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História

Amigo de bonecos

História de: Remídio Costa Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Remídio faz uma breve reflexão sobre os caminhos que o levaram a trabalhar com teatro de bonecos. Trabalhador desde criança, participou de uma oficina com o mestre bonequeiro Elias Bonfim dos Santos e começou a participar do grupo Teatro de Bonecos Mamulengo da Bahia.

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História completa

Nasci e cresci em um bairro periférico muito pobre de Salvador. Minha mãe veio retirante do interior da Bahia, de um município chamado São Gonçalo dos Campos, a 20 quilômetros de Feira de Santana. Ela ganhou um dinheiro de uma vaca que ela vendeu e cansada daquela situação do interior, ela veio pra Salvador, invadindo um pequeno pedaço de terra e um resto de uma construção onde ali estava se construindo ainda o Iguatemi, hoje um dos maiores shoppings de Salvador. Ela me conta: “Quando você nasceu aqui chegou água e luz”.

 

Já quando eu nasci, meus pais já não moravam mais juntos. É bem comum em Salvador, e acho que na maioria do Brasil, os lares serem sempre administrados por mães e eu sou um desses casos. Minha mãe conseguiu suprir todas as necessidades, né? Me deu educação, também ajudei muito, trabalhei muito cedo, desde os sete anos que eu trabalho vendendo ovo de codorna, cafezinho, picolé, desembolei minha vida, se virando do jeito que podia e fui nesse caminho aí de trabalho, de luta e foi mais ou menos assim.

 

A minha infância foi muito legal, trabalhei muito de forma braçal, mas também me diverti muito! Em várias dessas diversões eu fazia teatro, fazia dança, fazia capoeira, e fazia teatro de bonecos: aos sete anos, chegou na Associação de Bairro um mestre chamado Elias Bonfim dos Santos com um trabalho de teatro de bonecos. Ele desenvolveu um trabalho de oficina com a garotada da comunidade durante um ano confeccionando bonecos, produzindo alguns materiais, discutindo algumas temáticas que ele gostava muito de discutir e abordar algumas temáticas relacionadas ao nosso cotidiano, a nossa história de vida, a nossa vivência. Ele gostava muito de estimular a gente a modificar o que a gente estava achando errado no nosso dia a dia.

 

Passei um ano trabalhando teatro de bonecos. Foi quando eu comecei, convidado por Elias, a trabalhar no teatro de bonecos de uma forma mais profissional! Ele me convidou pra fazer parte do grupo dele, o Teatro de Bonecos Mamulengo da Bahia, e nesse grupo é que eu vim me descobrir como ser humano, como gente, como pessoa em seu lugar. Pessoa em um lugar comum, pessoa no seu próprio espaço, no seu próprio habitat. E lá no Mamulengo eu tive a oportunidade de transitar por vários meios artísticos, tive acesso a muita gente de teatro, tive acesso a muita gente de música, tive acesso a muita gente de dança. E comecei a me perceber como ser humano, como indivíduo, como ser transformador de mim e do meio que eu vivia. Trabalhando com Elias durante três, quatro anos, dos nove até os 14, mais ou menos, foi quando eu comecei a dar aulas, aulas de teatro de bonecos. Comecei na minha própria comunidade: voltei pra minha comunidade.

 

Uma infinidade de amigos perderam as suas vidas para o tráfico de drogas, perderam as suas vidas de formas trágicas por não ter tido as oportunidades que eu tive. Eu penso sempre que a vida é feita de oportunidades, muitos dizem: “Ah, pau que nasce torto nunca se endireita!” Mas é mentira, porque ser humano não é pau, né, se o ser humano tiver uma oportunidade ele vai mudar, ele vai querer sempre o melhor pra sua vida. Ninguém gosta de sofrer, ninguém gosta de chorar, as pessoas gostam de sorrir, de ser feliz. Agora, o que falta é ter oportunidade pra isso, né?

 

Eu acharia muito interessante se todos tivessem um espaço para contar a sua vitória através do teatro de bonecos, através dessa magia, dessa ferramenta importantíssima de transmissão do saber que é boneco, que ele chama de entidade, ele acredita que o boneco é vivo e faz com que as pessoas que estão ao seu redor acreditem. O que não falta é força de vontade e coragem.

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