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História de: Hirades Ribeiro Rebêlo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2004

Sinopse

Hirades conta sobre as origens de seus avós e de seus pais, relembra sua infância na comunidade no Pará, a casa que seu pai construiu e que sua família morou por 48 anos, os seus períodos de escola, como foi adotar uma bebe aos dezessete anos, sobre a época em que seu marido entrou para política, como se tornou professora primária, sobre suas memórias ao ver sua mãe ajudando a comunidade - e foi a partir dela que se tornou agente comunitária de saúde. Relembra os problemas de saúde que foram solucionados na comunidade e os que ainda não foram e conta como sua vida pessoal se transformou após se tornar agente de saúde.

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História completa

P/1 - Bom, Hirades, eu queria que você começasse dizendo seu nome completo, a data e o local onde você nasceu.

 

R - Meu nome é Hirades Ribeiro Rebelo. Eu nasci em 23 de julho de 52, na localidade de Rio Paricatuba.

 

P/1 - Em Ponta de Pedras?

 

R - Em Ponta de Pedra e atualmente eu estou trabalhando na comunidade de Rio Cunha, Paraná.

 

P/1 - Certo. Você quer ficar mais à vontade? Aqui o microfone pega bem distante, você pode ficar tranquila, pode ficar relaxada com o microfone. Eu queria que você me contasse primeiro, Hirades, sobre a origem da sua família. O que você conhece da história dos seus avós por parte de pai?

 

R - Olha, os meus avós, eles eram pessoas que vieram das ilhas, os pais do meu pai, né? Eles vieram... Os cearenses vieram pra trabalhar, como...

 

P/1 - Trabalhar nas ilhas? Fazendo o quê?

 

R - Eles cortavam seringa, faziam roças, sabe? Era a maior parte do trabalho deles. Aí vieram e chegaram pra cá, tiveram já os filhos e meu pai era descendente de cearense, né?

 

P/1 - De que lugar do Ceará, você sabe, não?

 

R - De onde eles eram não, não sei.

 

P/1 - De qual lugar?

 

R - Não sei. Sempre ouvi meus pais dizerem que eles vieram das ilhas e que eram descendentes de cearense. Meu avô mesmo era cearense verdadeiro. Os pais dele, os meus bisavós né, eram cearenses mesmo verdadeiros. Eles também... Só o meu pai e os irmãos que já nasceram aqui neste município de Ponta de Pedras.

 

P/1 - Vieram das ilhas, de quais ilhas?

 

R - Não sei.

 

P/1 - Quando fala vindo das ilhas aqui, significa vindo de onde, quais ilhas?

 

R - Vindo, assim, eu só sei dizer que eles vieram da borda do Nordeste.

 

P/1 - Do Nordeste?

 

R - É, né?

 

P/1 - Tá certo.

 

R - Eu sei que eles eram colonos.

 

P/1 - Colonos?

 

R - Isso.

 

P/1 - Trabalhavam em fazendas?

 

R - Sim.

 

P/1 - Trabalhavam plantando?

 

R- Depois já vieram de moradia em moradia, de aldeia em aldeia, de comunidade em comunidade, até que ficaram trabalhando já em seringal, né?

 

P/1 - Sei. Tirando borracha?

 

R - Sim. E depois já ficaram trabalhando em lavoura, roças, canavial, essas coisas.

 

P/1 - E aí eles se fixaram aqui?

 

R - Aqui no município de Ponta de Pedra.

 

P/1 - Em que lugar exatamente?

 

R - Em São Miguel.

 

P/1 - São Miguel é o quê?

 

R - É um rio, uma comunidade vizinha. Até que não fica muito longe daqui.

 

P/1 - Não? Quanto tempo?

 

R - Uns quinze minutos.

 

P/1 - Bem pertinho daqui?

 

R - Bem pertinho, é.

 

P/1 - E ali eles se fixaram?

 

R - Ali eles se fixaram e os filhos cresceram, nasceram.

 

P/1 - Os pais do seu pai?

 

R - Sim, os pais de meu pai.

 

P/1 - Como é que chamavam seus avós, você sabe?

 

R - É Raimundo Ferreira Ribeiro e Maria Deodora Ferreira Ribeiro.

 

P/1 - E quantos filhos eles tiveram aí nessa ilha?

 

R - Deixa eu lembrar. Eles tiveram Raimunda, Djalma, Edvar, Margarida, (Cesarina?) e Lucinar. Seis, né?

 

P/1 - Seis filhos?

 

R - Seis filhos.

 

P/1 - E seu pai?

 

R - Sim, meu pai, né? Sete. (riso)

 

P/1 - E como era o nome do seu pai?

 

R - O nome do meu pai é Pedro.

 

P/1 - É Pedro, ele é vivo? Pedro?

 

R - Ferreira Ribeiro.

 

P/1 - Ferreira Ribeiro. E o seu pai então cresceu nessa comunidade e ele nunca saiu daqui?

 

R - Não, ele cresceu lá na comunidade de São Miguel e já com uma idade elevada, talvez assim com 25 anos ou 22 por aí, já conheceu a minha mãe. Nesse tempo era já na comunidade de Paricatuba e aí casaram.

 

P/1 - E vamos falar da sua mãe então, o que você sabe dos avós por parte da sua mãe?

 

R - Olhe, meu avô era daqui mesmo, desse município.

 

P/1 - Daqui de Ponta de Pedras?

 

R - Esse município. Agora a minha avó, ela era de outro município, de Muaná, cidade de Muaná que fica há algumas horas de viagem daqui, inclusive eu não conheço esse município, ainda nunca fui lá.

 

P/1 - E eles eram lavradores também?

 

R - Também.

 

P/1 - Trabalhadores? Pescavam também?

 

R - Pescavam.

 

P/1 - Aqui todo mundo é um pouco lavrador e um pouco pescador, não é?

 

R - É.

 

P/1 - E eles então se fixaram aí nessa comunidade que se chamava?

 

R - Rio Paricatuba.

 

P/1 - Paricatuba, Rio Paricatuba.

 

R - Meu avô também era comerciante.

 

P/1 - Comerciante? Secos e molhados, o que é que ele comercializava?

 

R - Secos e molhados.

P/1 - E a sua mãe nasceu, cresceu e nunca saiu daqui?

 

R - Não, não. Antes de casar ela já era professora.

 

P/1 - Ela se formou então?

 

R- Foi.

 

P/1 - Ela fez até que ano?

 

R - Olhe, ela fez... Porque nesse tempo fazia o primário, fazia admissão, né?

 

P/1 - Fazia o primário, fazia admissão, fazia ginásio e depois podia fazer o normal, no caso de professora.

 

R - Ela não chegou a fazer o normal.

 

P/1 - Não chegou a fazer o normal, deve ter feito...

 

R - Professora leiga, né?

 

P/1 - Sei. E aí eles se conheceram, se casaram e foram morar aonde?

 

R - Foram morar... Moraram um pouco aí em Paricatuba, inclusive eu nasci aí.

 

P/1 - Você nasceu em Paricatuba?

 

R - Foi. Eu nasci em Paricatuba. Só eu mesmo, os outros meus irmãos já nasceram lá no (Cunha Paraná?). Nós fomos morar… Inclusive nós éramos os últimos moradores, justamente onde eu saí pra trabalhar, eu passo um dia viajando pra chegar lá e faço visita só pras duas famílias que moram lá. São as últimas famílias da minha comunidade onde eu atendo. Então o dia que eu faço visita pra essas duas famílias... O nome da localidade é Santana, o sítio é Santana. É bonito assim, fica em beira de rio e beira de campo.

 

P/1 - É lá que eles foram morar?

 

R - Lá que eles foram morar. Então lá, nesse tempo, dava muita malária, sabe? Aí os guardas da Sucam tinham que toda semana estar levando remédio. A minha mãe fazia o tratamento. Toda semana tinha que dar um comprimido pra nós. Aquilo era amargo, meu Deus do céu (riso). A gente tinha que fazer esse tratamento. Tomava um por semana, depois já ficamos tomando um de quinze em quinze dias, depois já era um por mês, até que acostumamos, né?

 

P/1 - Era um comprimido?

 

R - Sim, um comprimido contra a malária.

 

P/1 - Você sabe o que é que era esse comprimido?

 

R - Era (Aralém?)

 

P/1 - (Aralém) era o nome do comprimido?

 

R - Era o nome do comprimido.

 

P/1 - Vinha num envelopinho e tudo?

 

R - Era amarelinho, mas amargava, amargava, amargava.

 

P/1 - Você era pequenininha?

 

R - Era pequenininha e eu não gostava de tomar, eu estragava uns quatro, cinco, seis (riso).

 

P/1 - Eles deviam botar açúcar pra ficar doce.

 

R - É, tudo isso ela fazia, mas não ficava doce não. Aí tomava. Era assim.

 

P/1 - Alguém na sua família teve malária?

 

R - Não, não chegamos a contrair porque a gente tinha cuidado, foi orientado pelo pessoal da fundação, né? Aí ela fazia direitinho como eles mandavam. E eu sempre... Nesse tempo tinha borrifação, DDT eles estavam quase toda semana. Nesse tempo eu era pequena, não me lembro, porque quando nós fomos morar lá eu estava com seis meses, minha mãe falava que eu tinha seis meses de idade, quer dizer, isso que eu já estou contando de quando eu já me lembro, né? Meu marido acha graça com meus filhos quando eu digo que de cinco anos pra frente eu me lembro tudo que passou na minha vida e eles dizem que não: “De cinco até posso não lembrar, mas de sete pra frente eu já me lembro tudo”. Aí eu me lembro que ela fazia isso, o pessoal da Sucam estava sempre orientando, ela tinha cuidado e estava sempre limpando ao redor da casa e não deixava ficar...

 

P/1 - Pra matar o pernilongo, lá, como que chama?

 

R - Não deixava ficar poça de água, que nem agora a gente faz no nosso trabalho, né? Eu me lembro.

 

P/1 - Bom, e aí vocês cresceram, quantos irmãos?

 

R - Nós somos nove.

 

P/1 - Nove. Sempre lá na comunidade?

 

R - Sempre lá. Só que eles adotaram outras crianças, né? Aí são... O total mesmo com os de criação são uns vinte e tantos.

 

P/1 - Nossa! O que é isso? Tanta gente assim? E pra alimentar esse povo todo o que seu pai fazia?

 

R - Ele trabalhava na lavoura.

 

P/1 - Trabalhava na lavoura?

 

R - Ele trabalhava. Minha mãe também de professora. Mas aí quando ela casou e foi pra lá aí parou de lecionar, né, nesse tempo não era que nem agora, pede transferência... Porque lá não tinha... Era isolado mesmo. Tinha o povoado, mas era aqui embaixo mesmo onde eu moro agora, tinham bastante famílias, mas pra lá não, era só nós mesmo, sabe? Era distante assim. Era mata. Muito longe.

 

P/1 - Era mata fechada?

 

R - Era. Daqui [pra] lá são quatro horas de motor.

 

P/1 - Puxa! E era terra do seu pai, mesmo?

 

R - Não, não, não era dele, era de um amigo dele. Até ele morava aqui na cidade. Como ele era muito amigo do meu pai, ele ofereceu pra ele ir morar e ele aceitou e lá nós moramos 48 anos.

 

P/1 - E você cresceu meio isolada, sem ter vida em comunidade?

 

R - Foi.

 

P/1 - Não tinha comunidade?

 

R - Não, não tinha. Aí eu saí, com uns oito ou nove anos eu saí pra estudar, né? Eu saí pra estudar e fui pra outra comunidade onde tinha escola, porque lá não tinha, era tão atrasado.

 

P/1 - Pra qual comunidade?

 

R - Eu fui pra comunidade de Uriduba, tinham umas escolas e a professora era minha tia, inclusive a (Edite?). Fiquei morando com ela até os treze anos, foi. Aí eu estudei até a 2ª série com ela. Eu já fiquei mocinha, eu estava com treze anos e meu pai estava com muito ciúme de mim, aí ele foi me buscar, não deixou mais eu ficar pra estudar. Só que eu tinha muita vontade de estudar, né? Aí eu cheguei... Antes de começar a estudar, eu aprendi a ler no jornal, lendo o jornal eu aprendi. Minha mãe me ensinou o alfabeto e aí eu comecei... Tinha muita vontade de aprender, aí eu comecei a juntar aquela força de vontade. Assim eu aprendi lendo jornal. Fui pra lá estudar, estudei e ainda cheguei a passar para a 3ª série, mas não continuei. Continuei morando lá, isoladamente.

 

P/1 - Você voltou pra casa dos seus pais?

 

R - Sim.

 

P/1 - Seu pai foi lá te buscar?

 

R - Foi lá me buscar e eu voltei pra lá. Eu fiquei... Aí eles não deixaram mais eu sair, né? Tinham muito ciúme. Aí eu fiquei lá. Eu estava com treze anos, fui crescendo, fui crescendo, saía pouco. Estava com dezessete anos, chegou aqui um bispo. Chegou um bispo e foi fundando as comunidades, as (Sebes?), né?

 

P/1 - (Sebes?)? O que é que são (Sebes?) mesmo?

 

R - (Sebes?) são mesmo as comunidades, comunidade católica, aí forma uma equipe pra dirigir culto, aí tem as cantoras.

 

P/1 - Cantoras?

 

R - Sim.

 

P/1 - Do culto?

 

R - É, isso. Aí tinham os dirigentes. Meu pai e minha mãe eram os dirigentes de equipe e aí eu ingressei no coral, que...

 

P/1 - Mas nessas alturas, então já tinha mais gente morando lá?

 

R - Não, só nós, o povoado aqui embaixo, nós vínhamos, meu pai...

 

P/1 - Seu pai vinha, vocês vinham de lá?

 

R - É, nós vínhamos de lá todo domingo, né?

 

P/1 - Mas continuava morando lá longe?

 

R - Continuava morando lá. Então meu pai trabalhou já junto com os meus irmãos que já estavam rapazes, e nós compramos um motorzinho. Aí já facilitava, sabe? Facilitava pra gente assim.

 

P/1 - Aí ficou mais curto o caminho?

 

R - Foi. Aí a gente vinha todo final de semana dirigir o culto lá, mas é... Onde eu estou morando agora, onde eu moro atualmente. Eu estava com dezessete anos, já namorei um rapaz, esse que é meu marido. Eu tinha dezessete anos, aí eu sei que ficamos, namoramos, meu pai não queria, aí tal, foi, foi, foi. A minha mãe gostava dele, gostava muito dele. Até que nós casamos, mas quando eu me casei eu já estava com 25 anos.

 

P/1 - Demorou, hein? Tudo isso de namoro? Teve noivado, não?

 

R - Teve (riso).

 

P/1 - Quem é que enrolou?

 

R - Foi papai.

 

P/1 - Foi seu pai?

 

R - (riso) E eu mesmo não intencionava casar tão nova, porque eu tinha vontade de estudar ainda. Depois que eu me casei vim fazer uma prova como candidata estranha aqui num grupo. Nesse tempo só tinha um grupo escolar aqui - Alberiana Monteiro. Ainda tem. Aí fiz uma prova e consegui tirar a 5ª série primária. Fiz como candidata estranha porque, quer dizer, eu vim de lá, parei de estudar nos colégios, nas escolas, mas eu continuei em casa. Eu arranjava livros e ia estudando, estudando, estudando e me aprofundando nas coisas. Até que depois que eu me casei, meu marido vendo que eu tinha muita vontade de estudar, ele veio, tinha uma cunhada dele que era professora aqui, aí ela disse que eu podia fazer. Inclusive nesse dia, quando eu fiz a prova como candidata estranha, nós éramos uns dez candidatos. Conseguimos, tivemos o êxito de passar, né? Fiquei feliz porque já consegui a minha 5ª série primária, né?

 

P/1 - Conseguiu lá o seu diploma.

 

R - Foi. Aí consegui. Ficou com mais uns dois anos, aí o prefeito era meu padrinho, era tabelião também, aí ele mandou me chamar e perguntou se eu não queria trabalhar como professora, aí eu disse: “Não sei, acho que eu não vou dar conta”. Ele disse: “Não, dá conta sim. Não tens a 5ª série? Eu sei que tem”. Aí eu contei pra ele a situação de como é que eu tinha feito e ele disse: “Mas tu consegues dar conta sim porque se tu deu conta de fazer a prova, teve êxito, então fez a 5ª série, então tu dá conta de lecionar”. Porque não tinha professora lá. Não tinha professora, eu não queria aceitar. Se juntaram os políticos e conversaram. Eu digo: “Eu vou experimentar, mas olha, se eu não der conta eu venho aqui e digo pra vocês, eu entrego. Só posso me responsabilizar numa coisa, quando eu sei que eu dou conta, mas tá bom, eu vou fazer um teste”. “Não, tu vem todo sábado fazer plano”. E eu fazia, sabe? Aí eu fui. Todo sábado vinha pra cá fazer plano de aula, aí foi assim que eu fiquei lecionando até determinado tempo, né? Quando veio o prefeito, o ex-prefeito, sem ser agora, há quatro anos, como ele era de um lado político, eu era de outro e meu marido era candidato, aí ele me tirou, né? Eu fiquei na minha. Aí eu fui convidada pra trabalhar como agente comunitário, já tinha sido convidada, né? Aí ele me tirou e eu disse: “Tá bom, vou ficar só como agente comunitária mesmo”.

 

P/1 - Bom, a gente vai entrar na história do PACS daqui há pouco, pra gente não perder o passado lá, queria que você me contasse um pouco como é que foi a sua infância? Você me disse que eram muitas crianças na sua casa e ao mesmo tempo vocês ficavam isolados numa casa que... Como é que era a casa? O que vocês faziam?

 

R - A casa era grande, era uma casa de madeira, muito grande mesmo. E tinham muitas plantas, porque minha mãe plantava muito. Tinha limoal, tinha roça também, bem próxima da casa. Aqueles que já estavam maiorzinhos iam pra roça. Eu não, sempre ficava em casa, eu que fazia todo o serviço, lavava a roupa, cozinhava, com sete anos eu já ficava em casa com meus irmãos, né? Ela já deixava a comida ali só pra eu olhar a panela no fogo pra não deixar queimar. Eu ficava e tratava. Também, o mingau dos meninos ela me ensinava como era pra fazer, ela fazia pra eu ver. Eu aprendi a fazer o mingau, não conhecia a hora. Aí ela dizia assim pra mim: “Olha”... Ela saía de madrugada, quatro horas ela saia: “Olha, quando o ponteiro pequeno estiver no nove e o grande no dez tu começa a fazer o mingau” (riso). Ainda tinha o das seis da manhã, né? Ela dizia: “Olha, minha filha, tu acorda bem cedinho, quando o relógio estiver de braço aberto assim (riso) são seis horas, tu levanta e faz logo o leite pro teu maninho”. ‘Tá bom”. Aí eu ficava atenta no relógio, das cinco horas em diante não dormia mais. Eu levantava, fazia o leite bem certinho, o menino acordava seis horas, seis e cinco, por aí, aí já estava pronto, eu dava aí ele dormia. Ela dizia: “Olhe, quando o relógio estiver de braço aberto assim, não, quando estiver todos os dois no nove tu dá banho no teu irmão e deixa ele brincando e vai fazer o mingau, aí quando estiver o ponteiro pequeno no nove e o grande no 12, tu dá o mingau pra ele que está na hora” (riso).

 

P/1 - Aí você ficou decorando todo o relógio (riso).

 

R - Eu sei que foi assim que eu aprendi a ver hora, né? Primeiro eu conheci seis horas, depois nove horas, dez pras nove, aí meio dia também: “Você olha quando estiver os dois aqui, esse número aqui é o doze, quando estiverem os dois aqui já são meio dia, se eu ainda não estiver chegado tu faz alguma coisa e dá de novo, e dá água nos intervalos” ela dizia também, sabe? Aí assim eu fazia. Quando era na parte da tarde ela dizia a mesma coisa, ela me ensinava três horas.

 

P/1 - Você era a mais velha, Hirades?

 

R - Era, eu era a mais velha e depois de mim era o menino. Eu sei que eu ficava para cuidar dos meninos. Com sete anos eu já fazia tudo isso. Depois foram crescendo, eles já iam trabalhar também e eu ficava só com os mais novos.

 

P/1 - E você falou da malária, mas tinha problema de doenças, os meninos eram todos fortes?

 

R - Todos fortes. Ela tinha muito cuidado, né? Nós nunca fomos atacados por malária.

 

P/1 - E outras doenças?

 

R - Dava uma dor de ouvido, uma gripe.

 

P/1 - Vacinar, vocês eram vacinados?

 

R - Vacinados, todos vacinados.

 

P/1 - Vacinava aqui em Ponta de Pedra?

 

R - Era aqui. A gente vinha de lá e tomava todas as vacinas.

 

P/1 - E não tinha miséria, não era uma vida de muita miséria?

 

R - Não, não porque ele trabalhava muito, não deixava faltar nadinha pra nós.

 

P/1 - E ele trabalhava plantando? Plantava o quê?

 

R - Ele trabalhava. Ele fazia roça bem grande, fazia mutirão pra fazer a roça. Broca, eles chamavam de brocá quando ia começar. Convidava quinze, vinte homens, ele comprava arroz, feijão, charque, fazia aquela feijoada, aí convidava uns quinze ou vinte homens, aí roçava e tombava as árvores. Eles falavam assim... Roçavam e derrubavam, aí fazia o roçado. Deixava ficar aquele tempo, quando estava tudo bem sequinho, atava o fogo e deixava queimar o dia todo. Aí plantava... Ia lá olhar no outro dia, dois, três dias depois, ia olhar e plantava logo as sementinhas de maxixe, jerimum, melancia, aí ia ver onde não queimava bem, cortava novamente aqueles paus e carregava, jogava e fazia o (acero?), sabe, era assim.

 

P/1 - (Acero?) pra...

 

R - Sim, juntava os restos de madeira que não queimou bem, aí fazia as coivaras na beira da roça, sabe?

 

P/1 - As curvadas?

 

R - Sim, as coivaras.

 

P/1 - Coivaras, o que são coivaras?

 

R - Juntava um monte de lixo, sabe? Aí queimava novamente, uns queimavam, as que eram mais grossas não queimavam, deixavam ficar lá mesmo, aquilo ficava tudo beirando o roçado, parecia que era uma cerca.

 

P/1 - Um braseiro?

 

R - Sim. Aí plantava maniva, tinha maniva que dava com seis meses.

 

P/1 - A maniva é o que?

 

R - É a mandioca, onde faz a farinha. Planta nas hastes, corta em pedaços assim e planta, faz a cova, bota dois pedaços, aí ela nasce. Ela dá uma árvore que cresce a haste e no fundo dá a raiz.

 

P/1 - Então a raiz é a mandioca e a planta é a maniva?

 

R - É.

 

P/1 - Porque lá pra gente… Nunca tinha ouvido falar o termo maniva.

 

R - A gente chama a haste.

 

P/1 - A planta de maniva, a raiz de mandioca.

 

R - É, e era assim, aí plantava o milho, o arroz... Tinham vezes que ele plantava num só roçado, mas tinha vezes que ele fazia um pra mandioca e outro pra arroz e milho, porque onde a terra é firme, terra enxuta. Só dá pra mandioca onde é mais baixo, onde é úmido, bem úmido, aí dá pro arroz, o milho, cana, mas ele bem pouco fazia roçado de cana, sabe? Porque era longe, não dava pra fazer no mesmo terreno o roçado, tinha que fazer em outra área porque também ele criava porcos, sabe? Ia dar muito trabalho pra fazer cerca e não vencia, os porcos sempre invadiam e tinha que fazer numa outra área, de outra pessoa, num outro terreno, aí alugava o terreno, pagava uma importância pra fazer o roçado, mas tudo dava bem, dava bem mandioca. Dava pra ter lucros, aí ele vendia a farinha e comprava as outras coisas. Vendia o arroz, vendia o milho e aí comprava as outras coisas. Como nós morávamos longe, ele comprava tudo à vontade, quinze quilos de feijão, quinze de arroz, o charque, tudo à vontade. É o costume do nordestino, né? Porque os pais dele eram cearenses.

 

P/1 - Quer dizer que as comidas eram costumes dos nordestinos?

 

R - Isso, é. E também pra lá tinha muita caça. Tinha muita caça de paca, tatu, ______, só que a gente quase não gostava de caça.

 

P/1 - Não? Por que?

 

R - Era uma briga, nós éramos crianças, aí ele comprava. Vinha aqui também e comprava carne.

 

P/1 - De pescar…?

 

R - Peixe, peixe, tinha muito peixe, ele pescava, _______ igarapé. Pegava muito peixe. Peixe a gente gostava de comer, a gente comia muito peixe mesmo, peixe bom.

 

P/1 - Então na sua infância você não lembra de ter tido muita dificuldade, foi uma infância tranquila?

 

R - Não. Também tive as dificuldades. Depois ele começou a marretar, não deu mais pra fazer roça, né? Ele começou a comprar e vender, né?

 

P/1 - O que é marretar?

 

R - É comprar, faz as compras, compra as coisas, comprava o assaí, aqui tem muito, na região...

 

P/1 - Compra de outras...

 

R - É, compra de outras pessoas e vai vender em Belém. Vai vender em Belém do Pará. Aí quer dizer, os barquinhos que atravessavam eram só à vela e aí custavam a chegar. Passavam três, quatro dias pra chegar.

 

P/1 - Pra ir até Belém eram três, quatro dias?

 

R - Eram três, quatro dias pra chegar, até porque quando tinha vento, o barquinho era com vela, né? Quando tinha vento não, era rápido, atravessava em dois dias ia lá e vinha em dois, três dias, mas quando não tinha vento era muito difícil pra voltar, pra chegar mesmo. Só que a minha mãe se virava sempre.

 

P/1 - As coisas acabavam dando certo.

 

R - É, e nós éramos muitos, mas já tinham os meninos que estavam rapaizinhos e já ajudava.

 

P/1 - E por que essa idéia de adotar e de ter tanto filho?

 

R - É porque eles ficavam [com] uma pena, sabe? Pessoas que tinham muitos filhos e não tinham condições pra tratar e aí ela ensinava, lá mesmo em casa, ela ensinava as crianças.

 

P/1 - Dava aula?

 

R - É, ela dava aula.

 

P/1 - Ela estava fazendo uma escola ali em casa mesmo?

 

R - Era com os meninos que moravam, porque vinte e tantos.

 

P/1 - E todos adotados no papel?

 

R - Não, só uma. Depois que foram crescendo, foram ficando rapazes, moços, foram também constituindo família, foram saindo.

 

P/1 - Bom, então vamos voltar lá pra sua família agora. Você disse que aí já estava com seus filhos também, quando você entrou no PACS. Da história dos seus filhos, o que você pode contar? Foram partos tranquilos? Você teve problema como mãe, assim?

 

R - Os partos eram ruins.

 

P/1 - Você fez pré-natal, havia assistência aqui?

 

R- Tinha que fazer aqui na cidade, né? Eu vinha fazer de todos. Fez do primeiro, do segundo, do terceiro, que é a menina, da Solange não consegui fazer pré-natal por causa da dificuldade aqui na unidade, porque toda vez que eu chegava nunca consegui ficha, aí eu voltava. Nessas alturas eu já trabalhava como professora. Conclusão, no oitavo mês eu tive que tirar licença-maternidade e aí a prefeitura me pediu atestado, comprovante do pré-natal, e eu falei pro prefeito que eu não tinha feito pré-natal porque eu não conseguia ficha. Toda semana eu vinha, quatro ou cinco vezes, de segunda a sexta, chegava lá sempre tinha uma desculpa. Aí eu não consegui a ficha e aí eu não fiz. Foi oito meses de caminhada pra unidade e não consegui fazer o pré-natal. Eu falei pra ele que a culpa não era minha, que eu bem que sabia que tinha que fazer o pré-natal, tanto por causa da minha saúde quanto da criança. Aí ele disse assim: “Mas foi assim?” Eu disse: “Foi”. “Mas você foi lá, você fala essas coisas na presença do rapaz que não lhe deu a ficha?” Eu disse: “Eu falo, falo sim.” Inclusive esse rapaz ainda trabalha lá. Aí ele pegou, fez uma recomendação e mandou que eu levasse ao médico e ligou, conversou com o médico, aí chegou na hora do médico me atender, ele disse: “Cadê a sua ficha?” Aí eu falei para ele da dificuldade que eu tinha, que eu tive: “Não fiz o pré-natal e ele pediu a minha ficha”, aí chamou o rapaz, foi ele que tirou minha ficha: “O senhor não fez pré-natal?” Falei: “Não fiz, não fiz doutor, mas eu caminhei pra cá durante os oito meses só que eu não consegui porque toda vez o rapaz dizia que não retirava minha ficha que era tarde, aí eu falava pra ele: “Mas gestante não tem prioridade?” “Ah, mas não dá, vem amanhã”. “Todo dia eu vinha e nunca fiz o pré-natal, então a culpa não é minha doutor”. Eu sei que foi o prefeito lá, foi o vice-prefeito. Aí ele disse: “_____ que me deu o atestado doutor, só que ele disse que não se responsabilizava pelo que acontecesse comigo”. Porque meus partos eram ruins mesmo, quem fazia o meu parto era uma enfermeira que trabalhava aqui nesse tempo. Ela já está aposentada agora. Aí ela fazia meus partos, mas só que meus partos...

 

P/1 - Você já tinha feito parto ou era o primeiro ?

 

R - Era.

 

P/1 - Esse foi o seu primeiro parto?

 

R - Não, esse foi o terceiro. O primeiro e o segundo eu consegui fazer o pré-natal, o terceiro que eu não consegui. Ai eles me deram licença, aí eu tive, foi pior do que os outros dois anteriores.

 

P/1 - O que acontecia?

 

R - Me dava, me deu muita hemorragia, quase eu morri. Eu fiquei aqui, fiz tratamento, fui pra unidade, fiquei interna, aí saí com mais de quinze dias, fui pra casa, minha mãe foi pra lá me tratar, aí depois estava em convalescença ainda. Aí eu voltei a trabalhar, quer dizer, a respeito dos meninos, eu tinha que levar todo dia pra escola, porque eu não tinha com quem deixar, né? Não podia pagar uma pessoa pra tomar conta dos meus filhos porque o que ganhava era pouco. Eu comecei ganhando, não sei se eram cinco centavos ou vinte (riso), era uma coisa assim.

 

P/1 - Hoje em dia não dá nem pra saber mais, já mudou tanto a moeda desse país.

 

R - Eu sei que quando eu ganhava cinquenta centavos era muito dinheiro, dava pra fazer muita coisa.

 

P/1 - E a história dessa garota que você adotou como filha?

 

R - Como?

 

P/1 - Essa sua filha adotiva?

 

R - Essa eu ainda era solteira quando eu adotei, né?

 

P/1 - Por que você adotou?

 

R - Porque o pai dela... A mãe dela era muito minha amiga, de infância, e casou com o meu tio, então ela teve dois gêmeos, foi já o segundo parto, terceiro parto dela, foram dois gêmeos e a parteira curiosa que foi assisti-la não teve muito cuidado, ela estava meia embriagada. Deu a dor nela na noite de finados e ela estava sozinha, o marido estava viajando pra Belém e justamente o barco que ele foi era a vela, custava a chegar e não chegou no dia, ele tinha que chegar na véspera de finados, dia primeiro e não chegou, ele só veio chegar no dia três, quando ele chegou ela já tinha falecido. Aí deu a dor nela a noite e ela gritou pra essa vizinha, ela era parteira, só que ela bebia e nessa noite ela estava embriagada. Aí chegou lá...

 

P/1 - Ela era alcoólatra?

 

R - Eram duas crianças e a placenta era só uma, sabe, e ela puxou, aí deu a hemorragia interna, aí ela veio a falecer. Ainda tentaram trazer pra cá, mas antes de chegar aqui na cidade ela faleceu porque ia falecer mesmo, porque já tinha, ela tinha... Puxou a placenta antes da hora e arrebentou, aí ela teve hemorragia interna, morreu e ficaram as duas crianças. Só que a menina era bem pequeninha, sabe? O menino era mais forte, era maior. Aí a minha tia pediu. Cheguei lá só estava a menina e eu pedi pra ele e ele disse: “Minha filha, porque é que você ia querer essa menina?” Eu disse: “Não tio, eu quero.” Ele disse: “Olha, se eu fosse você eu não me responsabilizaria pela menina, mas se você quer”. Eu disse: “Não, eu quero”. Ele disse: “Ela vai morrer mesmo” Eu disse: “É tio”. Eu tinha dezessete anos. “Ela vai morrer mesmo, é verdade porque todos nós nascemos pra viver e um dia morrer, só que eu me responsabilizo de tratar bem dela e ela só vai morrer quando for a vontade de Deus”. Conclusão, eu tive que ficar três meses pra menina ficar mamando numa outra pessoa, uma outra mãe, era a minha tia, ela tinha um menino que mamava, aí a menina ficou, mamou três meses, aí depois dos três meses eu trazia na unidade e ela era problemática mesmo. Eu tinha que toda semana trazer na unidade. Depois dos três meses eu fui embora pra lá pra casa e ela sempre com problema de saúde, aí foi, foi, foi, quando eu me casei ela já estava com três anos, aí minha mãe queria, eu disse: “Não mãe, deixa eu levar ela”. Ela falou: “Tá”, deixou e eu levei pra casa. Quando eu tive o meu primeiro filho ela já estava com quatro anos, aí ela já me ajudava, já me dava uma fralda, já carregava uma sacolinha do bebê, depois com onze anos ela foi embora pra Belém estudar, né? Foi morar com uma família e estudar. Morou em Belém do Pará uns dois ou três anos, aí foi com a família pra Carajás, ficou morando lá. Lá ela já estava... No ano passado, não, há três anos ela cursava o segundo grau, estava terminando o segundo grau, aí ela achou [melhor] vir embora pra Belém. Veio embora e não trouxe comprovante nenhum. Chegou em Belém, o único comprovante de escolaridade que ela tinha era um boletim de 5ª série. Aí foi fazer a 5ª série, se matricular, fazer a 5ª série, aí a família com quem ela veio morar achou que ela deveria fazer o supletivo, aí foi fazer o supletivo, depois chegou no final do ano não passou. Aí eu falei pra ela: “Continua, faz a 5ª série que é melhor”. Ficou mais três anos em Belém e todo ano repetindo o supletivo. Veio embora, chegou aqui... Porque ela já tinha mesmo um namorado aqui, quando vinha nas férias. Em fevereiro ela casou e veio se matricular pra continuar os estudos e continuou fazendo a 5ª série, porque era o único comprovante que ela tinha, não trouxe de Carajás, ela não trouxe comprovante porque estava terminando o segundo grau, faltava uns três meses pra ela fazer, pra _______ fazer as últimas provas, em seis meses ela já concluía. Veio embora, não trouxe comprovante nenhum. Continuou aqui fazendo a 5ª série e foi assim que…

 

P/1 - Você falou dos seus filhos, de problema de criação. O que você se lembra de casa, de problemas de saúde dos seus filhos? Você se lembra de remédios que você teve que dar pra eles?

 

R - Olha, os meus filhos... Eu tive muita sorte que eles não eram quase doentinhos. Só que eu trazia pra... Eu amamentava seis meses só no peito e trazia pra todas as vacinas nas datas certinhas, certinhas mesmo. Eu tinha bastante cuidado, também eu fazia... Só dessa terceira que eu não fiz pré-natal, ela foi a mais doentinha, foi só ela, mas os outros não tive problema nem em época de nascer os dentes, que sempre dá problema, não deu. Porque os meus irmãos, o problema de saúde deles era na época de nascer os dentes.

 

P/1 - Ficava dolorido?

 

R - Dava febre, dava vômito. Eu digo: “Meu Deus do céu, nem pense, acho que eu não vou me casar não porque eu não sei fazer esses remédios que a mamãe faz”. Ela fazia só remédio caseiro.

 

P/1 - Você não se lembra, não guardou a tradição não?

 

R- Ela usava hortelãzinho, (chama?) - é uma planta, catinga de mulata, era outra planta e aí ela fazia chá e dava pra eles.

 

P/1 - Você não usa?

 

R - Não, só o hortelãzinho que eu usava e só usava pra essa que foi doentinha, os meus não, quer dizer, eu fazia o pré-natal e dava vitamina pra eles. Dos três meses em diante eu dava complexo B, Redoxon, sabe? Quando eu me espantava já estava saindo os dentes e não tinha problema. Ai sim, porque quando eu via o problema nos meus irmãos, eu rezava: “Meu Deus do céu, fazei com que... Eu sei que um dia eu vou me casar, vou ter os meus filhos, mas ai meu Deus, fazei com que eles não tenham esses problemas que eu não sei tratar”. Era só comigo, sabe? (riso). Eu digo assim pras minha amigas: “ Olha, Deus me ouviu, Deus ouve tudo que eu peço, ele me ouve porque meus filhos não me deram nenhum problema nessa época de dentição”.

 

P/1 - Você contou que quando você entrou pro PACS teve o problema do seu marido ser vereador por outro partido, tanto é que você perdeu... Quando é que seu marido começou a mexer com política, como é essa história?

 

R - Olha, ele começou a se envolver em política como cabo eleitoral.

 

P/1 - Ele é lavrador, né?

 

R - É.

 

P/1 - Vocês têm terra própria?

 

R - Temos, agora nós já temos, compramos há uns dois anos.

 

P/1 - Onde que fica a terra?

 

R - Fica lá no (Cunha?) Paraná. A menina, a Márcia, tem umas fotos que nós fizemos lá, ela tem. Ele tem muito amigos e convidavam ele: “Olha, vai trabalhar pra esse candidato aqui”.

 

P/1- Essa aí que é o (Vandeio?).

 

R - É. (riso)

 

P/1 - Você anda com ele estampado no corpo?

 

R - É ele mesmo. Ai: “Olha, vai trabalhar pra esse candidato aqui, me ajuda, o candidato vai me ajudar e eu te ajudo”. Aí ele ia lá, conversava com a comunidade, todo mundo gosta dele porque ele jogava bola, tinha os clubes, o nome dos times que ele sempre joga. Está com 45 anos ainda joga e é bom jogador (riso) e é bom zagueiro. Então todo mundo gosta dele, sabe? Todo mundo gosta. Aí ele reunia a comunidade: “Olha gente, vamos votar para fulano de tal e ele prometeu que vai me ajudar, se ele me ajudar eu ajudo vocês, o que ele me der é nosso”. Eu sei que todo mundo acompanhava, né? Aí foi, foi, uns seis anos ele trabalhando assim, depois eu não sei o que passou pela cabeça dele de já se candidatar. Eu não queria, não queria, sempre torcendo, sempre contra. “Olha, Vandeco, é melhor a gente ter só o compromisso de votar”. Que nada. Ele se candidatou na primeira campanha, gastamos o que não tínhamos e ele não foi eleito. Passou uns quatro anos...

 

P/1 - Qual o partido?

 

R - Era PMDB. Quando passou os quatro anos... E ele continuou já fazendo campanha, sabe? Aí passou, quando veio a nova eleição, de novo ele se candidatou. Não foi eleito de novo.

 

P/1 - Duas vezes?

 

R - Aí oito anos, né? Decorreram uns quatro anos e eu dizia: “Para Vandeco, para”. Ele dizia: “Não, eu estou fazendo a minha campanha _______ eleito não, mas eu já estou fazendo a minha campanha. Tudo que arrumava ele pra ajudar fulano, sicrano, sabe? Quer dizer, nessas alturas o terreno que nós morávamos era alugado, aí dava muito açaí, quer dizer, pagava, mas só que o dono não cobrava muito caro. Ele comprou, nesse tempo nós tínhamos quatro motorzinhos. Ele foi dando com negócio da política, foi dando, foi dando, nós ficamos sem nenhum. Eu digo: “Tá vendo só, tá vendo só a tua política, a tua campanha, só dá isso. Olha se tu tornar a se candidatar eu te deixo”. “Não, esse ano é o último ano, viu, se eu ganhar é o último ano e se eu não ganhar é o último ano sempre”. Eu só vou te avisar uma coisa: “Na campanha já se gasta e depois de eleito vai se gastar muito mais”. “Não, vai melhorar”. “Tá bom”. Quer dizer, doze anos de campanha. Aí ele foi eleito, agora na eleição passada ele foi eleito.

 

P/1 - O partido dele, PMDB?

 

R - Ele mudou de partido.

 

P/1 - Qual que é agora?

 

R - Agora é PFL, sabe? Porque eu comecei dar na pele dele, porque eu achei que o pessoal do PMDB não era tanto amigo dele, porque só foi... Ele só recebeu ajuda uma vez, foi o candidato, o doutor Mário Couto, foi a única pessoa que ajudou ele, porque ele também é uma pessoa do interior, ele é de Salvaterra, então ele conhece o sacrifício do caboclo. Ele veio e disse que queria conversar mesmo com o pessoal que trabalhava nas comunidades, eles apresentaram meu marido, aí ele conversou diretamente com ele, viu como era o trabalho que ele fazia, quantas famílias tinham na comunidade, quantos eleitores. Ele disse: “Olha Vandeco, se tu me arranjar tantos votos”, mas ele não cobrou muitos, sabe? “Aí eu te dou uma ajuda”. Aí na campanha ainda ele deu, chamou meu marido e deu: “Toma, isso aqui é teu”. Aí ele disse: “Olha doutor, eu não vou pegar o cheque, o senhor fica e eu vou marcar uma reunião na minha comunidade, eu vou ver o que é que eles querem e aí eu venho com o senhor”. Falou: “Isso aqui é teu”. Disse: “Não, porque só o meu voto com a minha família não vai lhe ajudar, então é a comunidade que vota, eu prometi pra minha comunidade que o dia que eu fosse ajudado, eu ajudaria eles”. Aí foi pra lá e reuniu. O pessoal disse que queria uma granja pra criação de galinha. Ele veio, trouxe a comunidade, uma parte da comunidade. O doutor Mario Couto repassou o cheque, ai eu sei que foram em Belém, fizeram a compra, primeiro foram ver os preços __________. Eu sei que depois foi feito a compra, foi feito a casa. A casa foi feita lá com o serviço comunitário, mutirão. Quem era proprietário dava madeira, quem não tinha madeira pra dar dava serviço. O terreno onde nós morávamos, os donos, a gente podia tirar o que quisesse, o que precisasse, madeira, porque meu marido foi nascido e criado lá. Então eles moraram mais de sessenta anos lá, os pais dele, né? Os donos confiavam mesmo, não eram de ficar fazendo visita toda semana. Às vezes eles iam de dois em dois anos fazer embarque de porcos, às vezes eles não iam, passava mais tempo, aí eles viviam sossegados lá. Eu sei que foi feita a granja e deu resultado. O pessoal já foi acreditando mais nele porque ele não enganou, disse que ajudava e ajudou, quando foi esse ano agora o pessoal também... Pessoal da própria comunidade mesmo, pessoas que todo tempo eram contra, aí já ajudaram e a respeito do partido, aí eu comecei a dar na pele dele: “Olha, eu acho que o pessoal do PMDB não é tanto teu amigo não, como tu dizes, quer mudar de partido?” Aí tinha o PFL, o doutor (Charpeta?) era não sei nem dizer o que, porque eu não entendo de política, não entendo muito porque eu não ligo, não gosto de política. Eu sei que o doutor (Charpeta?) era o candidato a prefeito, era muito nosso amigo. Era não, é muito nosso amigo, convidou ele. Sempre ele convidava. Ele não aceitava porque gostava do pessoal do PMDB, porque achava que era amigo. O doutor (Charpeta?) disse: “Olha Vandeco, se tu mudar pro nosso partido eu te ajudo, eu te ajudou porque eu estou de acordo com a tua mulher. Eu acho que esse pessoal não é teu amigo mesmo”. Então ele já tinha exemplos que o doutor (Charpeta?) já tinha ajudado outros candidatos que foram eleitos, aí houve uma intriga entre eles no PMDB, aí ele não gostou e ele saiu, se filiou no PFL.

 

P/1 - E aí foi eleito?

 

R - Aí pra surpresa dele foi eleito.

 

P/1 - Bom, vamos falar de PACS então. Eu queria que você me contasse de início como que foi a receptividade que você teve na comunidade quando você começou a fazer o trabalho?

 

R - Como?

 

P/1 - Como você foi recebida lá na comunidade quando você começou a fazer o trabalho? Porque você tem que chegar, fazer um cadastramento, o pessoal atendeu bem, ficou de pé atrás, achou que era política?

 

R - O pessoal logo pensou que fosse política, né? Aí eu cheguei, eu vim, fiz a prova. Nós fizemos prova de seleção. Tinham dois, três candidatos de cada comunidade, só eu que vim da minha comunidade porque eu não sabia, chegou o convite já na véspera, eu tinha que vir no outro dia, tinha que vir de madrugada, aí não deu tempo, nem explicava pra que era, aí não deu tempo de trazer ninguém, eu vim sozinha. O pessoal logo disse que era política, que eu tinha sido... A minha prova não foi prova de seleção, foi diretamente, foi jogada. Eles falavam assim: “Isso foi jogada ensaiada” (riso). Quando eu voltei eu fiz reuniões. Não fiz uma nem duas não pra quando começar meu trabalho. Só que eu já tinha um trabalho lá. Antes de eu ser agente comunitário eu já fazia esse tipo de trabalho porque a minha mãe, quando a minha mãe morou... Depois desses 48 anos, depois que o bispo chegou aqui eles compraram lá as terras onde meu pai morava. Eles compraram.

 

P/1 - Pra fazer as (sebes?)

 

R - Sim, compraram pra fazer lavoura pro pessoal das terras, eles não deixaram meu pai ficar morando lá e meu pai gostava de tomar uma pinga. Eu sei que tinha um pessoal aqui que trabalhava no cartório e eram amigos do meu pai, amigos não, eu digo assim amigos do alheio, era vice-versa, ao invés de amigos, eram inimigos, porque se fosse amigo não iam fazer o que eles fizeram. Convidaram meu pai pra tomar cerveja, quando meu pai já estava bem bebido, convidaram ele, deram um papel pra ele assinar e assinou sem ler. Justamente era o despejo, a gente fala a dispensa do terreno. Depois que ele ficou bom, umas semanas depois chegou um ofício, ele foi chamado no cartório, veio no cartório e estava assinado e justamente era ele que tinha assinado, mas só que ele jurava no centro da terra que ele não tinha assinado. Claro que ele não se lembrava, estava bebido e aí eles entraram com ação na justiça contra o meu pai, que ele assinou a dispensa. Deu a palavra que desocuparia o terreno num determinado tempo e aí ele se recusava a sair, estava há 48 anos, não tinha pra onde ir mesmo porque ali em São Miguel, onde ele nasceu, ele tinha, mas só que era muito pequeno. A nossa família era grande e aí não dava pra trabalhar. Da minha mãe a mesma coisa, em Paricatuba, era pequeno e não estava dividido. Meu avô casou-se duas vezes, tinha os dois matrimônios e deixou treze filhos e as terras não estavam divididas, como até hoje ainda não estão. Quer dizer, não dava pra ir pra aí também porque ia dar confusão. Ele pediu um tempo pra até arranjar um terreno pra morar ou então deixasse ele ficar lá porque era pras comunidades trabalharem, como que eles diziam, cooperativa, era pra fundar uma cooperativa, mas eles não aceitaram que meu pai fosse sócio, nem meus irmãos. Eu sei que a polícia foi lá, fez o despejo, desmanchou todinha a casa, ________ tudo. Meu pai foi em Belém, fez uma viagem e passou a...

 

P/1 - A casa que vocês moraram 48 anos?

 

R - Sim, era grande, de madeira, grande mesmo. Foi meu pai que construiu. Aí eu sei que a justiça foi lá, o juiz, foram os soldados, levaram os homens que desmancharam a casa lá dentro ee horas, desmancharam todinha. E estava só a minha mãe com os outros meninos que ainda eram solteiros. Custou foi muito pra tirar os meninos, mas tirou. Desde isso... Quando o meu pai chegou ele ficou desgostoso. Dizia que a minha mãe era culpada porque ela desocupou a casa, mas se ela não saísse era pior, porque os meninos iam se revoltar e era capaz que houvesse até morte. Eu sei que houve uma desavença muito grande na família por causa disso, sabe? Até hoje. O pessoal também foi pra trabalhar, todo mundo foi embora, não ficou, ficou com medo de ficar morando lá nas terras e o bispo fazer a mesma coisa que fez com meu pai. A comunidade também foi toda por água abaixo. Custou tanto, deu tanto trabalho pra se construir porque era, todo domingo todo mundo ia pra igreja, todo final de semana. Com isso todo mundo se evadiu, né? Até hoje a gente não consegue novamente.

 

P/1 - É, história triste. Você estava falando que fez muitas reuniões pra começar o PACS, né?

 

R - Sim. Bom, tudo isso... A minha mãe trabalhava igual como eu trabalho, só que ela não recebia nada. Onde tinha um doente ela ia visitar e fazia remédios caseiros e por curiosidade ela aprendeu a aplicar injeção, ou por necessidade, né? O pessoal ia daqui com receita médica, aí tinha um senhor que aplicava, mas era muito longe, muito aqui embaixo que a gente fala, lá da onde nós morávamos. Nós chamávamos, mas pra cá a gente chamava pra baixo. Quando esse senhor ia aplicar a injeção ela foi treinar lá com ele e aprendeu. Ela atendia o pessoal lá com os primeiros socorros. E eu via aquilo, mas eu não gostava, chamavam ela pra cá e chamavam outra vez: “Mamãe, a senhora não para, nem que a senhora trabalha, quando a senhora chega o pessoal... Um momentinho, a senhora vai descansar e o pessoal já vem. A senhora não é enfermeira!” Eu dizia pra ela. Aí ela dizia: “Deixa minha filha, deixa. Isso é um trabalho evangélico que eu faço”. Depois que eu me casei já vim morar mais pra cá. Já fiquei fazendo e depois quando eu fui trabalhar no PACS já não foi tão difícil porque como eu já disse, o pessoal já gostava de mim porque eu já encaminhava pra unidade.

 

P/1 - Você aplicava injeção também?

 

R- Eu? Quando... Já, eu já aplicava injeção. Eu via minha mãe aplicar, aí eu olhava bem, tinha coragem, tipo os índios. E quando uma pessoa tem força de vontade Deus ajuda, né?

 

P/1 - Qual é a comunidade que você trabalha?

 

R - É (Cunha?) do Paraná.

 

P/1 - (Cunha?) Paraná. E são quantas famílias?

 

R - São 68. Quer dizer, agora não se sabe se até já não tem mais porque este ano eu ainda não fiz o recadastramento. Às vezes a gente está trabalhando assim... Eu divido em três setores: pra cá, pra cá e pra cá.

 

P/1 - Como é que você vai trabalhar todo dia?

 

R - Hein?

 

P/1 - Como é que você trabalha? Como é o dia a dia do seu trabalho?

 

R - Eu trabalho assim: de segunda a sexta e quando eu falho um dia da semana eu pago no final de semana. Sábado e domingo é folga. Logo que nós começamos a gente não tinha folga, tinha que trabalhar todo dia, sábado, domingo. Depois de um ano ou dois, aí eles já nos deram o final de semana. Eles também recebiam instrução na regional pra nos dar. Eles nos deram a folga de final de semana, quando eu não trabalho um dia na semana, eu tenho que trabalhar no final de semana. Eu gosto mesmo, me acostumei. Acho que se eu não for visitar parece que vai acontecer alguma coisa ali, se eu não vou na terça, quando é no sábado eu vou.

 

P/1 - E aí você sai? Como que é?

 

R - Eu saio de canoinha, a remo, sabe? Vou chegando nas casas. As famílias já sabem. Eu me apresentei logo nas primeiras visitas.

 

P/1 - As casas são sempre ribeirinhas, são sempre palafitas?

 

R - Sempre.

 

P/1 - Sempre na beira do rio? Não tem casa pra dentro?

 

R - Não, não tem. Tem, mas sempre pelo rio, sabe? Igarapés é assim. Então, lá mais próximo da minha casa eu saio sete horas da manhã, eu faço quatro, cinco até seis visitas nas famílias, porque às vezes a maré está enchendo e eu tenho que vir pra baixo, ainda mais quando a maré cresce mesmo e o sol está muito quente. Tem dias que eu volto pra almoçar em casa, mas tem dias que não. Logo que eu comecei eu não almoçava, eu só ia jantar quando chegava em casa. Agora não. O pessoal já me oferece almoço. Tem vezes que eu vou chegando e todo mundo quer que eu almoce. “Eu já almocei, já almocei” E eles não acreditam.

 

P/1 - E quantas famílias você faz por dia?

 

R - Por dia essa média, até sete. Quando uma é bem próxima da outra eu faço até sete. Só quando eu tinha um motor da comunidade mesmo, o doutor Mario Couto também ajudou a fazer a granja e ajudou a comprar um motor pra ficar de correio lá na comunidade. Só que o ex-prefeito tirou esse motor, o barco, tudo que era nosso ele tirou, deu fim, parece até que estão na justiça, o prefeito atual parece que está… Porque a comunidade veio aqui, reclamou pra ele e está vendo quem tem razão, por isso que está indo pela justiça.

 

P/1 - Quais são os problemas de saúde mais comuns lá na comunidade?

 

R - Agora, nesse mês... Porque nós entregamos produção dia dezesseis, sexta-feira, nós entregamos produção, deu 28 casos de febre.

 

P/1 - Febre de quê?

 

R - Olhe, nós estamos até encaminhando pra cá pra Sucam pra ver se é malária, porque lá onde o pessoal vai comprar o açaí, em Anajás está dando muita malária, então quem vai...

 

P/1 - Onde?

 

R - É Anajás, uma comunidade.

 

P/1 - Anajás?

 

R - Só que fica muito distante daqui, muito distante mesmo. O pessoal que está viajando pra lá, quando chega com febre, a gente já sabe que é malária e encaminha mesmo, diretamente pra fundação e lá na comunidade eu não encaminhei, eu não recebi resultado nenhum se é malária ou não, porque essa gripe também ta atacando muito, gripe e febre. Antes, logo que eu comecei a diarréia atacava muito, mas agora, de uns cinco anos pra cá, graças a Deus é muito raro surgir um problema de diarréia.

 

P/1 - Tinha desnutrição?

 

R - Tinha.

 

P/1 - Muita?

 

R - Tinha.

 

P/1 - Já acabou?

 

R - Já. Agora, esse mês deu, quatro crianças, porque chegaram duas famílias novas pra morar, deu cinco crianças desnutridas. Uma família já morando lá e duas de famílias que chegaram. Deu cinco crianças desnutridas. Inclusive uma criança dessa família que morava lá é porque a avó mora aqui, sempre vai pra lá e aí ela se intromete. Eu vou, dou a minha tabela, o meu conceito. Ela diz que não, que no tempo dela era diferente. Eu sei que o menino também, logo de pequeno a mãe não amamentou quase, deu logo mamadeira, aí não teve o cuidado de tratar direitinho _______.

 

P/1 - Qual o caso mais grave que já houve na sua comunidade que você atendeu?

 

R- Caso mais grave? Negócio de acidente, cortes.

 

P/1 - Cortes? Acontece também?

 

R - Acontece.

 

P/1 - E aí o que você faz?

 

R - Eu encaminho, porque eu não tenho material pra fazer pequenas suturas. Eu sei fazer pequenas suturas, curativos, mas aí eu não tenho material. Eu tenho que encaminhar pra unidade. Eu encaminho... O maior problema lá é acidente, corte, corpo estranho, assim que a gente chama quando pisa num toco e quebra, fica lá, aí eu não tenho material pra fazer a pequena sutura, pra anestesiar. Também [tem] mordida de animais, picada de arraia, de cobra, aí são os problemas de lá. Eu encaminho tudo pra cá, pra unidade. Quer dizer, quando nós tínhamos o motor da comunidade eu botava no motor e alguém vinha trazer ou eu vinha trazer, eu mesma vinha trazer, só que agora nós não temos motor na comunidade, tem um que está alugado, aí de manhã ele vem trazer os alunos, os meninos de lá, os estudantes. Eles vêm, estudam aqui no colégio e voltam. Tem que sair de madrugada, quatro horas da madrugada tem que estar saindo de lá pra chegar seis horas aqui. Quer dizer, na parte da manhã não tem motor pra vir trazer, já vem, já pra tarde já tem, mas o maior problema lá é acidente. Acidente de trabalho, acidente profissional.

 

P/1 - O que mudou pra melhor depois que começou a ter o PACS lá?

 

R - Ah, mudou muita coisa, muita coisa mesmo. Porque, olhe, eu já trabalhava pela pastoral da criança também, mas não estava bom ainda. Quer dizer, pesava as crianças, mas só pesava mesmo por pesar. Nós não tínhamos... Eu não conhecia o cartão da criança, não conhecia o cartão da gestante, pela pastoral da criança. A criança desnutrida a gente pegava o _______ mistura feito aqui pela coordenadora paroquial. Hoje em dia nós já sabemos fazer o _____ mistura, já sabemos, conhecemos, depois que eu comecei a trabalhar como agente voluntário eu já conheço o cartão da criança, já sei a importância do peso, encaminho a gestante, já sei trabalhar com o cartão da gestante. Sei a importância do pré-natal, sei a importância do aleitamento materno porque a minha mãe dizia que tinha que amamentar até os seis meses, eu amamentava os meus, só que eu não sabia a importância do aleitamento materno.

 

P/1 - Não sabia porque se dava o aleitamento?

 

R - É. Fazia aquilo porque era uma hereditariedade, que vem de pais pra filhos. Aquilo que a minha mãe fazia, como ela tratava a família dela eu também tratava, comecei a tratar da minha. Hoje em dia eu sempre digo pras minhas amigas: “Olha, nós temos que dar bons exemplos porque os nossos filhos vão fazer aquilo que nós fizermos. Aquilo que nós vivemos, eles vão viver até o final” Então melhorou muito. Eu encaminho as gestantes, peso as crianças, faço reuniões com as mães, mostro a importância do peso, peço pra elas fazerem educação existencial com as crianças. Eu faço também por mês, agora faz uns quatro ou cinco meses que eu marco a reunião de peso, só que com o negócio de vir pra cá, faz reunião aqui. Eu estou estudando, estou fazendo supletivo. Eu não tive mais tempo pra marcar a reunião porque de repente eu marco a reunião e sou chamada pra cá, falto na reunião, se eu marco outra reunião já não vai ninguém porque eu marquei uma e faltei, falhei. Eu já vou passando de casa em casa, mas isso não é bom, não é certo, é melhor marcar a reunião porque você dá uma palestra ali pra todos, né? Vamos dizer, se der meia dúzia, você deu uma palestra para meia dúzia, se você vai de casa em casa e atende meia dúzia no dia, você tem que dar meia dúzia de palestras. Reunião é melhor, só que no sistema que eu estou trabalhando eu não posso marcar reunião porque de repente eu falho, você sabe como é comunidade, né? Na próxima já não vai querer comparecer, mas aí eu trabalho mais.

 

P/1 - Hirades, tinham casos de mortalidade infantil lá?

 

R - Tinha por diarreia e vômito.

 

P/1 - E agora não tem mais?

 

R - Não, agora não. É uma raridade surgir um caso de diarréia, e quando surge um caso de diarréia pode contar que a criança veio de outra comunidade. Lá nós temos um problema que até agora nós não conseguimos resolver, é dos sanitários. A área é muito baixa e nós não temos solução até agora.

 

P/1 - A área que você diz que é baixo, o que é baixo?

 

R - É a maré que... Toda maré chega nos sanitários.

 

P/1 - Como é que são os sanitários, me explica?

 

R - É casinha.

 

P/1 - É uma casinha do lado de fora da casa?

 

R - É, uns vinte metros.

 

P/1 - Uns vinte metros?

 

R - É, longe, uns quinze.

 

P/1 - E aí é fossa?

 

R - Não, não dá pra fazer fossa porque a maré invade todo dia.

 

P/1 - Então, como é que é? É uma casinha e tem um buraco?

 

R - Não, ela é cercada desde o chão, aí tem o balcão.

 

P/1 - Em cima?

 

R - Em cima, mas não é... A verminose é o maior problema lá agora, o maior problema é de verme.

 

P/1 - Porque ali a maré chega?

 

R - Chega e espalha, né? Aí quer dizer, de janeiro pra cá nós temos hipoclorito, mas quatro anos atrás dois prefeitos não nos deu apoio, nós não tivemos apoio nenhum dele. Não tinha hipoclorito, não tinha nada.

 

P/1 - E jogando hipoclorito não tem problema?

 

R - Não, a gente clora a água, tem cuidado de pegar a água limpinha lá do rio, limpinha que a gente diz que não está vendo o que é que tem nela, né? Aí põe em vasilha e limpa.

 

P/1 - Aí põe o hipoclorito para a água de consumo, mas e quando o garoto pula no rio?

 

R - Pois é, toma banho sempre naquela água contaminada. É por isso que é um problema, sabe?

 

P/1 - E esse problema não tem solução?

 

R - Não, até agora não. Só se as autoridades nos ajudasse pra fazer uma fossa, tipo um tanque de cimento pra fazer a casinha em cima, mas aí eu digo assim: “será que só uma resolveria?” Tinha que fazer um teste pra ver se daria.

 

P/1 - Teria que algum engenheiro pensar uma idéia, né?

 

R- Pessoal que vem de fora.

 

P/1 - Talvez o melhor caminho pra eles seria fazer um rio digestor, fazer, sabe como que é, depois produz gás, você sei lá, usa isso aí pra fazer um sistema de produção de gás. Fecha aquilo, eu não sei. Alguma pessoa que tenha...

 

R - Esse problema ainda não conseguimos, não temos solução.

 

P/1 - E é grave porque a meninada vive na água lá e vai pegar de um jeito ou de outro.

 

R- Todo mundo sofre ameba lá. Pessoal diz assim pra mim: “Olha, eu acho que esse pessoal da unidade não sabe fazer exame porque todo mundo que vai lá eles estão dando ______, _________,___________, será que todo mundo tem só uma qualidade de verme?” Eu digo: “É, realmente, todo mundo tem a mesma qualidade de vermes”.

 

P/1 - Tem a mesma origem, né?

 

R - A mesma de antes - cogumelo.

 

P/1 - O que é cogumelo?

 

R - É um tipo de verme. É perigoso mesmo, ele ataca o intestino e as...

 

P/1 - E dá desinteria?

 

R - É muito perigoso mesmo. Tem que tratar, ele é que nem a malária, ataca o fígado, o baço, os rins, tudo, tudo, tudo. É perigoso mesmo, é um problema que ainda não teve solução nas nossas comunidades ribeirinhas.

 

P/1 - Bom, Hirades, pra fechar, o que pra você, na sua vida pessoal, mudou depois que se tornou agente comunitária?

 

R - Ah, mudou muito porque eu fiz... A amizade aumentou, se na minha comunidade o pessoal já gostava de mim, eles passaram a gostar mais. Agora eu na minha casa eu não tenho tempo pra nada. Eu saio do meu serviço, eu sei lá como é, viu? O meu marido brinca comigo, aí eu estou lá de final de semana: “Olhe, vai ver quem é”? Aí diz assim: “É pra falar contigo”. “Mas comigo, o que é que queres”? “Aí eu fico assim, não fico gostando, né? Mas aí quando eu passo, chego na sala, já mudou o visual, já vou com a cara bonitinha pra encontrar, muito embora” (riso). Aí olha assim, se eu não saio cedo o pessoal vem atrás de mim, eu não tenho folga, trabalho mesmo. Eu digo assim: “Dia de sábado e de domingo eu estou de folga”. Eu não tenho folga não. Ele disse pra mim: “Quem manda tu querer ser importante?” “Não, não é nem querer ser importante, é porque eu já me tornei importante através do meu trabalho”. Porque o pessoal precisa, né? Aqui só tem uma unidade, aí o pessoal do interior vem, chega tarde, não consegue ficha. Através do agente comunitário eles viram que nosso trabalho rendeu, deu resultado pra eles, aí eles procuram demais a gente, então eu também, além da minha comunidade, cresceu a amizade, também com as autoridades, eu aprendi que não é só o doutor que tem o direito de chegar e falar com as autoridades, né? Aprendi também que nós, ribeirinhos, podemos chegar junto de qualquer doutor, qualquer autoridade e falar. Cada um tem os seus direitos, os nossos direitos são iguais. Eu também ensino isso na comunidade pro pessoal: “Não gente, a força de uma comunidade é o seu povo”. Eu aprendi a evoluir as outras pessoas.

 

P/1 - Parabéns! Muito obrigado Hirades, foi um ótimo depoimento, viu?

















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