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História

Amor a toda prova

História de: Maria Aparecida da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Maria Aparecida largou tudo o que tinha em Pernambuco para acompanhar o marido e os filhos em São Paulo, participando do assentamento em Rio Claro e depois do empreendimento de um restaurante. 

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História completa

Meu nome é Maria Aparecida da Silva, nasci em Tupanatinga, Pernambuco em 19 de junho de 1956. Meu pai trabalhava na roça e minha mãe também. Eu cozinhava pros trabalhadores, era cinco, seis trabalhadores. Com oito anos. Eu ia lavar roupa no rio, era longe, saía quatro horas da manhã, eu com a minha tia, fazia aquele monte de pano no rio, dava o maior trabalho, era muito sofrimento naquele tempo, muito ruim. Naquele tempo usava roupa de prega, tinha que usar combinação de seda. A roupa branca [da minha mãe] tinha que por anil. Nós não éramos muito ricos, mas tinha um tipinho, assim, de fazendinha pequeninha. Fazia queijo, aprendi fazer queijo, sei fazer doce de leite também.

Ela era muito rígida minha mãe: “Menina mulher não pode brincar com menino homem, fora”. Os homens saíam e nós ficávamos dentro de casa... Eu era cozinheira de casamento eu ajudava a minha mãe. Estudei só o primeiro ano, eu sabia muito bem escrever, todo mundo se admirava, mas minha cabeça nunca deu. Eu era ruim pra soletrar, apanhei muito nas mãozinhas, mas não teve jeito. Eu olhava e escrevia todas as palavras do livro. Não errava uma peça. E quando tinha que descobrir aquela letra? Ave Maria, eu apanhava demais. “Que letra é essa?” Se não descobrisse era aquela palmatorinha. Levei muito, tanto eu como meus irmãos. Era ruim. Aí depois teve o Mobral que era à noite, eu ia muito bem, mas: “Ah, depois de velha vou pra escola?” Não tenho paciência não. Meu caçula tava com sete anos quando eu vim pra cá. [Meu marido] veio embora pra São Paulo...

Ele foi fazer uma construção na casa de um doutor em Araras, e encontrou um parente meu e falou que tinha um bocado de gente aqui no assentamento, se ele queria entrar. “Eu não posso”, ele falou: “Põe uma pessoa. Como tu tem dez filhos Vavá, tu pega sossegado.” Se não tivesse bastante filho, não pegava. Aí ele deu o nome, e foi buscar o menino em casa. Meu filho ficou aqui, nos barracos, foi um sofrimento. Só que ele diz que foi um sofrimento, mas que era animado, “Mãe, quando o povo chegava pra correr, pra sair, o primeiro que subia em cima do caminhão eram os cachorros e as galinhas”. Meu filho é brincalhão, sabe? Ele diz que era triste, saía pra pedir, levava o nome de vagabundo, mas que era muito animado. Passou fome, porque tinha que fazer campanha, pra ter alimento. Enquanto o pai não trazia a cesta básica lá de São Paulo, ele tinha que comer junto com os outros e sair pra fazer campanha. Ele falou: “Cida, você não pode vim agora, só quando dividir. Como eu vou trazer?”, porque os barraquinhos eram tudo pequeninho, aqui ao redor, bem fechadinho. Só cabia mesmo [meu filho] e o pai que vinha de 15 em 15 dias. Eu ficava louca, “eu quero, eu quero ir.” Um dia ele ligou pra mim: “Vai sair os lotes.” Ah, eu fiquei animada...

Quando ele chegou: “Vou levar vocês de uma vez, tu vai vendendo as coisas aí,” fui vendendo geladeira, vendendo os bichos que tinha pra pegar o dinheiro. Vendemos só os bichos, os móveis de casa, fizemos contrato e deixamos morador no terreno. Quando foi com um mês, eu vim, nós três. Mas não veio tudo de uma vez. Aí que a saudade matou. A minha casa era grande, nós tinha terreno, nós tinha nossos bichinhos, nós nunca compramos nada pra comer. Lá nós comprava de saco, de sal, saco mesmo, nós comprava de lata de querosene. Depois botaram energia, tava muito bom. Nós tinha televisão, antena parabólica, nós tinha de tudo lá. Quando chegamos aqui não tinha nada, nada. O barraquinho pequeno, só tinha terra, pé de eucalipto. Aí eu fui visitar uma madrinha minha: “Mas minha filha, me explique como você deixa sua casa, com tudo que vocês têm pra ir pra São Paulo, morar num barraco que tem inté pé de árvore dentro de casa, minha filha?”, eu falei: “Não, não sei disso não madrinha.”

Quando eu cheguei aqui que eu olhei, sabe aquele pezão de eucalipto, a coisa mais linda. Dei um abraço nele, assim, no outro dia eu arranquei e limpei. Fizemos umas caminhas meio doidinhas. Põe assim uns paus, põe as madeirites, fizemos cama. Com 15 dias ele comprou a cama de casal pra nós, compramos colchão, compramos beliche. Aí foi comprando as coisinhas... Deu uma chuvada, levantou tudo as telhas brasilit. Nesse dia eu chorei, mas chorei, chorei. Os meninos estavam indo pra escola, aí ficou todo mundo triste, que o vento daqui era pesado, muito pesado. Agora nós acostumamos. Eu falava assim pra ele: “Eu quero ir, os meus filhos vão trazendo um por um”, igual ele fez. Ele foi o primeiro que veio, o filho mais velho da minha sogra. Ela tem um monte de filho, ele foi trazendo todos os irmãos.

Ele ia fazendo a mesma coisa e ia deixar eu lá sozinha. Fui ficando sozinha. “Eu quero ir para perto dos meus filhos”, meu sonho era vir e cuidar dos meus filhos, porque inté hoje, graças a Deus, meus filhos só trabalham. Ninguém, inté hoje, não sei o dia de amanhã, meus filhos nunca usaram droga, meus filhos nunca saíram de casa fora de hora quando eram de menor, só da escola pra casa. Hoje em dia são tudo casado, tudo pai de família, que a gente soube criar Numa reunião, os assentados ensinaram e nós começamos a fazer a banana, da banana, nós inventamos a mandioca, da mandioca nós fizemos o café da manhã. Aí fizemos almoço, que eles vieram, a turma toda que doou isso pra nós, gostaram. Veio também uma turma de estudantes, nós fizemos almoço, gostaram, aí começou...

As meninas andando, fazendo reunião... a menina veio e falou o que nós queria. A Expedita falou: “Nosso sonho é o restaurante” Aqui [no Recanto das Palmeiras] nós aprendemos muita coisa, conviver todo mundo junto, unido... Expedita fala: “Fica em casa dia de domingo”, Falo: “Eu não, eu me sinto tão bem”. Nós se sente muito bem quando chega aqui. Só que imagina, em casa tem marido e três filhos, tem que limpar a casa, tem que lavar... Meu esposo não liga, ele não esquenta nada, eu entrei porque quis. Falei pra ele: “Vou entrar e ninguém bota o bico”. Meu menino: “Ai mãe, a casa como é que tá”. Eu: “Então você lava. Almoça, pega o prato, pega a bucha, detergente, lava o prato”. Almoça, bota lá na pia, quando chegar tá tudo lá, ninguém lava. Tem que ser eu ou a menina, então não esquento não. Já acostumaram que chega de manhã: “Mãe, vai trabalhar hoje?” “Vou meu filho”. Ele fala assim: “Ah mãe, dou quinhentos contos pra senhora não ir trabalhar”. Eu falei: “Meu filho, você podia ter me dado antes”. Depois que eu comecei mais elas, quatro anos que nós vimos lutando pra ganhar isso aqui, por que eu vou abrir? E vamos tocar pra frente inté o dia que Deus quiser, eu e Expedita.

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