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História

Ana Paula Cerqueira

História de: Ana Paula Cerqueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

História completa

P/1 – O ano em que você nasceu e o lugar onde você nasceu. R – Eu nasci em Itaú de Minas, uma cidade bem pequenininha em 77, dia 21 de dezembro. P/1 – E quantos irmãos você tem? R – Eu sou a quinta filha. Somos quatro irmãos e eu. P/1 – E o quê que os seus pais faziam? R – A minha mãe sempre foi mãe. Ela é mãe e vó até hoje. E cantora. Ela canta. E o meu pai trabalhou a vida inteira em banco e depois, sempre com finanças, assim, seguros. P/1 – E como é a cidade onde você nasceu? R – Eu nasci e sai de Itaú tinha 11 meses, então… e a gente foi para Passos que é uma cidade próxima que é sul de Minas, sudoeste de Minas e de lá, eu também… até os dez anos, a gente se mudou, sei lá, eu fiquei lá até quatro em Passos, quatro e aí, depois a gente foi para a Bahia, Itabuna, o meu pai era transferido e a gente ia. Aí depois, de Itabuna, a gente foi pra Poços de Caldas, depois pra Itajubá, depois voltou para Passos. Então, eu fiquei em Passos até depois dos 18, quando eu vim pra cá, pra São Paulo. Então, como é a cidade que eu nasci? Ela é pequena, que eu sei, mas eu não tenho lembranças dela. Eu tenho mais memória de Passos que é onde eu fiquei um tempo, depois eu voltei e fiquei outro tempo. Então, sempre até… eu sou mineira, porque as lembranças, as coisas que eu tenho são de várias cidades de Minas, que é cidade de interior, né? Eu sou do interior, então eu tenho lembrança de bairro, de rua, de brincar de rua, de ter horta em casa, de ir a pé pro colégio, ir a pé pro inglês, ficar solta. É uma memória de gente solta. P/1 – E como foi essa sua infância itinerante, mudando para várias cidades? R – Tem muitas fotos, né? Eu tenho muitas lembranças de… as primeiras lembranças são da Bahia. A gente morava num prédio, prédio pequenininho, baixo e eu brincava na rua e a minha mãe gritava (risos), gritava da janela: “Ana Paula, nove horas”, eu podia brincar até nove horas na rua. E tinha também um playground que a gente brincava, mas eu sempre gostei de ficar na rua com os moleques, de bicicleta, jogando Bet, que em Minas chamava Bet, aqui chama Taco e lá chamam de Bet. E queimada, e vôlei, ficar nos quintal das casas fazendo sei lá, conhecendo, entrando em outras casas, sempre entrando na casa das pessoas. P/1 – E quais são as lembranças que você tem da escola, ou das escolas que você deve ter estudado em várias escolas. R – Eu estudei em algumas escolas, a primeira lá na Bahia era Popeye, então eu ia com uma sainha que era plissada listrada, acho que é marinheiro, né? Mas isso era bem… eu até tenho os cadernos que e recorte, assim, desenho, era legal. Minha primeira professora chamava Rosana. Depois em Itajubá, que foi outro lugar que eu fui, não Poços, eu já tinha sido alfabetizada, então eu cheguei, eu era monitora que eu sabia ler e ninguém sabia, porque muda no meio do ano, aquela história de transferência, que tem que ir… depois a gente foi pra Itajubá, eu estudava num colégio estadual Major João Pereira. E a minha irmã, a Renata estudava na… fazia já o colegial e eu fazia essa não sei como é que chama, essa coisa, ensino fundamental, primário, entrega a idade, né? Primário, colegial… hoje é outra paradinha. Então, no recreio, eu lembro que eu encontrava com ela, tinha um portão que separava a gente, porque ela era adulta e eu era criança, mas era super delicia, minha professora chamava Nice, Tia Nice, era isso mesmo. Aí depois, eu voltei para Passos e estudei numa escola que tinha flamboyants enormes e era muito legal o recreio, porque a gente ficava embaixo de arvores brutais e tomava sopa no recreio (risos), eu sempre fui boquinha nervosa, comia tudo o que tinha, até hoje. Como tudo, tô com fome toda hora. E depois disso, eu fui estudar no Colégio Tiradentes, mais mineiro impossível, né? Que era um colégio militar. Mas era porque era o colégio mais… como que chama? Tinha que ser um colégio público, porque não dava para ser particular e eu ainda até falei… essa vez que eu tava olhando as fotos, falei: “Gente, por quê que eu fui estudar num colégio militar?”, aí a minha irmã falou: “Porque você quis” “Eu quis?” “E porque lá era o que tinha, dentre as opções, era o mais… a média era seis”, então foi pra lá que eu fui porque era mais hard rock o negócio, vamos fazer mesmo. Porque eu sempre gostei de estudar, eu gosto de ir na escola, eu gosto de ser aluno, sempre. Era o lugar mais exigente, vai, vamos pensar assim. P/1 – Mas o fato de ser um colégio militar te marcou, de alguma maneira? Foi um choque pra você? R – Não, era super… eu tinha ótimos amigos, professores que eu lembro até hoje, que também coisas que a gente sempre lembra, pelo menos, eu sempre lembro de professores, né, minha professora de história, meu professor de Inglês, que era holandês, professor de Artes, sempre essa figura “professor” é uma figura… o João, meu marido é professor, eu tenho grandes amigos que são professores, então a história de professores tem sempre uma relevância assim, no meu imaginário e na minha memória. Então, eu tive bons professores nesse colégio, mas eu fico pensando hoje, assim, estudei num colégio militar, que a gente tinha que se levantar quando o professor entrava, e tinha hino à bandeira, era uma coisa muito rígida. Muito rígida, mas era divertido ao mesmo tempo, porque essa disciplina, não sei, serviu pra alguma coisa. Mas eu fico pensando: cara, militar, né, o que a gente ouve atualmente, de pensamento. Eu não tinha uma visão politica. Curioso que numa escola militar não te dão uma visão politica, por que será? Não dão. nenhuma escola, né, talvez, não sei. E aí, muita gente seguiu a história, né, foi trabalhar em Aeronáutica, sei lá. Tenho amigo piloto que na época era amigo, depois eu perdi o contato. Era um colégio disciplinador, né? P/1 – E você era adolescente nessa época? R – Era, tinha, 13, 14, 15, 16, isso aí. P/1 – E como foi a sua adolescência? O que você lembra, assim, o que mais te marcou nesse período? R – As pessoas, meus amigos de sala, era muito legal, assim, a gente… os professores botavam a gente separados: “Vocês não podem fazer grupos”, porque a gente ficava sempre juntos e a gente era muito aplicado, de gostar de estudar, porque era a hora que a gente tava junto, então depois do colégio, muita gente ia pra minha casa pra gente estudar e a minha mãe fazia café da tarde, então todo mundo ficava junto comendo, estudando e depois, ia assistir filme, porque na minha casa sempre teve uma sala lá atrás, a TV nunca fez parte do núcleo, ela ficava sempre… olha que benção, né, é muita sabedoria, né? Nunca tinha uma televisão ligada na minha casa, olha isso. Até hoje, eu penso e até hoje, na minha casa que eu vivo, eu também não tenho, a televisão fica lá num lugar que quando a gente quer, a gente vai lá. A minha mãe falando: “Como que alguém chega na nossa casa e tem uma distração?”. Aí depois, a gente sempre assistia filme, porque a gente gravava os filmes que passavam à noite, então os meus amigos, então tinham essas rotinas e ia no cinema, coisa de cidade de interior, a gente ficava juntos, ia no cinema, estudava. Aí, eu comecei a fazer inglês, porque eu queria falar outra língua e eu fui fazer inglês no Vandik que era um grande professor que eu tive e que eu sou amiga dos filhos dele até hoje, que são meus amigos. E aí, ficava na casa deles, conheci um monte de gente no inglês, né, que eram todos os dias, quatro anos e tinha que ir no Vandik terça, quarta e quinta, três vezes por semana, durante quatro anos, às cinco e meia, às seis e meia, às sete e meia e às oito e meia. P/1 – Nossa, que puxado! R – É! P/1 – E você teve uma educação católica rigorosa? R – Rigorosa, não, eu sou mineira e os mineiros são muito católicos, assim, pela minha experiência, né? Então, a igreja é bastante importante em Passos, onde eu vivi o maior tempo. A minha mãe canta, então ela sempre cantou em corais, ela sempre foi a missa cantar e como eu sou do interior também, então tinha… o quê que eu fazia também? Eu também ia fazer atividades católicas, mesmo sendo outra coisa disciplinadora que eu achava e não entendia muito as coisas, mas frequentava, porque aí, eu fazia encontro de jovens, eu era parte da equipe da cozinha, eu era parte da equipe da limpeza, era parte da equipe da vigília, cada ano era uma coisa e eu tava sempre lá fazendo coisas, mas eu… a religião é até uma parte, sei lá, essa esfera, que se for uma esfera mais do plano maior,. metafisico e tal, é algo que pra mim é muito relacionado o sagrado, o divino, mas com a expressão, não é muito com a filosofia de uma disciplina de religião, sabe? Eu não tenho esse… e nem agora que eu tenho mais escolha, mais discernimento, eu não tenho um ritual que eu faço, que seja religioso, não tenho. Mas eu vivi bastante a experiência católica, mais pela música, pelos adolescentes, que aí, eu fazia parte de grupos, né? Assim, essa conexão era assim. P/1 – E o quê que você fez depois que você se formou no ensino médio? R – Ensino médio é o colegial? P/1 – Colegial, isso! R – Eu fiz… terceiro colegial acabou em dezembro, eu passei na faculdade e sai de casa em fevereiro, então fiz 18, passei na faculdade e sai de casa, vim para São Paulo, eu fiz vestibular em BH e em São Paulo. E em São Paulo, eu lembro que eu tinha que ir conversar com o meu pai, eu marcava um encontro, né: “Pai, vamos conversar?”, geralmente a gente ia numa pizzaria, sentava em frente, cara agora eu tenho que explicar para ele que eu quero embora e eu quero embora para longe (risos). E foi legal porque: “Tá bom, você quer ir. E por que São Paulo?” BH é ok, porque é a capital do Estado e eu tenho um irmão que mora lá, então BH, beleza e São Paulo, por quê? “Você não conhece ninguém lá, você nunca foi para São Paulo” “Porque eu quero, porque é uma cidade grande, a maior de todas, então eu acho que eu quero”, porque eu tinha que pedir permissão para fazer vestibular aqui, né, que ele que tem que deixar e ele deixou. Então tem essa história de liberdade de escolha. P/1 – E você entrou na faculdade do quê? R – Administração. Administração de Empresas. P/1 – E aí, você mudou para São Paulo pra cursar essa faculdade? E como é que foi essa mudança? R – Fui parar no Mackenzie, Denise. Mackenzie, fiz quatro anos de Mackenzie, não entendia absolutamente nada. P/1 – E o que te levou a prestar Administração de Empresas? R – Eu não sabia o que eu ia fazer, porque é muito difícil essa época, né? Eu penso hoje que é difícil… eu converso com os meus sobrinhos e falo assim: “Take easy, cara. Tenha calma, não precisa decidir… se quiser sair do terceiro colegial e não quiser fazer nada, não faça, não tem problema e se você escolher uma coisa e quiser parar no meio, pare. E se você quiser fazer outro em Carapicuíba, vá! Fica de boa, porque tudo tem tempo na vida, tem… fica tranquilo, todo mundo vai te cobrar… P/1 – Quando você era adolescente, você, então não tinha as inclinações artísticas que você tem hoje, por exemplo? R – Eu sempre tive um diário, né, então eu sempre escrevi, sempre! A gente falava agenda, que colocava o bombom que ganhava do gatinho e o que aconteceu, e a briga com alguém, sempre tinha o registro, sempre. E eu sempre lia bastante, eu ganhava de presente, a Pati, minha irmã sempre me deu de presente assinaturas. Então, eu lia a Folha, então eu conheci muito São Paulo pelo jornal que eu lia diariamente e aí, revistas, livros, circulo do livro, essas paradas aí. Então, eu sempre gostei disso, mas todo mundo na minha casa sempre gostou disso, então não era uma inclinação entendida para seguir profissionalmente, porque a profissão, o quê que é, né? Do jeito que o mundo fala do trabalho, né, que é essa obrigação, que é essa coisa que você tem que ir lá e se esforçar, e… não necessariamente vinculada a uma vocação, né? Não sei, é o jeito que eu vejo que a escola, a igreja, esse povo tudo: “Trabalho, o que você vai fazer? Depois como você vai constituir? Que dividas você vai obter? Que compromissos que você vai ter?”, então não tinha essa conversa assim: “E aí, como que você vai construir o seu futuro?”, porque nem eu e nem… não tinha isso. E aí, eu queria sair, não sabia o que… hoje, eu penso que eu podia ter feito Jornalismo, Letras, História, uma coisa assim, mas não sei, eu queria… aí, eu pensei que sempre era muito restrito assim, Biológicas, Humanas ou Exatas, porque assim que a escola fazia, eu não sei como é hoje, mas aí, eu falava: “Biológicas não é. Exatas eu não vu fazer nada que seja…”, aí eu pensei nas humanas, alguma coisa que me preparasse para o mercado de trabalho, aí eu fui para Administração, mas assim, só porque… pra ir para um lugar, não foi muito… eu fiz Administração, passei na primeira fase da UFMG, mas passei no Mackenzie, aí eu abandonei Minas, porque São Paulo era um top of do que uma educação gratuita. E isso também não foi questionado. Isso é muito legal, né? P/1 – E aí, você chegou em São Paulo, como e que foi? Pra onde você foi? R – São Paulo, aí eu vim pra cá e fui morar da Rua da Consolação, olha que sorte! Pessoa de sorte. Tinha que ser perto do Mackenzie, né, e aí, tinha um povo lá, uma amiga minha que ia vir… mas no dia que a gente mudou-se para São Paulo, ela tinha passado na segunda etapa de um lugar lá no interior. E aí, ela não veio, eu vim sozinha pra cá. E aí, então, eu fiquei um ano nesse lugar que era um apartamento na Consolação com a Jau (risos)… P/1 – Sozinha? R – é, aí tinha uma menina que queria fazer cursinho, ela veio, aí ficou um mês, aí eu fiquei sozinha, era muito difícil essa época, eu lembro que tinha um orelhão, porque não tinha celular, era 97, uma coisa assim. Eu lembro que o cara da banca falava: “Meu amor, por que você chora tanto?” (risos), que eu ligava: “Mãe, é muito ruim”. P/1 – E aí, você ficou um ano nesse apartamento sozinha? E os seus colegas de faculdade? Você não fez amizade nesse período para… R – Eu fiz. Eu fui salva… P/1 – Aliviar a sua saudade e a solidão? R – Eu fui salva. Aí, eu pensei em voltar, aí eu voltei tudo, desfiz o apartamento, aí os meus pais: “Volta então, volta pra trás”, aí vendemos todas as coisas, moveis que tinha comprado, porque eu falei: “Eu não vou ficar aqui sozinha, cara”, eu queria, mas tava difícil. Aí, umas pessoas moraram comigo, porque na mesma rua, tinha um amigo de Passos que morava, alguns amigos, eram dois amigos de Passos e aí, eu falei: “Tem gente, mas não tá rolando, porque tá difícil”, mas aí, na minha sala, eu conheci uma amiga que é minha amiga até hoje, a Titi, e ela morava no prédio desse outro amigo de Passos, na mesma rua, mas a gente se conheceu no Mackenzie e eu ficava um tempo, no final do ano, eu ficava lá com ela, mas eu falei: “Eu vou embora”, porque ela morava com outras quatro pessoas, não me cabia lá, então eu falei: “Tá legal, mas não tá, então eu vou voltar”, voltei, aí traz a mudança tudo de novo no final do ano, tentei transferir durante o ano para PUC, pra BH, uma escola particular também, mas presbiteriano com católico não imaginava, não ia rolar nunca. E aí, eu voltei pra Passos e fiquei lá dezembro, janeiro, não sabia o que eu ia fazer, se eu voltava, se eu ficava, se eu ficava o que eu ia fazer? Cursinho? Porque eu não sei o que eu quero. E aí, São Paulo… aí, o meu pai teve uma ideia que era: “Tem um pensionato lá em São Paulo que uma filha de um amigo meu se mudou e foi”, que eu acho que aconteceu nesse ano, porque senão, ele falaria antes, né, não sei. “E aí, você não quer ir lá enquanto você decide? Porque vai começar o ano, você vai trancar? O quê que você vai fazer?” “É, vamos ver, né?”, eu vim pra cá nas férias, fiz a entrevista no pensionato e aí, a freira me aceitou (risos), e aí em fevereiro eu voltei e falei: “Vamos tentar três meses aqui de novo, se não rolar, pelo menos eu tentei de novo”, e aí, nunca mais eu sai. Aí eu conheci um monte de gente no pensionato e aí, era também do lado da faculdade, que era nos Jardins, né, na Itu. Aí começou o negócio… que aí, eu morava com um monte de amiga, eu comecei a ficar à vontade na cidade. A gente fazia as coisas juntos, a gente saía na madrugada juntos, pensionato fechava a porta à meia-noite e abria às seis, a gente ficava solto na noite, na Augusta, conhecendo tudo, eu ia a pé, né, que era do lado, então eu ficava no bairro. Aí, como sempre fui, na rua, solta. Aí foi ficando legal, bem legal. Aí eu fiquei um ano lá estudando e tinha uma biblioteca, um jardim, é um pensionato que a Lygia Fagundes Telles escreveu “As Meninas”, sabe esse livro da Lygia? Chama “As Meninas”, ele tem três… ele acontece no pensionato, esse que eu morei. P/1 – E você ficou quantos anos no pensionato? R – Dois e meio. É isso? Um e meio, porque aí, eu fiquei esse ano inteiro, aí no outro ano, eu ainda morava lá, só que aí, eu tava já no terceiro ano da faculdade? É, o primeiro eu fiquei meio despirocada, sozinha, o segundo no pensionato… isso, aí no terceiro, no pensionato ainda, eu tinha que começar a fazer estágio. Aí, eu fiz, entrei onde eu fiquei 15 anos, entrei na Nestlé em julho, na metade do ano, aí pronto. Aí, eu conseguia ter dinheiro, né, que antes eu não tinha dinheiro, alguém me dava dinheiro, minha mãe, meu pai, meus irmãos que me davam dinheiro pra tudo. Aí, eu comecei a trabalhar, aí eu comecei a ter uma renda, podia escolher onde que eu queria ir, um lugar que era meu, não precisava ser um pensionato. No outro ano… é, eu comecei a trabalhar, fiquei lá, depois de seis meses… foi julho, aí em dezembro, eu fui contratada, aí ganha mais, aí no outro ano, então eu fiquei dois anos e meio no pensionato. Aí no outro ano, eu fui procurar lugar pra morar e a minha amiga do quarto, a Baiana saiu, foi morar com uma amiga e tinha uma outra amiga da sala dela que também morava sozinha e queria alguém para dividir. Aí, ela me apresentou e eu fui. Aí, eu fui para o Paraiso, para Abílio Soares. P/1 – E você fazia o que na Nestlé nessa época? Qual era a sua função? R – Comunicação. P/1 – Comunicação… R – Eu comecei na Nestlé, eu fiz muita coisa, eu trabalhei em seis ou sete lugares dentro da Nestlé, 15 anos, né? Mas eu comecei em Comunicação, fazia uma revista que envia para o consumidor, comportamento, revista que tinha receitas, obviamente, entrevistas… uma revista, mesmo. “Nestle com Você”, acho que chamava, “Nestlé e Você”, uma coisa assim. Fazia Comunicação, aí trabalhava com fotos, as fotos das receitas, organizava as fotos, fazia reunião de pauta pra entender o que a gente vai fazer. Aí tem a empresa que faz com o jornalista quem que a gente vai entrevistar, vai fotografar, depois como que envia, aí depois volta… era isso que eu fazia no começo. Isso foi… aí fiquei cinco anos, quatro anos fazendo isso, depois eu fui trabalhar num projeto na Nestlé em Comunicação, mas era um projeto global, Globe, o projeto chamava, que era… o Brasil era polo aqui das Américas, então eu fui trabalhar lá, era um projeto de SAP, que é aquela… é uma tecnologia de standartização de coisas, de dados, de processos, tudo, desde processos de vendas, fornecedor até processos de embalagem, mesma plataforma de informação, essas coisas assim, gigantescas, né, porque é uma empresa muito grande. Aí, eu fui trabalhar nesse projeto em Communications que era tudo global, então eu falei: ‘Legal, porque aí eu vou viajar”, eu viajei, conheci o México, Canadá, Peru, fui fazendo trabalhos com Comunicação. Aí, cuidava do site disso, mesmo que o assunto fosse tecnologia, cuidava do site, das comunicações, das newletters, tudo isso. P/1 – E tem algum momento marcante nessas viagens que você gostaria de contar? Alguma experiência? R – As viagens são sempre… viagem, talvez… viagem para sagitariano ou pra mim, independente do meu signo, se tiver algum sentido, mas as viagens são pontos de descobertas muito forte, né? Porque você tá sozinho, porque você tá com outro recorte, toda hora você tá vendo uma outra coisa, comendo uma outra coisa, falando uma outra língua, então as viagens sempre têm um peso. Mas não sei, sempre é foda viajar. Então era legal porque eu viajava mais, aí eu fui pra Suíça pra conhecer, fazer as coisas lá na sede. E conhece um monte de gente, aprende mais, porque é muito diferente, né, cada país, cada gente tem um jeito de fazer as coisas. Aí, é incrível! Eu fui ficando porque legal demais, porque tem muitas coisas, depois do Globe… e é muito louco, eu sempre: “Quem pode me ajudar aqui?”, descobria lá alguém, Phillip, esse suíço aqui, fui lá e falei com o Phillip, trabalhei com ele e aí, chegou uma hora que eu acho que eu já tinha aprendido bastante no Globe, depois sai da revista, fui pro Globe, cansei do Globe, vou voltar para comunicação, bati na porta do _____00:29:46___, foi um cara muito importante na minha vida também, um diretor de Comunicação da Nestlé na época. Aí, bati lá e falei: “Olha… tava ali, fui pra lá, e agora eu quero voltar para cá, tem uma vaga aí pra mim?”, aí passou uns dias, ele me chamou falando que uma pessoa tava em licença-maternidade sei lá das quantas, se eu queria ir trabalhar, mas era em eventos, Promoções e Eventos. Falei: “Vamos ai”, aí eu fui duramente dez meses, porque eventos não recomendo trabalhar com Evento, mas aí fiquei lá com ele dez meses nisso, acho que de fevereiro a dezembro ele me salvou e me colocou em outro lugar, porque não dava certo, não rola, evento é um trem muito… não sei, esquisito. Não tenho a pegada, não tenho. dava tudo errado na hora, uma coisa esquisita, não rolou. Aí, ele criou uma… foi criar uma diretoria de Inovação, ele saiu da Comunicação e foi fazer uma célula de Inovação e aí, ele me chamou pra trabalhar em Inteligência Competitiva, Inteligência de Mercado, porque a pesquisa de mercado tava se moldando e aí, pesquisa de mercado, pesquisa competitiva, inteligência de mercado, inteligência competitiva. E aí, começou, depois disso, eu só ia para os lugares que não existiam e a gente ia fazer ele existir. Aí, vamos montar uma área de Inteligência Competitiva dentro de uma área que não existia, que era Inovação, aí eu fiquei lá um tempo, trabalhei com o francês Jerome, era muito legal, porque de novo, aprendendo tudo com o povo, cada um com uma ideia, depois disso, pesquisa e tal, tal, tal… aí, a gente foi fazer uma área de Business Development, porque já evoluiu um pouquinho. O que a gente faz? Estuda a empresa, estuda… vai comprar, Money Acquisition, essas paradinhas. Aí, a gente começou também a fazer… falar de inovação que não era nos produtos, era geral, assim, na Nestlé, porque tem as unidades de negócio, que é chocolate, biscoito, água, farinha láctea, pá,pá,pá… mas a gente fazia alguma coisa corporativa, obvio que não deu certo, porque é muito amplo e aí, falar de inovação e jeito de pensar e a gente foi desenvolver uma coisa chamada ___00:32:43____ de inovação, como que se tem ideias. A ideia vem da Suíça? Não, porque lá na Suíça é a Suíça, no Brasil, as coisas têm que se encaixar, como que é esse pensamento? Então, como que você olha contexto e depois, como que você anexa qual a estratégia e depois, como que você materializa isso? Como que você tem geração de ideias? Aí: achei uma coisa que eu amo! Descobri, né? O processo da criação, tal… aí conheci um monte de gente lá interessante que faz isso para fora, né? Pessoas que são amigos até hoje, filósofos, psicólogos, pessoas pesquiseiros, sempre fiquei em contato, depois disso, a gente criou uma diretoria que também não existia de Planejamento Estratégico, aí eu cheguei onde eu queria chegar, porque eu queria… fui desenvolvendo isso, comunicação, inovação, inteligência, chega uma hora que isso é estratégia, então vai chegando, chegando, aí a gente criou uma área de Planejamento Estratégico, eu fui com o Business Development pra lá e aí legal demais, só que aí, a gente já tava nesse processo de eu não quero mais ficar aqui, porque é bom, mas é muito cinza, muito fechado, muito todo dia eu tenho que vir aqui no mesmo horário, sair no mesmo horário, pegar o mesmo trânsito, aí eu comecei a questionar isso e eu sempre… nesse período que a Nestlé, inclusive, me patrocinou, eu fiz Comunicação, eu fiz uma pós-graduação, depois eu fiz uma pós-graduação em Multimeios, que é cinema, vídeo, fotografia na Belas Artes e a Nestlé sempre patrocinou que eu inventava um jeito de falar que isso era fundamental pro meu desenvolvimento, então ela também sempre… eu dava pra ela, e ela dava pra mim, né, era muito legal, porque eu ia lá e falava assim: “Chefe, é o seguinte, tem um curso lá na Belas Artes de cinema e fotografia, Multimeios. Então, é que eu queria fazer porque…” “Tá”, me ajudava, então a Nestlé sempre foi também me ajudando a me afastar dela quase, né? Aí foi legal, porque eu comecei a ter os cinco minutos que eu preciso sair, mas era muito confuso, Denise, porque como que eu vou sair e fazer o quê? O que eu vou fazer? Eu sei fazer o que eu faço na Nestlé, então vou ter que ir para um lugar que é igual a Nestlé? E isso foi me dando muita crise, porque aí, eu falava… você tinha o meu telefone no celular na agenda, tava escrito “Ana da Nestlé”, eu comecei a perceber isso, eu falei: “Vixi, não tá legal, eu não sou da Nestlé, eu tô na Nestlé, eu gosto de estar aqui, mas eu não sou da Nestlé. Como é que faz?”, e eu não conseguia me mover, porque eu tinha um titulo lá, era gerente de estratégia e na rua eu sou o quê? Aí, fui fazendo um monte de trabalho de autoconhecimento, cursos, coaching e pessoas amigas e viagens, viagens que fizeram… viagens, as viagens sempre te dão estalos. Pra mim é sempre assim. Aí, fui fazer isso, conversando com gente, fazendo métodos de autoconhecimento, exercícios, aulas e cursos e aí, tratamentos e aí, chegou um dia, em 2012 que eu falei: “Então, eu já sei uma escapatória, eu vou me dar um ano de break, um ano eu vou me dar, porque aí, eu penso o que eu quero da vida, mas eu tenho que estar sem nenhuma conexão de trabalho pra saber o quê que eu quero fazer”. Eu decidi isso em 2012 pra fazer em 2013, né, porque eu tinha que me programar financeiramente. Aí, eu fiz isso e aí, chegou em primeiro de junho, 31 de maio de 2013 que eu falei que no meio do ano eu ia fazer, que eu tinha uma entrega absurda para fazer até dia 31 de maio, que era o Planejamento Estratégico até 2022, de dez anos e aí, eu falei: “Vou fazer isso como a entrega final e aí, eu avisei, falei: “Gente, eu vou embora” mas pra onde?” “Pra minha casa” “Fazer o quê?” “Não sei” “Não vai pra concorrência?” “Não, não vou, vou ficar em casa” “Vai ter um filho?” “Não, eu vou pra casa” “Mas como?” ”Assim que vou”, e aí foi muito curioso, porque mesmo eu sendo essa pessoa mais descolada da Nestlé, porque era assim, até: “Você é muito descolada”, eu entendi agora o que e descolada, não é descolada porque você tem uma tatuagem e ninguém tem, você é descolada porque eu era descolada mesmo, que eu queria fazer cinema, as coisas e lá é mais… as pessoas querem ser diretor, porque é o caminho de uma instituição corporativa, fazer carreira e tal e isso, a minha carreira eu não programei, eu fui fazendo desse jeito, porque eu gostava do ____00:38:33___ e eu fui lá para pedir para trabalhar com ele, eu conheci o Jerome e fui falar… entendeu? Não tinha essa gana por carreira, não era assim. Então, era descolada nesse sentido. E aí, quando eu falei: “Gente, tchau”, aí o presidente da Nestlé me chamou, ele era guatemalteco, é o que tá lá até hoje, Juan Carlos, ele me chamou para falar, porque eu trabalhava com os diretores e com a presidência, porque Planejamento Estratégico mantinha contato com o board e com o presidente. E aí foi legal, ele me chamou e falou: “O quê que é?, eu falei: “Não é, só vou sair. Eu vou embora porque não sei, vai chegar uma hora que eu vou ter uma babá, que eu vou ter uns negócios assim, gente de uniforme na minha casa, eu não quero nesse meio ficar assim, eu não quero, não é o jeito que eu…”, e é sedutor, né? Muito sedutor. Aí, o que que eles fizeram? Me propuseram um ano sabático. “Só que não existe isso” “Mas aqui na Nestlé Brasil a gente quer fazer”, que era o Martin, que era o meu diretor, um suíço e ele falou: “Quero aplicar isso”, ai eu falei: “Ok, mas o que você tá me oferendo?” “Quanto tempo você quer ficar fora para pensar?”, pra mim era o tempo da minha vida, aí eu falei: “Não sei “Como assim? Um tempo pra você pensar e a gente te dá uma licença não remunerada, aí você pode voltar a hora que você quiser” “Quatro estacoes? Um ano?” “Pode”, aí eu fui lá, fiz essa carta e fui, fiquei com a rede, né, fiquei vinculada ainda, se não desse certo, eu volto. Mas eu não voltei. P/1 – E nesses 15 anos de Nestlé, antes de você tomar essa decisão, como era a Ana fora da Nestlé? R – Uai, então eu sempre fui fora das Nestlé, porque eu tentava fazer no paralelo, mesmo assim, vou fazer… escrever no paralelo, não dá, não deu, eu não consegui fazer no paralelo, eu conseguia fazer curso, aí eu fiz Cásper, fiz Comunicação, depois eu fui para Belas, fiz Cinema, viajava todo ano para onde eu quisesse, porque eu tinha renda certa e boa, porque agora eu vejo que era bem boa (risos), agora que eu sou freela louca, frida louca eu vejo que… e olha que louco, eu reclamava que eu ganhava pouco, só no flow, né, todo mundo sempre reclama que ganha pouco, aí eu reclamava que eu ganhava pouco, fazendo coro com o povo, mas não ganhava pouco, não mesmo. Então, eu fazia fora do que eu fazia na Nestlé, viajava, fazia aula, tinha… até essa semana, a minha instrutora de pilates: “Você trabalha em casa, não é difícil?, eu falei: “E, eu trabalho em casa e também tem uns projetos que eu faço em alguns lugares fixos, que é o jeito que eu imaginava mesmo:, aí ela falou: “Não e difícil?”, eu falei: “Não, não é difícil”… mas eu esqueci porque eu contei porquê que ela falou isso pra mim, se eu conseguia fazer as minhas coisas, eu: “Consigo fazer as coisas, normal, nenhum problema, não conseguia fazer lá, mas eu consigo fazer aqui”, mas eu perdi o fio do raciocínio, você me perguntou? P/1 – Eu te perguntei como era a Ana fora da Nestlé. R – Então, eu descobri que agora… agora eu descobri, porque agora eu estou fora e lá, eu não sabia direito, porque eu era muito aquilo lá, tudo, porque é muito doido, você passa oito horas do seu dia, mais… lembrei porque, ela perguntou: “Mas você saiu de lá, por quê? Era estressante? Agora você tá em casa. Você consegue trabalhar?” “Consigo” ‘mas você saiu de lá, por quê? Era estressante?” “Não, não era estressante, porque eu também sempre disse não, assim, eu sabia falar…”, não era estressante, exatamente, não era essa palavra, não é isso, não é porque era estressante, porque eu nunca trabalhei até às nove, eu nunca fui nesse estilo, porque eu nunca quis a minha carreira em primeiro lugar, não era assim. Eu era descolada, que eu falo: “Não, isso aí não é pesquisa que faz, eu não vou fazer, você vai chamar outra pessoa”, então não era estressante, era limitado, talvez, né? E mesmo eu fazendo esse pinga-pinga, hein, porque eu fiz um pinga-pinga lá dentro. P/1 – E durante o ano sabático, o quê que você fez? R – Eu não tive ano sabático, porque aí, eu já comecei… eu sai, aí eu ficava em casa, desenhava… tem vários mapas desenhados: pessoas que eu conheço, o que eu gosto de fazer, ficava fazendo várias nuvens de palavras, sabe? Eu gosto disso, qual que é a minha formação, quem que eu vou atrás, eu vou viajar? Pra onde que eu vou? E aí, fui fazendo aulas e tal… eu não sei dizer, eu fui conhecendo as pessoas. Aí, fui fazer… eu sai em julho de 2013, em outubro de 2013, eu tava já fazendo roteiro… eu até hoje faço pra uma consultoria de comunicação, porque eu conheci um cara que chama Rodrigo numa festa de uma amiga. Eu conheci ele, ainda tava na Nestlé, peguei o cartão dele e fui falar com ele depois que eu sai, porque ele escreve roteiros, uma coisa que eu posso fazer, né, sei lá. E eu fui. Aí, tem essas coisas da vida, as pessoas dão chance, dão abertura que eu não sabia como é que era, porque eu não tava num lugar… eu tava num lugar que era totalmente… de out description, coisas muito acertadas e organizadas. E aí, eu não sabia se eu era organizada fora de uma organização (risos), e eu sou, sou organizada, fui lá, me organizei e tô me organizando. Aí, eu comecei a escrever roteiros, mas eu tinha uma reserva, então comecei a fazer umas coisinhas, né? Mas também, tive muita liberdade, sempre muita liberdade, porque eu não tenho divida, eu não tenho filhos, eu não tenho que mais que me prenda? Então, eu não tenho nada que me prenda, né? Não tenho. Sai de lá, e ainda se eu precisasse voltar naquele ano era só voltar a hora que eu quisesse e aí depois, até antes de dar um ano, me chamaram: “E aí?”, fiquei tentada a voltar, porque: o quê que eu faço? Eu volto? Estão me chamando. Aí, eu falei: “Não dá mais, não vou mais fazer Estratégia” “O que que você quer fazer?”, ainda fiquei pensando: o quê que eu posso fazer? Alguma coisa cultural lá dentro, tal, né? Falei: “Não dá pra voltar para um lugar que eu vou ter que ir lá todos os dias, mesmo se eu não quero estar lá”, aí disse: “Não”, e aí, eu tô fazendo essas coisas, eu fico em casa e tô fazendo as minhas coisas, minhas produções. P/1 – Isso faz quanto tempo? R – Foi 2013. Esse é o quarto ano. P/1 – E nos últimos quatro anos, então, você tá trabalhando como freela? R – É, no final de 2013 eu já tava fazendo os roteiros lá pra chama “Abre Aspas”, essa consultoria e aí, no começo de 2014, eles me chamaram para ficar uma freela fixa. Aí eu fiquei, mas sempre fazendo curso de fotografia, meditação, inteligência sócio criativa, fui fazendo terapia, homeopatia, totalmente voltada a olhar para dentro, né, o que são as coisas. E os meus irmãos, meus sobrinhos, meus pais, todo mundo fica: “Olha aí, é isso que você quer?”, o João sempre… totalmente… P/1 – O João é o seu marido? fala um pouco pra gente do seu marido. Como que vocês se conheceram? R – Conheci numa Festa Junina que eu fui com duas amigas da Nestlé, na festa de namorada, irmã, alguma coisa lá delas, fui, pra conhecer um cara que elas queriam me apresentar, não era o João, era um amigo do João. Aí, eu conheci, mas: “Não gente, não tem a ver”, beleza. Mas o João tava na festa e aí, ele tava barbudo, assim, de boné, assim no canto, curti, aí depois eu soube que ele também curtiu, mas a gente nem conversou, porque eu tava lá para outra coisa, mas vi o João ali. Aí depois de sei lá, meio mês, uns 15 dias, 20 dias, teve uma outra festa da Nestlé com essas minhas amigas, eu fui e a minha amiga levou o namorado e o namorado levou o João, porque ele queria ver aquela menina que ele viu naquela festa. “Ela vai tá lá?” “Vai”, e pronto, e a gente casou naquele dia e nunca mais se separou. Nunca mais. P/1 – Isso faz quanto tempo? R – Doze. P/1 – Doze anos? R – 2005. P/1 – E o quê que o João faz? R – O João é fisioterapeuta, mas ele é professor, ele dá aula na faculdade de Fisioterapia, dá várias disciplinas, ele tem um jeito muito legal de ver a vida, mas falando da profissão, gosta da prevenção, né, não da doença, então trabalha com os alunos em coisas preventivas, movimentos, biomecânica, como é que é isso. Todas essas histórias de movimento. E ele é fotografo também, fotografa e é músico também, nunca estudou e ele é músico da alma e ele faz xilo, então… e a gente fica assim, fazendo essas coisas juntos. Ele é filho único, bem diferente da minha história, né, ele é filho único, eu sou a quinta, então não tem irmão, que louco deve ser alguém que não tem irmão, eu falo pra ele, né? P/1 – Verdade. R – E o João é assim, muito foda, a gente é muito convergente nas ideias, sabe? A gente tem diferenças, obviamente, pincipalmente pelo jeito, né, ele é único, eu não sou, então a gente tem altas brigas de: “Você e muito filho único”, mas é muito legal, porque eu não imaginava que eu fosse casar, né, não achava nada, não sabia o que eu queria ser, não tinha esses planos e ai, conheci o João e tô com ele. E é super legal, porque a gente é solto mesmo, também. P/1 – E vocês não têm filhos? R – Não. É legal, gosto do João muito, muito, muito. Meu parceirão, 12 anos, cara. Imagina! P/1 – E me fala dos seus lambe-lambes, das suas colagens. Você gosta de escrever… R – É, então, eu sempre gostei de escrever, de ler, de escrever e aí, sempre escrevi coisas mas para mim. E aí, nesse período que eu sai, tava procurando, 2013, 14, 15, fazendo cursos e essas coisas, caiu um curso de arte urbana com o Baixo, o Baixo Ribeiro. Porque pensa, eu sou, sei lá, uma palavra que já me disseram, tenho uma alma cosmopolita, nasci na roça, nasci no interior do Brasil, mas quis vir para a cidade grande cedo e gosto daqui, não penso em sair daqui, eu gosto de São Paulo, fortemente. E sempre fiquei curiosa com a cidade, com as relações da cidade, como é que é isso, o centro, a periferia, a cidade, o urbano, a roça, quem vem, os que escolhem, os que a cidade escolhe, os que a cidade rejeita, como é que é? Atenta a isso. Aí fui e achei… fiquei atenta com essas linguagens da cidade e aí, fui encontrar o Baixo em aulas de arte urbana. E aí, eu fiquei super envolvida, fiquei perto dele e fiz alguns projetos com a Choque, que é a galeria, e aí, chegou um momento que pela proximidade e da minha história, de eu contar que eu tava de um jeito e que agora, eu tava buscando outras coisas e enfim, o que fazer nessas outras coisas, na cidade, na arte que eu tinha nessas minhas escrivinhanças, eu escrevi que tem três palavras que eu quero estar envolvida para sempre, três lugares, três eixos da vida, que é arte, educação e comunicação. Comunicação era tranquilo, onde eu sempre tive mais experiência, né, e aí a arte e educação, o que eu quero abraçar e era onde eu tava procurando todas as coisas, fazendo curso, fotografando, escrevendo. E aí, falando isso com ele, chegou um dia que ele me convidou pra fazer parte de uma exposição que chama Poesia no Concreto, aí ele falou: “Traz a sua poesia, traz os seus escritos pra fazer parte”, desse jeito. E eu falei: “Como?”, ele falou: “Não sei, você que sabe, vem aí, a gente vai colar aí nas ruas”. Aí eu não sabia como fazer e fiquei: vou escrever com a mão? Como é que eu vou escrever o negócio? Aí, comecei a fazer os textos que agora eu sei que é uma categoria literária, mas eu não sabia, fazia contos pequenininhos, mini contos. E aí, pra juntar isso, porque eu falei: “Eu não quero só escrever isso e colar, eu acho que falta imagem”, porque é uma combinação tão perfeita foto e imagem que… e aí, eu comecei fazendo as colagens e juntar com a palavra, que aí eu dei o nome de Microconto Visual, que É o jeito que eu apresento o trabalho, um microconto visual. Aí, eu mostrei para ele: “Cola ai”, e a gente saiu pra colar e cola, cola, e aí, eu comecei a fazer… como eu tenho tempo, né, comecei a usar ele pra criar e aí, eu comecei a fazer colagem, colagem, texto, texto, colagem, colar nos lugares. Aí, eu quis fazer isso, participar de feirinhas de publicadores, feiras maiores, e pensei em desenvolver isso também como uma oficina, agora eu já agora comecei a fazer oficinas de colagens, de lambe-lambe, de arte urbana, fui falar com o Baixo: “Baixo, como é que é? Posso usar algumas ideias que você me apresentou? Alguns jeitos de mostrar coisas, mas com as minhas referências?”, e aí, isso tá rolando. Já dei algumas oficinas esse ano. P/1 – E você acha que essa sua origem de menina da roça influenciou nesse seu trabalho, nessa sua visão de São Paulo, nessa sua relação com São Paulo? R – Muito. Provavelmente, sim, né, porque é um olhar de fora, não sou daqui. P/1 – Quando você vê a Ana de hoje e a Ana que passou o primeiro ano aqui chorando no orelhão pra mãe, o que que você enxerga? O quê que você sente? Como foi essa trajetória? R – Era eu mesma, assim, só que sem instrumentos, assim, muito… muito sem… como que chama isso? Não estou delineada, ainda. Vai chegar esse dia eu acho, mas era muito crua, muito tenra e aí… mas as coisas estavam lá, os interesses, tudo tava lá e agora tem… agora não sei, agora tem uma desenvoltura para acessar essas coisas, sabe? Porque elas pertencem, então era só saber… P/1 – E como você chegou no Museu da Pessoa? R – Museu da pessoa, cara, são tantas confluências, né, a vida… assim, você diz pra vida e a vida fala com você de volta, né? É foda isso. Tem um amigo que já trabalhou aqui, ele falava assim: “Eu acho que você tem que ir conhecer o Museu da Pessoa, porque acho que tem a ver histórias, essa coisa aí sua que você tem com as histórias, com as escritas, com as memórias, com os registros”. Aí, a gente tentou entrar em contato aqui com alguém para eu vir aqui, não rolou na época, não sei, 2015, uma coisa assim. Beleza, não rolou o Museu da pessoa. E aí, eu entrei no site pra fazer curso, receber newsletter e aí tinha um sarau de histórias. Aí, eu vim fazer. Primeira vez que eu entrei, fiquei pescoçando assim, olhando as coisas, aí a Sonia falou assim: “Você não conhece?” “Não, não conheço, mas sempre quis conhecer” “É mesmo? Por quê?” “Porque eu escrevo, eu adoro historias” “Você é jornalista?” “Não, eu sou comunicadora” “A gente tá precisando de alguém de Comunicação”. E aí isso foi uma coisa e aí, pronto, trocamos cartão, eu vim aqui, fiz todos as conversas, entrevistas e tal, e agora eu trabalho aqui também. E nesse dia do sarau, eu vim com duas amigas e uma delas já tinha feito um curso aqui e ela veio porque ela ficou amiga de uma formadora daqui. Então, no dia que eu vim aqui com essa minha amiga, tinha uma amiga dela aqui, que é essa formadora, chama Gisele. E a Gisele, por sua vez, ela é amiga de uma outra amiga minha, que eu não sabia e essa minha outra amiga falou da Gisele pra mim, mas eu não sabia que era a Gisele que tava aqui. Então, outra conexão com o Museu que eu não sabia, mas já tinha também (risos). Dois amigos, né, dois amigos fazendo um movimento para eu vir pra cá. E eu vim aqui e aconteceu sem nenhuma dessas pessoas fazer nada, foi só numa coincidência de encontrar a Sonia e a gente falar sobre histórias, comunicação, necessidade, encaixe. E aí, é isso aí, agora eu tô aqui também fazendo a Comunicação do Museu, conhecendo, começando, muita coisa, porque o produto do Museu é o produto mais encantador que tem, né? E imagina, eu falei pra eles: “E o sonho de qualquer comunicador, não preciso inventar absolutamente nada, não preciso nem quase ter ideias, porque elas estão todas aqui, né? De todos os lugares. Se a gente quiser falar sobre conflito, tem, sobre cor, tem, sobre geografia, qualquer coisa que eu queira falar, aqui dentro, tem. P/1 – E por que você quis vir contar a sua história? R – Eu queria passar pelo método, né, para ver como é que é, pra poder falar sobre isso, da história de vivência, né, como é que é mais fácil falar de alguma coisa que você passou por ela. Nesse sentido de comunicar e tal. P/1 – E o quê que você achou de sentar aí e contar a tua história? O quê que você tá sentindo? R – Eu imaginava que ia ser emocionante e é, né? é super… a memória é essa coisa, né? Não é fácil (choro/emoção)… não tem muito jeito de falar, né, porque a gente sente, sente aqui, ó. P/1 – E quando você pensa na Ana daqui pra frente, o quê que você enxerga? Quais são os teus sonhos ainda? As suas aspirações? R – Estar sempre conectada com isso, com isso que a gente tá fazendo aqui, de ser canal para as coisas, sabe? Um amigo meu falou, uma vez, falou: “Eu não sou porteiro, minha filha, eu só tenho a chave das portas”, porque ele tava sei lá, apresentou alguém, eu falei: “Puta, que foda, hein, cara, você me mostrou…” “Eu não sou porteiro”. E é uma boa metáfora, né? Ser porteiro, tô na porta, tô no movimento, o negócio vem e vai, passa por mim, atravessa, né? Então, nesse sentido de continuar trabalhando e sendo produtiva, assim, tendo um papel, né? Não só de observador, mas um papel, uma ação nessa história de história, nessas histórias de produção, de criação, de arte, educação, formação. Eu quero muito desenvolver esse caminho das oficinas e até uma amiga minha professora, queridona, mestre já tava falando não sei o que do currículo lates, que preguiça, que eu tenho que arrumar isso, “Você vai ver um dia” “Eu não vou ver um dia isso” “Como assim?” “Eu não quero ter um currículo lates” “Ah você não quer fazer mestrado e tal?” “Não, não. Eu posso ser formadora, oficineira, o que for, não preciso de um título pra isso, não preciso de um titulo pra isso”, tudo bem ainda que daqui três anos eu posso mudar de ideia, me apaixonar por um tema e quero fazer uma tese sobre isso, tá tudo certo, também. Mas de novo, é a mesma coisa da carreira, não é algo que eu sei que vai acontecer amanhã , só tem alguns indícios. O principal deles é poder lera minha intuição que também é um trabalho de uma vida, né? É saber ouvir o quê que eu quero, o quê que… como é que é isso. Então, a minha intuição me diz que tem a ver com as palavras, tema ver com a memória, tem a ver com as histórias. É isso. Então, eu quero isso. P/1 – Ok. Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar? R – Não, só agradecer, né, porque a gente tá aqui. Agradecer o Gabriel, você, o Museu. P/1 – Eu que agradeço, foi ótimo! R – Dá um aperto, né? P/1 – Eu posso imaginar. Eu ainda não sentei nessa cadeira, mas eu posso imaginar. FINAL DA ENTREVISTA Dúvidas: […] cansei do Globe, vou voltar para comunicação, bati na porta do _____00:29:46___, foi um cara muito importante na minha vida também, um diretor de Comunicação da Nestlé na época. – Página 06. […] mas a gente fazia alguma coisa corporativa, obvio que não deu certo, porque é muito amplo e aí, falar de inovação e jeito de pensar e a gente foi desenvolver uma coisa chamada ___00:32:43____ de inovação, como que se tem ideias. – Página 07. […] fazer carreira e tal e isso, a minha carreira eu não programei, eu fui fazendo desse jeito, porque eu gostava do ____00:38:33___ e eu fui lá para pedir para trabalhar com ele, eu conheci o Jerome e fui falar… entendeu? – Página 08.

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