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Ao encontro do amor e da família

História de: Rosa Helena Seabra Mesquita
Autor:
Publicado em: 20/11/2014

Sinopse

Rosa Helena Seabra Mesquita nasceu em vinte e cinco de maio de 1969, em Santo Antônio do Sá, no Amazonas. Com seus irmãos, seus pais migraram para Manaus, deixando ela e a irmã com os avós maternos. Em pouco tempo a irmã também vai para Manaus. Sua infância com os avós foi marcada pelo carinho deles e pela solidão. Com a morte deles, adolescente vai morar com a mãe em Manaus. Consegue emprego de babá e vai morar com uma amiga. Com um colega de trabalho, tem seu primeiro filho que vem a falecer com oito anos de idade. Casada com o seu atual esposo, tem mais três filhos e trabalha como atendente no Espaço Solidário de Manaus. Sente-se feliz porque realizou seu grande sonho: ter uma família, esposo e filhos.

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História completa

Me chamo Rosa Helena Seabra Mesquita, nasci em vinte e cinco de maio de 69, em Santo Antônio do Sá, no Amazonas. Meu pai se chama Milton Seabra, a minha mãe, Maria Pinto. Ela trabalhava em roça, no interior e o meu pai, também. Pouco tempo eles ficaram no interior, migraram tudo aqui pra Manaus. Agora são separados, não moram mais juntos. Minha irmã, a mais velha é Cleonice, tem o Enéas, Elias, Elaine e Elisabete.

Minha infância com eles eu não posso dizer muito, porque eu me criei com a minha avó e meu avô, desde bebê. Eu vim morar com a minha mãe em Manaus, eu já tinha 16 anos. Porque quando a mamãe me teve, a família não quis que o meu pai ficasse com a minha mãe. Minha mãe, não sabendo o que fazer com uma criança, que eu acho que toda mãe, quando não tem experiência, ela preferiu dar pros meus avós criar, eu e a minha irmã mais velha.

Meu bisavô era peruano e a minha bisavó era indígena. Eu era criança não tive curiosidade de saber qual era o nome da tribo. Já quem me falou foi a minha mãe, porque todo mundo perguntava: ‘Por que esses olhos puxados, esses cabelos negros, liso?” Aí eu fiquei curiosa e perguntei pra minha mãe e a minha mãe me falou que o meu avô era peruano e minha avó era indígena. Só isso que ela falou.

Meus avós, que eu tenho um pouquinho na lembrança, o meu avô, ele era muito carinhoso. Quando ia pra escola, às vezes, que eu não fazia tarefa, às vezes eu brincava muito, a minha vó brigava, ele nunca deixava ela brigar comigo: “Deixa ela brincar, porque ela é uma criança”. Eu sempre ouvi o meu avô falava pra minha avó, me lembro assim deles com muito carinho, eles eram muito carinhosos e atenciosos comigo. O meu avô fazia aquelas bonequinha de madeira, ele fazia as coisinha de madeira, as panelinhas, tudo de madeira. A arte em madeira, que era o que ele tinha condições de fazer pra mim brincar. A minha irmã me abandonou também, eu tinha nove anos, ela me deixou e ela veio morar em Manaus com a minha mãe. Ai, de nove anos até 16 anos, eu fiquei só com os meus avós. Me sentia uma criança muito só, eu não interagia muito com outras crianças. Como eu vivia só na minha casa com meus avós, eu não interagia muito com as crianças da escola. Eu ia pra escola, brincava sozinha, no meu cantinho, na verdade, nem saía pra merenda, ficava na minha carteira. Quando batia pra sair, já ia direto pra casa, porque meus avós diziam: “Você vai pra escola, não bagunça na escola e vem pra casa. bateu a campa” – que eles falavam – “bateu a campa, vem direto pra casa”. Eu fazia pra minha avó não pegar muito no meu pé.

Os meus avós faleceram e eu não tinha mais com quem ficar lá. Tinha meus tio, mas cada um deles tinha a sua família. Então, como a minha mãe morava aqui, eu sentia muita curiosidade de conhecer como que era a vida dela aqui em Manaus. E ela tinha os meus outros irmãos aqui em Manaus. Foi quando eu vim pra cá. Eu cheguei era três horas da manhã, e a minha mãe não sabia. Toda vez que o barco chegava que vinha de lá, ela tava lá. Quando ela chegou lá, foi surpresa foi uma emoção muito grande. E ela não sabia nem o que fazer, não sabia se chorava ou se conversava comigo, perguntava como tinha acontecido pra eu estar ali naquele momento. Foi uma emoção muito grande, de muita alegria, de eu estar reencontrando a minha mãe, e ela também tava me reencontrando.

Aqui em Manaus foi mais difícil, porque a minha mãe trabalhava, eu só ficava os meus irmão e minhas irmã em casa, uma pessoa estranha, num lugar estranho. Eu acostumada, cresci sozinha com os meus avós e cheguei aqui, eu não tinha o meu canto, eu não tinha uma cama. Tinha que passar a dividir a cama com a minha irmã, aquele momento foi um pouco difícil pra mim, eu me sentia como não fui bem-vinda. Mas a partir dos 17 anos, já comecei a trabalhar em casa de família, como babá e fui trabalhar como babá até 23 anos, eu tive um filho que faleceu, de uma pessoa também que não quis, mas ai depois, eu fui pra escola, mas tinha que trabalhar, passar o dia trabalhando, cuidando de um outro bebê, eu não achava um tempo pra mim estudar. Eu não parava na casa da mamãe, ficava na casa da pessoa que eu trabalhava como babá.

O primeiro amor você nunca esquece. A gente ficou namorando uns cinco anos, mas não deu certo. Foi quando eu conheci o pai do meu primeiro filho que faleceu, também não deu certo. Aí, eu fiquei bastante tempo sozinha, eu fui encontrar o meu atual esposo com 31 anos.

Trabalhei como babá até 23 anos. No ano seguinte, fui trabalhar numa empresa, comecei esse trabalho como auxiliar de serviços gerais. Depois, eu fui promovida para auxiliar administrativo. Fiquei uns três anos e depois deram a minha conta, devido acho que eu ter ficado grávida, e também, se envolvido com um colega de trabalho. Eu fiquei mais uns cinco anos sem trabalhar, ai eu fiquei com a minha mãe. Eu tinha um padrasto que ele não gostava de mim. Implicava muito comigo, ele pediu pra minha mãe escolher ou eu ou ele. Então, como eu sempre digo assim, se você gosta da sua mãe, eu disse pra minha mãe que eu preferia sair de casa, ai eu fui morar na casa junto com uma amiga, na Betânia, chegando lá, foi quando eu conheci o meu esposo. Voltei a trabalhar em casa de família pra poder sustentar o meu filho também, eu tinha que dar tudo pra ele, porque eu era pai e mãe dele. Quando eu conheci o meu esposo em 1999, dois anos depois meu filho faleceu com insuficiência respiratória. Ele tinha oito anos.

Minha família é evangélica, porque antes, não tinha ninguém que era evangélico da minha família. Eu conheci através das minhas dificuldades, quando eu fui lá pra Betânia, essas vizinhas de lá apresentaram Jesus pra mim. Elas disse que se eu fosse pra igreja, talvez a minha vida mudaria. Eu fui assim, com muita fé, realmente crendo que ia mudar, eu acho que realmente você tem fé e crê que a sua vida vai mudar, o que eu pedia muito era uma família, porque eu me sentia muito só. Eu só tinha o meu filho, mas ainda não tava completa, eu acho que toda mulher sonha um dia se casar, ter uma família, ter uma casa pra cuidar. Então, era esse o meu sonho também. Hoje temos três filhos. Ter uma família me senti segura, protegida, amada.

Depois que eu me casei, eu não trabalhei mais, por causa dos meus filhos, que eram pequenos, não podia trabalhar, só o meu esposo que trabalhava. Eu achava muito bonito pessoal que fazia doce, salgado e eu também era curiosa pra aprender. Foi quando eu fui fazer o curso lá, no centro social do bairro, com o pessoal do Consulado [da Mulher].

Eu não sabia fazer ainda doce, salgado, não sabia fazer bolo, não sabia fazer nada. Então, lá no curso que eu aprendi a fazer. Fazia os salgados e bolos e colocava na frente de casa, só que como a rua tem pouco movimento, então não dava pra vender pouco, mas dava pra vender. No final do termino do curso, a moça que levou o curso pra lá, a Daila e a Eli, a Eli dava o curso de pintura na lata e a Daila tava com o curso de doces e salgados. No final, ela falou: “Olha, mulheres, se vocês estão aprendendo aqui, é pra um dia vocês ganharem dinheiro, mas tem que fazer tudo bem direitinho, que vocês vão vender bastante, vocês vão ganhar dinheiro”, ela falou. “Mas o dia que você precisar, você pode me procurar, que eu estou lá no Consulado da Mulher, na rua Tapajós, dentro de uma empresa, na Brastemp, então, você pode me procurar lá”. Meueu esposo ficou sem trabalho, desempregado e eu disse assim: “Agora, no momento, eu quero trabalhar, você fica em casa um pouco com os meninos, eu vou trabalhar”, foi quando eu vim no Consulado da Mulher e disse: “Daila, você falou que se um dia eu precisasse, eu vinha te procurar. Então, hoje eu estou aqui te procurando e eu preciso trabalhar”, foi quando ela me apresentou, o projeto da empresa que tem a lanchonete aqui, como hoje vocês viram a lanchonete, que estava abrindo uma seleção. E foi quando ela me encaixou.

No Espaço Solidário, eu aprendi a manusear chapa, que eu não sabia, logo no inicio, eu me queimava muito, era cheia de marca, apesar de que tinha luva. Eu não sabia fazer sanduiche, nada na chapa eu não sabia fazer. Cada uma faz um pouco de tudo, a gente tá tendo tipo um rodizio.

O importante no momento é a minha família, que eu consegui conquistar. Eu era uma criança que eu me criei sozinha e eu me sentia muito só. Quando eu cheguei na fase da juventude, eu falava pra mim no espelho: “Deus, eu preciso ter um esposo, eu quero ter seis filhos, pra nunca mais eu me sentir só”.

Eu me senti feliz, porque é o que eu sempre sonhei ter a minha família e estar tendo um trabalho, tendo uma oportunidade, de superar a dificuldade.

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