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História

Anjo da rua

História de: Márcio Antônio Camara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Márcio é filho de portugueses que se conheceram já no Brasil. Teve uma infância difícil, seu pai era alcoólatra e a mãe trabalhava em dobro para manter a casa. Com dez anos começou a trabalhar, e nunca mais parou. Na adolescência, viveu o movimento Dark Punk, fase que lembra com carinho. Casou-se cedo, com vinte e três anos. Os dois primeiros anos de casamento foram uma lua de mel, mas a seguir, Márcio ficou desempregado e sua sogra, que morava no mesmo terreno que o casal, adoeceu. O casamento desgastou-se e sua esposa teve muita dificuldade de engravidar, durante os dez anos que a mãe ficou doente. Além disso, após a morte de seu pai, a mãe de Márcio também acabou adoecendo, e ficou com depressão. Sem ajuda das famílias, o casal foi se ajustando à vida. Márcio tornou-se taxista e, após a morte da sogra, sua mulher engravidou. Otávio, seu filho, nasceu trazendo muita felicidade à casa. No táxi, Márcio ouve histórias incríveis de seus passageiros. Escreveu um livro sobre deficientes físicos que moram nas ruas de São Paulo e isso foi sua maior realização. Hoje, sonha em ser escritor, e poder ajudar as pessoas como ajudou os depoentes de seu livro. 

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História completa

P/1 – Márcio, qual o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Márcio Antônio Câmara, 13 do seis de 1968, São Paulo.

 

P/1 – Que lugar de São Paulo?

 

R – São Paulo, capital.

 

P/1 – São Paulo, capital. E seus pais, como é o nome deles?

 

R – Manuel Amaro Câmara e Maria dos Anjos Damelin Prego Câmara.

 

P/1 – E os dois nasceram em São Paulo?

 

R – Não, são portugueses da Ilha da Madeira, Machico a cidade.

 

P/1 – Os dois são de lá?

 

R – São, são. Se conheceram aqui por coincidência.

 

P/1 – E os dois são da mesma cidade?

 

R – É. Sério, ele veio fugido do exército na época, e ela veio com meus avós, mas não se conheciam lá. E se conheceram aqui.

 

P/1 – Mas eles são exatamente da mesma cidade?

 

R – Da mesma. A dela é Vera Cruz, mas é tudo juntinho.

 

P/1 – E eles se conheceram aqui como? Você sabe?

 

R – Ah, eles trabalhavam numa casa de família. Ela era empregada e ele cuidava dos cachorros e do jardim.

 

P/1 – E os dois foram parar na mesma casa?

 

R – É. Destino mesmo. Mas não muito bom (risos), o final é trágico (risos).

 

P/1 – E seu pai e sua mãe faziam o quê?

 

R – Nessa época que vieram para cá? Empregada doméstica. 

 

P/1 – E seu pai?

 

R – Cuidava do jardim e dos cachorros dessa casa.

 

P/1 – Aí eles começaram a namorar e casaram.

 

R – É. Casaram.

 

P/1 – E foram morar onde?

 

R – Num bairro bem periferia, foi o terceiro morador no Cantagalo, depois de Pirituba. E depois ele comprou o bar dele, montou o bar dele no terreno dele, ela virou dona de casa, teve quatro filhos. Eu, ela fez aborto, mas não virou, to aqui hoje (risos). Pela situação que eles tinham, e sempre muita dificuldade na época, era muito difícil, não tinha carro, não tinha nada. Os filhos… Depois ele entrou em bebida, mulherada, jogo, e aí ela deu um filho para minha vó criar, a filha para outra tia criar, ficou eu e meu irmão mais velho. E aí, foi assim.

 

P/1 – Vamos voltar. E seus avós vieram para cá também?

 

R – Vieram só os maternos. E os avós paternos ficaram lá.

 

P/1 – E o que eles faziam, os maternos e os paternos?

 

R – Na época sempre empregados de casas, depois foram trabalhando por conta, português, enquanto ele não trabalha por conta não sossega, né? Então meu pai chegou a ter bar, meu avô chegou a ter outros tipos de empreendimentos, sócio de padaria, essas coisas assim.

 

P/1 – E quando você nasceu, você nasceu já nessa casa no Cantagalo.

 

R – Cantagalo, no porão.

 

P/1 – Como era a casa?

 

R – Era um porão só, era assim pequenininha. Eu lembro só depois dos cinco anos, mais ou menos. Porão, bem pobre. Mas aí meu pai montou o bar e começou a ir para frente.

 

P/1 – E vocês trocaram de casa?

 

R – Não, sempre lá. Morei lá até os doze anos.

 

P/1 – Nesse porão?

 

R – Não, não. Aí meu pai foi construindo, graças a Deus, fez uma boa casa.

 

P/1 – Era grande? Como é que era?

 

R – Era, era um sobrado. No fundo tinha um terreno grande. E assim, era um bairro de muita mata ainda, então, a gente tinha toda a rua para brincar naquela época.

 

P/1 – Vocês brincavam do quê?

 

R – Ah, bolinha de gude, pega-pega, esconde-esconde... Tinha um arquinho que você fazia para rodar um pneuzinho. Era coisa assim simples, mas era uma diversão, né? Eu ganhava presentinho dos primos mais ricos, e ganhava a sobra deles, tipo bicicleta, carrinho melhor, vinham desses primos que vinham de condições melhores.

 

P/1 – Você tinha primos...

 

R – Tinham mais condições. Português, a raça se dava um pouquinho melhor, alguns assim.

 

P/1 – Por que quando eles vieram para cá, a família também migrou?

 

R – Veio só da minha mãe. Os meus tios depois viraram empresários, tudo. Então depois meu pai acabou trabalhando na empresa deles também. Meus irmãos, todo mundo depois.

 

P/1 – E você brincava na rua com seus irmãos?

 

R – Não, não. Meus dois irmãos já estavam fora, na casa da avó, a irmã na casa da tia, o mais velho já meio na gandaia, porque a gente não tinha um bom berço, então era meio complicado. Meu pai na gandaia, bebida. Minha mãe tomava conta do bar, não dava muita atenção para a gente. Até mais pela ignorância deles, né? Então eu fui muito meio só, assim. Na escola eu ia no vácuo das outras mães, de carona, ficava todo enciumado daquelas mães levando as crianças de cavalo e eu ali na bota, minha mãe nunca me levou assim não. Foi uma infância bem assim. O legal foi a rua, que foi legal, tinha essa liberdade. Na escola fui bom até a terceira série, tudo. Aí, não tinha incentivo, nunca fui muito bem depois, não tive incentivo. Só terminei o ginásio, só.

 

P/1 – Mas como era na sua casa? Quem que exercia a autoridade, seu pai ou sua mãe?

 

R – Ah, meu pai depois com a bebida e a zoeira, a gente levava minha mãe como mãe e pai. Então, além da ignorância dela, também pelo berço, era muito avarento, um pessoal meio preconceituoso, racista na época. Até hoje essa raça de português, da minha raça pelo menos, é. Era muita ignorância. Ela xingava, gritava muito, tinha que tomar conta do bar, e naquela época mulher não se separava, então ela aturava tudo do meu pai. Ele fugia de casa, sumia, e a gente foi, eu fui criado meio assim. Depois o meu irmão mais velho juntou com a prostituta, foi embora e eu fiquei sozinho nesse tiroteio aí dentro de casa. Aí passou um tempo e ele começou a agredir. Foi uma infância bem conturbada.

 

P/1 – E você ajudava no bar?

 

R – Ajudava, ajudava. E com dez anos eu peguei um trauma, eu tinha uma conguinha azul que era obrigado usar no uniforme. E ela foi ficando apertada, e tinha um pouco de condições de comprar uma conga nova. Aí a minha mãe cortou o bico dela para continuar usando, tá ligado? Eu peguei um trauma tão grande, eu passei por ridículo, tinha que ir para escola assim, com aquele bico cortado. Eu falei: “Não, vou trampar”. Aí vendi sorvete, ajudei um peixeiro a vender peixe na carroça, de cavalo, na época. Fazia carreto na feira. Com dez anos. E depois eu trabalhei de vender sonhos. Sonhos que a gente come, colocava na bandeja e saía vendendo. Aí eu comprei o meu kichute, meus primeiros tênis assim, uniforme do Palmeiras na época, com o meu dinheiro. E assim, era mais a avareza deles, o relaxo mesmo da ignorância deles (risos).

 

P/1 – Quem fazia o sonho?

 

R – Era uma senhorinha evangélica. Era eu e mais dois amiguinhos, a gente saía, andava uns três quilômetros. Minha mãe não tava nem aí com a gente. Depois voltava, se trocava e ia para escola, às vezes faltava na escola. Fui criado muito largado assim. 

 

P/1 – Que lembrança você tem da escola? Alguma professora?

 

R – Ah, uma tal de Ana, foi a primeira professora. Linda, já naquela época no primário me iludia assim, morria de amores por ela. E depois veio as perversas que batiam, ajoelhava no milho, ficava atrás da porta de castigo. Eu fiquei muito. Meu apelido era capeta, de pequeno. Então, eu acho que eu fiz jus ao meu apelido.

 

P/1 – O que você aprontava?

 

R – Assim, minhas tias não queriam me ver na casa delas porque elas tinham uma vida melhor. Eu era pobre e aquela criação ignorante (risos). Então ia na casa deles e não gostava de tomar banho, tipo, minha mãe dava banho de bacia na gente, não tinha energia. E a gente fugia do banho, cortar a unha, eu corria das minhas tias, limpar orelha, era bem assim. Então você era excluído, você era o capeta, elas não queriam me ver na casa delas. E aí fui crescendo meio rotulado (risos).

 

P/1 – E você gostava de fazer o que na escola?

 

R – Ah, desenho, Educação Artística, era só isso que eu me identificava. Ganhava prêmio, presentinho das professoras. Aí levava para casa com o maior carinho, minha mãe jogava e não dava atenção, tipo assim. Acho que por causa disso que eu não peguei gosto de terminar os estudos. E era mais Educação Artística e Física, Física eu gostava muito.

 

P/1 – Educação Física?

 

R – Antes de entrar na sala de aula no primário, a gente formava uma fila em ordem crescente, cantava o hino nacional, tinha toda uma disciplina. A escola acho que era boa na época, tinha dentista, tinha tudo, né? Jogava queimada na Educação Física, handebol, depois, maiorzinho, basquete.

 

P/1 – E você teve algum tipo de educação religiosa?

 

R – Não, só o catecismo, que era uma fuga, que eu ia de bicicleta para um outro bairro longe, sozinho. Com onze, doze anos, todo domingo. Para mim era uma fuga para fugir do bar, de ter que trampar, e ficar ali com meus pais naquela briga. Então o pouquinho de educação que eu aprendi foi lá, no catecismo. Na época acho que era um ano só, para mim era um lugarzinho bom, de fuga. O resto não. Eles se falam católicos, mas nunca foram praticantes de nada. Minha vó que me ensinou um pouco de religião. Aquelas frases antigas, né?

 

P/1 – Que frases? Você lembra de alguma?

 

R – Tipo assim: “Faça o bem, não veja a quem” “O que você não quer para você não deseje para os outros”. E aquilo fica desde pequenininho. Isso que eu acho que deixa a gente a não seguir um caminho errado na vida, uma frase dessa ajuda muito.

 

P/1 – E a sua mãe fazia comidas portuguesas?

 

R – Fazia. Até hoje faz, caldo verde, tudo.

 

P/1 – E o que vocês comiam?

 

R – Na época mais pobre era sempre polenta, que era mais barato, de fubá, e carne moída ou peixe com molho, sempre assim, não era muita coisa diferente na época, não. 

 

P/1 – E o caldo verde?

 

R – Aí já é mais moderno, faz até hoje assim. E dessa época, depois a gente mudou pro outro bairro, que eu já era mais adolescente. Ela tem depressão há vinte anos, depois que meu pai faleceu ela teve uma depressão muito grande, muito trauma com ele.

 

P/1 – E vocês ficaram no Cantagalo, você tinha quantos anos?

 

R – Até doze anos. Aí mudamos para Pirituba.

 

P/1 – Deixa só eu voltar um pouquinho. Você falou que o seu pai foi o terceiro morador de Cantagalo.

 

R – Terceiro.

 

P/1 – Era um bairro novo?

 

R – Não, é bem mata, mata, mata. Só mata. Cobras, bicho, minha mãe fala de muita história. 

 

P/1 – Que história que ela fala?

 

R – Ah, assim de até onça na época vir no quintal, cobras enormes assim. Eu caçava na mata, trazia passarinho para ela limpar e a gente comer. Tinha um cara que era um cachaceiro, ele pegava gato para matar e comer, né? E a gente ajudava a pegar o gato mas não sabia para que era. Depois a gente pegava pintinho com ele. Ele era o cão esse “véio”! A gente pegava os pintinhos de umas vizinhas chatas, e ele pintava com bisnaguinha cada um de uma cor. Aí os pintinhos iam para casa da mulher todos coloridos, e a gente ia no vácuo. Era um bairro assim, na época, que eu me lembre, não tinha carro. Era carroça, cavalo. Meu pai comprou jipe, depois foi melhorando. Mas sempre desandado, bebida, mulher e jogo. Sempre desandado. Aí, depois dos doze anos eu mudei para Pirituba, mais perto dos meus tios, e nessa época ele já agredia ela com as brigas, tudo. Meu irmão foi embora com a prostituta dele, meus irmãos com meus avós e eu sempre sozinho naquele tiroteio. Aí chegou a adolescência, para mim foi a melhor fase, já da independência, catorze anos registrado.

 

P/1 – Qual foi o seu primeiro registro?

 

R – Padaria, balconista. Acordava às cinco, saía às duas horas e estudava à noite. E aí já tinha meu primeiro tênis de marca, com meu dinheiro, minha primeira bicicleta. Então aí já comecei a fugir mais de casa, da briga deles. Já chegava de madrugada, minha mãe nunca foi aquela mãezona de orientar, não. A gente só não foi pro caminho errado por Deus mesmo, nenhum dos meus irmãos. Acho que hoje não justifica falar: “Ah, não fui por causa de berço”. Não, a gente teve esse berço terrível e cada um hoje tá no seu caminho. Aí trabalhei na padaria de balconista, fazia tudo. Estudava à noite. Depois fui para office-boy na época.

 

P/1 – Até quantos anos você ficou na padaria? Quanto tempo?

 

R – Dois anos e meio, era registrado com catorze anos, fiquei até dezesseis anos e pouco.

 

P/1 – Era em Pirituba a padaria?

 

R – Era em Vila Mirante, Pirituba, é.

 

P/1 – Como é o nome da padaria?

 

R – Ah, acho que era Padaria Estrela. 

 

P/1 – Tinha uniforme?

 

R – Ah tinha, sempre a capinha, quepe, tinha esses baratos assim. O padeiro ia trabalhar de cavalo na época. Ainda era meio... Não é que eu sou tão velho (risos), mas na época era (risos).

 

P/1 – Você tem foto dessa época?

 

R – Não, não. Bem pouco. Da minha adolescência bem pouco.

 

P/1 – E diversão, o que você fazia?

 

R – Diversão começou aos dezessete anos.

 

P/1 – Porque dos quatorze aos dezessete você não saía?

 

R – Tirava o barato, coisa de criança, mais bicicleta, saía e não tinha horário para voltar. Era uma turma de bicicleta. Aí, com dezesseis para dezessete, até os dezoito já fui um adolescente assim, curti a época do New Wave, Rockabilly, Punk, Dark, pichava muro, andava de skate, surfava, ia acampar na Prainha Branca, uma prainha deserta na época. Meus pais nem aí. Assim, só fumei um fuminho na prainha nessa época, mas não caí em droga, não, graças a Deus. E aproveitei muito minha adolescência nessa época dos dezesseis até os dezoito eu curti.

 

P/1 – E você parou de estudar com quantos anos?

 

R – Nessa fase, mais ou menos, na oitava série. Eu tentei duas vezes o primeiro colegial e não virava, não entrava na minha cabeça. E assim, eu sempre gostei muito de redação, sempre gostei muito. Eu passei até em três concursos que era só o ginásio, da Polícia Militar, do Samu e da Sabesp, que era só ginásio antigamente, e nunca chamou porque era muita gente, mas eu cheguei a passar nos concursos, e o forte era redação, sempre foi o que eu gostei. Na época Educação Artística e depois redação. E aí nessa adolescência eu terminei o ginásio só, e depois eu cursei modelo fotográfico no Senac, que era difícil para entrar, e cursei cabeleireiro no Senac também, em 1987, 1988, mais ou menos. Foi a minha melhor fase, tipo assim, nos bailes eu podia escolher a menina que eu quisesse. Na época não rolava sexo, era só beijo e a gente já tava satisfeito, né? Era beijo, dançava lenta na época ainda.

 

P/1 – Com quantos anos você deu seu primeiro beijo?

 

R – Ah, foi assim, tinha uma negrinha que era mais velha que a gente. Uma negra. E era a maior zoeira. E a gente morria de vergonha. Tinha dezesseis anos, beijo de língua mesmo. E eu treinava no espelho quando eu era mais novinho, meu irmão falava, ‘treina no espelho!’. Aí, essa moça, na casa dela a gente fazia uma fila para aprender a beijar com ela na boca, de língua. Era o maior barato, até hoje eu tenho ela como, para me libertar da vergonha, né? (risos).

 

P/1 – Foi seu primeiro beijo?

 

R – Foi. Ela ensinava a gente, e ia várias vezes lá beijar, fazia fila (risos).

 

P/1 – E a primeira namorada?

 

R – Então, é a que eu to até hoje. Aí assim, nunca fui, ficava só na época, mas era só beijinho nos bailes, e aí eu fiquei com ela com treze anos, mas aquela coisa de criança. Ela tinha treze e eu acho que eu tinha uns quinze, dezesseis, não era nem aquela coisa, só fiquei com ela e depois ela sumiu. Aí nessa fase que eu terminei o curso do Senac, tudo, nunca virou em nada, não segui cabeleireiro, não segui modelo. Aí meu pai tava com câncer já. Eu tava desempregado, ele com câncer, já tinha acabado as baladas, os amigos sumiram, aí ela apareceu de novo. Do nada eu encontrei com ela, conversamos, ela tava trabalhando, ganhava razoável e começamos a namorar. Mas bem adolescente, nessa fase de dezoito anos, ela tinha uns dezesseis. E aí ficamos, ela começou a me ajudar, o meu pai com essa doença, ele sofreu um ano, depois veio a falecer. E depois minha mãe ficou com depressão e foi essa fase em que a gente se reencontrou.

 

P/1 – E o bar, quem é que ficou tomando conta?

 

R – Aí já tinha vendido, era no outro bairro o bar, né? Aí o meu pai já torrou o dinheiro, começou a trabalhar por outros. Morreu pobre, né? Deixou uma casa para gente. E aí eu comecei com ela nessa época, 1989 mais ou menos.

 

P/1 – E quem que sustentava sua mãe?

 

R – A gente, desde a época do sorvete, do meu sonho, que eu vendia, eu era obrigado a dar metade em casa. Sempre foi assim, a vida inteira.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – Até hoje eu ajudo a minha mãe, ela me empresta dinheiro e me cobra juros, muito mais que o banco, é da raça dos avarentos, não tem boi, não (risos). Mas eu acho que isso aí dá uma disciplina para gente, acho que dá. Porque você vê a educação hoje, os pais pensam que dando tudo estão ajudando, eu tenho cliente no meu táxi hoje que mandou matar a mãe, o outro internou a mãe como louca, né? Da classe alta. Então, acho que teve uma parte falha dos meus pais, mas teve parte que valeu a pena, sim, para gente correr atrás.

 

P/1 – Voltando um pouquinho lá atrás. Quando você trabalhava assim e você parou de estudar, você tinha um sonho? “Quero ser tal coisa na vida”?

 

R – É, eu acho que eu sempre sonhei assim, de ser reconhecido por alguma coisa, talvez na parte da escritura. Eu gostava de escrever muito, desde pequeno eu tinha meus diários, sempre tive meus diários, e sempre gostei de redação.

 

P/1 – Você tem diário até hoje?

 

R – Tenho (risos).

 

P/1 – Você já releu o que tinha escrito lá?

 

R – Aqueles antiguinhos assim, como eu morava com a minha mãe, ignorância, ela jogava fora, meus cadernos do primário ela jogou fora. Eu só recuperei pouca coisa. Ainda tenho alguma coisinha do namoro para cá, vai, de 1989 para cá. Mas com esse diário, pro futuro, eu pretendo fazer uma autobiografia minha, um livro.

 

P/1 – Você falou que pichava muro. Como é que vocês pichavam? Pichavam ou grafitavam?

 

R – Pixava, não existia grafite, era só pichação. E pichava, você ficava famoso. Meu apelido era Digdi, tinha um camarada Goga e Guga. Então, você pichava, no outro dia as meninas viam, na balada, você catava as meninas. Quem pichava mais era mais famoso, era assim. Infelizmente era assim.

 

P/1 – Você pichava o quê? Aquelas letras?

 

R – É. Meu nome, Digdi, apelido.

 

P/1 – Mas como é o desenho?

 

R – Em vez de fazer um ‘d’ certinho, você fazia um ‘d’ mais triângulo assim, tinha um esquema de pichação. Só pichava os apelidos, sempre os três, de bike, de skate, à noite, pichava. Já corremos de polícia, de meio mundo assim.

 

P/1 – Conta uma experiência que você teve de pichação e ter que sair correndo da polícia?

 

R – Ah, pichação, a gente pichou um colégio, a diretora era amiga de um amigo meu. Era amiga dos pais dele. E o colégio estava limpinho, São João Gualberto. A gente pichou e a diretora viu pelos apelidos que o moleque era o filho da amiga dela, aí a gente teve que ir lá pintar o muro com todo mundo olhando (risos). Isso aí ficou. Mas a gente não tinha vergonha na cara, depois pichava de novo.

 

P/1 – E como vocês compravam a tinta?

 

R – Spray, é só spray.

 

P/1 – Vocês que compravam?

 

R – É. Saía numa turma de quinze às vezes. A gente curtia dark, que era embalo de punk na época, era Smiths, The Cure, ia na Galeria do Rock, vivia correndo de punk. Porque punk achava que Dark era viado, ou gay, e não era. Se curtia um som mais maneira, e os punks não aceitavam. Então tinha uma turma de funeral, pavilhão 9, punk, e a gente era os dark, tinha franja mais ou menos aqui e raspava atrás. E colocava uma roupa preta e um suspensório branco. E esses punks, quando cruzava com eles tinha que correr.

 

P/1 – Você usava essa roupa?

 

R – Usava. Eu curti minha adolescência bastante isso aí. Galeria do Rock a gente chegou a correr dos Carecas do Subúrbio assim, várias vezes. Tenho meus discos de punk em casa até hoje, Dead Kennedy, Sex Pistols.

 

P/1 – Mas você era punk e dark ao mesmo tempo?

 

R – Dark era embalo de punk. A gente curtia o som deles, punk, mas curtia outro movimento. Tipo punk, a gente era mais na manha, e para eles a gente era gay. E não era, a gente era um embalo deles assim, mais leve. Era mais The Cure, Smiths, só que eles não aceitavam a gente curtir o som punk deles. Dead Kennedys, Sex Pistols, não. E a gente andava de skate com som meio punk na época, né? E os caras sabiam que era dark, só pela franja já, se catasse eles batiam mesmo. Corrente, machado. Tem amigo meu que tem corte no corpo, outro tem correntada.

 

P/1 – Você lembra de algum conflito?

 

R – Ah, vários. Vários. Eu vim de uma balada, do California Drinks, lá em Santana. A gente foi no visual dark, aí voltamos, na Praça da República, mais ou menos, uma turma, tudo punk. E aí, os caras já enquadraram, já viram a gente com a roupa de dark. Aí tinha um dos nossos amigos que era baixinho, encrenqueiro. Aí o cara falou: “Tem algum dark aí?”. Ele levantou a mão e falou: “Presente”. Aí começou só coturnada. Os caras usavam coturno. E a gente correndo no meio dos caras, tomando porrada igual um corredor polonês assim. Aí, corremos para a Praça da República, tinha uma viatura e a viatura pegou alguns deles. E eu lembro que até um deles, punk meio serião, o guarda pediu o documento e ele puxou uma carteira pink, meio cor de rosa. Putz, esse baixinho amigo meu rachou o bico: “Pô meu, você punk com uma carteira cor de rosa?”. Aí, os amigos dele mesmo deram umas bicas nele, falaram: “Pô, mas que mancada você dá com a gente”, sabe aquela coisa? Aí os guardas seguraram eles e fizeram a gente correr primeiro. A gente correu muito daqueles caras. E várias vezes, várias vezes cruzava com esse pessoal. Já até sabiam que era a gente. Porque a gente pegava as melhores menininhas do baile porque pichava, tal, os bonitinhos, e eles os punks. E, às vezes, a gente catava as minas deles nos bailes. Aí, era para provocar mesmo, a gente era masoquista, gostava de correr e apanhar deles (risos). Hoje, quando a gente cruza com um desses cara da época a gente fala ‘que idiotice’. Eu to com quarenta e quatro anos, a gente cruza com um desses caras que era punk, a gente conversa, tem família, ‘olha que idiotice’. Podia ter morrido por uma bobeira tão besta, né? Então curti muito, a adolescência eu aproveitei. Fora os conflitos dentro de casa eu aproveitei.

 

P/1 – Você tem foto sua desse período?

 

R – Não, bem pouquinho, bem pouquinho.   

 

P/1 – De dark?

 

R – Não, deve ter na mão de alguns amigos, já procurei e não consegui achar. 

 

P/1 – E New Wave?

 

R – New Wave peguei, acho que foi bem antes, eu tinha uns quinze, dezesseis. E eram aqueles tênis brancos com cadarços coloridos, calça pink, eu curti bastante New Wave. Baladinha. Peguei Rockabilly uma época. Peguei uma fase boa.

 

P/1 – Você saía muito para dançar?

 

R – Ah, saía para fugir de casa, porque meu pai chegava em casa bêbado à noite e era treta com a minha mãe na certa. Então eu fugia de casa, era uma fuga para mim.

 

P/1 – Você falou do California Drinks, e que casas...

 

R – Califórnia, tinha umas baladas punk ali na São João. Rose Bom Bom eu lembro mais ou menos. Tinha um outra casa na zona leste, não lembro. E tinha muita festinha em garagem de porão que era meio punk, a gente ia. Teve um show do Ratos de Porão, tipo em porão mesmo, daí quando o cara entrou no show tinha uma caixas vazias, uma mina começou a dar paulada na caixa, a gente não entendia o que era, e um cara do outro lado batendo na outra caixa. E aí a hora que o João Gordo do Ratos de Porão entrou, e era um porão o barato, com aquela música punk, aí os ratos começaram a sair daquelas caixas vivos, tá ligado? As minas gritando, todo mundo dando botinada, aí já pegou o embalo das músicas, esmagava os ratos e chutava. Era mais ou menos isso, tinha umas baladas muito de porão na época.

 

P/1 – Onde foi essa do porão?

 

R – Essa não lembro, foi meio central, não lembro muito, não.

 

P/1 – E os ratos saíram no meio do show das caixas?

 

R – É, eles bateram, bateram com bastão, um cara e uma mina, a gente nem sabia o que era. Aí foi batendo, batendo, a hora que os Ratos do Porão entraram com a música começou a estourar as caixas assim e a sair os ratos vivos no show. Aquilo ali era uma viagem, né? Eu já tava meio doido, tomava uma pinga com menta antes de entrar. Sempre tomava um goró porque eu era muito tímido na época, sempre bebia alguma coisa. E já peguei muitos bailes assim no Sesc Pompeia.

 

P/1 – O que rolou no Sesc?

 

R – No Sesc tinha encontro também, punk. Teve muita coisa no Sesc. Depois foi passando, mas eu curti essa época, curti bastante. E assim, você tinha fama de rebelde pros outros, para a família. Porque você tinha outra ideia. Só pelo se vestir e a franja comprida, você já era meio julgado pelos primos, tudo.

 

P/1 – E que ideia você tinha?

 

R – Ah, não tinha muita ideia, não (risos). A gente saía e o que desse na louca a gente fazia. Às vezes era assaltado, porque tinha um movimento Função que falava, os caras andavam com cigarro atrás da orelha, um moletom da Fila, assim, era Fila, aquelas roupas do Paraguai, aqueles tênis Farol white, chinezinho, então a gente cruzava com esses caras de longe, Função. Aí, o que você tivesse eles faziam a limpa, às vezes você ia para casa sem calça. Se fosse de marca levava, o moletom, tudo. Fora isso, isso aí foi outra fase sem ser punk, aí já é uma fase que a gente já tinha um London Fog, o primeiro All Star, o Converse, importado. Aí, os caras passavam e levavam. Era a turma assim, tudo armado na época. Chamada Função. Usavam couro na calça assim para abrir a calça. A gente cruzava com os caras, pode sair fora que é assalto na certa. Eu já cheguei a ir para casa umas duas vezes descalço, estava na porta do colégio com All Star Converse. Sempre do meu salário, meus pais nunca compraram nada para mim de roupa, não. Sempre com meu salário. E aí eu comprei esse All Star novinho, o cara chegou, enfiou o cano e levou. Eu usava aqueles aventais brancos até aqui, aí para disfarçar, ninguém olhava pro meu pé, eu tava voltando ao contrário, todo mundo indo para escola: “E aí, vai cabular?” “Vou, hoje não to a fim de ir para escola”. E descalço, e ninguém via no meu pé que o cara tinha levado meu tênis, isso era batata. Pegamos várias fases assim, legal, eu acho.

 

P/1 – E você morava em Pirituba e passeava pela cidade toda?

 

R – Não, mais para pichar a cidade e essas baladas. Broadway, na época, tinha uma rampa de skate. Piritubão, que era em Pirituba, eram as melhores baladas para gente que era mais dali. E os outros eram meio afastados, a gente tinha medo de ir por causa dos punks. E aí curtia tudo, saía por aí para tudo quanto é lugar.

 

P/1 – E pichar, vocês pichavam onde?

 

R – Tudo. Mais longe aparecia.

 

P/1 – Que lugares da cidade você pichou?

 

R – Ah, colégio, cidade, o Hotel Hilton. Era sempre uma coisa que aparecia a imprensa. A gente sabia que ia aparecer na televisão, a gente pichava ali, onde era mais difícil, mais arriscado e se conseguisse pichar ali você conseguiria mais fama (risos). Até órgão do governo, ou uma obra.

 

P/1 – Mas vocês subiam prédio?

 

R – Não, não. Na época, não. Era coisa mais fácil.

 

P/1 – Mas vocês fugiam da segurança? Por exemplo, Hotel Hilton, como é que vocês faziam?

 

R – Ah, ali a gente, um ficava do outro lado olhando, ele dava um toque, via que dava para pichar, mas quase na cara do cara, e a gente pichava, saía fora, e a gente pichava o dele também, o que ficou olhando, né, senão ele não levava a fama, né? E aí já chegou a sair, a imprensa filmando os pichadores, tal, e o nosso apelido lá. Aí, saía para balada, as meninas piravam. Era assim, não sei (risos).

 

P/1 – Pichação sua já saiu na televisão?

 

R – Nessa reportagem assim: “Pichadores picham Hotel Hilton”, esses baratos assim.

 

P/1 – E você ficava feliz com isso?

 

R – Ô, era fama pras menininhas, né? (risos).

 

P/1 – E que bairros de São Paulo você conheceu? Saindo de Pirituba.

 

R – California Drinks em Santana, esses no centro da cidade tinha umas baladas, e os outros eram garagem bem longe, onde tinha garagem a gente ia. Zona leste, sul, algum amigo indicava um baile, era um bailinho de boca a boca. Não tinha internet, não tinha nada. Passava panfleto. Na Galeria do Rock já falavam onde tinha uns bailinhos e a gente ia. E a gente ia nesses rolês assim.

 

P/1 – E a sua namorada ia também depois?

 

R – Depois a gente começou a namorar e já tinha passado essa fase, era uma fase mais de doença do meu pai, os pais dela separados. Aí já foi uma coisa mais séria, acabaram as baladas, já não tinha mais.

 

P/1 – E você tava trabalhando o quê? Você saiu da padaria e foi trabalhar como office-boy.

 

R – Padaria, office-boy, essa época que eu cursei modelo. Depois numa empresa, de ajudante dos meus tios, que eles eram empresários. 

 

P/1 – Você ficou quanto tempo como office-boy?

 

R – Ah, uns dois anos. Nunca fiquei muito tempo em emprego, não. Aí logo no nosso namoro fiquei desempregado, aí depois tinha um amigo meu que a família dele toda desestruturada, com drogas, tudo, ele também usava muita droga, e ele trabalhava numa corretora, ele era encarregado. Ele me arrumou um trampo numa corretora de seguros, eu fiquei quatro anos lá, ele era meu chefe. Falei: “Pô, o cara é mó desandado e é encarregado aqui”. E ele teve muito problema. Ele só não morreu ainda, mas ele foi contagiado já, por doença assim. E livrou um lado, quatro anos foi quando a gente começou mais responsa de construir em cima da casa dos pais dela que eram separados. E aí fui tendo sogra, ela não foi gostando muito...

 

P/1 – Deixa eu voltar aqui. Aí você como office-boy, você andava pela cidade também de ônibus? Como que era?

 

R – Ah tudo, era só busão. Aí descia por trás para ganhar o dinheiro da passagem. Era o contrário, hoje entra pela frente e desce por trás, hoje é assim, né? Antes a gente entrava por trás e descia pela frente. Só que a gente não passava para frente da catraca, fica lá atrás. Aí a hora que a porta abria no lugar que você queria você descia rasgando, e ganhava o dinheiro da passagem de office-boy, tinha as malandragens, né? (risos).

 

P/1 – Aí, você ficou dois anos, e depois você foi trabalhar.

 

R – Depois fui trabalhar com meus tios, na empresa deles.

 

P/1 – Empresa de quê?

 

R – Móveis, ajudava em tudo, fazia entrega. Eles pagaram minha carta de motorista. Aí, depois disso aí, foi quando eu conheci minha esposa, fiquei desempregado e entrei no seguro, depois desse tempo na firma dos meus tios.

 

P/1 – E depois do seguro?

 

R – Seguro por quatro anos, foi quando eu comecei a construir já pensando em casar.

 

P/1 – Você ficou quatro anos sem trabalhar?

 

R – Não, quatro anos na empresa de seguros.

 

P/1 – Ah, na empresa de seguros. Entendi seguro...

 

R – Não, não.

 

P/1 – O que você fazia?

 

R – Era uma seguradora. Tudo, emissão, xerox, fui indo. Mas nunca ganhei muita promoção, nunca fazia por onde, não gostava muito de responsa, não.

 

P/1 – E você não pensava em voltar a estudar?

 

R – Não. Nunca, nunca me identifiquei. Só curso. Fiz alguns outros cursos, mecânica de motos, mas nunca virava em nada, nunca terminei quase nada do que eu começava, eu não concluía.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei. Às vezes eu achava que não me identificava. Só tenho diploma de modelo e cabeleireiro do Senac.

 

P/1 – E você queria ser modelo?

 

R – Ah, bateu lá. Eu fui lá de jucão.

 

P/1 – Foi do quê?

 

R – De jucão, de embalo lá. Eu falei, ‘deixa eu ver um curso aqui’. Aí tava selecionando lá, curso para modelo. Eu queria decorador de vitrine, um barato assim, e não tinha. Eu falei, ‘posso fazer a inscrição?’, aí eu fiz. Aí, duzentas pessoas para vinte vagas, eu falei: “Putz, acho que eu não vou passar, só gente bonita, né?”. Passei nas medidas, no perfil, tudo que incluía, aí eu falei, ‘vou fazer esse curso’. Fiz por fazer, aí peguei gosto, tal. E o curso assim, o professor era gay, eu tinha o maior preconceito disso. Adolescente de periferia. E assim, tinha laboratório, você tinha nudez, tinha tudo. E depois passou um tempo ele começou a pedir beijinho na sala de aula, para na hora de entrar, e a gente caguetou ele na secretaria.

 

P/1 – Ele fazia o quê?

 

R – Esse professor, era o Jonas, começou a pedir beijinho na sala de aula. Selinho. Aí eu falei: “Ah, vai dar selinho na sua mãe”. Fui na secretaria com mais dois, reclamamos dele, ele deu uma laboratório para gente nu, era um teatro nu, e todo mundo do Senac ia assistir a peça. E colocou nós três que caguetamos ele, lá na peça, nu. Esse dia eu enchi a cara no boteco, eu falei: “Eu vou, mas vou louco”. O outro também. Fizemos a peça lá, deve estar gravado até hoje no Senac.

 

P/1 – Vocês tiraram a roupa? (risos)

 

R – É, é (risos). O filho da mãe deu esse castigo para gente. Mas também nunca mais pediu beijinho na sala de aula (risos).

 

P/1 – Mas você queria depois trabalhar como modelo fotográfico?

 

R – Não, não. Aí tentei, peguei o book, tenho até hoje meu book. E eu tentei, mas eu vi que tinha muita máfia, as agências boas eu nunca bati, bati em agência errada, tinha um pouco de aproveitamento essa parte gay. Hoje não, hoje acho que é mais sério. Antigamente não tinha tanta imprensa assim. Tinha muita sujeira, então saí fora. Mas tinha um perfil bom, tinha como dar certo.

 

P/1 – Isso tudo você tava fazendo esse curso, mas você tava trabalhando na empresa de seguro?

 

R – Não, o curso foi antes. O curso acho que eu ainda era office-boy ou com os meus tios. Mas foi bom, tudo é experiência.

 

P/1 – E o outro curso que você fez?

 

R – Cabeleireiro. 

 

P/1 – Cabeleireiro. Aí você falou: “Vou ser cabeleireiro”.

 

R – Eu fiz até com um cara famoso hoje, o Marco Antônio de Biaggi. Ele é meu cliente hoje no táxi. Ele foi para frente, mas o cara tinha o dom.

 

P/1 – Você fez o curso junto com ele?

 

R – Fiz, fiz.

 

P/1 – Mas você queria ser?

 

R – Não. Meu irmão do meio falou: “Vamos entrar?”. Eu falei: “Vamos”. E ele foi, foi embora para Inglaterra, e eu fui de embalo de novo nesse curso. E a hora que eu vi que não tinha jeito eu falei: “Ah não, isso não é para mim, não”. Fiz, mas não exerci, não.

 

P/1 – Mas você aprendeu a cortar?

 

R – Mas serviu para alguma coisa. Um tempo atrás, antes da minha sogra falecer, eu que cortava o cabelo dela, ninguém mais ia lá. Então, nada é por acaso, serviu para alguma coisa.

 

P/1 – Mas você aprendeu a cortar, fazer escova?

 

R – Aprendi, tudo, tudo, tudo. Tintura. E o Biaggi assim, ele dava umas dicas para gente, morava em Pirituba, era vizinho da gente lá. Hoje o melhor salão aí, o mais bam bam bam é ele na mídia, né?

 

P/1 – E você ficou amigo dele lá?

 

R – No Senac sim, hoje que ele é famoso, já não. Subiu um pouquinho.

 

P/1 – E no Senac seu irmão fez o curso e...

 

R – Ele foi para Inglaterra.

 

P/1 – Virou cabeleireiro?

 

R – Não, não, não. Mudou muito. Foi para Inglaterra, cortou lá para sobreviver, depois foi para Portugal, depois voltou para cá, hoje ele trabalha com vendas. Depois de tudo isso foi quando eu fui para a seguradora, aí já responsa. Namoro sério, a minha esposa filha de pais separados, construímos em cima da casa do pai dela, sem o consentimento da minha sogra, ela não gostava de mim. Porque ainda tinha um pouquinho desse perfil meio rebelde. A gente ia acampar escondido, e ela ficava louca, a minha sogra. Então ela não queria esse genro para ela, não. E eu construí mesmo assim em cima da casa dela, meu sogro ajudou a construir, construímos. Depois foi vindo a responsa, saí da seguradora. Assim que eu casei eu já fiquei desempregado logo de cara. E só com o ginásio.

 

P/1 – Você casou com quantos anos?

 

R – Uns vinte e três.

 

P/1 – Aí você casou e ficou desempregado da seguradora.

 

R – Seguro era só ginásio, depois que eu fiquei desempregado era só o colegial. E eu não gostava de estudar, e aí você ia no mercado de trabalho e já não se encaixava mais. E aí, eu fiquei dois anos desempregado no meu casamento. Mais fazia uns bicos, só, só bico. E ninguém dava emprego enquanto não tinha colegial. Aí eu fiz aquele colegial que não é reconhecido pelo MEC. Um cara me indicou lá, peguei um certificado, e arrumava trampo através disso.

 

P/1 – E que trampo você arrumava?

 

R – Motorista depois. De lá para cá eu fiquei sempre como motorista. Mas esses dois anos desempregado, e sogra contra o casamento já foi punk. Já foi terrível essa fase. Depois veio a responsa.

 

P/1 – E a sua mulher?

 

R – Ela segurou a onda, mas sabe, mulher segura naquelas, entendeu? Ela quer um alicerce, ela quer um homem que dê alguma coisa para ela, e eu não tinha condições de dar. A gente sofreu muito dentro do casamento nessa fase.

 

P/1 – Vocês brigavam?

 

R – Ah, brigava. Aí minha sogra morava embaixo e era um inferno. E logo depois que eu casei eu fui morar em cima. Esses dois anos eu acho que, como dizem, Deus sabe por onde faz as coisas. Eu fiquei desempregado e ela amputou a perna, cigarro. A doença dela era tromboangeíte obliterante, causada pelo cigarro. Ela foi se mutilando, eu cuidei dela por dez anos, por obrigação. Aí, nada é por acaso. Morei em cima, ela morava embaixo, levava comida para ela. Eu ficava em casa desempregado, mas fazia tudo. Sempre limpei a casa, fazia comida. Minha mãe sempre ensinou a gente a fazer tudo. Ensinou não, ela mandava. A gente tinha horário para acordar, horário para comer e horário para dormir. Sempre teve essa disciplina desse berço português, europeu. Eu não acho ruim, não, acho que isso é bom.

 

TROCA DE FITA

 

P/1 – Bom, aí você casou com vinte e três anos.

 

R – Por aí.

 

P/1 – Aí você ficou desempregado por dois anos, aí você cuidava da casa e da sua sogra.

 

R – É.

 

P/1 – E mesmo assim sua sogra brigava com você?

 

R – Ah, brigava. Ela sempre foi meio rebelde por causa da separação dela. Ela não aceitava a separação dela, aí acho que ela descontava em mim (risos). Depois eu entrei em motorista, depois desses dois anos.

 

P/1 – Motorista, foi seu primeiro trabalho como motorista.

 

R – Como motorista numa concessionária. Aí minha mulher no banco, minha mulher ficou dezesseis anos nesse banco, ela segurou a onda. Segurou naquelas, segurou, mas sempre com muito conflito. E a mãe se fazendo de vítima, mesmo com a doença ela se fazia muito de vítima, e a filha fica dividida entre a mãe e o marido, né?

 

P/1 – E vocês não tiveram filhos?

 

R – Então, e aí nessa pior fase que a mãe foi se mutilando, aí ela perdeu um na trompa, deu até hemorragia interna. Depois de dois anos perdeu mais outro, não era na trompa, mas teve que fazer raspagem, e aí ela ficou na fila da fertilização in vitro. A gente já estava há uns seis anos casados. Então passamos por essa fase difícil, fora os abortos, mexeu muito. Aí mexeu mais ainda. A gente viveu nessa época, a minha sogra sofreu esses dez anos foram dez anos punk, no inferno. Falta de maturidade.

 

P/1 – Você pensou em separar?

 

R – Tinha a construção junto, que já tava amarrado todo o meu suor e dinheiro que eu tinha de alguns trampos foi lá. Se separa ela não tinha de onde me dar, então a gente foi empurrando com a barriga. Aí fomos levando esses tempos assim, brigando.

 

P/1 – Dez anos assim?

 

R – Mais ou menos. Aí ela ficou na fila da fertilização in vitro, minha mulher.

 

P/1 – E mesmo assim vocês queriam ter filho?

 

R – Não, mais ela. Eu nunca quis ter, eu, da minha parte. E assim, chegou uma hora que ela nem queria mais ter porque a gente já tinha perdido a admiração um pelo outro. Perde a admiração, perde tudo. E a gente viveu bem até os dois anos de casado, depois foi sogra, família, tudo. Não tinha noção, e não tinha maturidade, casamos novos. Hoje eu acho que os semelhantes se atraem, a gente era o oposto, ela é quieta, ela é muito quieta, ela não conversa, não faz amizade, e eu sou totalmente ao contrário. Então hoje, se tivesse a maturidade que eu tenho hoje, eu não teria casado, e ela talvez também não. A gente não é semelhante em quase nada. Só curtir as mesmas coisas assim, de acampar, mais coisa de adolescente, os rocks, os discos de vinil que a gente tinha, ela tinha também. A gente se deu bem nessa época. Depois que foi para realidade mesmo de um casamento a gente não tinha maturidade, não tinha berço, não tinha religião, a gente não tinha um ombro amigo de pai e mãe. Minha mãe ficou louca com depressão, meu pai morreu. O pai dela foi embora, a mãe dela totalmente louca com depressão, e mutilada. Então, que berço você tinha? Você não tinha apoio de lado nenhum. 

 

P/1 – Aí, depois que você trabalhou como motorista dessa concessionária você foi fazer o quê?

 

R – Aí fiquei uns dois anos, fiquei um tempinho parado, aí arrumei em outras empresas de motorista, concessionária, e depois eu fiquei no SBT quase três anos, de motorista. Aí foi um dos meus melhores empregos.

 

P/1 – É mesmo? Por quê? Como é que foi lá?

 

R – Muito bom assim. Televisão, para você ter ideia, quando você tá como espectador e quando você trabalha, você se decepciona com muita gente, e gente que você não gostava, pessoalmente você gosta. E foi muito bom, a casa era muito boa. Depois terceirizou, aí acabou com tudo, virou uma cooperativa.

 

P/1 – Você trabalhou para algum programa específico?

 

R – Não, tudo, tudo. Ia buscar DNA de Ratinho em favela, levar, trazer, era muito louco. Mas o pior era o Ratinho, você ter que ir em beco de favela buscar a menina lá com o DNA, você tinha que pedir autorização pros traficantes para entrar, era mais punk esse aí. O resto era bem gostoso.

 

P/1 – O que você fez mais?

 

R – Celso Portiolli, as externas, tudo, tudo, tudo. Buscar convidado. Viajava por novela. Era muito boa a casa.

 

P/1 – Artista você conheceu?

 

R – Vários.

 

P/1 – Quem?

 

R – Quase todos da época. Era época de Amor e Ódio, uma novelinha lá, Bárbara Paz, a gente levava todos aqueles artistas da época. E começou a vir uns globais pro SBT, e aí você tinha amizade. Adriane Galisteu pessoalmente, todos eles, Ratinho. Coisa de você conversar igual que a gente tá conversando assim, enquanto tá no estúdio trocando ideia.

 

P/1 – Você conversava?

 

R – Ah, conversava. Eu sempre falei demais. Eu não perdia oportunidade assim, não. Eu tinha amizade com todo mundo.

 

P/1 – Quem que você conheceu que você gostava?

 

R – Assim, Carlos Alberto de Nóbrega, um amor de pessoa. Hebe Camargo, um amor. Você ia na casa dela levar alguma coisa, tinha ordem para entrar o motorista e comer, coisa bem de ser humano. Ela, Carlos Alberto e Silvio Santos, ser humano. Aí muitos lixos, não sei se pode dar nome aqui.

 

P/1 – O Silvio Santos você conheceu?

 

R – Pessoalmente, ia na casa dele levar correspondência, no corredor. Ele não tinha baba ovo, ele chega dirigindo, ninguém abre a porta de carro, nada. Ia embora dirigindo. Muito simples, o dono da casa era o mais simples. E assim tinham outros abaixo dele que eram lixo, né? E assim, quando o diretor de uma equipe é lixo, ele contaminava a equipe inteira. Se puder falar nome eu falo, mas...

 

P/1 – E você saiu do SBT por quê?

 

R – Aí teve o facão, teve essa cooperativa e a gente ficou insatisfeito. Teve um corte de uns quinhentos funcionários, tal, e eu me senti insatisfeito. Um ticket de trinta reais caiu para três reais. O salário de tanto caiu por hora, sem registro. Aí, depois até tive um processo, ganhei, e depois nunca mais me encaixei na área de televisão. Depois torna a ficar desempregado de novo, e o casamento indo naquela vida.

 

P/1 – E você tinha outras mulheres?

 

R – Nunca. Nunca traí. Essa parte de religião que eu tive, poucas palavras da minha avó, serviram para o resto da vida, entendeu? Então, sempre vinha aquilo da minha vó, nunca, nunca. E a primeira relação foi com a minha esposa, na época. Até fui num puteiro, né? E assim, molecão, com medo. Saí de lá, tipo assim, sem fazer nada, o medo não deu certo, não. Foi mais com a minha esposa só mesmo. Mais não, só foi com a minha esposa.

 

P/1 – Você só transou com ela a vida inteira?

 

R – Só. Eu falo que eu acho que eu sou exceção porque eu vi uma reportagem aí que a mulher tá traindo igual ao homem, é uma reportagem de uma revista séria, 65% da mulher trai hoje, e o homem também. Então, entre dez pessoas que você está entre amigos, seis traem. E é a realidade. E eu não faço parte disso, assim, tenho orgulho de falar. Porque não acho legal na parte espiritual. Porque como eu não tive nada espiritual, de uns anos para cá eu frequento Seicho-no-ie e católico falo que não sou mais, e sem fanatismo. E eu aprendi muito esse lado de colheita, de tudo. Então, eu me glorifico de nunca ter feito porque eu vi muita colheita na minha família, muito problema assim, na parte espiritual. Dentro da minha casa eu já presenciei muito. Assim, minha mulher ficou na fila da fertilização in vitro nessa época que a gente tá falando, 20% de chance, que ela já não tinha trompa, o muco matava o esperma, ela tinha todos os problemas que você imaginar, e ela falava que a culpa era minha. Eu fiz todos os meus exames, eu era normal. E aí, depois que minha sogra, dez anos sofrendo, os dois últimos anos que minha sogra tava ruim eu dei banho, trocava fralda por obrigação, e cortava o cabelo pelo curso do Senac, que ninguém mais ia na casa dela, ela ficou rebelde. Ela faleceu, a minha mulher estava na fila da fertilização in vitro, passou três meses minha mulher engravidou natural. Pela Medicina não tem explicação, milagre assim. Os médicos fizeram reunião na clínica, não existe um caso desse. E para mim foi um milagre, porque pelo racismo que eu vi de berço eu levei para vida, e meu filhinho nasceu no dia da Consciência Negra, dia 20 de novembro. Aí colocamos o nome dele de Otávio, pela igreja católica é dia de Santo Otávio, também não sabia. E assim, se for acreditar em reencarnação, ele é meu pai escrito. Tudo que eu pedia pro meu pai, que o meu pai não me dava, ele me pede. Cavalinho, aquelas coisas para levar para escola, e eu faço em dobro, o que eu não tive eu faço para ele. Minha base é ele, meu casamento salvou por ele, é ele. Eu vivo pelo meu filho, meu filho é minha vida.

 

P/1 – Ele tá com quantos anos agora?

 

R – Cinco anos. Muito bom na parte espiritual, muito inteligente. Tudo que eu não tive de pai ele fala para mim, isso aí não tem nem palavras para falar.

 

P/1 – E a relação com a sua mulher melhorou?

 

R – Melhorou, mas não é a mesma coisa, nunca mais é a mesma coisa. É coisa de alma mesmo, fere a alma, fere os dois. Nunca fui um bom marido, e assim, nessa parte de caminhar lado a lado junto, desemprego. Nem tanto porque eu queria, aconteceu. Não correr atrás de estudo, isso afetou muito. E a mulher, na época, não tava preparada para isso. Ela teve oportunidade de sair fora, só não saiu por causa da mãe dela, entendeu? Mas colheu muito da parte espiritual, colheu muito. Eu levo um perdão que eu dei pela colheita, pelo que eu aprendi na Seicho-no-ie, então tive muita aprovação de Deus. E eu fui muito chamado, a gente se magoou muito, mas uma coisa que marca, desde a infância, você é rotulado, e você pensa que é aquilo. Então, eu era capeta de pequeno, cresci pelo sangue lusitano e não ter terminado os estudos, você é julgado de burro. Então aquilo ali ficou muito marcado. E depois que eu tive meu filho eu comecei a correr atrás de tudo. Eu falei: “Não é possível, não é só porque eu não tenho estudo que eu não sou capaz”. E junto com a Seicho-no-ie, eles ensinam que você é filho de Deus, perfeito, você é capaz e você pode. E aí, eu fui crescendo. De cinco anos para cá no táxi eu só tive crescimento.

 

P/1 – O táxi você começou de cinco anos para cá?

 

R – É.

 

P/1 – Quando saiu do SBT?

 

R – Não, bem depois. Fui em outras empresas também, Caltabiano. Sempre motorista, sempre assalariado, baixo. E ela sempre ganhou mais que eu no banco, então tinha esse lance de jogar na cara, não tem jeito. E aí eu falei: “Eu sou capaz”. Entrei no táxi, fiz uma dívida de três mil por mês, em quatro anos. O carro, o alvará que é carro, né? Eu falei, ‘eu vou pagar’. Aí fui para Pirapora do Bom Jesus atrás de casa, fiz uma promessa: se eu conseguir pagar minha dívida e nada acontecer eu vou ajudar as pessoas que entrarem no meu táxi. De lá para cá sempre entrou gente no meu táxi precisando de ajuda, não estou aqui para me gabar, não cobrava corrida quando o caso era de saúde e a pessoa não tinha condições. E depois, do nada, Deus foi me dando em dobro. Hoje eu tenho um dos melhores clientes do táxi no meu celular, gente milionária. Eu já ganhei setenta reais de caixinha, como bacalhau em plena segunda-feira na casa do desembargador, tomo café na casa de outra cliente. Hoje eu sei entrar e sair de qualquer lugar, tanto na casa desses milionários como em periferia. Minha periferia é pesada e eu vou em qualquer lugar, entro e saio. Graças a Deus, acho que é a escola da vida, pode-se dizer, né? E aí através da Seicho-no-ie, e eu falei ‘eu sou capaz’, eu sempre gostei de escrever, te falei que eu tive diário. Eu falei: “Eu quero mostrar para mim mesmo, não para minha esposa. Eu vou mostrar para mim mesmo que eu sou capaz”. Eu editei um livro há pouco tempo, fez dois meses, sobre deficiente físico de farol, procurei ajuda e consegui tudo voluntário, capa, diagramação, revisão, patrocínio, registrei na biblioteca nacional, chama Anjos da Rua. Eu doei para eles venderem no farol, eles vendem no farol, em vez de pedir esmola, são deficientes, para eles terem mais dignidade. Eu nunca fiz isso para ninguém, isso foi uma coisa muito boa para mim na parte de crescimento espiritual. Estou sendo reconhecido, dei uma reportagem na CBN há pouco tempo do livro, tá indo. Em um mês a gente vendeu tudo, mil livros.

 

P/1 – O que tem no livro?

 

R – A história de cada um, de cinco deficientes de farol e um morador de rua, desde quando eles nasceram até agora, as necessidades, os sonhos.

 

P/1 – Você fez a entrevista?

 

R – Tudo. Um ano eu fiquei nesse projeto.

 

P/1 – Você que inventou?

 

R – Tudo, tudo eu. Ideia minha.

 

P/1 – De onde nasceu essa ideia?

 

R – A ideia da Seicho-no-ie, que eu não tinha noção que eu era capaz, e aquele burro ficou gravado no meu casamento, né? Eu falei, ‘eu não sou burro, eu vou mostrar que eu não sou’. Então meu projeto tá indo.

 

P/1 – E qual é a história deles. Ah, você falou! Interessa trazer sim, agora entendi.

 

R – História de cada um. 

 

P/1 – Não livro, os depoimentos.

 

R – Os depoimentos, é.

 

P/1 – Você gravou?

 

R – Não, primeiro eu pesquisei onde eles usavam o dinheiro do farol, se era em droga, bebida, jogo, porque um deles tinha fama. E ele já tinha virado evangélico e não tava mais nessa. E aí pesquisei todos eles antes, daí fui chegando devagarinho, já conhecia eles da rua. Eu sou taxista. Aí fui trocando ideia com eles. Aí um deles falou: “Ô Márcio, eu tinha vontade de escrever um livro meu”. Eu já tava com essa ideia, né? O Luizinho engraxate, ele só mexe daqui para cima, então ele pega três busão e se arrasta no chão, tá há trinta anos trampando. Eu falei: “É Luizinho, então eu vou fazer”. Já tinha essa ideia, aí juntei cinco de farol e um morador de rua. Tudo deficiente, tiveram paralisia na infância.

 

P/1 – Aí você fez o roteiro para entrevistar?

 

R – Mais ou menos, foi surgindo, acho que é uma coisa meio de Deus. Eu ia de domingo lá, falava para minha mulher que ia trampar, e ia fazer ele. Depois eu dei um gravador para eles terem privacidade, e aí fechei. Eu mesmo digitava de madrugada, tirei foto.

 

P/1 – Eles que gravavam? Você gravou a história?

 

R – Gravei, e eu mesmo entrevistava e escrevia no papel, tenho meu caderno cheio em casa. Depois eu dei o gravador para eles terem privacidade entre eles, à noite, nesses quartinhos, né? E foi bom.

 

P/1 – Aí você foi escutando as histórias depois?

 

R – É, escutava, aí digitava à noite, passei várias noites de madrugada escrevendo.

 

P/1 – Qual foi a que mais te surpreendeu?

 

R – Ah, todos eles. Todos eles.

 

P/1 – Conta um pouquinho a história de cada um.

 

R – É assim. Deixa eu olhar aqui (risos). O Luizinho, engraxate, ele teve paralisia na infância, ele ainda teve o apoio dos pais. Aí, ele se relacionou com uma moça bem mais nova que ele, os pais foram contra porque ele é deficiente físico, falou ‘você vai sofrer com ele preconceito, tudo’. Ela quis ficar com ele, mas muito menina perto dele na época. Ele casou com ela e teve quatro filhos. E depois ela traiu ele com um traficante, e ela teve um filho nesse adultério. E aí ela morreu de Aids e o cara, e o filho dele na época estava surgindo o coquetel, eles deram e ele ficou imune à doença. E hoje ele é o melhor filho que ele considera. Então, o filho do adultério dele. O cara deficiente bancou a família inteira, mora de aluguel, pega três busão, vai trabalhar na Lapa de engraxate. É dignidade, né? Eu aprendi muito com eles. A Débora, ela fica no outro farol da Marquês, abandonada pela mãe e o pai. Na época deles, eles são mais antigos, então não tinha essa prevenção da vacina, então quando os pais sabiam, os três foram abandonados. A Débora os pais abandonaram com uma senhora vizinha e sumiram, e ela foi criada por essa vizinha até hoje. Aí na porrada da vida, rua, tudo. É vendedora de pipoca, até hoje. Cria uma filha de dez anos que ela teve na rua com o cara e tá aí, batalha, né? Eu não tinha noção desses personagens, eu nem dava moeda para eles. Aí veio a ideia e eu falei, ‘vou fazer um livro mais humanitário’. Meu sonho era ser escritor e humanitário nessa parte, e eu realizei meu sonho. Aí vem o Cláudio do Ceasa, que era viciado em jogo, mora num quartinho, a família no interior. Ele já tá na igreja há cinco anos, saiu do jogo, a mulher também saiu do vício. Hoje ela corre maratona no interior, ganhou duas maratonas para ajudar ele. Tem também cinco filhos divinos, um mais lindo que o outro. Então, só o salário deles, do governo pela doença não mantém eles e ele foi para rua. Rua dá dinheiro. E assim, o livro para eles, eles venderam cento e cinquenta livros em um mês, a vinte reais. Fez três mil reais em um mês. E eles estão vendendo o quê? Dignidade, lição de vida e a história deles. Eles estão se sentindo o máximo, entendeu? Acabou o livro, agora eles estão desesperados, me ligam todo dia, eu tô atrás de patrocínio, né? Eu posso bancar os meus do táxi que eu vendi, mas como eu fiz a reportagem da CBN, então eles me prometeram um patrocínio de empresários, tudo. Se eu não conseguir eu banco os outros, aí já vou me livrando do sangue lusitano do avarento, né? Isso é muito bom, não tinha noção disso. Aí teve o Cláudio que fica no farol. O seu Raimundo que acharam ele aqui na Pedroso, que é um morador de rua. Ele tá no Caps, ele não quis os livros doados. O cego é o André, eu conheci ele tava na rua ainda, agora ele já tá no mercado de trabalho, ele fez um cursinho de locutor, eu trabalho perto da Transamérica e ele tá trabalhando lá. Então, quando o pai dele tava tirando o câncer, nos órgãos, deu na cabeça o dele, junto com o pai dele, na mesma época, na Santa Casa. O pai dele morreu do lado dele. Quando o pai dele morreu ele tirou o tumor dele e ficou cego, há uns oito anos, mais ou menos. E aí ele começou a correr atrás. Então eu fiz o livro e hoje ele tá no mercado de trabalho, ele já não quer mais os livros também. Tem um grupo de cegos, chama Samba no Escuro, tá no livro, né? Samba no Escuro, todos cegos. E o último é o Valdir, tetraplégico, acidente. Era bancário, a mãe também abandonou o pai, e vinte anos ele ainda ia para cadeira, com a cadeira para rua, hoje ele tá com escaras e tá mais em casa. Mas é tudo lição de vida. Eu pensei que eles reclamavam muito, acho que a gente reclama mais que eles. A gente tem esse apego de bens materiais, de luxo, de tudo, e eles não têm esse apego, e a gente parece que sofre mais do que eles por causa desse apego, né?

 

P/1 – Quanto tempo você demorou para fazer esse livro?

 

R – Um ano. 

 

P/1 – Entre ter ideia e fazer?

 

R – É, fechar ele, diagramação, revisão. Eu não tenho estudo, falei: “Tô ferrado”. Eu escrevi numa linguagem e era outra, era pdf, eu nem sabia o que era isso, eu fiz um programa normal, e aí uma menina que eu conheci no órgão do governo fez tudo para mim. No carnaval, em cinco dias, ela transformou meu livro. Mas tudo meu, não tirou contexto, não tirou nada. Só a ordem de parágrafo e vírgula. Foi voluntária. A capa do livro foi um deficiente físico também, o Adaílton. 

 

P/1 – Deixa eu ver, mostra para mim.

 

R – Ele entrou no livro, mas só para fazer a capa e a história dele. 

 

P/1 – Que lindo!

 

R – É, mas ele se superou, né? Aqui os personagens, tem que ter a foto deles, para eles mostrarem no farol que são eles, entendeu? Aí o Adaílton fez a capa para mim, diagramação, revisão, e aí eu falei: “E agora para bancar?”. Eu tava para vender meu carro, eu falei: “Eu banco”. 

 

P/1 – Você ia vender o carro?

 

R – Não, o carro eu ia vender porque já fez quatro anos o táxi, já não aguenta mais. E aí, veio três senhorinhas. Eu levei duas, dei a ideia do livro, eu falei: “Estou com o livro e não tenho dinheiro”. Empresários grandes, nenhum se interessou. Inclusive eu brinco assim: “Eu já levei empresário em puteiro de três mil reais, e quando eu falo de uma obra dessa o cara nem dá atenção”. Sei lá, é do ser humano. Então, essas duas senhorinhas, assim, nem são empresárias, gente simples, cada uma deu mil reais, depois um outro senhorzinho que eu levei, tem uma empresa pequenininha falou: “Vai lá que eu fecho o livro para você”. Arrumei patrocínio, aí editei mil livros, procurei gráfica barata. Aí doei para eles venderem no farol em um mês, e o meu demorou quase dois meses e vendi duzentos livros no táxi, a vinte reais. Então, quer dizer, mil livros a  vinte, vinte mil reais. O dinheiro é deles, eles usaram o dinheiro assim: A Débora fez o aniversário da filhinha dela de dez anos, ela falou que nunca tinha feito uma festinha. Isso aí, para mim assim é tudo, esse reconhecimento, de ver eles contentes, né? Então, para mim é tudo (choro). 

 

P/1 – E você trocou de táxi?

 

R – Estou trocando o carro agora, não precisei usar o dinheiro, né?

 

P/1 – Você faz grana com o táxi?

 

R – Faço. Eu tenho bons clientes. Faço.

 

P/1 – Aí mudou a relação na sua casa em relação a isso?

 

R – Mudou, mas coisas que ficam são coisas de alma, assim, não tem como. Você dá o perdão, mas quando fere a alma, assim, a gente perdeu a admiração, então, é pelo Otávio, a gente tá para dar uma educação para ele. Mas eu não sei até quando, mas nada de mulherada não, é da vida, não tem jeito. A gente sabe que a gente não é semelhante. Então a gente amadureceu e sabe que não era para ser um pro outro.

 

P/1 – Você tem algum causo, um dia marcante, fora esse livro, claro, que você conseguiu viabilizar dentro do táxi, essa história maravilhosa. Você tem algum causo de passageiro, alguma coisa que te aconteceu?

 

R – Ah, no meu livro tem, tem passagens aqui dentro do livro. Mas a passagem do meu livro é tudo mais na parte espiritual. Assim, eu tenho passagem de uma pessoa, ela não tratava muito bem a empregada dela, rica, né? E ela pegou uma bactéria e ficou praticamente sete anos, dois anos na UTI e sete anos fora de casa. Ela ficou cega, surda, muda. A Medicina não sabia achar o que era. E a empregada foi mãe dos filhos dela pequenininhos e praticamente olhou o marido também. Não que ela maltratava, mas não era uma boa patroa. E depois que ela se recuperou, hoje ela é deficiente, ela se recuperou, ela formou a empregada dela, a empregada dela trabalha no Governo hoje. A outra também, um outro senhor.

 

P/1 – Mas isso é tudo história de passageiro que você conheceu no táxi?

 

R – No táxi. Entra nesses detalhes assim, a gente vai pegando amizade.

 

P/1 – Aí você faz a história do passageiro?

 

R – Um pouquinho, bem rapidinho, não coloco o nome, não. Coloco de pessoas arrogantes. Assim, então levo uma mulher muito bonita, tal, ela tirou os dois seios com câncer. Da alta sociedade. Ela tirou os dois seios, tirou dois cânceres da garganta, então ela toma só água com couve para cicatrizar. Eu levo outras ricas, da mesma situação, reclamando da vida. Levei uma que chamou a empregada de burra, ela xingou no telefone: “Você é burra! Você não comprou o camarão rosa que eu te pedi”. Eu já tava fechando o livro e eu não gosto de perder isso, né? Depois que ela desligou eu falei: “A senhora tem restaurante?”. Ela falou: “Não. É para mim e pro meu marido à noite. Essa empregada é muito burra, mesmo. Ela comprou camarão grande, mas eu queria o rosa”. Aí eu fico ligando as coisas, a outra que era assim tá lá toda estrupiada também, igual a situação dela, tomando água com couve, e a outra reclamando da porcaria de um camarão rosa. Eu ponho essa comparação no meu livro, que a gente não sabe o dia de amanhã, você não pode subestimar ninguém, humilhar ninguém, você não tem esse direito. Mas essa sociedade que eu levo é cega, é cega. Para isso é cega. Infelizmente é. Não julgando, generalizando, mas é complicado. Eu vejo que a gente tá no mundo do ego, do egoísmo, da vaidade, de tudo assim e não olha para o próximo.

 

P/1 – E quando você tá no táxi você puxa conversa?

 

R – Ah, eu falo demais, eu falo. Tenho reportagem do livro, de repórter, de escritoras que eu levo, já levava na época, e eu já ficava cutucando. Quando eu sabia que era escritora eu já ficava perguntando como era o caminho. Então, assim talvez era até impertinente, mas é esse caminho assim, dessa comunicação minha, eu vou longe, eu acho que eu vou muito mais longe. Eu quero editar mais livro, tem editora já analisando o meu livro. Quero fazer outros personagens de farol. Quero fazer um livro de adultério, que eu tenho muitos contos no táxi de adultério. Mas o adultério da colheita, não é adultério que você é bonitona, que você traiu e tá tudo bem para você. Não, adultério daqueles que traíram, que eu tenho no meu táxi vários, vários, vários. Do nada aparece.

 

P/1 – Conta uma história.

 

R – Minha clientela é tudo rico, então ele é da classe alta. Ele entrou no táxi e do nada a gente começou a falar de mulher, aí ele todo revoltado. Ele falou: “Aquilo lá é bom, pena que vem com a mulher junto”. Eu falei, ‘nossa, né?’. Então eu falei para ele: “O quê que rola, né?”. Ele falou: “É Márcio, a vida vai ensinando”. Ele foi contando que tinha a mulher dele, dez anos já casado com ela, ele descobriu que ela tinha um caso com o chefe dela antes do casamento e esses dez anos. Ele tinha três filhos, e dois não pareciam com ele. Do nada assim. Eu pego uma amizade, do nada, levei ele na primeira corrida, contou a vida inteira. Eu tenho muitos casos assim no táxi, fora outros que a gente vai pegando amizade. E ele falou: “E agora? Esses dois filhos não são meus, descobri o adultério”. Só que ele ganhou a guarda, ele deve ter pego um flagrante dela. E aí ele arrumou logo em seguida, estava totalmente traumatizado, arrumou uma mulher separada no emprego dele. E aí começaram a namorar nessa fase, ele ia fazer DNA das crianças. Ela falou assim: “Você gosta deles?”. Já estavam com cinco, escadinha, né, sete, o outro acho que era três. Ele falou assim: “Lógico que eu gosto”, ela falou: “Então deixa para lá”. Aí ele deixou para lá. Hoje, passaram uns anos, ela tá toda estrupiada sem saúde, o cara deu um pé na bunda dela, o amante, os dois filhos que não parecem com ele, que ele tem certeza que não é dele, são os filhos mais amáveis com ele, os que mais ligam e se preocupam com ele. Então assim, eu quero fazer um livro nesse gênero assim. De adultério, mas a colheita. Entendeu? Futuro. Outros de conto GLS também.

 

P/1 – GLS você tem bastante história?

 

R – Ah tem, tem. Mas de superação, não vou por essas bichas de rua assim, não, podrinha. Eu vou por superação. O cara que sofreu preconceito na sociedade dele. Eu tenho assim, filhos de cliente que são gays, o cliente finge que o filho não é. Tem casos de cara que casou com mulher porque a sociedade impõe para você ser homem, seus pais, ‘você é homem, meu filho é homem’, você vai enrustindo aquilo lá até você ter sua independência. O cara chega a casar, ter filhos, depois se separa, e os outros falam: “Virou gay”. Não virou, eles nascem gays, eu também não sabia isso. Eu também levo gente muito culta, da alta sociedade, empresários gays, alguns enrustidos por causa do cargo, e às vezes por causa da família. E aí, o cara teve filho e voltou a ser gay, ele sempre foi gay dentro dele, mas pela sociedade impor para ele, ele se escondia atrás disso. E tem muitos contos, tem conto de cliente assim que o pai pôs para fora, expulsou o filho e a mãe quando descobriu que o filho era gay, teve muitos casos assim. Então quero por aqueles que se superaram, os que casaram, adotaram criança, e a criança não é gay, tem clientes assim. Então quero por coisa mais na parte humanitária, não coisa assim, na ficção, que tá tudo certo, não.

 

P/1 – Márcio, tem algum fato que você queira deixar registrado aqui, que provavelmente eu não tenha perguntado? 

 

R – Não, não. Talvez o hoje, eu, Márcio, assim, taxista, quero trocar a literatura, ser escritor e deixar o táxi como segunda profissão. Eu peguei gosto agora. Só o reconhecimento que eu te falei das pessoas ligarem, falar que choraram muito. Eu queria isso, queria pegar as pessoas pelo coração, pela alma e eu peguei. Tem elogio de pessoas, grandes escritores que eu já levei, não vou citar nome, escritora que falou: “Márcio, muitos escritores perderam a oportunidade dessa ideia humanitária”. Isso para mim é tudo. Eu só queria isso e o livro na mão para provar para mim que eu sou capaz. Meu filho é um orgulho, ele vende os livrinhos na escola pras professoras dele. Então ele já tá se espelhando em mim. É muito bom, daqui para frente eu quero me dedicar a escrever. Não gosto de ler, não leio muito, mas eu sempre gostei de escrever. E assim daqui para frente é crescer, na parte espiritual que a gente deixa de lado, e na parte profissional também, o dinheiro, ninguém vive sem dinheiro, né? 

 

P/1 – Você olhando sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa você mudaria?

 

R – Ah, faltou maturidade no casamento, isso aí se tivesse, que foi o berço, tudo isso influenciou, eu mudaria lá atrás. Mas hoje pelo meu filho, eu não mudaria pelo meu filho. Mas se não fosse ele, mudaria lá atrás. Corria mais atrás, terminar os estudos, que eu não terminei, isso não tem jeito.

 

P/1 – Hoje você não tem vontade?

 

R – Não, não, não. Eu acho que eu to bem assim. Eu pensei que eu não tinha capacidade, e eu tenho capacidade. É a escola da vida. Eu falo hoje, ela é melhor que a escola normal, porque eu vejo muita gente formada, você conversa e o cara não fala nada com nada. O cara não tem nada dentro da cabeça. Eu trabalho num órgão do governo, é tudo gente doutorado, Fapesp, Fundação de Amparo à Pesquisa, é tudo doutorado. Você leva o cara, o cara é o verdadeiro tapado, ele só sabe aquilo. É um cara que não sabe nem atravessar a rua, ele não sabe conversar uma conversa normal, ele não tem nem noção do que são certas coisas assim, de periferia. Esse pessoal da sociedade também. Assim, eu acho que eu to muito melhor em algumas partes da escola da vida, eu falo. A escola da vida para mim é uma faculdade. As porradas que eu tomei. Eu falo assim, que das pauladas que eu tomei eu fiz uma escada e tô subindo, degrau por degrau. A pedra que eu dava porrada na frente, eu dava na cabeça, eu faço um caminho para eu seguir. Então, eu to aprendendo a me desviar das dificuldades. 

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje?

 

R – Agora daqui para frente, que eu peguei o gostinho do livro, é ser escritor. Escritor humanitário. E ir mais longe, ganhar prêmios, ir para a televisão, vender bastante livro, ser reconhecido. Não é nem dinheiro, antes era dinheiro, hoje é o reconhecimento. Meu sonho é esse. E servir de espelho pro meu filho.

 

P/1 – O que você achou da experiência de dar esse depoimento no Museu da Pessoa?

 

R – Ah, muito bom, muito bom. Eu adorei. Esse depoimento da minha vida é um livro que eu tenho engavetado de duzentas páginas, é o primeiro que eu fiz lá atrás, na época que eu tava desempregado nos dois anos. Eu não tinha computador e escrevia a mão, está lá engavetado. Chama Modelo da Vida. É o que eu te falei hoje, é uma autobiografia minha, tem duzentas páginas a mão. Eu tentei passar pro computador, passei, já mostrei para algumas pessoas, então pro futuro vai ser ele.

 

P/1 – Como você ficou sabendo do Museu da Pessoa?

 

R – Eu trouxe um rapaz aqui, funcionário, já mostrei o livro e dei o livro para ele. Eu procurei vários caminhos, porque você tá com o projeto na mão, você tem que correr atrás. Então a CBN eu dei para uma rapaz que é tetraplégico, o Cid Torquato, ele é repórter. Dei para ele, ele se sensibilizou e fez a reportagem na CBN a semana passada. Tá procurando patrocínio. Me apresentou também a Mara Gabrilli que também é deficiente e vereadora. Fui num congresso sobre a sensibilidade, sobre os deficientes físicos, para eu aprender mais alguma coisa. Então eu to procurando os caminhos. E eu pretendo ir longe. E essa superação, que eu não tinha capacidade, não tem como eu sair fora, sem fanatismo, foi a japonesada da Seicho-no-ie. As palestras, cada dia uma palestra de auto-ajuda, de superação, então lá eu desenvolvi o meu eu que tava escondido lá. Lá eles falam assim: “Se você fizer o bem lá fora, você não precisa nem frequentar aqui”. E “Não importa o que tiraram de você, o que importa é o que você vai fazer com aquilo que te sobrou”. Então é muita coisa que você vai pondo, e você pondo em prática isso, você tem que pôr em prática a atitude e realizar, então foi isso aí, tudo veio de lá. De dois anos que eu frequento assim, eu recuperei os quarenta anos que eu tinha jogado fora, praticamente, de maturidade.

 

P/1 – E você acha que sua vida melhorou?

 

R – Melhorou. Sem fanatismo. Eu não faço nada lá, eu só assisto a palestra e vou embora. E assim para mim foi divino.

 

P/1 – Queria agradecer, foi muito bonita a sua entrevista.

 

R – Obrigado. Gostei também.

 

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