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História

Amizade e música de sobra

História de: Dolores Nievas Aniceto Testai
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/07/2005

Sinopse

Infância difícil com a separação dos pais. Como conheceu o primeiro namorado, que se tornou marido. Morando na casa de outra família. Histórias de carnaval. Primeiro emprego aos 14 anos. Inauguração do comércio da família. Trabalho como corretora de imóveis. Começo da revenda de Natura. Trabalho com a Banda Lira de Guarulhos. Candidatura política para o cargo de vereadora. Relacionamento com as clientes e benefícios dos produtos Natura.

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História completa

 

P/1 – Dona Lola, vamos começar pelo seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Dolores Nievas Aniceto Atestai, conhecida como Lola, eu nasci em São Paulo, na Rua Visconde de Parnaíba em 18/2/1935. Estou exatamente com 70 anos.

 

P/1 – E o nome do seu pai e da sua mãe?

 

R – Do meu pai é José Aniceto e da minha mãe Francisca Nievas Aguilar.

 

P/1 – É de São Paulo, nasceram aqui?

 

R – Meu pai nasceu no navio, vindo de Portugal, e a minha mãe é de São Paulo.

 

P/1 – Eles sempre moraram aqui ou moraram em outro lugar?

 

R – Não, eles estavam que nem cigano, cada dia moravam num lugar, um hora era no Tucuruvi, muitos lugares aqui, muitos bairros.

 

P/1 – E a família paterna e materna, a senhora tinha contato, como era?

 

R – Paterna quase não, mais a materna, porque é uma história meio difícil, chata de se falar, mas eu nasci de sete meses por causa dos maus tratos do meu pai com a minha mãe, então eles se separaram, naquela época não tinha, quando eu fui conhecer o meu pai para casar, quando eu cheguei lá, as moças falaram: “Olha lá, a filha do Álvaro.” Pensaram que eu tinha morrido, porque eu nasci muito pequenininha, naquele tempo não sobrevivia, e eu fui conhecer ele quando ele teve que assinar pra mim casar, com 19 anos eu casei.

 

P/1 – Irmãos a senhora tem?

 

R – Tenho. Por parte da minha mãe eu tenho uns quatro irmãos, morreram dois, eu tenho quatro, que são meus irmãos mesmos.

 

P/1 – E como era o lugar que a senhora nasceu, o bairro, a rua, qual era a recordação que a senhora tem dessa época, de infância, de adolescente?

 

R – De infância eu não tenho muito boa não, porque eu ficava, às vezes, minha mãe tinha que trabalhar e tinha uma fábrica de espelhos do meu avô que era na Mooca e ela que tomava conta, mas uma mulher sozinha naquele tempo era um pouco difícil, e ela me deixava com as minhas tias, e um dia eu estava lá sentada, quietinha, com a mão na escada, a minha tia veio e em espanhol ela falou: “Que haces, hija mia?” Quer dizer: “Que fazes, minha filha?” “Eu estou pensando na vida” Tão pequenininha, então eu já cresci assim, e depois que ela se juntou com o meu padrasto, eu tinha acho que quase dois, quatro anos, de dois a quatro anos, aí ela levou pra mim conhecer, a primeira coisa que eu olhei pra ele assim, eu falei: “O senhor não vai bater na minha mãe?” Ele falou: “Não.” Então eu fui criada praticamente por eles, porque depois a nossa firma mudou para o Tucuruvi, onde eu tirei o diploma de escola ali no Silva Jardim, no Tucuruvi, que era o Guido Bosquetti, que era meu padrasto, esses meus irmãos são todos por parte dele, e ele foi um pai maravilhoso pra mim, um pai realmente que eu não tive.

 

P/1 – O nome dele é...

 

R – Guido Bosquetti.

 

P/1 – Qual é a parte da família que é espanhola?

 

R – Minha mãe, Francisca Nievas é minha mãe.

 

P/1 – E dessa época, já maiorzinha, depois da... 

 

R – Aí eu trabalhei muito, sabe o que eu fazia? Ai meu Deus, meu pai era tintureiro, e aí você pode ver que em Tucuruvi tem uma Avenida Júlio Buono que eram avós do Guido Bosquetti, e ele era tintureiro e ia entregar roupa, nossa, mas ia eu e meu primo, a gente, esse meu nariz aqui era em carne viva de tanto andar no sol, branquela desse jeito, entregando roupa, ah, vou te contar, mas valeu, tudo que eu fiz na vida foi com sacrifício, mas graças a Deus eu consegui chegar onde eu cheguei hoje.

 

P/1 – E da infância, já maiorzinha, nessa fase melhor, a senhora lembra das brincadeiras, da primeira escola, da professora que gostava, da que a senhora não gostava, o que a senhora lembra?

 

R – É difícil não gostar, só não gostava quando eles davam aqueles purgantes de óleo de rícino para gente, aí é terrível! Eu tinha uma professora que eu gostava muito dela, ela morava em Tucuruvi mesmo, mas no Horto Florestal, então às vezes eu ia até a casa dela, poucas coisas gravaram a minha infância, tipo, que eu digo, em alegria, mas essa foi uma delas, era uma professora muito gente boa, um dia eu saí a pé, você vai ver que naquelas fotos, tinha uma foto de primeira comunhão, a minha tia morava bem em frente ao Silva Jardim, no Tucuruvi, eu queria fazer primeira comunhão e eu não tinha grinalda, essas coisas, aí minha tia falou: “Não, Lolinha, eu te empresto.” Ela morava em frente a escola: “Eu vou fazer o vestido pra você e te empresto.” Aí as meninas falaram: “Ih, Lola, você não vai casar mais.” “Por quê?” “Porque você vai fazer comunhão com a grinalda da sua tia.” eu falei: “Ah, não tem importância.” Então aquela foto que está lá eu fiz e foi na Vila Mazzei mesmo, perto de onde morava meu pai, foi ali na Igreja de Vila Mazzei que eu fiz primeira comunhão.

 

P/1 – E a primeira escola foi essa?

 

R – Não, a primeira escola foi na Parada Inglesa, depois de lá que é que eu fui para o Silva Jardim.

 

P/1 – A senhora tem alguma recordação de escola, era arteira?

 

R – Não, não era não.

 

P/1 – Era quietinha?

 

R – Até que eu era quietinha sim, eu não gostava muito de estudar, não gostava mesmo, mas eu tinha uma facilidade para ler e fazer contas, e até hoje eu tenho, a professora falava: “Lola, espera um pouco, você não estudou na sua casa?” “Não, por quê?” “Porque você leu tão direitinho, e eu sei que você não estudou.” “Ah, não estudei mesmo, professora!” Mas era pegar e eu lia tudinho, e conta também, enquanto a turma está aí com a maquininha, eu já fiz, sou boa de conta.

 

P/1 – Já era nessa época? E assim adolescente já, como é que era essa coisa da paquera?

 

R – Isso foi em Guarulhos.

 

P/1 – Quando a senhora se mudou para Guarulhos?

 

R – Eu me mudei com 15 anos, em 1950, foi por causa das minhas primas, eu fui visitá-las, o meu tio fazia arreio de cavalo que, antigamente, tinha muito isso, aí minha prima falou: “Lolinha, vamos no baile?” Eu nunca tinha ido e eu falei: “Vamos.” Aí eu fui no Macedo que é perto de onde hoje é o Adamastor e lá eu conheci o meu marido, mas eu era pequenininha e ele era grandão perto de mim, e a minha mãe falava: “Ai Lolinha, cuidado com esses moços.” Vinte anos, era mais velho, e eu tinha 14 para 15 naquele tempo, aí ele foi lá me tirou para dançar e depois tocava muito uma música, aí ele veio perguntar meu nome, os dois que estavam mais bem vestidinhos lá, era ele e um primo dele, chamado Roque, aí ele veio perguntou meu nome, daqui a pouco eu escutei lá: “César Atestai oferece para Lola...” Lolita, aliás, ele falou, nem falou Lola “...A música do Luís Gonzaga ‘É a Dança da Moda.’” Foi aí que nós começamos a namorar, foi meu primeiro namorado que foi meu marido e depois nós começamos com música, quer dizer, eles já estudavam música, e eu disse que eu nunca ia casar com um cara que estudasse, e no fim fui casar com um pistonista, mas graças a Deus vivemos muito bem, a minha adolescência foi... Hoje em dia se namora diferente, mas aquele tempo a gente namorava de quinta e de sábado na matinê, a gente ia no cinema, quando um olhava para a cara do outro, o outro virava para lá, de vergonha, a gente só olhava, nem pegava na mão, nada, no primeiro dia que pegou na mão foi uma catástrofe, mas era um tempo muito bom mesmo.

 

P/1 – E a senhora namorou quanto tempo? Qual é o nome dele completo?

 

R – César Atestai.

 

P/1 – A senhora namorou quanto tempo?

 

R – Eu namorei quatro anos, eu estava com 15, mais de quatro, quatro anos e pouquinho, porque eu casei com 19, eu ia fazer 20 em fevereiro e eu casei dia 27 de novembro de 1954, eu já estava em Guarulhos desde 50, então eu namorei quatro anos e pouco, mais ou menos. Mas a família dele era muito boa, depois os irmãos dele, eu cheguei a morar na casa deles, depois que a minha mãe mudou, então eu que cuidava da roupa dos meninos, de tudo, dos meninos, dos homens, então eles me querem como se eu fosse irmã deles, eu não os considero cunhado, nada, eles são como se fossem meus irmãos, os que eu não tive do lado de lá, eu tive nos meus cunhados, nas minhas cunhadas. O primeiro dia que eu cortei cabelo, nossa! Deu festa daqueles, eu tinha cabelão comprido, pronto, agora que ele queria desistir, aí eu falei: “Você que sabe.” E as irmãs dele que me levaram para cortar cabelo, eu falei: “Está bom.” Aí eu cortei o cabelo, ele falou: “Agora é que eu não saio na rua, agora que vão dizer que eu peguei pra criar.” Porque naquele tempo usava-se, se você pegou namorando uma moça muito nova, e eu era pequenininha, e dava aqui assim nele, aí olhava pra cima pra dançar, e foi, ele ficou bravo por causa disso, depois passou, foi um fase boa, gostosa.

 

P/1 – Essa época, a senhora morava em Guarulhos com as suas primas?

 

R – Não, eu morei com a minha mãe, depois ela mudou para Piauí, ele ia lá me ver em Piauí, nossa, mas era muito longe! Depois minha sogra falou: “Por que você não vem morar aqui comigo? Vamos, dorme comigo, no meu quarto.” Aí eu falei com a minha mãe, ela falou: “Você que sabe, Lolita, se você quiser ir.” Acabei indo morar com eles, morei na casa deles, acho, que um ano e pouco, dois.

 

P/1 – Antes de casar?

 

R – Antes de casar. Então eu que fazia comida para eles, porque eles tinham olaria, e minha sogra ia para a olaria bater tijolo, e eu que fazia comida, lavava a roupa deles todos, então eles foram pra mim como se fosse irmãos, e são até hoje.

 

P/1 – Dessa época, desse começo de namoro, de noivado, casamento, o que mais marcou, o que a senhora lembra, além da música, que é uma história muito boa.

 

R – Fizemos tanto carnaval, menina, sabe o que é vir a pé, lá de Vila Galvão, tocava até as quatro da manhã e depois vinha a pé até Guarulhos porque o baile acabava as quatro horas, e não tinha condução, a família dele era toda de músico e a minha sogra, todos os amigos, então vindo por ali, pelo caminho, conversando, conversando, então isso marcou muito, a gente passeava bastante, mas isso família.

 

P/1 – Ele já tocava profissionalmente?

 

R – Já. Deixa eu te contar uma passagem, quando eu estava namorando com ele, era eu, mais duas primas minhas e mais duas amigas minhas, nós éramos cinco, aí nós fomos no baile de Vila Augusto, quando a turma via que a gente chegava, pronto. Eles chamavam o Macedo de Sapolândia: “Ih, chegou a turma da Sapolândia.” Só que aí os moços vinham tudo tirar nós, só que aquele dia eu tinha brigado com ele, aí ele lá tocando piston lá, acho que ele queria me comer de raiva, só eu e minhas três primas dançando, isso aí marcou bastante, não esqueci mais.

 

P/1 – E ele?

 

R – Não.

 

P/1 – Ficou bravo?

 

R – Ficou invocado, ele era muito bravo.

 

P/1 – A senhora falou que não gostava muito de estudar, mas a senhora fez até que...

 

R – Eu fiz até o segundo grau.

 

P/1 – Direto ou parou?

 

R – Parei, mas comecei de novo, porque eu entrei na Prefeitura em 1985... Bom, recapitulando, eu tive loja de calçados.

 

P/1 – Então, vamos lá, vamos falar de sua vida profissional. Qual foi seu primeiro emprego?

 

R – O meu foi na Fábrica Santa Catarina e eu não tinha nem 14 anos, mas como o dono era muito amigo da minha mãe, dos padrinhos deles de casamento que, inclusive, foi meu padrinho de casamento também, aí ele falou com o dono da fábrica, ele me pôs para trabalhar com 13 anos, porque com 14 você conseguia tirar a carteira de menor, mas como eu estava precisando, ele me deixou trabalhar um ano assim e o primeiro salário, inclusive, a minha mãe estava muito doente na cama, eu lembro que eu cheguei, já foi para pagar consulta médica, então, mas ali eu fiquei um ano mais ou menos porque depois, logo em seguida, a gente mudou para Guarulhos, aí eu comecei a trabalhar na Adamastor que era um fábrica de _________, Adamastor, então lá eu trabalhei uns quatro anos.

 

P/1 – Com o quê? O que a senhora fazia lá?

 

R – Eu lavava lã, era uma fábrica de tecido, preparava os fios para a casimira Adamastor, e eu trabalhava na maior máquina lá, lavava, enxugava, centrifugava e fazia os fios e de lá indo para outro lugar, que hoje é lá, o nosso teatro é lá, justamente que o prefeito conseguiu conservar e disse que não ia tirar é a chaminé do Adamastor, e calhou que, quando eu casei, eu fui morar naquela rua, na rua paralela a Adamastor, eu falei: “O mundo é pequeno.”

 

P/1 – A senhora já estava casada nesse segundo emprego?

 

R – No segundo não, na Adamastor não.

 

P/1 – Em seguida é que foi a fábrica de sapato?

 

R – Não, a fábrica de sapato foi muito depois, porque aí ele disse que ele não queria que eu trabalhasse mais, o meu marido, e, nesse tempo que a gente era noivo, que a gente morava com a minha sogra, que eu te falei, então eu ajudava eles, eles faziam um relógio cuco, móveis entalhados, então eu ajudava, junto com os irmãos e os primos dele, eu ajudava a limpar os quadros com a ferramenta de formão, essas coisas, eu fiquei muito tempo ali com eles, então nós casamos, aí que a gente foi pro Bata, companhia de sapato para comércio e indústria, antes de montar a nossa, nós ficamos quatro anos como gerente e vendedor deles.

 

P/1 – Foi o primeiro emprego da senhora foi como vendedora?

 

R – Foi, ai que vergonha.

 

P/1 – Então conta como foi.

 

R – Então, deixa eu te contar, o Jean Bata determinou eu a vender na Penha e o meu marido no Tatuapé, aí a mocinha olhou para mim e falou: “Lola, vai atender aquele cliente lá.” Ai que vergonha, minha filha, eu falava: “O que eu vou falar? Até chegar no homem, como é que eu vou falar?” Senti que subiu um calor e eu, se não me engano, nessa época, eu já estava esperando meu filho, eu estava grávida do Miguel, eu já estava esperando porque minha sogra alugou o imóvel para eles, mas com a troca de que ele fosse o gerente e nós todos trabalhássemos lá, então foi assim que começou a nossa vida, hoje em dia a gente vende qualquer coisa, mas a primeira vez, eu vou te falar.

 

P/1 – Como é que foi, a senhora lembra quando foi atender?

 

R – Eu só me lembro que me deu um calor, um frio, eu falei: “Meu Deus do céu, o que eu falo para esse homem?” Mas ela disse que eu fui bem, mas não me lembro, realmente, se eu falar que eu estou me lembrando, eu estou mentindo, não me lembro não.

 

P/1 – A senhora falou que nessa época a senhora já estava grávida?

 

R – Já. 

 

P/1 – Quantos filhos a senhora tem?

 

R – Eu tive três homens, aí eu perdi um de acidente, atualmente, eu tenho dois.

 

P/1 – Netos?

 

R – Netos, eu tenho sete netos e um bisneto, e tenho duas netas casadas e as outras estão solteiras, mas está tudo melhorzinho, com vinte anos, agora veio o raspinha do tacho, o Gabriel, é a cara do pai dele, branco igual ele.

 

P/1 – Voltando a vida profissional, da fábrica de sapatos a senhora foi para onde depois?

 

R – Nós montamos a nossa loja, que se chamava Blue Star Calçados, vendemos muito sapato.

 

P/1 – Onde ficava?

 

R – No centro mesmo de Guarulhos, quando o Bata saiu, eles alugaram um outro imóvel, aí minha sogra falou: “Então fica com vocês e vocês tocam, montam a loja.” E meu cunhado tinha um jipe, então ele ficava comigo, nós vínhamos aqui na 25 de Março buscar mercadoria, e na loja ficava o meu marido e o meu irmão. Nós começamos no dia 20 de abril de 56, a loja nós começamos, ai, vou te contar. Ai, que sacrifício. Ele não deixava a turma levar a caixa pra pôr para não ficar buraco, mas depois isso foi indo, foi indo, ficou tão bem, vendi tanto, que a minha sogra teve que ir tirando os quartos e foi esticando a loja, aí que depois ela resolveu vender o prédio, aí nós tivemos que vender a loja, então, infelizmente, meu lucro... Nós fechamos em 1970.

 

P/1 – Nesse período todo foi só a loja?

 

R – Foi só a loja.

 

P/1 – E o esposo da senhora tocando?

 

R – Ah sim. Era o meu marido, o Atestai, o irmão dele, o Bimbo, que a gente chamava ele de Bill, o apelido, o meu irmão Heitor e a minha sobrinha Cida e eu, então só que eu ia com ele buscar mercadoria, e ia repondo, depois a gente tinha um crédito na praça enorme, então tinha muita mercadoria do Rio Grande do Sul, os vendedores traziam amostra, então eu falava: “Deixa comigo que eu vou escolher, vou mudar as cores, pode?” “Pode.” Então eu mudava todas as coisas, vendi sapato, nossa. Infelizmente minha sogra teve que vender o prédio, senão eu estaria muito bem de vida.

 

P/1 – Mas vocês não continuaram com a loja em outro lugar?

 

R – Não, porque ela quis vender, aí eu fui ser corretora de imóveis porque eu tinha uma amiga que tinha uma imobiliária, um protótipo, aí eu consegui pôr meu irmão na Câmara, porque a Câmara era encostada na loja, aí meu marido falou: “Eu não quero saber de Câmara não.” Aí eu fui trabalhar como corretora, eu e ele, e vendi 80 lotes ali em Bonsucesso, que, quando você vende um lote, você cria um círculo de amizade muito grande, porque a pessoa que progride na vida, ela nunca vai esquecer de você, eu me lembro muito de um fato, que tinha um senhor, ele que morava... Sabe esse pessoal que acampa e fica morando no terreno da prefeitura? Eu entrei na casa dele, eu e meu irmão: “Ai, Dona Lola!” Mas tinha morrido um irmão dele na pista e ele cuidava das crianças, dos sobrinhos, aí eu falei, era seu Antonio, seu José era irmão dele: “Seu Antonio, por que o senhor não compra o lote?” “Porque não vai dar pra mim pagar.” “Vai, seu Antonio, compra que vai dar.” Era tão pouquinho de entrada e era pago em cinco, seis anos, se não me engano, pois, olha, isso me marcou bastante porque foi uma pessoa que comprou, pagou direitinho, toda vez que ele ia fazer o negócio, hoje ele mora em Arujá: “Dona Lolinha, e esse negócio está bom, posso comprar?” “Pode.” Então ele foi uma pessoa que subiu muito, então ele fala: “Se a senhora não tivesse entrado lá e me entusiasmado, eu não teria comprado nunca e estaria do mesmo jeito.” Eu falei: “Então, precisa arriscar, não é?” Graças a Deus, hoje ele está tão bem de vida que eu tenho, a Adélia, de amigos, que ligam e falam: “Ô, minha nega!” Ela fala com o sotaque baiana dela: “Ô, minha nega, vem pra minha casa, tu tá sozinha.” E, na época de campanha, meu marido foi candidato, aí ela falou: “Você não se incomoda não que eu ponha a fotografia dele na beira da minha cama, na cabeceira?” “Pode pôr, que é que tem Adélia? Pode pôr.” Então a gente criou uma coisa fora de série, essas 80 famílias que eu levei lá, eu consegui levar nesse loteamento, saneamento, luz, asfalto, água, então é um pedacinho da gente que ficou lá, eu fiz uma amizade muito grande lá.

 

P/1 – A senhora ficou bastante tempo como corretora?

 

R – Fiquei, depois que eu comecei a vender Natura, eu comecei vender Natura em 95, eu fiquei muito tempo como corretora, vendi muita coisa, esse Express Inn Hotel que está em Guarulhos hoje, ele ficou até com um compadre nosso, porque ele comprou o nosso ponto da loja, porque meu marido falava: “Eu não quero vender para ninguém de Guarulhos não!” E, no fim, veio esse japonês, que ficou compadre da gente, sabe, que japonês quando confia, confia mesmo, ele era aquele que dava o cheque em branco para a gente preencher e fazer o negócio para ele, então aquilo foi se alastrando, eu falei: “Por que você não começa a construir?” Porque eu tinha prática de imobiliária, ele falou: “Você acha que dá?” Eu disse: “Claro que dá.” Pois olha, esse foi outro, sentava em casa, cruzava a perna e falava: “Vou fazer um negócio, o que você acha?” “Faça, faça casa aí.” Daí meu marido dava plantão nas casas dele, vendia, depois ele construiu o hotel que está lá até hoje Express Inn Hotel que é dele, então foi uma trajetória muito boa de corretora, foi, porque o corretor, a pessoa que compra uma coisa tua, precisa que ter confiança, se ele tiver confiança, eu vendi para o gerente do banco, o Aldo é gerente do BCN, onde a nossa promotora trabalhava, a Júlia, ela falou: “Dona Lola, eu conheço a senhora do banco.” “Da onde você me conhece?” “Do BCN, do Aldo.” Porque eu vendi, fiz financiamento da casa dele e depois, por vir a calhar, ela foi ser minha promotora, que eu estava numa outra equipe e me passaram para a dela, aí até melhorou, não sei se a gente se identificou mais, eu passei a vender muito mais, porque eu peguei por pegar, de tanto que a minha cunhada vendia: “Pega, Lola, você conhece tanta gente.”

 

P/1 – É, então vamos contar desse começo, como é que a senhora conheceu Natura, como é que surgiu a ideia de começar a vender?

 

R – A minha cunhada morava junto, perto da minha casa, perto de mim, eu comprava Natura dela, aí ela falou: “Poxa, você tem tanta amizade aí, na prefeitura, em todo lugar, pega Natura.” Eu falei: “Ah, não quero.” Por fim acabei pegando e, olha, hoje, o pessoal da Câmara, eu tenho muito freguês ali, a Câmara, as diretoras: “Ai, Lola, o dia que você não vem aqui parece que você não veio assinar o ponto.” “É, filha, não é todo dia que dá pra mim vir.” Mas a Natura me abriu muitas portas, muitas mesmo, porque, embora não pareça, uma caixa de sabonete que você dá, a pessoa se sente tão assim. INPS, eu arrumei muita coisa para muita gente lá, através do quê? Através de uma lembrancinha, de uma coisa simples, então ela me abriu muitos caminhos, a Natura me abriu bastante.

 

P/1 – A senhora entrou na Natura em 90 e...

 

R – Eu sei que faz 14 anos. Acho que foi 97, acho que 98, por aí, faz 14 anos que eu estou na Natura, mas eu vendia Natura, as minhas amigas falavam assim: “Lola, pelo amor de Deus, eu nunca vi uma coisa, você dá tudo.” “Deixa, se eu tenho vontade, eu dou, e daí? Eu dou mesmo.”

 

P/1 – Qual era a estratégia de venda que a senhora utilizava para captar o cliente e mantê-lo?

 

R – Todo mundo que compra de mim são meus amigos, eu tenho um advogado, ele falou: “Lola, como é que é? Agora você não anda mais, eu que tenho que vim procurar na sua casa?” Como é que ele fala? “Ô, minha presidente...” Por causa da banda ele fala: “Ô, minha presidente” “Cara, suas pernas agora estão melhores que as minhas, então vem você aqui.” Ele chama Adílson Fernandes, então ele sempre vem buscar lá, mas a minha estratégia de venda sempre foi levar o produto, nunca foi mostrar pelo catálogo, que as minhas freguesas falam: “Não vem aqui só com o papel não, me apareça com coisa, que a gente quer ver.” Então, tem aquela de última hora, eu fiz, quando eu trabalhava na prefeitura, eu fiz muitas cestas de natal, eu punha um pouco de cada produto, fazia umas cestas bonitas, nossa. Como eu vendi cesta de natal. De última hora, que nem a Fátima, chegava quase na véspera, no dia de Natal: “Lola, o que é que você tem aí?” “Mas você, hein? Você me deixa para o último dia.” Então tinha, e tenho, mercadoria lá por causa disso, porque elas não são assim, quando você pega uma certa amizade com elas, você passa a ser da família também, agora é um cuidado, todo mundo quer cuidar de mim, depois que meu marido morreu, todas elas me telefonam, me perguntam se eu estou bem, se eu estou precisando de alguma coisa, então, para mim, foi um passo bom, muito grande, porque eu não sei sem ficar sem fazer nada, se eu ficar sem fazer nada, não dá, não tem condições.

 

P/1 – Qual é o perfil dos clientes da senhora? São amigos?

 

R – São.

 

P/1 – São homens, mulheres?

 

R – Homem, mulher, criança, tudo... Então, eu falando, esse doutor Adilson tem uma criança deficiente. “Você vai no baile ou não vai?” Ele falou: “Olha, fala presidenta, eu vou só porque você veio trazer o convite aqui em casa.” Nossa, ele comprava no final do ano para dar para os clientes dele, quando a maré estava um pouquinho melhor, de quinze, vinte, trinta estojos para levar para clientes, para levar, vamos supor, no INSS, onde ele devia favores, no banco, para as meninas do banco, nossa, no banco eu vendia muito, tanto é que tem muitas moças lá que pensam que uma funcionária lá é minha sobrinha e não é não, aquela amizade que a gente fez quando era o Bandeirantes, agora passou para Unibanco e continua os mesmos funcionários. O dia que eu fui no casamento de uma delas: “Ah, Lola está aí!” Até que foi engraçado, todo mundo em volta de mim, e foi uma alegria bastante grande, isso aí que me faz viver, são os meus amigos, porque família você é obrigado a ter, mas amigos você escolhe aqueles, então graças a Deus eu tenho uma amizade muito grande, você procurar em Guarulhos e perguntar se conhece a Lola, eu garanto que vão dizer que sim, porque eu vivi todos esses anos no centro de Guarulhos, então a gente conhece muita gente, muita gente boa, gente que me viu mocinha, jovem, porque antigamente Guarulhos a gente passeava, o forte, era da igreja até onde é hoje um ponto de ônibus grande, é uma loja da Marabraz, então ficavam os moços do lado direito e esquerdo e as moças passeando no meio da rua, até um deles falou pra mim: “Lola, vamos voltar a fazer aquilo? Agora tem o calçadão aí.” Eu falei: “Você que sabe, telefona para o pessoal, se você quiser, a gente faz, não tem problema.”

 

P/1 – A senhora lembra da sua primeira venda da Natura, o primeiro pedido quando chegou?

 

R – Não lembro. Agora você me pegou. Você sabe que eu ainda tenho a nota, eu tenho mania de guardar tudo, eu acho que eu tenho até nota guardada, um dia meu marido falou: “Lola, pra que tanta coisa guardada aí, pedido, tudo?” Eu falei: “Ah, deixa aí, não tem importância, deixa aí.” Mas foi gente de casa, foi amigos mesmos, meus parentes, meus irmãos que compraram, um apresentando o outro: “Ah, a Lola vende Natura.” “Ah, então eu vou lá.” Porque é pertinho, eu moro bem em frente à Justiça do Trabalho, bem no centro, então é fácil de você ir na minha casa: “Passa na Lola, que ela sempre tem mercadoria.” Ou quando não, eles me ligavam: “Lola, dá pra você me trazer agora, já? Não-sei-quem faz aniversário aqui na Câmara, eu preciso de um produto.” “Está bom. O que você quer, mais ou menos, quem é a pessoa?” “Você escolhe, faz do jeito que você achar melhor.” Então é assim, foi pelos amigos que a gente criou, foi virando uma bola, vai virando uma bola de neve. Hoje no baile eu dou Natura de presente.

 

P/1 – Na casa da senhora, você tem um estoquezinho sempre?

 

R – Sempre. Um estoquezão.

 

P/1 – Tem exposto?

 

R – Não, está na caixa, porque meu filho tem escritório de advocacia em cima e embaixo eu atendo as minhas clientes, embaixo tem o pessoal do Sakamoto que compra muito, a Iara, ela fala: “Tia, que horas a senhora está aí? Eu estou indo aí.” Então ela vem de noite, já leva tudo que ela quer.

 

P/1 – Qual é o produto que a senhora acha que é mais parecido com a senhora?

 

R – Comigo? Agora você me pegou, eu nem sei. Eu sou muito vaidosa, uma coisa que eu não fico sem é batom, creme eu até esqueço de passar, mas batom, eu vou te falar. Mas é batom, e gosto muito do Chronos, mas infelizmente, o meu caso foi muito sofrimento e perda de marido e perda de filho, coisa que precisa fazer plástica mesmo, senão não adianta.

 

P/1 – Me conta da banda. Como é que surgiu a banda nessa história toda?

 

R – Essa banda já surgiu desde o meu casamento, meu marido já tocava na banda, tanto que eu não queria casar com músico e fui casar com um pistonista, e ainda depois a banda também, então eu sempre trabalhei, desde 56 que eu atuo na banda, estou atuando lá, mas ajudando, eu ajudava eles a fazer contrato com a prefeitura, porque sempre foi, ela não é emancipalizada ainda, o ano passado eu consegui 2700 assinaturas para ver se o prefeito municipaliza a banda, porque a gente toca de acordo com o contrato, então hoje nós temos, dois bailes por mês, no primeiro sábado e no terceiro sábado, nós fazemos o baile, lá no centro Adamastor mesmo, que o prefeito desapropriou e fez um teatro muito grande, inclusive já foi Os Demônios da Garoa, gravaram lá, a Inezita Barroso, tem ido muito artista bom lá, e nós fazemos nosso baile lá também, mas a minha trajetória na banda está desde 56, é que eu não queria assumir como presidente, depois quando o Tieso, que era o maestro, estava falecendo, eu tive que entrar na UTI da Santa Casa, pegar na mão dele, porque a vida dele era a banda, ele era solteirão, aí eu segurei na mão dele e falei no ouvido dele, eu falei: “Dito, parta em paz, que enquanto eu viver, eu te prometo que eu vou cuidar da banda.” Tanto é que a nossa banda, ela tem CGC, eu acho que deve ser uma das mais antigas de São Paulo, com um documento de 1903, foi quando eles começaram a iniciar, então se for contar por aquilo, nós estamos com 101 anos, e sobreviver 101 anos não é fácil, então você tem que ir trocando, eu tenho músicos lá que têm 52 anos de banda, às vezes eu brigo e falo: “Qualquer hora, eu vou lá pra cima! Vou fazer uma bandinha lá em cima, uma grande parte já está do lado de lá.” Eles dão risada.

 

P/1 – Banda Lira de Guarulhos?

 

R – É, Corporação Musical Lira de Guarulhos. O meu sogro, ele que fazia o casamento do pessoal antigo de Guarulhos, porque são poucas as famílias que viviam lá, então era muito italiano lá, e ele com a sanfona dele, ele ia, fazia casamento em tudo quanto é olaria, em todo lugar, e baile nós ia atrás também, ia eu, minha sogra, tudo atrás.

 

P/1 – A senhora dançava?

 

R – Dançava! Dançava e danço.

 

P/1 – Dança ainda e gosta? 

 

R – E como!

 

P/1 – Algum estilo preferido?

 

R – Qualquer coisa. Danço qualquer coisa, menos tango, porque o resto... A música se tornou um pouco parte de mim, eu não sei se você perguntar se eu sei música, eu acho que não sei, mas às vezes eu entendo, quando eles dão uma errada, eu olho lá para cima e eles falam: “Ela já viu a falha nossa.” Tantos anos de música, você tem que entender alguma coisa, mas aquilo agora é a minha vida depois que meu marido morreu. Eu estou usando a bengala porque eu peguei uma anemia muito forte depois que meu marido morreu, e se você for lá no salão: “Essa não é a Lola, a que eu estou vendo na rua.” Porque danço o iê iê iê, chego até no chão, eu não estou nem aí, é triste, viu?

 

P/1 – E nada dói?

 

R – Nada, incrível. Uma vez eu falei para o médico isso, o pai dele é cardiologista: “Deixa eu te perguntar uma coisa, como é que eu subo o morro aqui, o coração está saindo pela boca, vou lá no baile danço feito não sei o que, e nada?” “Porque o baile pra você é uma terapia.” Eu falei: “Poxa, então tem que ter baile todo dia!”

 

P/1 – A senhora é presidente da banda. O que faz exatamente uma presidente de banda?

 

R – Presidente da banda, infelizmente, faz tudo, você vai atrás de contrato, traz o que eles comem: “Lola, traz um aguinha pra nós?” “Você não tem jeito de descolar uma cervejinha?” “Não, agora em serviço não.” Então é roupa, eu consegui com a prefeitura uniformes novos, instrumento, o primeiro que deu instrumento pra banda, foi o interventor, o Jean Pierre Hermann de Morais, quando ele foi para Guarulhos, fui eu e meu marido lá, ele falou: “Não, pode ir lá, que eu compro!” Depois, em seguida, uma outra vez, foi o Pascoal que deu, e agora essa última vez foi o prefeito que me deu, alguns instrumentos que estavam precisando de consertar, vai indo com o tempo, o instrumento nacional fica ruim, o do meu marido era dele mesmo, e ele nos deu uniforme, pra banda, então eu tenho uniforme azul marinho com calça azul e também com camiseta, porque nós tocamos um dia com calça branca e a camiseta, essa eu mandei fazer escrito Banda Lira Show, e no carnaval eu consegui pôr umas 600 pessoas lá dentro, e o pessoal de terceira idade ainda me presenteou com duas fantasias, uma de Cleópatra e outra de espanhola.

 

P/1 – A senhora usou as duas?

 

R – Usei, no primeiro dia, no sábado, é, nós tocamos no dia 5 e 6, eu usei a de Cleópatra e no segundo baile eu usei a de espanhola, o prefeito chegou: “Lola, como você está bonita! Eu falei “Pois é.” “Não estou nem te conhecendo.” Essas meninas aprontam comigo, passaram em casa: “Lola, espera aí, que nós vamos te levar para São Paulo.” “Está bom.” Vieram aqui para a Aclimação para comprar a fantasia, você acredita? Isso é amizade, amor, carinho, então é isso que a gente procura passar para as pessoas, e como elas gostam de um presentinho da Natura. “Ah, Lola, é a prefeitura que vai dar ou é você?” Porque a prefeitura dá muita flor e eu quando é um baile assim, que nem o baile do dia das mães, eu levo alguma coisa da Natura, sorteio, o sorteio para mais velha, mais nova, tem mulher lá que dança, está com 86 anos, e tem mocinha com três, quatro anos, tem de tudo lá, ficou outra família lá, muito boa, muito boa mesmo, eu paro para os músicos comerem alguma coisa, põe cd lá, haja mulher chorona. Elas não param um minuto, é terrível.

 

P/1 – Dona Lola, nós estávamos falando da banda, presidenta da banda...

 

R – Isso, presidente da banda.

 

P/1 – Agora queria saber dessa outra versão da senhora, candidata a vereadora. Qual é a sua relação com a política, como é que é isso?

 

R – Infelizmente, eu sempre fui meio política, quando eu fui para Guarulhos, a gente ensinava o pessoal a votar, isso eu não vou esquecer nunca, porque punha-se umas tábuas, fazia um cercado, eu estava vendo umas fotografias e falei: “Nossa senhora. Essa fotografia é do, esse homem até já morreu, ele foi candidato a deputado estadual, e eu trabalhei para ele.” E eu falei: “Olha minha foto aqui.” Então, antigamente, dizia-se “se pegar no cabresto.” Porque eles não sabiam votar, você vinha ali, e eu ensinava como votava, então, independente disso, sempre estive envolvida em política, mesmo querendo ou não querendo, porque eu ajudei muito o Sakamoto, naquela ocasião nós trabalhamos para ele, porque eu tinha loja e em frente a minha loja era uns turcos que tinham loja em frente, e nós começamos com o nosso carro trabalhar para o _______, hoje em dia a turma pede dinheiro, pede tudo, mas naquele tempo não tinha nada disso, você trabalhava porque você gostava da pessoa, porque era teu amigo, eu me lembro bem que meu marido estava com o carro, não sei quem parou ele, xingou ele de longe assim: “Aí vira casaca!” Quando ele viu que era um dos turcos do lado de lá, ele disse: “Vira casaca por quê? É você que está aqui no nosso lugar, ocupando nosso espaço, eu estou trabalhando honestamente, estou ajudando um amigo a ser vereador.” No tempo que vereador não ganhava nada, hoje vereador é remunerado, mas naquele tempo não era, então eu falei: “Sr. ____ por que o senhor não sai a deputado estadual?” Porque a gente ajudava o _____, “Entra na chapa com ele.” Aí não quis, depois passou essa fase, e eu conhecia a irmã dele muitos anos, e fizemos muita campanha junto, depois eu continuei, acabei continuando na campanha, até que convidaram meu marido para se filiar ao PTB, isso foi em 1980, eu subi na Câmara, eu e ele, e falei: “Ih, Nenê, é melhor não ir, entra você.” “Não, entra você.” Fomos de casa até na Câmara discutindo entra ou não entra, entrou ele, na época que, 1982 foi, 80, 82, essa minha neta tinha dois anos, que a gente votava na chapa inteira com o Jânio Quadros, então você tinha que votar tudo, César Atestai, Jânio Quadros, o prefeito eu não me lembro quem foi na ocasião na nossa chapa, um rapaz que era amigo nosso, o Celeste, foi candidato a deputado estadual também, naquela época ele falou: “Com 1200 votos você está eleito.” Eu falei: “Nenê, é bom você pensar bem...” Porque o apelido dele era Nenê. “Porque se 1200 votos você tiver eleito, isso aí dá para a gente pegar.” Mas nós pegamos mais, ele pegou 1.424 votos porque tinha muita gente que era janista e votou nele porque era janista, não por ele, mas porque era amigo e porque era janista e votou também, mas ele não chegou a ser, ele assumiu como suplente, como suplente, assumiu duas vezes como suplente, o primeiro ato dele foi pedir água para aquele loteamento, que eu te falei anteriormente, que eu vendi, que é denominado Jardim Albertina, então a gente participou da política sim, depois ele não quis sair mais, saí eu, mas ainda não dá, fui fazer a festa antes.

 

P/1 – Quando a senhora foi candidata?

 

R – Acho que em 2001, 2002, mas eu não consegui não, eu fiz uma festa muito grande no sítio, eu saí pelo PL, Partido Liberal, eu pus umas 600 pessoas, não, acho que tinha mais, fizemos um churrasco muito grande, era, depois eu vou te mostrar a fotografia, escrito Lola, e eu fiz umas camisetas em branco e aqui Lola em lilás, e o chapeuzinho também branco escrito Lola em lilás, então as minhas loletes estavam tudo lá, se divertindo, dançando, não deu, mas valeu a folia que a gente fez.

 

P/1 – A senhora não foi eleita?

 

R – Não, não fui não.

 

P/1 – Tem vontade de tentar de novo?

 

R – Não, você sabe que essa vez, inclusive, as senhoras da terceira idade falaram: “Ai, Lola, por que você não entrou agora?” Eu falei: “Eu não estava com vontade e eu prometi de ajudar o Edmilson, que hoje é Secretário da Cultura, eu acho que uma mão lava a outra, se ele me ajudou com a banda, que eu consegui esses uniformes, que eu consegui esses instrumentos, não é justo que eu deixe na mão, se eu prometi que eu vou ajudar, eu vou ajudar, não tem problema.” Ele chegou perto, mas também não ganhou, voltou para a Secretaria da Cultura, que foi a minha sorte.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho para a Natura. A trajetória profissional da senhora dentro da Natura, a senhora falou que não queria, no começo.

 

R – Não queria e depois eu tinha, eu não me lembro o nome daquela promotora de antes, depois que a Júlia entrou que, não é que eu não queria porque eu não gostava da Natura, não, não é isso, é porque eu não tinha tempo, eu falei: “Ai, meus Deus do céu, como é que eu vou fazer?” Eu vendia loteamento, eu tinha que ver imposto, uma vez, porque eu vendi o loteamento, eles punham aos cuidados, A/C, do meu endereço, aí eu fui vender o imóvel eu estava com o nome protestado, aí eu fui no cartório e falei para o rapaz: “Como é que é isso?” “Dona Lola, a senhora tem como provar, a senhora pode entrar com uma ação em cima deles.” Porque como eu vendi o loteamento, eles, a pessoa que não pagava os lotes, eles protestavam tudo no meu nome, eu falei: “Desde quando eu sou proprietária disso?” Então eu tinha muito serviço pra fazer, mas depois eu acabei acertando tudo, eles viram que foi erro, foi até vendido para uma igreja de crente, esse lote que nós tínhamos lá no Jardim Barra Vento, mas eu consegui resolver tudo e continuei com a Natura, mesmo trabalhando na prefeitura eu vendia também, a gente ia para os amigos na prefeitura para todo lugar, aí eu andava com a sacola e vendia para todo mundo, na loja, na outra que tinha ótica, a Simone também, inclusive ela falou: “Ah, Lola, você ficou tão amiga da gente, tem dia que você não passa aqui.” Eu passava lá com o estojo: “Vamos ver, vamos se maquiar, tudo feia essas meninas aí, como é que vocês vão atender cliente assim? Vocês não vão ter sucesso igual eu tive na loja.” Todo mundo se arrumava, passava batom e ficava tudo bonitinho, e isso aí valeu bastante.

 

P/2 – E hoje qual é o perfil da clientela da senhora, ainda continua sendo seus amigos todos?

 

R – É, continua a mesma, é que por causa de meu marido ter morrido e eu ter ficado um pouco doente, eu dei uma parada um pouco, não estou tão como estava, agora que eu comecei a melhorar um pouco que eu estou retornando, foi um baque muito grande, eu tive que correr muito com ele e eu achei que uma senhora que foi lá no serviço, uma crente, ela falou assim: “A sua fé vai salvar seu marido.” Eu falei: “Bom, se a minha fé for salvar ele, ele já está bom, porque eu tenho muita fé.” Mas infelizmente quando foi dia 12, dia de Nossa Senhora de Aparecida, eu pedi pra ela que me ajudasse: “Ou vós me abre uma porta e, se for a hora dele ir embora, que vos leve ele sem sofrer.” Porque era um homem que nem gripe ele tinha, de repente me aparece essa doença e ele morre, então isso aí me abalou bastante, agora que eu estou me retornando, mas elas vêm em casa: “Não pode vim aqui, Lola, me liga que vou aí, eu vou buscar, não se preocupe, precisa levar mercadoria para alguém, eu vou.” Então se tornaram praticamente como se fosse eu e, modéstia a parte, eu tenho umas clientes muito bonitas, eu disse pra elas: “O dia que tiver desfile da Natura, eu vou mandar vocês irem.”

 

P/2 – O que é pra senhora uma pessoa bonita?

 

R – Eu tenho uma lá, a Rosita, na Dom Pedro, ela cuida mesmo da pele, a pele dela, imagina se ela fica sem Chronos! A pele dela está sempre impecável, ela, a Rosângela: “Você sabe que eu não posso ficar sem.” Eu falo: “Eu sei, não se preocupa não.” “Trata de comprar dois ou três, porque já viu, não é?” Mas tem uma pele aquelas meninas, então, acho que a Natura é em tudo, na pele, na aparência, e elas são muito que nem eu, espontâneas, são diretoras, agora, hoje, são diretoras de alguns setores da Câmara, então são gente boa, muito bonita, com filho e tudo, mas impecável, se cuidam, não é que nem no meu tempo que a gente não ligava muito pra isso, você vê, eu com 70 anos ainda estou cheia de balangandã aqui.

 

P/2 – Mas o conceito de beleza da senhora, o que é uma pessoa bonita?

 

R – Bonito é o que a gente tem dentro primeiro, que vai aqui dentro da gente, depois uma boa aparência te ajuda muito, porque eu já percebi, você vai num lugar bem vestida, você tem um tratamento, porque como eu mexi com loteamento, às vezes, eu precisava ir para fora, vamos supor, para o cartório de Mairiporã, de não sei onde, até eles pensavam que eu era advogada, quando eu chegava lá, a certidão saía na horinha, agora se você vai meio ali, você já não consegue nada, então, infelizmente, aparência é tudo, e saber conversar, evidente. Minha amiga fala: “Lola, você é terrível, você tira leite até de pedra.”

 

P/2 – A senhora já recebeu prêmios da Natura?

 

R – Já, eu tenho aquele brochinho de ouro de 10 anos, que eu estou com 14, recebi bastante, fui em muita festa da Natura.

 

P/2 – E são boas as festas?

 

R – Ô, Nossa Senhora, que beleza! Quando você vai ver já estamos tudo com o pé no chão, daqui a pouco, todo mundo tira o sapato, foi onde eu tirei aquela foto com o Mário Henrique, que eu te falei, foi numa das festas da Natura, mas foi tão boa, o seu Luis Seabra veio ali conversar com a gente também, é um homem sensacional, ainda as meninas falavam: “Não sei não, acho que seu Luís entrou dentro do pote da Natura porque ele está do mesmo jeito.”

 

P/2 – A senhora participa dos encontros com a promotora?

 

R – Sim, claro. Eu gosto muito da Júlia, ela incentiva muito, tem muita gente nova agora lá, e ela é uma pessoa que incentiva muito, então, às vezes, eu vejo lá, alguém que quer parar, aí ela chama a gente que é mais velho lá na frente, você dá o teu testemunho, ou fala alguma coisa, porque sem mercadoria não adianta você fazer pedido só pelo catálogo, ou esperar a pessoa pedir, não, o meu caso é diferente, eles compram porque vêem o produto. “__________, você parece turca, nunca vi.” Eu falei: “Ué, você tem que ter a mercadoria para vender, não é?” E é assim que se trabalha, eu acho.

 

P/2 – O que mudou na vida da senhora? 

 

R – Agora?

 

P/2 – Depois da Natura, antes e depois, mudou alguma coisa, a autoestima, a vaidade, questão financeira, pessoal?

 

R – Tudo. Autoestima e vaidade, especialmente, estou precisando fazer uma plástica agora para ver se melhora, é isso. A autoestima foi muito bom e eu não sei ficar sem fazer nada, apesar que eu estou sempre achando, é banda, é Natura, tem dia que eu chego em casa e tem um monte de recado na secretária: “Lola, onde eu te acho, afinal de contas? Você não para.” Eu falo: “Ué, fazer o quê?” Enquanto eu puder andar, eu estou na rua, mas a Natura pra mim foi algo muito importante, bastante, você nem sabe o quanto, e continua, principalmente agora nessa fase, imagina se eu não tivesse nada pra fazer, então está lá, eu tenho meus amigos, esse Aldo era gerente de banco, ele falou: “Por que você não põe aqui no escritório umas prateleiras e vende?” Eu falei: “Você está querendo que o meu filho me mate, colocar no escritório dele, vou pôr natura pra vender?” Não tem importância, eu vendo aqui mesmo, então, graças a Deus, eu me identifiquei muito com os produtos da Natura, eu vendia Avon em 1966, eu tinha até carteirinha, o tempo que a gente fazia só, você tinha um trecho para fazer, você não podia passar na região da outra, eu até achei: “Olha uma carteirinha, com foto, tudo.” 1966, antes eu comecei vender Avon, depois que eu passei para Natura, depois de muitos anos, aí eu larguei a Avon, porque eu vendia só para os parentes e ninguém pagava, aí eu falei: “Ah, então vou parar.” Com a Natura não, sei lá, eu acho que a Natura evolui muito, com esses produtos novos, com Chronos, com esse Chronos Noite, então eu acho que em tudo, em todos setores, nessa linha Ekos, nossa, como revolucionou o mercado.

 

P/2– Como a senhora vê a empresa Natura agora, atualmente?

 

R – É uma fábula, eu acho. Eu acho que ela tem tudo pra servir o país e, fora o que ela está fazendo, porque é uma firma, é uma potência, então, você vê pelas propagandas em televisão, e quando você leva um produto da Natura, ele fala: “Esse é bom, né?” “É, esse é.” “Você garante?” “Claro! Se eu não te garantir, você me devolve, se você não conseguir o que você quer, pode me devolver o produto que eu aceito.” “Eu gosto de você porque você é firme.” “Pois é, eu não estou te vendendo...” E já veio outras pessoas que, toda vez que eu passava lá em cima, perto da Câmara, vinha um rapaz atrás de mim, com uma bolsinha: “Eu ouvi dizer que a senhora é uma boa vendedora, a senhora não quer vender os nossos produtos de beleza?” “Olha, filho, infelizmente, não dá. Como eu posso falar bem do seu produto, se eu já falo do meu produto que é Natura? Então qual que é bom? É esse ou é esse? Então se eu estou falando bem, como é que eu posso falar bem do seu?” “Mas é um nível de pessoal de menos aquisição, não um nível tão elevado, porque a Natura é cara.” “Não, só que tem um porém, o que eu vendo, eu garanto, eu afirmo para o meu cliente, você pode comprar sem medo, que nunca você vai ter problema, se você tiver, você tem assistência médica, você tem tudo, como é que eu posso fazer? Então, quer dizer, esse não pode? Ah, então aquele produto é bom?” Não dá, ou você está numa linha, não dá para você ser igual político, em cima do muro, ou você é ou você não é, então é isso aí, a gente vende Natura também por confiança, porque pegou confiança e os amigos que compram, eles vêm, quando eu não posso ir, eles vêm em casa, não tem problema não, então já acostumou, e quando está errado também, eles falam, eu escuto e acabou.

 

P/2 – E essa coisa do relacionamento dentro da Natura, com o relacionamento com a promotora, com as outras consultoras?

 

R – Graças a Deus, como eu já falei para você, eu sempre tive o dom de fazer amizade fácil, então todo mundo lá dentro, quando eu não vou, principalmente, quando eu vou nos jantares que a gente organiza: “Por que a Lola não veio?” Porque eu acabo agitando todo mundo, levo a neta, levo não-sei-quem, então todo mundo gosta quando eu vou, quando eu dou uma parada, aí todo mundo começou a me ligar: “Eu vou dar um tempinho, mas eu vou voltar, não tem problema.” Então eu me dou bem com todo mundo, pelo contrário, se eu puder ajudar, se eu puder passar alguma coisa, não é porque eu sou vendedora que eu vou pedir que uma não vá, pelo contrário, eu procuro incentivar a pessoa que seja vendedora, tem muitas que vêm: “Lola, eu posso pegar seu produto?” “Por que você não pega direto da Natura?” “Ah, às vezes, porque eu não posso pagar a nota.” “Ué, invista direto.” Mas eu nunca impedi não, o que eu puder ajudar, eu ajudo mesmo, não estou nem aí, trocamos produtos uma com a outra, com as próprias vendedoras, com a Dona Rosa, com outras, comigo não tem assim tempo quente, a gente vai para frente.

 

P/2 – E a parte conceitual da Natura, a senhora tem conhecimento, essa parte mais ligada ao meio ambiente, ao consumo consciente, a senhora tem noção disso?

 

R – Como? Eu não entendi.

 

P/2 – Essa parte mais conceitual da venda.

 

R – Ah, sim, eu tenho, lógico, a gente vai nas reuniões e aprende tudo sobre os produtos, porque tem, inclusive, tem um perfume, eu não me lembro o nome dele agora, como a mulherada me pede aquilo de volta: “Por que vocês lançam um produto, a gente começa, acostuma, aí vocês tiram da linha?” Eu falei: “É que não estava vendendo muito e, normalmente, é isso, eles trocam, vai mudando, tudo tem que mudar, você não mudou? A embalagem não mudou? Então tudo tem que mudar na vida, então por isso que está mudando.” Porque elas dão uma bronca sim e, Nossa Senhora, como dão! Lá no cartório de notas, que é do Cláudio, o 1º Cartório de Guarulhos, aí elas falam pra mim: “Puxa vida, como mudou a Natura!” Eu falo: “Pois é, mas mudou para melhor, você não acha que mudou para melhor?” Pelo menos com tudo que tem aí, com essa linha Ekos, eu achei que foi uma revolução dos produtos, e mesmo o Chronos, os batons, esses mais baratos, é bom porque, às vezes, a meninada quer comprar três, quatro, um de cada cor, comprando mais barato, agora você tem aquele cliente que só compra a linha única, porque sabe que hidrata os lábios, é melhor, então sempre foi assim, as minhas clientes costumam comprar os melhores, eu não sou muito dessas coisinhas mais baratas não, elas querem o melhor.

 

P/2 – E a linha Ekos, por exemplo, que tem esse conceito todo de meio ambiente autossustentável, dá para passar isso para frente, as pessoas se interessam?

 

R – Nossa! Se interessam sim, que nem esse que saiu agora Todo Dia, aquele creme é muito bom, a gente vende bem mesmo, esse que saiu de limão, eu nem cheguei a pegar, quando eu fui ver, não tinha mais: “Cadê meu produto, Lola?” “Espera aí, que eu vou emprestar de alguém, eu te trago, então, graças a Deus, sempre a gente faz uma trocazinha aí, pra servir a todo mundo.

 

P/2 – Esse relacionamento das consultoras também dá isso também, dá para as consultoras, dá para ir trocando.

 

R – É porque, às vezes, você não tem o produto e têm certos clientes que você não pode deixar de atender na hora, embora seja um aniversário, qualquer coisa assim, mas o cliente que é teu já de muitos anos, ele não admite, principalmente no meu caso: “Deixa que eu vou lá na Lola que lá tem tudo que eu quero.” Que eles sabem que eu tenho, então eles não admitem que eles venham buscar e eu não tenha, e aí? Aí eu tenho que correr atrás, já e agora.

 

P/2 – Dona Lola quais foram os grandes aprendizados que a senhora tirou nesses anos de Natura?

 

R – Agora você me pegou. Eu acho que eu consegui muito mais amigos do que eu já tinha, amigos, amigas, advogados, médicos, inclusive, o doutor Gilberto que eu te falei, também, então vários dele, eu consegui muito com a Natura porque o que você fala é verdade, tem um outro lá, o Dr. _____: “Esse aí é bom mesmo pra pele de homem?” “Por quê?” A mulher dele queria comprar o Chronos que ela usa, para ele: “Não, o teu é outro, deixa que eu vou levar aí pra você.” “Você vem aqui?” Aí eu fui no escritório dele, expliquei, ele passou a usar e ficou, de fato, com a pele melhor. Tinha um rapazinho lá da loja, ele estava com a pele cheia de espinha, eu falei: “Ah, filho, você tem que lavar esse seu rosto com sabonete de erva doce.” E não é que a pele dele melhorou, porque muita oleosidade a erva doce tira, nossa, a pele dele ficou tão boa que ele ficou um freguesão, às vezes a gente acerta também, sem querer a gente acaba acertando.

 

P/2 – Qual uma grande dica que a senhora daria a uma futura consultora?

 

R – A grande dica é saber conversar, saber explicar e ter o produto na mão, porque às vezes a pessoa não vai comprar, só porque ela viu, muitas freguesas minhas são assim, mesmo as antigas: “Ah, será?” “Dá aqui teu braço. Passa um pouquinho. Cheira aí, vê como ficou sua pele.” “Puxa, é mesmo.” Aí acabam levando dois ou três, então você tem que passar aquilo pra frente, como boa consultora, como boa vendedora, você tem que explicar e o cliente ter confiança em você, senão ele não vai comprar, se você não souber dobrar ele, ele não vai comprar nunca, esse Aldo, que eu te falei, que foi gerente, nossa, eu vendia para todo mundo daquele banco, ele falou: “Lola, você é fogo, hein? Olha, a mulherada aqui, qualquer coisa, manda te procurar.” Que hoje já não é mais Bandeirantes, é Unibanco, está tudo lá agora, então continua mesma coisa, agora eu sou cliente Uniclass.

 

P/2 – Se a senhora fosse falar da Lola, fazer um autorretrato, quem é a Dona Lola?

 

R – A Dona Lola é uma mulher muito sofrida, mas muito feliz também, por ter tido três filhos maravilhosos, um marido muito bom, a minha sogra, minha sogra não era minha sogra, era como se fosse minha mãe, todo mundo fala de sogra que parecem que tem pavor, não, tanto é que todos, inclusive esse imóvel que foi vendido, fomos nós que vendemos, que as minhas cunhadas iam para o sítio, aí elas falavam: “Pronto! Chegou a Lolinha, a mamãe se fecha com ela no quarto.” Porque eu que cuidava dos negócios dela, e como eu fui corretora, eu jamais admiti que alguém levasse uma pessoa de idade na conversa, mas não admito mesmo, então eu que fazia tudo isso, sabe, eu sempre fui assim, de ajudar as pessoas, um dia, meu marido, falou pra mim: “Lola, sabe o que eu vou mandar fazer aqui? Eu vou colocar uma faixa Promoção Social.” Eu falei: “Pode pôr onde você quiser porque eu atendo mesmo, não adianta, se tiver o que fazer, eu vou atrás, vou e faço.” Eu já ajudei muita gente, gente que precisava de cirurgia, o outro que estava morrendo lá num hospital, fui lá, falei com o primo Poli, naquela ocasião ele era o Presidente da Santa Casa, de Saúde, daí eu falei: “Primo, eu estou com um caso assim, assim, o rapaz está morrendo lá.” Ele falou assim: “O que você precisa?” “Eu preciso de uma ambulância que vá tirar ele de lá.” Pois eu tirei ele de lá, graças a Deus. Que coisa mais triste, pôr uma pessoa numa ambulância que você só vê os ossinhos do pé dele, mas graças a Deus o moço se salvou, então eu sou assim, se eu tiver que ajudar, não adianta, eu posso estar ruim, meu médico já brigou comigo, ele falou: “Você tem que sossegar o facho, fique na sua casa.” “Ah, está bom.” Se eu estiver boa, não adianta, eu vou, o que eu vou fazer? Eu sou assim mesmo e a Natura me fez ficar mais assim ainda.

 

P/1 – Piorou o quadro?

 

R – Piorou, porque você sai, olha, juro pra você, que teve época deu ir nessas moças, às vezes duas, três vezes por dia e, se eu não passava lá, elas não ficavam contentes: “Por que você não passou aqui hoje?” “Filha, eu tenho outros para atender, eu não possa ficar atrás de você.”

 

P/2 – Essas da Câmara?

 

R – É, da Câmara, dessa loja que eu te falei, são oculistas.

 

P/1 – Da ótica?

 

R – É, da ótica: “Ah, que você vem aqui, anima, você tem sorte, quando você chega aqui, já começa a chegar cliente.” Eu falei: “Também do jeito que vocês estão atendendo o cliente, desse jeito aí, não vai entrar ninguém mesmo.”

 

P/2 – Ainda dá uma aula?

 

R – Fazia todo mundo se maquiar e ficar bonitinha, e vendia, por incrível que pareça é, infelizmente é assim, eu sou a Lola assim, se você precisar de mim, eu posso estar onde eu estiver que eu venho te ajudar, se eu tiver alguma coisa que eu posso fazer, eu estou correndo, eu trouxe meu sobrinho, ele foi atropelado por um perueiro, inclusive agora ele estava tocando comigo na banda, mas ele foi mandado longe, pegou ele por detrás assim, mandou uns cinco, seis metros longe, estourou em várias partes o corpo dele, aí eu falei com o doutor Sérgio, ele falou: “Lola, o teu sobrinho, daqui pra baixo eu faço tudo, só que daqui pra cima eu não posso se mexer.” Aí eles me ajudaram, arranjaram uma vaga aqui na Santa Casa de São Paulo, eu vim 90 dias carregando esse meu sobrinho, segurando a cabeça assim para não virar, porque ele não sabia que tinha duas vértebras quebradas, a quinta e a sexta, mas graça a Deus hoje ele é um moço bonito, alto, e toca comigo na banda.

 

P/2 – Ele está ótimo?

 

R – Está. O dia que nós entramos lá, um doutor, um japonês que é chefe da ortopedia da Santa Casa: “Mas vocês me trouxeram o paciente em óbito?” Aí meu irmão falou para ele: “Nós estamos nas suas mãos e nas mãos de Deus.” Pois, olha, ele ficou lá mais dez dias em coma e hoje ele está bem, tem fotografia dele com aqueles pinão, quebrou a bacia em múltiplos lugares, olha não sei, eu falei pra ele: “Deus acho que olhou assim: volta lá pra baixo que aqui não é o seu lugar.”

 

P/1 – Não é a hora.

 

R – “Não é a sua hora não.” Graças a Deus, pelo menos aonde eu pus a mão, eu consegui, só não consegui salvar de dentro da minha casa, lutei, lutei, lutei, mas não adiantou, chegou a hora de apagar a velinha, vai mesmo.

 

P/2 – A entrevista está quase terminado, agora eu queria que a senhora dissesse para gente o que a senhora achou de participar de uma entrevista que vem desde lá da infância, você gostou?

 

R – Você me fez recordar muita coisa da minha infância, desse grupo Silva Jardim, que eu tirei diploma nele, e lá tinha um morro muito grande, eu sonhava sempre que eu estava voando, que eu saía de lá voando, hoje é a estação do Metrô Tucuruvi, mas ali não era, era um morro grande, imagina, eu era pequena, eu tinha uns oito, nove anos, eu estou com 70, então faz uns 62 anos mais ou menos, então foi pra mim muito bom recordar. Valeu, espero que a minha entrevista sirva para alguma coisa porque o prazer para mim foi imenso. 

 

P/2 – Pra nós também.

 

R – Vocês são muito gentis, os rapazes todos, então, isso é que vale na vida, o que vale não é fazer uma entrevista, o que vale é, as vezes, fazer esse relacionamento entre amigos, é mais alguns, eu, a gente conseguiu, não é? Garanto que vocês nunca vão esquecer de mim, o dia que você for no meu baile, você vai lembrar mais ainda.

 

P/1 – Então, Dona Lola, em nome da Natura e do Museu da Pessoa, a gente quer agradecer muito sua participação, a sua presença, foi ótima sua entrevista. Muito obrigada.

 

R – Muito Obrigada vocês

 

P/1 – Muito obrigada por seu tempo.


 

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