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História de: Isaac Emmanuel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2005

Sinopse

De família judia, Isaac Emmanuel nasce no ano de 1907 em Salonica, na época parte da Turquia. Chega no Brasil em 1925, se estabelecendo no Rio de Janeiro, onde passa a compor a Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl se tornando, futuramente, presidente da Congregação Israelita Beth-El. Aqui eles nos conta um pouco sobre sua vinda para o Brasil e as transformações nos costumes judaicos ao longo dos anos, desde sua infância até os anos 1980, aos seus já oitenta anos. 

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História completa

P - Quando e como nasceu a Comunidade Bene Herzl? 

 

R - O Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl - ou Comunidade Bene Herzl - foi fundada em dois de novembro de 1921, quarto aniversário da Declaração Balfour. Seu nome inicial foi Sociedade Sionista Bene Herzl. Quem sugeriu este nome foi o então líder da Comunidade Ashkenazi, o veterano e saudoso Jacob Scheneider, que era fervoroso sionista e amigo de um dos sefaradim em evidência naquela época, o falecido David Levy. 

 

P - Viviam muitos judeus no Brasil? Em que cidades se concentravam? 

 

R - Naquela época o Brasil contava vinte a vinte e cinco milhões de habitantes. A mais importante e populosa cidade do país era, a então capital da República, Rio de Janeiro, para onde fluía a maior corrente migratória de judeus, tanto ashkenazim como sefaradim. A seguir vinha de São Paulo. Porém, no norte do país, nos estados de Amazonas e Pará, viviam judeus brasileiros da segunda e terceira geração, cujas ascendentes vieram de Marrocos. Eram, portanto, sefaradis. Em compensação, no Estado do Rio Grande do Sul viviam judeus também nascidos no Brasil de origem ashkenazi

 

P - Voltando ao Rio de Janeiro. Havia muitos judeus? Quais eram em maior número, os sefaradis ou os ashkenazim

 

R - Sempre predominaram os ashkenazim. Aproximadamente dez ashkenazim para um sefaradi. Excetuada a coletividade oriunda de Manaus e Belém que é constituída de brasileiros natos e está organizada numa comunidade denominada Shel-Guemilut Hassidim. Os demais, tanto ashkenazis como sefaradis, formavam um pequeno grupo de quarenta a cinquenta pessoas oriundas em sua grande maioria da Turquia - Esmirna, Istambul e Urla - e Grécia - Rodes e Salonica. A maioria emigraria da Esmirna e Rodes. De Salonica eram poucos, muito poucos mesmo. 

 

P - E o senhor veio de Esmirna ou de Rodes? 

 

R - Não. De Salonica. 

 

P - Conte-nos algo sobre as primeiras atividades da recém fundada Sociedade Sionista Bene Herzl e sobre o intercâmbio e relacionamento entre a comunidade sefaradi .e ashkenazi

 

R - Dentre os sefaradim residentes nesta cidade se destacavam David Levy, Salomão Silvain e Emmanuel Galano. Antes mesmo da fundação da Sociedade Sionista Bene Herzl, os três reuniam os sefaradim imigrantes nos dias de Rosh Hashaná e Kipur para os respectivos serviços religiosos que se realizavam numa sala alugada, exclusivamente para estes dias sagrados. Ao fundar a Bene Herzl, David Levy concretizou um projeto que acalentava desde anos atrás: organizar uma pequena comunidade nos moldes das existentes em nossas cidades de origem com objetivos religiosos, beneficentes e assistenciais. Elaborou-se o primeiro o Estatuto da recém fundada sociedade. Além dos objetivos que citei, constavam fins recreativos sociais e culturais e, evidentemente, sionistas, para fazer jus ao nome da sociedade. Embora estes ficassem, lera morta. Todos os imigrantes sefaradim então residentes no Rio se associaram na recém fundada Sociedade. Alugaram para a sede social um pequeno sobrado na Avenida Mem de Sá, se não me engano número 181, de sala e dois quartos, onde se congregavam os sócios e seus familiares. Como eram poucos e todos do mesmo nível econômico, constituíram uma grande família mantendo um excelente relacionamento. Qualquer acontecimento alegre ou triste de um de seus membros era compartilhado pelos demais. Os ashkenazim, por sua vez, que eram muito mais numerosos, se organizaram em várias sociedades do acordo com os seus lugares de origem. Não existia e nem poderia existir o menor intercâmbio ou relacionamento entre as duas comunidades. Um sefaradi se sentia completamente deslocado num círculo de ashkenazis, da mesma forma que um ashkenazi se sentia perdido entre um grupo de sefaradim. Os ashkenazim só falavam iídiche. Nas preces, embora os rituais fossem idênticos, devido a pronuncia completamente diferente do hebraico, tornava-se impossível a um sefaradi ir rezar em uma sinagoga ashkenazi. A recíproca também era verdadeira. Não havia o menor denominador comum entre uns e outros. Era como se se encontrassem um brasileiro com um chinês ou japonês. Assim nem os ashkenazim frequentavam os meios sefaradim, nem estes os ashkenazim. Aliás, salvo raras exceções, uns e outros se consideravam donos da verdade. Só na década de 1950 é que as coisas mudaram. 

 

P - É verdade que a Bene Herzl foi a primeira sociedade judaica do Rio a ter sua sede própria? 

 

R - Exato. Da data de sua fundação, novembro de 1921, até quatro ou cinco anos após, muitos imigrantes sefaradim chegaram a esta cidade. A sede da Avenida Mem de Sá tornou-se pequena. Presidia, então, a Sociedade Sionista Bene Herzl, Salomão Silvain Hazan. Era um jovem senhor muito inteligente, autoritário e dinâmico. Enxergava longe. Viu o potencial que a pequena, mas solidária, coletividade Bene Herzl apresentava. Lançou, então, a ideia de adquirir um terreno localizado nas redondezas para nele construir uma sede própria, ideia que foi acolhida com entusiasmo. Dito e feito. Adquiriram o terreno a Rua Conselheiro Josino catorze. Fica entre as ruas Riachuelo e Mem de Sá, e lá se construiu a primeira sede própria. Primeira, não da Bene Herzl, mas de todas as organizações sefaradim ou ashkenazim que na época existiam no Rio. 

 

P - E quando ficou pronta esta sede? 

 

R - Foi em 1929. O dia da inauguração marcou época na história dos judeus desta cidade. Todos os periódicos noticiaram o acontecimento. Autoridades estiveram presentes. Foi uma solenidade inesquecível. Estava no Rio no dia da inauguração o famoso time de futebol constituído de jogadores judeus da Europa Central. Estiveram todos presentes. Compareceu também uma célebre declamadora judia argentina, Berta Singerman. A sede da Bene Herzl na época, foi considerada um luxo, ampla demais. A Comunidade crescera bastante, já éramos cem a cento e cinquenta famílias concentradas ao redor da Avenidas Gomes Freire, Henrique Valadares, Vila Ruy Barbosa e suas adjacências. O nível econômico de seus membros melhorara bastante. A sede própria era um prédio muito bonito e construído com muito capricho. Aliás, se não me engano, ele ainda existe. Fica bem perto do Templo da Rua Tenente Possolo que foi construído mais tarde. No andar térreo havia um bar, salão de bilhares, jogos de damas e xadrez. Lá todas as noites se reuniam bom número de sócios, tinha mais a sala da diretoria, uma biblioteca e um consultório médico. O segundo pavimento de pé direito, muito alto, compreendia um amplo salão, uma galeria e uma pequena sinagoga para uso diário. No terraço na festa de Sucot, armávamos uma grande sucá. De 1929 a 1937 muitas festas familiares e públicas se realizaram neste grande salão. Os membros da Comunidade Bene Herzl já formavam então um grupo bem homogêneo. Em Yamim Noraim, Rosh Hashaná e Kipur, o salão se transformava numa ampla sinagoga reservada para os homens e a galeria se destinava às senhoras. Foi a época de ouro desta primeira fase da história da Comunidade Bene Herzl. 

 

P - De 1921 a 1937 decorreram dezesseis anos. Quem mais presidiu a Comunidade Bene Herzl? Que outras personalidades se destacaram?

 

R - Bem, a primeira dessas duas perguntas respondo sem receio de errar. Foram David Levy, Salomão Silvain Hazan, Emmanuel Galano e Maurício Mosse. Este último presidiu apenas um mandato de um biênio. David Levy e Salomão Silvain Hazan foram os que mais se revezaram. E se não fosse a morte prematura de David Levy, o recorde de mandatos não pertenceria talvez a Salomão Silvain Hazan. Quanto a Emmanuel Galano, ele era o presidente honorário desde a fundação da Bene Herzl, mas viu-se obrigado, um tanto contra a sua vontade, a assumir efetivamente a presidência num momento particularmente difícil, para sanear a situação financeira da Comunidade. Agora, a segunda pergunta... Foram tantos que se destacaram que prefiro não citar nenhum pois, certamente, omitiria muitos nomes. Naquela época os cargos eram disputados. Havia excesso de elementos querendo trabalhar, o que infelizmente não acontece nos dias atuais. O maior problema de hoje é a falta de elementos humanos. 

 

P - E de 1937 em diante, o que é que sucedeu?

 

R - Neste ano foi proclamado o Estado Novo. Getulio Vargas, que era o presidente provisório do país, mandou fechar o Congresso, Outorgou uma nova Constituição e decretou o fechamento de todos os partidos políticos e todas as sociedades estrangeiras. Todas as entidades judaicas foram classificadas nesta categoria. Existia então um poderoso departamento federal, um misto de político e policial denominado DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda]. Seu chefe era, salvo omissão, o Doutor Lourival Fontes. Ele convocou representantes das diretorias de todas as instituições judaicas e declarou saber que o judeu era um povo ordeiro. Nada havia contra as sociedades judaicas. Mas a lei não poderia instituir exceções. Aconselhou, assim, aos líderes presentes que aguardassem algumas semanas e reabriram as respectivas entidades dando as mesmas um cunho nacional. Evidentemente deveria constar nos respectivos estatutos que só poderiam ser eleitos para o executivo sócios brasileiros natos ou naturalizados. Eu estive presente nesta reunião acompanhando Salomão Silvain Hazan. A esta altura os nossos estatutos já tinham sido alterados e o nome da nossa sociedade era Centro Israelita Bene Herzl. Por coincidência, estatutariamente os diretores deveriam ser brasileiros. Assim aproximei-me do Senhor Lourival Fontes e, com o estatuto na mão, argumentei que a nossa sociedade não poderia ser classificada como estrangeira, tanto mais que logo no artigo primeiro do Estatuto havia um parágrafo dizendo que o termo israelita usado neste Estatuto tem um significado exclusivamente religioso. O Doutor Lourival Fontes era um intelectual muito inteligente, olhou para mim e disse: “Realmente, o Centro Israelita Bene Herzl é uma entidade nacional. Pode continuar funcionando. Não será fechado. Aconselho-lhe apenas substituir a expressão Bene Herzl pelo vocábulo brasileiro. E assim a nossa sociedade foi a única instituição judaica que não fechou e passou em diante a denominar-se Centro Israelita Brasileiro. 

 

P - Quer dizer, então, que as atividades usuais da Bene Herzl não sofreram solução de continuidade? 

 

R - Sofreram, sim, e muito. Durante onze anos de 1937 a 1948, as atividades de Bene Herzl se limitaram exclusivamente aos serviços religiosos habituais e a assistência beneficente e funerária.

 

P - Por quê?

 

R - Três fatores contribuíram para esses onze anos de estagnação. O primeiro foi que, a partir de 1933 houve uma maciça migração dos judeus sefaradim para Copacabana e frequência dos sócios na sede da Rua Conselheiro Josino diminuiu muito; a segundo foi a proclamação do Estado Novo, na qual me referi há pouco; e o terceiro foi a Segunda Guerra Mundial. 

 

P - Mas não se realizavam festas, bailes, casamentos e Bar Mitzvá? 

 

R - Veja, Karen. As coisas tinham mudado. Festas íntimas passaram a ser promovidas nas residências particulares. A Comunidade crescera em número de membros. Não podia mais se convidar, como antes, todos os sócios para um aniversário natalício ou de casamento. Algumas cerimônias matrimoniais ainda se realizavam na sede da cidade, mas a maioria delas se celebravam no próprio bairro de Copacabana. Havia poucos Bene-Mitzvá. Não fosse os dias de Yamin Moraim, Rosh Hashaná e Yom Kipur, a família Bene Herzl em sua totalidade não tinha mais nenhuma oportunidade de se encontrar. 

 

P - E o que é que sucedeu a seguir? 

 

R - Em 1948 assumiu a presidência Salvador Esperanca. Era um homem de iniciativa, enxergava longe e tinha espírito criativo. Por índole era muito modesto mas, ao mesmo tempo, muito inteligente e atirado. Convencido de que a Comunidade Bene Herzl, a continuar do jeito que estava - com a sua quase totalidade de suas atividades paralisadas - acabaria por sucumbir, convenceu os demais colegas de diretoria a transferirem para Copacabana a sede social, permanecendo a sede da Rua Conselheiro Josino exclusivamente para fins religiosos. Salvador Esperança foi incondicionalmente apoiado por Matheus Menasche, outro grande líder. Os dois trabalhando numa perfeita comunhão de ideias e de pensamentos ressuscitam das cinzas a Comunidade agonizante. Começou, então, a segunda fase da história do Bene Herzl. Outra época de ouro, maior e mais resplandecente do que a primeira, ocorrida na sede da Rua Conselheiro Josino de 1929 a 1937. Instalamos a sede social numa mansão da Rua Pompeu Loureiro, hoje ocupado pelo Colégio Barilan. Em 1951 adquirimos o imóvel da Rua Barata Ribeiro 489, onde estou sendo entrevistado por vocês duas. É uma grande propriedade de quase seis mil metros quadrados, hoje muito valorizada. O prédio sofreu grandes obras de adaptação. O sucesso foi colossal. Na época não existia nesta cidade nenhum clube ou centro social israelita e a localização da Bene Herzl não poderia ser mais privilegiada. Ingressou um grande número de sócios, inclusive ashkenazim, pois à esta altura o relacionamento entre sefaradim e ashkenazim melhorara muito. Já havia, então, muitos jovens judeus brasileiros natos, não existindo, assim, a menor discriminação de origem. Em 1964 iniciamos a construção do Templo Beth-El, aqui ao lado. Foi solenemente inaugurado em 1966. Antes disso, em 1959 inauguramos, o Lar dos Velhos Israelitas Bene Herzl, na Rua Prudente de Morais 1017. Como estão vendo, progredimos muito. A distância percorrida foi muito grande. 

 

P - Mas tudo isso cheira a milagre. Se a sede da Comunidade foi transferida da cidade para este bairro, conforme o senhor afirmou, em 1948, como foi possível que em 1951, ou seja, apenas três anos após, adquirissem o imóvel onde nos encontramos neste momento? Que, pelo seu tamanho, deveria ter custado uma nota...

 

R - Concordo que parece inverossímil, mas foi exatamente o que sucedeu. Tanto mais que, ao alugarmos a mansão da Rua Pompeu Loureiro, toda a receita da Bene Herzl não dava para cobrir nem uma quarta parte da locação. Mas Salvador Esperanca, Matheus Menasche, Ricardo Musafir - o pai de Leon Roosevelt Musafir, atual presidente do Lar dos Velhos - e mais um quarto sócio, cujo nome não me lembro, assinaram o contrato de locação como fiadores. Estavam todos otimistas, certos de que a mudança seria bem sucedida. E foi o que aconteceu. Houve tantas atividades sociais, recreativas, culturais e esportivas, o numero de socios cresceu tanto e em tão pouco tempo que o fluxo de caixa não cessou de crescer. Dava pra cobrir a despesa e sobrava dinheiro. Contratamos um rabino, o primeiro rabino que a Comunidade Bene Herzl teve foi Isaac Samuel Emmanuel.

 

P - Tem o mesmo nome do senhor. É, por acaso, seu parente? 

 

IE- Era. Ele já faleceu. Era meu primo, filho de um irmão de meu pai. Era muito ortodoxo. Como ele morava em Copacabana e os serviços religiosos aos sábados e dias festivos se realizavam na sede da cidade, entrou em conflito com a Diretoria, pois não tomava condução nestes dias. Depois de muitos debates fizemos um acordo que não satisfez muito o rabino. Aos sábados e dias festivos - Pessach, Shavuot e Sucot - ele ia à cidade de bonde usando passes ao invés de dinheiro, e em Yamim Noraim, Rosh Hashaná e Kipur, hospedava-se num hotel perto da Sinagoga. Permaneceu conosco pouco tempo, de dois a três anos. Mas, voltando ao assunto de como em tão pouco tempo conseguimos adquirir a sede onde nos encontramos neste momento, foi graças ao lançamento de títulos de sócio vitalício. Foi uma ideia genial, muito bem sucedida. Houve socios que compraram diversos títulos. A relação dos mesmos está gravada numa placa de bronze colocada perto da entrada do salão Matheus Menasche. A Sinagoga Beth-El foi construída com fundos provenientes da venda de localidades. Poderia ter sido construída dez anos antes do que foi. Pois, em 1954, o departamento beneficente religioso da Comunidade, que se denominava Ahava Vahessed - amor e caridade -, então presidido por Alberto Behar - outro grande líder da Bene Herzl - já tinha selecionado o projeto de sua construção de autoria do arquiteto Elias Kaufman, que tirara o primeiro lugar num concurso promovido pelo referido departamento. Mas a construção atrasou dez anos devido à forte oposição de muitos socios do Centro que não aceitavam a construção de uma Sinagoga junto ao Clube. Até que, em 1964, a então Assembleia de socios fundadores do Centro - que era o poder máximo da Comunidade - deu plenos poderes a uma Comissão para planejar e construir o Templo Beth-El. No saguão da Sinagoga foram gravados os nomes dos membros desta Comissão numa placa de mármore. Por oportuno acrescento de que quem mais se destacou na concretização do projeto foi Ezra Saragosti. Em 1967, quando eu fui eleito presidente da Congregação Religiosa Israelita Beth-El - sucessora do extinto Departamento Beneficente Religioso Ahava Vahessed - propus e consegui ver aprovada minha proposta para que se denominasse o salão de festas da Sinagoga “Salão Ezra e Selma Saragosti”. Quanto ao Lar dos Velhos Israelitas Bene Herzl, ele foi instituído em consequência de um legado testado pela falecida Angelique Jessouroum, de nacionalidade francesa, esposa do falecido sócio Jacques Jessouroum. Ela legou para este Centro metade de um imóvel da Rua Prudente de Morais 1017, e a outra metade à uma sociedade francesa, com a condição de se instituir no referido imóvel um lar para amparar a velhice. Naquela época o Centro Israelita Bene Herzl se desdobrava em dois departamentos. O social-esportivo-recreativo e o beneficente-religioso Ahava-Vahessed. Concomitantemente, as esposas dos socios instituíram a Sociedade Beneficente de Damas Israelitas. Por uma feliz coincidência, a Sociedade francesa beneficiada com metade do imóvel dispôs-se a nos ceder esta sua parte por um preço acessível. Presidia, então, a Sociedade Beneficente de Damas Israelitas, Esther Esperança Esquenazi - irmã de Salvador Esperança - e que acalentava desde anos atrás a fundação de um Lar de Velhos. Adquiriu, pois, a metade do imóvel e, conjuntamente com a Ahava-Vahessed, instituíram em 1959 o Lar dos Velhos Israelitas Bene Herzl, presidido por Alberto Behar até o dia do seu falecimento. Sucedeu a Alberto Behar o Leon Roosevelt Musafir. O Lar dos Velhos tem prestado relevantes serviços à coletividade judaica desta cidade. O falecido Matheus Menasche costumava dizer que o Lar dos Velhos é o cartão de visitas da Comunidade Bene Herzl. 

 

(continuação)

 

P - O Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl, ou a Comunidade Bene Herzl, como o senhor a denominou várias vezes, foi fundada em 1921. Ou seja há 66 anos. No decorrer deste longo período a sua estrutura, a sua organização, seu próprio nome e seus estatutos sofreram alterações? 

 

R - Claro. O nome inicial foi, como já disse, Sociedade Sionista Bene Herzl. Pouco antes da inauguração da sede própria da Rua Conselheiro Josino, em 1929, fez-se a primeira alteração estatutária, estruturando a Sociedade como um Centro Comunal e, em consequência, o nome da mesma sofreu a primeira alteração, passando a se denominar Centro Israelita Bene Herzl. Em 1938, poucos meses depois da declaração do Estado Novo, houve uma segunda alteração estatutária, apenas para nacionalizar o Centro, e o nome foi novamente alterado, passando a se chamar Centro Israelita Brasileiro. Em 1949, ao nos instalar em Copacabana, houve uma terceira alteração estatutária com duas importantes modificações às quais me referirei daqui a pouco, e nesta ocasião intercalarmos ao nome a palavra Bene Herzl, passando a se denominar Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl, nome que conserva até hoje. Houve mais duas alterações estatutárias. A quarta em 1956 e a quinta - e última - em 1970, ambas com intuito de melhor estruturar a comunidade. Os objetivos do Centro nunca foram alterados. A sua organização e sua estrutura, sim. Na primeira fase de sua existência, isto é, de 1921 a 1948, enquanto nossa sede era na Rua Conselheiro Josino, a Diretoria eleita pela Assembleia Geral tinha todas as atribuições executivas. Ao nos transferir para Copacabana, reformulamos os Estatutos introduzindo as duas importantes alterações que citei há pouco. foi criado o Conselho Deliberativo, que elegia a Diretoria e uma categoria sui generis de sócio, o Sócio Fundador, sendo direito exclusivo desta categoria de sócios elegerem-se tanto para o Conselho Deliberativo como para a Diretoria. 

 

P - O que o senhor quis dizer com sócio fundador sui generis

 

R - É que não tem nenhuma analogia com o verdadeiro significado de sócio fundador. Nós definimos nos estatutos como sócios fundadores os que já pertenciam ao quadro social antes da mudança da sede para Copacabana, estendendo ainda este direito a seus descendentes. Como enquanto permanecemos na sede da cidade todos os socios sem exceção eram sefaradim, e considerando que não existia nenhum centro ou clube nos moldes do nosso, previmos que, ao nos transferir para Copacabana, grande número de ashkenazim se matriculariam como sócios e, como eles eram maior em número, em breve perderíamos o controle da Comunidade que fora instituída como uma organização eminentemente sefaradi. Com a criação da figura artificial do sócio fundador, conseguimos manter a entidade administrada exclusivamente por elementos sefaradim. Outra importante alteração na estrutura do centro foi o seu desdobramento em dois departamentos. Um social-cultural-recreativo-esportivo e outro beneficente-religioso, os dois quase que autônomos e independentes. O departamento beneficente religioso se chamava "Ahava-Vahessed - amor e caridade”. Os socios podiam se matricular num ou noutro, dos dois departamentos, ou em ambos. A receita da Ahava-Vahessed se destinava exclusivamente para finalidades religiosas e beneficentes. Foram presidentes da Ahava-Vahessed Felix Hassen, Alberto Behar, Matheus Menasche, Ricardo Musafir, Leon Politi, Mauricio Campeas, Ezra Saragosti, Isaac Emmanuel, Sadoc Avzaradel, Jacob Burla e o atual presidente, Sami Schinazi. Os últimas quatro, na realidade, presidiram a Congregação Religiosa Israelita Beth-El, que foi a sucessora da Ahava-Vahessed. Mas, a meu ver, a última alteração estatutária de 1970 foi a mais importante de todas. Alicerçou a estrutura final e ideal da Comunidade, conservou intactos seus objetivos e acabou de vez com certo mal estar que a figura artificial do sócio fundador estava criando. 

 

P - Como conseguiram este objetivo? 

 

R - Veja, Diane. Os sefaradim fundaram esta Comunidade Bene Herzl. Cresceu e progrediu muito. Adquiriu um patrimônio invejável. Em relação aos ashkenazim, éramos e somos uma minoria. Na realidade, nunca houve a menor discriminação contra os ashkenazim, mas é muito natural que quiséssemos preservar nossos usos e costumes mormente nos setores religiosos e assistenciais. Ora, com o decorrer do tempo, sefaradim e ashkenazim, que nas primeiras décadas do século viviam isolados sem o menor denominador comum, estreitaram cada vez mais seu relacionamento. Casamentos entre membros das duas comunidades começaram a ser celebrados cada vez com maior frequência. Mas até 1970 um sócio ashkenazi, mesmo sendo brasileiro nato, não tinha estatutariamente direito a ser eleito para o Conselho Deliberativo, muito menos para a Diretoria. E o numero de socios ashkenazim era bem grande. Eram considerados sócios de segunda categoria. Isto, como já disse, criou um mal estar que deveria acabar. De outro lado, a experiência nos provou que nenhum ashkenazi postulava ter qualquer cargo na Congregação ou no Lar dos Velhos. Partindo daí encontramos a solução ideal. Desdobramos o Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl em três entidades não soberanas, mas plenamente independentes e autônomas: Congregação Religiosa Israelita Beth-El, Lar dos Velhos Israelitas Bene Herzl e Clube Israelita Brasileiro. As três filiadas à Comunidade Bene Herzl, ou Centro Israelita Brasileiro Bene-Herzl. Cada entidade tem seu próprio estatuto que pode alterá-lo, desde que não se desligue da Comunidade e observe seus objetivos originais. O patrimônio imóvel das três entidades e do Centro está registrado nos respectivos cartórios imobiliários em nome do Centro. Este, pela reforma estatutária de 1970, deu em usufruto a cada uma das entidades a parte que interessava às mesmas. O Centro pode intervir em qualquer das três entidades em casos específicos. Mas nestes dezessete anos da atual estrutura nunca houve o menor atrito quer entre as três entidades, quer entre uma delas e o Centro. 

 

P - A Comunidade Bene Herzl participou da fundação do Cemitério Comunal Israelita no Caju? 

 

R - Participou, sim, e muito. Para fazer um relato completo desta questão, vamos recuar no tempo. Nas primeiras décadas do século o Rio de Janeiro era capital da República, o chamado Distrito federal. A administração de todos os cemitérios era de competência da Santa Casa da Misericórdia. Era uma espécie de monopólio. Os imigrantes ashkenazim, bem mais ortodoxos que que os sefaradim, trataram logo de ter um cemitério próprio. Na impossibilidade de construí-lo no Distrito Federal foram para Vila Rosali, no então Estado do Rio de Janeiro. Naquela época não existia estrada rodoviária para Vila Rosali. Ia-se de trem. Um sepultamento demorava um dia inteiro. Tinha que se solicitar a estrada de ferro, a colocação no comboio de um vagão especial. Ia-se de manhã e só se voltava ao escurecer. Assim os sefaradim, quer pelo desejo de sepultar seus mortos num local mais acessível, quer pelo fato de não existir na época nenhum relacionamento mais aberto entre os dois ramos de judaísmo, habituaram-se a sepultar seus mortos na Cemitério do Caju, na quadra dos protestantes. Alguns poucos membros da Comunidade Bene Herzl foram sepultados em Vila Rosali, já a maioria de imigrantes sefaradim, senão a totalidade, de origem árabe, como os sírios e libaneses, foram sepultados em Vila Rosali. Uns e outros eram mais ortodoxos. Porém o projeto de se conseguir um cemitério exclusivo para judeus no Distrito Federal sempre esteve na ordem do dia. Houve muitas tentativas mas todas fracassaram. A Santa Casa era muito poderosa e se opunha terminantemente à realização deste sonho. Até que surgiu Leon David Levy, membro da comunidade Bene Herzl, meu conterrâneo por coincidência. Tem um lugar marcado na história dos judeus desta cidade. Legou-nos uma obra perene. O Cemitério Comunal Israelita. Foi um trabalho todo pessoal, penoso, árduo e tenaz. Começou em 1950 e terminou em 1956. Os três primeiros anos foram gastos em formalidades. Leon David Levy era teimoso e paciente. Abandonou negócios, família e lazer para se dedicar exclusivamente à esta obra. Ia empurrado de uma repartição para outra, de um político influente para outro de influência maior. Ele estava respaldado por oito congregações religiosas sefaradim e uma ashkenazi, a ARI. Até que, finalmente, a Comunidade Bene Herzl lhe proporcionou o maior subsídio, o trunfo decisivo. Naquela ocasião o saudoso Levy Neves, grande amigo dos judeus, era um político em evidência com trânsito livre no gabinete do prefeito. Era, se não me engano, Presidente da Câmara dos Vereadores. Amicíssimo de Matheus Menasche e Salvador Esperanca, sócio honorário do Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl, resolveu, a pedido destes, ajudar Leon David Levy, dando lhe total assistência e acompanhando-o pessoalmente onde quer que tivesse de se dirigir. O resultado foi a assinatura do contrato com a prefeitura em outubro de 1955, cedendo ao Conselho de Administração do Cemitério Comunal Israelita um terreno no Caju para a construção de uma necrópole exclusivamente para judeus. Seguiram-se mais três anos de labuta. Em julho de 1953 foi assinado aqui mesmo, no Salão Salvador Esperanca, pelos presidentes das nove congregações, o Convênio que equivale ao Estatuto do Cemitério. A partir daí o Leon David Levy se dedicou a árdua tarefa de angariar fundos para murar o terreno e construir as dependências da necrópole, cuja pedra fundamental foi lançada em outubro de 1954. E, finalmente, em março de 1956 foi inaugurado o Cemitério Comunal Israelita sob a presidência de Leon david Levy. Bem, acho que já relatei tudo. Toda a história desta Comunidade Bene Herzl. 

 

P - Gostaria de lhe fazer mais duas perguntas. 

R - Às ordens. É só formulá-las. 

 

P - A primeira é: quem é que o senhor indicaria para a gente entrevistar? 

 

R - Deixa eu pensar um pouco. Os mais importantes infelizmente já faleceram. Poderiam tentar junto ao Samuel Avzaradel e o oficiante-mor da Sinagoga Beth-El. Conheceu todos os sefaradim da Comunidade Bene Herzl. Foi um dos primeiros imigrantes a pisar esta terra. 

 

P - Já tentamos. Pouco conseguimos. Prometeu-nos procurar fotografias e documentos antigos que ele tem guardados, mas parece que está fugindo da gente. 

 

R - Olha, Diane, pelo que eu sei ele é bem prestativo. Devem desculpá-lo pois ele é muito idoso. Acho até que centenario. Quatro outros que poderia indicar-lhes são Isaac Eduardo Hazan, Eduardo Alhadeff, Jacques Alhanati e Leon Roosevelt Musafir. Segunda pergunta. 

 

Di - Se de uma forma geral tem algo a acrescentar. E, sobretudo, quais as expectativas para o futuro? 

 

IE - Me parece que já disse tudo. Resumindo, a Bene Herzl teve quatro fases distintas, quatro períodos diferentes. Os dois primeiros decorreram na cidade. O primeiro de 1921 a 1937, foi quando a Comunidade nasceu e cresceu, a primeira época de ouro de sua história. O segundo período foi de 1937 a 1948, onze longos anos de completa estagnação. A Comunidade não pereceu devido às suas atividades religiosas. Nestes dois períodos foram seus presidentes David Levy, vários mandatos, e Salomão Silvain Hazan, o que mais se destacou e mais tempo a presidiu como presidente. Mauricio Mosse, um só mandato e Emmanuel Galano, três a quatro mandatos. O terceiro período ocorreu de 1948 a 1970, foi a segunda época de ouro da Bene Herzl. Foi presidida por Salvador Esperança, a maioria de tempo, Matheus Menasche, Victor Hassan e Isaac Eduardo Hazan. O quarto período vai de 1970 até hoje. O Centro ficou como a entidade de cúpula. Matheus Menasche presidiu-o até a sua morte, isto é, de 1970 a 1986. Isaac Emmanuel o sucedeu de 1970 em diante, cada uma das três entidades que compõem o Centro teve vida própria, autônoma e independente. Foram presidentes do Clube Gregório Belach, José Gomlevsky, Isi Chonchol, Isaac Amar, Jacques Alhanati e Carlos Varsano. Os dois primeiros são ashkenazim. Os presidentes da Congregação e do Lar, já os citei antes. Os orçamentos das três entidades são equilibradas. Nenhuma delas tem dívidas. Quanto às expectativas para o futuro, não quero ser pessimista, mas não são muito brilhantes. Temos muita carência de novos elementos principalmente de jovens. Sobretudo no Lar e na Congregação. As novas gerações estão se afastando da Comunidade, da tradição e da religião. Mais de uma vez eu afirmei que em Israel o judeu pode se dar o luxo de ser ateu que mesmo assim continua judeu, mas na diáspora, o judeu que se afasta da religião é como as folhas amarelas e desbotadas que no outono caem das árvores e o vento espalha pelos quatro cantos. Aqui, como nos demais países fora Israel, a judeu que se afasta da religião se assimila e está perdido para o judaísmo. E neste particular, aqui no Brasil, lamentavelmente, os sefaradim muito mais do que os ashkenazim, estão seguindo este caminho. 

 

P - O senhor nos falou muito pouco da vida comunitária como ela se encontra estruturada atualmente. Por quê? 

 

R - Você tem toda razão. Foi simplesmente uma omissão de minha parte. Vou completar meu relato fornecendo-lhes algumas ocorrências sucedidas de 1970 para cá. Foi neste ano que o Centro abriu mão de quase todas suas atribuições transferindo-as para as três entidades autônomas. Desta forma a história da Bene Herzl passou a ser a história de cada uma das três instituições filiadas ao Centro. Vamos começar pela Congregação Religiosa Israelita Beth-El. A seu cargo ficou a manutenção do Templo, o ensino religioso, a comemoração das festas religiosas e a assistência funerária. Poucos anos antes da Construção do Templo Beth-El, a Congregação, que conforme disse há pouco se denominava Ahava Vahessed contratou um rabino, o segundo e último que esta comunidade teve. Foi o rabino Meir Matzliah Melamed. Não era tão ortodoxo como o rabino Emmanuel. Era e é, pois ainda vive em Miami, culto e profundo conhecedor da religião, da tradição, do ritual e da literatura rabínica. Traduziu a para o português, e mais tarde para o castelhano, o livro de orações diárias, Sidur, e a Torá, Lei de Moisés. Ainda era nosso rabino por ocasião da inauguração do Templo Beth-El. Incompatibilizou-se com o então presidente do Congregação, Ezra Saragosti e demitia-se. Também, pouco antes da inauguração do Templo, contratamos um jovem oficiante, Leon Chiprut, que nos prestou relevantes serviços no decorrer de dezesseis anos que permaneceu aqui. Era um excelente oficiante, tinha uma voz extremamente melodiosa, era religioso ortodoxo, e conhecia com perfeição o ritual sefaradi. Vive agora em Zurique, na Suíça. Não quis mais ser oficiante profissional. Também contratamos o professor Moisés Kandelman para orientador da Juventude. Ele ainda nos presta seus serviços, tem a palavra fácil. Aos sábados ocupa o púlpito da Sinagoga para um breve sermão. Celebra casamentos, dá aulas de religião a meninos que vão festejar o Bar-Mitzvah e às meninas que se formaram no Bat-Mitzvah. Ocasionalmente substitui um oficiante, pois também tem uma voz muito melodiosa. O Templo Beth-El é hoje, depois da ARI, a sinagoga onde maior número de bene-mitzvah se realizam. Tem sábados de dois bene-mitzvah. A Sinagoga fica repleta. Edita anualmente o calendário religioso que, na opinião do rabino Matzhah, é o melhor da América do Sul. O seu ritual é o ortodoxo sefaradi com apenas duas concessões que quebram a linha rígida da ortodoxia. O uso de microfones e alto-falantes no recinto da Sinagoga e o acesso na plateia do público feminino, excetuada nos dias de Yamim Noraim, Rosh Hashaná e Yom Kippur quando as senhoras ocupam com exclusividade o balcão e os homens a plateia. A capacidade da Sinagoga é de quinhentos assentos, sendo trezentos na plateia e duzentos no balcão. A arca santa tem capacidade para conter dez sefarim - rolos de lei -, mas a Congregação possui quinze ou dezesseis, sendo que três foram emprestados ao Lar dos Velhos Bene Herzl e permanecem na Sinagoga desta entidade. 

 

P - A Propósito, nós vimos estes rolos da Lei. Mas informaram que pertencem aos imigrantes egípcios. 

 

R - Não, não é verdade. Os imigrantes oriundos de Turquia e da Grécia trouxeram com eles alguns. Outros foram doados por sócios. Apenas quatro rolos chegaram com os imigrantes egípcios. Aliás, eles se distinguem dos demais pela sua conformação. Os rolos da lei usados no Egito são os que estão incrustados em caixas de madeira ornamentadas por desenhos artísticos, enquanto os demais são revestidos com paramentos de veludo também artisticamente bordados. A diferença que apresentam é que enquanto a leitura num sefer egípcio exige que o mesmo fique em posição vertical, ocultando do público o leitor e abafando a voz, os rolos em uso nas comunidades da Turquia e da Grécia - e se nao me engano nas sinagogas ashkenazim - são lidas mantendo-se as mesmas no púlpito em posição horizontal, o que permite que o público ouça melhor e veja o leitor. 

 

P - O senhor sabe os nomes dos que doaram estes rolos da Lei? 

 

R - Apenas alguns. Acho que a pessoa mais indicada para dar-lhes esta informação é o Samuel Avzaradel. 

 

P - Mas nós nada conseguimos com ele. 

 

R - Bem então vou-lhes dizer o que sei a este respeito. Certeza mesmo eu tenho de nomes de quatro doadores. Um rolo foi doado por Isaac Mosse, um segundo por Victor Muzafir, um terceiro por Alberto Behar e um quarto pelo casal Yvone e Mario Esperança. Os três primeiros já faleceram. Tenho a impressão que um outro rolo foi doado por Isidor Hazan, irmão de Salomao Silvain Hazan. Quanto aos demais, nada sei, senão que todos eles, sem exceção, foram doados. 

 

P - E o Isidor Hazan vive? 

 

R - Não. Também já faleceu. 

 

P - E os quatro rolos egípcios, sabe quem os doou? 

 

R - Não, mas talvez o Sabatino Avigdor ou o Sami Schinazi possam informar-lhes. 

 

P - Os imigrantes egípcios se incorporaram assim que chegaram a Comunidade Bene Herzl? 

 

R - Não. Eles fundaram uma Congregação denominada Maimonides. Socialmente, abrimos-lhes as portas do Clube a título gracioso. Mas a Sinagoga Maimonides se incendiou e daí em diante começaram frequentar a Beth-El. Eram, na ocasião, mais ortodoxos. Quando eu assumi pela primeira vez a presidência da Congregação Beth-El, fiz questão de indicar três elementos da Maimonides para a Junta Executiva. Foram Sabatino Avigdon, Sarni Schinazi e Isaac Franco. Um outro fator que favoreceu o aumento de frequência na Beth-El foi o deslocamento de muitos judeus sefaradim de origem síria e libanesa da Tijuca para Copacabana. Estes também trouxeram um novo sopro de ortodoxia de maneira que os antigos frequentadores da Beth-El, que formavam um grupo homogêneo, hoje são minoria. Minoria digo na frequência da Sinagoga aos sábados e dias festivos. Apenas em Rosh Hashaná e Kippur é que predominam. Isto resume todas as atividades da Congregação Religiosa Israelita Beth-El no decorrer desses quase vinte anos. 

 

P - E sobre a assistência funerária? 

 

IE - Bem. Há uma diferença estrutural entre o Cemitério Comunal Israelita e o da Vila Rosali. Este último administra o Cemitério e ao mesmo tempo presta a assistência funerária. As duas atribuições se confundem. Os ashkenazim tem uma única Chevra Kadisha, que significa Santa Sociedade. No Cemitério Comunal Israelita o critério é outro. Como ele foi fundado por nove diferentes Congregações e cada uma delas já tinha sua Chevra Kadisha, o Cemitério não interferiu neste particular. Vocês duas sabem, por acaso, as atribuições da Chevra Kadisha? Não? Vou explicar-lhes. Ela se incumbe da remoção do corpo para o cemitério. Lá é lavado segundo regras rígidas do ritual, amortalhado e colocado no caixão. A seguir o oficiante pronuncia as preces e o corpo é sepultado. O oficiante ainda comparece de manhã e ao anoitecer, quer na residência do falecido, quer na Sinagoga nos sete primeiros dias de luto, que em hebraico se chama Shivá, para as preces rituais. Aí termina a atribuição da Chevra Kadisha, ou a assistência funerária. Cada ramo das nove Congregações cofundadoras do Cemitério Comunal tem seu próprio critério para a prestação deste serviço, mas uma coisa é certa: ricos e pobres recebem idêntica assistência. No cemitério cabe ceder o túmulo e executar a lápide. Das nove congregações, algumas não mais existem. Outras não mais têm sua própria Chevra Kadisha. A Beth-El se encarrega do sepultamento dos sócios e familiares de sócios destas congregações pois neste particular apresenta um serviço impecável. 

 

P - E sobre as atividades do Lar dos Velhos e do Clube? 

 

R - Vamos por partes. O Lar dos Velhos Israelitas Bene Herzl, como já me referi há pouco, foi fundado em 1959. Metade de seu patrimônio pertence à Comunidade Bene Herzl e a outra metade à extinta Sociedade de Damas Israelitas. Esta Sociedade ajudava os correligionários pobres sem distinção de origem a organizar achas mensais que tiveram grande sucesso e lhes propiciava boa parte de fundos. Do púlpito de Sinagoga muitos também ofereciam donativos. Prestou inestimáveis serviços à coletividade judaica desta cidade. Foi presidida por Fortunee Saul, Flor Menasche, Sara Chonchol, Neama Caneth, Linda Toras, Rebeca Musafir, Alegre Abulafia e Esther Esperança Esquenazi. Esta última sonhava em ter uma sede para abrigar a velhice desamparada. Quando a Sociedade Beneficente Francesa resolveu ceder a metade do legado testado por Angelique Jessouroum, Esther Esperança Esquenazi já tinha um plano esboçado para adquiri-la. Vou-me desviar um pouco do assunto para tecer um comentário. Esta Comunidade Bene Herzl foi abençoada por Deus. Toda vez que nós tivemos necessidade de dinheiro, surgia alguém de quem menos esperávamos para oferecê-lo. Aconteceu isso quando compramos a propriedade onde nos encontramos em 1951. Um correligionário, até então desconhecido, que nem sócio do Centro era, ofereceu-se para adquirir cem títulos de sócio vitalício a quinze mil cruzeiros cada um, ou seja, um milhão e meio, que naquela época era uma fortuna. Equivaleu à uma quarta parte do custo do imóvel. Por oportuno vou citar seu nome, Isaac Schalom Benoziglio. Da mesma forma aconteceu quando a Sociedade de Damas Israelitas divulgou o projeto de adquirir uma propriedade. Vivia então no Rio um correligionário originária de Rodes, Elie Touriel. Não sei se era sócio da Comunidade, só sei que jamais pisou o pé na nossa Sinagoga. Pois ele prometeu a Esther Esperança Esquenazi doar até um milhão e meio para adquirir um imóvel, exatamente o valor que mais tarde a Sociedade Beneficente Francesa pediu pela metade, do imóvel da Rua Prudente de Morais 1017. Prometeu e cumpriu. E assim foi fundado o Lar dos Velhos Israelitas Bene Herzl, presidido desde a fundação, no Sucot de 1959, até o dia de seu falecimento, março ou abril de 1978, pelo saudoso Alberto Behar. E daquele ano até hoje pelo Leon Roosevelt Musafir. Alberto Behar era um homem de cabeça fria. Só pisava em terreno firme. Imprimiu ao Lar uma estrutura parcimoniosa. Inicialmente o imóvel, que era residencial, foi adaptado para abrigar quinze a dezesseis velhos. Estas obras foram realizadas sem nenhum ônus para os cofres da Comunidade tudo proveniente de donativos. Naquela época sobrava elementos humanos dispostos a trabalhar. As senhoras particularmente se destacaram pela sua dedicação. Dentre elas Esther Esperança Esquenazi e Lea Alalouf. Em pouco tempo o Lar foi completamente lotado. O critério para a admissão dos abrigados foi instituído desde a sua fundação e continua inalterado. Os candidatos têm que ser maiores de sessenta e cinco anos, não sofrer de doenças contagiosas, se locomover e enxergar sem auxílio de terceiros. Um terço dos admitidos são a título gracioso. Teoricamente, os demais pagam o custo de suas manutenções, mas, na prática, poucos cobrem este valor. O prédio original depois da adaptação foi denominado Pavilhão Angelique e Jacques Jessouroum e o refeitório Sala Elie Touriel. Poucos anos depois do início de suas atividades construímos um segundo pavilhão denominado Rachel Behar e a capacidade do Lar aumentou para trinta a quarenta assistidos. Os fundos para a construção deste pavilhão, a exemplo do critério usado por ocasião da adaptação das primeiras obras, fluíram de correligionários que patrocinavam dormitórios e dependências. Junto com Alberto Behar quem mais se dedicou a esta obra beneficente foi além das centenas que citei há pouco: o Josué Hazan, primeiro tesoureiro desde a fundação e que ainda está em plena atividade, e Leon Roosevelt Musafir. O atual presidente atualizou o Lar, demoliu o Pavilhão Jessouroum e construiu um prédio moderno de seis pavimentos, três para dependências sociais, refeitório, salão de estar, Sinagoga e recepção, e três com dezoito dormitórios, cada qual com seu banheiro próprio. Uma construção sólida, caprichosa e de muito bom gosto. A pequena Sinagoga do Lar é um primor, uma verdadeira obra de arte. Nesta segunda fase da existência do Lar, por carência de elementos que queiram assumir, a carga toda está sendo suportada pelo Leon Roosevelt Musafir, por Josué Hazan e por Marcos Esquenazi. Este último, filho de Esther Esperança Esquenazi, engenheiro de profissão, auxiliado pela sua esposa Rachel Markenson Esquenazi, arquiteta, assumiu a direção das obras, a título gracioso. E de uma dedicação ímpar. Eu também ajudo no que posso. Sou primeiro secretário desde a sua fundação. A esposa do presidente e do primeiro tesoureiro, Lydia Musafir e Reina Hazan, substituem hoje sozinhas as dezenas de senhoras que colaboravam no Lar no tempo de Alberto Behar. O Lar ainda tem por objetivo auxiliar os pobres oferecendo-lhes assistência pecuniária, médica e hospitalar. O grosso da receita provém de donativos. 

 

P - O senhor falou em pobres. Há muitos pobres judeus no Rio? 

 

R - Há sempre. Há alguns. Veja, Diane. Por tradição os judeus, principalmente os sefaradim, sempre ampararam os de pouco recursos. Não é o mesmo tipo de pobreza que existe entre os não judeus. Mas necessitam de algum auxílio e este auxílio nós proporcionamos sem distinção de origem. 

 

P - E o Hospital Israelita, foi iniciativa de quem? 

 

R - Foi mais dos ashkenzim do que dos sefaradim. Aliás, todos os sefaradim são sócios do Hospital Israelita e do Lar das Crianças. Mas como já disse, nós somos minoria. O Lar da Velhice de Jacarepaguá, O Lar da Criança, o Froien Farain são organizações beneficentes administradas exclusivamente por ashkenazim. Existe outro Lar de Velhos, na Rua Santa Alexandrina, a União. E subsidiária da ARI. O Hospital Israelita já foi presidido uma vez por um sefaradi, Raphael Guilherme Moussatche. Mas hoje não existe mais diferença entre ashkenazim e sefaradim. O que nós temos agora no Rio, eu diria no país, são brasileiros de religião judaica. Assim como no nosso Lar dos Velhos temos abrigados ashkenazim, no da União e no de Jacarepaguá é bem possível que haja abrigados sefaradim. O Samuel Avzaradel, por exemplo, passou um bom período de tempo no Froien Farain. Isto aí é sobre o Lar. Quanto ao CIB, Clube Israelita Brasileiro, não estou tão minuciosamente apto a dar-lhes muitos detalhes. Eu lhes aconselharia a entrevistar Carlos Varsano, seu atual presidente, o Isy Chomchol e o José Gomlevsky. Em linhas gerais, na minha qualidade de presidente de cúpula, estou informando que a sua situação financeira é boa. Não tem dúvidas, tem um orçamento equilibrado e estão matriculados entre oitocentos a novecentos sócios. Na presidência de Isy Chomchol foi construído o ginásio e a sauna, obras de vulto. A Congregação, que tinha recebido uma importância substancial pela desapropriação de sua sede da Rua Conselheiro Josino, emprestou ao Clube sem juros nem correção monetária, uma terça parte do valor embolsado. Mais tarde, autorizada pelo Conselho Congregacional, a Junta Executiva da Congregação cancelou esta dívida. A piscina, que atrai grande número de sócios, adultos e crianças, foi construída salvo erro na presidência de José Gomlevsky. Me parece que a maioria de socios do Clube são atualmente ashkenazim. Há atividades culturais, sociais, esportivas e recreativas. Bem, salvo omissão, acho que já lhes·fiz um relato completo da história do Centro Israelita Brasileiro Bene Herzl. Há algo mais que desejam saber? 

 

P - Há sim. O senhor disse que veio de Salonica. Seu nome é Isaac Emmanuel. Este é de origem ou foi abrasileirado? 

 

R - Não. Sempre foi.

 

P - Com dois "emes"? 

 

R - Exato 

 

P - O senhor então nasceu em Salonica quando? 

 

R - Em 28 de setembro de 1907. Tenho oitenta anos. 

 

P - O nome de seus pais? 

 

R - Jacques e Esmeralda Emmanuel. 

 

P - O senhor tinha quantos irmãos? 

 

R - Éramos cinco. Quatro faleceram vítimas do nazismo como meus pais, em campo de concentração. Tentei, fiz o diabo para que viessem para este país. Não quiseram, estavam bem lá.

 

P - Qual era a profissão de seu pai? 

 

R - Comerciante no ramo de móveis. 

 

P - E a sua mãe? 

 

R - Era dona de casa. Naquela época mulheres não trabalhavam fora de casa. 

 

P - E quando chegou aqui? 

 

R - Em 27 de setembro de 1925. Era um domingo, véspera de Kippur. Vim para a casa de meu tio Acher Emmanuel. Estava estabelecido com loja de tecidos e confecção na Avenida Gomes Freire e residia no sobrado da loja. No mesmo dia à tarde fomos para a sede da Avenida Mem de Sá onde se realizavam os serviços religioso de Kol Nidrei. Estavam presentes todos os membros da comunidade, homens, mulheres e crianças. Éramos tão poucos que cabíamos naquele sobrado da Avenida Mem de Sá, de sala, dois quartos e dependências. Já a partir de 1926, quando o número de imigrantes aumentava dia a dia, a olho visto, até a nossa transferência para a sede própria da Rua Conselheiro Josino, os serviços religiosos de Yamim Noraim se realizavam em amplos salões alugados. 

 

P - Que idade tinha quando chegou? 

 

R - Era véspera de meu aniversário natalício. No dia seguinte, segunda-feira, Dia de Kippur, completava dezoito anos. 

 

P - E quem dirigia os serviços religiosos? 

 

IE - Um excelente oficiante, Chemtov Cohen. Ele conhecia o ritual à perfeição, lia muito bem a Torá. Foi nosso oficiante-mor por muito tempo. Celebrava todos os casamentos mas era mal remunerado. Foi pai do rabino Ismael Cohen, que vive atualmente em Israel, e avô do futuro rabino Dov Sion. Anos mais tarde, Samuel Avzaradel, que é profundamente religioso e oficiava vez ou outra como amador, comerciante de boa fé, vitima ingênua de falsos amigos para os quais avalizou títulos que não pagaram e que ele tão pouco tinha meios de pagar, aceitou o convite da Diretoria da Comunidade para se tornar oficiante remunerado. Tivemos também o insubstituível Leon Chiprut, a meu ver o melhor oficiante sefaradi do mundo e atualmente temos além do Samuel Avzaradel o Joseph Diwan. 

 

P - Conte-nos sua participação na vida Comunitária. Já sabemos, por outros terem nos contado, que o senhor redigiu os Estatutos e suas diversas alterações. 

 

R - Exato. Com exceção dos primeiros estatutos, todos os demais foram projetos de minha autoria. Redigi igualmente os estatutos da Sociedade de Damas Israelitas, regulamentos e regimentos internos. A ideia da criação do sócio fundador como meio de ficar nas mãos dos sefaradis o leme do comando da Bene Herzl foi minha. Cumprida sua missão, foi minha também a ideia de acabar com a artificialidade insustentável desta categoria de sócio. A solução que encontrei de criar três entidades autônomas deu certo. Redigi o estatuto de cada uma dessas entidades. 

 

P - Quando o senhor ingressou pela primeira vez na Diretoria? 

 

R - Foi em 1929, poucos meses antes da inauguração da sede da Rua Conselheiro Josino. O então segundo secretário, Alex Dias, deixou o cargo, não me lembro bem o motivo, acho por ter se mudado para São Paulo. Ele indicou meu nome e eu aceitei. Tinha vinte e dois anos de idade, tenho agora oitenta. Como nunca mais saí, exercendo ora uma função, ora outra, às vezes acumulando dois ou três cargos diferentes. Significa que estou na direção desta Comunidade há cinquenta e oito anos consecutivos. Fui primeiro secretário em todos os mandatos de Salomão Silvain Hazan, de Emmanuel Golano e de Salvador Esperanca. Fui secretário do Conselho Deliberativo do Conselho Congregacional da Ahova Vahessed e ainda sou secretário do Lar dos Velhos. Fui vice-presidente da Diretoria nos mandatos de Matheus Menasche. Fui presidente do Conselho Congregacional da Junta Executiva da Congregação durante doze anos, em dois períodos, cada um de três mandatos sucessivos de dois anos. E sou agora Presidente de cúpula da Comunidade e Presidente Honorário da Congregação. Creio que ninguém permaneceu tanto tempo, sou o recordista. 

 

P - O senhor tem algum momento que acha especial na sua vida comunitária que queira destacar? 

 

R - Olha, Diane, eu sempre fui ativo na vida comunitária. Nunca postulei qualquer função, cargo ou honraria. Desempenhei as funções para as quais fui eleito com igual dedicação. Nada de especial. Para mim era uma mera rotina. Mas de duas coisas me ufano. A primeira é a minha contribuição na redação dos Estatutos e a segunda é a reformulação do Calendário Religioso que aperfeiçoei ao máximo. Por índole sou perficiente. Desde criança fui ótimo aluno. Gosto muito de ler. Adquiri muitos conhecimentos lendo bons livros. Quando redijo algo, por menos importante que seja, não sossego enquanto não encontro o vocábulo certo, o mais adequado, o mais apropriado. Para ilustrar o que quero dizer, vou lhes dar um exemplo. Sempre achei o fim da picada, o cúmulo do absurdo ler nos anuncias fúnebres a expressão “Descoberta da Matsevah”. A primeira vez que me solicitaram para redigir um anúncio similar,· quebrei a cabeça para encontrar a expressão exata em vernáculo. Procurei, pesquisei e achei. É consagração da lápide tumular. Às vezes, mas raramente, me deparo com esta redação. Mas garanto-lhes que fui o primeiro a usá-la. Outro exemplo. Ao redigir uma das alterações estatutárias, empreguei a expressão “xale de oração” ao invés de talet, que é um termo hebraico, filactérias ao invés de tefilin. Chegou a vez do vocábulo, kipá, cujo correspondente em português é solidéu. Mas naquela ocasião desconhecia este vocábulo. Pois preferi parar com o trabalho por alguns dias para pesquisar. Ninguém soube me informar. O único capaz de fazê-lo, o saudoso professor Doutor David Perez, erudito, poliglota, catedrático de português, estava ausente desta cidade. Sabem como acabei descobrindo? Deu-me um estalo e consultei um padre pelo telefone. Ele soletrou a palavra para mim e ao chegar em casa fui logo consultar o dicionário. Estava certo, solideu. Fui o primeiro a usar este termo. São pequenas sutilezas que ninguém nota e muito menos avalia o trabalho, o esforço de quem as descobriu. No calendário religioso editado anualmente pela Beth-El, relacionamos os feriados nacionais e locais. Como achei que não ficava bem num calendário religioso judaico constar as expressões “Sexta-feira Santa” e “Corpus-Christi”, resolvi substituí-las por outras. Quebrei a cabeça. Encontrei. Dia religioso de guarda. Todos entendem, mas ninguém nota a sutileza da substituição. 

 

P - Nós queríamos que o senhor nos contasse um pouco dos costumes de sua terra. Como era a vida em Salonica? 

 

IE - A vida em Salónica era muito boa. Era uma cidade judia, pelo menos até meados da década vinte deste século. Vou resumir para vocês duas a história dos judeus em Salonica. Esta cidade grega foi dominada pelos turcos pouco menos de quinhentos anos, de 1430 a 1912. Quando os judeus, expulsos da Espanha pela inquisição, encontraram nesta cidade um abrigo tranquilo e seguro, ela já era turca desde aproximadamente setenta anos antes. Era, então, uma cidade pequena, pobre e muito atrasada em confronto com os padrões de civilização da Península Ibérica. De comum com esta, apenas o clima ameno. Do resto, tudo era diferente. Mas para os judeus sofredores, perseguidos e fugitivos, abordar Salonica foi como ingressar no paraíso. Encontraram ali algo muito precioso: liberdade. Liberdade de praticar a religião às claras, liberdade de culto, de pensamento, de expressão, liberdade de locomoção, de trabalho e de residir onde bem entendessem. Cidade com localização privilegiada, estava fadada a se tornar o maior império comercial do Oriente Media. Faltava apenas o elemento humano, ativo e inteligente. Coube aos judeus recém chegados da Espanha, Portugal e - mais tarde - da Itália, desempenhar este papel. E eles o fizeram tão bem que realizaram o destino da cidade e seu próprio destino. Em pouco tempo, devido ao acervo cultural muito superior ao dos habitantes locais, a habilidade e prática nos negócios, o intercâmbio com os principais círculos financeiros, comerciais e industriais da Europa, se assenhoraram da cidade como se fossem seus legítimos donos, e como tais foram reconhecidos e respeitados pela população local. A cidade em poucos anos cresceu muito. Levas e levas de judeus e marranos aportavam regularmente. Cento e vinte de seus centros e oitenta mil habitantes eram judeus. Salonica tornou-se conhecida por seus altos estudos rabínicos. Havia grande número de academias - yeshivot - que rivalizavam com as maiores da Safed e de Teiriades, muitas escolas e importantes estabelecimentos gráficos onde eram impressos jornais de circulação local e livros que supriam todo o Oriente Médio. Os judeus conservaram como idioma materno o ladino. E um misto de castelhano e português com algumas expressões hebraicas, ao qual mais tarde foram acrescentadas expressões locais, principalmente da língua francesa. O ladino se escrevia em caracteres hebraicos da direita para a esquerda. Bem mais tarde, com o advento da Alliance Israélite Universelle, os judeus de Salonica se familiarizaram com a língua e a literatura francesas. Ávidos em adquirir novos conhecimentos que só um idioma universal - como então era a língua francesa - pode proporcionar brevemente todos os judeus de Salónica falavam e escreviam corretamente este idioma e os periódicos lidos diariamente pelo povo eram editados tanto em ladino como em francês. A partir de 1568 a Comunidade judaica de Salonica conquistou a sua autonomia. Desde então, passou a ser um Estado dentro do Estado. O concílio comunal podia baixar ordenanças que tinham força de lei e obrigava toda a população judaica da cidade. As sentenças do tribunal rabínico eram acatadas pelas autoridades turcas. Comércio, indústria, bancos e repartições publicas nao funcionavam aos sábados nem feriados religiosos judaicos. Até a descarga de navios era terminantemente proibida nestes dias. A Comunidade judia de Salonica era muito rica. Em quatrocentos anos de domínio turco, acumulou um grande acervo de imóveis, os mais bem localizados da cidade, a maioria dos quais eram provenientes de legados e que lhe proporcionavam vultosos fundos com os quais mantinha grandes obras como o rabinato, o tribunal rabínico, o Talmud Torá, seminários, hospitais - dentre os quais o Hospital Hirsch, que era o maior da cidade -, o asilo para doentes mentais, o cemitério e muitas outras. Ser presidente da Comunidade era um cargo tão importante como o de governar e participar do Concílio Comunal era tão considerado como o de vereador. Só que eram funções gratuitas sem nenhuma remuneração, era fácil observar o kashrut, as leis dietéticas judaicas. havia inúmeras sinagogas, todas eram religiosas. E havia muita instrução. Raro era o judeu que não tivesse instrução a nível secundário. Os gregos reconquistaram Salonica em 1912, mas desta data até 1924, quando eu saí daí, muito pouco mudou a vida dos judeus em relação a sua autonomia administrativa. Isto porque dois anos depois rebentou a Primeira Guerra Mundial. Os aliados da Grécia, Franca, Grã-Bretanha e Itália, fizeram da cidade o quartel-general do Oriente. Praticamente quem mandava na cidade eram os Estados-maiores militares aliados. Ao terminar em 1918 a Primeira Guerra Mundial, logo quando o Governo grego ia tomar de fato conta da cidade reconquistada, começaram os conflitos com os turcos, que se converteram numa nova Guerra. Houve depois problemas de troca de populações. Os gregos que viviam na Turquia foram permutados pelos turcos que viviam na Grécia. Este estado de coisas se prolongou até 1925 ou 1926. Até então os judeus não assimilaram o idioma grego, assim como não tinham assimilado a língua turca no decorrer de quatrocentos anos. Para eles o ladino e o francês era suficiente. Isto fazia com que um judeu nascido turco não se considerasse de nacionalidade turca. Aliás, em todo o oriente é assim. Na Turquia, na Grécia e nos países de língua árabe. Para ser 100% cidadão não basta nascer no país, tem que também professar a religião local. 

 

P - E como o senhor se sentiu quando chegou aqui? 

 

R - É como se estivesse voltando para casa. penso que todos os imigrantes sefaradim sentiram a mesma coisa. Desde o primeiro dia não encontramos a menor dificuldade com a língua. Nos sentíamos aqui perfeitamente à vontade. O conceito de nacionalidade no continente Americano é diferente. Quem nasce no Brasil é brasileiro. Quem nasce nos Estados Unidos é norte americano. Quem nasce na Bolívia, México ou Nicarágua e boliviano, mexicano ou nicaraguense. Pouco importa a sua origem ou religião. No oriente, como ja disse, é indispensável professar a religião local para ser de nacionalidade do país onde se nasce. E nos demais países europeus os filhos de estrangeiros ao alcançar a maioridade optam ou pela nacionalidade de seus genitores ou pela nacionalidade do país onde nascem. 

 

(continuação)

 

Além disso, os imigrantes no continente Americano adquirem todos os direitos de cidadania em pouco tempo ao requerer sua naturalização. Vejam agora como os judeus, primeiro na Turquia e depois na Grécia, não frequentavam escolas nacionais. Não falavam e nem escreviam a língua local. Na Turquia, teoricamente, eram obrigados a fazer o serviço militar mas, mediante o pagamento de uma taxa especial, estavam isentos desta obrigação. Na Grécia não existia esta isenção e os judeus fugiam do serviço militar como o diabo da cruz, para usar uma expressão brasileira. Depois da guerra turco-grega e da permuta de populações, houve na Turquia uma revolução e uma grande reviravolta na política para com os judeus: Kemal Pasha proclamou a República, acabou com a taxa de isenção e os judeus turcos, por coincidência, na mesma época se encontram nas mesmas condições dos judeus gregos. E este foi um dos mais poderosos motivos da imigração maciça para o continente Americano. 

 

P - E é este o motivo de sua chegada aqui?

 

R - Exatamente. 

 

P - E por que seus irmãos, conforme o senhor afirmou, não quiseram vir para aqui? 

 

R - É porque em Salonica, depois de minha saída, as coisas mudaram. A frequência no curso primário tornou-se obrigatória. Se não me engano, também no curso secundário obrigatório, digo em escolas de idioma grego. Como meus irmãos eram menores que eu, assimilaram, assim, facilmente o idioma grego. Ser soldado já não era mais um problema como no meu tempo. Economicamente eram da classe média. Assim não tinham motivo para emigrar. Não acreditavam tampouco que as garras de Hitler alcançariam a Grécia.

 

P - Posso fazer-lhe uma pergunta? 

 

R - Claro. Para isso é que estou aqui. 

 

P - Os judeus em Salonica frequentavam Universidades? 

 

R - Na Grécia, para fazer o curso superior, é indispensável conhecer bem o idioma o grego. No meu tempo, como já lhes disse, nenhum judeu o conhecia. Eu estudei na Alliance Israélite Universelle. O curso principal era administrado em francês. Tínhamos horário integral, fora um mês de férias em Agosto e os feriados religiosos judaicos, praticamente tínhamos o dobro de aulas que os alunos brasileiros têm aqui. E lá se estudava mesmo. Havia disciplina, respeitávamos os professores. O curso básico era língua e literatura francesas, matemática (aritmética, álgebra e geometria) história universal, história judaica, história francesa, conhecimentos gerais de física e química, geografia universal e contabilidade. Além disso, tínhamos aulas de hebraico, ou melhor, de religião, e aulas de grego, língua, história e geografia da Grécia. Agora, curso superior para judeus de Salonica só mesmo no exterior, principalmente na França. Poucos eram os que se formavam. As faculdades preferidas eram Medicina, Engenharia e Arquitetura, nesta ordem. Direito era desnecessário, pois todos os assuntos jurídicos eram resolvidos no tribunal rabínico, prevalecendo as leis rabínicas. A justiça era rápida e barata. Dispensava advogados. Raramente um judeu tinha um caso a resolver contra um não judeu. Aí sim a justiça competente era a do país.

 

P - Porque é que poucos iam estudar no exterior? 

 

R - Evidentemente porque o curso fora do país custava caro. Só os bem sucedidos na vida e que podiam realizá-lo. 

 

P - Havia judeus que se dedicavam à arte? A estudar música, teatro? 

 

R - Não me lembro. Mas creio que não. Refiro-me naturalmente a música erudita, música clássica. Pelo menos não profissionalmente, mas amadores, sim. Tínhamos um conservatório em Salónica. Muitos estudavam piano, mas não como curso principal. Tínhamos vários amadores que faziam teatro. Bom teatro. Traduzidas de peças clássicas francesas, inglesas e russas. Faziam sucesso. Existiam também compositores de música popular. Tudo em ladino. 

 

P - Mas mandar um filho para estudar música em Viena não era costume. 

 

R - Bem, eu diria que não era a regra mas, sim, a exceção. Mas muitos tocavam piano, violino e outros instrumentos musicais e cantavam, talvez de ouvido. Talvez tivessem estudado em Salónica mesmo. Mas, certamente, poucos na Europa, principalmente em Viena. Viena era, então, a capital da música e da medicina. Alguns médicos judeus se formaram lá, tinham antes que estudar o alemão. Outros iam para se submeter a intervenções cirúrgicas. 

 

P - Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta. Nós temos um período no decorrer do ano no qual não se celebra casamentos, mas se festejam bar-mitzvah. Por quê? 

 

R - Aliás, são dois períodos. Um de três semanas de dezessete da Tamuz a 9 de Av. E o período de luto pela destruição dos dois Templos, o primeiro por Nabucodonosor, quase seiscentos anos antes da época moderna, e o segundo por Titus setenta anos após a época moderna. O segundo período é, para os sefaradim, os primeiros trinta e três dias da contagem do Omer, e para os ashkenazim, as sete semanas da contagem do Omer, com exceção do trigésimo terceiro dia. A contagem do Omer se inicia no segundo dia de Pessach e termina na véspera de Shavuot, festa que nos lembra a outorga da lei no Monte Sinai. Não se realizam casamentos nestes dois períodos. No primeiro o motivo é óbvio. É o luto pela destruição do Templo. E o segundo é porque, numa determinada época, grassou uma epidemia que vitimou milhares de estudantes rabínicos e só cessou no trigésimo terceiro dia da contagem de Omer. O motivo por que esta proibição só atinge os casamentos e não os bene-mitzvah é que o casamento é uma festa de caráter particular e o bar-mitzvah, assim como o brit, a circuncisão, são mandamentos religiosos. A circuncisão é feita no oitavo dia de nascimento, mesmo caindo em sábado ou dia de Kippur. Se a criança está em boas condições de saúde, tem que ser circuncidada neste dia. O bar-mitzvah, igualmente, se realiza no aniversário do décimo terceiro ano. Não é um mandamento da Torá, da Lei, mas rabínica. Por isso, de preferencia, se realiza na data certa. Não obstante, o bar-mitzvah pode se realizar depois do décimo terceiro ano, mas nunca antes.

 

P - Em Salonica, as senhoras tomavam o banho ritual? Raspavam a cabeça?

 

R - Como já lhes disse, o povo era muito religioso. As senhoras iam a Mikvá periodicamente para o banho ritual, mas não raspavam a cabeça. Este é um costume ashkenazi

 

P - Como era feito o casamento em Salonica? 

 

R - Não se celebravam casamentos nas Sinagogas. O costume certo é de celebrar-se o casamento ao ar livre e de dia, nunca à noite. 

 

P - Havia intermediárias profissionais arranjavam casamentos? 

 

R - Havia sim. 

 

P - E é verdade que a moça, a noiva, tinha que levar dote? 

 

R - Certo. O motivo original deste costume e que só herdavam os filhos varões e filhas solteiras. É a lei rabínica. Assim as filhas casadas recebiam por antecipação a sua parte da herança e no momento mais oportuno, ao contraírem casamento. 

 

P - Eu gostaria que o senhor nos contasse um pouco dos ritos de Salonica. Dizem que as festas eram muito bonitas. 

 

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R - Eram sim, alegres e descontraídas. Como já lhes disse, Salonica, era uma cidade judia. Eu vou lhes revelar um sentimento indescritível, uma emoção extraordinária que tive o privilégio de viver em 1968, quando acompanhado de minha mulher e uma de minhas filhas. Passamos quinze dias na Grécia, sendo cinco em Salonica e quinze dias em Israel. Não reconheci a minha terra natal. Estava tudo mudado. Havia poucos judeus. Nenhum que eu tivesse conhecido antes. Exprimiam-se em grego embora alguns, por falarem ainda o ladino, entendessem o nosso português. Quis rever locais onde passei minha infância e minha adolescência e nada encontrei. Não direi que fiquei decepcionado, pois já estava de espírito prevenido. Vejam agora a diferença ao pisar Tel-Aviv. Nunca antes tinha estado aí. Mas ao ver a movimentação do povo, ao visitar alguns bairros da cidade e, sobretudo, na véspera de sábado, quando testemunhei, la para a tarde, todo mundo apressado, fazendo as últimas compras para o sábado, alguma gulodia, flores e alimentos típicos, algumas lojas já encerrando o expediente... O que eu senti é, como disse, indescritível. No mais fundo do meu ser subiram à tona recordações dos meus idos anos já esquecidos. Era como se retornasse ao passado. Estava revendo nitidamente não a cidade de Tel-Aviv mas, sim, Salonica de minha infância onde o sábado era o mais alegre dia da semana, onde a festa de Pessach resolvia os hábitos cotidianos de seus habitantes. Era como o Natal aqui, talvez mais ainda. Todos de roupa nova. As casas lavadas e pintadas por dentro e por fora. Cada festa tinha sua característica: Pessach na primavera, Sucot no outono. Cada casa com sua própria sucá onde se almoçava e jantava. Shavuot no verão, dia de piquenique, cestas cheias de frutas e pratos típicos a base de leite e queijo. Enfim foram reminiscências não lembradas, mas revividas. 

 

P - A escola era mista lá? 

 

R - As escolas eram, mas as classes não. 

 

P - Mas no recreio se encontravam? 

 

R - Sim. A hora do recreio era coincidente para meninos e meninas, moças e rapazes. 

 

P - Mas no casamento, para encontrar a moça, havia uma predeterminação? Quem vai casar com quem, os pais escolhiam? 

 

R - Não. Pelo menos no meu tempo havia de tudo, os que iniciavam namoro na escola, os que se conheciam numa festa, apresentação, intermediação. Tudo era válido. Uma coisa é certa: todos casavam, ninguém ficava solteiro e era para valer. 

 

P - Os turcos, os gregos eram antissemitas? 

 

R - Antissemitas propriamente, não. Os sefaradim nunca foram vítimas de pogroms. Até que se davam bem, tanto com turcos como com gregos. O que havia mesmo era uma poderosa linha divisória, que era a religião. No mais, viviam num nível bem superior do que turcos e gregos. Com os turcos, principalmente, os judeus conseguiam tudo, tudo o que desejassem. Do mais insignificante contínuo ao mais poderoso ministro, todos se dobravam à vontade do judeu. Eram muito corruptos. Não se obtinha nada sem bakshish, gorjeta, gratificação. Bakshish era a palavra que abria todas as portas. 

 

P - E aqui no Rio, o nível de vida dos sefaradim era diferente da dos ashkenazim

 

R - Era. Em primeiro lugar, o sefaradi não precisava se adaptar ao meio. Até pelo contrário. Era como se estivesse voltando para casa. Já o ashkenazi demorava mais tempo. Uns e outros vinham à procura de uma vida melhor. Mas os sefaradim já traziam seu pé de meia e se estabeleciam com negócio aberto. Os ashkenazim talvez trouxesse igualmente suas economias, mas como vinham de países onde eram perseguidos e desprezados, eram mais prudentes. Nada ostentavam e começavam de baixo. Eram, em sua maioria, vendedores ambulantes. O ramo preferido pelos sefaradim era tecidos. O dos ashkenazim, móveis e joias. Os muitos ortodoxos, só trabalhavam com pedras preciosas, pois este ramo lhes permitia folgar o dia que bem entendessem e assim observavam rigorosamente o descanso de sábado e de feriados religiosos. 

 

P - E o nível de instrução? 

 

R - Com relação aos sefaradim, os que vinham da Turquia, de uma forma geral, mal tinham frequentado o curso primário. Os oriundos da Grécia, Rodes e Salonica eram mais instruídos. Com relação aos ashkenazim, não vou afirmar com certeza, mas tenho a impressão de que a maioria não tinha frequentado escolas leigas. Uns e outros tinham pleno conhecimento do ritual, das orações, tanto as diárias como as de sábado e dias feriados. Todos liam bem o hebraico. Poucos o entendiam. A pronúncia é que era diferente. Hoje em dia a pronúncia do hebraico nos moldes sefaradim predomina pois foi adotada oficialmente em Israel. 

 

P - Como o senhor conheceu sua mulher? 

 

R - Nas festas que se realizavam na sede da Rua Conselheiro Josino. Ela é brasileira nata. Nasceu em São Paulo. Seus pais são oriundos da Turquia.

 

P - E ela é formada? 

 

R - É contadora assim como eu. Só que ela nunca exerceu a profissão. 

 

P - O senhor tem quantos filhos? 

 

R - Três. 

 

P - Pode me dar os nomes? 

 

R - Jacques, Mathilde e Esmeralda.

 

P - Profissão deles? 

 

R - Meu filho trabalha com material de construção. Frequentou a Faculdade Federal de Engenharia mas não chegou a se formar. Minhas filhas se formaram no Colégio Bennett no curso de professoras para escola maternal e jardim de infância. Mathilde foi professora no Colégio Max Nordau e no Barilan. Atualmente tem um salao de depilacao. Esmeralda também exerceu a profissão de professora por pouco tempo num curso de inglês. 

 

P - Casaram? 

 

R - Sim, mas as duas moças já estão separadas. 

 

P - Casaram com judeus? 

 

R - Só a Mathilde. Quem acertou melhor foi o Jacques. 

 

P - A esposa dele se converteu? 

 

R - Sim. Depois se casaram no religioso com o Rabino Anidjar. 

 

P - E ela segue? 

 

R - Tanto quanto os sefaradim da segunda e terceira geração no dia da expiação. 

 

P - É alguma coisa melhor que nada. E os netos, o senhor tem quantos netos? 

 

R - Cinco. 

 

P - Foram criados dentro da religião ou não? 

 

R - Relativamente. Tenho um neto que fez vinte anos. Festejou seu bar-mitzvah na Beth-El. Tanto ele como sua irmã menor, filhos de Mathilde, convivem com amigos judeus. Já os filhos de Jacques, duas meninas e um menino, estão mais afastados, moram na Ilha do Governador. 

 

P - É mais difícil. 

 

R - Exato. Não obstante, o caçulinha Carlos Isaac Emmanuel, que tem dez anos, já manifestou a vontade de se preparar para seu Bar-Mitzvah. 

 

P - Isso é ótimo. Seu filho mora na Ilha do Governador. E as suas filhas? 

 

R - A Mathilde no Leblon  e a Esmeralda em Ipanema. Esta não teve filhos. 

 

P - O senhor disse que de Salonica poucos emigraram para o Brasil. Para onde foram então? 

 

R - A maioria foi para a França. Para os judeus salonicienses a França foi sempre sua segunda pátria. Aprenderam a amá-la na escola. Conhecíamos razoavelmente bem a língua, a literatura e a história francesa. Grande parte também foi para os Estados Unidos. Interessante. Estes não esqueceram o ladino. Encontrei, em New York e em Londres, sefaradim de terceira e quarta geração que ainda falam o ladino. Finalmente a camada mais baixa emigrou para Israel. 

 

P - Havia em Salonica uma diferença na educação entre meninos e meninas? 

 

R - Havia sim. Um dos motivos das meninas estudarem em classes diferentes da dos meninos era que os rapazes recebiam uma instrução e educação preparando-os para enfrentar o trabalho no comércio, na indústria ou nas finanças. Já as meninas, para o trabalho de casa. Naqueles tempos mulheres não trabalhavam. 

 

P - Não havia mulheres que iam para a universidades? 

 

R - Não, nenhuma. Creio mesmo que isto era um costume universal. A mulher só começou a trabalhar, a ser independente, a partir de 1914, em consequência da Primeira Guerra Mundial. Os homens foram mobilizados e as mulheres tiveram que substituí-los na produção, do contrário a economia pararia. A propósito, foi em consequência da guerra que as mulheres cortaram o cabelo e encurtaram as saias. O primeiro costume para poupar tempo de manhã cedo quando tinham que sair para o trabalho, e o segundo para economizar o tecido que andava escasso. De lá para cá as coisas evoluíram muito. O casamento como instituição faliu. A mulher hoje em dia tem que ser independente, estar preparada para enfrentar a vida em igualdade de condições com o sexo oposto. 

 

P - Eu gostaria que o senhor me descrevesse um dia de sua vida em Salonica. Um dia comum, de manhã à noite. 

 

R - Olha, Diane, eu terminei o curso da Alliance quando tinha quinze anos de idade. Permaneci fora da escola pouco tempo. Fiz um curso complementar de datilografia e encontrei um emprego num escritório de representação como correspondente em idioma francês, claro, pois na época era a língua universal. A minha ideia fixa era fugir do serviço militar. Para um rapaz de minha idade, que tinha conhecimentos elementares da língua grega, o serviço militar era como a espada de Dâmocles sobre sua cabeça. Tinha um tio que residia no Rio, irmão de meu pai. Resolvi, então, emigrar para aqui. Porém as autoridades gregas me negaram o passaporte alegando que estava nas vésperas de me apresentar para o serviço militar. Driblei as mesmas requerendo novo passaporte para Grécia, inclusive o Egito, onde reside outro tio, irmão de minha 

mãe. Saí assim de Salónica em agosto de 1924, com dezessete anos incompletos, tendo residido no Cairo um ano. E de lá vim para o Rio de Janeiro, não com passaporte grego, mas com um equivalente egípcio, chamado Laissez-passer. Assim, para responder a sua pergunta, o certo é descrever-lhes um dia de minha vida colegial. As aulas começavam às oito horas e terminavam às dezesseis. Das doze às treze folgávamos para almoço. Tínhamos quinze minutos de recreio na parte da manhã e quinze outros na parte da tarde. No inverno às dezesseis horas já estava escurecendo e às sete da manhã, quando acordávamos, ainda o dia não tinha clareado. Em compensação, no verão, às vinte horas começava a noite e às sete da manhã o sol já estava brilhando. Não tínhamos em Salónica invernos rigorosos. Raramente nevava e quando isso sucedia era feriado escolar. Ao voltar para casa tínhamos deveres para fazer, trechos de literatura e fábulas de La Fontaine para decorar. Estudávamos muito, mas sempre encontrávamos tempo para brincar. As aulas semanais iam de domingo a sexta-feira ao meio dia. Sábado era dia de passeio, cinema ou assistir um jogo de futebol. É isso aí. 

 

P - Não se podia tomar condução aos sábados? 

 

R - Muitos passeios se faziam a pé. Mas tomávamos condução, bonde principalmente. Os rabinos sefaradim, de forma geral, eram tolerantes. Entre os sefaradim não existiam muitos graus de ortodoxia como há entre os ashkenazim. No sábado de manhã todos íamos às sinagogas rezar. Mas com exceção de Yamim Noraim, onde cada família ia a sua Sinagoga principal, o restante do ano íamos à pequenas sinagogas que ficavam bem perto de nossas residências. O serviço não era demorado como aqui. Começávamos às sete e acabava às nove. Íamos a jejum como manda o figurino. 

 

P - E ao voltar da sinagoga tomavam a primeira refeição. O que é que comiam? 

 

R - Borregas, bolos, pasteis... São pratos típicos sefaradim. No inverno cobríamos, às vezes, com nata de leite de cabra e bebíamos salep. Não sei explicar o que é exatamente. 

 

P - Acho que conheço. É massa de arroz, farinha de arroz. Um mingau... 

 

P - E álcool, não?

 

P - Não, é um mingau ralo. Hoje em dia se faz mais grosso. 

 

R - Sinceramente, não sei bem o que continha e como era feito. Sei que era doce e se bebia quente. Não cozinhavamos aos sábados. A comida era preparada na sexta-feira. Havia uma longa variedade de pratos. Aos sábados, garotos não judeus vinham atear o fogo, quer para aquecer o ambiente, quer para esquentar a comida. 

 

P - Mas a nossa religião não especifica que o que nos é proibido fazer, tampouco devemos mandar que outros o façam? 

 

R - Sim. Mas como já disse e torno a repetir: a nossa ortodoxia não ia tão longe. Aliás, para esses garotos era uma fonte de renda. Viviam desses pequenos serviços prestados a todos os judeus de Salonica em geral. 

 

P - Vocês iam à praia? 

 

R - Não havia praia. Salonica era um importante porto marítimo. Passeávamos nos molhes. Passeávamos de barcos a remo alugados à hora ou por percurso, mas praia mesmo não havia. 

 

P - E banho de mar? 

 

R - Havia locais para tomar banho de mar. Mas geralmente eram longe de nossos bairros. Poucos os frequentavam. 

 

P - Nas sextas-feiras à noite tinha uma comida especial? 

 

R - Se tinha! E como! Era um regalo, uma festa, toalha branca de linho, louça especial, copos de cristal, comida abundante e gostosa. O peixe era de rigor. Tinha que ter também prato de carne. A família toda estava presente. Muita variedade de frutas. Até o pão era especial. Não faltavam candelabros com velas acesas e vinho. Cânticos religiosos em hebraico em uníssono. Canções em ladino e jornais humorísticas. Havia muita alegria. Sexta-feira à noite e sábado eram as colunas mestras que mantinham as famílias unidas. Era um deleite para os olhos. 

 

P - Eu ia perguntar uma coisa para o senhor. Se teve notícias de como aconteceu essa ocupação de Hitler? Como aconteceu a remoção dos judeus da Grécia para os campos de concentração? Soube isso na ocasião ou depois da guerra? 

 

R - A invasão da Grécia pelas hitleristas foi notícia divulgada pelos jornais. Mas a remoção dos judeus tanto da Grécia como dos demais países para campos de concentração foi cuidadosamente guardada em segredo. Só veio à tona depois da guerra. Só tomei conhecimento do falecimento de meus pais, irmãos, tios e primos, poucos meses depois. Não sobrou um da família, que era bem numerosa.

 

P - Mas antes da guerra o senhor estava em contato com eles? Se correspondia regularmente? 

 

R - Lógico. Com bastante frequência. Eu diria com pontualidade britânica. Mas, assim que rebentou a guerra, este intercâmbio de correspondência cessou abruptamente. 

 

P - O senhor trouxe alguma coisa de Salonica? Tem algumas lembranças, alguns objetos? 

 

R - Tenho fotos de meus pais, irmãos e de alguns parentes. Tinha alguns livros, mas com o tempo ficaram imprestáveis e os joguei fora. Tenho duas versões diferentes da história dos judeus de Salonica em francês, a primeira de autoria de Joseph Nehana, que foi diretor da Alliance em Salonica, homem muito culto, e a segunda de autoria do rabino Emmanuel. 

 

P - Antes de vir para o Brasil tinha algumas informações sobre o Brasil? 

 

R - Tinha sim. Tinha pesquisado em bibliotecas, consultado “La Grande Encyclopedia”. Estava bem informado. 

 

P - Bem, acho que já nos forneceu bastante informações. Eu nada mais tenho a perguntar-lhe. Você, Karen, quer fazer mais alguma pergunta? 

 

P - Não. Acho que a entrevista foi bastante extensa e elucidativa. Não devemos abusar da paciência do Senhor Isaac. 

 

P - Concordo com você. Senhor Isaac muito obrigado. Karen e eu ficamos-lhe gratas. Quer nos dar uma palavra final, uma mensagem? 

 

R - Sim. Vocês notaram há pouco a minha preocupação quanto ao porvir da Comunidade Bene Herzl por absoluta falta de elementos novos dispostos a assumir. Nossos filhos e netos se afastaram. Elementos sefaradim de outra origem, como do Egito, Síria e Líbano, os substituíram. Receio que acontecerá com os filhos e netos destes o que sucedeu com os descendentes dos fundadores da Bene Herzl. Mas outros virão. O judeu não perecerá. Acredito nas profecias de Isaías, Jeremias e de todos os demais profetas que nos asseguraram que o Eterno castigará seu povo, mas nunca o destruirá. Haverá sempre um amanhã. Há sempre um Deus. 

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