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História

"Antigamente eu não tinha medo de nada"

História de: M. F. S.
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/09/2013

Sinopse

Em seu depoimento Nega Tchan conta como foi sua vida fora da prisão, sobre o marido e seu envolvimento com o crack. Conta como é cotidiano na prisão e como vai recuperar sua vida após a sua saída.

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História completa

Eu já estava de vento em popa, registrada, tenho meus cartões de crédito, graças a Deus, ainda tenho minhas coisas. O crime pra mim ficou pra trás. Eu tive três parceiros na minha vida. O W. era craqueiro, então eu tinha que comprar crack pra ele, trabalhava e eu tinha que ir buscar crack pra ele. E eu acabava ficando com dó e comprava crack pra ele. Mas chegou uma hora que eu falei: “Eu não quero mais não, W., você está me chamando de novo pra droga que um dia eu deixei pra trás”. Aí foi onde eu larguei dele, por causa do crack. A minha prisão foi um golpe fatal porque eu tinha ganhado tudo, eu tinha feito tudo. O A. ainda estava lá fazendo o bar do seu F. e eu arrumando lá. Só que eu não prestava atenção na rua, em nada, só queria sair da rua. Quando foi no outro dia, que eu fui trabalhar, era noite, deu dez horas da noite e eu: “Caramba, mas o bar foi entregue, o seu F. já tinha pago o A.”, porque estava cobrando os dois mil que estava na rua. Aí eu parei, quando eu parei não vi mais nada, só vi coisa preta na minha frente: “Você está presa”. Eles ainda entraram dentro de minha casa, eu mostrei pra eles. “Não faça isso, não” “Nós somos obrigados a fazer sim” “Não faço isso, não, cabo”. Eu só baixei a cabeça e falei: “É isso mesmo, eu errei”. Eu vou fazer o quê, é verdade. Eu estou há quatro meses aqui, mas eu estou indo embora. Saio no dia 15 do novembro de 2013. Na verdade a minha cadeia caducou, mas a Justiça! Então, vou ter que pagar. Vou nos advogados, porque tem umas coisas de serviço pra resolver. Até falei isso pro polícia, eu falei pra ele: “Olha, minha carteira aí, senhor, eu mudei. Eu mudei, não faça isso não. Hoje eu não sou mais a Nega Tchan, eu sou a M., o senhor acha que eu estou achando bom ficar aqui? Eu não estou, mas eu sei o que eu fiz. Eu errei! Eu sei”. Era para eu ter saindo do serviço agora, suada, cansada e dando glória a Deus pelo meu salário. O senhor acha que eu gosto de roubar?” Eu não gosto de roubar. Hoje eu não aceito roubar, sabe por que eu não aceito roubar? Porque eu senti na pele que o dinheiro trabalhado é o dinheiro abençoado, e o dinheiro roubado não leva a nada. Hoje eu senti que eu roubei tanto, eu trafiquei tanto, eu nunca tive um cartão. Nunca tive chance de fazer um empréstimo e hoje eu tenho. Então hoje eu dou valor pro emprego, sim, e faço sem fazer cara feia. Porque o emprego, na verdade, deixa a gente grande. O crime não, o crime não. Os meus amigos todos morreram, muitos de Aids, muitos de morte, hoje eu só quero viver e eu vou viver. Primeiramente eu vou atrás dos meus documentos porque se eles me prenderam e eu estou aqui pagando pelos meus erros, eu vou até o fim, eu quero a minha carteira. Eu quero minha carteira, eu quero meu PIS que estava dentro da carteira, eu quero tudo que estava dentro da carteira. Eu sinto falta da minha carteira de trabalho aqui dentro, eu sinto falta. E eu pus na cabeça que eu vou atrás, eu pus na cabeça que eu vou trocar ideia com o delegado como gente, porque eu quero o que é meu. Porque eu estou pagando, já não paguei? Minha carteira não é fria, minha carteira é de verdade. E eu quero buscar o que é meu. E quando eu sair daqui eu estou pronta pra sociedade de novo. Por quê? Porque eu tenho várias agências a meu favor, umas agências chiques, patroas de verdade eu tenho. Mas com minha carteira na mão porque sem minha carteira eu não sou ninguém. Eu vou ter meus advogados, eu vou ver como está sendo essa perícia, se eu ganhei ou não. E bola pra frente. E o mundo do crime acabou. Depois que eu aprendi tudo o que eu vi na rua, acabou. Principalmente o meu marido. Porque na verdade, se eu escutasse um pouco o A. eu não tinha parado aqui. Na verdade eu gostava que o meu marido, a gente dormindo lá embaixo da ponte, bebendo sua cerveja. Eu gostava que ele tinha dinheiro na carteira dele, então eu roubava pra por na carteira dele. Ele dizia: “Não faz isso não, não vai precisar disso, a gente vai sair daqui” “Não, meu querido, fique em paz”. Eu tirei o A. da casa dele, ele não era um homem de rua, não morava na rua. Na verdade, eu cheguei a prejudicar o A., pois eu cheguei a dar o crack para ele usar. Eu pus o crack na boca dele. Porque a gente estava na rua e eu falei que estava tudo acabado. Será que eu levei meu marido pra essa droga? Eu me culpo porque ele não era desse jeito. Ele era personal trainer, ele trabalhava, era o tamanho de um homem, um cara bonito, vestido bem, com cavanhaque, sabe assim calvo, fortão, roupa boa, sapato bom, unhas feitas. Eu atirei ele pra debaixo da ponte. Brigou com o vizinho por causa de mim, então às vezes eu me sinto culpada. Eu espero que não, eu espero que aqueles dois pegas que ele deu no crack, que não fez nada com ele, eu só peço a Deus por isso. Se ele arrumou uma pessoa lá fora, se está bem pra ele, que beleza, que Deus abençoa ele porque eu não fui mulher certa, eu fui uma drogada. Ele amou eu, eu sou uma bandida. Porque ele falava mesmo: “Eu arrumei uma mulher bandida, ladrona e traficante”, ele falava desse jeito. Eu digo: “Sou isso mesmo, meu querido, eu não vou mentir, você não casou com uma inocente, eu sou mesmo”. Eu estou falando pra você, eu tenho dez cadeias com essa. Meu padim, ele levantava quatro horas da manhã pra vir pro fórum da Barra Funda, era três horas da manhã e o velhinho tava de pé. Durante toda a minha cadeia ele me ajudou a pagar a cadeia, pra hoje de novo? Não. Hoje de novo, não. Eu vou até o fim. Daqui a pouco está acabando e eu vou. E tem outra, todas as outras cadeias eu nunca tive visita. Depois começou o padim Ciço que me visitou no Dacar, mas eu nunca tive visita. Eu tenho cartas de algumas amigas que hoje já não recebo mais. São meninas que eu ajudo. São meninas de rua que estão presas e que eu ajudo. Aqui é diferente, por isso que eu pedi meu bonde até o fim pra vir pra cá. Então vamos esquecer a pé e vamos catar o lixo. Então a senhora chega sem calcinha, você chega sem nada e aí eu estava de prontidão pra te ajudar. Chega uma doente, uma enferma e eu estou ali pra ajudar a limpar. Essas são as amigas que eu arrumo na cadeia. Eu sou o que eu sou na rua, meu coração é brando, não posso mudar em nada. Então é onde que a gente faz aquela amizade e acaba sendo amiga pro resto da vida. Então são pessoas que chegam lá em não têm nada, não tem roupa pra vestir, não tem um Prestobarba porque a cadeia é humilhação, não o sistema. Cadeia! Franco do Osso, que eu odeio aquela cadeia! Ali é humilhação total. Então, eu enfrento bandida mesmo por causa das humildes, não estou nem aí. Pode ser a pior bandida, se eu achar que está catando uma humilde eu não quero saber, até aqui dentro mesmo, se eu achar que ela não tem que por a mão na senhora, não vai por a mão, que eu não aceito, eu já apanhei muito. Já apanhei também por coisas que eu não cometi, já fui julgada por coisas que eu não fiz. Então hoje eu não aceito. Porque eu sou Nega Tchan, mãe de rua, então eu limpo, chega doente que rouba por causa de um xampu, eu limpo, eu dou banho, eu depilo, eu ensino a se limpar. É onde que elas me fazem de amiga, e a gente acaba tendo uma amizade, e é onde acaba ajudando a outra, ontem tem os contatos, escrevemos, nós conversamos sobre os bafões que estão acontecendo, hoje mesmo vou escrever que comprei uma televisão porque a diretora dá espaço pra gente, graças a Deus, comprar a nossa televisãozinha. Porque preso é neurótico, agora a polícia também é mais neurótica ainda, mas é muito bom. Se tiver doente leva. Tem carro pra socorrer a gente, lá não tem carro pra socorrer. O limpei o vômito de um HIV morrendo no pátio e gritando: “Polícia, polícia, polícia! A mulher está morrendo”, e os policiais nada. Morreu. E aqui já não, aqui já não. Mesmo se o carro não atravessa até lá, mas elas tiram a gente. Acode. Abre as portas, manda a gente ajudar as barrigudas porque aqui tem um monte de barriguda. O sistema aqui tem isso, essa irmandade, sim. Tem. A gente também é um pouco ignorante, elas não têm culpa. Ninguém tem culpa de nada. Porque uma chega lá, sim senhora, ferrada, mal paga, sem onde cair morta, uma ali dá uma roupa, outra ali dá uma roupa, uma ajuda, uma dá um sabonete. Precisa ensinar. Porque eu fui ensinar. O gênio que eu carrego, independente de qualquer coisa eu fui ensinar. Aí eu fui lá, muitas tinham vergonha. Eu falei pra ela: “Eu sou casada, não fico” “Mas como é que é? Como funciona?”, eu digo: “Ó, aqui é sistema, é assim, assim e assim, você tem que ir lá”. E como ela vem de uma família que não faz sua higiene embaixo, acharam mortal aquilo. E onde ela falou: “Mas, Tchan, minha mãe e meu marido não ligam”, eu digo: “Mas está na cadeia. O seu marido não liga, a sua família, na cadeia higiene é fundamental” “Mas eu não sei” “Você sabe sim. Porque você vai aprender agora, minha querida”. Fui, arrumei um Prestobarba, digo: “Venha aqui comigo”. E ela naquela vergonha dela, eu digo: “Não fica com vergonha, eu sou mulher que nem você”. Aí ensinei. Comecei a depilar. Ela: “É assim? Mas está coçando”, eu digo: “É. Porque é a primeira, você nunca fez isso, já?” “Não”, eu digo: “Então é assim, minha filha”. Ah, tem que fazer uma higiene, umas coisas do corpo. Porque é cadeia! Mundo do crime? Como eu disse, eu não gosto de ficar aqui. A senhora acha? Eu não gosto, não é bom. É ruim. A gente está fechada em quatro paredes, mas aqui dentro também existe família. Eu vou logo dizer porque eu sou original, desde as guarda-presa, não tenho nada com nenhuma delas, respeito elas como elas me respeitam. Às vezes sou malcriada, quando eu estou assim. Mas eu tento me conter pra não ofender, pra não prejudicar porque a senhora sabe que tem castigo. (risos). É brigando com a guarda e ao mesmo tempo não brigando com a guarda. Porque eu brigo com ela e ao mesmo tempo já abraço e beijo pra ficar bonitinho (risos). Porque castigo ninguém merece. E assim vai acabando a minha cadeia assim, e aí eu vou tirando. Não tenho perda de regalia nenhuma, principalmente com as guardas. Eu cato as presas, mas eu não cato as guardas. Mas é verdade! Eu cato a presa. Por que eu vou catar a guarda? Eu ajudo elas, se for na minha portinha sabe que eu ajudo. Já as guardas já não, com as guardas eu tenho que ser mais amiga delas ainda porque é com elas que eu vou pegar essa porta, vou embora daqui pra nunca mais voltar. E vou sentar de novo na mesa da diretora e ganhar meu parabéns. Porque eu saí daqui sem perder uma regalia. Minha pasta está lá. Eu fui uma boa educanda. Triste, sapeca? Sim. Mas eu fui uma boa educanda e estou sendo até hoje porque eu voltei pra trás. Estou de volta aqui. Mas daqui pra frente acabou, mudou, eu não quero mais saber. Eu já não queria mais mesmo, o crime eu não quero mais, acabou. Minha mãe de rua me batizou na rua, como Nega Tchan. Porque eu sou Tchan também, eu ando muito bem vestida na rua. Quando eu me boto com meus cabelos, minha querida, só Deus segura (risos)! Eu durmo na rua. Quando a senhora vê, eu levantando do chão a senhora não acredita que sou eu levantando do chão, ninguém acredita. Às quatro horas da manhã eu estou tomando banho dentro do bar, levo minhas higienes, tomo meu banho de água lá, lavo minhas roupas tudo lá, guardo na rua. Ando muito bem vestida e muito bem cheirosa. Por isso que eu me chamo Nega Tchan, pelo modo de me vestir, porque eu nunca andei que nem maloqueira. Pra ser menina de rua, eu vejo hoje naquela cracolândia, eu fundei aquela cracolândia com crack. Hoje eu olho aquela cracolândia e digo: “Meu Deus”. Eu olho aqueles moleques, eu olho tudo aquilo, porque aquilo ali foi minha vida, ali foi a minha vida, aquela cracolândia. Tudo sujo, tudo cheio de saco que eu olho assim. Porque quando eu era de lá, eu nunca andei daquele jeito, nunca que precisou, nem hoje que eu moro na rua nunca precisou. Eu cuido das minhas calcinhas pra todo mundo ver, debaixo do viaduto, lá no Brás (risos). Eu não estou nem aí, canto e durmo, penduro e tudo. Depois chegam os polícias e mandam eu tirar, eu digo: “Está quase secando” (risos). Então aquela cracolândia foi a minha vida também ali, ali dentro. Eu vi muita coisa feia ali dentro. Muita. Eu usando crack em cima de morto. Eu usando crack em cima de pessoas esquartejadas. Antigamente eu não tinha medo de nada.

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