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História

Amor, carinho e dedicação

História de: Dalci Alves da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/05/2017

Sinopse

“Trazida pela cegonha”, Dalci se recorda do sítio da família em Presidente Prudente. Apaixonada por cavalgar, corria com sua égua, Londrina, competindo com o irmão mais velho. Se deliciava com as frutas do sítio e atentava os quero-quero. Conta e relembra do amor deixado por conta das circunstâncias, da mudança para a conturbada São Paulo e do difícil parto da primeira filha. Hoje funcionária do Museu da Pessoa, cultiva amor, carinho e dedicação, para, quem sabe, futurmente, abrir sua própria loja de doces e salgados.

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História completa

P/1 – Você fala pra mim o seu nome completo, Dal?

 

R – É Dalci Alves da Silva.

 

P/1 – E você nasceu que dia?

 

R – Catorze de agosto de 1965.

 

P/1 – E foi aqui em São Paulo?

 

R – Aqui em São Paulo.

 

P/1 – Em que bairro foi, você sabe?

 

R – Na verdade eu nasci numa cidade do interior, mas é aqui, Presidente Prudente.

 

P/1 – E você nasceu em hospital ou foi em casa?

 

R – Eu nasci em casa.

 

P/1 – Ah, é? Sua mãe falou como é que foi, como é que era?

 

R – Não, minha mãe não conta, quem conta são minhas irmãs. A minha irmã era muito reservada nessa parte. Antigamente as mulheres eram meio reservadas, elas não contavam muito como era o nascimento dos filhos.

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – As minhas irmãs contavam que a minha mãe que fazia o próprio enxoval da gente. Então via a minha mãe fazendo aquelas roupinhas, tal, e elas pensavam até que era roupinha pra boneca. Perguntava pra ela quando ela se aproximava da máquina onde ela estava costurando as roupas, aí a minha mãe meio que escondia as roupas pra não poder contar o que estava acontecendo. E diz que elas ficavam todas ansiosas achando que minha mãe estava costurando roupa pras bonecas delas. Passava um tempo, a hora que chegava o neném, eu chegava, perguntavam: “Nossa mãe, você está de neném, como é que você trouxe?” “Ah, foi a cegonha que trouxe, de avião”. Falava, contava aquelas histórias, sabe? Que veio por cima da laje, não sei o quê. Ficavam, minhas irmãs: “Nossa, mas como assim?”. Outra hora falava que veio pela janela...

 

P/1 – A cegonha.

 

R – A cegonha trouxe o neném para ela e não sei o quê, e nunca contava a verdade. Chegava aquele neném e elas depois viam que aquelas roupinhas que a minha mãe estava fazendo, que elas pensavam que eram para as bonecas, quem estava usando era aquele neném que chegava (risos). Era bem por aí.

 

P/1 – Que era você.

 

R – Que sou eu.

 

P/1 – As suas irmãs falam como era nascer em casa, como foi?

 

R – Então, disse que no dia do nascimento era logo cedo, meu pai já ficava esperto e já tentava querer organizar a casa, colocar tudo em ordem. Buscavam uma mulher, essa mulher entrava e conversava com minhas irmãs que tinha que ficar todo mundo brincando, ninguém podia ficar lá no quarto. Ficava nesse quarto meu pai com essa mulher e depois logo via que chorava neném. Ficavam: “Nossa, choro de neném”. Mas eles meio que tentavam distrair as crianças, os outros filhos mais velhos, para eles não tomarem conhecimento do que estava acontecendo. A minha irmã mais velha sempre falava que logo ela se ligava que a minha mãe ia ter outro filho, já tinha mais dois. Ela falou que quando foi para eu nascer ela falou: “Nossa, a mãe vai ter outro neném?”, porque o mesmo processo que ela viu dos outros irmãos que tem antes de mim ela viu quando eu estava chegando, falou: “Nossa, a mãe vai ter neném”. Então já via tudo que era aquele movimento de trazer uma pessoa.

 

P/1 – Você nasceu em Presidente Prudente, e qual o nome da sua mãe?

 

R – Judite Alves da Silva.

 

P/1 – Ela nasceu onde?

 

R – Na Bahia.

 

P/1 – Na Bahia?

 

R – Na Bahia.

 

P/1 – Sabe que cidade foi?

 

R – Ela nasceu em Conquista, Vitória da Conquista.

 

P/1 – E sabe em que data foi, que dia foi?

 

R – O ano eu não sei, mas a minha mãe nasceu no dia 12 de setembro.

 

P/1 – E como é a família dela, você conheceu?

 

R – Eu não conheci a avó, a mãe dela; eu conheci o avô, meus tios. Era uma família com bastante irmãos, conheci minhas tias. Uma família normal, que foi criada na roça, muito simples, também. Minha mãe contava que era aquela família que eles mesmos preparavam as coisas pra eles comerem, não tinha esse negócio de mercado. Eles que colhiam o café, eles que preparavam o alimento deles, criavam animais, eles mesmo que faziam sabão, plantavam, eles mesmos que se viravam. Eram poucas as coisas que compravam em mercado, mas eles mesmos que faziam as coisas para sobreviver.

 

P/1 – Eles eram mais do campo então, da roça.

 

R – Mais do campo.

 

P/1 – E você sabe por que sua mãe veio pra cá, ou a família veio pra cá, pro estado de São Paulo?

 

R – Na verdade o meu pai também é da Bahia, e é primo da minha mãe. Meu pai veio pra cá, pra Presidente Prudente, muito novinho. Meus avós resolveram vir embora pra cá, então chegou um tempo que meu pai, já moço, resolveu ir passear na Bahia. Chegando na Bahia: “Olha minha prima”. E começou a se interessar pela minha mãe. Logo ele falou: “Não, eu quero ela pra casar”. E naquele tempo o pessoal casava muito rápido, os pais já preparavam o casamento. Eles casaram e meu pai trouxe minha mãe para cá, pra Presidente Prudente.

 

P/1 – E o seu pai, qual o nome dele?

 

R – Antônio Alves da Silva.

 

P/1 – É de Vitória da Conquista?

 

R – De Vitória da Conquista também, ele nasceu lá.

 

P/1 – E a família dele era também do campo, fazia as mesmas coisas?

 

R – Também do campo. Lá na Bahia eles eram do campo, e pra cá também eles tinham um sítio no qual eles sobreviviam, também. Eles plantavam no sítio, era do campo, também.

 

P/1 – Em Presidente Prudente.

 

R – Em Presidente Prudente. Morava na cidade, mas a gente tinha um sítio. Era todo dia trabalhar no sítio. Enfim, plantava de tudo.

 

P/1 – Que legal! E você tem irmãs, você falou. Quantos irmãos você tem?

 

R – Eu tenho três irmãos.

 

P/1 – Quem são eles?

 

R – Tenho uma irmã, Maria Aparecida, depois tem outra irmã, a Edileusa, depois tem o meu irmão Adilson e aí eu, sou a caçula.

 

P/1 – Você é a caçula?

 

R – Eu sou a caçula.

 

P/1 – E quantos anos tem de diferença, você pros seus irmãos?

 

R – Olha, a minha irmã mais velha está com 58. A minha outra irmã tem 56 anos. O meu irmão tem 54 e eu tenho 51.

 

P/1 – Então foi tudo em seguida, né?

 

R – É, tudo em seguida. Tudo ali, um atrás do outro.

 

P/1 – E quando você falou que seu pai conheceu sua mãe, eles contaram como foi? Tem alguma história por trás?

 

R – Ah, sim! A minha mãe, a gente até brincava, a gente tirava sarro dela. Porque assim, quando meu pai foi passear na Bahia, chegou lá e viu a minha mãe, se interessou por minha mãe, a minha mãe estava interessada em outro menino, um rapazinho que estava lá. Ela ficava interessada por ele. Meu pai chegou, tal, já foi gostando dela, aquela coisa toda, e já falou pro pai dela, meu avô, que estava gostando muito da minha mãe, que ele queria casar com a minha  mãe. Antigamente os filhos não tinham muito o que escolher, eram os pais que determinavam: “Não, você vai casar com Fulano”, era meio assim. Ou você tinha que ir pelo que o pai opinava, ou você não casava, ou apanhava, era assim antigamente. Não tinha esse direito de: “Não, eu quero casar com Fulano de tal”. Não, sempre eram os pais que escolhiam. Assim foi feito, minha mãe não teve muita escolha. “Não, mas eu gosto é de Fulano” “Não, mas Fulano quer casar com você”. Era gente boa, gente de família, ia casar com aquela pessoa ali porque já o conhecia, era mais ou menos assim. Minha mãe sempre contava essa história, que ela casou gostando de outro. Eu falei: “Meu Deus, com assim?”.

 

P/1 – Seus pais vieram pra Presidente Prudente e ficaram nesse sítio, trabalhando?

 

R – Isso. Até... Eu não sei de que ano eles vieram pra esse sítio, porque foi o ano que eles casaram. Depois que eles vieram pra cá, começaram a trabalhar, começaram a ter os filhos, tal. E a gente saiu desse sítio em 82, viemos embora pra São Paulo.

 

P/1 – Vamos ficar em Presidente Prudente ainda. Me diz como é, você nasceu nesse sítio, então?

 

R – Sim.

 

P/1 – E como era esse sítio?

 

R – Ah, era gostoso, era muito bom. Meu pai plantava muita fruta, era muito gostoso. Era tudo simples, mas era uma coisa que a gente... Passarinhos, tudo alegrava a gente. A gente era feliz, era uma coisa que eu gostava muito, até hoje eu tenho muita saudade, porque era uma coisa que... Eu gostava muito de andar a cavalo...

 

P/1 – Ah, é? Tinha cavalo lá?

 

R – Tinha cavalo. Eu apaixonava mexer com cavalo. Gostava de ir para o sítio, porque meu irmão... Meu pai colocava ele pra mexer mais com essa parte mesmo dos animais, e eu queria estar junto do meu irmão, eu gostava de ir porque ele ia a cavalo. Eu queria escolher o cavalo que corria mais, meu avô costumava me chamar de Maria Boiadeira. “Lá vai a Maria Boiadeira!”, e eu, nossa, era apaixonada por andar de cavalo. Sempre queria pegar, fazia aposta com meu irmão, qual cavalo corria mais, quem chegaria primeiro. Nossa, eu adorava fazer isso.

 

P/1 – Era grande, então.

 

R – Era grande, o sítio. Eu não sei te falar agora a metragem, mas era bastante grande o sítio. Não era uma chácara, era um sítio mesmo, era grandão.

 

P/1 – E quantos cavalos tinham? Você se lembra de algum específico?

 

R – Tinha uma égua, chamava Londrina. Uma égua bonitona, preta, bonita assim, tinha uma estrela na testa. Era muito bonita, e esse era o animal que todo mundo queria pegar, porque ela era muito rápida. Eu só queria pegar a Londrina! Às vezes nem colocava o arreio nela, já ia no lombo mesmo. A gente pegava uma prática tão grande que quanto mais ela corria, mais você queria que ela... Eu sempre queria ganhar do meu irmão, sempre, sempre, sempre. Aí tinha a Londrina, tinha outra também que chamava Boneca, que ela já era mais... Não era tão (boa?) quanto a Londrina. A gente também tinha um burro, chamava ele de Burrinho, porque ele era pequenininho. Deixa eu ver...

 

P/1 – Tinha outro animal lá?

 

R – Eu lembro bem que eram esses três animais que a gente tinha; era um burrinho e essas duas éguas, eu lembro bastante dessas.

 

P/1 – Como era esse sítio, tinha um portão, você entrava...

 

R – Tinha o portão. Ele era na beira de uma estrada, a qual dava acesso para os outros sítios, de outros vizinhos. O nosso sítio tinha uma entrada, ele tinha o portão. A gente já descia, aí tinha a casa onde a gente ficava, onde a gente às vezes se encontrava lá, porque começava a chover e não tinha onde esconder da chuva, onde você comer. Então tinha esse sítio, com essa casa. Em volta da casa tinha pé de jaca. Nossa, amava aquelas jacas. Manga, meu deus! Muita manga, melancia. A gente cortava a melancia na roça, no sítio ali, já comia. Nossa, era muito gostoso. Tinham outras casas também. Eu lembro que meu pai fez uma casa para uma irmã dele morar lá no sítio, ela casou e não tinha onde morar, ele falou:  “Não, vem morar aqui”. E foi feita uma casa para ela morar no sítio. Então ela cuidava da casa e ajudava meu pai no sítio, com o marido dela, era assim.

 

P/1 – E quem morou com você nesse sítio? Seus pais, seus irmãos...

 

R – É. Meus irmãos.

 

P/1 – Só eles?

 

R – Só. E o pessoal, no final de semana, alguém que queria ir pro sítio, ia visitar, queria buscar alguma fruta. Nosso divertimento era esse sítio. Eu gostava muito, nossa, adorava o sítio. Tinha aquele passarinho, quero-quero? Nossa eles chocavam muito, ficavam nervosos. Eu gostava de ficar atentando eles e eles ficavam nervosos, queriam vir como se fosse me pegar, sabe?

 

P/1 – Te bicar.

 

R – Me bicar. E eu, nossa, atentada, atentava eles. Coisa de moleque mesmo, de menina.

 

P/1 – E do que mais você brincava, você se lembra?

 

R – Nossa, tinha uma brincadeira que eu gostava muito. Muito, muito, muito. Sempre quando era pra brincar: “Vamos brincar!”, não sei o quê, eu sempre opinava por essa brincadeira, que era brincar de esconde-esconde. Como eu gostava de brincar de esconde-esconde! Queria me esconder. Nossa, era uma brincadeira que eu gostava muito. De pega-pega, correr pro outro não deixar pegar.

 

P/1 – E tudo com seus irmãos, né?

 

R – Meus irmãos. Aí tinha meus primos, que não moravam no sítio do meu pai, mas moravam em sítios vizinhos. A gente ia de um sítio pro outro: “Ah, quer ir na casa do meu tio?”, só atravessava. Lá a gente chamava cerca, tinha uma cerca dividindo o sítio do meu pai com o sítio do meu tio. Então a gente: “Ah, vai pra casa do tio”, a gente só atravessa, andava mais um pedaço e já estava na casa da minha tia. A gente era muito junto, ali. E quando era pra brincar, se reunia todo mundo, um ia pra casa do outro. Meu pai tocava violão, e a gente gostava de cantar as músicas do Tião Carreiro, e a gente gostava de cantar essas músicas sertanejas. Nossa, meu pai sentava debaixo de qualquer pé de árvore e cantava, e a gente queria cantar também, não sei o quê, era muito bom. Minha infância foi assim, maravilhosa, eu tenho saudades.

 

P/1 – Você tinha quantos primos ali com seu tio?

 

R – Olha, dos meus primos era bastante, deixa eu ver... Era bastante mesmo, uma faixa de umas oito pessoas.

 

P/1 – Nossa!

 

R – É! Só homem. Deixa eu ver. Tem Juvenal, o João, tem o Cláudio, o Antônio e o Jaime, cinco homens!

 

P/1 – E três meninas.

 

R – E meninas: tinha Lúcia, Maria Aparecida, Helena e Geni. Olha, oito pessoas. Mais quatro meninas.

 

P/1 – Bastante.

 

R – Era bastante. Eles eram em bastante gente. Da família do meu pai quem teve menos filhos foi meu pai, que teve quatro.

 

P/1 – E vocês cresceram tudo junto, vocês e seus primos?

 

R – Tudo junto, tudo junto. A gente era muito unido, estava sempre junto. Final de semana, lá no meio da semana, à noite, estudava junto. Tudo quanto era coisa a gente estava junto.

 

P/1 – E como era dentro da sua casa? Tinha quantos quartos, como era decorado, você se lembra?

 

R – Lembro. A minha casa tinha... Hoje a gente aqui fala copa, né? Lá no interior você falava... Era sala, varanda, chamava varanda. Tinha uma sala, uma varanda, uma cozinha. Aí tinha duas cozinhas; era uma com fogão a gás e uma cozinha separada com fogão a lenha, era assim. Minha mãe gostava de usar esse fogão a lenha pra fazer as coisas de assado, ela fazia muita coisa assada. Fazia aqueles pães caseiros gostosos, era muito bom. E o fogão a gás ela usava mais para fazer a comida, mesmo. Quando fazia um café mais rápido, que só usava também esse fogão a gás quando chegava visita, aí usava o fogão a gás, mas depois de um tempo ela usava mais o fogão a lenha mesmo. E era muito gostoso, a gente assava milho, batata, batata doce. Nossa, era muito bom. Bolo. Minha mãe gostava de fazer uns bolos de milho nesse forno a lenha, era maravilhoso.

 

P/1 – E vocês dormiam juntos, você e seus irmãos?

 

R – Dormia, dormia. Eu lembro que tinha um quarto que dormia eu com minhas três irmãs e um quarto separado só pro meu irmão. E tinha o quarto dos meus pais.

 

P/1 – Isso até vocês saírem de lá.

 

R – Não. Eu não vou lembrar que ano foi... Chegou um tempo que minhas irmãs saíram, vieram pra São Paulo, e a gente continuou lá na casa. Ficou eu, meu irmão e meus pais. Ficamos na casa e minhas irmãs terminaram os estudos delas e vieram pra São Paulo morar aqui na casa de uma tia minha.

 

P/1 – O seu pai trabalhava no quê, ele plantava e vendia?

 

R – Plantava e vendia.

 

P/1 – E o que ele plantava?

 

R – Ah, plantava feijão, milho, amendoim, plantava algodão.

 

P/1 – Quanta coisa!

 

R – Plantava. Cada ano ele plantava uma coisa, e sempre dava assim, sabe? De um monte de coisa ele plantava um pouco. Plantava mandioca. E tudo ele vendia. Minha mãe mexia com horta também, minha mãe tinha uma parte do sítio que ela mexia com horta, plantava vários legumes, verdura, alface, cebola, abóbora.

 

P/1 – Vocês comiam tudo isso e vendiam?

 

R – Comia tudo isso. A gente não comprava nada dessas coisas, a gente comia tudo isso.

 

P/1 – E como era pro seu pai, ele acordava cedo?

 

R – Cedo. Nesse sítio também meu pai mexia com vaca. Ele levantava cedo, tipo cinco horas da manhã. Ia, tirava o leite e vendia o leite também. Ele levava o leite até a estrada − que era perto de casa −, uma estrada de terra, na qual passava um caminhãozinho que pegava o leite. Ele levava de carroça; colocava os galões de leite lá e levava até a estrada na qual passava o caminhãozinho. Passava mais ou menos umas oito horas da manhã.

 

P/1 – Agora, você estudou lá também em Presidente Prudente. Como é que era pra ir pra escola?

 

R – Era uma escola normal. Eu estudei até, acho, que a oitava série. Foi, estudei até a oitava. Depois...

 

P/1 – Depois você veio pra cá.

 

R – Depois eu vim pra cá. Eu vim pra cá com a idade de 17 anos.

 

P/1 – E qual é o nome dessa escola, você lembra?

 

R – Nossa, agora você me pegou!

 

P/1 – Não tem problema, não.

 

R – Não lembro mais agora.

 

P/1 – Mas era perto da sua casa? Você ia a pé?

 

R – Não, não ia a pé. Tinha um ônibus que o prefeito fornecia para o pessoal utilizar pra ir pra escola. A gente acabava pegando esse ônibus. Era de graça, pelo governo. Tinha aquela turminha que pegava o ônibus junto, a gente ia pra bagunçar dentro do ônibus.

 

P/1 – E como é, tem onde você mora e tem a escola. Era no centro, como que era?

 

R – A escola era no centro.

 

P/1 – E quanto tempo demorava da sua casa?

 

R – Ah, era pouco tempo, coisa de uns 20 minutos. Era coisa rápida.

 

P/1 – Como era você na escola?

 

R – Nossa, eu ia só pra brincar. Estudar que era bom mesmo, nada. Assim, era muito bom, porque meu pai conhecia muita gente na cidade, então o pessoal conhecia a gente: “Ah, é filha do seu Antônio”. No interior é muito isso, se identifica pelo: “Ah, essa é filha de Fulano” “Filha do seu Antônio”. Então sempre tinha os professores que gostavam de ajudar, passavam sempre... Se você não estava entendendo ele passava pano pra gente. “Ah, você não está entendendo, tudo bem”. Era assim, eram muito amigos da gente, frequentavam a minha casa, combinava com o meu pai pra ir ao sítio, pra conhecer o sítio, de ver alguma coisa, então era normal. Tinha muitos amigos. Nossa, uma coisa que eu adorava era ir pra escola, que pra mim era uma diversão na escola (risos).

 

P/1 – Você se lembra de alguma coisa que te aconteceu e te marcou nessa escola? Alguma brincadeira ou algum acontecimento, assim?

 

R – Eu lembro de uma vez que a gente estava saindo da escola, estava uma chuva muito forte, chovendo bastante, tal. Eu estava com uma prima minha, ela chama Edna, e no momento deu um relâmpago tão forte que a gente se perdeu naquele clarão assim. A gente bateu no muro, ela bateu no muro. Já estava saindo, já estava pra fora da escola. A hora que deu, que a gente ficou com medo de ser um raio e ela bateu no muro, a gente... Nossa, na hora foi um susto enorme. Depois, quando a gente viu que não aconteceu nada, foi só um susto, e ela machucou o rosto dela no muro. A gente riu, nossa, acho que uma semana rindo com isso. Sempre quando a gente se junta a gente lembra desse momento. Não era coisa pra dar risada, mas a gente ainda acha motivo e ri.

 

P/1 – E você fez muitos amigos lá, que não eram seus primos, pessoal que não era da família?

 

R – Ah fiz, não muito. Por a gente ter bastante primos, a gente ficava muito envolvido com os primos. Meus pais, eles eram meio seguros, não deixavam você ficar saindo. Eles deixavam assim, se está com os parentes está ótimo. Quer dizer, não deixava muito sair. Você perguntava, às vezes pedia: “Pai, posso ir na casa de Fulano?”, não dava muito aquela liberdade de a gente conhecer muito as pessoas. Eu sabia quem era quem, mas não de ficar frequentando casa, de você ficar saindo, de fazer muita amizade, entendeu? Era mais com os primos, mesmo.

 

P/1 – E tinha alguma matéria, algum professor que você se lembra que você gostava mais, ou coisa desse tipo?

 

R – Ah, eu gostava de fazer desenho. Nossa, na hora de desenho eu amava fazer desenho, gostava muito de desenho. Todas essas matérias...

 

P/1 – De Arte.

 

R – De Arte, eu gostava.

 

P/1 – Era o que você mais gostava?

 

R – É, era o que eu mais gostava. A que eu mais odiava era Inglês.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Nossa, odiava inglês.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ah, não sai, sei lá. A professora não era nada simpática. E juntava isso, eu não conseguia falar nem o número em inglês. Contar em inglês eu sabia, aquilo me irritava. Eu não gostava, falava que era aula de inglês, meu Deus do céu, que aula chata.

 

P/1 – Você que cresceu nesse sítio deve ter tido uma infância diferente de quem cresce em condomínio, em apartamento, né?

 

R – Sim.

 

P/1 – Você acha que você aprendeu muita coisa diferente? O que você acha que aprendeu vivendo nesse meio diferente?

 

R – Eu acho que a gente aprende assim... Você fica mais liberal. Você tem espaço pra brincar, fica mais à vontade. Então eu tive, claro, na época não tinha esse negócio de celular, negócio de computador, mas a gente tinha muito... Os pais da gente, por conta de não ter uma televisão, de não ter celular, eles davam muita atenção pra gente. Isso era muito bacana. Você aprendia, você cantava com os pais da gente. Eles brincavam, quantas vezes meus pais tiravam tempo deles pra dar atenção pra gente, pra estar brincando, se envolvendo na brincadeira da gente? Isso foi muito bom, sabe? Você ficava hiper à vontade mesmo. Às vezes até à noite você estava lá brincando de pega-pega, de se esconder. Então assim, eu acho que isso foi muito bacana.

 

P/1 – E vocês ouviam rádio em casa?

 

R – Rádio. A gente tinha rádio e tinha uma televisão também. A gente tinha uma televisão, na época era preto e branco.

 

P/1 – Vocês lembram o que vocês assistiam, na época? O que vocês gostavam de ver?

 

R – Na época eu gostava muito de assistir ao Chacrinha, gostava muito de assistir o programa dele. Não lembro mais de muita coisa que eu gostava mais. Mas nossa, a minha mãe ouvia muito Zé Béttio, minha mãe gostava de colocar nessa rádio que era o Zé Béttio, a gente ficava ouvindo. Eli Corrêa. O rádio ficava muito assim, sabe, ligado nessas duas emissoras, que eram o Zé Béttio e o Eli Corrêa. No Eli Correa às duas horas da tarde ele lia lá uma história de vida, alguém mandava uma história de vida pra ele e ele contava aquela história duas horas da tarde. Meu, você ficava ligada no relógio pra duas horas você não perder aquele momento.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Era. Era muito interessante. A pessoa contava aquela história, tinha umas histórias bonitas. Tinhas umas meio tristes, mas a maioria uma história muito bonita. A gente ficava apaixonado ouvindo aquelas histórias no programa do Eli Corrêa.

 

P/1 – Ele contava história de outras pessoas no rádio?

 

R – De outras pessoas. As pessoas escreviam a sua história e mandavam pra eles. Eles liam, todo dia era uma história diferente. E sempre era às 14 horas.

 

P/1 – Você lembra de alguma, mais ou menos, como era? Você falou que algumas eram tristes, outras eram bonitas...

 

R – Ah, eu não lembro para contar assim, sabe? “Tal história que foi assim e assim”, mas sei que tinha muitas histórias bonitas, sabe?

 

P/1 – Mas bonita como? De superação?

 

R – Ah, de famílias que casaram e às vezes o casamento era contra os pais, mas eles se gostavam e falaram: “Não, a gente se ama e a gente vai se casar”. E aí, sabe, eles casaram e formaram a família deles, tinham os filhos. Depois as próprias pessoas que não aprovavam o casamento deles, a união deles, viram que realmente eles eram um para o outro e eram felizes, se davam bem. Essas histórias, assim. E tinha vários tipos de histórias. Pessoas que estavam aqui em São Paulo, que vieram pra cá, chegaram aqui e não deu certo, quiseram voltar pra sua terra novamente porque não deu certo aqui. Tinha vários tipos de histórias.

 

P/1 – Entendi. E vocês ficavam lá ouvindo?

 

R – Ouvindo. Nossa, a gente não podia nem cair, fazer barulhinho nenhum, porque todo mundo ficava atento no rádio. Era no rádio isso.

 

P/1 – E você falou que o seu pai tocava Tião Carreiro, uma música sertaneja, assim.

 

R – Tocava, ele amava. Nossa.

 

P/1 – Vocês cantavam juntos com ele?

 

R – Cantava, a gente adorava. Até mesmo depois que a gente veio pra São Paulo meu pai pegava o violão e cantava e a gente queria cantar junto com ele.

 

P/1 – E ele gostava de alguma mais específica?

 

R – Ah, ele gostava muito de cantar Dama da Noite.

 

P/1 – Dama da Noite?

 

R – Dama da Noite. Eu não sei.

 

P/1 – Como que é a letra, você se lembra?

 

R – Ah, agora não lembro! Minhas filhas até hoje, quando se juntam: “Nossa mãe, eu lembro tanto do vô quando ele cantava Dama da Noite”. Eu não lembro bem, mas acho que mais ou menos... Deixa eu ver (canta): “A Dama da Noite que foi embora...”. Eu não sei cantar, não vou conseguir lembrar agora as palavras.

 

P/1 – Tudo bem (risos).

 

R – Mas era muito engraçado. Ele gostava de cantar. Gostava de cantar uma música também, eu não sei de quem ela era, Fio de Cabelo.

 

P/1 – “Um fio de cabelo no meu paletó...”.

 

R – Exatamente, “um fio de cabelo no meu paletó”! Ele adorava cantar essa música. Nossa, cantava, cantava. E aquelas músicas mais antigas. As músicas do Tião Carreiro ele cantava tudo, a maioria das músicas ele cantava no violão.

 

P/1 – E você foi crescendo nesse sítio. Me fala como é Presidente Prudente, pra quem não conhece. É uma cidade grande, pequena?

 

R – Ela não é muito grande. Hoje sim, mas na época que eu morei lá, em 82, não era muito grande. Mas uma cidade gostosa pra morar, uma cidade quente. Presidente Prudente é muito quente, mas uma cidade muito tranquila, uma cidade que hoje eu chego naquela cidade, quando a gente viaja pra lá eu falo: “Meu Deus, parece que é como se fosse tomar um remédio, que é tão tranquilo”. Você olha no pessoal, parece que está todo mundo tranquilo, você não vê aquele corre-corre, aquela correria que você vê aqui em São Paulo. É uma cidade muito gostosa pra você morar, tem bastante emprego, bastante empresas. A gente tem parente ainda que mora lá, tem uma vida bem mais tranquila do que a vida da gente. Nossa, muito tranquila. É uma cidade maravilhosa pra poder morar.

 

P/1 – E o sítio está lá, ainda?

 

R – Não. Quando a gente veio pra São Paulo meu pai vendeu esse sítio.

 

P/1 – Ah, vendeu.

 

R – Ele vendeu esse sítio porque era com esse dinheiro do sítio que a gente ia comprar uma casa aqui em São Paulo.

 

P/1 – Entendi. Mas você chegou a voltar lá algum dia pra ver o terreno, como é que está?

 

R – Sim. Sempre quando a gente viaja pra lá, pra Presidente Prudente, a gente tem curiosidade de ir ao sítio. Totalmente diferente do que era o nosso.

 

P/1 – É?

 

R – É, totalmente diferente. Só tem uma única casa, que não é a mesma casa que a gente deixou, eles derrubaram aquela e fizeram uma casa diferente, do jeito que eles queriam fazer. Hoje eles não têm plantação nenhuma, é só gado, só boi.

 

P/1 – Nossa.

 

R – É só boi, somente boi. Tem um caseiro que mora lá nessa única casa, mas é só gado. E eles fizeram tipo uma mina pra água, onde o gado vai pra poder tomar água. Só, e pronto.

 

P/1 – E vocês vieram pra São Paulo... Como é que foi a ideia de vir todo mundo? As suas irmãs vieram primeiro, né?

 

R – Isso. As minhas irmãs vieram pra cá pra morarem com uma tia minha.

 

P/1 – Moravam onde aqui, você lembra?

 

R – Lembro. Moravam onde eu moro hoje, Jaraguá. As minhas irmãs... Chegou um determinado tempo que elas não queriam mais morar com a minha tia, elas queriam morar sozinhas. Quem está no interior, vê São Paulo, tem aquela imagem achando que em São Paulo, morar duas mulheres sozinhas é perigoso e não sei o quê, e minha mãe começou a fazer a cabeça do meu pai que a gente tinha que vir embora todo mundo pra cá. E meu irmão falava de vir embora. Meu irmão: “Não, eu também vou, eu quero ir pra São Paulo”, aquela coisa que todo mundo quer vir pra São Paulo. Minha mãe falava: “Já que o Adilson quer ir também, vamos todo mundo”. Falando com meu pai: “A gente já está ficando velho, a gente não vai aguentar mais trabalhar aqui na roça, então vamos pra São Paulo”. E nesse meio tempo um primo meu que já estava aqui em São Paulo já há muito tempo falou pro meu pai: “Se vocês realmente quiserem vir embora pra São Paulo eu já vou arrumar um serviço pra você”, que era pro meu pai, “pelo menos você já tem uma coisa garantida”. E assim foi, ele arrumou serviço lá no Hospital São Paulo pro meu pai, aí todo aquele serviço estava quase certo: “Então vamos”. A gente já veio com...

 

P/1 – Tudo pronto.

 

R – Já quase pronto, porque tinha o dinheiro de comprar uma casa e meu pai já estava com o serviço meio encaminhado.

 

P/1 – E como é que vocês vieram pra cá, foi de ônibus?

 

R – De ônibus. Eu vim de ônibus com a minha mãe e meu pai veio num caminhão com a mudança.

 

P/1 – E teu irmão?

 

R – O meu irmão já tinha vindo uns 15 dias antes da mudança. Ele veio porque ia procurar uma casa maior pra gente morar todo mundo junto. Minhas irmãs eram solteiras, na época. Ele veio e ajudou minhas irmãs a procurarem uma casa, e quando a gente veio com a mudança, a gente já veio já direto pra essa casa onde a gente morou um ano, até a gente achar uma casa pra gente comprar.

 

P/1 – E o que você achou de São Paulo quando você chegou? Você se lembra da viagem?

 

R – Lembro, lembro como hoje. Nossa, nunca tinha viajado tão assim pra longe. Pra mim, meu Deus do céu, parecia que eu estava indo... Isso porque eu viajei a noite inteira.

 

P/1 – É muito longe Presidente Prudente daqui?

 

R – De ônibus dá umas oito horas, porque eles fazem umas duas paradas. Foi uma viagem gostosa, tranquila, e quando eu cheguei aqui em São Paulo a gente já foi pra essa casa, e pra mim tudo era diferente. Nossa, me sentia, meu Deus, uma rainha, por vir morar em São Paulo. Porque foi a primeira vez que vinha pra São Paulo, eu nunca tinha vindo, e na primeira vez que eu vim já foi pra morar aqui. Depois de uns dias deu muita saudade de onde eu morava, não era aquela coisa de ficar à vontade, depois de certo horário da noite tinha medo de sair.

 

P/1 – Lá no Jaraguá.

 

R – Lá no Jaraguá.

 

P/1 – No Pico do Jaraguá?

 

R – É, fica próximo do pico.

 

P/1 – E como era essa casa que vocês ficaram um ano?

 

R – Essa casa era uma casa que tinha várias casas pra alugar, e a casa maior foi a casa que a gente alugou. Eu lembro que tinha uma sala, dois quartos e uma cozinha. Depois da nossa casa era um corredor que tinha várias casas, passava gente na frente da nossa porta − que morava nos fundos da nossa casa, ainda −, e a gente fez amizade com todo mundo ali no quintal, e todo mundo assim, sabe, se envolveu com a gente. A gente também, qualquer final de semana a gente se juntava e fazia um churrasquinho. E como a casa que a gente morava era a maior, a gente se juntava lá, fazia churrasco lá na lavanderia. E foi muito bom. Os donos da casa mesmo moravam na parte de cima, e eles ficaram encantados com a gente: “Meu, veio uma família do interior muito bacana, nossa”. E a gente nunca teve problema com ninguém, com os outros moradores do quintal. Quando a gente saiu, ficou todo mundo triste, porque a nossa meta era sair mesmo pra ter a nossa casa.

 

P/1 – Foi alugado aí.

 

R – É, era aluguel.

 

P/1 – E vocês foram pra que casa depois?

 

R – Então, a gente comprou uma casa no Jaraguá mesmo. Meu pai, na verdade, comprou um terreno e a gente construiu a nossa casa. Ele construiu, na época, três cômodos, e já fomos morar nessa casa. A gente nem colocou... Eu lembro que meu pai colocou as janelas, nem colocou vidro, colocou uns panos lá pra poder só não passar vento e já fomos morar ali dentro. Depois fomos, aos poucos, arrumando e aumentando a casa.

 

P/1 – E você está até hoje lá?

 

R – Estou. Eu moro nessa casa.

 

P/1 – E conta o que você foi fazendo em São Paulo nesse meio tempo. Foi trabalhar ou ficava mais em casa?

 

R – Quando eu cheguei em São Paulo, em 82... Cheguei em São Paulo acho que no mês de outubro. Estava aproximando o final de ano, então eu fiquei aquele resto de ano em casa, não conhecia nada, não sabia andar. Minhas irmãs trabalhavam, então fiquei ajudando minha mãe, fiquei em casa. No próximo ano a minha mãe arrumou um serviço de costura, foi costurar. E nesse meio tempo a minha irmã mais velha engravidou e nasceu uma menina, minha sobrinha. Eu já com minha idade de 18 anos ficava em casa cuidando da minha sobrinha, e fiquei um bom tempo. Minha mãe trabalhava, minhas irmãs também, e eu ficava cuidando da minha sobrinha, até um determinado tempo. Não lembro quanto tempo foi que eu fiquei cuidando dela. A minha irmã arrumou um serviço pra mim, a minha mãe na verdade, para eu trabalhar aqui na Avenida Paulista, na casa de uma família. Deixei de cuidar da minha sobrinha e vim morar nessa casa, eu ficava de segunda à sexta-feira nessa casa.

 

P/1 – Na Avenida, mesmo?

 

R – Na Avenida Paulista, perto daquele Banco Itaú grandão que tem ali na Paulista, não lembro agora o nome. Na Rua Augusta, ali na Paulista. Fiquei com eles mais ou menos uns três anos. Nossa, foi uma família maravilhosa, até hoje me arrependo de ter saído daquela casa.

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/1 – Como é que era a família e como era a casa?

 

R – Nossa, era muito bacana. Uma família de gente italiana, muito bacana. Os filhos dela... Eram duas filhas, e eu me identifiquei muito com uma das filhas, chamava Érica, a menina, eu gostava muito dessa moça. A dona da casa chama Filomena, e ela me tratava como filha, sabe? Eu a ajudava nos afazeres da casa, ia de segunda de manhã e vinha embora na sexta-feira à noite, vinha pra casa dos meus pais. Só que chegou uma hora que eu queria também trabalhar em empresa, minha irmã mais velha trabalhava numa empresa e meu sonho era trabalhar numa empresa. Como é trabalhar numa empresa, como bater cartão, como se comportar dentro de uma empresa? Era o meu sonho. E eu saí dessa casa pra trabalhar na empresa, junto com a minha irmã.

 

P/1 – Mas me conta como era ficar lá na casa dessa família. Você ficava na região da Paulista, você deve ter conhecido bastante ali, né?

 

R – Não muito. Sempre quando eu saía na Paulista era junto com ela. Às vezes a gente ia fazer alguma compra e ela me levava, a gente fazia feira juntas. Eu ficava muito presa, chegava ali e ficava de segunda à sexta-feira dentro do apartamento mesmo. Ficava à vontade, ligava a televisão, comia o que eu queria, tal, eles me deixavam à vontade, mas eu ficava muito presa. Fiz alguma amizade, muito pouco, com vizinhos do prédio, mas só de “oi, oi”, amizade mesmo, não. Tinha uma menina que eles criavam que foi filha de uma empregada deles, na época. E eu também me identificava muito com essa menina, ela era mais nova do que eu, mas a gente ficava duas molecas. A gente, nossa, eles saíam e a gente aprontava, ficava dando trote na casa dos outros, cansei de fazer isso mais essa menina, se dava muito bem, ficava aprontando mesmo. Era molecona, estava ainda com meus 18 anos.

 

P/1 – Você aprontava muito, nessa idade?

 

R – É, ligava pro meu pai. Eu sabia que meu pai trabalhava no Hospital São Paulo, eu sabia o número e ligava pra lá, que ele trabalhava na portaria. A gente ficava ligando, fazendo trote com meu pai, falava: “Ai, é o açougue? Porque eu vi um boi”, não sei o quê. E meu pai já até sabia que era eu: “Você vai ver, no final de semana você vai apanhar quando chegar em casa”.

 

P/1 – Você sempre gostou de brincar, essas coisas?

 

R – Sempre. Eu sempre fui uma pessoa muito brincalhona. Muito, muito, sempre, desde pequena e até hoje eu sou assim, gosto muito de brincar.

 

P/1 – E agora... Seu pai estava construindo aquela casa. Demorou muito pra ficar pronto?

 

R – Ah, demorou um pouco. Não foi muito não, porque a gente já tinha o dinheiro, então deu uma boa adiantada. Mas fazer o acabamento, fazer mais ou menos do jeito que queria, terminar tipo lavanderia, algumas coisas assim. Então foi demorado. Hoje a casa é grande, a casa que eu moro hoje é grandona. São duas casas. Tem uma parte... Eu tenho uma casa embaixo que tem três cômodos e a parte de cima, que é a que eu moro, tem dois quartos, uma cozinha, sala, garagem, então é grande. Até chegar nesse ponto demorou. E é toda acabada a casa, minha casa é toda acabadinha mesmo, com piso da garagem até o quintal, é coberta a casa. Então todas essas coisas demoram bastante, né?

 

P/1 – É. E como é o bairro, Pirituba, ali? O que você achou?

 

R – Já foi muito bom, Jaraguá já foi um lugar muito bom para morar. Ultimamente não está mais assim como já foi. Esses predinhos que eles vão fazendo vão trazendo o pessoal pra morar, então tem muita gente que chega meio que estragando o bairro, coisa que não acontecia lá perto de casa agora está acontecendo direto. Está tendo funk, perto da minha casa tem uma pracinha e vira e mexe está tendo funk nessa praça, que fica incomodando muito o pessoal, o pessoal está se sentindo muito incomodado, reclamando bastante.

 

P/1 – Mas é uma área de muita árvore, né?

 

R – Muito. Pra você ver, eu moro perto do Pico, dá para eu ir a pé da minha casa pro Pico, uma área gostosa. É um ar mais puro onde eu moro, adoro a rua que eu moro, é uma avenida, passa ônibus o tempo todo, é bem movimentada. Eu gosto muito de onde eu moro, tenho tudo perto. Onde eu moro tem tudo pertinho. A única coisa que não tem perto, perto, bem próximo, é banco, mas o restante tem de tudo, de mercado grande, de lotérica, de escola. A escola onde minha neta estuda... Dá cinco minutos da minha casa na escola.

 

P/1 – Nossa, que bom. Agora, você, com 18 anos, começou a sair, a namorar, como é que foi essa passagem da adolescência?

 

R – Na verdade, quando eu morei no interior, conheci um rapaz, e eu gostava muito dele, muito, muito mesmo. Eu o via, meu Deus do céu, coração disparava.

 

P/1 – É?

 

R – É. E antes de eu vir pra cá, em 80, em 79, por aí, minha mãe se machucou. Ela caiu, foi pegar uma jaca no pé de jaca, caiu e se machucou bastante. Ela quebrou aqui a cabeça, nossa, e minhas irmãs a trouxeram aqui pra São Paulo. A minha irmã estava aqui, minha mãe estava aqui, e eu fiquei com meu irmão e meu pai lá. E eu já gostando desse rapaz. Aí esse rapaz foi transferido pro Mato Grosso, o trabalho dele lá na cidade de Prudente... Foi transferido pra fazer a mesma coisa lá em Mato Grosso. E a gente já vinha conversando, vinha se encontrando. Não era bem um namoro, a gente...

 

P/1 – Se gostava.

 

R – Se gostava, gostava. Ele gostava de mim e eu gostava dele, e a gente ia muito pra missa no final de semana, aquela coisa. Tinha a igreja na cidade, e o nosso encontro dos jovens era ir pra igreja e depois da igreja ficava todo mundo. Quem tinha namorado ficava, quem estava se gostando ficava conversando, e aquela paquera ali depois da missa. Lembro que nesse ano a minha mãe, como estava aqui e ele falou pra mim: “Você não sabe, preciso te contar uma coisa”. Eu falei: “Pode falar”. Ele falou: “Eu vou embora pro Mato Grosso”. Eu falei: “Sério?” “Sério, estou indo pra lá. E eu queria que você fosse comigo”. Eu falei: “Você está doido?”. Naquela época o pessoal tinha muito esse negócio de fugir, fugia o casal. Às vezes tinha medo de contar pros pais que estava namorando, que estava gostando de alguém, então o que fazia? Fugia. Depois, quando os pais tomavam conhecimento que a pessoa tinha fugido, eles faziam casar. Era a maneira das pessoas casarem sendo que os pais iam permitir. Ou, senão, fugiam: agora você vai ter que casar. E ele me fez a proposta pra fugir. Eu falei pra ele: “Mas eu não posso fazer isso” “Mas por que você não pode?” “Porque a minha mãe não está em casa. Aconteceu um acidente com ela e minha mãe está em São Paulo. Jamais eu posso fazer isso” “Ah, mas o que é que tem, depois sua mãe vem pra cá e se vira, ela vai ficar sabendo que você foi embora de casa”. E eu não fui porque achei que minha mãe não merecia passar por isso. Ela me deixou cuidando do meu pai e do meu irmão e eu ia fazer isso? Aproveitar a ausência dela e fugir com uma pessoa? Eu não fui, mas a gente ficou... Aquela coisa, aquele gostar. Eu vim pra São Paulo ainda gostando dessa pessoa.

 

P/1 – É?

 

R – É, vim pra São Paulo gostando dele.

 

P/1 – Você acha que se sua mãe não estivesse mal você iria com ele?

 

R – Ah, eu acho que tinha! O que segurou foi a minha mãe não estar lá. Eu pensei muito e falei: “Não, não vou fazer isso com a minha mãe”, porque ela já não estava bem. Ela ia ficar muito mal. Os homens do interior são muito assim, tudo depende da mulher. Então era eu que fazia a comida pro meu pai, era eu que cuidava da casa. Meu pai levantava de manhã e ia cuidar dos afazeres dele e do sítio. Quando ele chegava em casa, dez horas, dez e meia estava almoçando. Por levantar muito cedo, cinco e pouco da manhã, quando é dez horas estava almoçando, então dez horas tinha que estar o almoço pronto. Aí o que eu pensava? “Meu pai não vai me perdoar nunca. Minha mãe não está aqui, eles precisam... Eu faço um serviço desse, acompanho uma pessoa e vou embora? Como assim?” Eu pensei muito e não fui por conta disso.

 

P/1 – Entendi. Você pensa muito nisso hoje em dia?

 

R – Ah, às vezes. Agora nem tanto, mas a um tempo atrás eu pensava, pensava sim. Às vezes a gente faz umas escolhas... Porque assim, eu casei fazendo uma escolha, eu fiquei assim. E “pá”, escolhi a pessoa que eu casei. Mas às vezes: “Será que não era a outra pessoa?”, eu pensava muito nisso.

 

P/1 – E qual é o nome dele?

 

R – Da pessoa que eu casei ou da pessoa que eu namorei?

 

P/1 – O primeiro.

 

R – Valdemir.

 

P/1 – Você teve alguma notícia dele depois?

 

R – Tive. Eu fui no ano passado lá pra Presidente Prudente, fazia muito tempo que eu não o via. E meu tio mora lá, meu tio fala que ele sempre pergunta de mim. “Ah, sempre quando ele encontra com a gente na cidade ele pergunta de você. Sempre, sempre, sempre”. E meu irmão é muito palhaço, ele falou: “Ah, é hoje que você vai ver ele. Tio, onde é que ele mora aqui?” “Ah, aqui nessa rua”. E eu estava no carro do meu irmão. Eu falei: “Pelo amor de Deus, para, não vamos lá. Vai fazer o quê lá na casa?” “Não, vamos passar nem que for em frente da casa, vai que ele está lá na frente da casa”. Eu dentro do carro mandando meu irmão: “não vai, para”. Imagina? Meu tio: “Entra aqui, sobe ali, tal”. Passou na frente da casa dele, ele estava nessas cadeiras de balanço na frente da casa, finalzinho da tarde, com a esposa dele. E quando ele viu meu tio, ele nem me reconheceu. Viu o meu tio: “Oi, seu Eufrásio, tudo bem?”. Aí meu tio, esperto: “Essa aqui você sabe quem é?”. Ele olhou: “Nossa, quanto tempo”. Pegou na minha mão. Eu falei: “Pelo amor de Deus”. Fiquei brava com eles, porque ele estava com a esposa dele, e a esposa dele não entendeu nada, ficou assim olhando: “Quem é esse pessoal?” “Ah, morou aqui, foi embora pra São Paulo há tantos anos”. Mas eu o vi. Ele é bem mais velho do que eu, tem uma diferença de oito anos.

 

P/1 – Então uns 60 anos.

 

R – É, uns 60 anos.

 

P/1 – Eu esqueci de perguntar, vocês são católicos, a sua família?

 

R – Somos. Nós somos católicos, desde quando eu nasci eu sou católica.

 

P/1 – (risos) Vocês iam muito à igreja, então?

 

R – Vamos até hoje.

 

P/1 – E como era a igreja lá em Presidente Prudente?

 

R – Ah, uma igreja... Gostava, uma igreja bonita, linda, e tinha as missas todos... A gente ia mais em final de semana na missa. A gente ia na missa, tinha bastante amizade com o pessoal dentro da igreja, participava de tudo quanto era evento que tinha na igreja. A nossa alegria era ir pra igreja.

 

P/1 – É?

 

R – Nossa, como a gente gostava de ir pra igreja.

 

P/1 – Por quê?

 

R – E até hoje. Eu gostava, era um momento bom, estava em comunhão com as pessoas, se reunindo, naquele momento. Então a gente se dava muito bem, sabe, sentia bem naquele momento.

 

P/1 – Cantava, também?

 

R – Cantava. Não assim... Cantava, acompanhava o pessoal do canto. Nunca fui assim, fazer frente pra cantar lá, não, nunca fiz. Mas eu fiz a primeira eucaristia nessa igreja, fiz a crisma, participava de encontro de jovens, eles dando uma direção pros jovens, como viver, o jovem vendo o dia a dia. Enfim, aquelas orientações que eles dão pros jovens. Eu participei de muitos momentos assim, encontros.

 

P/1 – E esse colar que você está, que santo que é?

 

R – Aqui é... Você sabe que eu ganhei isso aqui esses dias? No Dia dos Pais.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Eu nem sei que santa é essa daqui.

 

P/1 – Mas você está sempre com um, te acompanhando?

 

R – Ah, sim! Eu ganhei isso aqui no Dia dos Pais, e esse ano Dia dos Pais caiu bem no dia do meu aniversário. A gente estava na igreja e eles deram pros pais e falaram: “Ah, toma pra você também, que você também é como se fosse pai”. Eu falei: “Tá bom”. Coloquei e não tirei mais (risos). Mas eu sempre gosto de usar alguma imagem. Nossa Senhora das Graças... Eu sempre gosto de usar.

 

P/1 – Agora, voltando aqui pra São Paulo. Você disse que foi trabalhar lá na empresa com sua irmã, né?

 

R – Sim.

 

P/1 – Que empresa era, como é que era?

 

R – É Microdigital, chamava a empresa, na Barra Funda.

 

P/1 – E você foi fazer o quê lá?

 

R – Lá eles faziam teclado. Sabe teclado de computador? Eles faziam esse teclado.

 

P/1 – Você lembra mais ou menos que ano que foi? Nos anos 80, ainda?

 

R – Eu cheguei aqui em 80. Deve ter sido em 83, 82, por aí.

 

P/1 – Como é que era o trabalho lá?

 

R – Ah, era gostoso, era muito gostoso. Batia cartão, fazia horário das sete e meia às cinco e vinte da tarde, tinha uma hora de almoço. Fiz muita amizade, nossa, muita amizade. E me dava bem com todo mundo, foi muito gostoso o tempo que a gente ficou lá. Eu fiquei três anos lá.

 

P/1 – Nesse período você ficava muito em casa ou você saía também? Como é que era, conheceu alguém?

 

R – Então, nesse período, o que acontecia? A gente chegava de sexta-feira, às vezes a gente saía. O pessoal já tinha aquele negócio de tomar cerveja num barzinho que tinha perto da firma. “Ah, vamos tomar cerveja”. A gente às vezes ia, tomava cervejinha, tal, tal, brincava um pouquinho. Fazia muita hora extra, fazia bastante hora extra. Chegava de final de semana e ajudava minha mãe em casa, aí um pouco saía. Porque minha mãe também trabalhava. Nesse meio tempo a minha irmã mais velha já tinha a casa dela e a minha outra irmã também, então praticamente em casa era eu com meus pais e meus irmãos, de mulher era eu e minha mãe. A gente pegava a casa e dividia o serviço da casa pra fazer, ela sempre ficava com roupa e comida e eu ficava com a limpeza da casa. Eu saía, mas era muito pouco. Já estava cansada, aí tem que organizar as coisas porque na segunda-feira já voltava a trabalhar. A igreja sempre.

 

P/1 – Sempre?

 

R – Sempre, sempre. Ia pra igreja, chegava e já ia cuidar da casa, tinha o que fazer.

 

P/1 – Depois você saiu dessa empresa?

 

R – Saí, me mandaram embora. Só que nesse meio tempo eu já estava casada.

 

P/1 – Ah, é? Como você conheceu seu marido?

 

R – Eu conheci meu marido num final de ano, fazendo novena do Natal. Você já ouviu falar sobre isso?

 

P/1 – Já. Já fui, já.

 

R – Fazendo novena de Natal, numa casa, fazendo novena de Natal. Ele tocava violão, também. Estava esse moço lá tocando violão, tudo, eu com minha mãe e a gente começou a conversar, ensaiando cântico, aquela coisa toda. Começamos a conversar: “Ah, você mora aqui há pouco tempo, tal, tal”, aquela coisa, “também moro”. E ele começou a frequentar minha casa, fez amizade logo com a minha família, começou a frequentar a casa, tudo, e a gente começou a namorar.

 

P/1 – E se casaram em que ano?

 

R – Casei em 87.

 

P/1 – Você se lembra como é que foi o casamento, o dia?

 

R – Eu lembro. A gente casou dia 14 de fevereiro de 87. Casei de manhã no cartório e à noite casei na igreja.

 

P/1 – É? Como é que foi a cerimônia?

 

R – Ah, foi linda, foi muito bonita. Eu casei com aquele padre Antônio Maria, ele que fez meu casamento, numa igreja que eu queria muito ter casado.

 

P/1 – Onde foi?

 

R – Na Igreja Nossa Senhora da Conceição, no Jaraguá, bem no centro do Jaraguá, mesmo. Eu tinha marcado meu casamento seis horas e o padre falou pra mim: “Você não atrase”, o padre conhecia minha família, e ele falou: “Dalci, procura não atrasar, porque vou fazer uma cerimônia bem bonita”. E eu falei: “Não padre, eu não vou me atrasar”. E sempre tem aquela coisa que o pessoal costuma falar pra noiva atrasar, pra dar sorte, sei lá o quê. Eu falava: “Eu não vou atrasar”. Lembro que no dia do casamento, quase na hora de eu sair mesmo, esconderam a chave do carro no qual eu ia pra igreja. Eu fiquei muito nervosa, porque eu falava que não ia atrasar. Não vou me atrasar, não vou me atrasar. E estava na hora de eu sair e eu falei: “Vamos gente, estou pronta, vamos!”. E cadê a chave do carro? Ai meu Deus. “Eu deixei a chave aqui”, não sei, não achava a chave. E eu: “Gente, pelo amor de Deus, vocês não vão deixar eu nervosa agora, né?”. Fiquei brava já, um pouquinho assim, viram que eu ia ficar muito, apareceram com a chave e eu fui me casar.

 

P/1 – Chegou atrasada, no final?

 

R – Não, não cheguei atrasada. E eram dois casamentos no mesmo tempo, era eu e outra moça no horário das seis. A outra moça chegou bem atrasada, e por eu não chegar atrasada o padre me deu muita atenção. Ele vinha e falava... Deu mais atenção pra mim, sabe? Falava mais. Enfim, eu fiquei toda: “Está vendo como foi diferente chegar no horário?”. Ele explicou: “Não chega atrasada, eu tenho tanto tempo pra fazer a cerimônia dentro desse tempo. Se chegar atrasada eu vou diminuir o tempo, eu tenho outros casamentos depois de vocês”. Ele falou: “Quem chegar atrasada não é justo, eu vou”. Cheguei no horário e ele deu muito mais atenção pra mim.

 

P/1 – E como é que foi depois? Vocês fizeram festa, teve lua de mel?

 

R – Foi, foi uma festa! Nossa, foi uma festona, todo mundo foi pra minha casa. Naquela época não tinha esse negócio de estar alugando salão, fazer buffet, essas coisas, não, era na casa da noiva. Todo mundo foi pra minha casa, e era tudo apertado, por maior que seja a casa, era bastante gente. Mas era muita alegria, todo mundo feliz, aquilo foi muito bom. Saindo do casamento eu fui pra casa de um amigo dele. O amigo tinha ido viajar e falou: “Olha, se vocês quiserem ficar aqui em casa, fica aqui enquanto eu estou viajando”. E ficamos lá na casa do amigo dele.

 

P/1 – Onde era a casa?

 

R – Era em Monte Alegre. Fica perto do Jaraguá, ali entre Pirituba... Fica próximo onde a...

 

P/1 – Onde a Joice mora.

 

R – Exatamente, bem pertinho.

 

P/1 – E qual é o nome do seu marido? É o marido atual?

 

R – É, eu só tive ele (risos). Ele chama Lindauro.

 

P/1 – Lindauro.

 

R – Lindauro.

 

P/1 – E o que ele faz, o que ele fazia na época?

 

R – Na época ele trabalhava numa metalúrgica, trabalhou um bom tempo nessa metalúrgica, depois ele saiu e entrou na Ultragaz. Da Ultragaz ele saiu porque teve um problema de coluna, e hoje ele é aposentado pela Ultragaz, fica em casa.

 

P/1 – Agora, o que foi acontecendo? Você casou com ele... Continuou morando na mesma casa ou você se mudou com ele?

 

R – Quando a gente casou eu fui morar nessa casa debaixo, dos meus pais. A minha mãe: “Não, vem ficar aqui, pelo menos não sei o quê, você é a caçula, você está perto aqui, tal” “Vamos morar aqui”. E a gente foi morar lá. Minha mãe morava na parte de cima e eu na parte de baixo. Depois logo vem um dos filhos, nasceu minha primeira filha.

 

P/1 – Quando você casou com ele, você continuou trabalhando ou ficou mais em casa?

 

R – Quando eu casei com ele eu não estava trabalhando, já tinha saído dessa empresa que eu estava. Eu fiquei em casa e eu engravidei muito rápido, com quatro meses que eu casei, engravidei. A minha filha logo que nasceu ficou com bronquite, eu não podia deixar ela com ninguém, não podia deixar na escolinha, não podia deixar com outra pessoa. Falei: “Não tem como eu trabalhar, eu tenho que ficar em casa pra poder cuidar dela”. Fiquei em casa cuidando por três anos. Depois de três anos fiquei grávida e nasceu a Denise. E foi... Aí eu fiquei em casa e só voltei a trabalhar depois que minhas meninas estavam... Todo mundo grandinha, que cada uma já poderia se virar, eu voltei a trabalhar.

 

P/1 – E você se lembra como foi o dia do parto da sua primeira filha?

 

R – Não esqueço nunca.

 

P/1 – Como é que foi esse dia?

 

R – Foi um dia de quinta-feira, véspera de feriado, na sexta-feira era sexta-feira santa. Cinco horas da manhã da sexta eu subi pra casa da minha mãe e falei: “Mãe, eu estou sentindo dor”. E a minha mãe: “Ai, como assim? Mas como é a dor?”. Eu expliquei pra ela e ela falou: “Está entrando em trabalho de parto”. Eu falei: “Eu sei”. E minha mãe falou: “Vamos pro hospital”. Eu falei: “Não, não vou pro hospital. Não está doendo assim para eu ir para o hospital”. E minha mãe falou: “Nossa, mas você vai ficar aqui assim, vai esperar ficar assim?” “Não. Diz que dói bastante, não está doendo assim, vou ficar aqui”. Eu fiquei. E meu pai saiu pra poder ir pro trabalho. Tinha um vizinho que estava desempregado, meu pai foi lá e falou pro vizinho: “Olha, minha filha está aí, está nos dias de ter neném, está sentindo umas dorzinhas lá. Eu vou deixar aqui a chave do carro caso aumente as dores dela e ela queira ir para o hospital. Você pode levar ela pra mim?”. E o vizinho: “Opa, pode deixar aqui”. Ficou o vizinho lá com a chave do carro do meu pai disponível o tempo todo para me levar pro hospital.

 

P/1 – Seu marido estava trabalhando?

 

R – Estava. Nessa época meu marido estava trabalhando. E meu marido me ligava o tempo todo: “E aí, como é que está?” “Estou ok”. E minha mãe: “Eu não aguento mais, falo pra ela ir para o hospital e ela não vai”, aquela coisa toda. Ele ficou nervoso, veio embora. Chegou, a gente foi pro hospital, era três horas da tarde. Chegou lá, a médica fez: “Ela vai demorar, ainda tantos dedos, tal, tal, pode voltar”, eu vim pra casa. Chegou em casa, daí a pouco dor e dor, começou e eu falava: “Mas eu não vou agora, eu não quero ir” “Vamos, estou vendo que a dor aumentou”. Enfim, quando eu voltei pela segunda vez pro hospital era onze horas da noite. Chega no hospital eles falaram: “Tá, deixa ela aqui, ela vai ficar de observação e vocês podem todo mundo ir embora”. Não tinha essa, era hospital público, não tinha essa de ficar alguém com você. Fizeram a minha internação e eu fiquei lá no hospital esperando a hora. Foi aquela coisa de muita dor, muita dor. Meu Deus, e nada desse neném nascer. Até então eu não sabia o que era, se era homem, se era mulher. Eu naquele desespero pro meu neném nascer e nada, nada, nada. Meu Deus do céu. Comecei a gritar, porque eu estava sentindo muita dor, muita dor. Ouvi muito no hospital, as pessoas falavam pra mim... Foi muito horroroso. As pessoas: “Ah, cala a boca!”, falavam. “Ah, agora você está gritando? Na hora que você estava lá você não gritou”. Nossa, ouvi muito isso naquela época no hospital, muito, muito. Chegou uma hora que eu me senti tão humilhada no hospital que eu falei: “Eu não chamo mais ninguém, não vou chamar. O que tiver que acontecer vai acontecer aqui, eu não vou chamar mais”. E me colocaram num quarto que tinha quatro camas e eu sozinha. Eles apagaram as luzes do quarto, eu fiquei naquele quarto só, sentindo muita dor. Por ser o primeiro filho eu não sabia o que de fato estava acontecendo, porque não nascia o neném, eu sentindo aquela dor toda e não adiantava chamar alguém porque eles me davam voadora. Aí, nossa, eu falei: “Meu Deus, eu vou morrer”, chegou uma hora que eu falei: “Não, é o meu filho aqui”. Quando estava sentindo muita dor mesmo, peguei, deitei na cama e comecei a fazer uma força, uma força, uma força que parecia que eu ia... Minha neném nasceu, eu e ela. Comecei a gritar: “Minha filha nasceu”. Levantei, vi que era uma menina e comecei a gritar: “Minha filha nasceu, minha filha nasceu”. Tinha uma vizinha minha que estava no hospital perdendo uma criança, eu não sabia que ela estava no hospital, nem ela sabia que eu estava naquele mesmo hospital, depois ela contava. Depois ela ficou sabendo que era eu que gritava no hospital “Minha filha nasceu”. “Nossa, era você?” “Era eu que estava gritando ‘minha filha nasceu’”. Tive os melhores cuidados, a partir desse momento. Veio todo mundo, nossa, me trataram super bem, aquela coisa toda. Nisso já era sexta-feira. Ah, primeiro de abril, foi bem primeiro de abril ou sexta-feira santa. Ficava o pessoal ligando para o hospital pra saber se eu tinha tido o bebê, se não. E tinha ligado, mais ou menos, na faixa de umas seis e meia. “Não, não nasceu, ela não ganhou neném ainda”. Eu estava... Meu Deus, na hora, arrancando os cabelos. Sete e vinte ligaram: “Ah, nasceu”. Dali a pouco a minha irmã: “Nossa gente, será que é verdade? Nossa, seis e vinte ligou e não tinha nascido, agora sete e vinte já nasceu? Hoje é primeiro de abril, será que o hospital está mentindo? Será que é verdade?” Ficou aquele dilema na família: “Será que é verdade, será que é mentira”. Correram pro hospital pra ver se realmente era verdade, se o neném tinha nascido. O hospital: “Não, jamais. É verdade, o hospital não pode mentir”. E foi assim.

 

P/1 – Você foi sozinha então, trabalho de parto.

 

R – Trabalho de parto sozinha, sozinha. Tive ajuda somente de Deus. Não tive ajuda de médico, a mesma coisa se tivesse tido na minha casa.

 

P/1 – Na cama, mesmo.

 

R – Na cama mesmo. Não fui pra sala de parto nenhuma, foi na cama mesmo.

 

P/1 – Qual é o nome dela?

 

R – Deise.

 

P/1 – Deise. E a sua segunda filha foi assim também, como é que foi?

 

R – A minha segunda filha também foi quase assim. Por conta de eu ter passado toda essa situação da primeira filha, quando eu engravidei da segunda filha me deu desespero, já lembrava o momento pra nascer. Acabei de descobrir que estava grávida: “Ai meu Deus, e pra nascer?”, já fiquei assim. Mas foram os nove meses, e no dia que foi para ela poder nascer também foi mais ou menos assim, eu senti dor de manhã e: “Vamos pro hospital” “Não, não vou” “Vamos pro hospital” “Não vou”, fiquei o dia inteiro infernizando minha mãe e uma tia minha que estava na casa da minha mãe, ela tinha vindo se tratar aqui em São Paulo e estava passando uma temporada na minha casa. A minha tia falava: “Filha, vamos pro hospital! Você não está aguentando mais, vamos pro hospital” “Tia, não vou, eu vou ficar lá sozinha”. Eu agarrava na mão dela e só faltava quebrar a mão da minha mãe e da minha tia: “Eu não vou, não vou, não vou”. E nossa, com muito custo, já mais ou menos seis horas da tarde eu fui pro hospital. Quando eu cheguei no hospital...

 

P/1 – Era o mesmo hospital?

 

R – Não, fui pro Sorocabana, na Lapa. Quando eu cheguei no hospital ia fazer troca de plantão dos médicos, e os médicos falaram assim: “Nossa, você chegou agora? sua filha já está nascendo”. Eu falei: “Ai, glória a Deus”. Eu só cheguei, ela me levou pra sala de parto, a neném logo nasceu, foi muito rápido. Eu também já cheguei assim, não tinha mais nada para fazer. Fiquei o dia inteiro na minha mãe sentindo dor.

 

P/1 – E os dois foram naturais, então.

 

R – Natural. Eu tenho três filhas.

 

P/1 – Ah, é? Quem são elas?

 

R – Deise, a mais velha; Denise, a do meio; e a Débora, caçula. E o nascimento da Débora foi muito engraçado, da minha caçula. Nossa, foi muito engraçado. Porque era casamento de uma amiga minha, e ela fez a festa na casa dela também, tal, a gente era amiga e ela: “Você me dá uma força no dia”. Eu falei: “Dou, apesar que vai ser bem nos dias que eu estou perto de ter neném, mas eu dou sim, o que eu puder fazer eu faço”. E nesse dia foi assim, aquele dia que eu estava numa disposição, que não sei onde busquei tanta. Limpei casa, fui na feira, cuidei das minhas duas meninas − que eu já tinha as duas −, fiz almoço. Fui pra casa dela ajudar ela à tarde; docinho, brigadeiro, aquela coisa toda. Vim pra casa já finalizando a tarde. Tomei banho, arrumei as meninas e fomos pro casamento. Nossa, toda assim, e não sentindo nenhum pingo de cansaço. Eu falei: “Meu Deus”. E o pessoal: “Meu, você está nos dias de ter neném, o médico não falou que é tal e tal dia?” “É, mas eu não estou sentindo nada, está bem”. Saindo da igreja, vamos pra festa na casa da menina. Aí “pá”, aquela coisa toda, aquele mundaréu de gente dando risada, conversando, estou lá no meio. Nossa, quando deu mais ou menos umas onze horas eu senti uma dor... Uma dor na minha barriga. Eu falei: “Ai meu Deus”. Comentei com uma das minhas irmãs: “Nossa,  me deu uma dor aqui agora”. Ela falou: “Ah, também você não parou, ficou hoje o dia inteiro...”, já me deu uma bronca, né? Eu falei: “Ah, então pode ser cansaço”. Ela falou: “Mas vê se vai voltar a doer de novo. Para, senta um pouco”, me chamou a atenção. Eu sentei e falei: “Não conta pra ninguém, não fala nem pra mãe e nem pro Lindauro que eu estou com essa dor senão vão querer me levar já pro hospital” “Não, tá bom, então você senta”. Aí eu fiquei sentada, a dor começou. Chegou uma hora que eu falei: “Nossa, está doendo muito”. E ela: “Então vou falar pra mãe, sim”. Falou pra minha mãe, foi a mesma coisa que contar pro meu marido. “Ah, vamos embora, vamos embora, vamos embora”. E era pertinho, na mesma rua, a festa. Fui pra casa tomar um banho. Quando tomei um banho a água caiu na minha barriga assim, minha filha falou: “Nossa, é tudo isso que eu queria, um banho pra eu nascer”. Minha barriga fazia aquelas ondas de mar assim, eu: “Ai, vai nascer o neném!”. E eu ia ter o neném aqui no hospital... Aqui na Saúde, do Jaraguá na Saúde, é um caminho. E estava chovendo, começou a chover, chover, chover. Meu cunhado: “Vamos pro hospital”. Eu sei que meu cunhado, nossa, era uma loucura, porque era carro normal, e meu cunhado com o pisca alerta do carro o tempo todo, passava semáforo fechado: “Meu Deus do céu!”, fazia assim, pra passar. Eu falei: “A polícia vai parar a gente! Está nascendo o neném!”, aquela loucura. Quando cheguei no hospital aqui na Saúde, eles: “Nossa!”, já me levaram pra sala de parto sem fazer a ficha de internação. Ficou minha mãe com meu marido lá embaixo fazendo a internação e já me subiram pra sala de parto. Quando eles terminaram de fazer a minha internação: “Pai, se você quiser subir pra ver o neném dela pode subir”. Eu achava que era homem: “Nossa, é homem, vai ser um homem!”, porque totalmente diferente das meninas, as meninas aquela demora pra nascer. Eu falei: “Deve ser um homem”. Quando nasceu o médico perguntou pra mim: “Você já tem outros filhos, né?”. Eu falei: “Sim” “O que você tem em casa?” “Tenho duas meninas” “Ah, então você vai levar a terceira”. Eu sempre falo pra ela: “Você me tirou de uma festa pra nascer”.

 

P/1 – E como é a diferença de idade delas?

 

R – A mais velha hoje tem 27 anos, a do meio tem 25 e a caçula tem 23.

 

P/1 – E o que elas estão fazendo agora?

 

R – A mais velha acabou de ser mãe, tem as gêmeas, está só cuidando das bebês. A do meio vai ter neném agora, dia três, ela trabalha. A mais nova está parada, não está trabalhando no momento, que é a mãe da Helô.

 

P/1 – E você não falou do seu pai nesse dia da Débora. Ele já faleceu?

 

R – Meu pai faleceu.

 

P/1 – Quando foi isso?

 

R – Meu pai faleceu dia 15 de janeiro de 2013.

 

P/1 – Pouco tempo, então.

 

R – É, vai fazer quatro anos.

 

P/1 – Ele tinha quantos anos, o que aconteceu?

 

R – Meu pai era diabético. Ele estava já com 85 anos, viveu bastante, graças a Deus. Ele veio assim... Sabe, quando estava com 83 anos foi se agravando bastante. Teve problema na perna, problema vascular, estava já com certa dificuldade para poder andar. E foi, deu uma parada no intestino dele, eles foram tentar fazer uma lavagem e rompeu o intestino, ele não aguentou e faleceu.

 

P/1 – A sua mãe ainda está viva?

 

R – Não. Minha mãe morreu no dia do aniversário dela.

 

P/1 – É?

 

R – É. Minha mãe faleceu no dia 12 de setembro de 2012. Com quatro meses que minha mãe faleceu, meu pai faleceu.

 

P/1 – E como isso foi pra você?

 

R – Nossa, pra gente o falecimento da minha mãe foi muito triste, uma coisa assim... Eu falo, mas uma coisa que mexe muito comigo. Eu já estava aqui no Museu, e minha mãe era tudo pra mim. Ela era minha mãe, minha amiga, era meu marido, era tudo. Eu não comprava uma xícara sem perguntar pra minha mãe o que ela achava daquela xícara. Se ela falava que era boa, se era ruim, se eu deveria comprar, se não. A gente tinha uma ligação muito boa, eu com minha mãe. Sempre, sempre tive. Era aquela mãe que se preocupava comigo em tudo, saber se eu estava bem, saber se eu tinha dinheiro, saber se eu estava devendo, como é que eu estava. Era não só comigo, com minhas filhas também. Era uma mãe muito presente pra mim, o tempo todo ela ficava ligada em mim, era aquela mãe que se preocupava em saber se eu tinha chegado, se não. Às vezes eu chegava, ia pra minha casa e não avisava pra ela que eu tinha chegado, ela chamava minha atenção, até brincava: “Ah, cara lisa, você chegou e não me avisou que você chegou, né?”. Ela ficava preocupada, então sempre tinha que avisar pra ela: “Ó mãe, cheguei”. Tinha um... Nossa, uma ligação muito boa. E no dia que a minha mãe faleceu eu saí daqui do Museu e falei: “Vou pra casa”. No meio do caminho eu senti vontade de comprar... Ela gostava muito de comer um amendoinzinho japonês que fala, aquele amarelinho da casca amarela, ela gostava muito desse amendoim. Eu falei: “Vou levar, vou comprar amendoim pra levar pra minha mãe”. De repente eu falei: “Ah, quer saber? Eu vou direto. Até eu comprar esse amendoim... Vou embora direto”. E não fui comprar esse amendoim. Antes de eu ir pra minha casa eu entrei na minha mãe, quando eu entrei na casa da minha mãe, meu pai estava na cozinha, sentado na beira da mesa. Ele falava pra mim assim: “Olha sua mãe como é que está lá, aos gritos”. Eu falava: “Mas o que está acontecendo?” “Eu não sei, diz ela que está com uma dor no estômago”. Eu corri pro quarto, ela estava deitada na cama se batendo muito, muito agitada na cama. Eu perguntei o que estava acontecendo e ela falou: “Estou com uma dor muito forte no estômago. Me faz um chá, rápido”. Tentei fazer um chá pra ela, ao mesmo tempo tentando fazer uma massagem, porque falou que era estômago. Minha irmã mais velha logo chegou e eu falei: “Liga, chama o SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência], sei lá, qualquer coisa. Acho que SAMU não, vê alguém pra poder levar, ela não está bem”. A minha irmã saiu correndo, gritando pra ver se conseguia alguém pra levar pro pronto socorro. Nesse meio tempo, foi tudo muito rápido, ela já não... A dor foi mais forte, ela se bateu muito e parou de respirar.

 

P/1 – E o que era, você descobriu depois?

 

R – Ela enfartou. Naquele momento daquela dor era enfarto. A gente mesmo... Eu vi que ela parou, a gente ainda tentou socorrer. Colocamos no carro e levamos para o AMA [Assistência Médica Ambulatorial] que é pertinho da minha casa, e lá a médica falou pra gente: “Por que vocês não a trouxeram logo? Que horas aconteceu isso?”. Eu falei e ela falou: “A dor que ela estava sentindo não era dor no estômago, é uma dor muito parecida, ela estava enfartando”. E foi assim. A gente ficou... Foi muito triste, porque ela morreu numa quarta-feira, e no sábado a gente ia comemorar os 80 anos dela. Ela estava fazendo aniversário nessa quarta-feira, ela estava completando 80 anos. A gente tinha combinado a festa pra fazer no sábado. A gente estava com os convites espalhados, os amigos, parentes, salão, as coisas compradas, a maioria das coisas já tinha comprado, estava todo mundo ansioso pro sábado pra comemorar a festa da minha mãe. Mas não deu tempo. E era muito engraçado, porque nessa quarta-feira a minha irmã tinha ido pra feira, comprado algumas coisas que a gente ia usar no sábado e falou pra ela: “Olha mãe, comprei isso!”, com aquela alegria, tudo: “Olha! Eu comprei isso, comprei essa melancia! Eu comprei melão”, essas coisas assim. E ela não falava nada. Sabe, assim, aquela alegria que estava de comemorar, nesse (dia?) ela parou, como se fosse assim... Nossa, ela não opinava mais nada: “Ai que bom, ai que legal que você comprou! Nossa, que bom que vai ter fruta”. Ela não falava nada.

 

P/1 – Vocês estranharam?

 

R – É. A minha irmã ainda falou: “Nossa, que estranho, a mãe estava tão animada hoje. Fui lá comprando as coisas, falo pra ela e ela está assim. Parece que não está mais contente, não sei, está triste”. E no mesmo dia ela faleceu.

 

P/1 – Entendi. Agora, como é que você conheceu o Museu, como é que foi?

 

R – O Museu o seguinte, eu conheço a Kelly.

 

P/1 – Que trabalha aqui.

 

R – Que trabalha aqui. Um dia ela pediu pra sogra dela arrumar uma pessoa pra trabalhar no Museu, aí a sogra dela foi e falou. E eu estava num trabalho, na época, que eu estava gostando muito. Aí a sogra dela pegou e falou pra mim: “Ai, sabe a minha nora? Está caçando uma pessoa pra trabalhar no Museu. Por que tu não pega? Vai lá pra ver, quem sabe você gosta”. Eu falei: “Ah, pode ser”. Peguei e falei: “Fala com a Kelly pra entrar em contato comigo”. A Kelly me ligou, a gente conversou e a Kelly falou: “Ah, vem aqui pra você ver, tal”. Eu saí do meu serviço, vim aqui e eu lembro que a gente fez uma entrevista com a Kelly e a Marcela lá em cima, na sala, e ela falou: “Tá bom, é você mesmo”. Elas falaram... Acho que tinha uma moça aqui na época: “A gente vai dispensar a moça e você começa tal dia”. Comecei a trabalhar aqui dia 11 de outubro de 2012. Foi.

 

P/1 – E o que você achou daqui, do pessoal, quando você chegou?

 

R – De quando eu estou aqui no Museu até agora parece até mentira, pelo que a gente vê hoje a convivência das pessoas. A maioria do povo reclama da onde trabalha porque são pessoas diferentes, pensam diferente, mas eu falo isso aqui, e agora eu falo isso também na minha casa, ainda esses dias eu falei isso e uma pessoa falou: “Nossa, que bonito”. Eu falei: “Mas é verdade”. Eu gosto muito de trabalhar aqui no Museu. Graças a Deus nunca tive problema com ninguém aqui no Museu, com ninguém. E o que eu costumo dizer é isso, falo que o pessoal do Museu é como se fosse minha família, eu gosto de todo mundo, não tenho nada a falar aqui de ninguém. Todos me tratam bem, todos eu gosto, todos assim, sabe, sem exceção. Um lugar que eu trabalho e que eu gosto de todo mundo é aqui no Museu.

 

P/1 – Já está a quantos anos, quatro?

 

R – É, vai pra cinco anos agora, em outubro.

 

P/1 – E você via o pessoal entrando e saindo aqui desse estúdio?

 

R – É, eu já vi muita coisa aqui (risos), muita coisa nesse período. Gente que já entrou e que saiu, gente aqui nessa sala. Eu ficava: “Nossa, conta aí”, ficava curiosa quando entrei. Depois passou do tempo e eu vi que era o lugar que as pessoas vinham pra contar sua história. Enfim, conheci o Adilson aqui (risos), que hoje é casado com a minha filha, então...

 

P/1 – Mudou um pouco a sua história, né?

 

R – Mudou um pouco, verdade, mudou bastante.

 

P/1 – E você se lembra de alguma coisa que te marcou aqui no Museu que você passou, alguma pessoa que você conheceu? Ou uma situação engraçada?

 

R – Ah, situação engraçada a gente tem sempre, ali embaixo na hora do almoço sempre acontece alguma coisa (risos), a gente ri. Mas assim, alguma coisa marcante, que me marcou muito não tem, normal.

 

P/1 – Você está com quantos anos hoje, Dal?

 

R – Cinquenta e um.

 

P/1 – Cinquenta e um (risos).

 

R – Ganhei até uma garrafa de 51 nesse ano aqui no Museu (risos), você acha?

 

P/1 – Você fez 51 esse ano?

 

R – É, fiz 51esse ano.

 

P/1 – E você tem algum sonho pro seu futuro, hoje? Um plano, alguma coisa assim, o que você pensa?

 

R – O meu futuro eu quero... Penso um dia conseguir me aposentar, que isso é o que a gente espera pra gente. E quero ter sempre meu trabalho, até eu me aposentar. É assim. E mais, quero estar bem com a minha família, quero ver minhas filhas bem, esse é um futuro que eu penso também, não só pra mim, já pensando nelas, o futuro delas, em estar bem. Eu não penso mais em estudar, não penso mais em estudar. Eu queria assim... Meu futuro eu tenho vontade de fazer... Abrir alguma coisa pra mexer com eventos, sabe? Ter o meu próprio negócio para eu poder trabalhar, fazer salgados, bolos, essas coisas. Eu penso. Tenho vontade de ir embora pra Santa Catarina, meu genro fala de ir e eu tenho vontade de ir embora pra lá com ele.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – E se Deus preparar a gente vai. Lá em Santa Catarina eu tenho vontade de abrir esse meu próprio negócio assim, mexer com bolos e salgados.

 

P/1 – Você pensa em cozinhar o quê, salgados?

 

R – Ah, quero fazer bolo, eu penso em fazer bolos, salgados, fazer tortas. Salgado mesmo, coxinha, risole, quibe, essas coisas.

 

P/1 – Entendi. Sempre gostou muito de cozinhar, então?

 

R – Sempre gostei de cozinhar, sempre. Sempre gostei de cozinhar. Em casa, quando a gente faz os nossos eventos, a gente pouco compra, a gente mesmo faz, eu mesma faço. Tenho coragem, vou pra cima, faço, e todo mundo come, todo mundo gosta, graças a Deus. Eu tenho amor, carinho pra poder fazer as coisas, tento fazer o melhor pra mim, sabe? Nossa, faz e todo mundo gosta. Ontem mesmo foi feito em casa, foi aniversário de três anos da Helô, a gente mesmo fez o bolo, as tortas, carne louca. Então assim, a minha filha fala: “O meu sonho é abrir uma casa de salgado pra minha mãe”.

 

P/1 – Você está pensando em chamar como? Tem um nome já ou não pensou ainda?

 

R – Ah, não pensei ainda, mas eu quero colocar alguma coisa que começa com a letra dos meus pais.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Era Antônio e Judite, então, AJ, alguma coisa com AJ, assim.

 

P/1 – Agora, como é que foi contar um pouquinho da sua história? O que você achou, como é que foi?

 

R – Bacana. A gente lembra de coisas que a gente nem para pra pensar no dia a dia, você demora a lembrar disso, de situações, igual eu lembrei lá atrás de quando andava a cavalo, não é coisa que você lembra todo dia. Você volta lá atrás, tem coisa que você nem consegue: “Nossa, realmente eu fazia tudo isso?”. Dá saudade, dá uma saudade das coisas que a gente fazia.

 

P/1 – E foi bom?

 

R – Foi bom!

 

P/1 – Tá bom, então, Dal, obrigado, viu? Que bom que foi bom!

 

R – Foi bom, gostei.

 

P/1 – Obrigado então, viu Dal?

 

R – Imagina.

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