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História

Amor pela profissão muda vidas

História de: Alessandra Rodrigues Oviedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância na cidade de Itaqui no interior do Rio Grande do Sul. Paixão pela aprendizagem, informação e conhecimento. Foco na área da Educação. Abertura para mudanças. Ajuda ao próximo.

Tags

História completa

Projeto Instituto Camargo Correa

Entrevistada por Fernanda Prado

Depoimento de Alessandra Rodrigues Oviedo

Código: CC_HV001

Realização Museu da Pessoa

Transcrito por Tânia Lima

Revisado por Valéria Almeida de Almeida

 

P/1 — Alessandra, bom dia!

 

R — Bom dia!

 

P/1 — Queria começar a entrevista pedindo pra você falar pra gente o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.

 

R — Eu sou Alessandra Rodrigues Oviedo, nasci em Itaqui, uma cidade do Rio Grande do Sul, no dia 18 de maio de 1971.  

 

P/1 — Certo. E qual o nome dos seus pais? 

 

R — Meu pai é Delci Brando de Oviedo e minha mãe Zilma Rodrigues Oviedo.

 

P/1 — E qual é a atividade deles?

 

R — Meu pai era bancário, ele já é falecido há um bom tempo, ele faleceu quando eu tinha seis anos. E a minha mãe, professora. 

 

P/1 — Professora do que?

 

R — Professora do Ensino Fundamental. Aí, depois, no final da carreira dela, ficou como Vice-Diretora, Diretora. Ficou mais na parte administrativa. 

 

P/1 — E tudo lá do Sul?

 

R — Do Sul.

 

P/1 — E você sabe qual a origem da sua família? 

 

R — Eu sei da família da minha mãe, eles são descendentes de espanhóis. Inclusive, se eu não me engano, parece que o bisavô dela veio da Espanha para o Brasil, por causa da guerra e tudo, aí, ele conheceu a minha bisavó e ele nunca mais voltou pra Espanha. Ele morreu aqui no Brasil, os parentes nunca vieram, e a minha mãe conta que ela recebia cartas da Espanha e como ela não sabia ler, ela rasgava estas cartas. Então, a gente nunca teve contato com o ninguém de lá, mas a gente sabe que é da Espanha que ele veio.  E do meu pai, eu não sei qual é a origem. Deve ser espanhol também pelo sobrenome, né? 

 

P/1 — E você tem irmãos? 

 

R — Tenho dois irmãos. Eu sou a caçula da casa, tenho um irmão e uma irmã também. Eles são os mais velhos. 

 

P/1 — Como foi sua infância? Onde era a sua casa? Você nasceu lá em Itaqui e como era a cidade? 

 

R — É cidade do interior, né, todo mundo se conhece, todo mundo sabe quem é quem lá. Eu nasci em Itaqui mesmo e a minha infância foi uma delícia, foi muito gostoso e a gente sempre brincava muito, então, eu tenho algumas recordações da minha casa. Eu sei que quando os meus pais compraram aquele local, ele não tinha calçamento, então, a gente costumava brincar muito na rua e lá o Sul tem um costume que é assim: no verão é muito quente e no inverno é muito frio. Então, no verão, as pessoas sentam nas calçadas pra conversar, então, enquanto os adultos ficavam sentados conversando, nós brincávamos na rua, eu brincava com o vizinho, ia pra casa da vó brincar também, né? E nós tínhamos muito essa questão do brincar, de ser livre pra fazer as brincadeiras. Eu lembro que na época de férias, os meus primos vinham do Rio de Janeiro, então, nós nos juntávamos todos na casa da minha vó. Eu lembro que escurecia, a gente ia pra casa da vó e ficavam todos os adultos, os tios, todo mundo sentado conversando e a gente brincando ali e quando era pra ir embora, era aquela briga, né, porque ninguém queria ir embora, todo mundo queria continuar brincando. Então, era muito gostoso! Uma das coisas que eu lembro que eu fazia muito e que eu gostava, era brincar de boneca. Meu pai faleceu eu tinha seis anos, e passou uma fase muito ruim lá em casa, né, porque a minha mãe era professora e todas as coisas que eram pra ser feitas, era o pai que fazia, então, ia ao banco pagar conta, dirigir e a minha mãe não sabia nada. Aí, ela se obrigou a saber tudo isso, né? Aí, teve uma época que ela ia reformar a casa e ela comprou tijolos e eu lembro que estavam todos empilhados e eu fiz uma brincadeira em cima dos tijolos, então, era muito legal! Eu levava todas as bonecas, as primas iam para a casa e a gente fazia muito dessas brincadeiras, subir em árvore, fazia guerrinha de limão, pegava os limões pequenininhos e fazia guerrinha, andava de bicicleta, subia no telhado, era uma brincadeira atrás da outra. Era muito bacana! 

 

P/1 — Você falou que perdeu seu pai cedo. Quais lembranças você tem dele?

 

R — Muito pouco. Eu não sei se pelo fato dele ter falecido, se isso bloqueou. Porque assim, a minha irmã, tinha 12 anos, o meu irmão tinha 11 e eu tinha seis. E eu consigo lembrar da minha lancheira, do meu uniforme da escola, eu consigo lembrar do carro que o pai tinha, mas do rosto dele, eu não lembro. Eu lembro de coisas que aconteceram, mas eu não consigo lembrar do rosto dele. Ele gostava muito de, depois do almoço, tomar um cafezinho, então, ele deitava na cama, minha mãe fazia o cafezinho e eu lembro da bandeja, lembro da xícara, do pires, de todos os detalhes, mas, do rosto dele, eu não lembro. Acho que foi uma fase que pra mim que, de certo, não foi agradável, eu ter perdido o pai... de certo, eu não entendia direito aquilo. E era uma época que a minha mãe não sentava pra explicar, então, assim, eu acredito que o meu pai morreu e ela não sentou pra explicar o que era aquilo e, simplesmente, ele morreu. Eu consigo lembrar do vestido eu ela usava, eu lembro muito da escola onde eu estudava naquela época, onde ela era professora, e, nessa época, eu não lembro da minha professora da pré-escola, da primeira série, até na segunda série, nem da professora eu lembro, acho que por conta disso, né, então, eu lembro das coisas que ele falava, as coisas que aconteceram, mas, o rosto dele, eu não consigo lembrar.  

 

P/1 — E o que era uma dessas coisas que ele falava? 

 

R — [risos] Ah, o meu apelido em casa é “Danda”, meu nome é Alessandra e o meu apelido é “Danda”, então, eu lembro que ele gostava muito de perguntar o meu nome, aí, eu falava para ele, “meu nome é Dondoca, pipoca, batata, cenoura, mandioca”, e ele achava muito engraçado. Então, foi ele que começou a me chamar de “Danda”, né? Como apagaram algumas coisas, a minha mãe conta também que ele gostava muito de cachorro, amava cachorro! Nós tínhamos um em casa e o nome era Xereta e a gente apelidava de “Xera”, então, quando ele chegava em casa, ele estacionava o carro, aí, ele dizia: “Xera, vem, vamos passear com o pai! ”, aí, disse que ele dava uma volta até a esquina e voltava com ele de novo. Eu sei que minha irmã herdou muito dele essa coisa de ser brincalhona, tudo por conta dele, porque ele era muito assim. Ele soltava piada, tudo era engraçado, ele falava coisas bem engraçadas, então, era bem legal!   

 

P/1 — Alessandra, você falou que lembra da escola. Quais são as primeiras lembranças que te vem quando você pensa na escola?

 

R — Ah, era uma delícia! Era a escola Aureliano Barbosa. Eu lembro que a minha mãe era Diretora nessa escola. Tinha uma entrada onde, no início, era a Secretaria e depois as Salas de Aula. Pra gente ir para as Salas de Aula, esse pátio era cimentado e tinha os corredores “assim”, que tu descia um degrau e ficava ali pra formar as filas pra ir paras as salas. Aí, batia o sinal, todo mundo formava essa fila, cantava o Hino Nacional e depois, todo mundo ia pra sala. Uma das minhas salas que eu achava muito legal, e eu acho que é porque lá era pequeno, e quando a gente é pequeno, tudo parece grande né? Então, tinha os banheiros masculino e feminino e tinha uma mureta que a gente olhava na aula de Educação Física lá embaixo e eu achava o máximo o pessoal da quarta série fazer Educação Física, porque eles eram bem maiores, né? Então, era uma coisa muito legal! Era muito gostoso! Eu lembro que tinha uma professora de História, e uma vez eu esqueci de levar o livro ou o caderno, uma coisa assim, ela me levou lá na Secretaria – minha mãe era Diretora – e falou pra minha mãe: “olha, ela não trouxe o livro hoje!” Nossa! Eu fiquei arrasada aquele dia, porque ela me pegou pela mão e me levou lá para mostrar pra minha mãe que eu não tinha levado o livro. Eu lembro também de uma vez que fizeram uma festa do Dias das Crianças, e eu não sei se era uma época que tinha surgido umas garrafas de Coca-Cola pequenininhas e era de vidro e aquela época, ficou muito marcado pra gente, pra mim e pra todas as crianças Lá, porque nesse dia foi feito cachorro-quente e cada criança recebeu uma garrafinha daquelas e a gente achava o máximo aquela garrafa de Coca-Cola individual, né? Então, era muito gostoso! As brincadeiras eram boas. Um tempo atrás eu fui para o Sul e o meu sobrinho estudou nessa escola e eu fui lá. Nossa! Mas que delícia! Ai, como eu era criança, tudo era grande e agora não, era tudo na altura normal, né, que tinha que ser [risos]. A quadra ainda existia lá, o mesmo lugar onde era a Biblioteca, o mesmo lugar da Secretaria, eles só fizeram algumas reformas, mas continua a mesma escola. Era muito gostoso! Fazia desfile de Sete de Setembro, desfile de aniversário do município, era muito bacana! Nós íamos todos de uniforme, eu lembro que era uma camisinha branca, uma saia azul e a conga que era com a meia branca até o joelho, né? São coisas muito legais que aconteceram e que eu ainda tenho muita lembrança disso. Muito joia!

 

P/1 — E como era pra você ser a filha da Diretora? Tinha...

 

R — Não tinha. A mãe sempre foi uma pessoa muito correta, então, não tinha aquela coisa, “ah, por ser filha de Diretora, pode fazer tal coisa”, então, ela sempre falava pra mim: “olha, que eu não tenha reclamação dos professores!”. Eu era muito ligada a minha mãe, sempre fui, a vida inteira! Eu lembro que eu ia para a escola com ela, aí, terminava a aula, ela ficava lá um período, e eu lembro que eu ficava na Secretaria junto com ela, porque como era uma escola pequena, ela fazia a parte de vice direção, direção com um pouco de secretária. Então, acho que quando a secretária ia almoçar, então, eu ficava lá e eu gostava de vê-la, por exemplo, batendo máquina, fazendo todas essas coisas. E eu achava muito legal, porque a minha mãe é deficiente física, ela tem um problema no braço, então, ela usava a máquina, e digitava com um dedo, digitava não, batia com um dedo, e numa velocidade! Eu ficava impressionada com aquilo, né? Eu achava muito legal ela bater máquina e, naquela época, máquina era tudo, né? Saber datilografia era muito importante, é bem interessante. Mas, não tinha proteção nenhuma, era uma aluna como outra qualquer.     

 

P/1 — E nessa escola você estudou até que série? 

 

R — Eu estudei lá até a quarta série. Depois eu fui pra escola Osvaldo Cruz na quinta série e o segundo grau, eu fiz o Magistério que foi numa outra escola, de freiras. Então, eu tive três escolas. 

 

P/1 — E como foi nessa escola da quinta série, você sentiu muita mudança? 

 

R — Não, foi bem tranquilo, porque, assim, como é cidade do interior, a gente meio que já sabe pra que lugares tu vai depois, né? E eram poucas escolas, não tinham muitas. A escola Osvaldo Cruz era perto da minha casa e os meus colegas que eram da escola Aureliano Barbosa foram também para o Osvaldo Cruz, então, a gente não sentia muita diferença. Sentia assim: era uma professora e depois foram várias professoras, porque aí vai aumentando o número de professores, conforme a série. Mas, era bem interessante, era bem legal! Aí, na época, começaram as paqueras de colégio, então, tinha os jogos entre as escolas e, por exemplo, vinha uma outra escola jogar na nossa, jogar vôlei, futebol e, aí, tinha os meninos que a gente paquerava! Isso era muito gostoso! Era muito legal ter esses encontros de esportes, né? Era muito bom!    

 

P/1 — E você praticava algum? Fazia parte de algum time? 

 

R — Não, eu fui participar no Magistério, porque tinha um time de handebol, muito bom da escola e eu fui participar! Nós fomos fazer jogos em outros lugares e a professora de Educação Física era muito legal! Ela sentava pra conversar, ela fazia as atividades e fazia o nosso treino. Era muito gostoso! Eu fui fazer essa atividade mesmo de treino e tudo no Magistério, o segundo grau, né? 

 

P/1 — E tinha alguma matéria nesse período escolar que você gostava mais, que você se identificava? 

 

R — Eu sempre gostei muito de Português e, na época, eu gostava de Educação Física também, acho que pelos professores, porque, na escola Aureliano Barbosa a gente tinha uma professora de Educação Física que eu a achava super bonita. Não sei, eu acho que eu me espelhava nela, “poxa, acho que eu quero ser como ela quando eu crescer!”. Ela era muito bonita! Depois, na Escola Osvaldo Cruz, eu não lembro. E no Magistério, teve uma outra professora que era muito ativa, muito brincalhona e fazia os treinos e cobrava... eu acho que eu gostei da matéria por causa dela. Mas assim, uma matéria que eu gostasse de preferência, não tinha não. E foi legal, porque na época do Magistério, foi que eu descobri o que eu queria fazer. Eu lembro que uma professora lá pediu um trabalho e nós fomos na APAE [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais]

 do município. Fui eu e mais duas colegas. Então, nós entramos na APAE e as gurias estavam com medo, né, “ai, o que nós vamos encontrar lá?”, aí, lembro que nós chegamos e íamos fazer entrevista com a Diretora, com os professores... eu não lembro direito qual era o trabalho, porque eu acho que isso não teve tanto significado.  Mas eu lembro que os entramos na APAE e veio um moço bem alto, gordão “assim” e veio correndo... e as meninas, foram para trás e ficaram, “nossa, o que vai acontecer, né?” Aí ele veio, “ôh, ôh, ôh, bom dia!”, aquela coisa assim, e eu fiquei olhando pra ele e disse, “oi, tudo bom com você?”, aí, cumprimentei, fiquei conversando com ele, e eu pensei, “poxa, que legal! Acho que eu quero fazer isso aqui!”. Aí, que eu fui procurar Educação Especial. Então, foi através de um trabalho que eu fui conhecer, porque eu nunca tinha entrado na APAE [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais], né? E eu lembro que, naquela época, eles não faziam atividades fora. Então, eles faziam só dentro da escola. Era muito difícil tu ver um deficiente na rua, ou tu ter um colega deficiente ou uma coisa assim. Eles ficavam só lá naquele lugar e, aí, quando eu fui conhecer eu gostei! “Poxa, acho que eu quero fazer isso daqui depois!”. Acho que isso foi a decisão pra minha vida profissional.    

 

P/1 — E como você decidiu ir fazer o Magistério? O que te fez decidir por isso? 

 

R — Minha mãe! [risos]. Porque assim: ou eu fazia um curso técnico de Contabilidade ou essas coisas assim ou eu fazia Magistério. Então, acho que a minha mãe já escolheu, porque, eu saí do Osvaldo Cruz, já estava certo que eu ia fazer Magistério. Então, assim, a família toda de professores, né, então, as mulheres tinham que ser professoras, aquela coisa e eu acho eu fui por esse lado. Mas, depois que eu terminei o Magistério, eu fiz vestibular para Fisioterapia, mas não fui aprovada, aí eu digo, “ah, acho que não é isso que eu quero!”, aí, que eu fiz pra Educação Especial. 

 

P/1 — E a sua irmã mais velha também foi pro Magistério?

 

R — Foi! Eu, ela e minha mãe. O meu irmão é Advogado. Nós gostamos da profissão! A gente está porque a gente gosta mesmo! Minha irmã também sempre trabalhou com Educação Infantil, ama o que faz, gosta muito de trabalhar com as crianças, mesmo. Então, a gente foi por esse caminho.  

 

P/1 — E no período do Magistério vocês tiveram que fazer estágio, contato com sala de aula?

 

R — Tive. Hoje, eu olhando, foi um fracasso! Porque eu lembro que, na época, eles estavam trazendo muito o Construtivismo, só que assim, como nós éramos estudantes do Magistério, não tinha aquela coisa de estudar, “vamos aprofundar, vamos ver como que é...”, e eu fui fazer estágio numa sala de primeira série. Só que nosso estágio, nós levávamos alguns dias, a aula pronta, então, nós dávamos a aula, [risos]. Eu e uma colega. Eu lembro que nós fizemos sobre o cachorro. A gente ia ensinar o CH. Então, nós levamos o desenho de um cachorro, colocamos o nome cachorro e pa-ra-ra, pa-ra-ra, e, aí, eu lembro que nós pedimos para as crianças escreverem palavras sobre o cachorro, o que ele era, se ele era bonito, se ele era feio. Pena que eu não tinha conhecimento na época, mas eu lembro que tinha uma criança que estava numa das fases da escrita, no nível de escrita que a Emília Ferreira coloca muito. Então, por exemplo, ela ia escrever bonito. Ela escrevia o b, o i e o o. Então, hoje eu sei que é um nível de escrita, que é um silábico com valor sonoro, aí, eu olhava para aquela escrita e dizia, “poxa, mas esse menino não sabe escrever, está faltando letra!”, aí, eu falava com ele, “não é a assim que escreve, tem que colocar o o, tem que colocar o t...” Hoje eu digo, “Nossa! Que horror! O que eu fui fazer com o menino!” Mas, por falta de conhecimento que a gente não tinha. Eu lembro que, naquela época, a gente fazia o Magistério e ia dar aula. E no Magistério, a gente não estudava sobre as teorias, não questionava, a gente não perguntava e ninguém dava informação, ninguém dizia assim: “olha, pra ti ensinar Matemática para criança, você vai fazer isso, isso e isso. Para te ensinar alfabetizar, tu vais fazer isso, isso e isso...” não tinha! Então, por isso que eu digo que foi um fracasso, porque, eu não contribuí pra nada com aquela criança e com aquela sala. Então, eu acho que deveria ter sido melhor preparada, né, mas acho que foi questão de época, falta de maturidade, e tudo mais que acabou fazendo isso.    

 

P/1 — E como foi? Você acabou o Magistério e foi trabalhar na sala de aula?

 

R — Não. Eu acabei o Magistério e, é engraçado, porque a minha vida tentou dar umas voltas e, aí, eu caí de novo no que eu tinha pra fazer mesmo, que é o que eu gosto de fazer. Então foi assim: eu terminei o Magistério e eu estava namorando na época e esse meu namorado tinha ido para Santa Maria, que é uma cidade um pouco distante de Itaqui, que é a minha cidade. Aí, a minha intenção era estudar também em Santa Maria pra gente ficar perto, ficar junto, né? A minha mãe não tinha essa visão assim: “olha, vai fazer faculdade, vai estudar!”. Ela não dava essa orientação pra gente, porque acho que ela foi criada também numa família que não incentivava pra isso. Então, ela fez também o Magistério e parou. Ela não fez faculdade. Então, ela achava que a gente tinha que se preparar para casar. Tanto que [risos], fazia enxoval, aquelas coisas! Tinha enxoval, mas não tinha noivo, né? Então, era muito engraçado. Aí, eu terminei o Magistério e digo, “eu não sei se eu quero dar aula ainda. Não sei se é isso que eu quero!”, aí, eu comecei a trabalhar numa loja por alguns meses e uma amiga minha que tinha feito o Magistério, falou assim: “Vamos fazer o técnico em Contabilidade que é muito legal o curso. Se tu não quer  trabalhar com criança, vamos tentar uma outra área!”, aí, eu falei, “ah, vamos fazer!” Aí, eu fiz um ano, à noite, de técnico em Contabilidade e, nesse tempo, eu fiz Fisioterapia e não fui aprovada lá em Santa Maria. Aí, fiz esse ano e digo, “e agora? O que eu vou fazer?” Aí, que eu fui lembrar que eu tinha gostado da APAE e tudo, aí, eu digo, “ah, então eu vou prestar vestibular para Educação Especial”. Eu lembro que quando eu falei pra minha mãe, ela disse, “ah, então, vamos! Aí, eu vou morar contigo em Santa Maria também!” Aí, fui, eu fui aprovada e comecei a estudar em Santa Maria e a minha mãe foi morar comigo, porque eu era a caçula, eu era menor, aquele cuidado, aquela coisa. O meu irmão já era casado e a minha irmã era solteira ainda, mas era mais velha, já trabalhava, então, a minha mãe me acompanhou. Aí, que eu comecei a fazer Educação Especial e quando eu comecei eu me apaixonei. Aí, foi o que eu queria mesmo fazer!     

 

P/1 — Alessandra, como foi que voltou essa sua vontade de trabalhar com a ______ como que você lembrou, porque você estava envolvida com outras coisas...

 

R — Eu acho que voltou pelo fato que eu queria ir pra Santa Maria, só que eu precisava ir pra Santa Maria para fazer um vestibular e decidir o que eu queria. Eu lembro que era distribuído um caderno com todos os cursos que tinha e eu fui olhando, olhando todos eles, né, e quando eu me deparei com Educação Especial, aí, eu me informei sobre o que era e digo, “poxa, então é isso que eu quero fazer!” Aí, eu fui prestar vestibular, então, foi mais pela vontade de ir pra Santa Maria e, aí, eu tinha que escolher um curso, porque, Fisioterapia eu já não tinha sido aprovada, e não era uma coisa que eu falasse assim, “poxa, eu quero isso!”, eu vi, achei bonito, “ah, acho que é legal fazer Fisioterapia e tal” e fiz. Mas não fiz com aquela vontade. E eu lembro que quando eu fiz vestibular eu fiz com vontade de ser aprovada naquilo ali. Então, acho que voltou por essa questão de eu querer ir embora, sempre querer ir pra Santa Maria. 

 

P/1 — E como que foi pra você a mudança, da sua cidade, da sua casa para Santa Maria?

 

R — Ah, foi super bom! Super tranquilo! Eu falo que eu acho que eu tenho sangue cigano por dentro. Porque, assim, eu amo mudar! Eu mudo dentro de casa [risos], eu queria mudar de cidade. Então, quando foi pra eu ir pra Santa Maria, eu fui, nossa, numa boa! Eu lembro que, na época, nós chamamos a minha irmã pra ir junto, ela já trabalhava lá, mas a gente falou, “vamos junto, aí, tu também faz faculdade”, ela não quis ir! “Não, que eu quero ficar aqui!” Ela é muito de morar na mesma cidade. Ah, eu fui embora, eu quero ir! E eu sempre gostei dessa coisa de ir, de ir embora, de ir fazer as coisas que eu quero e a minha mãe foi junto. Então, assim, nós dividimos um apartamento com um primo, então, a minha mãe foi pra cuidar de mim, cuidar de uma prima e cuidar de um primo. Nós moramos no mesmo apartamento, todo mundo junto. Foi uma época boa, porque eu estava estudando, mas foi uma época que a minha mãe apertou muito a questão do dinheiro, porque aí, assim, tu morar num outro lugar, exige que tu tenha mais gasto, né, e a minha mãe sempre teve um salário pequeno de professora. Então, foi bem apertado, mas eu fui do início ao final e como era uma faculdade federal, eu não pagava a faculdade, mas, tinham outros gastos, tinha a alimentação, transporte, livro, xerox, de tudo isso. Então, foi uma época que era pra estudar. Eu fui pra lá pra estudar, então, não tinha essa coisa, “ah, eu vou comprar roupa”, não tinha essas facilidades, né? Sempre foi muito apertado. Mas foi legal, porque eu fiz do início ao final e durante o período de faculdade a gente já sabia que nós tínhamos que fazer 600 horas estágio e nós tínhamos um grupo na faculdade e éramos em umas dez meninas. Tinha só mulher no curso. E essas dez, [risos] sempre andavam junto, então, tinha outras pessoas que eram mais velhas, tinham outras que não faziam parte desse grupo, e nós andávamos sempre juntas. Então, a gente fazia janta junto, estudava junto, saia junto, aquela coisa! Aí, começou a época de pensar no estágio, e como nós éramos muito unidas e ao mesmo tempo a gente queria fazer as coisas, então, nós fizemos amizade com o Diretor do Centro de Educação, porque, cada centro lá na universidade tem um Diretor, e ele era nosso professor e nosso amigo e ele tinha uma salinha pequena. Então, nós íamos pra aula, aí, tinha os intervalos ou de uma aula pra outra tinha um intervalo muito grande de tempo, nós íamos pra sala dele e eu lembro que tinha um sofazinho assim, tinha mesa, um armário, as coisas dele, aí, a gente chegava e ficava ali. AÍ, pegava o chimarrão pra fazer, ficava dona da sala. E eu lembro que ele entrava na sala, ele olhava assim e a gente perguntava: “o que o senhor quer? Não, mas fica à vontade! Se quiser sentar, tomar um chimarrão, pode entrar, fica à vontade! ” [Risos], a gente brincava com ele, né? E foi ele que conseguiu um estágio para nós em São Paulo. Então, tu imagina: de uma cidade o interior a gente ir pra São Paulo!  Eu nunca tinha saído do estado do Rio Grande do Sul e, assim, começa aquele friozinho na barriga, né? “E aí? Eu quero ir, eu tenho friozinho na barriga e tenho que ver se a minha mãe tem condição financeira, porque eu não ia trabalhar, eu ia pra fazer estágio, então, ela ia ter que bancar tudo, né? E aí nós começamos: “ah, como vai ser? “A gente vai ter que alugar apartamento, é tudo muito longe” Aí, ele entrou em contato com uma instituição, que eu não sei se ainda existe hoje, mas é a Associação dos Filhos Banespianos, do Banespa, antigamente. Nessa Associação tinha uma nutricionista e ela ofereceu a parte de cima da casa dela, porque ela não estava alugando pra ninguém, tinha quarto, sala, cozinha e banheiro e, aí, a gente não precisaria pagar nada e a gente iria com ela para o estágio. Foi uma oportunidade maravilhosa! Fui eu e mais duas amigas. Foi uma experiência muito boa, porque eu fiz estágio numa instituição que, muita coisa do meu trabalho hoje, eu trouxe de lá. O que eu vi lá, eu gostei de como era feito e quando eu comecei a trabalhar eu trouxe como um exemplo pra gente também fazer isso. Foi muito interessante, porque as coisas foram surgindo. Nós ficamos uns cinco meses em São Paulo e, assim, como eu não tinha dinheiro pra voltar, eu fui, fiz todos esses cinco meses lá e depois eu voltei. Então, não tinha aquela coisa assim, “ah, vem passar o feriado e volta”, ou a minha mãe vai, não tinha. Então nós fomos, ficamos todo esse período e voltamos no final desse estágio. Mas foi uma experiência muito bacana. 

 

P/1 — Qual foi sua impressão de chegar em São Paulo, de ver a cidade grande? Como você se sentiu lá?  

 

R — Como eu te falei, eu acredito que eu sempre tive isso dentro de mim e eu nunca percebi, porque, quando a gente mora em cidade do interior, a família, geralmente, faz as coisas pra ti. Quando eu fui pra Santa Maria, minha mãe me acompanhou. Então, ela que fazia as coisas pra mim. Quando eu fui pra São Paulo, eu achei o máximo São Paulo! Andar de metrô, pegar ônibus em distâncias muito grandes. Como eu sempre fui muito protegida pela minha mãe, eu nunca tive essas oportunidades. Quando eu fui pra Santa Maria estudar, eu tinha regras, então, eu tinha hora para chegar, ela não deixava dormir na casa das amigas, mas, aí, quando ela ia pra Itaqui eu dormia! [risos] e a gente fazia as jantas, reuniões, e quando eu cheguei em São Paulo, eu achei aquilo muito legal, muito joia! Eu lembro que a gente chegou na Rodoviária e aquele fervor, então, dá aquele friozinho na barriga, mas, ao mesmo tempo, aquela vontade de conhecer, de saber como que é, de aventura mesmo. Aí, nós chegamos e essa Nutricionista estava nos esperando na Rodoviária. Ela nos levou e falou, “olha, vocês não se preocupem, porque como eu estou indo pra Instituição todos os dias, eu levo vocês e a gente volta no final do dia, ou eu indico um ônibus e vocês voltam de ônibus”. Teve uma dessas amigas que foi comigo, que ela sempre viajou muito, ela sempre saiu, sempre fez muitas coisas que eu não tive oportunidade de fazer. Só que lá em São Paulo, ela meio que travou, ela não sabia se virar. Aí, eu dizia pras gurias assim, “ah, mas a gente não vai ficar final de semana aqui, vamos pro Shopping!”, só que não tinha quem nos levasse. Aí, eu chegava pra dona da casa lá, “como a gente faz pra ir num Shopping aqui perto?”, “Shopping aqui perto, em São Paulo, é lá do outro lado da cidade!”, digo, “tá, e como que faz?”, “pega o ônibus tal, o metrô tal” e ta-ra-ra, e eu anotava no papel tudo o que ela ia falando, o número do ônibus, o ônibus, o metrô, pa-ra-ra, pa-ra-ra. Digo, “gurias, vamos! Se a gente se perder, a gente pergunta”. Aí, a gente ia e eu ia conduzindo elas!  Então, quando elas queriam sai, elas me perguntavam: “Alessandra, vamos a tal lugar?”, “vamos! Como que faz pra ir?”, “ah, não sei!”, aí, eu ia perguntar e ia anotando, sabe, aí, eu acabava levando e trazendo elas. Então, essa coisa de ir, de fazer, eu acho que eu tinha isso dentro de mim e não sabia. Tanto que hoje eu me viro super bem! Qualquer lugar que pedir pra eu ir, eu vou. Eu lembro que quando eu cheguei pra trabalhar aqui em Apiaí, já fazia alguns meses que eu estava trabalhando e a diretora falou assim pra mim, “olha, tem um curso em São Paulo de uma semana e tu precisa ir fazer”, eu digo, “ah, e agora, como eu vou fazer?” e eu começar a perguntar pra ela, aí, peguei e novo o papelzinho, ia anotando e fui! E eu sempre vou, entendeu? Se eu não sei, eu pergunto, eu corro atrás, eu tenho muito isso de perguntar, de correr atrás de ir. Dá frio na barriga, dá! Mas, a gente tem que fazer. Tem que superar isso.  

 

P/1 — Alessandra, você lembra onde que foi esse estágio? Quem eles atendiam, que tipo de trabalho vocês fizeram? 

 

R — Lembro, o nome é APABEX, Associação dos Pais Banespianos e Excepcionais. Eu não lembro o bairro, porque já faz muito tempo, mas era uma instituição que trabalhava a parte escolar e trabalhava também com oficinas. Era muito interessante, porque eles tinham desde bebês, tinham a parte de fisioterapia, de fono, tinha a parte escolar que era muito boa e tinha a parte dos adultos, que era profissionalização. Eles faziam cartões de Natal, agendas, com pinturas dos alunos, faziam quadros pra vender, e o mais interessante é que como era uma instituição particular, eles também começavam a se preocupar com aquelas pessoas que, de repente, já estavam mais idosos e que o pai e a mãe faleciam. “E, aí? O que nós vamos fazer com ele?”. Então, eles montaram numa outra cidade próxima de São Paulo, uma casa pra eles morarem nesse lugar. Seria o novo lar deles! Eles tinham as tarefas diárias deles, eles iam para o cinema, eles tinham piscina na casa, mas eram todos adultos e idosos que ficaram sem suas famílias e, às vezes, era filho único ou o irmão, um tio não queria cuidar, então, eram pessoas que iam pra esse lugar. E eles faziam muitas atividades fora da instituição, iam para parques, pra Shoppings, e aquilo eu achava muito interessante, porque eles não ficavam como eu tinha conhecido na APAE, que era todo mundo dentro do local.  Lá não, eles saiam, eles iam passear, faziam caminhada, iam ao Shopping, e eles escolhiam o lanche que eles queriam tomar no Shopping, isso ficou muito significativo para mim, essa questão de tu cria essa independência, principalmente, para deficientes mais comprometidos. Tu tem que criar essa independência deles, eles tem que fazerem por si só. Então, isso me marcou muito e eu sempre levo para o meu trabalho. É uma coisa que marcou bastante.  

 

[TROCA DE FITA]

 

P/1 — Então Alessandra, você estava contando do seu estágio aqui em São Paulo, aí, deram os cinco meses e você voltou para Santa Maria. Como que foi essa volta? Você ainda tinha curso pra fazer ou já tinha terminado? 

 

R — Não. Aí, eu voltei pra Santa Maria e nós tínhamos um trabalho pra apresentar. Nós tínhamos que fazer um estudo de caso desse estágio e escrever sobre ele, que é o trabalho final para aprovação. Aí, apresentei o trabalho, teve a formatura e tudo e, aí, eu fui pra Itaqui de novo e fiquei lá. Nossa formatura foi em Janeiro e eu fiquei até, mais ou menos, março. Eu sempre me relacionei bem como todo mundo da faculdade, e tinha uma coordenadora do curso de Educação Especial que eu fiz amizade com ela e ela fez amizade com todo o grupo. Um certo dia eu estava em casa e ela ligou pra mim. Aí, ela falou: “Alessandra, tu já conseguiste trabalho?”, eu disse, “não, eu estou esperando pra ver se eu consigo aqui na minha cidade. Mas está difícil”, aí, ela falou assim, “não, porque tem uma cidade do interior de São Paulo que está precisando de uma Educadora Especial!”. Eu digo, “nossa! Interior de São Paulo! Vou sair daqui de Itaqui pra ir pra onde?”, ela falou, “óh, vou te dar o telefone de uma pessoa e tu liga pra ela e te informa”. Aí, eu falei pra minha mãe, “mãe, e agora? Eu não vou conseguir ficar esperando aqui, de repente, eu espero até o final do ano e não tenha nada! Eu vou ligar pra ela!” Aí, eu liguei pra ela e ela era aqui de Apiaí. Aí, ela falou, “olha, eu sou do Rio Grande do Sul também, eu estudei em Santa Maria, fiz faculdade e nós estamos precisando de uma Educadora Especial aqui. O salário é tanto, a carga horária é tanto, tu vai ter que fazer esse tipo de trabalho. Tu não quer vir conhecer? Eu digo, “ah, eu vou!” Coloquei minha mochila nas costas e vim conhecer. E foi muito engraçado! A minha mãe falou assim, “eu vou contigo”, eu digo, “não. Eu vou sozinha! Eu tenho que ir sozinha!” Aí, vim e essa moça falou assim pra mim, “olha, tu vem até Curitiba e de Curitiba, tu vai pegar outro ônibus pra Apiaí, que é o Serro Azul. O famoso Serro Azul daqui. Eu vim e, na época, não tinha asfalto, era estrada de chão, o asfalto estava muito ruim, e de Curitiba à Apiaí, não tem acostamento, então, a estrada é estreita, aquele mato em volta, mata inteira. Aí, eu cheguei em Curitiba, tipo, umas onze horas da noite, eu digo, “agora eu pego o outro ônibus”. O ônibus só saía às seis e quarenta e cinco da manhã! Eu digo, “e agora, o que eu vou fazer aqui na rodoviária de Curitiba, se eu não sei fazer nada, né?” Sentei lá esperei até às seis horas da manhã. Aí, vim pra Apiaí e o ônibus era aquele ônibus danado, daqueles medonhos do interior. Quando chegou em Tunas, é uma cidadezinha que parecia faroeste, hoje está melhor, era uma casinha aqui, outra casinha ali, e aquela estrada poeira. Eu cheguei, o motorista desligou o ônibus e desceu todo mundo! Desceu cobrador, motorista... aí, eu olhei para os lados assim, eu digo, “Jesus, onde que eu estou?” [risos], aí eu falei para o motorista, “moço aqui é Apiaí?”, ele falou, “não, Apiaí é mais para a frente”, eu pensei, “nossa! se eu passei por isso aqui, Apiaí deve ser uma tribo! Deve ser menor ainda que isso aqui”. [Risos], aí, eu vim para cá. Quando eu cheguei aqui, eu vim conhecer o CEMAE [Centro mineiro de apoio empresarial], a instituição que eu ia trabalhar e a Diretora, na época, a Fátima, que é uma grande amiga hoje, né, ela recebeu de braços abertos. Ela falou: “ah, tu está vindo do Sul, que bom! Tem mais duas moças que vão vir do Rio, uma fono e outra Tocantins, quem sabe vocês alugam a casa juntas. Que joia! Olha, a cidade tem isso, na cidade faz isso” e pa-ra-ra, pa-ra-ra e acolheu super bem! Eu digo, “bom, e agora?”. Ela falou assim pra mim, “faz o seguinte: vai, passar a Páscoa com a sua família, e se tu decidir, tu volta. Digo, “ah então está joia! ” Então, eu tinha esse tempo que eram mais umas duas semanas para ver se eu queria voltar ou não. E eu gostei daqui! Aí, eu conheci as duas pessoas que vieram do Rio, e eu digo, “ah, acho que é isso que eu quero!”. Aí, eu voltei pro Sul. Fiquei na casa dessa moça, da Marlei, que era do Rio Grande do Sul também e que já trabalhava há muito tempo aqui. Voltei pra casa e falei pra minha mãe, “olha, eu quero ir trabalhar. Eu não posso ficar esperando aqui!”  Minha mãe ficou apavorada! Nossa! Vai pra outro estado, e como que vai ser e tudo. Eu percebi que ela ficou muito preocupada. E eu digo, “eu vou embora!” Aí, peguei minhas coisas, [risos], e a gente não tinha nada na casa, aí, nós combinamos assim, “olha, já que a gente não tem nada, pelo menos, cada uma traz prato, copo”, olha a ideia, né, até parece que não tinha para comprar aqui, né? Então, cada uma trouxe algumas coisas de casa e eu lembro que eu vim com um monte de coisa de casa. Quando eu vim, minha mãe falou assim, “não, eu vou contigo, porque, como que tu vai iniciar numa cidade?”  Aí, eu virei pra minha mãe e falei, “ah, que bonito que fica, né, eu com 24 anos, tu me pega pela mão e dizer assim, senhor Prefeito eu sou funcionária, cuida bem dela! Não mãe! Eu vou sozinha!” E, aí, vim, com a cara e a coragem! Nunca tinha feito uma conta em banco, nunca tinha tido uma carteira de trabalho, nem sabia como que assinava carteira de trabalho, então, foram coisas assim, que a gente vai aprendendo e hoje a gente acha que isso é tão comum, é tão normal, mas, pra mim, não era, porque eu não tinha passado por essa experiência. E assim, morar longe de casa, sem ter esse convívio familiar, porque não tinha, eu só ia pra casa em Julho e Dezembro nas férias. Então, dia das Mães, eu passava sozinha, meu aniversário eu passava sozinha, então, fazia falta esse contato familiar. Fazia bastante falta. Aí, depois, tu acaba acostumando. E eu sempre falo pra minha mãe, “se eu pudesse, pegar esse meu trabalho e levar pra perto de ti, eu faria! Mas como tem que ser essa distância, não posso deixar de trabalhar pra ficar nesse convívio familiar, porque aí eu também não ia ser feliz, né?” Então, eu vim e eu tinha que decidir a minha vida, eu tinha eu ser responsável pelas coisas que eu fazia. Por um lado era bom, porque eu tinha a liberdade de sair de casa e voltar à hora que quisesse,  porque, em casa, já não tinha porque  a minha mãe estabelecia horário. Mas, assim, essa questão de tu ser responsável, de tu dizer, “poxa, agora é comigo! Então, se eu não pagar as minhas contas, é minha responsabilidade! Se eu fizer alguma coisa errada, é minha responsabilidade”, então, não tinha ninguém ali, era eu sozinha. Mas foi uma experiência boa. Tu dividir casa com pessoas estranhas, pessoas que tu não tem relação nenhuma, morar num lugar diferente, não ter a família por perto, é uma experiência única!               

 

P/1 — Alessandra, você contou dessa viagem, que o ônibus parou. Quando você chegou em Apiaí, qual foi sua primeira impressão da cidade, o que você achou quando você desceu do ônibus no lugar certo?

 

R — Como Apiaí sempre foi do interior, eu não estranhei muito não. Eu achava interessante o costume daqui. Cada lugar tem a sua forma de vida, os seus costumes, e tem o seu vocabulário, [risos], e quando eu cheguei em Apiaí, nossa, eu fiquei assim, admirada, porque aqui, as pessoas falavam alguma coisa e falavam assim, “e aí, boba? Você quer tomar café, boba?” E não sei o quê, boba, e ____ são expressões que a gente não usa, e nenhuma outra região usa, né? Eu achava interessante essas coisas. Mas, assim, eu acho que a recepção foi tão gostosa, que eu não senti diferença. Até, por ser cidade do interior, todo mundo se conhece, então, por exemplo, eu lembro que essa moça que me recebeu na casa dela, ela falou, “ah, vamos conhecer um pouco da cidade!”, aí, nós saímos pra caminhar, a pé mesmo, então, ela passava, “oi fulano, tudo bom? Essa aqui é a Alessandra, veio do Rio Grande do Sul também, talvez venha trabalhar no CEMAE”, aí encontrava com outro, “oi, tudo bom?”, então, ficou uma coisa agradável, não teve tanto impacto, porque eu saí de uma cidade do interior pra ir para uma outra, onde todo mundo se conhece e tal. A única diferença é só de não ter a família junto. Isso foi o que eu mais, digamos assim, estranhei. Mas, aí, tu acaba construindo outras famílias aqui com os amigos, né? Com amigos, às vezes, com relacionamentos, então, não teve muito impacto.  

 

P/1 — E quais foram as atividades que você começou a desenvolver aqui em Apiaí? 

 

R — Eu vim para trabalhar como Coordenadora de Educação Especial. [risos] Aí, tu imaginas: uma pessoa recém-formada, ter a responsabilidade de orientar professores com trabalho com deficientes. Eu fiquei apavorada, né? E eu tinha que avaliar os alunos também e eu não sabia avaliar. Então, eu cheguei pra Marlei, que era a Educadora, e digo, “Marlei, eu quero que tu me ensine, porque eu não sei!” A gente sai da faculdade inexperiente. A experiência, tu adquire desenvolvendo mesmo o trabalho. Aí, eu lembro que ela me ensinou, e eu fui pegando e eu fiz muita coisa errada, fiz muita coisa que eu digo, “poxa, poderia ter sido diferente”, e, assim, para orientação dos professores, numa primeira reunião que nós tivemos, tinha professores que eram bem mais velhos do que eu. Então, tu imagina, chegar uma pessoa de 23, 24 anos, pra orientar uma pessoa de 35, de 40 que já está ali há um tempo, né? Então, eu ficava meio assim, “poxa, eu sou tão nova pra fazer tudo isso!”, mas, aí, eu falei pro pessoal, “olha gente, vocês tem a prática e eu tenho a teoria! Eu saí da faculdade com a teoria. Então, nós vamos juntar isso, vamos estudar e vamos fazer um trabalho. A gente vai errar? Vai. Vai errar bastante. A gente vai fazer coisa que, depois, tu pode pensar que poderia ter feito diferente, mas, para aquela época a gente considerava certo. E nós vamos aprender juntos. Vocês vão me trazer muita coisa da prática e eu vou trazer muita coisa da teoria pra vocês e nós vamos fazer esse trabalho.” Então, a minha função era fazer avaliação com os alunos, orientar esse grupo de professores, dessas salas de aula, porque eles atuavam em sala de aula e participar das reuniões de equipe. A nossa equipe era muito boa! Tu imagina, numa instituição ter todos os profissionais possíveis, fono, TO, Psiquiatra, Neuro Infantil, Pediatra, Psicólogo, Educador Especial, Pedagogo, então, assim, a riqueza de informações era muito grande. Nós sentávamos pra ver o aluno tal, e cada um mostrava a sua área praquela criança. Eu aprendi muito! Muito, muito, muito, com essa primeira equipe. Eu acredito que se eu não tivesse vindo pra Apiaí e começado esse trabalho, eu não teria esse primeiro impulso de trabalhar com os profissionais, né? Foi muito bom. Muito bom!      

 

P/1 — E como eram as atividades diárias? Você estava também em contato com os alunos ou era mais com os professores?

 

R — Não, eu estava em contato com os alunos. Eu ajudava os professores a prepararem as atividades e eu gostava de entrar em sala de aula. Eu sempre gostei de adultos, com deficiência mental, que não se alfabetizavam, eu gostava mais dessa área, não queria tanto a questão da escolarização, mas eu queria preparar eles pra vida, que era a experiência da APABEX [Associação de Pais Banespianos de Excepcionais] que eu tinha. Então, eu propunha para as meninas, “vamos começar fazer passeios na rua”, e as meninas ficavam apavoradas! “nossa, mas como nós vamos fazer passeio?”, eu digo, “mas a gente tem que levar eles!” Tu imagina adultos que não saem de casa, e era interessante porque, quando se começaram esses passeios, eu falei para os professores assim: “o nosso objetivo é mostrar pra comunidade que eles existem, que eles fazem parte. Se ninguém nunca enxergar eles, é porque eles não fazem parte. Então, eles têm que serem vistos em vários locais, no supermercado, na farmácia, na praça, nos eventos da comunidade. Eles tem que estar!” Aí, nós começamos a fazer esses passeios e eu falava para as meninas assim: “olha, professora, pega sua conta de água, de luz, de qualquer coisa, vá pagar no banco e leve eles”. Então, ela ia e já ensinava o que era um Caixa Eletrônico, como se portava no banco, como que tinha que esperar na fila, essas experiências, né? E elas traziam pra mim, relatando que as pessoas paravam, se entrava no banco, o banco parava. Todo mundo ficava olhando, aí, [risos], teve até um episódio que uma senhora lá, falou assim: “aí, eu vou dar balinhas para eles”. Todos adultos, né? Teve um outro que falou assim: “ai, coitadinhos! Eu vou dar um dinheirinho pra eles!”, e aí, eu comecei a instruir os professores, “olha, não peguem isso. Falem pra pessoa, “olha, eles estão aqui pra aprender, eles não são coitadinhos, eles não precisam de balinhas, não precisam de dinheiro”. Comecem a já fazer essa educação com população também, nesses passeios. E eu sempre fui de acompanhar muito, então, em alguns passeios, eu acompanhava, nas atividades de sala de aula, eu ajudava a fazer. Eu lembro que quando eu fui pro CEMAE [Centro mineiro de apoio empresarial], era muito interessante porque a Diretora, essa que é minha amiga, a Fátima, ela não entendia de Educação Especial, mas ela deixava livre pra gente fazer, ela te dava o aval: “faça, porque eu confio no seu trabalho”. Teve uma época em que eles serviam em pratos de plástico, colher de plástico e caneca de plástico e aquilo começou a me incomodar. Eu digo, “poxa, eles são adultos. Por que a gente não ensina outras coisas pra eles?” Aí, eu propus pra ela, “Fátima, vamos trocar os pratos de plástico por prato de vidro!”, ela falou, “ai, eles não sabem usar, eles vão quebrar os pratos”, eu digo, “Fátima, óh, vamos fazer assim, tu troca todos eles, se quebrar, eu reponho”. Cada prato que quebrar, eu compro e reponho. E nós vamos colocar garfo e faca!”, “ah, eles vão se cortar!”, eu digo, “não vão! Nós vamos ensinar eles a comerem com garfo e faca!” E foi! Aí, eu ia pro refeitório. Eu não fazia o meu horário de almoço, eu ia para o refeitório e começava a orientar todo mundo, os professores, os monitores, “óh, segura assim, vamos fazer isso” e deu super certo! Eles não quebraram um prato! [risos] eu achei muito bacana e a equipe é muito boa! A gente fazia a proposta e o professor aceitava. Teve uma época também que tinha as Paraolimpíadas, eu digo, “nós vamos ter que fazer com eles aqui! Vamos montar atividades físicas e vamos fazer competição com medalhas, com torcida, com tudo!” Nós pedimos para os policiais fecharem a rua e nós fazíamos. Era caminhada, corrida, corrida do saco, coisas que eles conseguiam. A gente ficava na torcida, fizemos o pódio, demos as medalhas para os primeiros colocados, e porque que era o primeiro, e era muito joia! E como nós tínhamos também, verba dessa instituição, eu comecei, junto com a Fono, que eu morava com ela, uma pessoa muito joia também, ela começou a fazer um trabalho com surdos de tirar o surdo da instituição. Primeiro ela começou com a quebra do vínculo da família, aquela de cortar o cordão umbilical, né? Então, ela fez a noite do pijama com os surdos, então,  tinha pequenos e adultos. Eu lembro que um dos pais falou que não dormiu a noite, porque a filha dele dormiu fora de casa a primeira vez. E a menina tinha uns nove anos, nunca tinha saído de casa. Aí, ela começou a fazer, fez na Instituição, aí, começou a fazer num lugar aqui perto, e passeio, e eu me inspirei naquilo e digo, “por que a gente não faz um passeio mais distante ainda?” Aí, todo mundo ficou assim, “mas mais distante onde?”, eu falei, “vamos pro Zoológico de São Paulo!”, “ai, mas como que a gente vai com eles, eles nunca saíram de Apiaí!”, eu digo, “por isso mesmo!”, “então, nós vamos fazer um trabalho com eles de pesquisa”, porque eles não eram alfabetizados, então, nós trabalhamos quais os animais que nós íamos encontrar no Zoológico. E assim, uma logística tremenda! Porque, aí, tu tem que pensar assim: “quem vai acompanhar quem, quantas pessoas vão ser responsáveis por aquele número de alunos, quantos vão auxiliar esse aqui que sai correndo, quantos vão auxiliar esse aqui na hora do almoço, porque ele não consegue comer totalmente sozinho e não dá, num restaurante, ele derrubar e todo mundo olhar. Não é isso que a gente quer. Nós fomos e foi muito interessante! Muito legal! Eles irem ao Shopping, eles andarem de escada rolante, eles irem num restaurante fora daqui, verem os bichos... Eu pedi para as meninas fazerem como uma tabela, então, tinha todos os animais e eles estavam levando a prancheta em cada lugar que iam, então, se eles viam o urso, eles tinham que procurar o urso e marcar pra depois a gente fazer um gráfico na sala, de quantos tinham visto o urso, quantos viram o elefante, como que era e relatar tudo isso. Eu fiquei muito feliz de ver um menino que ele não falava nada! Nada, nada, nada... ele nunca conseguiu falar! Ele só fazia “ôh, ôh, ôh...”, e nós chegamos num dos lugares lá, não sei se era o tigre, o que era, aí, ele apontou “ôh, ôh, ôh... óóh, óóh, óóh”, e ficou mostrando que ele tinha visto o tigre. Nossa! Aquilo foi muito legal! Porque ele tinha ao mesmo tempo em que ver o animal, ele tinha que conhecer, porque a gente tinha preparado eles pra isso e que ele tinha que marcar na tabela dele, porque era um dado que ele tinha que trazer pra sala depois. Então, isso foi muito bacana! Então, essa coisa de tu fazer com que a pessoa cresça também, é muito bom! Com esse trabalho a gente faz isso. A gente sempre pensa na independência deles. E é por isso que eu gosto, eu acho que é um dos mais comprometidos porque o desafio é maior. Autista é uma coisa também que eu sou apaixonada. Aquele deficiente mental leve, eu já... porque eu sei que de uma certa forma ele vai. Agora, aquele outro que é mais comprometido, aquele, tu precisa pensar muito mais coisas pra trabalhar com eles, né? É muito legal! A gente fazia tudo prático e faz até hoje. Por exemplo, Festa Junina, então, não era só tu ir lá, pegar a canjica, comer, dançar e pronto. Então, eu comecei a pensar assim, “poxa, como que a gente vai fazer essa dinâmica na hora da Festa Junina?” Aí, eu montei fichas coloridas para cada barraca, então, a barraca da canjica era um, do cachorro quente era outro, do suco era outro, porque eu queria que eles fossem, até pra quem não tinha linguagem, de saber fazer a comparação da cor que tinha na barraca com a cor da ficha que ele tem, pra ele ir lá e “ele” escolher, ele ter a oportunidade, “ah, não, eu não quero canjica, agora eu quero cachorro quente e eu vou até lá buscar”, porque, antes, era assim, era dado pra eles. Então, eles ficavam lá parados e a gente ia lá e levava. Eu digo, “mas não é isso que eu quero. Eu quero que ele vá até a barraca, que ele tente se comunicar, que ele faça para conseguir.” E era muito interessante, porque eles pegavam as fichas e tinha um que era muito comprometido e ele colocava todas as fichas na barraca, e aí, tu tinha que ter aquela paciência, pra fazer aquele trabalho. Então, a ficha era vermelha, aí, perguntava pra ele, “olha aqui então nessa ficha e procure qual é a fichinha do cachorro-quente”, por exemplo, aí, ele olhava, olhava, olhava, aí, as meninas diziam, “ai, mas vai demorar muito!”, eu digo, “deixa que demore, não tem problema!”. Aí, ele olhava, olhava, eu digo, “então pegue essa aqui”, aí, ele pegava, comparava, “ah, não é!”, aí, depois, pegava outra, comparava, “ah, não é!, aí, quando ele pegou, “ah! ah! ah! É essa aqui!”, eu digo, “isso mesmo! Que legal! Essa é a ficha vermelha do cachorro-quente! Então, tá jóia! Coma o seu cachorro-quente e depois vai buscar o que você quer!” Então, isso é muito gratificante, sabe? Esse trabalho é muuuito gostoso, porque aí, tu não pensa em estratégias para ensinar ler e escrever, tu pensa em estratégias para ensinar e ter uma independência pra vida. E isso é muuuito bom! E requer que tu pense bastante! Que tu faça, aí, tu volta, pensa se deu certo e refaz de novo, então, é aquele vai e vem o tempo inteiro. É bom!  

 

P/1 — Alessandra, como chegou a história desse seu outro trabalho aqui com a escola, com o CDC?

 

R — Foi assim: eu sempre gostei de me envolver com essas coisas. Então, por exemplo, eu fazia um projeto no CEMAE [Centro mineiro de apoio empresarial], eu dava a ideia, eu fazia, eu ia pra sala... eu sempre gostei de colocar a mão na massa também. O CDC, na verdade, antes de começar, teve um grupo que eles falavam que eles tinham reuniões ampliadas. Eram pessoas que viam e que traziam projetos e o Instituto Camargo Correa aprovava esses projetos, e eles faziam reuniões e discussões sobre a apresentação desses projetos e tal e o Instituto mudou a forma de trabalho. Ele falou assim, “não é só vir, apresentar o projeto, executar e acabou. As pessoas têm que se organizar para pensar o que é bom pra comunidade”. Aí, quando ele trouxe esse programa Infância Ideal, uma pessoa me convidou pra fazer parte do CDC, “ah, vai ver, talvez tu queira participar”, eu lembro que eu fui à primeira reunião e eu fiquei super perdida. “Nossa, o que é isso? Como que faz?”, mas, ao mesmo tempo, aquela coisa instigante de dizer assim, “poxa, eu não sei fazer, mas, eu quero aprender a fazer”. Aí, eu comecei no CDC e quando veio o programa Infância Ideal, nós os reuníamos para pensar o que nós íamos fazer em função da infância do município. E tinha muitas coisas que na época o CEMAE eu já via, porque uma das grandes dificuldades que a gente tinha era incluir os alunos deficientes numa creche, por exemplo. Por que? Porque não tinha estrutura física, não tinha estrutura de profissionais, não tinha uma visão pedagógica, então, era o cuidar! E aquilo me incomodava muito, porque, mesmo muito antes de fazer efetivamente a inclusão, eu ficava com pena, assim, porque eu percebia assim, “poxa, a gente tem um bebê Síndrome de Down, que está aqui no meio de outras crianças que não falam, que não andam, que não tem uma destreza, que não se desenvolveram e ele precisa do modelo correto. De caminhar, de falar, de interagir com outras crianças, de correr”, e ele não tinha! Então, eu ficava com muita pena. Eu achava que ele estava perdendo tempo no CEMAE, quando ele podia estar num ambiente onde todo mundo fala, todo mundo brinca, e ele vai imitar e vai se desenvolver melhor! E nós ficávamos como galinha choca, “ai, nós não vamos incluir, vamos ficar todos aqui, porque aqui a gente cuida, a gente alfabetiza, aqui a gente dá condição, a gente estimula” mas eu não sentia como suficiente, né? Quando surgiu o CDC, foi uma oportunidade de a gente pensar esse outro lado, porque nós pensávamos o CEMAE enquanto instituição para deficientes, e eu precisava tirar esse olhar daqui e fazer um olhar de como eu queria aquele espaço, para que a minha criança que estava lá na Instituição fosse pra esse espaço. Então, o CDC deu essa oportunidade, porque, aí, nós começamos a pesquisar, a ver os índices como estavam, o que acontecia e a nossa realidade. Uma das coisas que nós percebemos é que a infraestrutura era péssima! Então, por exemplo, o resto de cadeirinha que sobrou não sei de onde, manda para creche! A mesinha, aquela que não foi pintada, que está lá sobrando, manda pra creche! Então, a creche era um depósito de móveis, que vinham de outros lugares que não usavam, e assim, se montava a creche! E a creche não era vista como um espaço de educação, era um espaço de cuidar. A mãe precisava trabalhar, ia pra creche pra tomar mamadeira, pra trocar a fralda, pra tomar banho, pra comer, pra dormir, pra alguém olhar e ia embora pra casa. Então, assim, dessas discussões nossas e tudo, surgiu muito a questão da infraestrutura, que precisaria melhorar esse espaço, porque tu não pode deixar o resto para a criança. Tu tem que dar o melhor pra criança, porque é ela que está começando a vir, né? Ao mesmo tempo, como eu sou da área da Educação, eu e algumas pessoas do grupo pensávamos assim, “poxa, mas não adianta também eu arrumar o espaço e o profissional ser o mesmo!”, porque, tinha aquela concepção, que quem fazia limpeza e cozinhava, olhava as crianças, porque era só olhar, não era educar. Aí, nós pensamos que precisaria ter uma capacitação pra isso também, né, que as pessoas tinham que, no mínimo, saber sobre o desenvolvimento da criança. Com que idade ela precisa caminhar, com que idade ela precisa falar, o que está dentro do normal e ter esse olhar mais apurado, porque, como a gente vem de uma instituição que tem deficientes, a gente trabalha muito com aquele que não se desenvolveu na idade certa. Então, a gente já tinha essa preocupação de correr com eles desde pequenininho. A gente sempre teve essa visão, “ah, nós temos que cuidar pra ver, se a criança não está caminhando na idade certa, o que ela tem pra gente já agir ali”. Então, nós pensamos isso e também se pensou na questão do atendimento à gestante, porque, a mulher engravida, ela está gerando esse bebê, e esse bebê vai pra creche, depois vai pra escola, só que a gente está pegando ele com seis meses, e a gente precisa acompanhar também essa gestante, dela criar o vínculo, dela saber o que é normal e o que não é, que é importante fazer um pré-natal, porque o índice de mortalidade infantil também era alto no município e fomos fazendo isso. Como eu faço parte da Educação e é isso que eu gosto, dessa formação dos profissionais, acabou que eu fiquei nesse grupo de formação. O nosso primeiro entrave quando nós começamos a desenhar esse projeto, foi que a prefeitura tinha um quadro de pessoal para creche e que nós queríamos formar um outro quadro. Quando nós começamos a desenhar o projeto, a preocupação era assim, “poxa, mas eu vou formar a cozinheira no quê? Na cozinha ou para cuidar da criança?”, porque, são coisas diferentes. E agora? Antes de acontecer o projeto, nós tivemos uma reunião com o Secretário de Educação e nós colocamos pra ele: “olha, o nosso projeto é para “formar pessoas” que vão ficar naquela função, fazendo aquela função. Não dá pra ficar nesse troca”. Antes de acontecer o projeto, a gente já fez com que a Secretaria de Educação trouxesse os ADIS, que é Assistente de Desenvolvimento Infantil, e trouxesse os monitores, cada um para o seu lugar. Aí, a cozinheira e faxineira, ficaram fazendo as funções delas. Aí, nós pensamos a formação assim, eles vem de um trabalho que nunca foram formados, então, por exemplo, a cozinheira prestou concurso e começou a cozinhar, mas, nunca ninguém falou pra ela, “olha, precisa fazer isso, olha, higiene é isso, esse alimento é melhor, dá pra fazer assim”, nunca teve isso! E, aí, pra nossa surpresa, nós fizemos essa formação, então, nós trouxemos, uma pessoa da saúde para trabalhar com cozinha e limpeza, pra ver o que é importante para esse ambiente e nós trouxemos uma pessoa pra trabalhar com os monitores na parte pedagógica. E foi muito interessante porque eu lembro que uma das pessoas que trabalhavam na cozinha ou na limpeza, falou assim, “nossa Alessandra, sabe que de todo esse tempo que eu estou trabalhando é a primeira vez que a gente tem um curso?”, então, pra eles, aquilo foi muito gratificante e a gente não tinha noção disso!  Porque quando tu escreve um projeto, tu não consegue saber para quais caminhos esse projeto vai. E foi muito bom porque elas se sentiram valorizadas e era isso que a gente queria, porque elas fazem parte desse trabalho. Não é assim, “ah, eu cuido da cozinha, ah, então é só a cozinha o meu espaço!”, não! O espaço dela é toda a creche e a criança vai até a cozinha e ela precisa ser educadora na cozinha. Então, a gente tinha muito clara essa visão e a gente queria passar pra eles. E uma das coisas que foi maravilhosa também do nosso projeto, é que quando nós começamos a incentivar essas pessoas a fazerem curso, a ter formação e eles estão sendo formados para isso, teve algumas pessoas que procuraram fazer faculdade, então, elas nem imaginavam! “não, eu fiz o segundo grau, vou trabalhar na limpeza, vou trabalhar na cozinha” e, aí, quando tu deu a formação, ela falou assim, “poxa, mas eu posso estudar mais!”, aí, procurou a faculdade e está fazendo a faculdade! Isso pra nós foi maravilhoso, né? Então, a gente começou a pensar essas coisas e esse trabalho no CEMAE eu consegui trazer pra essa visão de creche, porque, no CEMAE a gente sempre formou todo mundo. Sempre teve formações e a gente sempre se preocupou em fazer formações. Isso, a gente tinha que trazer também para esse outro espaço, de ter essa formação contínua, e cada um saber fazer a sua função, saber dividir com o restante dos profissionais. Isso ajudou bastante, foi bem legal! O CDC mostrou para gente que nós temos que nos reunir enquanto comunidade, que cada um dentro da sua área tem que contribuir para que a gente formasse, porque quando nós montamos o projeto de formação, tinha pessoa da fábrica de cimento Kauê, que sabia fazer cimento, tinha pessoa da saúde, da educação, do Conselho Tutelar, então, são várias áreas ligadas à criança, que deu a oportunidade de tornar-se um projeto muito rico. Porque cada um dentro da sua área, pincelou algumas coisas pra esse projeto acontecer. Foi bem interessante ter esses profissionais todos envolvidos. 

 

[TROCA DE FITA]              

 

P/1 — Alessandra, você estava contando do projeto de formação, e qual a importância da formação profissional para lidar com a criança? 

 

R — Ahhh, importantíssimo! É fundamental! Porque assim, as creches nunca tiveram formação, elas nunca foram vistas como um espaço para ensinar e para aprender. Era um espaço de cuidar. Então, quando se pensou em fazer uma estrutura adequada pra criança, se pensou no bem estar da criança, se pensou também, “poxa, mas eu vou dar um espaço, mas aquela pessoa não vai saber trabalhar naquele espaço ou usar aquele espaço”, e, aí, veio a formação. Quando nós trouxemos a formação, nós pensamos que todos eram educadores!   Desde a faxineira, do serviço de limpeza, do serviço de cozinha, do motorista que traz as crianças, todos são educadores! E nós pensamos essa formação querendo que eles atendem bem a criança, para que ela se desenvolva adequadamente. Eu preciso dar condições pra ele e eu dou condições através da formação, tanto a teoria quanto a prática para eles irem aplicando isso. E foi assim que nós trouxemos o Instituto Avisa Lá, que faz bem esse trabalho, de se pensar como fazer, vai aplicar e tu volta de novo para discussão. Os profissionais da creche precisavam ter essa formação, dessa questão de como se pensar o como eu vou fazer e porque estou fazendo. Muitas pessoas já fazem, só que não sabem porque estão fazendo. Falta bagagem teórica mesmo. Era essa teoria que estava faltando pra eles. O Instituto Avisa Lá veio pra trabalhar com as creches e como nós temos salas de aula de Educação Infantil que funcionam dentro da creche, essas salas também participaram. Nós fizemos uma formação para profissionais de zero até seis anos, porque nós tínhamos a pré-escola ainda de seis anos. Agora, nós estamos na fase dois que, aí, pensamos diferente. Como nós já tivemos aquela parte inicial e como eu faço sempre esse trabalho de ir a muitas escolas, porque eu trabalho com alunos incluídos, então, eu não via só o aluno e só a aprendizagem dele, mas a aprendizagem da sala. Então, como eu ia muito às escolas, nós fizemos uma reunião com o nosso grupo de formação, e eu coloquei pro pessoal, assim: “olha, o que eu estou percebendo é que o município trouxe muita formação e alfabetização, leitura e escrita, e a matemática ficou de lado”. O grupo gostou da ideia e, aí, nós montamos de zero a três anos, uma formação, que é pra dentro da creche, e de quatro a seis anos, nós estamos fazendo uma formação em matemática só, que é com o Matema. Então, o Avisa Lá permanece com os profissionais de zero a três e, nessa hora, entrou o Matema que está trabalhando só questões matemáticas de quatro a seis anos. Então, nós conseguimos unir duas coisas bacanas. Na primeira fase foi uma formação geral pra todo mundo e, agora, nessa segunda fase, nós dividimos os grupos.  

 

P/1 — Nesse projeto teve também a parte da estruturação caminhando ao lado da formação. Como era essa escola antes, o que precisava ser mudado, o que foi mudado? 

 

R — Nossa! Era tudo! Tudo precisava ser mudado! É aquilo que eu te falei, o espaço físico, se trazia os restos de outros lugares, porque eu chamo de restos, né, móveis de outros lugares que não eram usados, traziam para cá. Então, não era adaptado para idade das crianças. Então, janelas muito altas, banheiros que não eram com vasos sanitários do tamanho da criança, eram vasos para adultos. Os funcionários usavam o banheiro junto com a criança, não tinha a questão de se ampliar os espaços, as cores, então, eram ambientes assim, muito sem luz, sem iluminação. A primeira creche que foi construída, ela existia antes numa casinha de madeira, improvisada. Então, as creches sempre foram um improviso. “Ah, é uma casinha, juntou um grupo de crianças da comunidade, dá esse atendimento, e fica nesse lugar!”, então, não era pensado, tanto que a Secretaria de Educação não tinha o olhar voltado para creche. Era assim, aquele espaço existia, dava-se alimentação, trocava fralda, dava banho e estava bom. Quando se pensou nessa estrutura, se pensou numa estrutura adequada para a criança, aí, nós buscamos as boas práticas nos outros lugares. O pessoal da infraestrutura conheceu lugares onde tem as creches adequadas e nós começamos a perceber que as daqui de Apiaí, precisaríamos mudar muita coisa. A primeira que foi construída é totalmente diferente. Saíram de uma casinha de madeira, que tinha, eu acho, uns quatro cômodos, funcionava uma salinha junto com a cozinha, o banheiro era para adulto, tinhas os quartos e alguns fizeram salinha pra dormir, aquilo tudo apertado. Aí, se construiu um outro espaço, que é essa creche do bairro Palmital Campininha. Depois, nós viemos para o espaço aqui de Pinheiros, e aí, também, a infraestrutura pensou no local e no imobiliário, porque não adiantava fazer um local e um imobiliário inadequado. Aí, pensamos na creche de Pinheiros que também tinha uma outra estrutura, antigamente, era um clube de japoneses, então, ele era um salão enorme com um palco e foram feitas divisórias, totalmente inadequadas. Nesse palco, era cercado e era uma salinha, aí, se fechou um outro local, outra salinha, banheiro de adulto, quer dizer, para as crianças, do maternal, berçário, pra tirar a fralda, não tinha como usar o vaso. Aí, teve a creche de Cordeirópolis, que foram feitas pequenas reformas, mas, o imobiliário foi colocado de acordo com a necessidade da criança, por exemplo, altura. O banheiro foi modificado, teve várias modificações. Agora, o nosso ponto, é ir pra zona rural, porque nós temos três creches na zona rural que também são casas alugadas, tem uma outra que é do município, mas que era uma escola que se transformou em creche, foi mudando um pouquinho o espaço, mas não está totalmente adequado. Quando nós pensamos formação, nós pensamos infraestrutura. Quando infraestrutura pensou, nós pensamos como que ia ser adequado essa formação, porque eles iam ter um ambiente novo e nós teríamos que ensiná-los a usar esse ambiente novo. Então, antes o pessoal costumava dar banho num box de banheiro com chuveiro pra adulto, hoje é feito no local onde tem as cubas e é dado com chuveirinho e o local para deitar e trocar a criança também. Essas mudanças tiveram que se pensar junto, a formação teve que pensar junto com a infraestrutura, porque é um trabalho interligado, não tem como separar. Era um ambiente em que os profissionais iam atuar, então, precisaria todo mundo estar conversando sobre isso.    

 

P/1 — E qual a importância do estabelecimento de parcerias para execução desses projetos? 

 

R — Nossa, excelente! Porque quando tu monta essas parcerias, tu tem, digamos assim, a garantia que todos estão pensando sobre aquilo ali e que todos estão contribuindo conforme a sua condição. Então, quando eu penso assim, “poxa, vou fazer uma parceria com a saúde”, a saúde tem a estrutura dela, mas quando eu pensei em formação, eu pensei, “poxa, eu tenho que trazer a enfermeira do PSF pra dentro da creche e levar os problemas da creche pra dentro do PSF daquela unidade. Então, eu preciso dessa parceira pro meu trabalho. Quando tu estabelece essa parceria, tu está atendendo a mesma criança, e a criança que vai pra creche é a criança que vai pro postinho de saúde. Então, quando tu faz essa ligação, o trabalho é muito mais efetivo, dá muito mais resultado e a curto prazo. Quando tu estabelece essas relações, essas parcerias, tu dá oportunidades da pessoa com o conhecimento que ela tem trazer também para uma realidade que a gente está necessitando. E também, parceria financeira, que ajuda muito, os parceiros da própria comunidade. Quando teve um outro projeto de gestantes, em que eu peço, por exemplo, para o Clube da Vovó fazer os sapatinhos para gestantes, elas estão entendendo o que é o projeto, entendeu? Elas estão percebendo, “poxa, então se eu tiver alguma gestante na minha casa, eu também posso mandar pra esse projeto que ele é muito bom!”. E os parceiros também são pessoas que ajudam a falar para os outros o que está acontecendo, porque, só a gente enquanto CDC, somos um grupo pequeno, então, a gente não atinge a população inteira, mas quando eu chamo um aqui, outro ali e outro lá, eu estou fazendo com que essas pessoas divulguem o que está sendo feito. Então, parceria em todos os sentidos!    

 

P/1 — Você falou da comunidade. Qual o papel da comunidade nesse processo? 

 

R — Num primeiro momento, da Infância Ideal, como nós éramos responsáveis por pensar o projeto, nós acabamos pensando enquanto profissionais, então, nós não consultamos a comunidade para saber o que a comunidade queria, até porque, quando tu consulta à comunidade, tu precisa fazer um trabalho mais longo e nós tínhamos pouco tempo pra esse trabalho. Nós tínhamos que pensar e fazer acontecer. Então, nesse primeiro momento a comunidade não foi envolvida, mas ela foi envolvida quando nós trouxemos o resultado, que foi a formação, a infraestrutura, e, aí, a comunidade percebeu, “poxa, agora sim, esse espaço eu quero pro meu filho!”. E, aí, tu começa a trazer a comunidade pra perceber que o espaço da creche é importante e o quanto é importante pro filho. Nós não tínhamos essa noção, mas tinha muitas pessoas que não colocavam os filhos na creche, porque não viam a creche como uma coisa muito bacana, como um espaço educacional. E quando tu transforma e tu dá uma estrutura muito boa, a comunidade quer que o filho participe daquele lugar ali que é legal, daquele lugar ali que estão ensinando, daquele lugar que vai trazer mais oportunidades pra ele. Aí, a comunidade começa a chegar ao sentido de “eu quero matricular o meu filho. Eu não trabalho, mas eu quero colocar o meu filho aqui. Eu não tenho necessidade que ele fique aqui, mas eu quero, pelo espaço e pelo que está sendo feito”.  E tem a participação da comunidade também no sentido dela ajudar nessa parceria também. Então, num primeiro momento não consultamos a comunidade porque precisávamos agilizar e no segundo momento, agora esse espaço, é um espaço de discussão da comunidade. Com os outros programas que estão vindo de escola, de futuro, a creche vai ser um espaço de discussão para a comunidade, porque ela pode abrir pra comunidade vir discutir quais as outras coisas que eles necessitam, tanto que agora, pro Futuro Ideal, o CDC tem um sonho de consultar a comunidade, porque é uma questão de profissionalização. O que eles querem de profissão, o que eles querem de trabalho? Então, nós vamos consultar a comunidade! A creche já é um espaço que pode ser usado pra isso. 

 

P/1 — Quais são suas expectativas em relação ao futuro, ao desenvolvimento desse projeto?

 

R — Ai, elas são grandes! São muito grandes! O grande objetivo é nós formarmos esse pessoal, pra que essas crianças se desenvolvam adequadamente, que antes, não era, era só um cuidar, e o nosso grupo está fazendo a formação, mas a gente está pensando, “e depois?” Então, a expectativa é assim, não no que está acontecendo agora porque a gente começou uma formação agora, mas eu quero saber lá na frente, “o que mais dá pra fazer? O que mais a gente pode proporcionar, o que mais vamos pensar, quem mais nós vamos envolver?” Então, a expectativa é no sentido de envolver mais pessoas e de continuar esse trabalho. Com novos parceiros, com a comunidade, com os próprios profissionais que a gente está formando. A gente quer trazer eles também pra pensar e nos ajudar. A gente deu o primeiro empurrão e a gente quer que as coisas continuem!  Que as coisas andem e que a gente esteja sempre nesse processo, “agora nós vamos fazer isso, agora nós vamos fazer aquilo”, porque nunca vai ter fim. O programa Infância Ideal pode acabar... o programa, mas as coisas que nós estamos fazendo, não vão ter mais fim, não vai ter mais como dizer “agora parou”. Ela vai continuando, continuando... quem sabe, não eu, mas outras pessoas, quem sabe a comunidade tome conta e comece a pensar outras coisas. Essa é a expectativa, que não fique só no nosso grupo, que outras pessoas também pensem.     

 

P/1 — Alessandra, agora voltando um pouquinho pra sua vida pessoal, você falou do seu trabalho, do seu desenvolvimento, mas o que é uma coisa que você gosta de fazer nos seus momentos de lazer?  

 

R — Passear, gosto de cuidar dos meus cachorros, porque eu amo cachorro, herança do meu pai, da minha família, né? Eu gosto muito de fazer essas coisas, de mexer com terra, de plantar, de cuidar de flores, de ficar brincando com os cachorros e de conversar bastante, né? Eu gosto também de conversar com vizinho, com família.

 

P/1 — Você é casada? 

 

R — Sou casada. 

 

P/1 — Como que você conheceu o seu esposo, como é o nome dele? 

 

R — Eu sou casada com o Edson. É um namorido, na verdade, né? [Risos]. Então, foi assim: eu vim pra Apiaí, eu namorei uma pessoa primeiro, mas aí não deu certo o relacionamento, aí, namorei outro e não deu certo e tal, e a minha cunhada trabalha comigo no CEMAE [ Associação de Pais Banespianos de Excepcionais]. E tem um grupinho dentro do CEMAE que a gente sempre se encontra no final de semana, “ah, vamos fazer um churrasquinho na casa de um, ah, vamos ao pesque e pague não sei aonde”, a gente sempre procura se reunir e, aí, teve um feriado e, essa que é a nossa diretora agora, a Rosaninha, ela falou assim, “ah, vamos fazer um churrasquinho lá na sua casa!”, “ah, por mim, tudo bem!”, na época, eu morava sozinha, não estava dividindo a casa com ninguém, eu digo, “ah, tudo bem, vamos organizar lá em casa então!”. Aí, a Patrícia, que é a minha cunhada, estava junto, “ah, vamos! O que precisa levar?”, aí, a Rosaninha virou pra ela e falou assim, “leva o Edson junto!”, e eu digo, “ué, como levar o Edson? Vai levar o Edson e a esposa dele?”, aí, a Patrícia falou, “não, ele já está separado há muito tempo!”, eu digo, “ah, eu não sabia! Uma boa oportunidade então!”. Brinquei com ela, né?  Aí, ela levou ele, né, e ele é um pouco tímido assim, e essa que é a diretora, a Rosaninha, é muito expansiva, ela brinca, ela tira sarro. Aí, eu lembro que a gente estava fazendo o churrasquinho lá, aí, ela chegou perto dele e falou assim, “hum... tá cheiroso hoje hein! Acho que quer beijar na boca, né? ”, e ele ficou vermelho, né, [risos], e aí, nós começamos a conversar, começamos a se encontrar e tudo e rolou o namoro. Passaram dois anos de namoro e nós resolvemos morar juntos e estamos até agora, só que nós não temos filhos. Estamos tentando agora! Até as meninas até brincam, “e aí, está grávida?”, e eu digo, “gente, a gente não fica fértil 30 dias. Parem com isso, né? ”, [Risos], “o jogo oficial a gente já está jogando, agora, vamos ver se a gente faz gol, né? ” [Risos] brinquei com elas! Nós já estamos juntos há seis anos, vai fazer agora. E é assim, um relacionamento super bom, tranquilo, é muito parceiro, muito companheiro, sai junto, faz as coisas junto. A gente tem muitas afinidades, né, então, como eu falei, eu gosto muito de cachorro, e aqui no município tem muito cachorro, e, às vezes, passa ali na frente de casa alguém que está com um bicho, com a pata machucada, aí, eu coloco pra dentro de casa pra curar e ele me ajuda nisso, né? Aí, ele brinca comigo, “tu tem que parar com isso!”, eu digo, “se tu parar, eu paro, né?” [Risos] Só que nós dois fazemos isso, né? Então, é muito gostoso! A família dele é daqui e a minha família do Rio Grande do Sul, então, juntou paulista com gaúcho, né? [Risos] mas é gostoso!   

 

P/1 — E qual o seu maior sonho, atualmente?

 

R — É engravidar! Ter um bebezinho! Acho que grandes, grandes sonhos eu não tenho. Eu tenho sonhos pequenos que eu quero realizar, né? Um deles é engravidar, acho que é o primeiro que a gente está tendo junto. E eu quero também, continuar estudando. Meu sonho é assim, o dia que eu me aposentar, eu continuar atendendo crianças, que é uma coisa que eu gosto. Agora, eu estou fazendo Psicopedagogia. Eu gosto de estudar, eu gosto de ensinar, eu gosto de trocar com os outros. É uma coisa que eu gosto muito. E aqueles sonhos que nunca vão se realizar, que as pessoas fiquem mais tranquilas, que tenham mais paz, que não tenha tanta guerra... são sonhos que todo mundo tem, mas que a gente sabe que isso nunca vai ter um fim. Então, são pequenos sonhos que eu tenho pra realizar. Eu quero também voltar pro Sul um dia. Não pra minha cidade, mas voltar pro Rio Grande do Sul que é um dos melhores estados do Brasil, né? (risos). Bem, _______, mas é um estado que eu gosto muito. É uma região que eu acho que é muito boa e a minha intenção não é continuar a vida inteira aqui. A minha intenção é voltar pro pra uma cidadezinha do Rio Grande do Sul, é isso que eu quero também. 

 

P/1 — E o que você achou de sentar aí e contar um pouco pra gente da sua história de vida, de dar essa entrevista? 

 

R — Ah, é legal, porque quando tu começa a contar tua história, tu relembra muita coisa, que, às vezes, no dia a dia, ele passa batido, ele não te vem à mente. E quando tu precisa contar pra alguém, muitas vezes a gente não consegue falar com detalhes, mas os detalhes vêm na mente. Então, quando tu me perguntou assim, da minha infância, são sentimentos gostosos que a gente tem, sentimento de, “nossa, eu já vivi aquilo ali, como era bom brincar!”. Eu lembro que quando a gente brincava, os adultos não tinham problemas, na época que a gente era criança. Eles não se separavam, não brigavam, não tinham problema financeiro, a gente naquela inocência, não sabia disso, né? Então, são lembranças gostosas que quando tu puxa pela memória, ele te dá uma sensação muito boa, muito gostosa de tu contar, tu lembrar dos detalhes. É muito gostoso tu fazer essa retrospectiva. E coisas importantes, que tiveram significado que a gente quer sempre passar, contar pra alguém. Isso faz parte, essa coisa de história, é pra vida inteira! 

 

P/1 — Está certo, Alessandra. Muito obrigada!

 

R — Está joia!

 

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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