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História

Amor pela cidade grande

História de: Vicente Sacchi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Em sua entrevista, Vicente declara seu amor pela vida e por São Paulo, conta histórias de sua mãe, de como seus pais se conheceram, sobre as dificuldades de sua infância, pois sua família era simples, mas segundo ele, não viveram na miséria. Diz também que o é um “péssimo marido, mas um excelente filho”, porque gosta de fazer as coisas do seu jeito e é muito intenso. Sabe lavar, passar, costurar, limpar, sabe fazer tudo dentro de casa, é independente. Também conta histórias do Clube de Regatas Tietê, do qual era sócio, além de falar sobre a sua paixão pelo time Corinthians.

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História completa

P/1 — Bom senhor Vicente, para começar eu queria pedir para o senhor falar o seu nome, a data e o local do seu nascimento.

R — Meu nome é Vicente Sacchi, eu nasci no dia 07 de julho de 1935, num domingo, na Vila Maria Zélia.

P/1 — E o senhor nasceu aqui em São Paulo?

R — Em São Paulo. Vila Maria Zélia é o caminho da Vila Maria, no tempo ainda que não existia ponte.

P/1 — E o senhor vivia com os seus pais, com os seus avós?

R — Sempre com os meus pais. Eles eram da zona leste, Belenzinho, fomos nascidos e criados no Belenzinho.

P/1 — E os seus avós, o senhor chegou a conhecer?

R — Os meus avós por parte de mãe eram de Údine. Fui visitar a terra dos meus avós por parte da minha mãe, que é a família (Tarquiani?) e, por parte de pai, eles eram (Vérnitos?), de São Benedito Pó, que parece um bairrozinho perto do rio Pó, e eu sou descendente de italianos, né, por parte dos pais.

P/1 — E os seus avós que migraram para cá? Os seus pais já nasceram aqui no Brasil?

R — Os meus quatro avós vieram, na época de 1894, se não me falha a memória. Eu tenho o passaporte original em casa. Vieram no navio Maranhão. Tenho o número da passagem deles, tenho tudo registrado. E vieram os velhos, já com alguns tios vivos, mas o meu pai nasceu aqui e a minha mãe também. Minha mãe na região de Sorocaba, em Votorantim e o meu pai em Campinas, na região, no caminho de Mogi Mirim, onde tem aquele hotel famoso, das andorinhas, Solar das Andorinhas. Meu pai nasceu naquele conjunto.

P/1 — Depois seus pais passaram a morar na zona leste? Eles vieram para São Paulo?

R — Eles foram para Vila Maria Zélia que era um casario, um agrupamento de casas estilo inglês, e eles se encontraram na Vila Maria Zélia. Minha mãe porque era tecelã e o meu pai, porque as irmãs eram tecelãs e ele foi fazer o curso de marcenaria no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, então o ambiente, parecia hoje, o que é um condomínio de casas boas, porque era difícil na zona leste ter conforto, e eles tinham. Banheiro interno, tinham chuveiro… Ficou uma filosofia de pobre, mas não de miséria e nem de pobreza. Eles cresciam e cresceram com astral de trabalhador, que é o caso da Europa. O trabalhador na Europa tem orgulho do que faz, como eu tive sempre, né?

P/1 — Eles eram tecelões então, ambos?

R — Minha mãe. Meu pai era marceneiro.

P/1 — E a sua mãe trabalhava em fábrica?

R — Fábrica. Ela puxava tear, minha mãe tinha 1,60m e ela ia tocar tear. A história que ela conta de como ela conseguiu trabalhar, você não acredita. É emocionante.

P/1 — Conta pra gente.

R — Ela era muito pequenininha, miudinha e ela andou com sete anos, ela tinha problema nos joelhos, não era aleijada, mas eram atrofiados, os joelhos eram enormes. Ela chegou para o diretor da tecelagem e disse: “olha, eu gostaria que o senhor me desse dois teares”. “Mas você é tão pequenininha, você é tão fraca...” “Não, pode deixar, eu toco. Se eu não fizer bem, o senhor não me paga.” “Ah, tá bom, então trabalha”. Depois... “Eu vim aqui, eu queria tocar quatro teares.” “Mas dona Amélia”, “Quatro é tão fácil”. Ela era muito habilidosa, tinha muita facilidade de manusear as coisas. Depois, “eu quero tocar seis teares”, “mas dona Amélia, daqui a pouco a senhora quer tocar todos os teares”. “Eu preciso ganhar...”. É uma história linda de trabalho. A minha mãe ia trabalhar de tamanquinho, subia a rua Catumbi. Uma história linda, muito orgulho (choro).

P/1 — E o seu pai acabou a conhecendo...

R — O meu pai já era um safado de marca (risos). Era o único filho de oito irmãs, era mimado e já tinha perdido o pai quando nasceu, meu avô. Então o meu pai era outro espírito, porque os opostos é que se atraem, sempre. Ele já era menino de turminha, de jogar futebolzinho, de aprontar e se conheceram, ficaram juntos desde cedo, casaram, tiveram quatro filhos e morreram casados, juntos, brigando dia e noite, mas juntos, sempre juntos. Mas foi linda, a história da minha mãe é muito bonita.

P/1 — Conta um pouco pra gente dessa casa na qual o senhor viveu. Como era essa casa?

R — Bem, a casa da Vila Maria Zélia... Fiquei dois anos só e com dois anos nós fomos para o Belenzinho que era um bairro operário, mas também com recursos, um bom cinema, uma praça razoável, ótima escola, o grupo escolar Amadeu Amaral. A nossa casa da rua (Froes Jardim?) tinha menos conforto. As casas da Vila Maria Zélia, hoje estão todas deterioradas, mas, na época, eram dignas de condomínio de luxo, as telhas eram inglesas, as peças de banheiro eram todas importadas. O George Street construiu essa vila pra atender os operários, porque a mão de obra era um pouco difícil, até hoje é; a gente está sempre atrasado no tempo, é difícil. Os bons profissionais eram muito requisitados, ao invés deles darem condução, davam moradia e essa moradia foi dando uma cultura um pouquinho melhor. As pessoas subiam o nível cultural, porque sabiam o que era uma peça de teatro, sabiam o que era o canto, conheciam aqueles hábitos italianos de cantar e a história da própria vida. O nível subiu, agora a pobreza imperava, né? A gente não tinha um “tostão furado”, tênis eu nunca vi na minha vida, um casaco você ganhava dos mais velhos, dos primos. Eu era o mais velho da minha casa, então o casaco já andava sozinho, já tinha postura... (risos) mas, longe de miséria, nós não conhecemos miséria.

P/1 — E no Belenzinho, você era o mais velho e depois vieram os seus irmãos?

R — Eu era o mais velho e depois vieram mais três irmãos. Eu fui um excelente filho, desculpe a falta de modéstia, sou um péssimo marido, mas um excelente filho. No dia a dia com a minha mãe, tinham aquelas reclamações que as donas de casa comumente fazem, né? “Ah, não tenho dinheiro pra fazer isso, não posso fazer aquilo”. O meu salário nunca foi pro meu bolso, sempre foi pra mão da minha mãe, que era uma excelente administradora. Nesse ínterim, com oito anos fui engraxar sapato no Largo do São José do Belém e meu pai ficou “p da vida”, não aceitava. “Não, porque não, porque não te falta nada”. Loirinho, cheinho, bonitinho, engraxando sapato no Largo do São José, perto daquele pessoal da pesada, meu pai não queria. “Não quero. Está te faltando alguma coisa?” “Não pai, eu não preciso de nada, mas a mãe precisa”. “Do que a sua mãe precisa?”, “Ah, pai, precisa de dinheiro pra fazer as coisas, eu não sei do que ela precisa”. Bom, a minha mãe falou: “Vicente, não vai dar certo. Seu pai não admite”. Aí fui enrolar palhinha de aço lá na rua Siqueira Bueno com dez anos. Eu tenho a tez um pouco delicada, sangrava porque a palha de aço desgasta a pele, né? Tinha que fugir quando tinha batida do pessoal do trabalho (risos), tocava uma sirene e a gente pulava o muro por trás pra fugir da fiscalização. Os (gualazes?), eram os donos, me levaram para loja deles, na rua Silva Jardim, era duas casas acima da minha casa, aí me realizei porque eu nasci vendedor. Eu não sei se é a necessidade do dinheiro (risos), mas eu nasci vendedor. Fui ser alfaiate junto com o meu tio Antenor (Amadio?) e com 14 anos eu já entrei na Seal, mas já entrei com aquela mentalidade de economia. Você ganha dez filho, você gasta oito. Você ganha 100, gasta 80. Nunca pedi um “tostão” emprestado na minha vida, nunca coloquei o pé no banco pra dizer “me empresta um real”. Nunca. Não tem crise pra quem é econômico. Tem dificuldades, mas não crise.

P/1 — Deixa eu voltar um pouquinho, pra entender o cotidiano da sua casa. Como era? Porque todo mundo trabalhava, seu pai e a sua mãe...

R — Todo mundo. O meu pai, vou contar já com uns 14 anos vai, porque até então era essa loucura de correr atrás. Com 12 anos eu já comecei a criar a minha irmã. Ela nasceu eu já trocava fraldinha, era fralda de saco e tinha uma bandagem, porque as crianças não ficavam soltas, elas tinham uma faixa, enfaixavam as crianças. Pegava a minha irmã, saía, levava pra mamar ou comer um caldinho de feijão e ficava com ela, criei a minha irmã. E nesse meio tempo já tinha um irmão, nasceu minha irmã e depois veio o caçula. Com 14 anos a nossa vida era assim: lembrando, eu até me acovardo, porque era uma vida de levantar sete horas da manhã, minha mãe já ia pro café, fogão de carvão, já tinha que acender o fogão que demorava, o cafezinho feito, o pão a gente buscava na padaria - depois eu te conto a história do pão (risos), que essa é boa pra você ficar sabendo - saía, e foi mais ou menos nessa época. Você sabe como é que se conseguia pão? Eu ia com a minha mãe, eu e ela, às duas e meia da manhã na fila, porque tinha guerra, e não tinha farinha, então não tinha pão pra vender. Tinha uma fila, que tinha gente que chegava meia noite. Às duas horas da manhã nós íamos com um cobertor, sentávamos, até hoje eu conheço a calçadinha que eu ficava sentado com ela dormindo, seis horas da manhã abria a padaria e quando a gente chegava, às vezes, não tinha o bendito do pão, tinha acabado. A gente levava pra casa, para os meus irmãos, pro meu pai. A fábrica que o meu pai trabalhava ficava na rua Siqueira Bueno, atrás, ele ia à pé, o meu irmão já trabalhou comigo, a minha irmã trabalhou na Fame, que também fica ali no Belenzinho e o caçula já um pouco diferente, a casa já estava um pouquinho mais estruturada.

No meu caso, era levantar pra buscar o pão, voltava e dormia outra vez, ia para a fábrica de tintas Seal que foi onde eu fiquei 40 anos, lá dentro trabalhava e almoçava em casa, jantava, ajudava na hora do almoço a lavar a louça pra minha mãe, porque pra ela para pagar os estudos dava pensão para oito ou dez pessoas e, naquela época, não tinha restaurante, eram bares e, mesmo assim, mal supridos. A minha mãe dava pensão, me pagou curso na Álvares Penteado. Imagine você, chegava em casa à noite, mal jantava, ia para Álvares Penteado, voltava meia-noite, meia noite e meia e recomeçava a vida, quer dizer, era uma sucessão, e ainda arranjei a minha mulher pra namorar (risos). Comecei a namorar com 15 anos com ela. Não dá tempo de você ver a vida passar, não tinha tempo de cinema, viagens, diversão, a gente não conhecia. Eu fui conhecer bar depois de casado, porque de solteiro, não dava tempo. Era só trabalho, trabalho, trabalho, e até hoje que sou aposentado, eu não sei fazer outra coisa, se você me pegar em casa, sou o dono da casa, o rei da casa. Lavo, passo, costuro, cozinho, eu sei fazer tudo, porque só aprendi a fazer isso. Dotes artísticos na minha família, mas nem “bumbo”, porque quem que ia ter tempo de ficar tocando violão? Cantando música? Eu não tinha tempo para ouvir rádio, saía da rua Silva Jardim, ia à pé até a Vila Maria Zélia pra ouvir rádio. Não tinha rádio... Ferro elétrico não tinha, era ferro à carvão. Quer dizer, é o que eu disse desde o início, era uma vida de muita pobreza, mas sem miséria, nunca conheci miséria na minha vida. Na minha casa nunca teve miséria. A gente dividia, até hoje, se tiver um bife e tiver nós dois na mesa, não como, “não como, não quero”, sabe esse espírito? Você administra isso. Isso não é... A pessoa nasce egoísta, boa, ruim, você nasce e vai adquirindo os seus hábitos pelas necessidades. Se você for um avarento, por exemplo, um miserável, pode ter todo o dinheiro do mundo, você vai ser sempre pobre, que não era o nosso caso.

P/1 — Deixa eu perguntar para o senhor: desde os oito anos o senhor começou como engraxate e tudo, mas até os oito anos o senhor teve uma infância, uma frequência na escola...

R — Nada, nada... Pra jogar bolinha de gude, que era a única coisa que eu fazia, eu ia com minha irmã enfaixadinha, colocava ela numa caixa de cebola, tinha uma vendinha perto de casa, pegava uma caixa de cebola, de batata, que eles tinham muitas, colocava ela ali deitadinha e ficava jogando bolinha de gude, de “antena” nela. Jogava futebol de meia, nunca vi uma bola na minha vida, a bola era de meia. Pegava uma meia velha, que antigamente, os velhos, coitados, eram descriminadíssimos. Eu tenho vergonha da minha idade por causa daquela época (risos), os velhos, eram discriminados. São até hoje, mas naquela época era mais ainda. A gente saía jogando bola por ali, ia no grupo escolar Amadeu Amaral... Tudo na minha vida começou cedo. Com cinco anos eu entrei numa escola particular, escola Silva Jardim. Com facilidade pra aprender, mas totalmente sem objetividade, não tinha objetivo de absolutamente nada, aprendia. Passei com cinco, com seis, aí, com sete anos eu já estava no terceiro ano, cabulei aula e minha mãe ficou sabendo. A gente tinha medo do grupo escolar, era muito grande, as professoras eram rígidas e diziam que tinha quarto escuro. Naquela época, as professoras batiam nos alunos, batiam, quer dizer, no sentido de castigar, não é bater na cara, pegavam uma régua e batia e, ela falou: “você vai voltar para o 1º ano que é pra você aprender a nunca mais na tua vida fazer o que você está fazendo”. Minha mãe era muito disciplinadora, nunca gritou, mas de uma disciplina que eu desconheço, eu não conheço ninguém com essa disciplina. Bom, “tá bom mãe”. Fui ficando, no 1º ano já sabia ler e escrever, a professora o que falava eu já me antecipava, eu sabia tudo e eu comecei a regredir e me desinteressar, “eu só faço o que me interessa. Se não me interessar, não adianta, você pode falar o que quiser, que não adianta, eu não vou fazer”. E, depois de velho, aprendi uma coisa que também não é bom, só faço o que eu quero e não faço o que eu não quero, e é difícil, porque tudo o que você faz, o que quer e o que não quer... Eu costumo brincar com a minha mulher, ou é caro, ou é contra a lei, ou é pecado, ou machuca alguém, porque incomoda as pessoas, quem me vê fazendo coisa de criança não admite. Tem umas senhoras que quando me vêem fazendo coisa de criança, “esse velho sem vergonha, devasso...”, não sei o quê. Onde que está a maldade? Elas enxergam maldade onde tem... O que estou fazendo agora velho? O que eu não fiz quando era criança, porque você sempre procura a sua infância. Não tem... Só tem trabalho, então agora eu faço.

Vou para Porto Seguro agora em abril... É todo dia bêbado, sete dias sem problema nenhum. Eu vou pro navio, se afundar, meu amigo, eu sei nadar, o navio não é meu, não é problema meu (risos). A vida fica leve, leve... Passa o dia, eu não percebo que passou o dia, sabe, não tem aquele peso, doença, problema, administração, política, riqueza, ah... Nada me importa, porque eu não preciso de nada. Eu te falei agora, eu sei lavar, passar, cozinhar, limpar então rapaz... Eu já vi que quem limpou aqui, limpou muito bem, porque eu vejo tudo e sei fazer tudo. Costurar, se eu pregar um botão, acaba a roupa e o botão fica lá. A gente usava cera, linha de quatro encerada. Agora, qual é o lado negativo? Você fica muito crítico, entende? Você vê as coisas erradas, começa a te incomodar. Se eu vejo alguém fazer alguma coisa, eu já começo “vai dar besteira”. E a vida não é assim, você precisa perdoar as deficiências das pessoas, ou porque não tiveram estudo, ou porque não sabem. Tem muita gente boa que não sabe fazer e eu sei… E incomoda, se eu for fazer. Entrar no terreno dos outros incomoda, não é bom. Esse lado, paguei caro. O saber me custou caro.

P/1 — Eu vou voltar um pouco para as suas profissões então. Acho que sapateiro, você ficou pouco tempo, engraxate...

R — É, engraxate o meu pai não deixava, ele não tolerava. Eu não fiquei seis meses, ele não deixava. Ele não admitia, não entrava na cabeça dele. Ele não fazia isso por mal não. É filosofia.

P/1 — Depois você ficou enrolando palhinha de aço...

R — Enrolando palhinha de aço, fiquei mais tempo, fiquei dois anos com eles, irmãos Gualaze, rua Siqueira Bueno, 410. Ah, fantástico. Depois de lá eles me levaram para a lojinha. Eu fui vítima do aspecto, lorinho, olhos claros, rechonchudinho, bem feitinho, quer dizer, era um inferno, porque não condizia com o ambiente, entendeu? Elas mesmas, que eram as moças donas da loja, falavam: “vamos levar o Vicente lá pra loja, lá ele vai ficar bem”. Rapaz, eu tinha pena das pessoas que paravam na porta da loja pra olhar. Não podia para na porta da loja, porque eu não admitia que não comprasse alguma coisa, viu? (risos), “Às suas ordens”, “Pois não?”, engraçadinho, sem maldade, “O que a senhora deseja? Olha chegou uma coisa aqui tão linda A senhora quer ver? Vem ver”. Rapaz, a mulher passava acabava levando um bule (risos), coisas esmaltadas, xícaras, porque eu vendia mesmo. E umas das senhoras que passava diariamente na porta, e que cumprimentava a minha mãe, de bom dia, boa tarde, dizia: “olha, quando o seu filho tiver 14 anos, vou levá-lo pra trabalhar comigo”. Ela era secretária da diretoria das tintas Seal, que ficava na rua Cajurú. A minha mãe: “ah, vou procurá-la”, e quando eu fiz 14 anos, lá fui eu, direto. Me deram emprego na hora, uma família de portugueses, também excelentes. Sabe, ajuda muito quando você não é vítima de preconceito e miséria. Eu já te falei, miséria é uma coisa, pobreza é outra, e aqui no Brasil, não existe preconceito de cor, nem de raça. Aqui, o preconceito é financeiro, é de dinheiro. Quem tem dinheiro é o topo da pirâmide, quem não tem dinheiro é a base da pirâmide, e ninguém te respeita, não adianta você ser inteligente. Se você está sendo classificado como pobre, meu amigo, se prepara, porque se entrar o Pelé aqui, é um Deus nos acuda, não tem negócio de cor. Cor não é importante no Brasil. É, o que ele tem? Se ganhar na loteria sozinho, você vira doutor na hora, começa a ir pra televisão lá no top, direto. E esse preconceito também machuca, porque a gente sente na pele. Eu sei o quanto me custou, superar não é o termo... Eu me fazia de morto, porque te atinge no fundo da alma. Quando tem um aniversário, não te convidam. Convidam todo mundo, uma turminha de 10, 20 e não te convidam. “Ah, vai convidar o Vicente? Ele vai falar que não E se ele for, já sabe, não tem um “tostão furado no bolso” Porque eu nunca vi um tostão no bolso. Dois conversam: “você vai na festa?”, “festa, que festa?”, “ah, você não vai na festa?” “eu não estou nem sabendo disso”. Agora, sempre superei com esforço e com trabalho, nunca me humilhei, nunca me deixei levar por rancor, e inveja é uma palavra que não tem no meu dicionário, não tem, eu não conheço. No fundo do coração, a única coisa que eu tenho inveja, é de vigarista, porque eu não sei como ele consegue viver. Eu tenho uma inveja, “mas como é que pode essa pessoa viver?” Porque eu não sei viver. Essa parte que você está tocando da infância, é traumatizante. Nós nunca tivemos, porque o espírito da minha mãe sempre foi um espírito elevado, nunca nos deixamos abater. Nunca... Por nada desse mundo. Também nunca levamos desaforo pra casa, de ninguém, mas de ninguém. Via a minha mãe puxar discussão, sem briga e sem alterar a voz. Eu não sei discutir como ela discutia. Minha mãe não se alterava, ela simplesmente falava: “Não é assim. Eu não aceito e o senhor não vai me fazer mudar de idéia”, porque ela era uma cozinheira espetacular, do trivial, mas espetacular e conhecia carne como ninguém e nós tínhamos um tio, (Tarquiam?), lá de Itú que era negociante de carne e tinha açougue e ela conhecia qualquer peça que você mostrasse, ela diria de que parte era do boi. Ela falava pra mim: “Vicente, vai comprar carne”. “Ah mãe, pelo amor de Deus, eu não vou. O homem vai dar outra carne e a senhora vai me fazer...”, “não, vai lá” (risos). Nós nunca compramos filet mignon na nossa casa. “Ah, vai lá e pede ou Ponta de Agulha...”, ela descrevia o que ela queria. Ah rapaz, chegava lá ela falava: “não, não foi isso que eu pedi” (risos), “Mãe, mas eu...”, “não, volta lá, você tem que aprender. Ele te deu errado. Você não pagou? Isso aqui está errado, essa carne é mais barata”. E eu morreria de vergonha, mas eu morria de vergonha. Até que eu voltava, o balcão era alto, o sujeito, “ah, moleque, não...” Lá ia ela, pequenininha, “vem junto comigo”, ela chegava lá: “o meu filho não voltou aqui pra dizer que eu mandei de volta pro senhor isso daqui. O senhor não entende ou o senhor quer dizer que essa carne é a que eu pedi?” Mas ela não tinha essa entonação que eu tenho, ela tinha um tom mais… De quem tem cultura, de quem tem segurança do que está fazendo, uma anãzinha “desse tamanho”, “Eu não pedi essa carne, não quero essa carne.”, “é, mas não tem outra”, “então o senhor devolve o meu dinheiro, não tem problema não. Me devolve o meu dinheiro que eu vou comprar o que eu quero”. Ela era assim em tudo na vida, em tudo. Inacreditável, como é que pode ter havido uma pessoa... Minha mãe teve o segundo ano de grupo, como é que ela conseguiu chegar no estágio que nunca ninguém diminuía. Minha mãe era inatingível, e isso passa para os filhos, mas não passa a característica de impor as coisas, não passa. Isso é uma coisa que você nasce ou não nasce.

P/1 — Então o senhor conviveu mais tempo com a sua mãe.

R — Ah, com a minha mãe... Fui um amigão dela a vida inteira (choro), desde que nasci. Ela teve uma morte linda, maravilhosa, abraçada comigo. Linda! Foi a primeira morte que eu assisti. “Ah, que horas são?” “Ah mãe, são 8 horas, 9 horas”, acho que era até um pouco menos, porque eu sou um pouco anjo da morte, rapaz, que é um azar. Eu sou um pouco anjo da morte, as pessoas que estão morrendo, me esperam. Aconteceu isso com a minha avó, com o meu pai, com a minha mãe, com um tio da minha mulher. Eu sou um pouquinho do anjo da morte. Minha sogra morreu com 98 anos agora, no fim do ano passado, falei pra minha mulher: “Marlei, não vou ver a sua mãe, porque se eu for ela vai morrer”. “É, mas sabe, ela está sentindo falta, ela gostaria que você fosse”. Ah, rapaz, eu fui, na madrugada, por telefone: “perdeu a sua sogra”. Me fugiu um pouquinho assunto que eu estava querendo te passar.

P/1 — O senhor falava da sua mãe.

R — Mas então, a minha mãe morreu tão lindo rapaz, tão lindo, tão suave. Ela fez um soprinho assim (“vvvuuuu”?) e acabou a vida. Eu abraçado com ela, mas lindo, lindo, lindo. Porque eu não choro a morte, choro as saudades, mas a morte... Ela nos criou, eu, por exemplo, você me vê extrovertido, não tenho medo de nada, subo em ultraleve, faço qualquer negócio, subo em balão se tiver, porque a primeira coisa que ela nos ensinou, “não tenha medo da morte”. Ela não tinha e nos ensinou a todos. “Não tenha medo, morte é uma passagem”. Ela não era espírita, “a morte é uma passagem, todos nós vamos passar, não tenha medo. Viva a tua vida”. Tanto é que eu não tenho medo, se o navio afundar, não é problema meu, não tenho medo de nada. Quando eu vou pro Nordeste é ultraleve... Eu vou todo ano para o nordeste, de navio, de avião, ou de excursão... Pro sul da Bahia então (risos), já conheço aquilo melhor do que a minha casa.

Essa escola de vida, na escola não ensina, você não vai aprender na escola isso. Você aprende com alguém, pode ser o pai, pode ser a mãe, o irmão, um tio, um avô, ou você não vai aprender e é o fundamental da vida. Não adianta, o que é riqueza, o que é pobreza? Você sabe porque aprendeu, ou então você não sabe. E é uma pena né, porque as pessoas morrem de medo da morte. “Ai, Deus me livre”, “Ai, que coisa perigosa”, não adianta, se tiver que morrer, vai morrer. A única certeza da vida é a morte, que é linda, né? Infelizmente perdi minha avó e o meu pai também, mas é normal. Enterrei os dois com sorriso, como te falei, um excelente filho. Como marido uma porcaria, como pai, também tenho a consciência tranqüila, meus filhos não bebem, não jogam, não fumam, também, influência da mãe, porque a mãe em casa é diferente da mãe que trabalha. Mãe que trabalha é um pouco mais difícil, né?

P/1 — Vamos falar um pouco da Sil, a gente falou pouco do trabalho, da fábrica.

R — Da fábrica? Ih rapaz, eu adorava aquela fábrica e adoro até hoje. A fábrica era de dois irmãos portugueses que enriqueceram aqui no Brasil, com muito mérito, gente que não tinha discriminação de raça, cor, de nada. Quem era trabalhador era respeitado, entendeu? Os filhos também... E eu na fábrica me sentia o dono da fábrica. No primeiro dia de fábrica eu meti a cabeça num vitrô, quebrei o vidro, porque eu era rápido, subia aquela escada de três em três, “bum”, no vidro (risos). Já fui lá falar com o Sr. Lino, “Sr. Lino eu quebrei o vidro. O senhor, por favor, manda trocar, e o que for o senhor abate do meu salário.” Mas normal, normal, e continuamos conversando, porque é o perfil da minha mãe, é o perfil dela. “Fez coisa errada, vai lá, vai corrigir”. E eles davam risada. Hoje eu entendo, porque eu parecia um capeta (risos). A minha responsabilidade era limitada ao assunto do momento. Eu nunca fui uma pessoa de fazer um ato irresponsável, mas aquilo que acredito que é verdade, é duro de tirar da minha cabeça. E o filho do dono da fábrica, que era o Zequinha Marques da Costa, de ótima lembrança, nós passamos juntos 33 anos diariamente, e ele não me deixava sair de office boy dele, porque onde ele ia achar um office boy... Ele ria o dia inteiro comigo. Ele falava “a” eu já sabia o que ele queria e fazia e ai se eu não fizesse. Vai chamar fulano, eu chegava no fulano, “o Zequinha quer falar com você”. “Eu vou daqui a pouco”. “Eu vou ficar aqui e você vem comigo, ele está te esperando, senão ele vai encher o meu saco”. E eram pessoas importantes da organização. “Oh, moleque atrevido”, “O senhor pode falar o que quiser, eu só vou voltar pro escritório quando o senhor for lá pra falar com ele”. É nato, ninguém me ensinou. E lá na fábrica foi difícil sair de office boy e eu sempre fui ambicioso, eu falava, naquela época eu chamava ele de “seu Zequinha”, “o seu Zequinha, desocupou um cargo lá na seção de vendas, eu faço aquilo com os pés nas costas”. “Não, não, não, fica aí. Quanto vai ganhar o cara que vai lá? Eu ganho um o outro vai ganhar um e cinquenta, eu pago um e cinquenta. Você fica aí. Desocupava outro... É o tipo da minha mãe, desocupava outro cargo, aquele de um e cinquenta passou pra dois, “mas aquele outro serviço, seu Zequinha, eu faço os dois se o senhor quiser”. “Você vai ganhar dois”. Nós ficamos juntos a vida inteira assim. Passei para a seção de vendas, depois de uns três, quatros anos de castigo como office boy. Da seção de vendas fui progredindo, com 22 anos passei a ser comissionista, ganhar comissão sobre as vendas.

P/1 — (Pausa) Sr. Vicente, o senhor falava da fase de comissionista.

R — Eu estava falando sobre a fábrica, que eu sai de office boy, passei pra vendas, depois passei para comissionista com 20 anos, com 23 anos eu casei e eu mordia feio, porque eu queria sair daquele... Porque é difícil sair do status quo e dar aquele passo, tem um pulo que chamam “o pulo do gato”, fui dar aos 40 e tantos anos. Não dei com 20, porque ou você leva uma vida como a minha de nunca pedir um tostão emprestado e pagar as contas em dia, não sobra um níquel e você não dá o pulo do gato num país de inflação. Foi muito difícil mas a coisa andou. Eu saí do Belenzinho e quando eu casei fui para o Brás, rua Hipódromo e… Na fábrica, infelizmente, eu acabei sendo individualista, nunca fiz greve, eu reclamo os meus direitos. Respeito os dos outros, mas reclamo os meus. Comissionista, é um tipo de funcionário que ganha o que produz e corre o risco de ganhar ou não e fica misturado com o mensalista, fica um pouco difícil. Enquanto a fábrica vinha crescendo, porque ela cresceu muito, foi bem, mas quando começou entrar em crise, fica aquela... “É, mas você está ganhando”, fica aquela, não é bem uma inveja...

P/1 — Um mal estar....

R — Fica aquele assunto desagradável que as pessoas falam, e você conhece as pessoas, nas dificuldades. Quando está ganhando, quando tem lucro, é tudo gente boa. Começou a degringolar, começou a cair um pouquinho o nível, aí, as pessoas mostram realmente o que são. Foi muito triste porque eu me apego as pessoas, por mais que eu não queira e isso não é bom, porque você só conhece a pessoa depois de comer um saco de feijão com ela. Quem trabalha junto, você ouve dizer mais ou menos, tem uma idéia, mas você não convive com a pessoa. Convive aqui, de tomar um lanche, almoçar, mas só. Você não sabe os hábitos da sua colega dentro da casa dela, o que ela sofre, porque todos nós temos uma pressão natural, normal, e eu não sei gostar. É outra característica também que me custa caro, porque quando você não sabe gostar, você estraga o relacionamento. Eu quando gosto, absorvo, sou um polvo, eu engalfinho a pessoa e não deixo ela respirar. A minha mulher, coitadinha, já sabe que quando abro a porta, “lá vem o leão”. Não é bom, porque nem ela quer isso. Ela só vai sentir falta quando eu morrer, que ela vai falar, “puxa, mas não é que o Vicente era um puta de um cara legal”, mas enquanto eu estiver absorvendo, ninguém gosta. Os meus filhos, os amigos que eu tive, porque todos os meus amigos morreram, nunca tive amigo mais moço que eu. Meus amigos eram todos senhores, primeiro por causa da minha postura, sou uma rocha, dificilmente você vai me tirar de dentro o que eu não quero. É outra característica negativa da pessoa, porque a gente precisa compreender mais o problema dos outros. Não pode exigir tudo o que quer, na hora que quer, como quer, e eu sou assim, o que eu vou fazer? Sofro e não sei gostar, porque se eu gosto é desse jeito e se eu não gosto eu não olho na cara do sujeito, mas nem morto, pode ser quem for, “desculpe, com você eu não quero nada”, pronto, acabou, morreu aí. Não é bom. Esses desvios de personalidade estou aprendendo agora. Tem um pouquinho mais de abertura, porque até então, ah rapaz, que loucura... Tu não faz idéia.

P/1 — Você falou um pouco de gostar agora e já falou do casamento. Eu queria tocar no assunto da sua mulher então.

R — Ih, coitadinha da minha mulher (risos). Ela apareceu na minha vida na rua Silva Jardim, porque o pai dela tinha uma loja de calçados na frente da casa onde nós morávamos, na parte dos fundos da casa. Tinha a lojinha, primeiro veio o tio dela, depois veio o pai, depois a mãe, porque o tio saiu, então veio a mãe dela. Eu tenho um espírito, que eu não posso ver uma pessoa com dificuldades, não adianta, porque eu vou lá e vou fazer, e vou fazer do meu jeito, porque eu vou fazer mesmo. Tudo bem, a mãe dela não tinha assim tanta prática, e sempre fui organizado, loja de calçado... A caixa se tivesse um milímetro fora, eu ia lá e “tict”, fim de tarde, “Oh dona Leonor, deixa que eu faço a caixa para a senhora”, e fazia a caixa. Minha mãe sempre foi uma pessoa de bons hábitos, servia um bolinho, um cafezinho, servia um crustule, acho que você não sabe o que é, é uma massinha italiana frita, é um espetáculo. Depois com o tempo, a dona Leonor já ia lá pra casa, “oh dona Leonor, faz isso aqui e tal...”, na boa. Até que um dia me aparece lá uma menina, nunca vou esquecer, porque quando ela sentou assim, eu falei, “uuuhhhh” (risos). Eu era crente, fui criado na Congregação Cristã do Brasil, de recitar a Bíblia no púlpito. Sentou uma menina, continuou sentadinha. Naquele tempo a mulher não cruzava a perna, era feio. Eu falei: “ah, estou roubado”. Era uma musa, cabelo negro, não me escapou mais da vida (risos). Fazia lição, encapava os cadernos, fazia os desenhos (risos), ela estudava piano, e estudava no colégio São José. Ah, não escapou mais, até hoje ela não respira coitada, porque eu sou um polvo, mas é característica. Vai perguntar pra ela como é a vida dela. O que ela quiser, ela escreve. Pronto. Desde o dia anterior já está lá. Eu tenho dispensa em casa… Macarrão, tem 20 tipos de macarrão na minha casa. Azeite, tem 30 litros de azeite.. Sufoca a pessoa. Ela não respira. E não sei amar sem ser assim. Minha irmã é a mesma coisa, ela mora em Itú, estou até em dívida com minha irmã, porque eu fujo dela para não sufocá-la. Eu vou na casa da minha irmã, uma casa ótima, com todos os recursos, duas empregadas, eu começo a lavar louça. “O que você está fazendo?” “Não, eu não estou fazendo nada mesmo” Porque na minha casa eu lavo, passo, cozinho, rego o jardim, faço tudo, tudo. Ninguém é feliz ao lado de quem faz tudo, você precisa ter o seu espaço. Costurar, a minha netinha já sabe, ela já vem correndo, “vô, me arruma isso aqui, vô como é que faz isso aqui?” Na rua, quando ela está com a minha mulher, fala: “vó, não fica nervosa, dá pro vô que o vô resolve” Já sabe. Vai fazer sete anos. Mas não é bom, não é bom não. Vocês que são moços, deixem a pessoa... Porque todas as frustrações caem em cima de mim, “ah, eu não fui fazer isso porque você não deixou”, “não fui fazer aquilo porque você não deixou”, “ah, eu não sou motorista porque você nunca deixou”, “ah, eu podia ter estudado, trabalhado, você nunca deixou”... São as frustrações que eu carrego. Só que o que eu faço, fica esquecido e eu não quero que me paguem, mas você se sente injustiçado, entendeu? Não é bom. Muda.

P/1 — Depois que o senhor conheceu a sua mulher, o senhor a conheceu na sapataria...

R — Ah, nunca mais larguei, nem ela nunca mais teve espaço pra nada... Nada, nada. Era na escola, piano, lição, nada, nada... Sábado e domingo eu ia pra lá, até então os 15 anos eu aprendi a nadar e esquiei no rio Tietê, lá no Corinthians, também tem uma passagem linda lá, rapaz (risos). Eu fui esquiar e convidei a namoradinha, a Marlei. O pai desconfiava, a mãe também, mas eu considerava namoradinha, né? “Ah, vem, eu vou esquiar”, então ela foi. Rapaz, eu saí do portão que ficava na direção do gol do fundo, saí do portão, o calção ficou e eu fui. Era aquele calção de malha, o calção ficou enroscado no maldito prego e eu fui (risos). Bom, ainda bem que o rio não era transparente, né? Se fosse o rio Grande eu estava perdido e peladão lá, até arrumar as coisas, mas eu absorvi. Passei a mão na minha mulher e, no Corinthians, existia uma brincadeira em casa que a minha mulher falava, “de quem você gosta mais, de mim ou do Corinthians?” É uma pergunta que eu nunca respondi. Assisto o Corinthians desde 1943. Imagine você, já assistia jogo de futebol do Corinthians. Quando o Corinthians foi campeão em 51 eu fui a pé do Pacaembu até o Parque São Jorge, atrás de um ônibus que estava a delegação e a gente foi a pé atrás. Mas não tinha bebida e também não tinha essas brigas de gente armada. Saía uns tapas, coisas de futebol, uma briga, um soco, mas só. Nós torcíamos diferente, misturava, não tinha separação de torcida. Você assistia o jogo ao lado do palmeirense. Você torcia pro Corinthians, ele torcia pro Palmeiras, saía uma briga, tudo bem, normal de jogo, mas não tinha nenhum pedaço de pau, nada, nada, faca. Ladrão? Ladrão no meu tempo tinha, mas eles tinham mais medo da população do que da polícia. Se o cara roubasse uma carteira que fosse localizado, mas linchavam ele na hora... E defendiam, não é que fugiam não. Hoje, se estiver roubando o carro do lado, vou me fazer de cego, porque como eu vou enfrentar um ladrãozinho sem arma, sem nada? Naquele tempo existia ladrão, roubavam, como no mundo inteiro sempre foi assim, mas diferente, outra concepção. Namorava, sufocava minha mulher. Estudo… Estudei na escola dos meus primos, lá na (Paes de Barros?), no Tatuapé, depois de lá fui para a Álvares Penteado, já era uma escola sofisticada. Nós não tínhamos dinheiro para pagar a Álvares Penteado, foi a ocasião que a minha mãe começou a dar pensão, “mas mãe...” “você vai estudar”. Pagava a Álvares Penteado, condução pra gente era caríssimo, tinha que tirar passe escolar porque era mais barato e também, quando você frequenta um nível de pessoas que não tem esse hábito de pobreza, aí que você sente mais na carne. Ninguém nunca me destratou, mas você percebe... Machuca, incomoda. Você tem que superar. Na Álvares Penteado me formei contador, logo em seguida, podia ter feito a faculdade de direito que era em frente, e era de graça. Eu tinha condições de fazer, mas nunca me interessei. Casei e depois de 15 anos, eu acho, de casado, eu fui fazer faculdade de direito em São João da Boa Vista, me formei, me inscrevi na Ordem, e também, pra agradar a minha mãe, porque como advogado, péssimo advogado. Não daria para a profissão. Mas fiz o curso direitinho, o básico aprendi com facilidade, mas nunca exerci. Essa é a parte, vamos dizer, de instrução. E o trabalho, sempre na mesma coisa, as viagens, fazia São Paulo – Volta Redonda, que eu vendia para a Siderúrgica Nacional, era uma pista única, de vai e vem. Não era uma pista dupla, era pista única, um caminhão vai e um caminhão vem. Eu ia pra Vitória, na Vale do Rio Doce, demorava 20 horas pra chegar lá, em 59. E vendia também nas estradas de ferro, viajava muito. Bauru, Araraquara, por isso, que eu conheço os clubes de futebol, porque, geralmente, eram clubes das ferrovias ou das cidades, conheci bem. Mas sem nunca usufruir um centavo disso aí, eu sempre vivi das tintas Seal, foi lá que realmente eu ganhei a minha vida.

P/1 — Você falou do Corinthians, queria explorar um pouco essa passagem então. O futebol na sua casa, vocês tinham essa cultura, como era isso?

R — O futebol é assim: o meu pai também era um apaixonado pelo Corinthians e eu me lembro que eu fui assistir um jogo do Corinthians e Palmeiras e o bonde passava no meio da rua, da avenida Água Branca, ali, num gramado. Não era asfaltado, era uma grama com terra, um bonde curto, não tinha um bonde grande pra Lapa, eram bondes curtos, muita curva, eu fui na capota do bonde. Meu pai me ajeitou ali, e ficou, a gente ia em pendurado, meu pai de chapeuzinho, de gravatinha e eu fui assistir o jogo do Palmeiras e essa paixão foi a vida inteira. Eu deixei de ver o Corinthians agora, questão de uns dez anos atrás, que virou um profissionalismo, acabou o amor e ficou só a bandeira e brigas que não tem nada a ver com amor. Não há necessidade, não vejo necessidade de briga. Acho que futebol assim, tirar sarro, brincar na boa, agora, você andar armado pra dar uma facada no outro, por causa de futebol? Pra mim, eu vou, mas já perdi aquela paixão, aquele povo envolvendo a bandeira, já acabou. Com o Corinthians, acabou.

P/1 — E o jogo que você mais lembra?

R — O jogo em si, eu assisti aqueles 23 anos que o Corinthians não foi campeão, eu assisti todos os jogos. Ia pro Pacaembu, ia no Parque São Jorge... Onde o Corinthians ia jogar, ia atrás. Apanhei também em campo de futebol em outras cidades, porque a gente ia lá, com aquele negócio de distintivo, é briga na certa, mas cada vez que perdia, aumentava a sensação de amor, “não, mas o ano que vem ele vai ganhar, o ano que vem ele vai ganhar...”, até o dia que ele foi campeão. Eu estava lá, o Basílio marcou o bendito do gol. É uma história. A gente já sabia, minha mulher principalmente, “ah, vai jogar o Corinthians, então deixa eu aprontar a janta mais cedo que o Vicente, lá vai ele”, ah, passava minha bandeirinha e campo de futebol. Também, era a única diversão. Fui conhecer bar bem adulto já, eu não tinha hábitos de bar. O único dinheiro que eu gastava era o ingresso e comer pizza quando acabava o jogo. Saía do Parque São Jorge, ia pra Ideal, da Ideal ia pra casa, meu filho, minha mulher não deixava, porque ela falava: “o Vicente vai brigar”, não vai brigar, vai se expor, então ele ia menos. Mas ele é corintiano, ele, minha filha... Minha netinha acho que não é, minha netinha acho que é palmeirense, mas eu respeito. Mas é um amor que fez parte da minha vida.

P/1 — E é um amor que você também tinha por São Paulo, né, porque você andou São Paulo inteiro...

R — São Paulo é assim: São Paulo é uma terra de ninguém. Na época que a gente considerava São Paulo como nossa, nossa que eu digo, do habitante... São Paulo não é de ninguém, São Paulo é tão grande que nem teria espaço pra ninguém ser o dono, mas houve uma época que a gente se sentia Paulista. Você era descriminado no Brasil inteiro, onde você ia, “paulista, iihh”, os “caras” já viravam o nariz, porque a gente tinha um orgulho de ter aquela ascensão, da enxada, porque todos os meus tios, tias, tudo da enxada, pra industrialização. O Brasil não tinha nada, tinha café, um pouco de leite que “male-male”, fazia um queijo em Minas, o que tinha o Brasil? Não tinha nada. E São Paulo começou com aquelas indústrias, porque, é lógico, nós fazemos parte do Brasil, não tem dúvida, mas desabrochou, aflorou. E você sabe como que coloca a tampa numa lata de caranguejo? Não precisa por tampa. O debaixo, não deixa o de cima sair, porque ele gruda e não deixa sair. Foi o que aconteceu, o paulista discriminado, entendeu? Sempre foi. E o amor na cidade, está dentro da gente. O amor está enraizado, às vezes, nem você sabe o quanto gosta de uma coisa. O tempo que vai dizer, ou a ausência, quando você perde. São casos famosíssimos, até a lei prevê que no caso de separação, tem que ficar dois anos pendentes, suspenso. Por que? Porque o cara vai rever aquele status quo antes que ele não deu valor. Na esposa ou no marido, porque é comum isso. Agora está acabando, hoje, quando vou a um casamento, eu falo, “escuta, será que vai durar esse casamento? Será que chega a três anos? Acho que não chega.” (risos). Mudou. O amor por São Paulo... Os paulistanos que viveram a minha época, era a época de bonde, época de crescimento, a gente tem dentro do coração. Ninguém nunca vai tirar isso, nunca. E nem a gente sabe como. O que eu admiro, por exemplo, um carioca, ele esbanja, loas pro Rio de Janeiro, porque é uma cidade maravilhosa mesmo, é linda, não tem beleza igual. Agora, é diferente daqui, o amor é diferente também. Aqui, você tem mais profundidade, não é tão superficial. O carioca vive bem em qualquer parte do mundo, primeiro porque ele não deixa de ser carioca, ele vai ser carioca até morrer e, segundo porque ele não construiu as pedras que nós fizemos aqui. São Paulo é uma bacia, por isso que enche. Cada prédio que você vê, cada calçamento, foi feito ali, na marra, diferente do Rio que, o Pão de Açúcar, ninguém fez, a praia de Copacabana, ninguém fez, tudo que tem no Rio de Janeiro foi feito pela União, porque eles são… Eles ganharam na loteria esportiva sozinhos. Primeiro, porque ela era capital da República, então tudo que fazia, o Brasil inteiro trabalhava e construía no Rio, porque é linda, né? Olha eu não conheço cidade tão linda quanto o Rio de Janeiro. Conheço metade do mundo, mas linda como o Rio, eu não conheço. Foram privilegiados porque... Bom, até hoje eles são a capital do Brasil, né? Vamos ficar quieto, vamos mudar de assunto, senão, eu vou ser preso aqui (risos).

P/1 — Agora vou um pouco para o seu deslocamento. O senhor casou, eu queria que o senhor falasse um pouco como foi esse casamento.

R — O casamento foi sempre assim: nós ficamos seis anos sem filhos, casados, nós éramos namorados, “namorado-casados”, e a vida sempre muito certinha, muito arrumada, muito protegida, a minha mulher filha única, e eu dei continuidade e ainda exagerei na proteção dela, que foi o que eu disse desde o início, quer dizer, eu sufoquei a minha mulher. Mas um casamento de hábitos, aquilo era um carimbo, de segunda a sexta trabalha, chega em casa, liga uma música, porque eu gosto muito de música, e a minha mulher de novela. Tudo limpinho, arrumadinho, tudo certinho. Sábado, ia ao cinema à noite, no São José ou no Itapura, que era aqui no Centro, às vezes, no Largo do Paissandu. Às vezes comia uma pizza e ia pra casa. Domingo, macarronada em casa e nós vivemos anos a fio, até nascer o menino que, também, pouco ou nada mudou. Pra minha mulher, ela ganhou uma boneca. Ela não sabia o que era a vida… Ganhou uma boneca. Ela se apegou totalmente no menino, empréstimos nós não conhecíamos. Que carro você imagina que eu tenho? Eu estou bem de vida, tenho um Del Rey 1984, branco, 4 portas, que nunca bateu (risos). Pra que eu quero outro carro? E é branco e preto ainda por cima. É uma vida um pouquinho... Pra muitos, monótona, mas pra nós é uma vida cheia. Cheia de boas lembranças, de respeito... Tudo na vida é respeito. Agora, para os níveis de hoje, pelo que eu vejo as pessoas, a minha mulher não ficaria casada comigo nem um ano, se fosse hoje viu (risos), nem um ano. Embora eu tenha feito tudo, mas tudo... Quando eu falo tudo, você pensa que é exagero, eu sei tudo que acontece da vida da minha mulher, porque me preocupo, cabeça quente... Que não faz bem.

P/1 — E ser pai, como foi?

R — Bom, ser pai foi um sufoco viu, porque eu fiquei enciumado quando a minha mulher falou: “estou grávida”, eu falei, “ih, acabou minha mordomia” Mas, não é um ciúme doentio, é um ciúme de chegar em casa, a mesinha estar arrumadinha, os detalhes… Aí quando eu chegava tinha que esperar o neném (risos), vai dormir, estava com dorzinha de barriga ou não está bom... ah, mudou muito, mas os meus filhos também sufoquei. Fiquei assim, naquela retaguarda, em cima, sabe? Não digo que fossem oito tentáculos, mas quatro estavam ali. A gente tem uma ótima amizade, um ótimo relacionamento, está tudo sob controle. Acho que eu nunca falei pra minha mulher “eu te amo”, eu nunca falei pra ela. Nunca tive um momento de “minha vida, meu beijo, te amo”, eu nem sei falar isso. Uma vez na vida o meu pai colocou a mão no meu rosto, uma vez na vida. Minha mãe também, não era de ficar... A gente não conhece, e eu não conheço até hoje esse lado de ficar passando a mão nas pessoas. Não tenho esse hábito, tenho o hábito de envolver, mas de declaração não sei falar. Eu vejo minha netinha falar pro pai dela, que é separado da minha filha, “papai, eu te amo”, eu penso, “que coisa esquisita”. Quem ama não precisa falar, falar o quê? Não tem o que falar. Você sente ou você não sente. Agora, o sujeito dá uns tapas na mulher, depois no dia seguinte, “ah, porque eu te amo, te adoro”, aí o cara é um vagabundo de marca, não dá nada, a coitadinha precisa se virar pra pagar as contas dele, e ainda vai falar que ama a moça e a boba ainda aceita. Ah, tem que ter o mínimo de respeito ou inteligência humana, né? Não dá. Não sei amar, já tinha dito pra você anteriormente, mas prefiro o meu modo do que esses existentes, entendeu, de falsidade. E uma mulher que está com o marido, durante o dia tem dois, três amantes, ou o próprio homem, também é difícil entrar na cabeça, porque hoje tem mais convivência das pessoas, ela mal saiu da cama do motel e está do lado do marido, está numa festa, num restaurante, num bar, ou em casa, estão sempre juntos. Eu não sei como dá tempo de um trair o outro. E eu não sou professor de moral não, hein, não vou dar lição de moral pra ninguém. Mas está difícil de entender esse modo moderno, né? Telefone... Telefone celular é uma vergonha, você não tem sossego pô. Você tem que pedir pra desligar, não tem cinema, não tem teatro, não tem motel, não tem futebol, não tem mais nada. Acabou. “Alô, onde você vai, onde você está?”, não é vida. Você acha que eu vou estar em Porto Seguro lá, dançando o dia inteiro e minha mulher no telefone, “você está bom de saúde Vicente?”, porque ela sabe que eu vou, não estou saindo escondido, não estou saindo pra fazer farra. Estou saindo pra me divertir, se eu gosto de dançar, eu danço. Se eu tivesse que ter uma amante, eu teria aqui em São Paulo, protegido, porque eu saberia quem é, os meus tentáculos (risos), eu saberia tudo. Eu não vou lá pra fazer coisa errada, vou lá pra me divertir.

P/1 — Vicente, o senhor teve uma mudança bastante drástica na sua vida, que você chamou do “pulo do gato”, e, em algum momento, você conseguiu passar a viajar, até a sua infância...

R — Eu não entendi qual foi o ângulo principal. Porque “o pulo do gato” que eu disse, é quando você transforma sua vida. A nossa vida, infelizmente, principalmente aqui em São Paulo, foi de uma transformação permanente. Não deu pra fixar cultura, quer dizer, cultura familiar, não deu pra fixar nada disso, porque as pessoas iam crescendo, mudando, você vê a cidade, não tem mais prédios históricos, não tem mais nada... Vai passando trator, vai construindo prédio, acaba com aquele pedaço de vida. Então, o que mudou na minha vida? Eu não tinha um tostão furado (risos), mas nada, de repente, me via abastado, com uma reserva grande, com perspectivas boas, sem adaptação, porque eu não gosto de ser medido pelo dinheiro, gosto de ser respeitado pelo que sei e pelo que sou. Se a pessoa acha que eu não presto, “tsi... Boa sorte, felicidades. É isso mesmo, fica longe que não presto mesmo” Sou respeitado, sou querido, “oh, vamos aqui, vamos no Brahma, vamos assistir isso aqui, vamos viajar”, isso é demonstrar, isso é viver. E essa transformação, o brasileiro de uma forma geral, por ser um país tão grande, tão lindo, tão maravilhoso, acabou não tendo reserva de cultura, tradição de cultura. Você pega um caboclo que nasceu lá no Mato Grosso, ele tem cultura, tem raízes, tem história, posicionamento, posição... Aqui, você não é nada. A única coisa que eu sou, corintiano e gosto de bar. Não tem outra coisa, eu não tenho outra tradição. Tradição de bairro, eu sou do Belenzinho, mas não dá nem pra morar mais no Belenzinho. Agora, está melhorando um pouco, mas não dava, porque você atinge um certo estágio, e a sociedade obriga você a mudar os hábitos. A sociedade exige que você se porte como novo rico… É a coisa mais horripilante, me irrita… O novo rico. É o sujeito que chega, ganhou o dinheiro e pensa que é o dono do mundo, pensa que é mais que você, mais do que ela, passa por cima de tudo e de todos, compra tudo, não tem parâmetro, anda com o carro a 200 quilômetros por hora, mata dois e acha que o cara não devia estar lá... Não foi ele que matou, o cara que estava no lugar errado. A vida não é isso, quer dizer... Como é que você pode formar um povo com essa mentalidade? Como é que você pode cobrar de um político um posicionamento, que a gente sabe... Se eu for falar de política, já saio preso daqui, porque você sabe quem são os ladrões, como agem, qual é o processo, qual é a escala, a gente sabe tudo, só que faz que não sabe, tem falsidade maior do que essa? E você chega na hora de votar e você fala: “ta bom, eu não vou votar nesse, vou votar naquele”, é igual. É o que aconteceu no PT, que é o partido mais da direita que eu conheço hoje. O meu pai era comunista de pixar muro e eu voltava sempre acompanhando ele, sempre com os trabalhadores, o próprio partido, e tentando. Eu tenho uma situação econômica ótima, mas eu não me deixo envolver, porque eu me comporto como se não tivesse, porque quem não tem, tem o mesmo direito que eu. Não é luxo, mas é o mínimo. Como é que eu vou me justificar... Lembro da minha família todos os dias, eu tenho muitas reservas da família e está tudo na minha casa. É fotografia, é relógio, roupa, tudo. Tenho tudo a vista. Como é que eu vou conversar com o meu pai, “pai, olha o que virou o PT, olha o antro que virou esse partido”, por que? Porque eles estão de olho no dinheiro, você acha que a vida está boa para um trabalhador, coitado, que levanta às quatro horas da manhã, pra ganhar 600 reais? Hoje, 600 reais no bolso, vê o que você faz... Ele tem que comer, beber, se ele for pagar luz, um terço, é imposto que o pobre paga. Porque a indústria, ela vai se virar, vai arranjar outra fonte alternativa ou tem incentivos. Quem que paga? O povo, o trabalhador. O sujeito ganha 10 mil reais, um terço é do Governo. Quer dizer, castigar quem é honesto. Aí sai sem trabalhar... Bolsa família, cesta básica, albergue, não pode ficar na rua, meu amigo, o senhor está castigando quem trabalha. Quem não trabalha é que tem as benesses, o senhor quer dar, tudo bem, faça o seguinte, o senhor vai trabalhar e nós vamos pagar o salário seu, o salário é sacramentado, mas vai trabalhar, vai limpar rua, varrer rua, eu vou lhe dar uma cesta básica, mas o senhor tem que trabalhar.

P/1 — Sr. Vicente, pra gente dar uma encaminhada para o final, eu queria retomar um pouco dos seus outros filhos, porque a gente falou do nascimento do seu primeiro filho.

R — É, o meu menino é estudioso, é sério, é honesto... Nem sei como é que uma pessoa pode viver hoje com aquela mentalidade que ele tem. Ele é de Recursos Humanos, ele fez curso de Psicologia, tem uma índole fantástica, é diretor da General Motors e está lá há 20 anos quase e minha filha é Pedagoga da Prefeitura, também administra escola, trabalha como uma louca. Sobrou a minha netinha, que fica muito com a minha mulher, porque minha mulher é uma excepcional mãe e uma excepcional avó, porque ela cuida, né? Sopinha na hora certa, arrumadinha, limpinha… A gente adquire aqueles hábitos simples. A vida é tão simples, não sei porque complicar tanto. Os nossos hábitos são simples, entende? Eles estão bem, independentes. Minha filha puxou mais o meu gênio, ela já deu um bico em dois maridos e já deve estar arranjando um terceiro, porque ela está penteando muito o cabelo (risos). Meu filho... Não deu certo o casamento também com ele, o primeiro, mas o meu filho nem queria, sabe, mexer no casamento, mas a esposa achou por bem separar. A separação sempre traz junto um trauma para as crianças, não sofro pelos casais, sofro pelas crianças, porque a criança sempre fica com aquela insegurança do lar desfeito. É uma pena. Eu sinto porque eu tenho três netos, na realidade, convivo com uma só, os outros dois foram tirados da nossa vida. A mãe achou por bem, eu não sei de onde ela foi tirar essa filosofia de que nós não servíamos para as crianças. Também, não posso impor a minha presença perante os netos para não aumentar ainda mais o trauma, porque ia sair uma briga daquelas e eu não entro numa briga pra perder. Se eu entrar na briga, não vou perder. Vou usar de tudo que você possa imaginar, que eu não sei fazer, eu fazer em dobro, porque eu não sei perder. Essa é outra... Tenho um monte de coisas ruins (risos) e uma delas, eu não sei perder. Então, eu não entro, porque o que está acontecendo é uma pena… Os meus netos são lindos, maravilhosos, mas estão afastados, né, a mãe puxou eles pra fora e se eu for lutar, eu vou mostrar aquele outro lado que eu não quero, entendeu? Porque as crianças também não merecem. Agora, se eu tivesse morrido, eles não teriam avô, então faz de conta que eu morri. E é uma pena hein, porque as crianças é que estão deixando... Se você ver a fotografia da netinha que vive conosco, é um poço de alegria, de exuberância. Os do meu filho são mais quietinhos, mais gozados, eu também desconheço as crianças. Eu não vejo. Fica um trauma, eu supero, velho suporta qualquer coisa, mas sofro pelas crianças.

P/1 — Mas você como avô, você realizou um pouco...

R — Ôôôhh. Eu com minha neta, não tem coisa mais engraçada. Ela tira sarro, eu tiro sarro, ela é dona das verdades dela, ela é palmeirense, imagine você, sabendo que a mãe, a avó, o avô, tudo corintiano, e ela é palmeirense.Eu não imponho, mas é uma maravilha. Nós tomamos banho, tem um chuveirão em casa, eu moro no 12º andar, tem um chuveirão “desse tamanho”, nós dois ficamos lá e é uma farra só. Não tem crítica maior do que criança. Os maiores críticos da humanidade são as crianças e eu sinto que ela está estruturada. O pai dela... É um excepcional pai. Ele não vive com a minha filha, mas é um excepcional pai. Ele vai vê-la toda noite, toda noite ele está junto com a filha, o que dá uma estrutura, uma segurança total pra menina. Estou sempre no lucro. Vou fazer o quê? Você começa a simplificar, simplificar, simplificar e está contente. A troco do quê, que eu vou mudar o meu esquema?

P/1 — O senhor sendo tão agitado, como foi quando o senhor se aposentou?

R — Também é um trauma. Sei quanto me custa a aposentadoria, viu? (risos) Lavo, passo, cozinho, ihhh, você não faz idéia. E a minha mulher aceita, coitada, é obrigada a aceitar o que eu faço, entende? Quando a empregada chega em casa, já está tudo lavado, tudo passado, tudo guardado. “Tô nem aí”. Ela vai lá pra fazer o grosso, só. Por que? Porque eu não aprendi, eu gostaria de tocar violão, piano, minha mulher tocava piano. E o tempo? Nunca aprendi. Nem bumbo eu sei tocar.

P/1 — O senhor falou num momento da entrevista de viagens, de conhecer muitos lugares.

R — Eu viajo muito. Todos os anos, nós íamos, eu com minha mulher, depois de aposentado, uma viagem para o Nordeste, espetacular. É aquele que você desce em Salvador e com ônibus você vai até Fortaleza com uma empresa turística. Aquilo é lindo... Bahia. Vou duas vezes por ano. Uma vez de navio, outra vez, Porto Seguro, que vou sempre, estou indo agora. Sul, conheço aquelas Serras Gaúchas, todas, tudo aquilo lá. Gosto de pescar, até tenho pescado pouco, mas gosto. Falta companhia.

E velho, eu falei pra você em off, esposa de amigo meu tem ódio de mim, porque eu chego pro cara, “vamos pescar?”, “ah, não, não”, “vamos beber, vamos no bar, vamos aqui, vamos na boate, vamos...”, e elas não compreendem. Eu faço naturalmente, minha mulher sabe, ela arruma a minha mala pra eu entrar no navio. Ela foi pegar um colarzinho do Corinthians, separou as camisetas... Não vou no navio pra conquistar ninguém, vou no navio pra me divertir. Onde é que está a maldade disso? Agora, se você planta cana, você vai colher cana, se você planta feijão, vai colher feijão. Eu plantei segurança toda a minha vida. Nós nunca tivemos altos e baixos, nós tivemos sempre uma faixa segura, isso influi, porque eu em casa, transmito segurança, “ah, o Vicente eu não sei o que ele vai fazer, mas ele está trabalhando ou ele está se divertindo”. Eu me divirto. Baile de cerveja, festa de Blumenau, ahhh, todo ano eu era o primeiro a chegar e o último a sair. No tempo em que era festa, agora, virou um pouquinho... Está muito sem graça. Pouca gente alegre. Festa precisa de gente alegre e alegria é uma coisa também que você não compra. Nasce na festa ou não tem. Não adianta você impor. Tem gente que, “não, porque eu vou num clube famoso”, não adianta, a alegria nasce e ela está dentro de você. Você tem que pôr pra fora, tem que achar espaço. Tem pessoas que não sabem brincar, tem outras que confundem brincadeira, às vezes, acontece, vou brincar com uma moça, geralmente eu falo para as moças “vamos entrar na festa?”, “não, a minha mãe está com o meu pai”. “Se a tua avó dança, tudo bem, não tem problema (risos). Eu não vim aqui pra conquistar, eu vim aqui pra dançar”. Às vezes eu misturo, numa brincadeira, sou muito expansivo, tem cada caso que é uma catástrofe, porque a pessoa confunde, mistura alegria, sinceridade, com interesse, e, às vezes, também, coitadinhas, são tão dependentes de um estado, que elas não são nem culpadas. Estão acostumadas, o homem chega perto, é cantada de um, depois cantada de outro, cantada daquele que você não espera que cante, aí, você põe uma barreira, né? Eu estou acostumado com as barreiras, quando confundo caio do cavalo, viu? Ahh, eu vou pro fundo do poço, porque eu não entro na brincadeira pensando em nada, entro na pura brincadeira. Um rapaz, que eu não conheço, ontem ele ligou pra casa, “o senhor vem buscar a passagem?”, eu falei “olha, como é que vai ser a coisa, quem vai ficar comigo?”, “vai ficar com o senhor um amigo da sua filha. Está tudo certinho, tudo arrumado”, “ah, então está bom fulano”, “eu também vou na festa”, eu falei, “ah, você vai me conhecer logo, porque eu sou velho, manco, surdo e cego, então você logo vai me ver na frente”, “ah, vai ser bom, porque eu também vou levar a minha mãe”, eu falei, “óh, então você fala pra sua mãe, se ela dançar, com todo respeito do mundo, já arranjou um parceiro” (risos). Porque eu vou pra brincar, vou no navio fazer o que rapaz? Vou pra brincar. Se você encontra uma pessoa, despreparada, que está com a cabeça ruim ou que está lá forçado, porque aquilo não é o espírito da coisa, acaba o seu passeio. Agora, eu sou alegre.

P/1 — E o senhor nessas realizações todas, tem algum sonho por realizar?

R — Rapaz, o último sonho que tinha eu realizei o mês passado, porque eu estava preocupado, porque o meu filho estava no Sul e ele ficou quatro anos na General Motors lá no Sul, e ele veio pra ir para São Caetano... Você tem que passar no meio de uma favela, não tem jeito, qualquer entrada de São Caetano é favela, de São Paulo pra lá é enchente. Ele vai sempre fora de hora, porque ele trabalha cedo, vai de madrugada e sai à noite, eu falei: “filho, isso não vai dar certo, você morar em São Paulo não vai dar certo”. Nós compramos um apartamento em São Caetano e acabamos de pagar mês passado, ele está instalado e vai a pé pra General Motors. Isso era um sonho que estava sabe... Ele estava lá e eu estava de cabeça quente, “não vai dar certo, não vai dar certo”. E quando você fala não vai dar certo, é um problema. Honestamente, não tem nada. Tenho entusiasmo, mas uma coisa que eu deseje mesmo, nada. Talvez, né, o Corinthians ser campeão (risos), mas não vai ser. Pelo que eu assisti, pelo que eu vejo, pelo que eu sei, o Corinthians montou um time, uma seleção brasileira, e não ganhou nada. Vamos ver pra onde vai.

P/1 — E como foi contar a sua história de vida aqui?

R — Rapaz... Sabe que parece que eu tirei um peso do ombro. A recordação dos momentos, das coisas, porque a gente não vem preparado pra nada, até pensei que o ângulo da entrevista fosse pela cidade de São Paulo, e não a vida pessoal. Eu até vinha preparado, “eu vou falar pra aquela menina, durante a entrevista, se eu começar a falar muito da minha vida, ela que corte, porque eles querem saber a história da cidade. Como era a cidade que eu vivi, porque eu vi a cidade se transformar”. Eu estou me sentindo tão aliviado. Parece que ficou registrado uma coisa que eu queria, porque, às vezes eu escrevo, tenho muitas coisas escritas, assim... Perdidas, folhas esparsas, que fui registrando a passagem da minha mãe, passagem da minha vida... Eu não tenho queixa da vida, mas ficam algumas mágoas, algumas feridas e aqui não me custou nada, foi aliviando, aliviando... Só o fato de saber que tem alguma coisa registrada, parece um epitáfio. Parece que você está tirando do peso, mas eu não tenho peso, que peso que eu tenho? Trabalho, um gênio irascível que nem eu mesmo me suporto, porque não compreendo as coisas. Mas foi bom, foi uma entrega, sabe? Infelizmente não tem aquela felicidade da infância, porque eu não tive mesmo, não adianta querer enganar que tive uma infância maravilhosa... Uma infância, não é nem sofrida, uma infância programada para a luta. Por isso que eu falei que eu não sei perder, porque realmente foi assim: ganha ou ganha. E não tem salva vida, não tem bóia. O grupo escolar Amadeu Amaral nunca me deu um copo d’água filtrada. Água da torneira, se quisesse. Eu nem aceitaria se me dessem uma coisa, “mas por que você está me dando isso?”, não aceitaria. Não saberia aceitar, iria estranhar.

Toda vez que eu ganho um presente inesperado, e geralmente vem dos filhos ou da minha irmã, eu fico assustado, eu não estou acostumado. Papai Noel não existe. O Papai Noel pulava a minha casa, e eu falava: “puxa, mas eu fiz tudo direitinho pra minha mãe e pro meu pai, meus irmãos, não posso fazer mais”, e o Papai Noel passava no 280, 290, ele chegava no 310, ele pulava “Porque o Papai Noel não veio?”, “não filhinho, um dia te conto”. O que a minha mãe não sabia explicar, ela postergava. O que eu posso fazer? Porque criança não sabe das coisas, quer dizer, não é que ficou bronca, mas eu não acredito em Papai Noel (risos), eu não acredito. E essas marcas, essas feridas, você leva pro túmulo, não adianta, não tem psicólogo que vá corrigir e que vá fazer com que eu acredite. Acho que a humanidade é falsa, que a humanidade é feia, acho que as lutas da sobrevivência, inclusive está no código que em estado de sobrevivência você pode até matar quem está do seu lado, essa é a verdade. É o que eu acredito. Talvez por isso eu não tenha essa ilusão, esse desejo de ter alguma coisa. Eu não preciso de nada. Eu, pra mim... Se você me dar uma cervejinha com pastel, você fica com o resto do mundo pra você, que eu acho lindo pra você, pra mim, não serve. Estou contente com o que eu tenho, que é a base, e a morte, se eu for encontrar a minha mãe quando eu morrer, eu já me mato já, e se eu não for encontrar, “truco”, também não vale nada a vida. Então, pra que eu vou me preocupar, ter medo do quê? Que é tão linda, a vida é tão linda... A gente estraga, mas a vida é linda. A vida é maravilhosa.

P/1 — Tem alguma coisa que eu não perguntei para o senhor que o senhor tinha vontade de falar?

R — Tem. Você não me perguntou o que eu queria beber (risos). Você me enfiou um copo d’água na marra aqui, o resto foi formidável. Vocês entendem da profissão de vocês, sabem ouvir, também é uma coisa difícil. Saber ouvir é uma dádiva, não é qualquer pessoa não. Você estão bem encaixados, estão bem arrumadinhos. Está ótimo.

P/1 — Está ótimo senhor Vicente.

R — Obrigada por tudo .

P/1 — A gente que agradece.

R — Desculpem… A emoção, o entusiasmo, porque se dependesse de mim, eu começava já... óh, hoje eu já engraxei o sapato. Já começava a vida feliz com qualquer coisa. Boa sorte.

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