio de armarinhos, que deu origem ao Rei do Armarinho, que existe até hoje. Estou aqui eu continuando, e eventualmente meus filhos.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Talvez, no começo do século, a situação na Síria não estivesse das melhores. Algumas pessoas que imigraram antes escreveram, ou foram bem sucedidas, ou analisaram o Brasil como um mercado promissor e acabaram vindo. Primeiro, os irmãos mais velhos do meu pai sentiram, e acabou vindo o resto da família. Meus irmãos não vieram especificamente pro ramo de armarinhos. Eles começaram como mascates! Vieram com a cara e a coragem pra cá. Vieram se aventurar, eram solteiros, tentaram arriscar uma vida nova. E, de repente, viram que existia possibilidade, que o Brasil oferecia condições favoráveis pra isso, um país de clima tropical, São Paulo uma cidade que já, desde o começo do século, inspirava que seria um grande polo de desenvolvimento. Eles acreditaram e vieram, com a raça e a coragem. Eles moravam no Brás, no Belenzinho, mais especificamente. Morava a família inteira, numa casa grande. Meu pai tinha diversos irmãos, dez ou 11 irmãos, mais os pais deles. Eu sei que era uma casa grande, onde a família se cotizava, se ajustava ali. Eu ouvi falar alguma coisa, não cheguei a conhecer.

CASA DA INFÂNCIA

Morei de 1948 até 1954 numa casa grande, na [Avenida] Brigadeiro Luís Antônio, quase esquina com a Alameda Santos. Pela idade e pelo fato de ser na rampa da Brigadeiro Luís Antônio, eu não tinha acesso à rua, então a gente se limitava a brincar dentro de casa. Em 1954 nós mudamos para uma travessa da Brigadeiro Luís Antônio, mais lá embaixo, que era a Rua Honduras. E lá era uma casa, era um lugar plano. Eu já tinha uma idadezinha que dava pra começar a andar de bicicleta, enfim...

SÃO PAULO ANTIGA

São Paulo naquela época não tinha os problemas de hoje, a gente tinha acesso a jogar futebol na rua, jogar taco, brincar com a vizinhança, era uma vida extremamente saudável. Eu morei ali até 1967, passei minha puberdade e adolescência. Fizemos muitas besteiras, tipo arrumar briga com outras turmas, aprontava coisa de moleque. Na época do DKW, existia o olho de gato, era uma peça que quando batia o farol iluminava, então, era moda roubar olho de gato dos carros, e fazer essas besteiradas, essas coisas de moleque.

FAMÍLIA

Tenho três [irmãos], e eu sou o mais velho. São dois irmãos homens, um trabalha comigo, o caçula; o outro é médico, dermatologista, e tenho uma irmã.

EDUCAÇÃO

No tempo de escola, eu estudei no Dante Alighieri, durante muitos anos. Quando eu me formei no curso secundário, no ginasial, eu não queria fazer clássico nem científico, então eu optei por fazer Contabilidade. E o Dante Alighieri naquele ano estava inaugurando o primeiro curso de Contabilidade. E eu fiz, mas eu estava na minha fase de 16/17 anos, é uma fase meio impulsiva, acabei repetindo de ano. No ano seguinte, eu quis me manter na Contabilidade, mas não tinha número de alunos suficiente pra manter a classe. Então eles fundiram Contabilidade com Secretariado. Acabei estudando numa classe onde só tinha eu de homem e 45 mulheres. Coincidentemente, nesse ano meu pai me deu um carro, na época, um Fissori. E... eu estudando secretariado, com 45 mulheres na classe, não precisa dizer o que aconteceu, não? Acabei sendo expulso do Dante, e fui terminar no São Luís, e aí comecei a estudar à noite, e acabou um pouco da moleza. Depois do São Luís eu fui pro Mackenzie e acabei me formando lá.

REI DO ARMARINHO

[Comecei a trabalhar] com 16 anos, em 1964, no Rei do Armarinho. O Rei é uma loja bem antiga, foi fundada em 1926, e era uma loja pequena. Quer dizer, com todas as dificuldades da época, não existia uma grande variedade no ramo e existia muita concorrência. Então, o cliente era praticamente pego na raça, na unha, na amizade, na conquista: era uma cantada em cima do cliente! Assim o Rei do Armarinho foi crescendo, com muita luta, com muita garra, com muita honestidade, com muita disposição de vencer. Com o decorrer dos anos, a loja mudou para um endereço maior e já com mais opções de produtos, já com um pouco mais de funcionários, ela veio tomando o seu rumo de desenvolvimento. Há mais ou menos 35 anos, talvez até um pouquinho mais, meu pai comprou um terreno, na Cavalheiro Basílio Jafet, junto com o meu tio que é sócio, e resolveu construir um prédio para que fosse a futura sede da empresa. Com muita luta, com muita dedicação, acompanhando a obra no dia-a-dia, se conseguiu construir esse prédio, onde atualmente a empresa se encontra, e aí se mudou pra lá usando metade do prédio e alugando a outra metade pra um banco, pra que ajudasse a custear as despesas da construção. Com o decorrer dos anos, eu já trabalhando lá, o banco resolveu mudar e nós resolvemos usar o espaço para expandir a loja. Hoje, além do prédio [original], nós adquirimos mais um vizinho e alugamos uma boa parte no fundo, mais um primeiro andar enorme pra depósito: ocupamos aproximadamente 5.000 m2.

PIONEIRISMO NO COMÉRCIO PAULISTANO

É uma das lojas mais antigas do ramo e, ao mesmo tempo, é uma das mais modernas, em termos de linha de produto, forma de atendimento. Nós fomos a primeira loja de toda a região central – caracterizando como empresa familiar – a a ter computador. Nós pusemos o primeiro em 1976. E desenvolvemos bastantes sistemas, partimos de uma forma muito séria pra organização. É uma loja absolutamente controlada por sistemas. Temos tudo por scanner, por código de barras, os processos mais modernos.

TRABALHO NO REI DO ARMARINHO

Comecei em 1964, como um garoto rebelde! A loja era bem menor, tinha aproximadamente 17 funcionários. Tentei aprender um pouco com cada funcionário, aprender o meu lugar. No começo, a gente se achava filho do dono, achava que mandava, e não era bem assim. Fui tendo que conquistar meu espaço, deixar de ser o filho do dono e tentar ser o Gilberto. Isso foi uma batalha difícil ao longo dos anos. Você tem que adquirir esse respeito, essa confiança perante as pessoas, pessoas que estavam na empresa muito antes de eu nascer. Era difícil conseguir atingir uma linha em que você pudesse comandá-los no futuro.

CLIENTES

Em 1964, o país era extremamente mais pobre de rodovias e de meios de comunicação. As pessoas vinham de uma forma até sacrificante até São Paulo, pra fazer as compras pra distribuir no seu estado. Então, nós tínhamos clientes do Brasil inteiro. A gente vendia muito pra regiões atacadistas, como Recife, Fortaleza, Belém do Pará, que sempre foram regiões fortes de distribuição, mas... As pessoas faziam verdadeiras maratonas pra poder vir a São Paulo comprar, e conseguir distribuir essa mercadoria lá. O cliente naquela época era extremamente exigente com relação a preço, porque uma vez que ele se sacrificava pra vir até São Paulo, ele brigava por qualquer centavo pra tentar tirar o custo da viagem e o sacrifício dele. Era um, um período difícil, era um perfil completamente diferente do de hoje. As mercadorias ficavam dentro de balcões, eram solicitadas, eram menos produtos e esses produtos eram conhecidos pelo nome, ou até pela referência, e isso facilitava muito fazer uma concorrência de preços.

IMPLANTAÇÃO DO REAL

Eram poucas indústrias em cada ramo. Isso permitia que o cliente em 2 horas ou 3 horas fizesse uma pesquisa na região inteira. Hoje, esse perfil é bem diferente, a gama de produtos é extremamente maior. Nós passamos por um período de inflação, em que o preço mudava todo o dia. Então a memória, hoje, das pessoas com relação a preço ainda é muito curta. Agora, com a estabilização do real, pode ser que comece a renascer esse aspecto.

PRODUTOS

Armarinho é uma palavra muito vaga. Eu já tentei analisar o fundamento dessa palavra. Na realidade, armarinho é um conglomerado de coisas, das quais fazem parte os artigos de costura, que o termo correto é aviamento. Então, o armarinho é uma somatória de aviamento com outros produtos que definem, vamos dizer, uma linha mais ampla de coisas. É difícil dar uma definição clara. Por exemplo, baralho, não tem nada a ver com costura, pra uns faz parte de armarinho; bola de gude, pião, pequenos brinquedos, algumas coisinhas de plástico, e vai por aí afora, é um sem fim de itens! Nossa empresa chama Rei do Armarinho, mas a gente não trabalha com esses itens que estou mencionando. É só para dar uma noção da amplitude. A gente trabalha com costura: fitas, rendas, bordados, galões, linhas, zíperes, elásticos, cadarços, cordões, coisas pra cortinas, botões, aliás, botões é um dos nossos pontos fortes.

PRODUTOS SAZONAIS

À medida que a loja foi crescendo, foi tendo mais espaço pra que a gente agregasse novas coisas. Numa determinada época do ano a gente valoriza um pouco o material escolar, em função da volta às aulas; no Carnaval você agrega alguma coisa que sirva pra fantasias. No Natal, você se especializa colocando enfeites pra árvores, guirlandas etc. A gente complementa o armarinho tradicional, ou o aviamento tradicional, com coisas de cada época do ano. Isso acaba movimentando a atividade, porque uma boa parte da nossa clientela é rotativa, o cliente vem hoje, volta a cada período. Uns semanalmente, outros mensalmente, e eles vêm na expectativa de encontrar alguma coisa pra aquela ocasião.

ESPECIALISTA EM BOTÕES

Deve ter mais de mil botões. Botão tem algumas variantes que cabe frisar. Além de existir de diversos tamanhos, existem diversas cores, existem diversos materiais: botão de plástico, de metal, de alumínio, botão pra forrar... Tem uma variedade enorme de tipos! Existe o dourado, o prateado, o mesclado, entre cor e dourado, cor e prateado. Para ter toda essa variedade é preciso uma área bem grande e um sortimento bem grande, pra que as pessoas possam se direcionar pra lá na expectativa de encontrar o que desejam.

MUDANÇAS NA LOJA

Hoje é praticamente um autosserviço. Na época, as pessoas se dirigiam aos vendedores e o vendedor tomava nota, não separava na hora. O cliente perguntava quanto custava tal produto, se servisse a quantidade, ele dizia quanto queria comprar e o vendedor anotava num bloco pra separar a mercadoria no estoque posteriormente. Era uma praxe da época. Depois, à medida que os anos foram passando, o cliente ficou com mais pressa, queria levar a mercadoria com ele, então nós adotamos um sistema de carrinho de supermercado. Isso foi mais ou menos em 1970, 1969. Nós fomos a primeira empresa a adotar, no atacado, essa prática. Inclusive o cliente homem se sentia inibido de puxar, de empurrar o carrinho. Quando era mulher, era mais fácil, porque já tinha o hábito do supermercado; mas o homem, a gente tinha que empurrar o carrinho pra ele porque o machismo não permitia isso! Fomos substituindo os balcões, gaveteiros, por mercadoria exposta. Isso foi uma transformação muito acentuada na época, e que depois todos os concorrentes acabaram copiando. Hoje, a gente também tem copiando os sistemas internacionais. Quanto mais a mercadoria estiver ao alcance do cliente maior a probabilidade de compra. O cliente compra muito por impulso e as pessoas se sentem inibidas em ficar perguntando a todo instante: "Onde está isso, onde está aquilo?" Então, a gente já não trabalha nem com vendedores, trabalha com coordenadores de área, que orientam o cliente, ou dão alguma informação técnica. A área da loja é dividida em oito partes. Cada uma dessas partes tem um coordenador de área. Nós fizemos um quadro com a fotografia dele, o nome e o nome do assistente dele. Então, ele é obrigado a conhecer absolutamente tudo a respeito dos produtos que estão na sua área. Se alguma pessoa vier comprar na loja ou precisar de uma informação a respeito de algum daqueles itens, ele é obrigado a saber se tem em estoque, se não tem, quando vai chegar, qual é a composição do material, ele é obrigado a estar 100% informado a respeito pra poder passar essa informação pro cliente. Dentro da nossa filosofia, é mais fácil cada coordenador conhecer um pedaço da loja bem do que querer que todos conheçam tudo. Nós formamos oito experts, um pra cada área, e como substitutos têm seus assistentes. Na sua ausência, nas suas férias, o assistente sabe dar as mesmas informações. A cada seis meses, aproximadamente, nós mudamos as pessoas de área, pra que também não fiquem excessivamente bitoladas. Esses coordenadores ajudam a comprar mercadoria, ajudam a dizer o que não está vendendo muito, qual é a tendência da evolução daqueles produtos. Com isso, a comunicação fica muito mais estreita entre compras e vendas. Isso ajuda a formar uma parceria no sentido de decisão.

RUA 25 DE MARÇO

Bem antes de eu nascer [a 25 de Março] já era assim. Há muito tempo, ela era muito expressiva com relação a armarinhos e tecidos, talvez alguma pouca coisa a mais que isso. Inclusive, era uma região extremamente menor do que é hoje. Hoje há muitas das ruas que fazem parte das adjacências da 25, se transformaram em lojas também. Na época em que eu comecei a trabalhar, em 1964, a Barão de Duprat, a Rua Cantareira eram lojas de frutas. Eram um anexo do mercado, e não um anexo da 25 de Março. Isso cresceu bastante, hoje você tem nesses prédios lojas em andares, coisa que antigamente não funcionava. Hoje, cada pedacinho é bem ocupado e com a maior variedade possível de ramos diferentes. Você tem bijuterias, brinquedos. Agora que abriu a importação, você tem de tudo!

O PAI E A LOJA

Meu pai não começou como mascate. Os irmãos mais velhos dele que começaram. Quando meu pai veio, ele já pegou a situação um pouquinho melhor. Ele trabalhou com os irmãos um tempo, porque os irmãos começaram como mascates, ganharam algum dinheiro, conseguiram se estabelecer, meu pai foi trabalhar com eles um tempo, e depois adquiriu uma loja e começou já com uma idade um pouquinho maior. Eles mascateavam pelo interior, vendendo armarinho, alguma coisa de tecido. Antigamente, se vendia muito Linha Cruz. É uma linha de carretel que se usa até hoje, em menor escala. Aquilo se vendia de caixa, de caixotes fechados. Eram poucos produtos, mas esses produtos eram vendidos em larga escala, era realmente um atacado. Tinha alguma coisa de perfumaria, tipo Leite de Rosas, fraldas. Que mais? Botão de calça. Hoje calça nenhuma usa mais botão, todos foram substituídos pelo zíper, mas existe um botão, tamanho 22, que era vendido em embalagens enormes! A gente, pra ter uma noção de tamanho, embalava essas compras em caixa de geladeira. As geladeiras antigamente eram embaladas em caixa de madeira, e eles compravam caixa de geladeira usada pra embalar os armarinhos, pra despachar pras longas distâncias. [As pessoas compravam] uma quantidade grande pra compensar a viagem. O cliente vinha duas, três vezes por ano. Avião era precário, transporte de ônibus era sem asfalto, então, tinha uma série de dificuldades. O cara quando vinha pra São Paulo fazer compras era uma aventura!

RUA 25 DE MARÇO

Antigamente, O Rei do Armarinho era bem direcionada a atacado. Depois, com o decorrer dos anos, o perfil da 25 de Março foi mudando, foi ficando misto. A própria Rua 25 de Março hoje é uma rua de varejo. As travessas ainda conseguem ter algum atacado. Por exemplo, se a nossa loja estivesse na Rua 25 de Março, ela jamais poderia ser do jeito que é, teria que se adaptar a um perfil diferente. A 25 de Março é mais populosa, a quantidade de pessoas que passa por minuto ou por hora é extremamente maior do que as travessas; as travessas selecionam um pouco mais. A 25 de Março, é uma rua que a grande maioria das lojas se adaptou colocando bancas com ofertas na porta, pegando um público de classe D, classe E, vendendo mais coisas de oferta.

TRANSFORMAÇÃO DA CLIENTELA

Tem diversos clientes, diversos perfis. Nós temos o cliente de bazar, o cliente que compra pra revender no varejo, que é cliente de longo tempo. Ele é um cliente que se sente em casa dentro da nossa loja; é um cliente que compra sem a menor dificuldade, sem ninguém precisar atendê-lo, é um perfil. Nós temos o confeccionista; o confeccionista é um cliente mais exigente, ele vem especificamente pra procurar determinado produto, pra coleção que ele está lançando, ou vem olhar o que existe pra poder desenhar a coleção. Ele precisa de um atendimento personalizado. E nós temos o público de passagem, o público que vem sabendo que a Rua 25 de Março é uma rua que vende mais em conta, e até pela tradição da nossa loja. As pessoas vêm até lá pra ver se conseguem achar alguma coisa diferenciada e mais em conta. Temos um público bem expressivo. É um misto entre o cliente lojista, o cliente confeccionista e o próprio consumidor. Nós atendemos uma média de 1.800 a 2.000 pessoas por dia, que compram. E a estimativa é de que entram na loja de 2.800 a 3.000 pessoas. Em novembro, dezembro, são quase 4.000 pessoas por dia. É um público extremamente diverso. Quando a gente coloca produtos de época, agrega outras atividades. Por exemplo, no Natal, a gente vende muito pra decoração de shopping, de prédios, de consultórios, escritórios. São clientes específicos dessa época, que não compram no resto do ano.

PUBLICIDADE E PROMOÇÕES

Já participei de algumas promoções e propagandas que nós fizemos. Fizemos uma coisa bonita quando a empresa completou 50 anos, em 1976. Pela primeira vez, nós contratamos uma agência de publicidade e nós desenvolvemos um logotipo, que é esse reizinho que a gente tem. Nós fizemos uma divulgação através da imprensa, tentando valorizar as pequenas coisas: o armarinho, o botãozinho, o zíper, a linha. A base da campanha era: "O mundo é feito de pequenas coisas". Mostrava um bustiê preso por um botão, quer dizer, se caísse aquele botão... Ia fazer estrago! A mesma coisa com o zíper. Foi uma campanha extremamente interessante, deu um resultado grande de valorização do tipo de atividade, tanto perante fornecedores, como perante clientes e funcionários nossos. A gente veio em crise desde o Plano Collor, e já até no desespero de ver que as coisas não iam bem, nós fizemos uma promoção bastante interessante, foi a primeira empresa a fazer isso, em termos individuais: nós pusemos um [carro] Ômega dentro da loja e fizemos um concurso. Cada X de compras dava direito a um cupom, e no final de um período se sorteava o carro. Isso deu uma alavancada extraordinária na empresa, e nós conseguimos reportagens variadas em inúmeros jornais de primeira classe, como O Estado de S. Paulo, que nos deu um quarto de página em cores na capa do caderno de Economia. A Folha de S. Paulo nos deu um quarto de página em cores na capa do caderno Cidades. O DCI a mesma coisa. Isso tornou nossa empresa mais conhecida, mais agitada, mais dinâmica. O que eu penso é o seguinte: o consumidor hoje quer mais do que um sorteio. Quer produto, quer qualidade, quer preço. Sorteio já tem tantos por aí! Você vai abastecer o carro num posto, um dá sorteio de automóvel, outro dá desconto, outro dá prazo no cheque. Você vai em qualquer shopping e tem aí dezenas de carros sendo sorteados. O consumidor já saturou um pouco, isso deixou de ser novidade. Quando nós fizemos isso, talvez um ou dois shoppings tinham feito na época, então era muita novidade, o interior inteiro não conhecia isso. Havia clientes que punham 1.000, 2.000, 3.000 cupons na urna, porque eles compram no atacado. A chance crescia sensivelmente, e como tinha um prazo definido pra terminar, isso antecipou compras. Antecipou e tirou da concorrência, porque lá oferecia alguma coisa a mais.

RELAÇÃO COM FORNECEDORES

Até por tradição – isso não é mérito nosso – sempre tivemos um extraordinário relacionamento com fornecedores. Hoje, tenta, na medida do possível, trabalhar em parceria. Temos alguns fornecedores extremamente afiados com a gente, tanto no lançamento de produtos como na definição do lançamento do produto, até no aspecto exclusividade pra nós por um período.

ARMARINHOS E MODA

Todos os desfiles internacionais são filmados. Temos pessoas que viajam constantemente e encomendamos os vídeos de cada feira, de cada exposição, seja em Paris, seja em Frankfurt, seja em Milão. Constantemente passamos esses vídeos de costureiros famosos, pra mostrar tendências de moda. Como a gente joga com uma estação de atraso em relação à Europa, então estamos passando o verão quando já estamos no inverno, ou vice-versa. E o pessoal das confecções já vai se preparando pra próxima estação, analisando a tendência.

UNIVINCO

A história da Univinco é a seguinte: mais ou menos por volta de 1970, os comerciantes da região da 25 de Março tinham uma série de desejos com relação à prefeitura, com relação aos órgãos públicos em geral. Existia deficiência de telefonia, mau calçamento, pouca segurança, não tinha iluminação adequada. Então, nasceu a idaia de se juntarem alguns dos comerciantes e fundarem uma associação com o espírito de fortalecer o comércio. A associação representava uma região que historicamente representa, vamos dizer, um potencial expressivo de faturamento, de arrecadação de tributos. Individualmente cada comerciante conseguiria pouco. Na época, a Univinco foi fundada com aproximadamente 20, 25 diretores, um número até grande pra uma associação. O espírito era envolver o máximo possível de pessoas pra tentar sensibilizar prefeitura, estado etc. Com isso nós conseguimos grandes passos na região. A fiação foi mudada, uma boa parte da região hoje já tem fiação subterrânea, foi feito calçamento, foi feito recapeamento asfáltico, tem segurança. Antigamente, a 25 de Março tinha um problema de enchente e a Univinco ajudou até a canalizar o Rio Tamanduateí, a limpar bueiros. A Univinco foi atuante durante muito tempo. Como toda associação tem seus altos e baixos, vai mudando a diretoria, um é mais interessado, outro menos, mas ela se mantém até hoje e é uma entidade forte, é uma entidade respeitada; já ganhou alguns prêmios, prêmios de decoração de rua em época de Natal. Assim como ela necessita de respeito, ela também é respeitada. Hoje eu sou um mero conselheiro, presidente do conselho, mas eu atuei inclusive para se construir um terminal de ônibus de excursão.

ALEGRIAS DO COMÉRCIO

Eu sou um pouco idealista, mais do que um bom comerciante. A minha maior vibração está em descobrir alguma coisa nova, em acrescentar alguma coisa que nos torne diferenciados dos demais, que agrade o cliente dentro do aspecto dele sentir que lá dentro é sempre alguma coisa especial. Então eu olho sempre com esse enfoque, além de cumprir aquela rotina chata do dia-a-dia.

CASAMENTO E FILHOS

Minha esposa se chama Solange. Conheci namorando com uma amiga dela e ela namorando com um amigo meu. De repente, nós trocamos. Acabei gostando dela, ganhei sua simpatia, e acabou dando certo. Hoje, especificamente hoje, estou completando 20 anos de casado. Ela é uma mulher formidável, me deu muita força, foi sempre companheira nas horas difíceis, sempre procurou me estimular, para eu ir em busca dos meus objetivos, sempre procurou apoiar, dar força, tentando nunca me desviar daquilo que é meu sonho, é meu desejo, é minha ambição profissional. A gente vive bem, temos três filhos, um de 19, um de 18, um de 13. O mais velho, de 19 anos, chama Patrick, o do meio se chama Pierre, tem 18 anos, e o pequeno se chama Felipe e tem 13 anos. Os dois mais velhos já trabalham. Mas o segundo, Pierre, especificamente, a gente percebe que tem o comércio no sangue. O Patrick já é mais tipo sonhador, um outro estilo.

INOVAÇÃO EM ARMARINHOS

Acho que a verdadeira arte está em tentar acompanhar a evolução dos tempos. E é fundamental pra essa geração nova conhecer profundamente a área de informática. Produtos nós vamos ter tantos lugares vendendo, tantas coisas, com essa abertura de mercado, então, nós vamos precisar ter um melhor sistema, o mais dinâmico, o mais evoluído, o mais rápido, pra que possa superar uma nova fase. Nós estamos vivendo hoje ainda uma fase de entusiasmo, porque está cheio de novidades, mas já, já a gente se acostuma com essas novidades. A concorrência vai se tornar cada vez mais forte. Então, acho que inovar é criar mecanismos através do computador que possam criar facilidades pra que a pessoa compre sem precisar se locomover tanto... É mais ou menos essa a linha do futuro que a gente enxerga meio de binóculo. Isso vai precisar ser depurado, e essa próxima geração vai ter essa incumbência.

SONHOS

Eu brinco muito porque gosto de viajar, o meu maior hobby é esse e talvez eu pudesse fazer isso com mais intensidade. É muito sonho, muito desejo e pouca realização. E sou especificamente apaixonado pela Alemanha, pela França, enfim, aquele miolozinho da Europa. Talvez em vidas passadas eu tenha passado por lá. Aquilo me encanta! Imaginar viver um período lá mexe com o meu sentimento, com a minha sensibilidade. Mas, isso é fantasia. Não sei dizer se eu seria mais bem sucedido ou mais realizado se fosse um engenheiro, ou médico, ou se tivesse outra profissão. Na geração em que eu nasci, o filho não tinha tanta opção de escolha. A gente ia na base do que o pai mandava. Não fui forçado a isso, mas fui relativamente induzido e acabei abraçando. Me sinto feliz, me sinto realizado, acho que proporcionei muita coisa saudável pra nossa empresa e pra própria região. Quem sabe até pra muitos clientes e fornecedores. Desejo ter saúde, ter uma família legal, encaminhar meus filhos, poder parar de trabalhar um dia sabendo que alguém vai fazer isso por mim e fazer melhor do que eu faço, pra que eu possa curtir um pouco mais a vida! Não tenho grandes ambições nem grandes necessidades de mudanças.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer essa oportunidade, de ter sido escolhido pra fazer esse trabalho num universo de inúmeras pessoas. Isso me dá uma sensação de orgulho, uma sensação de um dia eu até poder me ver no futuro num computador, saber as besteiras que eu vim falar. É um trabalho extremamente válido, extremamente sensível. Inclusive, pelo fato de eu ser idealista, acho que nós estamos registrando, não só com a minha entrevista, mas como com a entrevista que vocês estão fazendo com outras áreas e com outras pessoas, de marcar a década de 1990 da nossa São Paulo. A somatória desses depoimentos deva dar uma noção de como as pessoas vivem e o histórico, seu sonho futuro registrado. Cada comerciante da nossa cidade com sua história, com sua procedência e com sua ambição.

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