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História

"Amigos e amigos": amor, luto e sororidade

História de: Santa Bispo de Oliveira Silva
Autor: Thais Montanari
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância e adolescência em Gongogi. Brincadeiras, festas. Trabalho nas lavouras de cacau. Mudança para Salvador. Trabalho doméstico. Casamento. Compra da casa própria. Constituição da família, maternidade. Falecimento do marido, luto. Ingresso e participação na Cooperativa Costurart. Aprendizados, amizades. Vida na periferia de Salvador, comunidade Calafate. Sonhos, desejos.

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História completa

Instituto Walmart – Memória dos Projetos Sociais (Projeto Costurart)

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Santa Bispo de Oliveira Silva

Entrevistada por Marta Delellis e Márcia Trezza

Salvador, 20 de setembro de 2007

Código: IWM_HV012

Revisado por Bárbara Pansardi

 

P1 – Bem vinda, Santa. Pra começar, eu queria que você falasse o seu nome completo, o lugar e a data do seu nascimento.

 

R – Santa Bispo de Oliveira Silva. Nasci no interior da Bahia, Gongogi, em 08 de outubro de 1966.

 

P1 – Quais são os nomes dos seus pais?

 

R – Minha mãe se chama Astéria Pereira dos Santos e meu pai, Juvenal Bispo de Oliveira.

 

P1 – E o que eles fazem?

 

R – O meu pai eu conheci muito pouco, ele faleceu quando eu era muito pequena. E a minha mãe trabalhava nas fazendas, trabalhadora rural. E criou a gente assim, trabalhando na roça.

 

P1 – E quantos irmãos são?

 

R – Quatro, uma a minha mãe adotou. Somos 3 dela e uma adotiva.

 

P1 – E, quanto às idades, você é qual?

 

R – Eu sou a terceira. Terceira não, a segunda.

 

P1 – E o que você se lembra da sua infância?

 

R – Ah, eu me lembro de muitas coisas boas, interior... Você ser criada no interior é ótimo. Você vive, não tem medo de nada, como a gente vive aqui. A infância minha foi maravilhosa, sentia muita falta de meu pai. Eu gostaria de ter, mas eu não tinha pai. Então eu sofria muito por isso, porque eu via todo mundo com pai e eu não tinha. Então eu sentia muita falta, mas minha mãe me criou muito bem.

 

P2 – Que brincadeiras vocês faziam?

 

R – Ah, brincava de roda, amarelinha e tem outras brincadeiras que agora não vou me lembrar, mas que a gente brincava muito.

 

P1 – E vocês brincavam na rua, bastante?

 

R – Na rua, na rua, brincava na rua.

 

P1 – E como era, assim, esse lugar, a cidade?

 

R – Como é onde eu nasci? Eu acho até hoje maravilhoso. Lá é uma... Não tinha crime, não tinha essa violência. Era muito bom, muito bom quando eu era criança, eu me divertia bastante, muito bom mesmo.

 

P1 – Você conheceu os vizinhos? Como era?

 

R – Conhecia todos os vizinhos e parentes. Morava também um próximo do outro, quase todo mundo ali na rua era meu parente. Era tio, tia... todo mundo quase. Além dos vizinhos, ainda tinha próximos os tios. 

 

P2 – Era sítio? Como que era?

 

R – Não, cidade mesmo, porém pequena. Então todo mundo se conhece, porque quando você mora no interior, cidade pequena, todo mundo se conhece. Você pode chegar e perguntar quem é. E a pessoa sabe quem é. E até hoje eu acho interessante que eu ligo pra minha mãe por orelhão, as pessoas atendem e é como se fosse a sua própria casa. Acho maravilhoso isso. Aqui a gente não vê isso. 

 

P1 – E o que você lembra das festas, das coisas que você fazia junto com os vizinhos ou com a família?

 

R – Festa de São João, Natal, fazia muita festa. Eu ia muito à discoteca que tinha no interior, porque lá era uma cidade rica, porque é de cacau, então tinha muito dinheiro na cidade. Tinha aquela discoteca, todo mundo se divertia. [Isso] Já na minha adolescência.

 

P1 – Mas e antes disso, a sua mãe trabalhava na fazenda de cacau?

 

R – É.

 

P1 – E você ia na fazenda? Você se lembra de alguma coisa da fazenda do cacau?

 

R – Lembro que às vezes eu deixava de ir para a escola – se minha mãe ficasse doente – pra ir no lugar dela trabalhar. Eu cansei de fazer isso, porque o ganho era muito pouco, então ela tinha que trabalhar. Às vezes eu tinha que ir, porque, se eu não fosse, ela ia ganhar menos ainda. Então tinha que ir. Deixava de ir pra escola pra trabalhar. Comecei a trabalhar muito cedo, quando eu estava na 5ª série. Eu estudava à noite e trabalhava durante o dia, na roça também.

 

P1 – E você começou a estudar com quantos anos? Quando você foi pra escola?

 

R – Acho que 7 anos. Ensino do governo começa com 7 anos.

 

P1 – E qual é a sua lembrança dessa primeira escola?

 

R – Muito boa, tinha uns professores bons. Alguns professores eram professores muito bons, exigiam muito da gente. Era muito boa a época da escola.

 

P2 – E você continuava trabalhando no cacau ou tinha outro trabalho além desse?

 

R – Não, no interior é só lá mesmo, só no cacau. Não tinha outro, não tinha outra opção, a opção era aquela. Mesmo se você quisesse, você não poderia, tinha que trabalhar ali.

 

P2 – Como é o trabalho no cacau?

 

R – Trabalho no cacau é: você colhe o cacau, você pega no chão, carrega de um lado pro outro, faz um monte. Aí você tira um dia da semana, vai lá e quebra o cacau todinho, junta. Aí vem outra pessoa e já pega. Trabalho no cacau é assim.

 

P1 – E essa rotina tem que acordar muito cedo? Como você chega lá na plantação?

 

R – Andando. A gente acordava às cinco da manhã e às vezes mais cedo, pra chegar lá e começar a trabalhar às sete horas da manhã. Uma vez eu acordei quatro horas da manhã, eu e uma amiga minha, sozinhas. Quando chegamos no meio de um lugar que a gente tinha que entrar, tipo a... Fazenda, vocês conhecem? E estava muito escuro, aí a gente veio dar conta de que era muito cedo. Paramos e esperamos o dia clarear pra entrar, porque a gente ficou com medo. 

E não só cacau, como a gente capinava, plantava. Tudo o que tinha que fazer, a gente estava fazendo. Quer dizer, cresci assim, fui até os 15 anos nesse trabalho.

 

P1 – E esse trabalho era de dia? Que horário do dia era?

 

R – Olha, a gente pegava das sete ao meio dia. Meio dia almoçava. Retornava uma hora da tarde, [e trabalhava] de uma a quatro da tarde. Aí parava, todo mundo vinha pra casa. No outro dia de novo, tudo novamente.

 

P1 – E quando você era pequena, à noite é que você ia pra escola?

 

R – Eu devia ter uns 14, 13 anos, por aí. Eu trabalhava assim.

 

P1 – E na escola, teve uma época que você só estudou, então?

 

R – É, eu estudei até a 4ª série. Eu só ia, assim, [trabalhar] quando minha mãe ficava doente. Mas a partir da 5ª [série] eu já ia só durante a noite estudar e ficava durante o dia trabalhando.

 

P1 – O que você gostava mais de estudar? Qual é a coisa que você se lembra com mais gosto?

 

R – Eu gostava de tudo, sabe? Eu pensava em me formar. Eu gosto muito de advocacia. Se eu tivesse estudado, acho que seria uma boa advogada. Acho que não era, não estava nos planos...

 

P1 – E você estudou até que série?

 

R – Até a 8ª série.

 

P1 – Até a 8ª série. Você já estava mais crescidinha. E o que você se lembra da maneira de se divertir?

 

R – Que eu me lembro...

 

P1 – Dessa cidadezinha do interior?

 

R – Ah, eu me lembro que eu gostava muito de dançar. Então, aos domingos tinha matinê, que era das quatro às oito. Era pra – vamos dizer assim – criança. Eu adorava ir mesmo. A minha mãe não deixava, mas eu ia até escondido [risos]. Adorava.

 

P2 – Eu ia perguntar se teve alguma vez que você foi escondida e se aconteceu alguma coisa que você lembra até hoje.

 

R – Escondida?

 

P2 – É, alguma vez que você saiu escondida e aconteceu alguma coisa que você lembra até hoje.

 

R – Só de minha amiga. Que tinha um grupinho que o pai dela não queria que ela fosse também. Então ela tinha um vestido verde bem “cheguei” e na luz negra ele mostrava. Ele [o pai] passou por ela e não [a] viu, daí eu [a] puxei pelo pescoço [risos], só isso. O pai dela passou e não viu, aí eu tirei ela de lá e a gente saiu. Eu também não queria [ir embora]... Um divertimento tão gostoso, sem maldade, que a gente ia só mesmo pra dançar, nem pensava assim em paquerar, porque hoje as meninas já tão assim, mas não era paquerar, era só dançar mesmo, se divertir.

 

P1 – E desse grupinho das amigas que iam se divertir, você lembra de alguém assim especial?

 

R – Me lembro. Tinha Raimunda, era muito especial. A gente tirava como duas irmãs, a gente se divertia, a gente brigava, ficava de mal, mas sempre ali, do mesmo jeito.

 

P1 – E você lembra de alguma história com a Raimunda que foi...

 

R – Raimunda era um verdadeiro capeta, Raimunda fazia muita arte. Ela brigava muito, batia muito nas outras, mas comigo não, a gente brincava, mas era aquela brincadeira... Aquela briguinha leve, não era muito pesada.

 

P1 – E você era comportada?

 

R – Era. Deixa eu contar uma história da Raimunda. Eu tenho medo de “largata”, ela sabia. Ela fazia questão de pegar uma pra me jogar. Era sempre assim: ela sempre fazia questão de pegar: “Vou pegar...”. E pegava e me jogava.

 

P1 – E você falou que tinha São João, Santa. Conta um pouquinho do São João, como é.

 

R – Ah, São João no interior é muito bom. Tinha fogueira na rua, as pessoas botavam pé de árvore, enchiam de milho, de laranja. Era tudo muito farto. Você chegava na casa de qualquer pessoa, um vizinho, e você comia, você bebia à vontade, era muito bom.

 

P1 – E as coisas aconteciam onde, na rua, como era?

 

R – Sim, a fogueira na rua, tinha árvore, a brincadeira também na rua. A gente arrumava a rua toda de bandeirola, botava palha de coqueiro, ficava muito linda.

 

P1 – E tinha quadrilha?

 

R – Tinha, mas eu nunca participava.

 

P1 – Por quê?

 

R – Não sei, eu não gostava muito, não sei dizer. Eu gostava muito de ficar brincando, eu não gostava de participar de quadrilha, não.

 

P1 – E depois quando você começou ficar mais grandinha, mais adolescente?

 

R – Quando eu fiquei mais adolescente?

 

P1 – É.

 

R – Trabalhar. E eu vim muito cedo pra cá pra Salvador. Eu vim pra Salvador com 16 anos.

 

P1 – E o que você achou de Salvador? Dessa chegada, dessa viagem?

 

R – Eu gostei muito, porque eu saí de um trabalho, quer dizer, eu saí de um trabalho que não era tão bom e vim pra um outro também que era ruim, porém conheci muitas pessoas boas, que passaram pela minha vida aqui. Aí que começa tudo. É aqui em Salvador que eu fui trabalhar com a moça. Eu não sabia fazer nada, fui trabalhar como babá. Mas não sabia nem brincar com criança, porque você tem que ter jeito pra brincar. Criança gosta muito de brincadeiras e eu não tinha muito jeito pra criança. Porém não sabia, mas gostava de cozinhar. Aí saí dessa moça que trabalhava com cozinha, que foi ela que me trouxe pra Salvador, minha mãe até deixou... Uma pessoa com 16 anos! Sempre tive minha cabeça no lugar, sempre fui certinha, até hoje. Então deixei de ser babá, fui trabalhar numa casa onde eu comecei... Não, eu fui ser ajudante de cozinha, não sabia cozinhar, fui ser ajudante.

 

P1 – Na casa da sua mãe você não ajudava, você não aprendeu nada?

 

R – Na casa da minha mãe eu ajudava, mas não é a mesma coisa. Quando a minha mãe saía pra trabalhar, eu ajudava. Eu tomava conta de minhas irmãs, que eram menores. Mas não é a mesma coisa daqui, é totalmente diferente.

 

P1 – E você veio com essa pessoa. E aí, conta...

 

R – Sim. E como eu já falei naquela parte, eu fui trabalhar numa casa onde eu fui aprender... Ela cozinhava muito bem – essa moça –, aí eu comecei a ficar olhando. Tudo que ela fazia eu prestava bem atenção pra "mim" aprender a fazer. E foi também onde eu conheci meu marido.

 

P1 – Você morava lá na casa dela ou você tinha a sua casa?

 

R – Não, eu morava na casa dela, trabalhava lá e dormia lá. Muitas coisas que eu aprendi foi também ela que ensinou, me ensinava: “Oh, Santa, faz assim”. Aí eu fui me desenvolvendo.

 

P2 – Aí você conheceu o seu marido?

 

R – Foi.

 

P2 – Como foi isso, esse momento?

 

R – Quer dizer... Conhecer assim, conviver o dia a dia, porque eu já [o] conhecia antes, mas não tinha nem pensamento de namorar [com] ele, nem nada.

 

P1 – Você [o] conhecia antes da onde?

 

R – Daqui mesmo de Salvador, que uma amiga minha tinha me apresentado ele. Então eu comecei a conhecer ele. E ele me falou que, quando me conheceu, ele pensou logo em namorar comigo. Só que eu não queria, eu falava a ele que ele ia ser meu padrinho de casamento. Ele falava: “Como, se eu vou ser seu noivo?” E realmente aconteceu. Foi um momento de minha vida muito alegre. Até então eu não sabia o que era aniversário, ele fazia pra mim. Tudo isso foi diferente... a convivência com ele. Acabei me casando com ele.

 

P1 – E esses amigos? Você falou que “conheceu ele” por amigos...

 

R – Pela minha amiga, Raimunda. A Raimunda, como sempre. Viemos juntas pra Salvador...

 

P1 – Ah, a mesma Raimunda da lagarta?

 

R – Mesma Raimunda. Mesma Raimunda da “largata”. Viemos eu, ela e outra menina. Só quem ficou aqui foi eu e ela, a outra foi embora. E eu estou até hoje aqui.

 

P2 – Quando você chegou aqui, você já tinha vindo pra Salvador antes?

 

R – Não.

 

P2 – Quando você chegou aqui, você sentiu alguma diferença?

 

R – Senti, "mas, porém" gostei. Assim que eu cheguei em Salvador, gostei logo, não queria mais voltar.

 

P2 – O que te impressionou? Você se lembra do dia em que chegou aqui?

 

R – Lembro. Assim, eu gostei logo, porque eu passei uma época lá, passei um tempo em Ilhéus. Fui tentar trabalhar em Ilhéus e não consegui, acho que porque lá as pessoas exploram mais. Porque quanto mais a cidade é menor, mais eles exploram. Eu não gostei, aí eu saí de ilhéus e vim pra Salvador. Aqui em Salvador já fiquei.

 

P1 – E o que você gostou assim de cara? O que você viu que falou: “Ah, gostei!”?

 

R – Não sei. Eu acho que é o clima, cidade bonita, as praias que a gente fica logo deslumbrada... Lá no interior tem rio, mas não tem praia, então tudo isso era diferente pra mim.

 

P1 – E você foi trabalhar na casa dessa pessoa?

 

R – Foi.

 

P – Aprender algumas coisas, e daí?

 

R – Daí, ela também me explorava um pouco. Me explorava um pouco não, me explorava muito! Então eu decidi sair da casa dela sem ter pra onde ir. Chegou um dia de domingo que ela me chateou tanto que [eu] saí sem ter pra onde ir. Fui parar na casa de uma amiga minha também, que é como se fosse a minha irmã. Na casa onde ela trabalhava, ela me hospedou até arrumar trabalho. Ela conseguiu logo um trabalho pra mim. Foi aí que eu conheci uma moça que eu considerava como uma mãe, dona Ivone. Eu comecei a trabalhar com ela. [Trabalhei] muito tempo e acabei... Realmente, ela me tratava como uma filha. Às vezes as pessoas não acreditam, mas a gente encontra muita gente boa na vida, que trata a gente bem, e ela foi uma delas.

 

P2 – Que lembrança você tem dela, das coisas que ela falava pra você, fazia?

 

R – Ela queria que eu estudasse. Eu estudava de noite na casa dela. Trabalhava de dia e fazia cursos. Ela não ligava, porque ela era uma moça que veio de São Paulo pra aqui, então já tinha outro pensamento. Não é igual aqui em Salvador, que a pessoa explora muito. Ela já me liberava mais, folgava todos os domingos, então já foi outra coisa.

 

P1 – Porque antes você não folgava nem um domingo?

 

R – De quinze em quinze, só. Ela era uma pessoa assim, que vinha de outra... Quer dizer, passou um tempo fora, então já conhecia tudo melhor, ela falava: “Ah, lá em São Paulo é assim: a pessoa trabalha, mas tem sua folga. Quer sair todo domingo, saia”. Eu saía, já me divertia. Eu trabalhei muitos anos com ela, muitos anos mesmo. Saí da casa dela por quê? Porque ela não tinha mais condições, assim um pouquinho de condições financeiras. Então ela queria que eu continuasse ganhando um salário digno – ela falou. Eu saí, fui trabalhar com outra moça.

 

P1 – E como foi pra você voltar pra escola? Voltar a estudar?

 

R – Voltar a estudar? Eu falei a ela que eu queria estudar à noite. Eu trabalhava de dia, estudava à noite. Aí terminei, quer dizer, eu terminei de fazer a 8ª série, mas aí eu desisti de estudar, porque era muito cansativo você ficar o dia todo trabalhando, limpar, sabe, estudar à noite... Aí eu desisti.

 

P1 – Vamos voltar lá no seu marido, que você parou no casamento e não contou mais.

 

R – Eu parei no casamento?

 

P1 – É, vocês casaram. Como foi esse dia, o dia do casamento?

 

R – Ah, foi maravilhoso, porque praticamente ele foi meu primeiro namorado, porque namorei muito pouco no interior e aqui só namorei ele, então...

 

P1 – Vocês se casaram onde?

 

R – Em Gongogi.

 

P1 – Ah, foi lá?

 

R – Foi, na igreja Senhora Santana, porque eu fiz questão de casar no interior, porque geralmente, quando você sai do interior pra vir pra outra cidade, as pessoas falam que você vem e que vai levar um diploma, que diploma é o filho pra mãe criar... É: “Ah, você vai trazer um diploma pra sua mãe”. E eu fiz questão de [me] casar lá pra mostrar a eles como é que se faz. Que às vezes as pessoas falam demais.

 

P1 – Como foi essa festa assim, sem diploma?

 

R - Ah, foi muito boa! A minha mãe estava muito feliz, meus familiares também. Até então, ninguém tinha casado na minha família, eu fui a primeira. Então foi uma festa muito bonita, todo mundo se divertiu bastante.

 

P1 – E aí, como foi? Vocês foram morar juntos, como foi?

 

R – Foi. Nos casamos. No começo, fomos morar com uma amiga, até a gente ter condições de comprar uma casa. Porque o sonho de todos é comprar uma casa. Aí fomos morar com uma amiga. Essa amiga também foi especial. Ela deu essa ajuda pra gente, deu a maior força até a gente comprar uma casa. Depois que a gente comprou a casa, a gente se separou: ela foi morar com o marido dela e a gente se mudou pra onde eu estou morando hoje. Até hoje morando no mesmo lugar.

 

P1 – Onde é essa casa? Conte um pouco dessa casa. Casa é uma coisa tão importante...

 

R – A minha casa no começo era muito “feinha”, toda acabadinha. Mas trabalhamos muito, trabalhamos bastante, porque [a gente] queria dar um conforto melhor a nossos filhos e a nós mesmos, trabalhar pra melhorar nossa vida! Então, praticamente derrubamos a casa e construímos outra – só é uma pena que ele não está mais aqui pra gente viver nessa casa, ele morreu muito jovem e eu consegui para os meus filhos...

 

P2 – Faz muito tempo que ele morreu?

 

R – Tem um ano e pouco, aí...

 

P2 – Que lembranças boas você tem da época que você estava vivendo com ele?

 

R – Eu tenho muita...

 

P2 – Conta pra gente, pra "ficar gravado" essas histórias.

 

R – Tem muita lembrança boa, ele era uma pessoa ... 

 

P2 – Quer uma aguinha?

 

R – A gente vivia muito bem, não brigávamos. Porque a gente discutia [dialogava] se tinha algum assunto, tudo que a gente queria fazer era combinado. A gente combinava tudo pra fazer, a gente comemorava os aniversários dos nossos filhos, dos nossos amigos queridos... tudo isso a gente sempre fazia juntos. A gente participava de muita brincadeira, tanto na rua como em outros bairros, nas casas de amigos. A gente era muito feliz. Então todas as lembranças que eu tenho dele são lembranças muito boas, não tenho lembranças ruins. Por isso que eu acho que cada dia eu sofro mais, porque eu nem viajava sem ele, só viajava se ele pudesse viajar. Mesmo se tivesse a oportunidade de ir ver minha mãe, só ia com ele, porque nas horas mais difíceis ele estava ali, do meu lado. Me lembro uma vez que ele viajou comigo com a roupa do corpo pra ver minha mãe, que estava doente. Nem todo mundo faz isso. Poderia ter até perdido o trabalho dele, que ele trabalhava, mas mesmo assim ele quis ir me dar força, pra trazer minha mãe pra aqui. Tratava todo mundo muito bem: minha mãe, meu irmãos. Então é uma pessoa que marcou a minha vida desde o momento que eu [o] conheci até o momento em que ele me deixou.

 

P1 – O que ele fazia, Santa?

 

R – Trabalho

 

P1 – É.

 

R – Ele era porteiro, era muito querido no trabalho dele. Uma pessoa muito querida onde trabalhava, porque ele era uma pessoa muito alegre. Às vezes, as pessoas me falavam que não sabiam porque eu era tão séria e ele tão brincalhão. Mas não é. Às vezes a gente não conhece as pessoas direito, então tira as conclusões antecipadas. Às vezes, você é brincalhona, mas não é todo tipo de brincadeira, não é todo tipo de brincadeira que eu gosto, algumas eu gosto. Falo sempre: “Não brinque muito comigo que eu não gosto de brincadeira, eu gosto de brincadeira saudável. Brincadeira de ofender, não sei o quê, não gosto”. Eu era assim e mesmo assim ele me "abusava" muito, brincando. Mas eu só tenho momentos, lembranças felizes: nascimento de nossos filhos, o nascimento da minha filha mesmo. Às vezes, ele dormia em pé com ela no colo. Uma vez ele caiu sentando no sofá, tentando botar ela pra dormir. Ela só dormia com ele, ele balançando pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Era um “paizão”, um pai muito bom, muito dedicado, fazia tudo só pensando nos filhos, no bem estar dos filhos dele. Ele amava aqueles filhos dele, então é por isso que hoje eu vivo só pra dar tudo de bom que eu puder dar a meus filhos.

 

P1 – E a sua primeira filha, qual é o nome dela?

 

R – Márcia.

 

P1 – Márcia. Conta do nascimento dela, o dia que ela nasceu.

 

R – Ah, ela nasceu no último dia do mês, 31 de julho. Fiquei muito feliz, um sonho! Toda mulher tem sonho de ser mãe, quem disser que não, é mentira. Que toda mulher quer ser mãe. Então meu sonho era ter filho, eu queria ter meu filho. Ele também. Então, quando a minha filha nasceu, eu fiquei muito feliz. Se eu trabalhava, trabalhava muito mais pra dar do bom e do melhor que eu queria. E poder, a gente não pode, não tem muita condição, mas o que a gente ganha é em prol dos filhos. E ela é uma menina maravilhosa, não me dá muito trabalho, nunca me deu trabalho, na escola então...

 

P1 – Quanto tempo depois de casados nasceu a Márcia?

 

R – Quatro anos, eu acho que foi quatro. Não me lembro bem, não, acho que foi quatro.

 

P1 – Então vocês curtiram bastante sem filhos.

 

R – Ah foi, curtimos muito mesmo. Eu casei com 21 e ela nasceu quando eu tinha 24 anos. Então curtimos bastante mesmo sem filhos. Mas em seguida que eu tive a Márcia, demorou dois anos e pouco e eu tive o Márcio. Eu não quis demorar muito de um pro outro pra eles crescerem na mesma proporção, pra brigar também, né? Irmãos brigam muito. Então, se ficasse um e levasse muito tempo pra ter [o outro], eles não iam ter muito tempo pra brigar tanto. Quando vão crescendo juntos, "tem" mais tempo pra eles brigarem. Se deixar pra depois de grande, aí já fica difícil. E até aquela amizade também que irmão tem com o outro, aquele amor. Quando um já está muito grande, já não tem aquela mesma coisa.

 

P1 – O que você lembra assim dos seus filhos? Dessas histórias de quando eram crianças, das brigas?

 

R – Briga, oh! Márcia, quando era muito pequena,  acordava três horas da manhã pra correr dentro de casa. Eu cansei de ficar sentada olhando ela brincar. Eu ficava sentada e ela correndo pra cá, correndo pra lá. E Márcio – como todo mundo fala que menino é mais danado e é, sempre é, menino é mais danado que menina – e ele é também um pouquinho danado, viu, de forma, assim, de brincadeira, viu? Que eu nunca deixei meus filhos em rua, eu prefiro que eles sejam criados dentro de casa, que eles tenham contato com outras pessoas... Agora eles já têm [uma certa idade], já estão saindo. Mas antes, quando eles eram menores, eles ficavam mais dentro de casa do que na rua. Porque aqui a gente não pode criar filho solto, aí eu deixo eles assim.

 

P1 – E quando eles eram pequenos e você ia trabalhar, com quem que eles ficavam?

 

R – Ah, eu trabalhava. No começo, a gente pagava o que podia a uma menina que passou a tomar conta deles. Mas depois meu marido começou a trabalhar à noite e eu durante o dia, pra não precisar ficar pagando as pessoas. E às vezes as pessoas não tomam conta direito da criança. Então foi preferível trabalhar assim: ele durante a noite, eu durante o dia. Porque aí não ficava sem ninguém pra olhar eles. Por isso que agora eu estou trabalhando perto de casa, justamente pra ficar junto deles. Por isso que eu estou hoje no projeto, né?

 

P1 – E hoje eles já estão com quantos anos?

 

R – Márcia tem 16 e Márcio tem 13, mas é um “rapazão”, você nem diz que ele tem 13 anos.

 

P2 – Você continua trabalhando em casa de família mesmo, com as crianças?

 

R – Não. Agora eu tô lá na Costurart.

 

P2 – Mas antes, quando eles nasceram você trabalhava...

 

R – Trabalhava, trabalhava até 2005, até 2006 eu trabalhei. A partir do falecimento do meu marido, eu saí do trabalho, passei a ficar em casa.

 

P1 – E esse bairro da sua casa que você disse que... Conta um pouco do bairro, como é.

 

R – O bairro em si é um pouco violento, como toda periferia de Salvador. Tem muita droga, muito assassinato. Com a gente, morador, ninguém mexe. A gente vive tranquila, mas convivendo com isso. A gente tem que aprender a conviver, saber conviver com essas pessoas, pra que você não atraia eles contra você. Então você tem que falar com eles, passar, falar, não tem que fazer cara feia. O que você vê, você não vê nada, você tem que fazer de conta que não está vendo.

 

P1 – E quando foi que vocês foram morar lá? Que ano, você lembra?

 

R – Ah, eu não me lembro.

 

P1 – Mas faz tempo já?

 

R – Faz muito tempo. Quando eu fui morar lá, deve ter mais de 17 anos, porque a minha filha já está com 17, 16. Eu, quando fui, nem pensava em ter [filhos].

 

P1 – E você acha que esse bairro mudou muito de lá pra cá?

 

R – Mudou, mudou bastante. Eu não sei direito a história do bairro, porque quando eu cheguei o bairro já estava... Mas dizem que antes tinha muita violência, depois melhorou, depois a violência continuou. Acho que agora – com o passar do tempo – a violência está voltando. Porque teve uma época que a gente até chegava da rua de madrugada e não acontecia nada. Hoje tem vigilante na rua, que os moradores pagam aqueles rapazes pra ficar rodando. Então eu acho que hoje está pior.

 

P1 – E foi lá no bairro que você conheceu o projeto?

 

R – Foi, lá no bairro.

 

P1 – Como?

 

R – É... como eu falei que meu marido faleceu, os amigos fugiram, os amigos de farra, que a gente tem amigos e amigos. Aqueles amigos de farra, só em época de farra; agora, aqueles verdadeiros amigos continuam. Até então, eu não tinha muita intimidade com Gicélia. Mas aí ela começou a ficar me procurando: “Santa, largue de tristeza, você tem que fazer um curso”. Ela é a presidente da Costurart, aí ela: “Lá na Costurart vai ter cursos”. Ela falou que na Costurart ia ter cursos e eu comecei a frequentar. Fiz curso de bordado, fiz o curso de pintura e fiz o curso de bijuteria lá. Eu comecei a bordar em casa, aí [ela] sempre [me] chamava: “Venha participar”. E eu sempre com o pé atrás. Eu não queria sair de casa por causa dos meus filhos. E eu comecei freqüentar e estou lá, onde ela é uma pessoa muito querida. Descobri uma amiga que eu não tinha. [Ela] Nunca tinha ido na minha casa, apesar de morarmos em frente. Conhecia ela, falava, mas nunca tinha ido na minha casa. A partir do momento que ela viu o meu sofrimento, ela começou a me ajudar. Então eu digo que amigos a gente tem nessas horas, porque aqueles que: “Ah, eu não aguento ver seu sofrimento...” São covardes. Então, assim, eu acho que ela foi uma grande amiga que surgiu na minha vida.

 

P1 – E seus filhos estudam?

 

R – Estudam.

 

P1 – E são bons alunos? Como eles são?

 

R – Ah, são ótimos, eles são ótimos alunos. Eu não tenho de falar, de receber queixa de escola. Agora Márcio, que está ficando adolescente, 13 anos, ele está com negócio de paquera, falta uma aula... Eu chamo atenção, mas até então eles são ótimos alunos.

 

P1 – E quais que você acha que são as maiores diferenças da sua relação com a Márcia e com o Márcio?

 

R – Diferença?

 

P1 – É.

 

P2 – Como que é o dia a dia deles?

 

P1 – Ah, o dia a dia com meus filhos é ótimo. Eu não saberia viver sem eles também, só se acontecer uma fatalidade, porque, se não acontecer, a gente tem que aprender a viver. Mas meu dia a dia com eles é maravilhoso.

 

P2 – O que vocês costumam fazer, assim, de fim de semana?

 

R – Ultimamente, minha cabeça não funciona pra nada. Antes, eu saía muito, então eu estou vivendo de um jeito que eu não estou pra sair ainda. Às vezes, eles saem com os tios, vão pra praia. Eu não consigo ir, não sei quando eu vou conseguir. Eu não consigo ir a lugar nenhum, não consigo ir à festa, nada, só com o tempo. Fico em casa, assisto um filme, juntos – porque eles também às vezes não saem, eles também ficam em casa. Se tiver uma festinha, se eles quiserem ir, eles vão. Não proíbo, mas pra mim ainda é difícil.

 

P1 – E eles, como que eles encararam a perda do pai?

 

R – Eles sofrem muito, porém calados. Pra não me fazer sofrer mais, eles ficam calados. Ficam é porque... É difícil até a gente ficar falando, porque, se eles falarem, eu acho que eles vão me machucar. Se eu ficar falando, vou machucar eles. Então fica assim, esse silêncio.

 

P1 – Você entrou em contato lá com os cursos, com o projeto. Conta como é que foi. Por que você se interessou?

 

R – Eu me interessei porque eu sempre gostei de costura e também pra minha cabeça melhorar um pouquinho. Botei ela pra funcionar, aí eu comecei a ir. Fui pra costura, depois fui pra pintura, também como já falei, fiz um curso de bijuteria lá e continuo lá. Cada dia que passa, está melhor, porque a gente mesmo fica batalhando, vamos à feira. E essas feiras de que a gente participa são muito boas. Conhecemos gente nova, fazemos novas amizades, as pessoas elogiam o trabalho. Pra gente é satisfatório.

 

P1 - Você já costurava antes, já tinha uma ligação com alguma dessas atividades?

 

R – Eu costurava, mas muito pouco. Eu fazia calcinha, sutiã em casa. Mas esses trabalhos de costurar roupa eu não sabia.

 

P2 – Como você aprendeu a fazer calcinha e sutiã em casa? Eu tenho curiosidade. 

 

R – Tinha uma moça que dava cursos em casa, aí eu pedi pra ela. Pra ocupar minha mente. E ela começou a me dar curso em casa e eu aprendi.

 

P2 – E você faz ainda?

 

R – Faço.

 

P2 – Em casa ou no...

 

R – Em casa, faço em casa.

 

P2 – E você vende ou mais pra uso de vocês?

 

R - Eu vendo. Uma coisa também que eu descobri é saber vender. Eu não sabia que eu sabia vender, hoje eu sei que eu sei vender. E aí eu vendo, minha irmã vende...

 

P1 – E sua irmã mora perto também? 

 

R – Mora perto de minha casa.

 

P1 - Você tem contato com seus irmãos?

 

R – Tenho. Só um que mora no interior, mas minha irmã mora perto de mim. Ela pega e vende as bijuterias que eu faço, vende também as calcinhas, sutiãs... tudo que eu faço ela vende também.

 

P1 – Onde que você aprendeu a vender assim?

 

R – Aprendi a vender assim porque às vezes a gente pensa que não sabe, faz aquela dificuldade. Mas, a partir do momento que eu comecei a fazer calcinha, eu descobri que eu sabia, comecei a dar preços, e tive também cursos na cooperativa de empreendedorismo.

 

P1 – Que cooperativa é essa?

 

R – A Cooperativa Costurart. Porque lá dá vários cursos, então sempre tem um professor e ele ensina como é que a gente faz. Quando eu tomava o curso de bordado, também tinha algumas aulas que a menina vinha pra dizer como que a gente podia vender nosso trabalho. Eu fui me desenvolvendo nesses cursos, tomando. A gente vai aprendendo como se desenvolver. Eu era muito tímida, daí comecei a falar mais e comecei a vender. Eu vou às feiras e me saio muito bem.

 

P1 – E o que mais vocês aprendem lá?

 

R – Lá têm vários cursos, tem um agora de pedrarias, tem... Tem um monte de cursos lá, não vou me lembrar. 

 

P1 – Mas você lembra de alguma coisa que você gostou, que voltou pra casa falando: “Puxa...”

 

R – No curso?

 

P1 – É.

 

R – Ah, eu gosto assim das brincadeiras, sempre tem uma brincadeira antes do curso. Às vezes a gente não quer participar, acaba participando, acaba gostando. Então quando a gente chega em casa, a gente sempre lembra de alguma coisa que a colega fez. A gente aprende uma a ficar amiga da outra. É muito boa a convivência da gente. Tem sempre uma diferença, tem sempre aquela que é a complicadinha, mas a gente tem que deixar pra lá e ir em frente, esquecer aquela desavençazinha, não pode ter desavença. Se você tiver que falar alguma coisa, chama a pessoa e fala, então é melhor...

 

P1 – E a Costurart? Conta um pouquinho da cooperativa, conta como funciona...

 

R – Como a cooperativa funciona? Agora nesses dias a gente está com muito trabalho. Tem umas estilistas aí que são espanholas, elas estão desenvolvendo um trabalho lá na cooperativa. Que elas também ajudaram. [Se] A cooperativa está aí hoje, foi a Pueblos que, a partir daí, a cooperativa começou a crescer. Então hoje a cooperativa recebeu elas. Elas são estilistas, estão desenvolvendo um projeto que elas vão levar pra Espanha. Se ela achar alguns parceiros lá, aí pode trazer trabalho pra cooperativa.

 

P2 – Quanto tempo faz que você participa?

 

R – Um ano, um ano e pouco.

 

P2 – Um ano e pouco. Quando você se inscreveu, você se inscreveu num curso...

 

R – Foi.

 

P2 – E como de um curso virou cooperativa?

 

R – Não, eu me inscrevi no curso, já tinha a cooperativa. Eu me inscrevi no curso, aí se você gostar você vira cooperada. Eu virei cooperada.

 

P1 – E você sabe a origem assim dessa cooperativa, como ela se formou?

 

R – Sei que se formou por mulheres, que foram vítimas de violência doméstica. Então esse grupo de mulheres se fortaleceu e formaram a cooperativa. Teve um... Não vou me lembrar... Doaram as máquinas pra elas, elas começaram a trabalhar com essas máquinas.

 

P1 – Foi o Instituto Walmart, né?

 

R – O Instituto Walmart entrou. Um ano atrás ele doou as máquinas, todas novas, pra cooperativa. E o Instituto Walmart está sempre bolando feira, eu até desfilei sem querer na feira que teve do Instituto Walmart, aí na Holliday.

 

P2 – Você desfilou?

 

R – Desfilei, sem querer, mas desfilei. Porque era a minha irmã que ia desfilar, mas ela ficou doente. A roupa dela tinha que dar em uma pessoa e aí passou pra minha amiga que estava lá. E a minha amiga passou pra mim e aí eu desfilei no lugar dela.

 

P1 – O que você achou dessa experiência?

 

R – Foi uma experiência boa, porém eu estava com muita vergonha, nem, nem... As roupas estavam muito lindas, são diferentes. Foi uma experiência boa, mas eu não estava preparada pra aquilo não, viu? Eu só fui mais porque eu faço parte da cooperativa, então você tem trabalhar em prol dela, você não pode... Se você está nela, você tem que ir em frente, pra ajudar as meninas que estão ali batalhando. Você não pode voltar pra trás, você tem que ir sempre em frente, ajudar para crescer cada dia mais.

 

P1 – E o desfile foi das roupas que vocês mesmas fizeram?

 

R – Foi.

 

P1 – Conta como foi o processo dessa coleção que vocês desfilaram.

 

R – O processo? Porque lá tem umas roupas, tens uns vestidos assim: vestido arara, borboleta – que as meninas mesmo desenvolveram esses vestidos. Aí então esses vestidos são bordados, depois eles são pintados, são muito lindos. E o Instituto Walmart pediu pra escolher umas peças. Aí escolheram as peças, cinco peças, e [elas] foram ao desfile. Foi muito...

 

P2 – Quem escolheu as peças?

 

R – As peças? Os vestidos todo mundo já sabia quais eram, quem escolheu as peças foram as meninas lá. E a gente, todo mundo, estava [lá] pra concordar: se essa peça tá boa pra desfile, se não tá e aí...

 

P2 – Arara e borboleta são estampas?

 

R – É bordado...

 

P2 – Bordado e pintado...

 

R – É, pintado. Primeiro você borda, depois você pinta o vestido. Fica muito bonito.

 

P1 – E como funciona a cooperativa, tem uma presidenta?

 

R – Tem a presidenta, tem o marketing também, tem a secretária, tem a – esqueci – do financeiro também, e aí por diante. Cada um vai desenvolvendo o que sabe fazer de melhor lá dentro, a gente se junta – quem faz isso, quem faz aquilo...

 

P1 – E quem é que decide? Como que é esse processo de tomar as decisões dentro da cooperativa?

 

R – Ah, sempre fazemos assembleia. Todas nós decidimos o que é melhor. Não é decidido assim, só a presidenta decide, não. Tem a assembleia, nos reunimos, discutimos o assunto e decidimos.

 

P1 – E o que você acha que foi importante pra você participar dessa cooperativa?

 

R – Pra mim é importante, porque é melhor do que eu ficar em casa. Porque se eu ficar em casa, só vou ficar pensando, pensando, pensando e não vai resolver nada. Então a cooperativa pra mim é melhor, porque eu vou desenvolvendo um trabalho. A gente vai desenvolvendo um trabalho lá dentro e saímos também. Se precisar fazer alguma coisa, algum contato, levar alguma peça pra alguma pessoa ver, a gente vai. Então pra mim foi muito bom.

 

P2 – Vocês já estão conseguindo ganhar algum recurso com a cooperativa, vocês ganham alguma coisa?

 

R – Ganha muito pouco. Tem que dividir com todas que estão ali. Porque tudo que ganha tem que ser dividido. Mas vamos pra frente que a gente vai conseguir muito mais.

 

P2 – E as pessoas: a presidenta, a secretária, tesoureira que você falou?

 

R – Tem a do financeiro...

 

P2 – Financeiro, é. Essas pessoas são as próprias cooperadas ou são outras pessoas que participam?

 

R – Não, elas são cooperadas. Elas começaram também como cooperadas. A presidenta foi quem fundou, ela e mais outras, as quais saíram. Só ficou uma dessas mais velhas, que é ela. Tem ela e tem Rose. Das mais velhas, só tem duas. E são todas cooperadas, não é ninguém de fora. Se vier de fora vai querer...

 

P1 – E como que é essa rotina de trabalho, como que é um dia?

 

R – O dia é ótimo, às vezes fazemos almoço lá...

 

P1 – E o horário, é flexível, como funciona?

 

R – A hora? Geralmente a gente chega oito e meia, às vezes saímos cinco. Se tiver trabalho, a gente sai mais tarde. Porque temos que terminar o trabalho pra entregar. Mas a rotina é essa: paramos pra almoçar meio dia, voltamos duas horas, às vezes voltamos mais cedo se tiver muita coisa pra fazer. É assim o dia a dia lá.

 

P1 – E você se lembra de alguma encomenda especial, de algum trabalho especial que vocês fizeram?

 

R – Encomenda especial eu estou querendo que apareça, que o Instituto está querendo fazer. Então a gente espera que seja bem especial, mas não me lembro agora.

 

P1 – Uma grande que vocês tiveram que trabalhar...

 

R – Na minha época, não. Mas antes teve uma que foi até pra Espanha. Porque eu acho que foram duas mil peças, sei lá, uma coisa assim. Que elas disseram que trabalhavam até com a caixa de bordado na cabeça, pra agilizar. Que tinha que entregar aquelas peças, aí elas disseram que foi muito trabalho. Mas eu não estava lá ainda nessa época. Mas também teve um trabalho que elas fizeram na fábrica do carnaval, que elas trabalharam igual umas loucas. Eu também não estava – eu estou chegando agora, tenho muito pouco tempo.

 

P2 – As pessoas que quiserem participar da cooperativa, está aberta a quem quiser participar?

 

R – A quem quiser.

 

P1 – E como elas te receberam? Pelo jeito você é uma das novas...

 

R – Ah, elas me receberam muito bem, graças a Deus. Porque eu sou aquela pessoa que sei conviver com as outras, não sou aquela pessoa que fica implicando. Tem gente que implica, eu não. Sei viver muito bem, sei conviver muito bem com as pessoas. Me receberam bem, graças a Deus. Quando a gente não vai, elas falam: “Não falte, não, que a gente vai ficar morrendo de saudade!”. Agora mesmo, quando eu vinha pra aqui, ela: “Não, não vá não, não vá não que a gente não pode viver sem você”. 

 

P1 – E vocês lá, vocês costuram, vocês conversam? Qual é o tipo de conversa que sai lá dentro?

 

R – Ah, tem muitas brincadeiras, aquelas brincadeiras entre mulheres. Elas conversam muito, então tem muitas brincadeiras. Ah, teve uma encomenda, eu esqueci... o chaveiro do Walmart. 

 

P1 – Conta como foi.

 

R – Foi muito engraçado, porque tinha que entregar e, quanto mais a gente fazia, mais demorava de fazer, porque era tudo bordado à mão, tudo à mão.

 

P2 – Chaveiro de pano?

 

R – Chaveiro de pano – agora me lembrei dessa encomenda. Foi muito especial e a gente ficou naquele... Eu mesma tive pesadelo, sonhava com aquele chaveiro que tinha que entregar na sexta-feira e tinha muito pouco tempo pra gente entregar. E tinha outras coisas pra gente fazer. Mas foi muito bom, todo mundo brincava, a gente levava café, tudo pra lá pra adiantar o trabalho.

 

P1 – E como divide assim? Vocês controlam o tempo que cada uma trabalha? Como que divide quanto cada uma trabalhou?

 

R – Não controlamos ainda, mas temos que controlar. Tem umas que trabalham mais, outras que trabalham menos. Mas isso tudo tá pondo no papel pra depois colocar em prática, pra todo mundo trabalhar igual.

 

P1 – E vocês conversam disso na assembleia?

 

R – Conversamos, tanto que agora mesmo tem uma menina lá fazendo isso.

 

P2 – Fazendo o quê?

 

R – Vendo o tempo que dá pra fazer uma peça, essas coisas todas pra uma não trabalhar muito e outra trabalhar pouco.

 

P2 – Você vai todo dia?

 

R – Vou todos os dias. A não ser quando tenho alguma coisa pra resolver, aí eu não vou, "mas, porém" aviso.

 

P2 – A proposta é ir todos os dias, quem puder?

 

R – É, todos os dias.

 

P2 – Quem não pode...

 

R – Não, tem pessoas que não podem pela manhã, mas podem ir pela tarde, aí pode também. Quem não pode ir pela tarde, mas pode ir pela manhã, pode também.

 

P1 – Quantas vocês são?

 

R – Agora eu nem me lembro, mas acho que tem, agora lá está cheio, deve ter mais de vinte.

 

P1 – E como é esse lugar, essa casa, o espaço físico?

 

R – O espaço é um espaço bom, porém é alugado. Eu acho que seria melhor se fosse da gente mesmo. É um espaço alugado, mas é um espaço bom. A gente chega lá, todo mundo que vai lá gosta, quer ficar lá. Então eu mesma gosto de lá, o dia que não vou, sinto até falta, sinto muita falta.

 

P1 – E vocês que pagam esse aluguel? Divide entre as cooperadas?

 

R – Sabe que o projeto pagava, mas não sei se continua pagando...

 

P1 – E como que a comunidade encara essa cooperativa? O que dá pra falar?

 

R – Ah, tem muita gente que não sabe o que é a cooperativa, então chega assim e se assusta: “Meu Deus, eu não sabia que vocês faziam esse trabalho!”. Mas quem sabe, dá o maior apoio. Tanto que estão querendo fazer um desfile lá na comunidade pro pessoal conhecer o trabalho da cooperativa. Vamos fazer agora em outubro.

 

P2 – A cooperativa fica na comunidade?

 

R – Fica.

 

P1 – Como que é o nome da comunidade?

 

R – Calafate.

 

P2 – E o que os maridos das cooperadas acham de elas passarem tanto tempo na cooperativa?

 

R – Eu acho que eles gostam, viu? Pelo menos as mulheres deles estão se ocupando com alguma coisa útil. Quem fica em casa, tem sempre – porque bairro você sabe – sempre tem aquela pessoa, aquela “fofocaria”, não sei o quê, então se elas estão ali trabalhando, estão fazendo um bem próprio a elas. Então eu acho que os maridos delas devem gostar, sabendo que um dia desses a mulher dele vai ser famosa, sei lá, com a cooperativa crescendo. Eles têm que gostar.

 

P1 – E o que você acha? Qual a importância desse trabalho lá no Costurart pra você?

 

R – Pra mim? Pra mim é muito importante. A partir do momento que eu estou ali, eu me sinto muito bem. Então pra mim é muito importante.

 

P1 – E o que os seus filhos acham? O que vocês conversam desse trabalho?

 

R – Eu converso com a minha filha, chamo ela pra ir também, porque ela também tem bom curso de bordado, ela sabe bordar muito bem. Eu chamo, eles gostam. Pelo menos ela não fica dentro de casa o tempo todo e sai pra algum lugar. Eles reclamam: “Ah mãe, você não sai pra lugar nenhum, só vai pra cooperativa...”. Então acho que eles gostam.

 

P1 – E lá no Costurart são mais mães, são mais jovens? Quem são as suas companheiras de...

 

R – Tem mãe, tem jovens. Agora são mais mães do que jovens. Porque jovens, tem, mas são muito poucos, tem mais mães.

 

P1 – E você sabe da onde que vem esse nome? Por que escolheram esse nome Costurart?

 

R – Ah, eu não sei, mas acho que foi por causa da costura junto com bordado e as artes que fazemos com as coisas. Então botou Costurart, eu acho, não tenho certeza.

 

P1 – E o que você imagina para o futuro da cooperativa? O que você acha que vai acontecer?

 

R – Eu imagino um futuro muito bom, com muitas prosperidades, com muitos trabalhos que estão chegando, graças a Deus. Que cada dia que passa vai chegando mais um trabalho, então eu imagino que o futuro da cooperativa seja um futuro muito próspero.

 

P1 – E como chegam esses trabalhos? Quem são esses clientes? Pra quem vocês vendem?

 

R – Oh, tem sempre uma pessoa que leva as facções pra costurar...

 

P1 – Que são as facções?

 

R – São roupas. Vocês cortam, levam e lá nós costuramos. Você só entrega a roupa cortada, aí a cooperativa costura, aí leva.

 

P1 – E vocês aprendem o molde, tudo pra fazer uma roupa desde o começo ou é só bordado? Você falou do bordado...

 

R – Tem também, teve o curso. Eu não estava lá ainda, no de fazer a modelagem. Tem a pessoa que sabe fazer a modelagem. Se você quiser a roupa, a pessoa faz a modelagem pra você, faz aquela roupa. Mas tem a modelagem também que você pega e corta.

 

P1 – Você ia falando dos clientes, que tem os que trazem só pra vocês costurarem. Tem o que mais?

 

R – É, também tem uma revistinha, também que vende.

 

P1 – Ah, um catálogo vocês fazem?

 

R – É, um catálogo que a gente leva pras pessoas. As pessoas escolhem se quiserem.

 

P1 – E o pessoal da comunidade? Vocês têm cliente dentro da comunidade?  

 

R – Muito pouco, porque você sabe comunidade como é, nunca dá valor. Nunca dá valor às coisas do bairro. Porque geralmente é assim, eu tiro por experiência própria. Eu sei fazer muito bem salgado, doce, bolo e geralmente as pessoas não confiam. Eles sempre pedem pra não sei quem de não sei onde, mas a você, que está ali, não pedem. Só querem de graça e não confiam. Só confia se você fizer de graça, se não fizer de graça aí ele não confia, não.

 

P1 – Por que será isso, né?

 

R – Por que será isso? Acho que é pra não valorizar o trabalho das pessoas. Mas é por isso que eu digo: quando a gente sai, aí vem aquelas pessoas elogiarem tanto. Você fica feliz, porque está vendo que aquelas pessoas tiveram reconhecimento e valorizam.

 

P1 – E o que você imagina pro seu futuro? Uma coisa que você queira fazer, assim, um sonho?

 

R – Sonho? Quero ver meus filhos felizes, só. É o único sonho que eu tenho: é que a Márcia cresça, que seja uma menina feliz, independente; o Márcio, que cresça também, que seja homem e muito feliz também, que seja também um homem independente, que não fique esperando, que corra atrás das coisas, estude.

 

P1 – E como é criar um filho nessa comunidade que tem muito problema de droga?

 

R – Muito difícil. Você tem que ficar conscientizando seu filho sempre: o que é certo, o que é errado. Mas eles sabem, eles sempre comentam comigo que não sabem porque as pessoas procuram o lado mais difícil pra viver do que o lado mais fácil. Porque ele está vendo que a droga só leva ao abismo, está vendo que ali tem sempre morte. A gente sempre está vendo: "Ah, matou alguém". Então ele está vendo que aquele lado é o lado ruim. Você tem que ir sempre pro lado bom.  Então eu mesma sempre conscientizo os meus [filhos]. Peço pra eles freqüentarem religião, porque quando você tem uma religião e você tem Deus no coração, você já não vai praquele lado. O jovem que procura Deus, nunca vai pro lado da droga, jamais. O jovem que procura Deus sempre está do lado do bem, que ele sabe que aquele outro lado é sempre ruim pra ele, então... A igreja não salva ninguém, quem salva é Deus. Mas, se você freqüentar, é bom, porque tira você de freqüentar lugares ruins.

 

P1 – Qual que é a igreja que você freqüenta?

 

R – Lá é São Pedro e São Paulo, da paróquia.

 

P2 – É igreja católica?

 

R – É.

 

P1 – E fica lá dentro da comunidade?

 

R – Dentro da comunidade. Lá, meus filhos... Não batizei lá, "mas, porém" fizeram a primeira comunhão e Márcio agora pretende fazer a crisma lá.

 

P1 – E eles vão pra igreja com você? Eles gostam?

 

R – Realmente nessa época eu não estou indo na igreja, eu sou fogo. Não estou indo à igreja, mas ele [o Márcio] gosta. Já foi até coroinha e tudo. Mas agora, desde pouco tempo atrás, eu não estou indo, não. 

 

P1 – E o que você imagina pro futuro dos seus filhos?

 

R – Ah, o futuro... Como diz, o futuro a Deus pertence. Mas a gente quer mais sempre o melhor, não só pros nossos filhos, mas pros nossos amigos, aqueles amigos de coração, nossos vizinhos, nossos parentes. Então a gente tem que querer sempre tudo bom pra eles.

 

P1 – Mais alguma coisa?

 

P2 – Não.

 

P1 – Obrigada.

 

R – Nada.

 

P2 – Como foi pra você dar essa entrevista?

 

P1 – É, como foi pra você dar essa entrevista aí, contar a sua história?

 

R – No começo, eu estava muito nervosa, mas vocês são muito simpáticas. Gostei muito de vocês. Assim que vi, tanto da menina, esqueci o nome dela...

 

P1 – A Giselle.

 

R – Gostei muito dela e, assim que vi vocês, também gostei. Porque, quando a gente não se sente bem, fica difícil. 

 

P1 – Você achou então que foi mais fácil ou mais difícil do que você esperava?

 

R – Foi mais fácil do que eu esperava. Eu sabia que ia chorar. Quando eu me lembrasse de algumas coisas, eu sabia que ia chorar. Mas foi fácil, não foi tão difícil assim como eu pensava. Também vocês deixaram eu me sentir bem, porque se vocês me pressionassem, não ia sair nada. 

 

P2 – Agora a sua história está registrada.

 

P1 – E é uma história muito bonita. Obrigada.

 

P2 – Obrigada, viu Santa?

 

R – De nada. 

 

- - - FIM DA ENTREVISTA - - -

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