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História

Amor aos pedaços

História de: Reinaldo Abramovay
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Identificação. Infância em São Paulo. Atividades comerciais do pai. Descrição das casas que morou e lembranças da infância. Os empregos que teve. A compra de uma banca no Mercado Municipal. Atividades teatrais e a saída do Mercado. A sociedade do Amor aos Pedaços. A faculdade e os ensaios de teatro. O funcionamento do Mercado Municipal. A venda de pedaços de bolo por peso. A expansão da rede e o sistema de franquias. A divisão da sociedade e ida para o mercado exterior. O processo de adaptção e as receitas de família. Avaiiação de seu trabalho. O mercado americano e seus projetos futuros.

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História completa

Meu nome é Reinaldo Abramovay, nasci em 10 de novembro de 1959 na maternidade São Paulo, em São Paulo, capital. Meu pai se chama David Abramovay e nasceu no Rio de Janeiro. Minha mãe chama-se Esther Abramovay e nasceu em São Paulo. Meu avô paterno nasceu na União Soviética e a minha avó paterna, na Inglaterra. O meu avô materno nasceu na Rússia e a minha avó materna, na Romênia. Meus avós paternos vieram na década de 20, depois da Primeira Guerra Mundial. Os avós maternos vieram na década de 30, pouco antes da Segunda Guerra Mundial.

 

Meu pai teve três, quatro atividades na vida dele. A primeira foi uma lavanderia e tinturaria que ele teve, muito grande na época, entre 1968 e 1978. Depois, na década de 80, ele chegou a ter lanchonetes, casas lotéricas e postos de gasolina. E de 1988 até os dias de hoje ele tem uma financeira, mas está se aposentando. Meu avô materno foi alfaiate a vida inteira, fazia ternos na cidade. Minha avó, esposa dele, cuidava da casa e cozinhava muito bem. O sonho dela era ter uma doceria. Meu avô paterno faleceu quando eu tinha três anos de idade, então não sei direito o que ele fazia. Minha avó então se casou de novo, com um hoteleiro.

 

Eu ia na lavanderia que o meu pai tinha. Ele tinha aqueles carrinhos que você carrega roupas e pendura cabides em cima. Eu devia ter cinco ou seis anos ficava correndo com os carrinhos, junto com meu irmão. Também ficava olhando as máquinas de passar. Às vezes eu também viajava com meu pai para o interior, onde ele ia comprar madeira para fazer aqueles cabides de ferro com uma madeira em baixo. Dos trabalhos do meu pai, esse é o que eu mais me lembro, no período da minha infância. Na minha adolescência já era a época que ele estava com as lanchonetes e eu comecei a ajudar. Fiquei uns seis meses trabalhando com ele. Eu fazia um pouco de tudo. Apesar de trabalhar com meu pai, ele tentava botar um esquema bem: "Ô, você trabalha aqui, é meu filho, mas tem que fazer mais que qualquer pessoa que trabalha aqui." Então, tinha que bater cartão de ponto. Eu atendia o balcão, ficava no caixa, ajudava a fechar o caixa. Nessa época eu já tinha 17 anos. A lanchonete em que eu trabalhei ficava no Jabaquara. Mas também tinha na rodoviária do Glicério, no metrô do Largo São Bento, na Avenida Ipiranga. Eu gostava do que fazia. E enquanto eu gostei, foi legal. Mas a partir do momento que eu vi que não tinha espaço para mim e comecei a não concordar com o jeito que ele dirigia o negócio ou que meus os meus irmãos trabalhavam, eu fui tomar meu rumo sozinho mesmo. Eu tenho três irmãos mais velhos e nessa época todo mundo trabalhava com o meu pai.

 

Eu tive uma infância muito legal. Primeiro porque, de quando eu nasci até os 7 anos, eu morei em uma casa na Madre Teodoro, que é uma rua paralela à Rua Estados Unidos, em São Paulo. Era uma casa gostosa e a gente sempre brincava muito na rua de amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, brincadeiras que hoje é difícil você ver crianças brincar. A gente ficava esperando o sorveteiro, aqueles da carrocinha que tem até hoje. Tinha também o vendedor de bijuzinho que batia aquele "clá, clá, clá, bijú!" A gente tinha uma turma muito legal lá de criança, um dormia sempre na casa do outro. Depois nós mudamos para uma casa na Padre João Manoel, uma casa super grande, em frente a onde é o consulado dos Estados Unidos. Hoje tem um prédio lá, mas tinha um campo de futebol. Dentro da casa tinha um parquinho. Minha irmã tinha uma casa de boneca de 30 metros, que era separada da casa. E também tínhamos salão de jogos, mesa de pingue-pongue. Então a gente tinha muitos amigos.

 

Todo domingo era dia de festa, dia de churrasco, dia de jogar futebol. Era super gostoso, eu tive uma infância bem legal. E a gente também subia na jabuticabeira que tinha em casa pra pegar a fruta no pé. Nessa época eu tinha um vizinho que o apelido dele era Rivelino. Ele jogava futebol bem à beça e era um cara bem simples. Eram caseiros de uma loja na Rua Augusta. Então, na casa dele ele criava galinha, tinha até cana plantada. A gente pulava o muro e ficava chupando cana e brincando com as galinhas dele. Ele era de uma classe social diferente da minha e a gente ficou muito amigo. Me trouxe uma visão diferente do mundo. Por exemplo, seis pessoas dormiam no mesmo quarto, era um mundo muito diferente do meu. Eu ia muito para o Guarujá nas férias, a gente também tinha uma casa supergrande e gostosa lá. Tinha campo de futebol, então a gente fazia gincanas, organizadas pelos meus irmãos mais velhos. Eles também organizavam passeios de bicicletas, então a turma do Guarujá era centralizada na nossa casa, naquela redondeza. Eu passei muito tempo lá, ficava três meses por ano indo para a praia. Naquela época tinham poucos prédios no Guarujá, era uma coisa super gostosa ir para lá. Eu tive uma infância bem aproveitada. Aos 13 anos, porém, eu fui morar em apartamento e aí eu conheci um outro estilo de vida. Já não podia brincar na rua, tinha muito carro, tinha que tomar certos cuidados. Então a gente começou a ir brincar mais no clube. Foi assim até os meus 15 anos quando, apesar de estar estudando, eu tive que começar a trabalhar.

 

Meu pai chegou para mim e falou: "Olha, agora não tem mais mesada, agora você vai trabalhar, eu não vou te dar mais dinheiro porque minha educação é essa." Na época eu lembro de ter xingado muito o meu pai dentro de mim, porque eu via todos meus amigos tendo mesada, tendo um monte de coisas e eu não. Mas meu pai não pôde me proporcionar isso. Naquela época era uma época de mudança na vida dele e também acho que era um pensamento dele eu ter que batalhar pelo meu sustento. Então, eu trabalhava e estudava ao mesmo tempo. Eu trabalhava então numa loja na Avenida Cidade Jardim, que hoje não existe mais. Chamava-se Visard Vigotex. O dono da loja era um amigo do meu irmão. Ele primeiro me deu um emprego no Natal, para eu empacotar as compras das senhoras. Então, quando elas compravam os vestidos, eu os empacotava e dava um lacinho na caixa. Isso foi em dezembro, mas eu acabei ficando porque depois veio a liquidação. E eu gostei do trabalho. Fiquei lá seis meses empacotando, ajudando a arrumar quando chegava coleção nova, a separar tamanho. Eu gostava porque, primeiro, foi o meu primeiro contato com o mundo de negócios, o mundo do comércio, diferente daquela idade da escola. E segundo porque foi o primeiro momento em que eu comecei a ganhar dinheiro pelo que eu fazia. Então eu tentava, de uma maneira ou de outra, ter quase a mesma coisa que os meus amigos tinham. Mas que eles tinham de pai para filho, para mim vinha com o trabalho que eu fazia e isso foi legal.

 

Eu comecei a querer trabalhar e tentar achar um caminho para mim mais cedo. Queria uma coisa que eu gostasse e que me remunerasse pelo trabalho que eu estivesse fazendo também. Eu estudava de manhã e trabalhava à tarde. E quando dava, eu trabalhava também de fim de semana para ganhar um pouco mais, porque a loja tinha um ótimo movimento aos sábados. Aí eu comecei a unir o trabalho com o estudo e também com hobbies, como teatro que eu gostava de fazer. Eu tentei unir essas três coisas ao mesmo tempo. Depois de sair da Vigotex eu trabalhei como contato numa revista. Foi o trabalho que eu menos gostei. Trabalhei por dois meses, mas era um trabalho para o qual eu não nasci. Você precisa ir atrás do anunciante e depende muito do veículo. E a sensação que me dava era de que eles anunciavam lá veículo onde eu trabalhava mais como favor do que como um bom negócio para trazer o retorno do investimento num anúncio. Saí de lá e fui trabalhar como pesquisador, na verdade pesquisa de mercado. Trabalhei fazendo uma pesquisa sobre máquina de lavar roupas: se a dona de casa tinha ou não tinha, quantas vezes usava, qualquer coisa assim. Não foi um trabalho que eu possa dizer que amei, mas também não detestei. Eu tinha uma espécie de mobilete e, como a pesquisa era sempre no subúrbio de São Paulo, acabei conhecendo um pouco da cidade. Na verdade um outro mundo de São Paulo que não era a zona sul onde eu morava. Era a zona leste, zona norte... E eu vi como São Paulo era grande. Fiquei quatro meses nesse trabalho.

 

Depois disso eu acabei abrindo uma pizzaria. Nessa época eu já tinha entrado na faculdade de filosofia, onde estudei um ano, na PUC. Depois eu transferi para psicologia. Eu fazia faculdade à noite, trabalhava de manhã e fazia teatro à tarde. Depois a faculdade foi para o período da manhã. Nessa época eu fui trabalhar no Mercado Municipal, à tarde. Alguém tinha uma dívida com o meu pai e pagou com essa banca que vendia frutas natalinas, macarrão, bacalhau, azeitona, cereais, laticínios e etc. no Mercado Municipal. Então meu pai pediu minha ajuda, pediu para eu ir lá de sábado dar uma olhada para ele. Eu fiquei um sábado, fiquei o segundo, o terceiro sábado. Acabei gostando de ficar lá e eu fiz um acordo com meu pai, que me vendeu a banca. Eu paguei para ele em três anos com o dinheiro do próprio negócio. Depois, no próprio mercado, eu acabei comprando mais uma loja pequena que vendia um pão italiano e massas. E comprei a terceira, que vendia bacalhau, queijos e outras coisas que eu não vendia na minha loja. Fiquei então com três bancas no mercado, ao mesmo tempo em que eu estudava psicologia na PUC. Eu tinha aulas de manhã, de tarde, tinha dias que tinha trabalhos à noite, tinha finais de semana que precisava estudar... Eu seguia tentando fazer um mix do mercado com a faculdade, à noite, eu ainda ia fazer teatro, coisa que eu gostava muito. Eu comecei a fazer teatro no Antunes nessa época e sentia que estava muito difícil de conciliar. O mercado é um trabalho que você precisa acordar bem cedo já que funciona das cinco da manhã às quatro da tarde. Mas eu não chegava antes das sete da manhã porque não conseguia acordar mais cedo. Ficava estudando até tarde da noite. Eu tinha quem me ajudasse a trabalhar, mas na tentativa de unir as três coisas, eu comecei a sentir que não estava fazendo nada bem feito: nem a faculdade, nem o mercado e nem o teatro. Comecei a achar que o mercado estava me sacrificando muito, mas por outro lado precisava do dinheiro que eu ganhava lá porque nessa época já tinha saído de casa e morava sozinho desde os 19 anos. Eu precisava ganhar pro meu sustento. Fui percebendo que ia ter que mudar alguma coisa na minha vida. Nessa época, eu vendia muito para restaurante. Eu tinha um atacado muito grande no mercado e um dos meus clientes era a Amor aos Pedaços, na época uma lojinha de doces na Rua da Consolação. A dona, que se chamada Ivani e ela era prima da minha cunhada, me chamou para ser sócio dela. Ela tinha aberto a loja há uns seis meses. Um dia antes de me fazer a proposta, eu vi que tinha sido roubado por quem tinha trabalhava comigo no mercado. Como eu acredito muito no lado muito espiritual da vida, interpretei isso como uma mensagem de Deus e pensei: "Estou roubado e uma pessoa me chama para ser sócio.”.

 

Em uma semana eu saí do mercado e entrei como sócio da Ivani naquela loja da Consolação. Assinei o contrato no mesmo dia. Na época tínhamos três, quatro funcionários. Combinei com ela que eu ficaria de manhã e ela ficaria à tarde. Então, de manhã eu tinha o trabalho, à tarde eu ia para a faculdade e à noite para o teatro. Um ano depois eu acabei trancando a faculdade no terceiro ano de psicologia. Eu senti que o trabalho estava indo legal e comecei a gostar cada dia mais do que eu estava fazendo na doceria. Então passei a me dedicar só à loja e ao teatro. Com o tempo eu fui me dedicando cada vez mais e ficava com o dia praticamente todo lotado. No Antunes começaram a pedir pra ficar de manhã, de tarde e às vezes até a noite, o que começou a me trazer dificuldades de conciliar o trabalho com o teatro. Mas eu me comprometi comigo mesmo. Na época a gente estava abrindo a segunda loja e o negócio estava indo bem. Então, eu acabei optando por continuar com o negócio que eu estava gostando. Até tinha um pouco de arte (havia o bolo) e também era o que estava me pagando, eu estava ganhando dinheiro naquilo e começando a me dar bem financeiramente. Então eu deixei o teatro para um segundo momento da minha vida. Fiz um projeto assim: "Ó, eu vou ter quatro, cinco lojas, vou ganhar ‘x’ e vou voltar a fazer teatro.” Só que isso nunca aconteceu.

 

A primeira peça eu fiz na Cipe, Movimento Juvenil, quando eu tinha 12 anos. Chamava-se "Pluft, o Fantasminha" e eu era o tio Gerúndio, que ficava dentro do caixão. Eu me lembro que levei meus pais para assistir e eles falaram assim: "Pô, você quase que não sai do caixão nessa peça inteira." Mais tarde eu comecei a fazer teatro na Hebraica. Eles contrataram um diretor chamado Reinaldo Santiago que até hoje está aí. Certa vez eu fui fazer um teste na Hebraica e eu conheci uma pessoa que cuidava do setor de cultura lá, chamada Amália Zeitel. Ela viu que eu adorava teatro e falou: "Olha, por que você não tenta fazer teatro profissional?" Então eu fui fazer um teste onde, na época, me falaram que era o melhor. Ela mesma me sugeriu: "Olha, os melhores locais para você fazer teatro em São Paulo são o Macunaíma e o Antunes Filho, que tem no Sesc um departamento de teatro que faz pesquisas, super legal.” Então eu fui no Macunaíma mas só fiquei dois meses porque não me adaptei ao estilo que eles trabalhavam. Fui então fazer o teste no Antunes Filho. Eu nunca vou esquecer como foi um dos dias mais felizes da minha vida, porque ali eu comecei a ver o que era teatro levado a sério, o que era pesquisa teatral, o que era estudo teatral, estudo do personagem. Mas só tinham dez vagas e eu falava: "Pô, como é que eu vou entrar..." Tinha uns cem candidatos e o teste levava de dois a três minutos nos quais você tinha que estudar com alguém e representar. Era um texto do Guimarães Rosa, não lembro qual. Eu passei no teste e fiquei super feliz naquele dia. Lembro que fomos todos para uma sala para eles falarem os nomes dos que passaram. E quando o meu nome foi falado, eu dei uma cambalhota no chão de alegria e o assistente do Antunes, Ulysses Cruz, que ficou meu grande amigo também e hoje é diretor de teatro, falou: "Pô, você queria mesmo estar aqui!" "Eu queria mesmo!" Foi engraçado. Mas mesmo fazendo parte do grupo eu acabei não encenando a peça de lá porque na época eu estava começando outro negócio. No total eu fiz teatro por uns três anos e nunca cheguei a me apresentar profissionalmente, só no amador. No Antunes mesmo eu saí umas duas semanas antes de apresentar Romeu e Julieta. Eu estava no elenco, mas o diretor queria mais tempo e eu não podia dar. Eu guardo lembranças super legais de lá, onde aprendi muita coisa pra minha vida, como tentar enfrentar o mundo de frente. Quando eu saí, ele falou “Não sai, fica, você tem um futuro legal." Eu disse que um dia eu voltaria e acabei saindo. Uma das coisas que aprendi foi que eu sempre teimei com ele: “Como é que em dois minutos você pode saber quem vai ou não vai ser um bom ator? Como dá pra você sentir em dois minutos o potencial de alguém?” E ele falava assim: "Olha, tem duas coisas: uma é você sentir o potencial e a outra é que, às vezes, eu procuro alguém pelo papel perfil do papel que eu preciso. Então, por exemplo, se a peça tem a ver com a escravidão, eu tenho que ter um ator que é negro, não adianta.”. E algumas vezes eu pude acompanhá-lo escolhendo.

 

É incrível como a percepção e a sensibilidade dele foram se desenvolvendo com o tempo e ele começava a ver. "Olha aquela pessoa, dá para você perceber a neurose dela pelo peso, pela história dela, pelo jeito de andar, pelo jeito de falar, se ela é nervosa ou não é." Isso me ajudou muito na vida, a ter sempre uma sensibilidade de estar olhando, de tentar observar ao máximo quem você está trazendo para trabalhar com você ou quem vai ser teu sócio, ter sempre uma boa percepção de escolha. Trago muitas coisas daquela época pra vida. Primeiro porque no teatro você tem que ler muito. Tanto com o Reynaldo, tanto com o Antunes, você tinha que ler Jung, tinha que ler Freud, tinha que ler muita coisa. Se a peça era Romeu e Julieta, você tinha que fazer aula de esgrima, que tentar estudar o personagem ou a peça que se estava fazendo. E segundo porque o Antunes é um diretor muito rígido. Uma ótima pessoa, um ótimo caráter, mas que exige que você vá até o fundo e essa exigência entrou um pouco na minha personalidade. Talvez tenha sido no ensaio que a gente estava fazendo e ele parou tudo no meio e berrou: "Pô, você está atrapalhando, você não sabe o que é teatro!" Tinha umas 30 pessoas no palco e eu cheguei no ouvido da menina que estava contracenando comigo e falei: "Ih, eu não sei quem fez essa cagada, mas vai se danar." Ele veio na direção da gente e, quando percebi, quem tinha feito a cagada era eu. Ele disse: "Você não viu que você atrapalhou a cena? Você não está entendendo o que é teatro." Deu um break e falou: "Agora todo mundo vai tomar café, nós vamos repetir essa cena daqui a 15 minutos." Uma menina, que mais tarde virou uma grande amiga minha, falou para mim: "Sabe Reinaldo, você está levando tudo muito a sério. Relaxe. Quando você vai brincar de pega-pega, tenta imaginar que você vai brincar de pega-pega aqui no palco." Eu falei: "Mas eu vou entrar brincando?" "É, teatro é você imitar a vida de uma maneira sadia." Nós fomos tomar um café e na volta eu disse que iria entrar no palco como se estivesse brincando mesmo. E entrei. Ele parou o ensaio e eu já pensei: "Ih." Ele veio: "É isso, isso é teatro, é isso o que eu quero de ocês." E daí em diante eu entendi o que é ser ator e um pouco do que era o mundo do teatro. . E acho que eu faço isso até hoje, de ‘brincar de pega-pega, relaxar’. Por exemplo, nós inauguramos uma loja em Chicago há dez dias atrás, agora no final de outubro de 94. Para o setor de Chicago e Estados Unidos inteiro, eu tenho um casal como sócios. A Linda estava muito tensa com a primeira loja. Ela fez treinamento e eu tentei mostrar para ela como a tensão dela passava para quem trabalhava com ela e para o cliente. “Então assim, relaxa!”. Ela até brincava comigo, inglês, quando vim embora “Eu já peguei a mensagem, relax." Outra coisa que eu aprendi foi a não ser puxar saco na vida e ir até o fundo naquilo que a gente acredita. Se você me convencer que estou errado em alguma coisa, eu posso ser o mais teimoso do mundo, mas se você me convenceu a acreditar em algo novo, talvez até melhor do que aquilo que eu acreditava, eu cresci. E isso eu também levei pra minha vida quando eu saí de lá para o trabalho da doceria.

 

Comprar ou vender bancas no mercadão é uma questão de oportunidade. Uma vez uma pessoa me falou: "Reinaldo, sempre que alguém diz que você é um cara sortudo, você fica zangado." Eu falei: "Pô, mas eu trabalho tanto e o cara vem e diz que eu sou sortudo. Que sorte, que nada, isso é trabalho." Ele falou: "Você sabe o que é sorte? Sorte é a soma do trabalho com a oportunidade." Então eu diria que eu sou um sempre sortudo, porque tentava estar no momento certo, no local certo, atento às oportunidades. No mercado é uma coisa que vem normalmente, de família para família, é mais fácil quando você está lá dentro. Por outro lado, o valor de você ter uma banca de mercado é muito relativo. Hoje ele funciona muito mais como base ou depósito, do que como venda de varejo. O movimento que você tem no varejo no mercado hoje é muito mais fraco. Existem milhares de supermercados, tem postos de venda de Ceagesp, então não é todo mundo que vai para o mercado. Assim, o valor dele é muito relativo. Como é da prefeitura, você paga um aluguel para ela e, quando vende, o que você faz é passar o direito de passe. 

 

Quem frequenta o Mercado Municipal são normalmente pessoas que gostam muito de comida e de cozinhar. Quem compra lá são pessoas que vão atrás de um peixe fresco, de algo diferente que não encontram perto de casa. Tem também clientes antigos, pessoas que vão lá há muitos anos mais pela magia do próprio Mercado Municipal. Trabalhar lá dentro me ensinou uns truques que me ajudam na doceria. Por exemplo, o que os donos de banca fazem para uma ameixa que não está boa, ficar brilhante: você pega uma ameixa, põe groselha, joga um pouco de álcool e você põe fogo. Essa groselha vai derreter e entrar na ameixa e ela ficará brilhante. O consumidor imagina que a ameixa brilhante é melhor que ameixa seca e nem sempre isso é verdade. Outros, para esconder o mofo das nozes, colocam álcool e queimam para que o calor tire o mofo. Só que o pontinho desse mofo continua nas nozes, que devem ser usadas em dois, três dias ou voltam a dar problemas se não forem bem armazenadas. Então, estando do outro lado do balcão, como eu já sabia disso, quando eu comparava nozes eu sabia identificar quando alguém estava me vendendo um produto de boa qualidade ou não. Tem também o exemplo da manteiga. Eu tinha um vizinho de banca que comprava a manteiga do mesmo fornecedor que eu e todo sábado ele vendia dez blocos e eu, apenas um. Eu não me conformava: "Pô, mas a minha banca é em frente à dele." Eu brigava com meu fornecedor: "Olha, a manteiga que você vende para ele não é a mesma que você está vendendo para mim." “Reinaldo é a mesma, você quer ver? Sábado eu vou chegar com a manteiga, você vai lá, escolhe os dois blocos que você quer e os dez que sobrarem eu mando para ele." Quando eu vendi as bancas para ir trabalhar na doceria, meu vizinho me chamou: "Olha, vem aqui, vou te ensinar." Ele deixava a manteiga dar uma derretida, punha um pouquinho d'água e punha para congelar sobre o mesmo bloco da manteiga. No dia seguinte ele tirava esse bloco da geladeira, cortava e punha a metade do bloco em cima para venda. O que acontecia é que a manteiga começava a derreter, porque ele tinha acoplado água, e começava a ficar suada. Então a dona de casa compra essa manteiga acreditando que está fresquinha, sem saber que está pagando pelo peso da água. Tem também o queijo de Minas: você compra soro e enfia dentro do queijo. Além de fazer o queijo durar, o soro conta no peso que o cliente tá pagando. Eu posso passar duas horas te contando histórias que eu aprendi lá. Mas eu acho que hoje ninguém mais faz esse tipo de coisa porque você tem um controle mais rígido. E foram essas lições que eu tive lá que me ajudaram a saber usar um produto de qualidade quando eu comecei a doceira.

 

Quando me associei ao negócio, as sobremesas eram vendidas por fatia, não por quilo. E tinha salgadinhos que ela fritava na hora. Com o tempo a gente acoplou sorvete, bombom e naquela época tínhamos mais ou menos dez tipos de bolo. Hoje são mais de quarenta. O sucesso se deve aos conceitos diferentes, novos. Primeiro tem o conceito de você poder comprar fatias de bolo para sua casa. Antigamente você entrava numa doceria e comprava um bolo inteiro, docinhos, bombas. O Amor aos Pedaços começou então a te dar a opção de levar no mesmo prato três, quatro sabores diferentes de bolo. Com o tempo as fatias começaram a ser vendidas por peso por uma questão de controle. Chegou um momento que a gente tinha três lojas e não podia estar em todas. Então o problema era que, se a menina que atendia era amiga da cliente, a fatia dela era maior. Se ela não ia com a cara da pessoa, dava uma fatia menor e no dia seguinte a pessoa voltava: "Olha, eu vim aqui ontem à tarde e a menina que estava aqui me deu um pedaço desde tamanhinho." Aí você dava um pedaço maior. A gente começou a sentir que tinha problemas para você distinguir um bolo por fatias, a não ser que você deixasse pré-cortado, mas isso não funcionava num bolo muito caseiro. Então o sucesso foi assim: a gente usava produtos de qualidade e nunca tentávamos enganar ninguém. Tentamos fazer algo proporcionasse um preço justo. E dar uma opção pra pessoa ter aquele bolo ao invés de fazer em casa, um bolo que avó dela fazia. Então era tentar oferecer uma coisa bem caseira sem que a pessoa tivesse que perder o tempo em casa fazendo. Hoje você tem milhões que tentam fazer a mesma coisa, mas naquela época não tinha, fomos os pioneiros nesse ramo de bolo em fatia por peso. E começamos a perceber que o mercado tinha um nicho grande para o nosso negócio e começamos a galgar um caminho. A gente tinha o sonho de ter uma loja no shopping em São Paulo, que era o the best na época. E começamos a correr atrás disso.

 

Começamos com a loja na Consolação, depois abrimos a segunda no Itaim Bibi e a terceira em Moema. A gente também sentiu que tinha espaço para ter uma loja no Guarujá e chegamos a ter uma loja em Campos do Jordão. Foi então que o shopping nos convidou, mais ou menos de 88 para 89. Em 1990 a gente começou a perceber que o nosso crescimento por conta própria era delimitado. A gente tinha 11 lojas próprias e era muito difícil tomar conta de todas elas. Então começamos a estudar sobre franquias e abrimos a primeira em Campinas, em 1991. Primeiro fizemos um teste com uma loja em que a gente era sócio e cuidamos delas como se fosse uma franquia. Com o sistema de franchising a coisa começou a crescer mais. Então, a partir de 1993 nós abrimos franquias no Rio de Janeiro, Curitiba, Portugal, Miami. Em dezembro de 1993 já estávamos com 40 lojas no total. Foi nessa época que a gente dividiu a empresa em dois: meus ex-sócios (que na época já eram a Silvana, a Ivani e o marido) ficaram com a parte do Brasil, Itália, Suíça e Austrália, e eu fiquei com os direitos do Amor aos Pedaços fora do Brasil, com exceção daqueles três países. Eles queriam ter uma opção para se um dia, devido a qualquer problema, tivessem que sair do Brasil. E eu não me opus porque, afinal, o mundo é bem grande. Então fiquei com os direitos da marca e da operação em todos os outros países. Atualmente estou operando em Miami, Chicago e Portugal e, graças a Deus, tá indo legal.

 

Trabalhar em Portugal ou Brasil é muito similar. E eu entendi bem o que é Brasil depois que eu abri loja em Portugal, que é da onde a gente veio. O jeito de a gente lidar com as coisas, com os negócios, nosso sistema tem muito a ver com Portugal. O paladar, o jeito que eles lidam, como é que eles visualizam o negócio economicamente, a forma de retorno deles. Brasileiro tem aquela coisa de que tem que ser um retorno super-rápido e no mundo isso não é verdade. Quando você abre um negócio e ele te dá um retorno em quatro anos, ele já é considerado um bom negócio. O retorno médio é de cinco anos. E em Portugal a coisa é muito parecida com o Brasil. Existem leis trabalhistas que, em minha opinião, não são produtivas. Lá você não pode mandar um funcionário embora, ele é vinculado a você praticamente o resto da vida. Você só pode mandar por justa causa. Isso vem desde a época da revolução que eles tiveram lá e essas coisas brecam um pouco o capitalismo. Mas eles estão percebendo que com isso você acaba indo contra a eficiência de um bom funcionário, porque se alguém trabalha com um potencial muito grande e você começa a nivelar todo mundo por igual, sem se importar se o cara é melhor ou não, ele não vai crescer. Isso eu senti isso do Brasil e Portugal. Com os Estados Unidos já é outro mundo, é uma selva. Você precisa ser muito bom, precisa saber trabalhar muito bem, precisa saber administrar muito bem os funcionários, senão você perde, vira um tremendo pagador de imposto, de seguro. É uma lei em que você paga muito advogado também, então tem que estar sempre andando na linha e tomar muito cuidado para não escorregar ou cometer deslizes. Você tem controles muito grandes, tanto de higiene como de matéria-prima. E pra gente trabalhar com essa matéria-prima nos Estados Unidos é mais fácil que a matéria que vem para cá, porque ela é muito mais bem controlada do que aqui. Lá, um carimbo da FDA é um carimbo da FDA. Se você comete algum problema e alimenta alguém com alguma coisa imprópria, você vai ser julgado e vai pagar por isso. Tem um judiciário que funciona muito bem. É muito difícil, por exemplo, alguém fazer aqueles truques do mercado lá porque é a terra do processo, qualquer coisa alguém está te processando. Se meu fornecedor me oferece uma mercadoria não adequada, ele toma um processo imenso, assim como eu, se eu vender um bolo para alguém e ficar provado que houve negligência da minha parte. O negócio em si dança, então, a responsabilidade é muito grande. A mão-de-obra lá é muito mais cara: você paga uma média de seis dólares por hora de trabalho, enquanto aqui paga isso talvez por dia. Por outro lado, é uma mão-de-obra que te dá conforto porque é muito mais qualificada que a daqui. O funcionário de seis dólares te rende praticamente o que te rendem três funcionários daqui, por assim dizer. Isso gera consumo também.

 

Então o universo americano e de alguns outros países é muito maior que o daqui, para se fazer um negócio. Pra começar, lá não tem inflação. No Brasil, nos últimos dez anos em que eu tive a doceria, sempre tive inflação. Tanto nos Estados Unidos quando em Portugal, a economia é estável. Em Portugal você tem uma inflação de 6,5% ao ano. No Brasil, sei lá, hoje eu posso estar falando que a inflação é 3% e daqui um mês, é de 20%. Você não sabe. O que aprendi trabalhando em uma economia estável é que eu posso estar pensando no desenvolvimento do meu negócio a médio e a longo prazo: "Olha, esse ano eu vou abrir tantas lojas, eu vou investir tanto, eu vou vender tanto, eu vou pagar tanto de imposto, eu vou pagar tanto de mão-de-obra, meu lucro final é esse." Você faz um planejamento. Mas aqui no Brasil é impossível, a gente sempre teve que ir na raça: "Ah, vamos abrir, vamos ver o que dá." E essa maneira de planejar lá você também leva para as compras. Por exemplo, a loja de Portugal e de Miami, você pega o ano passado para esse ano: "Ah, eu vendi cinco por cento a mais". Então você começa a planejar a compra de matéria-prima: "Ó, esse mês que vem eu sei que é um mês bom, o mês passado eu sabia que era um mês fraco." Eu posso comprar mais, comprar menos, e isso funciona, é uma cadeia. Funciona comigo, funciona com o meu fornecedor e então você começa a ter cadeias produtivas que dão muito emprego. E você acaba tendo mais tempo para desenvolver a área de marketing e outras áreas do negócio, ao passo que, no Brasil, a gente passa muito tempo quebrando a cabeça de como vai ser o mês que vem, o que é que vai acontecer. Mas o nosso potencial é muito grande, é só uma questão de saber usar esse potencial lá fora. No Brasil, o trabalhador, o empresário, seja quem for, não fica a dever pra ninguém. Só que a gente se sente terceiro mundo. Quando eu abri a loja em Miami, e agora em Chicago, a gente abriu com a mentalidade brasileira. Demorei um ano e meio, dois, para aprender o que é ter um negócio na América, como é que você tem que trabalhar. E isso foi um aprendizado apanhando. E foi com esse requebrar brasileiro que a gente está conseguindo dar a volta por cima. Em Portugal é a mesma coisa.

 

Nós temos um sistema, um conceito novo de bolo em fatia que eles não têm. Foi muito difícil conseguir uma loja em shopping lá. Eles não acreditam no negócio, assim como não acreditavam quando abriram as primeiras lojas de cookies por lá. Nós não deixamos a desejar para nenhuma empresa americana. Acredito até que poucas têm os manuais que a gente tem de operação, de higiene, de produção, da fábrica ou da loja, tão bem feitos. A gente está tentando ser o mais profissional possível.

 

Antes de ir pra lá, as pessoas sempre me passavam assim: "Vocês vão vender o doce nos Estados Unidos, nossa, o doce é muito doce para eles!" E eu sempre respondia: "Você já comeu Donut's nos Estados Unidos, que é super doce?" A gente adaptou um pouco, tirou o açúcar de certos doces e fez algumas modificações antes de ir para o mercado americano. O doce que a gente mais vende lá é o que eu achei que não fôssemos vender: o bolo com marshmallow. É um bolo negro, de chocolate com cobertura de creme, coberto com marshmallow e calda de chocolate. Ainda é muito cedo para falar de bolo preferido lá. Miami não é bem Estados Unidos, você tem muito latino por lá. Em Chicago só temos dez dias. Eles queriam cheese cake e a gente desenvolveu. Está um baita sucesso, mas chesse cake é um doce americano. Então existe um mercado tremendo de gente que adora coisa com mais ou menos açúcar. E eu estou aprendendo com a clientela de lá.

 

Agora que eu entrei lá, corrigi falhas em Miami e estamos começando com a loja em Chicago, a expansão vai depender muito do faturamento dessas lojas nos próximos dez meses. Estamos abrindo mais duas lojas em Chicago nos próximos seis a oito meses. Uma grande diferença dos Estados Unidos em relação ao Brasil é que lá você tem como captar recursos para poder fazer seu negócio sem encostar em alguém. Você pode ir num banco, pode lançar ações, tem vários caminhos. É um país que tem muito dinheiro. Então, se cada loja tiver um faturamento que em torno de 400 mil a 450 mil dólares por ano, a previsão é ter mil lojas em sete anos. Para mim é um número assustador, eu não estou preparado para esse número. Mas é legal porque você fala: "Pô, mil lojas!." Quer dizer, o universo é outro, bem diferente do Brasil, onde você pode ter 50, 60 lojas desse ramo.

 

O sonho da minha avó era abrir uma doceria. Ela viu os dois primeiros meses da loja, logo que eu me associei. Depois ela faleceu. Ela já estava meio velhinha naquela época, mas eu acho que tinha um certo "karma" na família que ia para esse lado. Tem umas duas receitas que eu faço hoje que vieram da minha avó: uma torta de morango que a gente vende aqui no Brasil, e o fundo da torta de limão que eu faço agora nos Estados Unidos e em Portugal.

 

O jeito que o meu pai dirigia o negócio e o meu jeito eram bem diferentes. Quando eu me associei ao Amor aos Pedaços, ele veio: "Mas por que você vai se associar?" Hoje a quem perguntar ele vai dizer: "Eu falei para você que era um bom negócio." Naquela época lembro que ele falou: “Você já tem o teu negócio." E eu tentava mostrar que eu tinha visualizado uma outra opção. Meu pai nunca foi uma pessoa que ajudou e falou: "Toma o dinheiro, eu te empresto." Ele falou: "Olha, se você precisar de um banco eu te avalizo." Já foi uma grande ajuda. E isso me deu certas barreiras que eu tive que ultrapassar porque nem sempre eu podia contar com a ajuda dele. Mas a tranquilidade de saber que você tem um avalista me ajudou muito no meu negócio. E também a opção de falar: "Você vai batalhar sozinho, mete a cara e você vai deitar no colchão que você plantar." Hoje eu tenho certeza que sou um orgulho para o meu pai. "Pô, olha que negócio bonito que ele fez, quantas lojas ele abriu." Eu gosto de desafios. E ir para os Estados Unidos é um desafio. Levar uma coisa brasileira pra ficar lá. Porque normalmente o empresário brasileiro, o banqueiro brasileiro, eles gostam de ir lá para fora, compram uma grande operação, trazem para cá e acham que isso vai ser um sucesso. Temos exemplos de coisas que vieram e não deram certo. Agora, sair do Brasil, levar daqui para lá e dar certo, é uma coisa muito difícil e que eu sinto que estou conseguindo. Só estou no começo desse trabalho, quer dizer, estou voltando a trabalhar o que eu trabalhava no Amor aos Pedaços quando a gente começou: 12 a 14 horas por dia, na loja mesmo, em cima do negócio.

 

As pessoas vinham para mim: "Ué, você não vai parar, para que é que você precisa de abrir outra loja? Você é louco!" Acho que todos os meus amigos me chamam de louco porque a minha vida é diferente. Eu acabo passando 15 dias fora do Brasil para trabalhar, quando as pessoas vão para passear. Eu gostaria de ver o Amor aos Pedaços vingar em dois países. Um é o Japão, que eu acho um mercado tremendo. Passei três dias da minha lua-de-mel lá porque eu queria conhecer, ver como é. Acredito demais lá e vejo um tremendo potencial para o nosso negócio. O segundo é a França porque, mesmo tendo muitas docerias lá, eu ainda acho que o nosso doce é um doce diferente do que o francês está acostumado. 

 

 

O Amor aos Pedaços, o Luv'n Pieces, tem uma missão que é poder dar opção das pessoas comprarem um doce feito numa loja por um preço justo, caseiro, gostoso, sem você ter que fazer em casa. Eu acho que a minha missão nessa empresa é poder proporcionar isso para o maior número de pessoas possíveis, em lugares diferentes. Essa é minha missão como empresa. Minha missão particular, como brasileiro, eu acho que é tentar mostrar que o Brasil é um país viável, capaz de ter um negócio bom, que a gente é capaz ir para outro país abrir um negócio e fazer dar certo. Infelizmente a imagem que o Brasil tem lá fora, hoje, é muito ruim, eles olham pros brasileiros de um jeito diferenciado. Até mesmo em Portugal é assim. Então, eu sempre acredito que se o meu negócio der certo lá fora, de um jeito ou de outro, eu posso ajudar a mostrar a cara boa do nosso país. É um desafio muito a longo prazo e que só virá no dia em que eu fizer um baita sucesso e der super certo em vários países: “Ó, essa é uma franquia do Brasil." "Ah, do Brasil?".

 

Com a minha vivência nos Estados Unidos e Portugal eu comecei a presenciar que as pessoas têm uma cultura muito grande, têm história, não esquecem o que aconteceu há 30 ou 40 anos. E o Brasil tem uma carência muito grande em preservar a história, preservar o caminho. Essa entrevista é a minha forma de contribuir.

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