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História

Antenada no seu tempo

História de: Lia Ancona de Faria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2013

Sinopse

A entrevista de Lia Ancona de Faria foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 31 de outubro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Lia Ancona de Faria é formada em arquitetura pela universidade Mackenzie e durante toda a sua tragetória educativa estudou em boas instituições como o colégio Dante Alighieri em São Paulo. Lia foi ativa na questão de militância, principalmente no seu período de graduação em arquitetura. Período no qual a depoente trouxe um documento do DOPS que e define como uma das principais "agitadoras" do curso dela. Lia trabalhou muito anos da prefeitura em sua área de atuação e foi onde também se Aposento.

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História completa

Meu pai não fez faculdade. Aliás, meus avós, dos dez filhos que eles criaram, só o mais velho é que se formou em Direito. Tinha seis homens e quatro mulheres; as mulheres, é claro, só faziam piano, cozinhavam, essas coisas, bordavam. Meu pai começou a trabalhar cedo. Ele fazia um tanto de bicos assim de agências de publicidade, levava anúncio, fazia essas coisas até montar a própria agência de publicidade com o meu tio, o irmão mais velho dele. Chamava Publicidade Sem Rival. Usava esses nomes bem absurdos. Hoje ninguém poria Publicidade Sem Rival, mas era uma época bem diferente. Ele organizou programas de rádio, organizou um programa com o Chico Alves. Então, depois ele construiu um cinema. Cinema Coral na Rua Sete de Abril. E ele introduziu, na verdade, o conceito de cinema de arte. Ele foi bem conhecido no meio. Fazia festivais. Festival Italiano, Festival Francês, Festival Russo, porque ele tinha um contato com o pessoal da União Soviética, eu não sei através de quem que ele tinha esse contato, eu sei que ele era amigo pessoal do Luís Carlos Prestes. A gente conviveu bastante com o pessoal do partidão. São Paulo era bem residencial. A Rua Augusta tinha casas grandes, a nossa tinha dez de frente por 60 de fundo. Eram casas assim, bem fundas. Descia o bonde na Rua Augusta, eu me lembro direitinho blém, blém, blém, o bonde descendo. Passavam cabras na Rua Augusta. A Rua Oscar Freire não era calçada. Na esquina já tinha o Cine Paulista. Eu ia à matinê lá, eu e o Fábio, meu irmão mais velho, a empregada nos levava pra matinê. Tinha uma porta de ferro dessas de correr no cinema e passava dois filmes. A gente ia lá, assistia dois filmes. A gente almoçava em volta da mesa, jantava também. Eu nasci e logo foi a guerra. Então meu pai escutava o tempo inteiro com o radinho ouvindo notícias da guerra. Ele mandava todo mundo ficar quieto pra ele escutar. Era muito aflitivo aquilo. E tinha noites que tinha blackout. Então, tinha blackout que era ensaio pra cidade ficar no escuro, pra se viessem aviões, foi depois que o Brasil entrou na guerra, pra que se viessem aviões inimigos eles não verem a cidade pra não bombardearem. Colocava panos pretos nas janelas, cobria todas as janelas com panos pretos e aí tocavam uma sirene e você tinha que apagar a luz ou deixar uma luzinha fraca. Eu morria de medo. Aí tinha aquela sirene, todo mundo tinha que falar baixinho, no escuro. Era um negócio estranho. Eu tinha medo do blackout. Depois tocava a sirene de novo depois de um tempo e acabava. Aquela aflição contra o nazismo, contra o fascismo, tudo isso. E a gente chegou a ter restrição alimentar, porque a farinha era importada, então não tinha pão. Eu me lembro da gente fazer fila na esquina da Oscar Freire com a Augusta, tinha a casa Santa Luzia. Empório Santa Luzia na época, que depois virou a Casa Santa Luzia enorme e tal, mas já tinha lá o Empório Santa Luzia e lá a gente comprava, fazia compras. Tinha fila mesmo. Tinha restrições. Eu lembro que minha mãe chegava a comprar macarrão que encontrava e misturava com água, ovo, não sei o quê e fazia pães. Eu estudava no Dante, que era uma escola bem tradicional e bem reacionária. É o tal negócio, naquela época eu nem sabia julgar se era reacionária, mas eu sabia que eles eram metidos. Eu sempre tive essa coisa de não aguentar arrogância, de não aguentar gente que se achava superior e naquela época o Dante era uma escola assim, bem de italianos ricos e aquilo me irritava muito. Tanto que a minha família era de italianos, mas eu não gostava. Eu falava: “Mas que coisa esquisita”. Na verdade eu vim a fazer as pazes com a Itália quando eu fui pra lá. Eu tinha 18 anos. Eu viajei pra lá, aí eu realmente gostei da Itália. Fiz as pazes com a minha italianice, porque eu não gostava. Na verdade eu poderia ter feito muitas faculdades, se você quiser saber. Eu tinha interesse, eu era muito interessada em muitas coisas. Eu tinha muita vontade de fazer Psicologia. Eu queria fazer Medicina, depois comecei a dizer que eu tinha medo de sangue, de ver sangue, de cortar, disso, daquilo. Aí pensei em fazer Psicologia. Mas meu pai insistiu muito pra que eu fizesse Arquitetura. Eu estava muito indefinida. Então na verdade falei: “Então vou fazer Arquitetura”. E gostei de ter feito, e gostei de trabalhar como urbanista, principalmente. Que aí trabalhei na prefeitura e cuidar do urbano, da cidade. A cidade me empolgou. Eu gostei muito. Na faculdade eu comecei a participar de reuniões com um cara de esquerda e aí depois me falaram: “Entra no Partidão e tal”. Aí eu entrei. Eu e o Fábio, meu irmão, entramos. Aí eu era de uma comissão chamada Comissão Amigos de Cuba. Acho que era no sábado à noite ou na sexta à noite, a gente ia pra uma reunião, era lá na Praça João Mendes, não sei aonde era. Tinha lá um comitê Amigos de Cuba. Era uma coisa muito maluca porque a gente chegava lá, cantava umas músicas: “Eram só 12, Sierra Maestra, foram crescendo, são hoje milhões...”. Cantava umas músicas de Cuba, falava algumas coisas e vinha embora. Não sei o que significava exatamente este comitê Amigos de Cuba. Nessa época da renúncia do Jânio, que não queriam dar posse pro Jango, mas a gente fazia mil coisas, distribuía panfleto, cada coisa maluca. Eu ia lá, a gente ia numas oficinas falar com os caras, com os operários como se eles estivessem com a mesma cabeça que nós. Nós falávamos, eles olhavam pra gente, gente de classe média toda arrumada falando coisas. Eles olhavam pra gente assim tipo: “São loucas”. “O povo unido jamais será vencido”. Daquela época era novidade. A gente falava muito isso. Bom, aí no dia seguinte ficou combinado que nós íamos todos nos encontrarmos na faculdade de Medicina, nos jardins da faculdade de Medicina da USP. Era um negócio também, você ia se escondendo, mas também o que nós íamos fazer bem de verdade eu não sei. Nós íamos combinar, fazer algum movimento, alguma coisa, mas essa coisa que hoje eu olhando, acho que era bem inócuo. Olha, eu vou te dizer uma coisa: eu não sei se eu tenho um sonho. Eu me considero uma pessoa realizada, uma pessoa feliz, realizada profissionalmente, realizada como mãe, realizada no casamento. Eu vou fazer 50 anos de casada. Tenho um sonho assim talvez de tudo ficar bem, tudo continuar bem com a minha família, da gente ainda poder viajar um pouco.

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