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Amigos, irmãos, camaradas

História de: Nilce Tranjan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2020

Sinopse

Em seu depoimento, Nilce Tranjan fala de sua primeira infância na Mooca, onde viveu até os quatro anos, e a mudança para a Vila Pompéia, de onde só saiu na idade adulta. Lembra da união da vizinhança, das amizades, das conversas em torno de cadeiras na calçada, das brincadeiras de rua, e também dos tabus que cercavam a condição feminina. Conta que o rádio e as radionovelas eram centrais no lazer doméstico até a chegada da televisão, que só foi conhecer aos quinze anos de idade. Recorda das idas frequentes ao cinema, em companhia da mãe, e do hábito paterno de lhe presentear, semanalmente, com um livro. Discorre sobre seus anos no curso de Filosofia, a experiência como professora, a vinculação com a Cinemateca Brasileira, a paixão pelo cinema e a forte amizade com Vladimir Herzog. Fala do casamento com o compositor Geraldo Vandré, detalha o “non sense” que foi a formalização de sua separação com ele e sobre a incorporação do sobrenome Tranjan ao seu registro civil.

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História completa

O encontro com Vlado

Foi o seguinte: quando eu terminei o ginásio, eu já estava no Conservatório Dramático Musical de São Paulo fazendo piano, que eu comecei lá com as freiras e depois fui para o conservatório. Então, eu resolvi que ia ser pianista e parei, parei de estudar. Queria só ficar com o piano. Meus pais concordaram, porque na minha casa não era obrigatório estudar. Apesar do meu pai ter toda essa ligação com as coisas, estudava se quisesse. Acabou o ginásio, ficava a critério da pessoa e, como ele achava que o piano também era uma coisa bacana, ele concordou, não teve problema. No conservatório eu me formei em 1954. Aí eu senti uma falta enorme, um arrependimento muito grande, enquanto eu estava indo no conservatório, de ter saído da escola. Eu sentia falta da escola, sentia muita falta da escola. Uma amiga minha que estudava no Colégio Estadual Presidente Roosevelt, na Liberdade, na Rua São Joaquim, falou para mim o seguinte: “Nilce, presta o vestibulinho, o vestibular, volta, vai lá”. Eu falei: ‘Mas eu estou parada agora, me formei no ginásio acho que foi em 1950. Como é que eu vou agora, em 1953, voltar?” “Se inscreva, se inscreva.” Eu fui lá me inscrever e, por uma sorte incrível – você vê que tem coisas de sorte que mudam a sua vida – nesse ano não teve vestibulinho. Porque eu não teria passado, estava muito afastada. Abriram dois primeiros anos de clássico e eu me engajei lá. Aí fiquei, fiz o clássico no Colégio Roosevelt, que era absolutamente maravilhoso. É incrível a escola pública, mas aquele colégio era fantástico. Eu devo a minha formação mais básica àquele colégio e lá conheci um professor chamado Villa-Lobos, de Filosofia. A minha ideia era fazer Ciências Sociais. Esse professor Villa-Lobos chegou para mim e falou: “Não, você tem vocação para Filosofia. Você vai fazer Filosofia. Eu tenho uma aluna no Bandeirantes que também tem essa mesma vocação e eu vou passar as férias dando aula para vocês e vocês vão prestar vestibular e vão entrar em Filosofia”. Disse e fez. Eu passei dezembro, janeiro e fevereiro, eu e uma menina chamada Fúlvia, íamos todos os dias, todos os dias, para a casa dele, que era na Granja Viana, na época que a Granja Viana era um matagal, com algumas casas aqui e ali, tinha só a capelinha, já tinha aquela capelinha. Nós passávamos o dia inteirinho lá. E, de fato, passamos no vestibular, fomos em frente, ela desistiu depois. Eu fui até o fim, e foi onde eu conheci o Vlado.

 

Vida universitária

Na universidade eu mudei completamente, porque, ao mesmo tempo que esse professor [Villa-Lobos] disse que minha vocação era Filosofia, que eu não estava sabendo, mas que era, o professor anterior a ele, professor Hélio, dizia: “Nilce, você é ótima, mas você é um pouco reacionária demais. Você sempre toma partido reacionário”. Tinha uma briga sobre voto do analfabeto, eu ficava contra. Tinha uma briga contra não sei o que lá... minha posição era sempre a mais conservadora. E ele falou: “Você precisa mudar isso”. E, na faculdade, houve essa mudança. De repente eu conheci um monte de gente que pensava completamente diferente da minha formação conservadora. E aquilo também foi outra descoberta brutal na minha vida. De repente ver que tudo aquilo que eu pensava precisava ser refletido, não era daquele jeito. Eu tinha pego aquelas coisas todas sem pensar muito no assunto, mais como uma tradição da minha formação. E aí eu mudei completamente, na faculdade. A faculdade foi, assim, um lugar daquilo que eu falei que, na infância, me encantava, do Sol maior que a Terra. Foi de repente descobrir coisas fantásticas, que eu não tinha nem ideia, foi uma grande mudança na minha vida. Porque a faculdade de Filosofia, naquela época, era muito boa. Hoje também é, mas, enfim...

Eu fui uma aluna que entrou em 1958 e fiz 58, 59, 60 e 61. Eu fazia todas as matérias do ano. A sensação que eu tenho é que o Vlado já estava na faculdade quando eu entrei. Ele não fazia todas as matérias certinhas do ano. Ele fazia algumas matérias no ano, então eu tenho a impressão que ele esticou esses quatro anos de alguma maneira. Eu não juraria isso, mas, por exemplo, para mim, o Vlado, de repente, está dentro da faculdade. E de repente a gente tem algumas aulas juntos e outras, não. Eu não tinha todas as aulas com o Vlado. Eu tinha algumas aulas com o Vlado. Mas no fora da aula, que também era muito importante, o bar da Maria Antônia lá em frente, que a gente ia e conversava, as coisas que iam sucedendo.

 

Convivência nos estudos

O Vlado era uma pessoa diferente. Talvez por isso ele marcou tanto. Ele era uma pessoa muito séria em tudo que fazia e, ao mesmo tempo, muito compreensiva, muito aberta, muito acolhedora. Além da faculdade, onde eu tinha essa interlocução com ele, permanente, ele fazia um monte de coisas fora. Ele era um homem de sete instrumentos, ligado à comunicação. O que ele queria, mesmo, na vida, era se comunicar – ou através do jornalismo, ou através do cinema. Ele achava que a missão do ser humano era uma responsabilidade social. E, nisso, a comunicação era fundamental. Eu me lembro que, naquela época, a gente ia estudar em casa, eu tinha uma sala na minha casa, uma sala de visita – uma sala de estar, como dizia na época – em que estavam meu piano, um sofá, duas poltronas e a vitrola – na época era vitrola – do meu pai, que todo domingo, depois do almoço, sentava lá e ia ouvir uma ópera. Mas então a gente ia estudar lá em casa, porque era quem tinha aquele espaço isolado, podia fechar a porta, e a gente dividia as tarefas: você estuda tal coisa, você estuda tal coisa e a gente ia para a minha casa uma ou duas vezes por semana e cada um ia expor o que tinha estudado, os outros faziam perguntas, depois o outro expunha, e era assim. Vlado chegava em casa, todo mundo se acomodava na poltrona, no sofá, e ele deitava no chão. E fechava o olho. Ficava lá de olho fechado, no chão. E minha mãe, de vez em quando, ia trazer um café, uma coisa assim, e minha mãe perguntava: “Mas esse rapaz está estudando? Ele está sempre dormindo”. Não estava dormindo, absolutamente. Mas era uma atitude de... no chão, estendido, de olho fechado. Agora, quando vinha a pergunta, vinha a pergunta certeira; quando ele expunha, vinha a exposição certeira. Ele sempre surpreendia, porque ele estava além do que aquela coisinha frágil que ele era, [ou] parecia. Ele estava sempre mais além.

A gente era amigo, amigo pra valer. Muito amigo. Por exemplo: naquela época eu tive um problema muito grave com meu irmão. Na Pompéia tinha umas pequenas gangues de roubo de coisas de automóvel. Não roubava o automóvel: roubava o pneu, roubava o rádio. E ele estudava à noite e acabou que se ligou e ele foi preso. E foi um período terrível, porque eu era oito anos mais velho do que ele e ele era quase um filho para mim, aquela coisa assim que, apesar de ser só oito anos, mas eu tinha ajudado a criar aquela criança e aquilo me dava uma sensação de culpa muito grande: “O que eu fiz de errado para ele ter ido por esse caminho?” E eu falava muito com o Vlado sobre isso, a gente contava muito essas angústias pessoais de um e de outro. E a minha, na época, era o meu irmão, uma angústia. E um dia aconteceu um negócio mais chato, porque aí, naquela época, também, tinha uma coisa que era assim: tinha um roubo qualquer, uma coisa qualquer, e chamavam os habituais suspeitos. Então ia lá. E um dia, meu irmão, numa dessas chamadas, bateram muito nele. Ficou muito machucado. Eu fiquei muito mal, fiquei mal, mal, mal, mal e, conversando isso com o Vlado, o Vlado falou assim: “Vamos ao cinema”. Eu falei: “Você está louco? Eu estou mal”. “Vamos ao cinema.” Me levou para ver uma comédia, “Deu a Louca no Mundo”, nunca vou esquecer. Incrível o bem que aquilo me fez! O bem que aquilo me fez foi um negócio impressionante. Eu entrei derrotada dentro do cinema e saí assim: “Vou fazer alguma coisa, não vai ficar assim, vou fazer coisas”. Ele tinha muito essas soluções de tirar você da angústia e te fazer olhar ao redor alguma coisa mais positiva do que aquela angústia que você estava sentindo. E ele era muito assim. A gente tinha essa coisa de essas coisas mais íntimas serem muito tocadas entre a gente. Eu acho que eu tive muito pouca gente que eu possa dizer que eu fui tão amiga quanto ele.

 

Vocação para o cinema

O Vlado trabalhava feito louco. Ele fazia artigo para revista, fazia artigo para jornal, fazia colaboração com os cineastas da época, porque ele era muito ligado à Cinemateca. Foi ele que me levou para lá, inclusive. Ele não trabalhava na Cinemateca, não era contratado pela Cinemateca, mas ele era uma pessoa, assim, absolutamente, prata da casa. Ele era muito ligado à Cinemateca. Ele conhecia, quem, na época, estava tentando fazer cinema, que era o Maurice Capovilla, enfim, aquele grupo pequeno ligado à Cinemateca, e ele estava sempre colaborando com alguém no roteiro ou dando uma ideia. E eu me lembro que, quando foi em 1962, ele foi para Mar Del Plata, para o festival, e na hora que ele voltou, disse assim: “Trouxe um ‘cadeau’ para você”. E eu não sabia o que era “cadeau”, apesar que o francês ser um pouco mais familiar para mim, mas o “cadeau” eu desconhecia. Então eu fiquei esperando, que objeto é esse que ele me trouxe, um “cadeau”? Era uma malha dessas que a Argentina faz, como é? Cashmere. Eu usei muito essa malha, uma malha marrom. E, nessa altura dos acontecimentos, falava muito de cinema, ia muito a cinema.

 

Amizade pétrea

[Vlado era] muito assíduo [na Cinemateca]. Ele estava o tempo todo por ali. O tempo todo ajudando, criando, fazendo críticas dos filmes. Ele era um apaixonado pelo documentário. E era um apaixonado pela ideia de que o cinema era a arte que podia... não que ele desprezasse o cinema como arte, ou seja: como fazer cinema, como um filme é bom, o outro é mau, no sentido cinematográfico; mas, para ele, o fundamental era a responsabilidade social do cinema. Era a arte que punha a realidade para você ver. Quer dizer: a única que podia pegar aquela realidade ao redor e botar dentro de uma arte, que era um invólucro bom para você jogar para as pessoas e fazer as pessoas verem o que elas não viam no nariz delas – e através da arte elas conseguiriam ver. Ele era apaixonado por um cineasta argentino, o [Fernando] Birri, que era um cara com quem ele também fez curso de cinema [na realidade, quis fazer mas não fez] e era isso: ele gostava do documentário. Tanto que, quando ele foi para o Rio, ele fez o documentário dele e era a questão: tomar o cinema. O jornalismo, para ele, era importante, porque também era uma coisa que ele podia analisar, era uma coisa que ele podia lançar para ser refletido pelas pessoas, mas fundamentalmente, fundamentalmente mesmo, o cinema era mais apaixonante para ele do que o jornalismo. Mas cinema custa dinheiro, custa tempo, custa tudo aquilo. Eu, várias vezes, me perguntava: “Por que o Vlado não foi para o cinema?” E as duas respostas que eu tenho, uma é óbvia: ele morreu cedo demais, certamente ele teria ido mais para o cinema, e, fora disso, ele era um cara que não era rico, sustentava a família, junto. Quer dizer: ele, o pai e a mãe moravam juntos naquela altura, depois ele mudou para a Praça Roosevelt, num apartamento. Mas, enfim, para você ter uma ideia, no fim da década de 60, quando ele já tinha voltado de Londres... Porque aí, quando foi 63, 64, eu comecei a namorar uma pessoa de música, que era o Geraldo Vandré, e casei com o Geraldo Vandré em 1964. Aí a minha vida foi muito puxada para o lado da música. Quer dizer: eu já não tinha tanta coisa ligada ao Vlado e ao cinema como antes, que era todo dia, era minha vida, o cinema. Mas aí o marido já puxou para o negócio da música. E durante 1964 e 65 eu fiquei muito ligada a essa parte de música e o Vlado viajou, foi para Londres, e eu me correspondia com ele.

Em 1966, o meu casamento estava meio... porque esse negócio de você ser casada com alguém famoso, era época dos festivais, aquela coisa, minha casa vivia cheia, eu acordava com gente, ia dormir com gente, era uma coisa assim que me perturbava um pouco, eu não tinha uma vida minha, própria, e aí o casamento começou a dar sinais de desgaste. E eu escrevi para o Vlado: “Não está bom, o que eu faço?” Aquelas coisas, as velhas confidências, não é? Ele falou: “Vem para cá, vem para a minha casa, você fica um tempo aqui, que sua cabeça vai melhorar, certamente. Sai daí um pouco”. E eu fui, foi em maio de 1966. E fiquei até setembro de 66 na casa do Vlado, a Clarice grávida, peguei o nascimento do Ivo lá, e pegada à casa do Fernando Pacheco Jordão e da Fátima. E essas duas casas eram uma espécie de embaixada do Brasil em Londres. O que ia de gente para lá não era normal. Toda semana tinha alguém ali, se fazia um almoço, se reunia à noite para conversar. Enfim, a brasileirada toda lá em Londres ia para a casa do Vlado e do Fernando. As feministas diziam “para a casa da Clarice e da Fátima, que negócio é esse”? E o Vlado sempre preocupado. Ele era muito acolhedor e pensava muito no outro.

Vlado era um cara que pensava no outro. Era uma característica dele. Ele viu que eu estava com muito pouco dinheiro, eu fui com muito pouco dinheiro para lá. E um dia, a gente conversando, ele contando, porque eu saía durante o dia e à noite eu contava o que eu tinha visto em Londres, como é que tinha sido, e ele falou: “Mas você conta tanta coisa interessante! Sabe o que você deve fazer?” Porque veja bem, Londres em 66 era dos Beatles, Carnaby Street, King’s Road, o britânico mudando de jeito de ser, aquela coisa, então tinha muito para você comentar, muito para você discutir. Ele falou: “Por que você não faz isso em crônicas para a BBC? Vai ser bacana você mandar para lá a impressão de uma brasileira nessa Londres. Vai ser muito bacana contar”. E eu topei, fazia uma crônica por semana e isso me dava um dinheirinho também, porque, na realidade, eles pagavam as crônicas.

 

O trabalho em publicidade

Fui para a Thompson, onde eu era redatora e o Vlado era Rádio TV. Naquela altura tinha o Departamento de Rádio e TV. Eu tinha ido – eu vou contar isso também – para a Thompson através de uma entrevista que eu tinha feito com uma pessoa lá da Thompson. Quando essa pessoa soube, o Saldiva, que tinha fechado o jornal, ele me convidou para fazer um serviço na Thompson, que era uma agência de publicidade, a maior do Brasil, na época, e que era o seguinte serviço: eu tinha que acompanhar uma equipe da Johnson & Johnson pela periferia de São Paulo, não só periferia, mas inclusive periferia de São Paulo. Eles iam lançar um tampão e queriam saber se teria aceitação aquele tampão, porque eram máquinas caras. Existia, já, um anterior, mas o anterior ia ser retirado de praça, porque ele absorvia esticando. Esse ia absorver alargando e era muito mais seguro, mas eles não queriam importar as máquinas se não tivessem certeza de que isso pegaria. Então, a gente ia ter que ir para a periferia, falar com as pessoas sobre menstruação, como é que é, como é que não é, o que vocês usam, o que vocês não usam. E aí os tabus apareceram, todos que você pode imaginar, e as coisas mais incríveis do mundo. Não só o que não podia comer, o que não podia fazer, mas o que elas usavam na menstruação. Porque você pensa que a toalhinha antecedeu o Modess, mas elas usavam coisas incríveis. Por exemplo: sabugo de milho. Sem milho, é claro, o sabugo, para absorver. Coisas desse tipo. E eu tinha que fazer um relatório e a Johnson & Johnson analisar aquela coisa. Finalmente eles acabaram lançando o OB, mas dali eu passei a ser uma redatora normal da agência e o Vlado, ali, com Rádio e TV.

Ele não ficou muito tempo, não, mas ele era uma pessoa... O que eu posso contar de publicidade do Vlado, na época, primeiro que ele conhecia cinema pra caramba e, então, realmente, ele era uma figura absolutamente útil e desejada naquele departamento. Segundo, que toda hora do almoço ele subia para a minha sala, ligava para a Dona Zora, mãe dele. E ficava muitos e muitos minutos lá conversando baixinho, chachachacha, que eu nem me lembro que língua eles conversavam, mas ficavam muito tempo lá. O Vlado era muito dedicado a isso. Aí ele acabava de ter aquele papo dele, que era diário, não sei como eles tinham tanto assunto! Eu me perguntava. Falava: “Caramba, quanto assunto aí para todo dia você ter 15, 20 minutos ali”. Aí a gente saía, ia ao cinema; quando já esgotavam os filmes, a gente ia almoçar na [rua] 25 de Março, que era ali perto, mas normalmente a gente saía para um cinema. Esse período de publicidade foi um período em que a gente conviveu muito e falou muito sobre cinema, viu muito cinema.

 

25 de outubro de 1975

Sendo cinema, ele [Vlado] sempre estava com o pé dentro. É claro que não era o sonho da vida dele fazer comerciais. Mas nunca ouvi uma queixa. Mas também logo depois ele se mandou. E foi fazer o que ele gostava de fazer. Quer dizer: não foi cinema propriamente dito, foi alguma coisa em área de cinema, mas ele começou TV, se aprofundou em jornalismo e começou a TV, onde eu tenho o último caso dele para contar, que é o fato de que ele fazia um telejornal na TV Cultura e eu, nessa altura, estava grávida do meu primeiro filho. E uma noite ele foi lá em casa e falou: “Olha, eu quero que você apresente o telejornal”. Eu falei: “Você não quer esperar eu dar à luz?” “Não. É exatamente isso que eu quero: que você vá apresentar grávida. É aí que está a coisa mais interessante. Eu quero que as pessoas vejam que a vida flui. Você vai lá apresentar grávida”. E eu topei, falei: “Tá bom, então vamos lá”. Só que, em seguida, aconteceu, não deu tempo de ele introduzir essa novidade no telejornal. Ele foi preso e morto.

Eu posso contar da noite da morte dele, do horror que foi, porque a Fátima e o Fernando apareceram em casa e disseram: “Mataram o Vlado”. Para mim era como dizer um absurdo tão grande. “Como, mataram o Vlado? O que é isso?” Aí ela contou que ele tinha ido de livre e espontânea vontade lá no DOI-Codi, que ele tinha sido procurado no dia anterior, tinham combinado no dia seguinte. Ele era uma pessoa completamente tranquila. Ele enfrentava as coisas com uma lógica! Ele pensou que fosse lá e logicamente ia desembaralhar as coisas. Tanto que a Clarice nem foi com ele. A Clarice ficou muito tempo, depois, com isso na cabeça: “Puxa, por que eu não fui com ele?” Mas era uma coisa tão assim, que não se esperava nada demais, e quando a Fátima falou isso, nossa, eu desmoronei e ela falou: “O Fernando tem que falar com o Audálio [Dantas], nós temos que fazer um monte de coisas e eu quero que você fique com os meus filhos” – ela morava numa vila – “lá na nossa casa”. Então, levou a gente para aquela casa e eles foram fazer as coisas todas que eles tinham que fazer. Parece que o Fernando exigiu a presença do Audálio imediatamente. Tenho um amigo em comum, o Rubens, que disse que ele foi para a casa dele telefonar e que ele, aos berros, pediu ao Audálio que viesse e nós, na casa dele e da Fátima, a noite inteira, carro de polícia rondando, era uma praça redonda, sem fazer nenhuma força para não fazer barulho, a noite inteira aquela coisa. Quando foi de manhã, o Fernando e a Fátima voltaram, nós fomos para casa de uma amiga comum e eu fiz, àquela altura, eu me lembro, dezenas e dezenas de telefonemas. Toda minha agenda eu comuniquei o que tinha acontecido, que o Vlado estaria às três horas da tarde em tal lugar. O que eu fiz e que muita gente deve ter feito também, evidentemente, porque encheu. Eu me lembro do Paulo Emílio Sales Gomes, para quem eu liguei, e ele dizia: “Mas, como?” Sabe aquela estupefação? Porque o Vlado era uma criatura mais gentil, mais doce, mais colaborativa, mais amiga, mais preocupada com tudo, com a coletividade. Era tudo, menos uma pessoa que você pudesse matar, assim, desse jeito. Aliás, não se deve matar desse jeito ninguém, mas a estupefação diante dessa coisa do Vlado... E aí teve esse momento que aquilo tudo encheu muito, ficou lotado de pessoas e, então, de repente, aquilo começou a tomar força. Depois veio o enterro, onde teve o episódio [do rabino] impedindo que ele fosse enterrado juntos aos judeus suicidas. Foi uma movimentação, foi um negócio assim, e aí até acho que foram vocês que me perguntaram: “Por que o Vlado teve esse impacto?” Eu acho que o Vlado teve esse impacto por ser quem ele era, por estar fazendo o que ele estava fazendo e porque também a ditadura já estava começando a cair de madura. Quer dizer: então juntou. Tanto que, quando veio o caso seguinte, do Manoel [Fiel Filho], que também foi morto no DOI-Codi, juntou tudo e explodiu mesmo. Mas eu acho que, se não fosse o Vlado quem sofreu isso, teria demorado mais. Por exemplo: eu não fui à missa da Sé, porque eu estava com uma barriga, eu tive meu filho dia 19, eu estava no finzinho [da gravidez] já e não deixaram eu ir, que eu estava muito abalada, muito. Você viu o que foi aquela missa, não é? Então, de repente, a ditadura viu que tinha uma força contrária que não era tão fraca assim, agindo, já, vindo para fora. O Vlado foi fundamental. Triste de ter sido fundamental para isso, mas foi.

 

Instituto Vladimir Herzog

Eu acho que é muito importante. Veja bem: tem Instituto FHC, instituto isso, instituto aquilo. É importante que uma pessoa que não tenha sido do alto escalão da política, uma pessoa cuja vida é marcada por uma luta permanente pela verdade, pela coletividade, pela franqueza, pela veracidade da informação, tenha um instituto para fazer prêmios a novos jornalistas, lançar novos jornalistas, para fazer essa coisa da ocupação, colaborar com a ocupação. Eles estão fazendo lá, eu sei porque eu cedi livros, para ter uma espécie de... museu é uma palavra chata, a não ser Museu da Pessoa, que amplia, mas, enfim, para fazer a presença dele ser uma inspiração permanente. Novas coisas vão acontecendo, novas coisas vão sendo anexadas ao instituto, enfim, essa vitalidade é que o instituto pode ter. Ele, até agora, se engajou em causas fantásticas. O instituto é uma maravilha! Quer dizer: tem as coisas permanentes, tem as coisas que ocorrem em um determinado momento sem que a gente espere. Eu acho que é isso.

Eu só fiquei um pouco chateada, a primeira vez que eu dei uma entrevista para [o grupo de pesquisa da] ocupação [Vladimir Herzog, no Itaú Cultural] tinha acontecido uma coisa que eu achei de uma barbaridade incrível: o Olavo de Carvalho deu uma entrevista por Skype para a revista “Carta Capital”, para um jornalista da “Carta Capital”. E essa matéria está comprovada, tem o Skype lá, foi publicada pela “Carta Capital”. Nessa matéria, no meio de mil perguntas que se fizeram ao Olavo de Carvalho, lá pelas tantas o jornalista perguntou: “E a questão da tortura?” Estavam falando da ditadura. E ele falou: “Que tortura? Acho que não existiu, eu tive uma sobrinha que foi presa, disseram que ela perdeu o rim, ela saiu de lá mais bem alimentada e mais bonita do que nunca. É uma besteira esse negócio de tortura. Teve uma coisa ou outra, como em qualquer lugar, mas...” Aí o jornalista falou: “E o caso Herzog?” Aí ele falou assim: “O caso Herzog, isso é óbvio, todo mundo sabe que ele era um espião inglês, que ele trabalhava para o serviço de espionagem inglês e que foram eles que mataram o Vlado. É sabido”. Então, quando eu fiz a entrevista, eu falei sobre isso e falei também com o instituto. Falei: “Gente, o Olavo de Carvalho está nos Estados Unidos. Lá, a pena para quem não prova o que fala, não é como no Brasil, que vai ficando para lá. Lá tem pena, tanto que lembra o caso Paulo Francis, que teve que pagar uma verdadeira fortuna – até teve um infarto por causa disso – para Petrobras, porque não conseguiu provar uma declaração que ele tinha feito”. Nem o instituto, nem ninguém se interessou por isso e eu acho que é uma desfaçatez. Eu acho que é difícil você ter um advogado que pegue o Olavo de Carvalho, mas eu acho que se fizesse uma campanha a partir disso, se arrecadasse fundos para um advogado lá, sabe? Era uma coisa importante para o Vlado. Vlado morto pelo serviço secreto inglês, espião inglês, o que é isso? E, ao mesmo tempo, seria interessante também para desmascarar um cara como esse Olavo de Carvalho, que fica dizendo essas coisas impunemente; ele pode falar qualquer coisa que tudo bem, estamos aí. Isso eu ainda vou cobrar do instituto, porque eu acho que é uma missão boa. Se bem que agora passou.

 

A coragem de Clarice

O problema é o seguinte: nunca deram muita importância ao que as mulheres podiam fazer. Na realidade, essa pergunta que você faz: como uma mulher, do ponto de vista feminino, feminista, assume tudo isso, eu acho que as mulheres sempre assumiram, mas não tiveram voz. As mulheres são pessoas que estão tendo voz agora. Até com alguns momentos de confusões entre determinadas coisas, mas, enfim, o que eu quero dizer é o seguinte: a Clarice foi guerreira, foi corajosa, foi uma pessoa que não deixou pra lá. Se fosse um homem defendendo a sua mulher, essa pergunta não teria tanto sentido e vice-versa, porque ela, como mulher, como ela enfrentou isso? Enfrentou isso como um ser humano aguerrido, ligado à sua época, ao seu tempo e ainda falando do pai dos filhos dela, do marido dela, de um integrante da imprensa nacional. Eu acho que ela foi corajosa, mas fez o que devia fazer. Tinha que fazer isso aí, mesmo: a gente tem que resistir, seja homem, seja mulher, seja bissexual, gay, o que for. Eu acho que a palavra resistência não está ligada ao gênero. A palavra resistência está ligada a um estado de espírito, em coisas que você acredita e que você tem que brigar por elas. Por exemplo: hoje nós estamos num momento que tem que ter resistência. Não é de movimento feminino, só. De movimento feminista, dos movimentos particulares, que são vários: negro, feminino, isso e aquilo, mas tudo para um fim comum, de resistência a uma coisa muito grave que está acontecendo neste país. Então, toda vez que houver necessidade de resistência, que venham todos: feministas, homens, a gente precisa é fazer frentes contra o retrocesso, contra a barbárie. Enquanto a gente puder. Eu tenho uma nora muito resistente, eu tenho uma filha muito resistente nesse sentido.

 

Onde, a pianista?

A Nilce pianista, por um golpe de sorte resolveu... não é golpe de sorte, foi assim: quando você é piano, o [Arthur] Rubinstein, que é um grande pianista, dizia assim: “Quando eu paro de tocar um dia, eu noto uma diferença incrível; quando eu paro dois dias, a minha mulher me cobra; quando eu paro três dias, a minha empregada me cobra”. Então, com esse negócio de eu passar a estudar, faculdade e tal, não dava tempo. Porque eu estudava, quando eu estudava só piano, oito horas por dia. Eu era dedicada. Eu falei golpe de sorte, porque eu vim a ter artrose e a minha carreira teria ido por água abaixo por causa da artrose. Eu, hoje, por exemplo, não consigo teclar de jeito nenhum. Ainda bem que eu saí antes que fosse impedida de continuar, não é?

 

Sonhos

Meus sonhos, agora, são todos dirigidos a filhos e netos. Porque chega uma hora em que você sabe que você pode ser estímulo para eles. Você já não tem uma voz para fora. Porque, quando você é um jurista famoso, um radialista famoso, mas eu não sou famosa, nem nada, então o que eu posso fazer é colaborar assim num nível de estar sempre estimulando netos, filhos, estar sempre recebendo, em troco disso, uma convivência maior. Isso. Acho que quem tem 83 anos não tem muito sonho. Tem que ter sonhos mais de acordo com a realidade.

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