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História

Amor à italiana

História de: Maria Grazia Tasjon
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2001

História completa

P – Diga o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Maria Grazia Tasson, nasci em Arzignano, província de Vicenza, Itália, em 05 de março de 1937.

 

P - Com quantos anos a senhora veio para o Brasil?

 

R – Com vinte e três, no dia 9 de abril de 1961.

 

P – Por que a senhora veio?

 

R – ( risinho) Porque meu namorado estava aqui, ele era italiano. Ele estava em uma casa de italianos, e a gente casou na igreja do Glicério, igreja dos italiano. Vim para casar. Vim sozinha. Todo o mundo ficou lá.

 

P – Como foi a sua saída de lá?

 

R – Muito triste. Triste demais, demais, demais, demais. Depois de um mês que eu estava aqui eu queria morrer. A gente estranha, não era a minha terra, tinha só esses patrício meu italiano, meu marido, depois de um mês eu queria morrer, queria ir embora, não queria ficar aqui. Já estava casada, então fiquei. Casei em menos de um mês que estava aqui. Cheguei dia 9 de abril, casei dia 23 de abril de 1960.

 

P – Onde a senhora tinha conhecido seu marido?

 

R – Na Itália. Ele veio antes, porque precisava trabalhar.

 

P – Sabe por que ele veio?

 

R – Veio para trabalhar. Porque ele gostava de andar no mundo, porque ele também estava na Suíça primeiro, trabalhava na Suíça, depois saiu de lá e veio no Brasil.

 

P – O que ele fazia?

 

R – Ele era mecânico, transformador, essas coisas de mecânica, mas não de carro.

 

P – Ele também nasceu na sua cidade?

 

R – Ele nasceu em Montorso, é perto de Arzignano. Dois quilômetros, também no Vêneto. Namorei lá, vim para cá, eu casei.

 

P – Como se conheceram?

 

R -  Ah, vou falar em italiano... sabe que que é? Aqui, tipo festa junina, lá a gente fala sagra. Eu conheci ele lá. Uma amiga minha apresentou, que ela trabalhava junto com ele, numa fábrica italiana. Ela me apresentou.

 

P - Na festa?

 

R – É. Mas não é festa giunina é sagra. A gente fala de sagra.

 

P - Essa festa quer dizer o quê?

 

R – O dia, dia 7 de agosto, San Gaetano, a gente comemora o santo lá na Itália . Então dia 7 de agosto era San Gaetano e lá tinha a igreja, e lá fazia esse tipo de sagra. É o nome da festa na qual se comemora esse santo, que seria San Gaetano dia 7 de agosto.

 

P – Voltando um pouco, a senhora o conheceu e veio para cá.

 

R – É, ele trabalhava na Suíça, ganhava muito bem, mas, não se dava bem com os alemão, então, decidiu vir para o Brasil.

 

P – Quando a senhora chegou o que achou do país?

 

R – Ah, meu Deus!

 

P – Chegou de que?

 

R – De navio... naquela época era só navio, não tinha avião.

 

P – Como se chamava o navio?

 

R – Giulio Cesare. Que agora não anda mais, porque está velho como eu. ( risadas)

 

P – Embarcou em Gênova?

 

R – É, em Gênova. Cheguei depois de 12 dias no porto de Santos.

 

P – E quem estava esperando a senhora então?

 

R – Ali estava então o meu marido, namorado, tinha o Cesare, a Lia, que era um casal que eu fui morar na sua casa. Eu casei lá, casei lá. Fiquei lá quatro meses, depois a gente arrumou uma casinha, e fui morar... eu e meu marido.

 

P – Qual foi a impressão em Santos?

 

R – Depois tinha mais gente, tinha outro casal, de italianos, da minha terra, e fiquei feliz, porque era tudo gente que falava o meu dialeto.

 

P – A senhora parou no Rio de Janeiro?

 

R – Sim, parei, fui visitar o Cristo Redentor. Aí gostei.

 

R – E como foi o começo de sua vida de casada?

 

R – Hmmmmm! Não foi nada bom. Porque eu fui morar nessa casa desses amigos, esse casal, só que... sabe como é que é. Viver na casa dos outros não é bom! A mulher, a Lia, ela até faleceu agora. Ela cismava, eu precisava fazer tudo o que ela queria. Mas eu, coitada, nova, com 23 ano, e o mundo aqui desconhecido, e então por isso é que o meu marido resolveu arrumar uma casinha pra morar.

 

P – Essa primeira casa era em que bairro?

 

R – Na Rua Faustolo, na Lapa.

 

P – O que a senhora achou do bairro nessa época?

 

R – É...até que estava bom, porque naquela época não tinha tanto ladrão, como que tem agora, toda essa bandidagem aí. Não tinha nada, era tudo limpo, bonito, a rua, tudo estava bom. A Lapa estava bonita, agora que tá tudo feio, feinho.

 

P – Era melhor ou pior do que onde a senhora morava na Itália.

 

R – Aí, eu vou falar que era melhor na Itália, que é a minha terra.

 

P – Mas não era uma pequena cidade?

 

R – Não é tão pequena.

 

P – O que mais a senhora estranhou quando veio morar sozinha, com o marido?

 

R - Ihhh. Bom, a comida, que ainda agora não acostumei comer arroz, feijão.

 

P – Qual é a sua comida tradicional?

 

R – Ah, eu faço lasanha, macarrão, aliás, fiz lasanha para o meu filho que ele emagreceu, para ele engordar um pouquinho, a gente faz risoto, minestrone, brodo, ma eu não...

 

P – Qual é a comida mais tradicional vêneta?

 

R – Polenta e bacalá.

 

P – Bacalhau?

 

R – É. Polenta e bacalá, specialitá. A gente faz o bacalá de um lado e a polenta de outro.

 

P – Que mais é tradicional vêneto?

 

R – Depois tem também, lógico, o macarrão. Arroz com abobrinha, a minha mãe fazia, arroz com brócoli, nhoque, cada dia fazia uma coisa.

 

P – Quando seu filho nasceu?

 

R – Eu cheguei em 60, ele nasceu em 61, dia 1º de dezembro.

 

P – A senhora fala italiano com ele?

 

R – Dialeto.

 

P – A senhora tem quantos filhos?

 

R – Um só. Maurício.

 

P – Que costumes a senhora preservou na sua casa? Os hábitos?

 

R – Ah, eu ensinei pro meu filho até demais os hábitos italianos, que às vezes não é muito bom, como estou fazendo com o meu neto.

 

P – Quais não são bons?

 

R – Não, é que a gente sempre fala muito da terra da gente, então o filho também sempre cresceu com essa cabeça de pensar na Itália. Temos costumes de sempre ir à missa aos domingos, de comer macarrão, (riso) e comer tudo italiano. O costume é proprio italiano.

 

P - E o comportamento?

 

R – O comportamento também sempre ensinei, sempre severa. Por exemplo, de noite não deixar ele até de madrugada, nunca deixei, sempre... até meia noite... nunca deixei até de cinco hora, seis hora da madrugada, porque se ele saía e chegava em casa uma hora, eu não conseguia dormir, ficava na janela do quarto esperando ele.

 

P – E se ele não obedecesse, qual era o castigo?

 

R – O pai batia, que estava grande, até.

 

P – E as festas religiosas?

 

R – Ah, comemoramos a Páscoa, o Natale, essas festas. Ele ainda vai na missa, o meu filho, vamos os dois junto. O pequeno não vem porque não pára. Ma, no Corpus Christi a gente foi na missa junto.

 

P – Esse é o pequeno que a senhora falou?

 

R – É esse é o meu neto.

 

P – Sua nora é de que nacionalidade?

 

R – Brasileira.

 

P – Seu filho fala italiano?

 

R – Fala. E meu neto também.

 

P – A senhora mora com quem?

 

R – Sozinha, num prédio, num apartamento e meu filho mora no outro.

 

P – A senhora voltou pra Itália?

 

R – Voltei acho que umas cinco ou seis vezes. Vou ver meus irmãos, cunhadas, minha mãe, meu pai faleceu.

 

P – Está certo. Muito obrigada.

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