Busca avançada



Criar

História

Ando com Nhanderú do céu

História de: Ezequiel João
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2021

Sinopse

Em sua narrativa, Ezequiel explica em pormenores os costumes de sobrevivência e cultura dos Guarani do Mato Grosso - os trabalhos na roça, as técnicas, as comidas, as rezas e as palavras de seu povo. Conta um pouco das invasões violentas feitas pelas colônias agrícolas na época de seus ancestrais e sobre os guerreiros que passaram essa história, esse legado de luta, para frente. Em seguida, Ezequiel explica o significado da palavra Tekoá para os Kaiowá e as implicações dela para sua história pessoal, que verte-se, em sua maioridade, no sentido da preparação para a luta. Daqui até o fim, nos narra os embates de seu povo com pistoleiros, fazendeiros e grileiros, dentro do processo de retomada e luta por demarcação de terra nos anos 2000.

Tags

História completa

Eu vou deixar uma história que vivi. Eu fui ameaçado e perseguido por fazendeiros e pistoleiros, mas aí eu nunca ando sozinho, eu sempre ando com Nhanderú do céu, ando com meus companheiros de lá, Nhanderú Guasu. A primeira ameaça que recebi eu estava indo para a cidade de bicicleta numa estrada, eu estava voltando para casa e vi que vinha um sujeito me perseguindo atrás. Na minha sabedoria eu fui conversar com o pai do céu. Ele me disse assim:” Que o caminho da minha sabedoria é minha experiência e inteligência”. Parece que naquele momento tudo se transformou para eu escapar, o que o sujeito me disse? Perguntou de onde eu era e falei para ele que vim de outra aldeia, vim fazer uma visita para meu parente uma pessoa da família. Ele ainda quis saber quem era o líder ou cacique da região ali, falei para ele que era de outro estado. Ele era um pistoleiro moreno, cabeludo, e eu nunca tinha o visto ali na região.

E naquele momento eu estava com o meu celular na mão e preparei para ligar para minha menina e dizer, “poxa estou perdido agora, e eu não chego em casa”. Eu disse pra mim mesmo, “Deus me proteja nesse momento, mas se querer está tudo bem, se não quiser está tudo bem também”. Ele me perguntou para onde eu iria, e disse que estava indo para a fazenda onde eu trabalhava e que era um pouco mais distante. Quando eu fui me aproximando para uma estrada vi uma vila entrei. Ele entrou comigo mas se perdeu naquela vila, os meus companheiros e minha família foram ao meu encontro, mas eu recuei para o outro lado e dei de cara. Ele abriu bolsa e vi as armas de fogo, munição também, calibres e mais calibres cheio de munição. Ele me encarou e eu pensei que era o meu último momento. 

Eu fiquei tranquilo naquele momento e parece que a minha alma e minha vida haviam saído do corpo. Eu não estava sentindo nada. Mas ele fechou a mochila na minha frente porque viu que tinha produtores ali perto, na soja, isso foi uma das minhas salvações: ele não iria me matar porque tinha gente pela estrada, até na vila. Logo em seguida os meus companheiros chegaram de moto e me colocaram um capacete. Fui embora de moto pra casa. Eu fui até o Ministério Público fazer uma denúncia para investigar esse caso e até hoje não tive respostas. Aquele pistoleiro sumiu e nunca mais foi visto.

Eu não quero, e não queria que meus filhos seguissem a minha vida - que a vida deles se torne minha vida. Eu quero que eles tenham família e não sigam esse caminho longo na luta, sem achar uma solução. E quando irão achar solução? Eu fico pensando, quando estou dentro de uma retomada, e olho para a minha idade, olho para idade dos mais velhos: será que eles vão ter a sua demarcação de terra? Os brancos estão preocupados com o sonho deles, de entrar na terra: será que eles vão entrar na minha terra? E do mesmo jeito eu penso nas minhas crianças: eu queria que elas vivessem na justiça brasileira e tivessem uma área para viverem melhor. Eu quero que eles tenham uma vida digna, de criar os animais deles, ter a roça deles, trabalhar para criarem um reflorestamento do território, reflorestar o que foi acabado pelos fazendeiros, destruído, queimado, vendido: o nome disso é campo grande. Por isso o nome da capital. E o meu sonho é deixar um legado para os meus filhos, o meu sonho é vê-los reflorestando onde está destruído.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+