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História

Antes dos sete

História de: Juliana Villanova
Autor: Juliana Villanova
Publicado em: 04/03/2017

Sinopse

Antes dos sete, narra o primeiro dia na escola, e os descobrimentos da criança na entrada ao mundo escolar.

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História completa

Lembro-me muito bem do cheiro e das cores do meu primeiro dia de aula. Estava eu com seis anos de idade. Vivi e vivo em uma próspera cidade do interior paulista e lá no final da década de oitenta não existiam muitas pré-escolas municipais na região, então o jeito foi encarar a primeira série antes dos sete. Fiquei muito empolgada quando a minha mãe contou a novidade, ela me comprou um caderno de brochura com um desenho na capa muito simples um lápis preto da Faber, uma borracha e uma caixinha de canetinha da Play Color aquela que tinha seis cores e uma delas era a cor branca que eu nunca entendi para que servia, e isso perdura até hoje. Vesti-me com esmero saia azul escura de pregas e camiseta da escola herdada de minha irmã mais velha, sandália melissinha branca, meias soquetes e rabo de cavalo, era uma menina alta para seis anos, estranha, sociável e tímida ao mesmo tempo. Com um misto de ansiedade, alegria e medo, cheguei à escola, lembro-me da minha primeira professora, meia idade, cabelos curtos castanhos, enérgica e simpática, meus companheiros de turma eram os mais velhos da escola, em minha observação infantil percebia que a maioria deles era diferente dos demais alunos das classes do primeiro ano, inclusive de mim mesma, porque estavam beirando a adolescência. Hoje entendo que aquela turma era a classe especial da escola, mas naquele momento era apenas a minha turma de crianças peculiares. No meu primeiro recreio cai, levei um capote, um tombo, uma “trombada” de outro menino, foi traumático, mas me incluiu no mundo cruel e verdadeiro escolar. As diferenças dos meus colegas não me importavam, eles tinham dificuldades de coordenação motora, não sabiam ler, uns dormiam a aula toda, outros urinavam nas calças, alguns tinham problemas comportamentais sérios, mas e daí, isso não importava porque juntos éramos aceitos pela professora, me sentia assim uma menina peculiar, não sabia escrever, nem ler, nem segurar direito no lápis, cai no meu primeiro dia de aula, enfim aquela turma era a turma certa. No decorrer do primeiro semestre fui percebendo que já não tinha mais problemas para fazer as lições, e as letras eram fáceis demais, por vezes ajudava meus colegas nas atividades. Depois das férias de julho minha mãe contou a novidade: eu iria mudar de turma. - Como assim mudar? E meus colegas peculiares? Minha professora? E agora? Ela explicou que eu tinha evoluído (não sabia o significado). - Soltou um... você já sabe ler filha! Como se ler fosse algo extraordinário. Não entendi direito o que eu tinha feito de errado para sair daquela classe, mas o jeito foi aceitar, e lá vou eu novamente para outro primeiro dia de aula, ainda, antes dos sete, só que desta vez não tinha graça, porque ninguém era especial, extraordinário, “fora do padrão”, descontrolado ou estranho, muito pelo contrário todos eram assim, comuns, sabiam ler, escrever e colorir casinhas com nuvens e sol sorrindo! Minha experiência, antes dos sete, ensinou uma lição que levo para a vida, o respeito pelas diferenças. Afinal de contas viver sempre é peculiar e extraordinário.

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