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Amigos da rua, colegas de classe

História de: Ruy Ohtake
Autor:
Publicado em: 23/06/2020

Sinopse

Ruy Ohtake lembra em seu depoimento dos tempos em que foi vizinho de Vladimir Herzog, de quando estudavam na mesma classe e iam juntos para a escola. Fala do temperamento recatado de Herzog, sua paixão pela leitura e a vocação, aflorada mais adiante, para o cinema. Recorda da efervescência cultural que tomou conta do Brasil na virada dos anos 1950 para 1960, e da falência dos sonhos e projetos provocada pelo golpe de Estado de 1964. Analisa o desenvolvimento da arquitetura brasileira, descreve em linhas gerais o escopo de seu trabalho e conta como se deu a criação do Instituto Tomie Ohtake.

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História completa

Na mesma sala

Falar sobre o Vlado é falar sobre um personagem da história do Brasil muito importante, e que só mais recentemente isso vem sendo reconhecido. Mas, muito merecidamente. Qual é a minha convivência com o Vlado? Nós fizemos juntos, na mesma classe, o curso primário, no Colégio Estadual de São Paulo. Hoje é Colégio Estadual de São Paulo, na época chamava-se Colégio Estadual Presidente Roosevelt. Além de estarmos na mesma classe, nós moramos muito próximo um do outro. Então, frequentemente a gente ia ao colégio, à escola, juntos. E daí surgiu uma convivência muito gostosa em toda a fase do primário. E o colegial ele preferiu fazer no Colégio Estadual de São Paulo, que é do mesmo grupo, porque no Estadual Presidente Roosevelt, onde nós fizemos o primário, não havia colegial à noite. Mas eu fiz à noite, mesmo, o colegial. O Vlado foi para o que a gente conhecia como [colégio] São Joaquim.   

A cidade estava encostada. Ou seja: o colégio era na ponta do Centro da cidade, grudado à Praça da Sé. Ainda existia Praça da Sé e Praça Clóvis [Beviláqua]. E a Praça da Sé era um lugar de um bom encontro. Porque tinha, além de um bar, uma choperia muito famosa, a choperia que depois eu vou lembrar o nome, e, lá em cima desse prédio, tinha o ateliê do [Alfredo] Volpi, dos grandes artistas. Esse prédio foi demolido quando o governo resolveu juntar a Praça da Sé com a Praça Clóvis. E aí, esse ponto de encontro, que era muito fácil para nós, começou a ficar meio difícil. E depois ele [Vlado] foi fazer Filosofia, e eu, Arquitetura. Então, nós nos encontrávamos muito pouco. E alguns encontros, naquela época, de discussão, vou chamar assim, social, eram muito mais raros. E, nesses encontros raros, a gente se cruzou várias vezes.

 

Vizinhos de rua

Quando nós descobrimos que morávamos muito perto, nós descobrimos lá no colégio. Morávamos a três quadras. E o David Lerer, a duas quadras. E [estudávamos] na mesma classe. Foi uma convivência muito boa. De um lado, o Vlado, muito reservado, foi um colega no ginásio e no colégio bastante quieto, não conversava muito, sempre com um livrinho na mão. Ele lia muito. E nas discussões ou temas mais, vamos dizer assim, políticos ou sociais, aí ele tinha uma boa participação. No colégio eu fazia um pouquinho de esporte. O Vlado não fazia esporte. Ele ficava no canto, sempre com um livro, lendo livro, e, nas conversas sobre a questão daquele nível de ensino, que já era discutido, mas num nível bem, ainda, primário, aí ele participava mais e colocava lá suas opiniões, que eram, sempre, as melhores. Natural, não é?

 

Ebulição cultural

Eu considero essa época, final da década de 1950, começo da década de 60, como um dos períodos mais ricos na vida cultural brasileira. Você veja: começou o Teatro de Arena e o Teatro Oficina – 1958, 59 e 60. E foi germe da verdadeira dramaturgia brasileira. Não era mais TBC [Teatro Brasileiro de Comédia], era esse núcleo. Na literatura, o Guimarães Rosa, aquele do norte... Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego. Depois, na música, João Gilberto. Eu ia falar de alguns clássicos, depois da bossa nova, o surgimento da bossa nova. Foi um período muito rico na nossa cultura, e que 64 acabou... acabou, não, destruiu uma parte disso. Significou um retrocesso, ou uma paralisação muito grande. Aquilo que vinha se formando para discutir e alterar programas escolares, por exemplo, tudo isso se perdeu. Volta o programa clássico, acadêmico, antigo. E retomou tudo de novo.

A Arquitetura estava tendo um desenvolvimento muito grande, inclusive em 1960, com a inauguração de Brasília. Mas isso tudo se perdeu. Se perdeu como? Chegaram os militares e falaram? Não, eles não fizeram isso na Arquitetura. Eles alteraram os programas. Foram mais sutis. E essas alterações de programa ocorreram também da seguinte forma: surgiu, nessa época, 1970, pelo lado socioeconômico, a ideia do “Brasil Grande”. Então, fazer as grandes usinas hidrelétricas, de Itaipu e de todas aquelas outras, os grandes aeroportos Cumbica, aquele de Campo Grande, aquele de Manaus, alguns outros. Só que o Brasil não tinha quadros para fazer os projetos desse vulto. Então, o que o governo militar fez? Estimulou e se formaram alguns grandes escritórios de engenharia geral. A mais conhecida foi a Hidroservice que, na época, tinha seis mil profissionais. A Hidroservice, junto com essas outras, várias delas agora enroscadas na Lava Jato, se associaram e fizeram os grandes projetos. Sem nenhuma questão de uma Arquitetura mais brasileira: esse desvio do “Brasil Grande”, das grandes obras, para esse campo de formar, com metodologia francesa, todos esses grandes planos de aeroportos, tudo com metodologia francesa. Essa aí foi uma outra perda muito grande. Agora nós, eu me situo entre nós, nós tínhamos o quê? Trinta anos, 35, trabalhando os meandros dessas coisas, fazendo algumas sobras. Eu fiz várias obras sem grandes repercussões, mas que eu fazia com cuidado e foram importantes na minha formação paulatina.

 

Aluno aplicado

Eu ia mais à casa dele [Vlado] do que ele na minha casa. A casa dele tinha a porta, entrava por um corredor aberto, que ia até o fundo, até o quintal, e, abrindo para esse corredor, tinha a sala de jantar e os quartos. Uma casa bem simples, mas muito acolhedora no sentido de um recantozinho de estudo. Eu não cheguei a conhecer bem o pai dele, mas eu sei que o pai dele estimulava muito o estudo. Enquanto éramos colegas de classe, ele mais me ajudava do que eu a ele. Porque ele era um tremendo, não estudioso, um tremendo pesquisador. Tinha aula de inglês, por exemplo: ele não se limitava a cumprir a lição de inglês. Ele ia mais para o fundo, para ver as ramificações desse inglês. Ou seja: desde essa época ele já se mostrava um intelectual. Ele foi intelectual.

 

Em Londres

Eu fui para Londres, tinha um seminário lá, e me encontrei com o Vlado. Poxa, ele tinha crescido como pessoa! Ele já era um intelectual em formação. Não era mais o estudante curioso, não. Ele já tinha o caminho de um intelectual. Ele estava bem lá. As vezes em que eu vi o Vlado bem feliz; gostei de ver o Vlado lá.

 

25 de outubro de 1975

O Vlado não era um cara de se suicidar. Estava muito estranha a versão oficial. Até que se descobriu que houve tortura mesmo. O [José] Mindlin, que era o secretário da Cultura, teve um papel digno. Porque ele era secretário dos militares, mas ele quis averiguar até o final as circunstâncias da morte do Vlado. [Estive] no velório, e depois na igreja da Sé. [O ato ecumênico] foi uma maravilha! Eu acho que foi a maior reunião que a igreja da Sé teve. Ela cumpriu, a igreja da Sé, aquilo que a gente falava de local de reunião. Quer dizer: uma igreja é um local de reunião, qualquer que seja a religião das pessoas. A reunião foi um ato lindíssimo.

Foi uma coisa meio inacreditável. Como é que vai acontecer isso com o Vlado, pô? O Brasil atravessou fases tão penosas, como essa do assassinato do Vlado, que não podem ser esquecidas. Tem que ter livro, filme, de toda ordem, para discutir isso. E de mais algumas pessoas importantes que morreram. [A pauta dos direitos humanos] tem muita relevância. A gente não pode dar importância para o Vlado pela morte dele. Tem que dar importância pelo que ele fez e pelo que ele lutou, por aquilo que ele lutou. Acho que aí que está o valor grande do Vlado. O Instituto Vladimir Herzog tem que fazer, eu acho. Tem que fazer. Não pode ficar só “in memoriam” do falecimento. A morte dele, infelizmente, serviu para uma série de atitudes, principalmente dos jovens, que o Brasil tem que continuar tendo. O Vlado é um pedaço do Brasil.

 

Sonhos

Eu tinha alguns sonhos muito distantes. Por exemplo: que todos os brasileiros pudessem viver de uma forma boa, amigável, com o mínimo de requisitos de bom viver. E que o trânsito, o andar de todos nós, brasileiros, fosse um andar bem livre, bem aberto, usufruindo das atividades culturais que nós temos. Essas atividades, acho que em épocas anteriores foram mais intensas, mas não tem importância, vamos em frente com aquilo que a gente pode fazer. Às vezes essas questões são um pouco utópicas, mas a gente tem que ter uma certa vontade utópica para ir alcançando as coisas.

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