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História

Antigo morador do Bom Retiro

História de: Boris Minkovicius
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/11/2014

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Meu pai era prespontador, fazia calçados. E minha mãe era dona de casa, não é que nem hoje que o pessoal sai pra trabalhar. Naquele tempo, eram outras coisas.

 

Como eu moro no Bom Retiro até hoje, quer dizer, era tudo na redondeza, não tinham salões de festas, era tudo em casa mesmo. Casa assim, que nem nós estamos num local fechado. As festas que tinham, não tinham orquestras tocando, balada, não tinha nada disso. Hoje se tornou porque é uma coisa mais moderna. Naquele tempo não tinha nada disso. Eu ficava na rua jogando bola, era tudo terra batida. Não tinha negócio de asfalto, era tudo paralelepípedos e terra batida. Depois que começou. E não tinha prédios, eram casas.

 

 

Quando eu comecei a trabalhar, comecei trabalhar como office boy. Naquela época, não é que nem hoje, que em qualquer lugar você entra e paga um título. Naquele tempo tinha os bancos precisava tirar um boleto pra enfrentar as chamadas, pra pode pagar o título. Então a gente carregava dinheiro. Eu trabalhei com importação, então a gente fazia as guias de importação, precisava carimbar no Banco do Brasil. Dá saudade dessa época. Hoje acho que não. Hoje você tem internet, então você tem tudo na mão. Naquele tempo você enfrentava. Uma vírgula que não estava bem colocada já perdia todo o trabalho, precisava voltar e refazer todo o serviço.

 

 

Lembro bem dos bondes. Naquele tempo era bonde. Bonde ou ônibus.Por exemplo, eu vinha do Bom Retiro para o Largo São Bento, então o bonde era totalmente aberto e o cobrador andava cobrando da gente. Ele puxava um tipo de um elástico pra máquina registrar e ia registrando. Quando ele chegava ao ponto final, ele girava uma chave, que nem chave de relógio de corda, e zerava aquele marcador. Então marcava quantas pessoas ele cobrou. E o bonde era controlado pela Light. Não era pela... Era pela Light. Estação de bonde tinha na Alameda Glete, tinha na Penha. Na Penha não, minto. Tinha no Brás, tinha na Vila Mariana. Aí tinham estações de bondes. Tinha bonde que vinha do Largo da Clóvis Bevilacqua, Praça João Mendes, ele ia pra Santo Amaro.

 

A gente trabalhava de segunda a sábado meio-dia, sábado de noite a gente ia ao cinema, ia a um baile se tivesse. Não tinha esse negócio de restaurante, quando muito, a gente ia comer um pastel numa pastelaria que tinha e só. Mas cinema, a gente nunca deixava de ir no sábado à noite.Nós éramos uma turma sempre unida. Tudo na mesma idade, nós éramos cinco, seis amigos, todos íamos juntos. A gente combinava tal horário de se encontrar num determinado ponto. “Bom, vamos assistir a esse filme?” Então todo mundo ia assistir. Ninguém reclamava. Todo mundo ia junto. Todo mundo ia junto. Saía de lá, ia comer alguma coisa, assim, algum... Tinha a famosa Salada Paulista, que era na Dom José de Barros, depois passou pra Avenida Ipiranga. Era o famoso hot dog com purê de batata, tomava um chope, era muito divertido. Essa Salada Paulista, na realidade, ela começou na Rua Dom José de Barros e depois passou pra Avenida Ipiranga.

 

 

Eu trabalhava num escritório de contabilidade e eu fazia serviço da firma do pai daquela que foi ser a minha esposa mais tarde. Eu estava num escritório trabalhando num local e tinha uma janela do outro lado da rua, e eles eram clientes do escritório, a firma do pai dela. Ela vinha à tarde lá na firma pra ajudar o pai dela e ali eu acabei conhecendo-a assim, olhando, ela olhando pra mim. Eu a conheci em 1960. Isso eu lembro como foi. Demoramos pra namorar. Entre namoro e casamento eu levei quatro anos. Eu a conheci em 1960 e casei em 1964, em outubro de 64. Eu vivi com ela durante 43 anos quase.

 

 

 

 

Depois trabalhei num escritório de importação que eu era office boy, corria pra lá, pra cá, fazia todo esse negócio, em 57 eu já era formado contador e fui trabalhar num escritório de contabilidade. Lá eu trabalhei de 57 a 60. Ali já era diferente, eu fazia serviço de contabilidade. Então fazia serviço de contabilidade, tinha serviços de repartições, não é que nem hoje. Você pode imaginar como era que era pra pagar impostos, não é que nem hoje, você emite a nota e no fim do mês você, soma e paga o imposto que você precisa. Naquele tempo você pagava antecipado. Antes de emitir uma nota fiscal, você calculava quando que eu vou faturar, quanto que eu vou emitir de nota pra poder pagar, pra poder depositar o dinheiro do imposto que seria ad valorem pra quem era indústria. Não era nem ICMS, era imposto de vendas e consignações, era SELO. Era outra época. Aí eu trabalhei de 57 a 60 nesse escritório. A minha irmã trabalhava num escritório e ela ia sair pra casar, ela falou para o dono do escritório: “Olha, eu vou sair pra casar, você arruma alguém pra ficar no meu lugar porque eu não vou ensinar ninguém”. Ele foi levando em banho-maria, foi levando em banho-maria, foi levando, aí ela falou: “Eu só trabalho até agosto, porque em setembro eu caso”. Aí ele perguntou pra ela se eu queria trabalhar no lugar dela. Aí ela veio perguntar pra mim se eu queria ficar no lugar dela, eu falei: “Vai ser um pouco difícil, porque eu não sei se ele vai querer”. Ela falou: “Não, ele quer”. Eu peguei e fui trabalhar com ele no lugar da minha irmã. Lá eu trabalhei de 60 a 68. Não pensa que eu tive muitos empregos na minha vida, só tive três empregos na minha vida. Três. Eu sou contra esse negócio de gangorra, de ficar pulando de um lugar pra outro. Aí eu trabalhei de 60 a 1968. Em 68 eu passei a ter escritório de contabilidade próprio, até 1990 e até 97 eu tive escritório próprio.

 

 

Minha alegria hoje é ver meus filhos formados. Fora ver meus filhos formados e estão numa posição muito boa, que os filhos não tão dependendo de mim, é uma das alegrias. Acho que todo e qualquer pai ou mãe gostaria de ter isso na vida. Não um filho precisar depender do pai, mas o pai depender dos filhos. Isso que eu acho muito mais bacana. E o respeito que eles têm por mim e eu tenho o respeito por eles, tanto pelos meus filhos, pelas minhas noras, pelas duas noras e pelos meus netos.

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