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História

Altamires Barbosa Maia de Sousa

História de: Altamires Barbosa Maia de Sousa
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Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Altamires Barbosa nasceu e se criou no Maranhão. Lá deixou a infância e as brincadeiras, a alegria de nadar no Itapecuru e foi viver uma vida de estudos – segundo grau em Belém, Administração em Manaus – e trabalho, sempre em bancos. Ingressou no Banco do Brasil e identificou-se plenamente com os projetos sociais abrigados na Fundação. Deles participou mais intensamente quando lotada no Núcleo de Governo da Superintendência do Banco. Nessa função pôde interagir com o BB-Educar, BB-Comunidade, Projeto Memória e outros. Tem registrados episódios curiosos, engraçados e emocionantes em todas as frentes sociais do Banco, gratificando-se com a ajuda e desenvolvimento que pôde levar às comunidades mais desassistidas.

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História completa

Eu sou Altamires Barbosa, uma maranhense de São José dos Matões. Tive a oportunidade de estudar, graças à visão diferente de minha mãe que, ao contrário da cultura dominante em sua época e em seu lugar, não queria para as filhas o casamento como objetivo de vida. De minha infância, posso dizer: foi um período gostoso. Eu caçava passarinho, nadava no rio, colhia mangas…

A minha família permaneceu no Maranhão por muito tempo, mas eu logo fui para Belém estudar. E depois, Manaus. Tinha um tio médico, de lá, que levou minha irmã mais velha, que foi levando os outros. Em Manaus, fiz o então segundo grau e depois a Faculdade de Administração. E, nesse meio tempo, ingressei no Banco do Brasil, essencialmente em busca de segurança. Desde criança, em Caxias do Maranhão – cidade onde me criei – eu tinha demonstrações de que o Banco do Brasil representava, principalmente para quem se tornava funcionário, ‘status’ e credibilidade. E lá dentro, eu pude perceber uma certa orientação para o social. E meu primeiro destino foi Manacapuru, uma cidade bem pequena do Amazonas, onde testemunhei o quanto o Banco estava atrelado à economia local, pelo crédito que concedia aos produtores da juta e da malva. Enfim, ao longo de 22 anos, eu pude acompanhar não só o importante apoio à agricultura, como a presença fundamental no desenvolvimento nacional, por parte do Banco do Brasil. Que, de forma eficiente, promoveu uma evolução tecnológica necessária, que alguns afirmam até um tanto tardia. O fato é que o perfil de seus funcionários contribuiu para que o Banco jamais deixasse de responder às demandas, mesmo antes desse formidável aporte tecnológico. Como técnica de informática, vivi um dos momentos mais promissores da minha carreira, e, ao mesmo tempo, um período de intenso aprendizado. E aí, quando fui trabalhar na Superintendência, ouvi falar, pela primeira vez, em Fundação Banco do Brasil. E é curioso observar que o meu primeiro contato com o BB-Educar, o principal programa social abrigado pela Fundação, não me colocou em ligação direta com a mesma. Foi um evento relacionado ao programa, por cuja participação eu, inclusive, recebi um certificado. Mas, quando eu fui lotada no denominado Núcleo de Governo, aí sim, posso dizer, eu despertei para a carreira de bancária no que ela teve de relevante e emocionante. Ou seja, colocar meu trabalho a serviço dos projetos sociais do Banco: BB-Educar, depois BB-Comunidade, ‘Criança e Vida’, Projeto Memória… Lembro de que, naquele momento, havia cerca de 500 alunos no BB-Educar, no Amazonas. E esse número saltou para mais de três mil quando o deixei. A Fundação tinha o programa todo estruturado e cabia a nós, da Superintendência, implementar, selecionar e dar suporte para os gerentes e parceiros. E o BB-Comunidade pode ser considerado, ainda hoje, o instrumento para trabalhar com a comunidade e, de certa forma, legitimar o Banco junto à mesma. Do ‘Criança e Vida’, o mais marcante foi a parceria com o Hospital do Câncer. Um trabalho, por sua natureza, emocionante. E, por fim, o Projeto Memória, já em sua fase de retrospectivas e, como destaque, a exposição Paulo Freire. 

Porque a memória permite a gente ligar o fim ao começo, não é?

Um dos melhores momentos foi, sem dúvida, perceber a satisfação dos alunos ao tomarem contato com pessoas da História que, em outros tempos, já pensavam problemas contemporâneos. É o caso de Josué de Castro em relação ao drama da fome no Brasil. E outro momento foi dar a conhecer o caráter visionário de JK, por exemplo. Mas existe uma outra iniciativa, que é o Banco de Tecnologia Social. Ou seja, tecnologia empregada para e pela comunidade, disponibilizada pelo Banco, com aplicações na alimentação, na madeira e na borracha. 

Enfim, eu sou bastante grata por ter tido uma trajetória profissional que me permitiu contribuir e participar diretamente dos projetos da Fundação, que levaram oportunidades e melhorias às comunidades onde o Banco se instalou. Finalizaria dizendo que esta foi uma dádiva por mim recebida e um fator de identificação com o Banco e seus propósitos extra comerciais. E quanto aos projetos de cunho social a que me referi, posso afirmar que:

… através deles eu aprendi a lidar com o outro, a aprender com a simplicidade do outro, a me reconhecer no outro.


P/1 – Altamires, boa tarde. Obrigada por ter vindo aqui até Brasília para poder dar essa entrevista. Então vamos começar com você falando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Bem, eu sou Altamires Barbosa Maia de Sousa. Nasci em São José dos Matões, Maranhão.

 

 P/1 – E os nomes dos seus pais?

 

R – Meu pai chamava-se Otaviano Joaquim Barbosa e minha mãe, Maria Gomes Barbosa.

 

P/1 – E qual que era a atividade do seu pai?

 

R – Ah, meu pai era artesão. Tinha várias atividades, mas a que realmente ficou no meu imaginário infantil, como referência, foi o artesanato. Ele trabalhava com couros.

 

P/1 – É?

 

R – Hum-hum.

 

P/1 – E o que você lembra dele trabalhar? A oficina dele era em casa, você tinha contato com o trabalho dele, como é que era?

 

R – É... Nossa... Papai, ele foi assim... Ele fez várias coisas, não é? Era uma pessoa extremamente inteligente. Para mim, é um referencial em termos de capacidade de se renovar, e de aprender, e de empreender. Papai só teve o terceiro ano primário.  E eu o conheci fazendo selas para animais, não é? Entendo o papai na oficina dele fazendo isso, junto com o pai dele também. Depois, papai se tornou comerciante. E uma coisa que eu acho lindo lembrar. Uma vez papai desistiu; resolveu, decidiu, mudar de ramo. E aí já éramos todos quase adolescentes e tudo o mais, e o papai comprou um livro que ensinava a fazer sabão, não é? E montou uma indústria de sabão. Com esse terceiro ano primário foi assim, a indústria de sabão que, praticamente, dominou o mercado naquela época, no Maranhão, não é? Aliás, de Caxias do Maranhão. E ele fazia muito bem. E uma coisa assim: foi autodidata nesse sentido. Depois voltou para o comércio novamente e no comércio ele ficou até quando ele, realmente, foi acometido. Teve um derrame, fez o AVC. E mesmo nos momentos dele, de... [pausa]. Quando ele estava adoe... Quando ele teve esse AVC, e nos momentos assim, de agonia, sempre ele dizia : “Deus, por favor, me ajuda a não perder a minha capacidade de trabalho”. Essa sempre foi a vontade dele, sempre foi a oração dele: voltar a trabalhar.

 

P/1 – E a sua mãe Altamires, ela...

 

R – Ah, a minha mãe é uma grande mulher também, sabe? Eu acho que se um dia, quando eu puder crescer, eu quero ser igual a ela [risos]. Foi uma mulher assim... que teve 15 filhos, morreram seis, ficaram nove. Naquela cultura do Maranhão, e principalmente onde as mulheres, pelo menos na nossa família, as mulheres eram, tipo assim, o horizonte era casar, ter filhos. Então, toda educação era mais ou menos orientada nesse sentido. Minha mãe não quis isso para a gente. Então, ela tomou para si a tarefa de educar e de custear os nossos estudos. Tudo o que nós somos hoje, na nossa família... E a minha família, tipo assim, é uma família de mulheres bem valentes... A gente deve à mamãe. Eu acho que essa valentia da mamãe passou para a gente, entende?

 

P/1 – São nove irmãos, qual é a sua colocação dentre eles?

 

R – Ah, olha, eu devo ser a quinta mais ou menos, porque vários deles morreram logo nos primeiros meses, não é? Morava no Nordeste e, não muito diferente de hoje, mas bem pior do que hoje, não é? Se morria muito por diarreia, essas coisas todas, essas mazelas inerentes à desassistência do Nordeste, na época. E eu devo ser a do meio. Mais ou menos. Não, a quinta, mais ou menos.

 

P/1 – E as brincadeiras de infância? Do que você se recorda? Vocês foram criados nessa cidade mesmo, não é?

 

R – Em Caxias do Maranhão.

 

P/1 – Do que você se recorda da sua infância, nessa cidade?

 

R – Gostosa [risos]. Foi uma infância gostosa. Eu fui uma menina bem atípica. O meu companheiro de brincadeiras era meu irmão. Então assim... Era tudo o que meu irmão fazia. Era [risos]... Que o IBAMA [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] não saiba... Era balar passarinho na época. [risos] Na época, me lembro [risos]. Colher mangas, assim... Que mais…? Fazer jiraus para pegar pássaros: arapucas que nós chamávamos, na época. Então, foi muito assim, um convívio com meu irmão, tá? Tudo aquilo que ele fazia, a gente fazia. Fazia baladeiras, enfim, essas coisas assim. Tomava banho de rio. Até hoje eu sonho. É engraçado, até hoje eu sonho; os meus sonhos são com os rios da minha terra, não é? Aliás, com o único rio que tem [risos], que é o Itapecuru. Não faz... Não vai longe. Essa semana eu sonhei com o rio Itapecuru.

 

P/1 – Mas vocês passam... Você depois se muda de lá, com a família.

 

R – É. Depois nós viemos para... Não... A minha família ficou ainda no Maranhão durante muito tempo. Eu fui para Belém estudar e depois fui para Manaus. E a minha irmã já estava em Manaus. Que o meu tio havia trazido, não é? O meu tio era médico. Médico, e havia trazido a minha irmã. Isso em 1975. Não, mil novecentos e setenta e... Não, sessenta e poucos. Minha irmã chegou em Ma... Em... “Ixi”, gente. Titio chegou em 1964 em Manaus. Logo depois, mandou buscar minha irmã, em mil novecentos e setenta e... Não foi [pausa] [risos]. Foi 1966. Ela é da primeira turma de Medicina da Faculdade do Amazonas. Então foi 1966, por aí assim, ele mandou buscar. E aí, minha irmã também foi... Mandando buscar todos os outros irmãos, não é? E a gente veio a Manaus. Era um momento de mudança. Era um momento assim. A dinâmica da economia muito boa, o mercado muito bom, ou seja, estava começando ali o... A época da Zona Franca de Manaus. Então, um mundo de perspectiva para quem vive no Nordeste e quase não tem. Por isso, a gente veio. 

 

P/2 – E a escola? Como foi lá? Estudar em Manaus?

 

R – Em Manaus? Bem, quando eu vim para Manaus, veja bem: eu saí do Maranhão e fui para Belém. Passei cinco anos, fiz... Já saí do Maranhão, de Caxias do Maranhão, já tinha o... Estava na sétima série do Fundamental, o que a gente chama hoje de Fundamental. Depois, fiz o segundo grau, em Manaus. E aí, Faculdade. Em Manaus, eu estou desde setenta e... seis. E o restante, toda minha vida, praticamente assim, foi em Manaus.

 

P/1 – E alguma coisa influenciou a escolha do curso? Por que você foi fazer Administração?

 

R – [risos]. Na realidade... Ah... Engraçado. Eu comecei fazendo Letras, não é? Só que estava casada, tinha dois filhos e, de repente, eu sempre pensava... Estava passando por um momento difícil, e tal... Ficava pensando: bem, não vai dar para me sustentar neste país ganhando um salário de professora. Então, resolvi fazer Administração. Até porque eu já estava no Banco do Brasil e eu digo: isso vai ser um aporte na minha carreira. Foi essa a razão, não é? A decisão. [risos]

 

P/2 – Ah, então você escolheu Administração depois que você entrou no Banco do Brasil?

 

R – Foi...

 

P/2 – Então, e essa experiência profissional anterior ao Banco, conta um pouquinho para a gente.

 

R – Olha, eu já trabalhava em bancos antes. Praticamente a minha vida foi em bancos, não é? E... [pausa] Não foi... [suspiro] Como eu diria... Quando se pensava... Quando você vem de uma cidade pequena, quando você é de família pobre, a única coisa que você sonha, realmente, é com uma segurança. É ter um emprego que lhe dê segurança. E essa foi, tipo assim, foi a motivação maior. Isso, bancos de um modo geral. Eles, além de ser, na época em que... Em 1974, 1975… Estava numa época assim, de bastante efervescência e recrutando bastante pessoas, o mercado de trabalho muito bom. Também, assim, era a questão da segurança. E o Banco do Brasil, então, além de ser uma praga de mãe na minha vida [risos]... Eu estou brincando, falando isso, porque tem um episódio muito interessante, não é? Minha irmã até hoje lembra que quando eu era pequenininha... Uma vez, eu... Minha mãe pediu que ela fizesse alguma coisa para mim e ela não queria fazer. Aí ela dizia: “Faz, maninha, que quando eu for grande eu vou trabalhar no Banco do Brasil e vou te dar muuuuito presente, viu?”. [risos] E isso, eu era criança, não é? E aconteceu, realmente. Pois bem. O Banco do Brasil, para mim, foi um sonho de criança, sabe? Eu me lembro que eu tinha mais ou menos uns oito anos, na minha terra, e morava na rua Senador Clodomiro (?) Cardoso, em Caxias. E passava, na rua da minha cidade lá, na minha rua, um rapaz chamado Antônio Gonçalves. Um rapaz muito elegante, e tal. E toda vez que ele passava, com um guarda-chuva, não é? Vestido sempre de linho. Eu perguntava para minha mãe: “Quem é?” Lembro-me de ter perguntado várias vezes: “Quem é?” E ela dizia: “É o Antônio Gonçalves, ele trabalha no Banco do Brasil”. Sabe? E aquilo, para mim, era uma coisa assim... Muito importante, sabe? A maneira como minha mãe falava, passava assim essa questão da importância e tudo o mais. E eu sempre sonhei ser funcionária do Banco do Brasil. 

 

P/1 – Mas você teve uma experiência anterior com um banco privado, que foi o Bradesco, não é?

 

R – Ah, trabalhei... O Bradesco foi a minha escola. Só foram seis meses, não é? Porque, logo em seguida, eu voltei para Manaus. Mas foi assim, não teve grandes realizações, eu fui caixa do Bradesco. Toda a lembrança que eu tenho é de uma fila enorrrrrme, você está entendendo? [risos]. E de muito estresse. Realmente. Ali, realmente, eu aprendi o significado do que é ser bancário numa instituição privada.

 

P/1 – Era muito diferente nessa época?

 

R – É muito diferente porque é voltado, realmente, para o mercado. É [pausa]. Bem diferente de quando... Do que a gente vê no Banco do Brasil que, de qualquer forma, ainda se percebe a orientação para o social... Se tem um - vamos dizer assim - um referencial de aporte no desenvolvimento do país. Se tem essa - como eu diria assim - esse conceito ainda permeia as atividades do Banco do Brasil. Embora hoje nós já tenhamos assim... Esteja muito mais orientado para o mercado, para a concorrência... Para um banco como a gente chama normalmente, um banco comercial.

 

P/1 – Entendo...

 

R – Hum-hum.

 

P/2 – Bom, então, você falou que, desde criança, já tinha essa percepção, não é? Do Banco do Brasil... Que era uma coisa que diferenciava, não é? Como surgiu a oportunidade de fazer o concurso Banco do Brasil? Você já perseguia quando você trabalhava lá no banco privado ou foi o... O acaso?

 

R – Não... Eu entrei no BEA, não é? E sempre eu pensava assim, quando eu entrei no BEA, que era o banco do estado: “Bem, eu quero ser funcionária do Banco do Brasil”. Tive várias oportunidades no banco, mas eu sempre pensava: “Não, vou fazer carreira no Banco do Brasil”. E aí me orientei no sentido de fazer concurso para o Banco do Brasil, entende? Eu fiz dois concursos e, no segundo, eu fui aprovada.

 

P/1 – E  isso em que ano?

 

R – Isso em mil... Devo ter sido aprovada em 1981... 1982. Porque eu entrei no banco em 1984. E estava com dois anos já esperando.

 

P/1 – Finalmente chegou, não é? 

 

R – Com certeza.

 

P/1 - E aí, como é que foi essa expectativa?

 

R – Olha, foi uma mudança imensa. Realmente, vindo de um banco privado para o Banco do Brasil, é... Eu senti... A cultura do Banco é totalmente diferente, ou seja, eu tive que desaprender muita coisa, não é? Que a gente havia adquirido, em termos de educação bancária, no Bradesco. E fui trabalhar em Manacapuru, uma cidade bem pequena. Nessa época, nós estávamos voltados para... O Banco estava muito voltado, orientado, para a recuperação de crédito, não é? Referente aos empréstimos da juta, da malva, e tal... Então assim... Naquela cidade, a gente conseguia perceber a importância do Banco do Brasil na vida das comunidades, especificamente na do micro produtor. Então, a gente conseguia perceber. E, para mim, isso foi sempre muito importante porque eu via no Banco não só aquela questão de orientação para o mercado, mas o aporte que o banco sempre falou ser o papel e a missão dele, que é o desenvolvimento nacional. Lembro-me de que, nessa época, existiam outros bancos, por exemplo, lá em Manacapuru. Mas quem investia na Agricultura, quem investia na juta e na malva, era o Banco do Brasil.

 

P/2 – O que é juta e malva?

 

R -  Juta é uma fibra que, tipo assim, se usa para fazer... A estoparia, não é? Faz sacarias... Isso aí.

 

P/1 – E malva é aquela erva aromática, não é?

 

R – É, são plantas que você tira as fibras para fazer sacaria.

 

P/1 – Altamires, você acompanhou uma evolução tecnológica do Banco do Brasil, não é?

 

R – Ah, com certeza...

 

P/1 – Como é que era no início?

 

R – [risos]. Pois é, quando eu cheguei em Manacapuru, nós ainda não tínhamos o computador. Era a velha máquina de datilografia mesmo, não é? Nossa, era tudo muito empírico, sabe? [risos] Aquelas pilhas imensassss... O Banco sempre apinhado de gente... E ali, o perfil do funcionário do Banco do Brasil se fazia realmente notar. O Banco é um dos maiores bancos de capacidade, assim, em termos de pessoas, eu penso. Eu percebo dessa forma. E tanto é que, mesmo em alguns momentos, nós estivemos em desvantagem, por exemplo, com a concorrência, que já estava automatizada. O nosso processo de automatização veio muito depois. Mas mesmo assim, nós conseguimos, vamos dizer assim, responder às situações emergentes...

 

[BARULHO DE CELULAR TOCANDO]

 

P/1 – Continuando...

 

R – Pois é, mesmo, nós estivemos durante um bom tempo em desvantagem com relação à concorrência, mas mesmo nesse momento, a gente percebia... Nós sempre percebemos que o funcionário do banco sempre conseguiu responder aos desafios porque conseguimos prestar os nossos serviços com qualidade e tudo o mais. Muito embora não tivéssemos os mesmos aparatos tecnológicos. E agora então, depois disso aí, você pode ver o resultado do Banco. Esse semestre, por exemplo, é uma ratificação do que a gente vê, tanto de capacidade de recursos humanos, de capital intelectual, como também de aporte tecnológico.

 

P/1 – Você depois sai da agência e vai trabalhar no CESER?

 

P/1 – CESEC[Centro de Processamento de Serviços e Comunicações].

 

R – Exato, no CESEC .

 

P/1 – CESEC, desculpe. Na área de informática?

 

R – Hum-hum

 

P/1 – Como é que estava nessa altura? [risos]

 

R – Pois é, eu comecei, na realidade, trabalhando no CECON. Um serviço de conferência que nós tínhamos, que era um... Para mim era um horror aquilo ali...

 

P/2 – Por quê?

 

R - Porque era conferir relatório, mas... Eu passava também, nesse momento, um momento bem difícil na família, não é? Os filhos pequenos, exigindo muita presença minha, e tudo o mais... Tinha um filho que, realmente, precisava de cuidados especiais, então, eu não poderia, naquele momento, investir na minha carreira no Banco. Então, o lugar ideal para quem precisava de um tempo para si era o CESEC, mas o preço disso daí era terrível, porque você passava seis horas conferindo relatório, tá? Então pode imaginar que suplício não foi isso aí. Quando eu fui para a área de informática foi muito bom, foi um desafio, foi um aprendizado. E foi desafio até porque eu tinha... Estava começando a questão da informática no Banco e para mim aquilo era muito novo, era algo até que me metia... Como é que se diz, um certo medo, e tal. Não, mas eu quero conhecer isso aí. E aí eu fui, trabalhei como técnica de informática no Banco. Trabalhava junto com os aplicativos, dávamos tipo uma consultoria para os clientes sobre os nossos aplicativos. Foi um momento muito bom, de muito aprendizado. Nessa época, quando estava só conferindo relatório não, foi horrível [risos].

 

P/2 – Ninguém foge, não é?

 

R – De jeito nenhum.

  

P/1– Altamires, nessa sua trajetória no Banco, em algum momento você ouviu falar na Fundação Banco do Brasil?

 

R – [pausa] Olha... [pausa] Não. Eu vim... Eu ouvi falar na Fundação Banco do Brasil exatamente quando eu fui trabalhar na Superintendência. Eu não sabia nem que existia Fundação Banco do Brasil. E, nesse momento, quando eu entrei... Fui para a Superintendência, eu fui trabalhar como assessora do Superintendente, e aí trabalhava, também, com o Núcleo de Comunicação do Banco. Foi nesse momento que eu descobri a Fundação Banco do Brasil. 

 

P/2 -  Altamires, só para a gente entender: o que significa a Superintendência? Na estrutura do Banco?

 

R – A Superintendência é um nível tático. É onde, por exemplo, todas as diretrizes são definidas para o conglomerado “Banco do Brasil”. Depois, são distribuídas para as regionais pela Superintendência, que repassa para as.... As demais unidades. Entendeu? É o nível tático do Banco.

 

P/1 – Bom, e na Superintendência o que chegou lá da Fundação Banco do Brasil e que você teve contato?

 

R – Veja bem. Logo que eu fui para o Núcleo de Comunicação, lá já comecei a ouvir falar de... De BB-Educar, tá? A primeira vez que eu ouvi falar do BB-Educar não foi vinculado à Fundação Banco do Brasil. Lembro-me de que fui solicitada a fazer um evento, ajudar no evento do BB-Educar e, realmente, eu estive lá, tivemos uma certificação do BB-Educar e tudo o mais. Mas, nesse evento, eu não ouvi falar da Fundação Banco do Brasil. Tudo bem. Isso, antes de ir para a Superintendência. Depois eu fui para a Superintendência, justamente no Núcleo de Comunicação é que nós começamos a interagir. Mas isso quem fazia mais, inclusive, era o analista que cuidava da comunicação, o “seu” Jairo Marinho. Depois é que eu fui para o Núcleo de Governo propriamente dito. Aí é que foram repassadas, para mim, as atribuições de cuidar dos programas da Fundação Banco do Brasil. E foi nesse exato momento que eu tomei conhecimento mesmo, que eu tive que buscar informação, tive que estudar os programas e trabalhar com os programas da Fundação.

 

P/1 – E como é que foi se apropriar desse conteúdo assim, de cara?

 

R – Olha, eu considero assim, que foi a... Porque, realmente, hoje, fazendo uma leitura de toda a minha trajetória em bancos... Eu, realmente, não tenho perfil... Assim... Não sou bancária por orientação mesmo. Eu estava no Banco, como muitos outros bancários, pela questão do trabalho. Por ser uma empresa de respeitabilidade, de você ter segurança e ter um ambiente ótimo de trabalho. Enfim... É o sonho de todo mundo. Na minha época, era o sonho de todo mundo fazer um concurso para o Banco do Brasil e passar. Lembro-me de que, no dia em que eu passei para o Banco do Brasil, meu tio chegou, deu-me os parabéns e disse: “Minha filha, você arranjou um casamento para o resto da vida”. [risos] “Sabe... Porque só existem duas instituições de respeito neste país: a Universidade e o Banco do Brasil” [risos]. Pois bem, então era isso aí. E eu posso dizer, assim, que não houve muita emoção na minha vida enquanto bancária, até conhecer os programas da Fundação Banco do Brasil. Aí, sim, a minha vida no Banco do Brasil, como bancária, foi ressignificada, porque ali eu me encontrei. E eu tinha ido trabalhar nesse Núcleo de Governo e, de repente, tinha BB-Educar, tinha BB-Comunidade. Depois veio o “Projeto Memória” e... O que mais?... Tivemos “Criança e Vida”, que era um programa das crianças com câncer, e tudo o mais. Então, ali, a minha vida foi ressignificada em termos de Banco do Brasil. Sabe, eu acredito que foi o presente que Deus me deu, foram esses cinco anos que eu passei no Banco trabalhando com os programas da Fundação Banco do Brasil.

 

P/2 –E assim... Como você acompanhou? Desses que você nos diz…?

 

R – Olha, todos eles... Eu trabalhei com o BB-Educar...

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho sobre cada um, então?

 

R – Tá... O BB-Educar, por exemplo. Quando ele veio para as minhas mãos, nós não tínhamos 500 pessoas - 500 alunos em sala de aula. Quando eu saí, mais ou menos, nós tínhamos... Nós chegamos a ter três mil e poucas pessoas em sala de aula.

 

P/1 – Isso no Estado do Amazonas?

 

R – Isso no Estado do Amazonas, só no estado do Amazonas. No momento em que eu peguei esse... Os programas da Fundação, a primeira coisa: “O que eu vou fazer com isso aqui?” Aí eu fui para casa e pensei: “Vou fazer um projeto-piloto e, com ele, por exemplo, trabalhando com o BB-Educar, tentar resgatar as comunidades de bairro. E aí, a gente partiu. Desenhei um projeto e esse projeto foi, realmente, desenhado só, comigo mesmo, na minha cabeça assim, e tal. Porque, na realidade, a verdade é que, dentro da Superintendência do Amazonas, a Fundação Banco do Brasil, esses projetos, eles não eram... Bem... Vamos dizer assim... Dado tanta importância. Essa é que é a realidade. Então, foi mais uma iniciativa minha, nesse sentido, assim, de querer dar uma conotação, de fazer alguma coisa com essa oportunidade. E aí eu tive que traçar as minhas diretrizes. Lógico que eu tive muito apoio dentro da Superintendência, para trabalhar com esse projeto. Cheguei a ficar, praticamente, por conta desses projetos, entendeu? Mas, tipo assim, foi muita coisa iniciativa minha, mesmo... Assim...

 

P/1 – Só para poder entender: Você tinha de pegar e implantar esses projetos no Amazonas?

 

R – Não, olha. A Fundação Banco do Brasil, ela tem os programas todos estruturados. O que você tem, realmente, é que implementar. É ver os parceiros, selecionar os parceiros. E dar o suporte. Isso, de acordo como o projeto esteja estruturado. Mas, na realidade, se você quer ver um projeto desses se realizar, você tem que arregaçar as mangas, ir lá fazer. Não basta, por exemplo, você arrumar um parceiro: você tem que estar lá com o parceiro, você tem que orientar, entendeu? Você tem que se envolver. Por exemplo, teve momentos no projeto BB-Educar que eu tive, praticamente, que coordenar junto com os coordenadores, num momento crítico, num projeto que a gente fazia. Mas, graças a Deus, conseguimos os objetivos, não é? Formar aquela turma, por exemplo, da... Esse caso específico era uma comunidade de bairro, em que nós tínhamos quase 500 alunos. E aí, chegou num dado momento, houve uma briga na Associação e começaram a se dispersar as cabeças pensantes do projeto na Associação. E aí entra a gente: se você quer, realmente, assegurar o retorno social, o respeito que você tem pelos alunos, você tem que tomar para si o projeto e estar junto, fazer as coisas acontecerem. Então, foi mais ou menos assim que eu trabalhei com o projeto BB-Educar. Vamos dizer assim... Um momento importante do BB-Educar é que, no Amazonas, por exemplo, nós temos um lugar que se chama Tapauá, é o pior índice de desenvolvimento humano do Amazonas. E quando, por exemplo, foi constatada... A primeira vez que foi registrada essa situação crítica de Educação, em Tapauá, nós já estávamos lá com o BB-Educar. Isso, para mim, foi extremamente gratificante. E nós implementávamos... Em algumas comunidades. Por exemplo, em Eirunepé, fizemos uma certificação de quase 700 pessoas. Em Tabatinga, tivemos tribos indígenas também sendo alfabetizadas. Então, teve projetos belíssimos com o BB-Educar no Amazonas.

 

P/1 – Depois vem o BB-Comunidade...

 

R – Ah, o BB-Comunidade... Quando peguei o BB-Comunidade, quando nós começamos, nós tínhamos, por exemplo, três projetos no programa; quando saímos, estávamos com nove projetos. Então, era aquela questão de sensibilizar o gerente; de fazer ele perceber o instrumento, a ferramenta que eles têm em mãos para poder trabalhar com a comunidade. E até legitimar o Banco dentro da comunidade, porque isso é muito importante. Porque a missão da gente é essa, não é? Cuidar do desenvolvimento do país, de estar junto... Então, trabalhar muito com o gerente nesse sentido. De conscientizá-lo quanto a isso. Porque é muito difícil, até para eles, dar conta das atribuições de gerente e ainda pensar no social. Então, a gente dava esse suporte enquanto Superintendência.

 

P/2- Altamires, só para a gente ter uma ideia. No Amazonas, quantas ABBs existem?

 

R – Só existem... Bem, nós temos... Temos Tefé, que tem um projeto belíssimo. Temos Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Parintins... Lá em Parintins, nós temos a Escolinha do Boi Garantido, que é parceira também do Projeto BB-Comunidade. Aliás, a Escolinha do Caprichoso, não é? E... Manicoré, também. Mas o fato é que, nas jurisdições de Amazonas, Acre e Roraima, nós chegamos a ter, liberados pela Fundação Banco do Brasil, nove projetos. 

 

P/1 – Depois, o que vem em seguida é o “Criança e Vida”?

 

R – Não, o “Criança e Vida” foi um pouquinho antes. Nós fizemos uma parceria com o Hospital do Câncer, a Fundação Cecon, lá no Amazonas. Veja bem, Amazonas, a situação da gente é muito crítica porque nós somos ilhados, não é? E é reconhecido que o Amazonas tem dimensões continentais. Então, você imagina o que é estar lá e precisar fazer um tratamento... Se deslocar para fazer um tratamento. Pois bem, lá nós temos a Fundação Cecon, que está se tornando referência em câncer infantil no Amazonas. E nós fizemos parceria com a Fundação Cecon para a gente equipar uma ala do Câncer Infantil. Infelizmente, [pausa] isso não chegou a se realizar. Isso é uma das coisas que eu fico muito triste, sabe? É uma das dívidas que eu acho que... Sei lá... [suspiro] Porque a gente... O crédito foi liberado mas, logo em seguida, o hospital entrou em reforma. Ou seja, o programa foi concluído e terminou assim, não sendo possível equipar essa ala. Essa enfermaria para as crianças portadoras de câncer. Infelizmente, houve esse acidente de percurso. Mas houve aproveitamento de recursos. Porém, não dentro daquela proposta que se tinha em mente, ok?

 

P/1 – O projeto “Homem do Campo”... Você chegou a ter contato?

 

R – Não, não cheguei a trabalhar com o “Homem do Campo”.

 

P/1 – Ele foi posterior, não é?

 

R – Hum-hum.

 

P/1 – Aí veio o “Memória”, não é?

 

R – É, veio o “Projeto Memória”. Esse foi um projeto que... Nossa [risos]. Tem tudo a ver, sabe? Foi um projeto sobre o qual a gente se debruçou e que trouxe bastante crédito, sabe? Em termos de retorno social... Projeto Memória [pausa].

 

P/1 – Você acompanhou desde o primeiro?

 

R – Não, eu não acompanhei desde o primeiro. Quando eu peguei o “Projeto Memória”, ele já estava naquela edição que se sintetizava, não é?

 

P/1 – Ah, tá... A Retrospectiva?

 

R – A Retrospectiva.

 

P/2 – Em 2000...

 

P/1 – 2000...

 

R – Em 2001. Eu trabalhei desde a Retrospectiva até Paulo Freire.

 

P/2 – E o que você traz de experiência do “Projeto Memória”? Assim... Você chegou a acompanhar as exposições... 

 

R – Ahhhh, com certeza...

 

P/1 - A distribuição dos materiais...

 

R – Tudo. Até a montar a exposição, ensinar a montar a exposição, a gente fazia, não é? O Projeto Memória, para mim, tem um significado imenso. Primeiro que, num primeiro momento, quando ele chegou, ele funcionava dentro do Banco. A proposta era colocá-lo nas áreas do Banco, de atendimento, essas coisas todas. Depois, na Superintendência. Refletimos sobre a questão do público-alvo, por excelência, desse projeto. E aí se fez no Núcleo de Governo uma parceria com o Governo do Estado... O Governo do Município, e aí ele passou a ser itinerante na rede pública estadual e municipal. Todo ano, o Projeto Memória, quando chegava, já se sabia: Uma exposição ia para o município e outra ia para o Estado. Independente disso, tinha bastante demanda pelas universidades, por outras associações, lojas maçônicas, enfim... Até a loja maçônica Juscelino Kubitschek [risos] disputava a exposição. Foi um momento assim que eu achei excelente porque... Veja bem, quando a gente começou com o “Projeto Memória”... Primeiro ele me impactou de diversas formas. Eu havia lido alguma coisa sobre as questões dos movimentos funks, não é? As agressividades que se constatava nesses bailes funks e tudo o mais. E me lembro de que eu li algumas afirmações de um sociólogo, que dizia que isso aí era uma resposta para um país sem modelo. Que era um pedido de socorro. E isso me impactou muito, não é? E daí eu vi quando esse projeto chegou... Puxa, é isso aqui. Houve, em alguma época, neste país, pessoas que já se incomodaram bastante com este país, pessoas que já tentaram, se doaram de alguma forma... Políticos que ainda se pode ter como referencial neste país. E eu acho que os jovens precisam conhecer, principalmente nesse momento em que a gente vive uma crise de valores imensa. A Igreja, praticamente, já não cumpre mais a sua função de agregação social... A família também está falida... A Educação... A crise está aí. Então, puxa vida, nesse momento, eu acho que a gente pode fazer muito com esse projeto. E aí... Foi toda... Isso daí, vamos dizer assim, foi a mola propulsora para todo o trabalho, toda a orientação que a gente teve dentro do Projeto Memória [pausa]. Ali eu vi, realmente, como a gente precisa ter memória neste país. [pausa] Porque a memória permite a gente ligar o fim ao começo, não é? E reescrever a história da gente. Cada depoimento que a gente vê daqueles jovens, o que eles faziam... A gente trabalhava com as professoras, pedia que fosse objeto de redação, de peças, enfim... Que não fosse só uma exposição, mas que fosse feito todo um trabalho nesse sentido. E depois esses relatórios vinham para a gente. E aí a gente via o quanto aquilo impactava, o quanto aquilo significava - a História do Brasil para eles, não é? [pausa]. E é como se o Projeto Memória funcionasse assim como... [pausa] Em alguns momentos... Justiça para aqueles que trabalhavam, como o Josué, não é? E que estava... Simplesmente era desconhecido neste país, uma pessoa que pensou a fome, falou a fome... Lutou por isso... Muito, muito tempo aí... E, praticamente, não se sabia nada de Josué. Isso foi uma descoberta para a gente. Foi uma descoberta. Inclusive, teve momentos em que a gente observou nos alunos a perplexidade de saber que isso não era uma coisa de agora, do Programa Fome Zero, porque ele saiu dentro do contexto do Programa Fome Zero, de que, há algum tempo atrás, alguém já havia se incomodado com isso. Foi muito gratificante ver isso nos jovens. Há outra questão também, outro momento muito bonito, que foi o momento do Juscelino Kubitschek. Aquela exposição foi uma das maiores visitações que já houve no Amazonas. E o perfil do Juscelino, aquele homem visionário, aquele homem determinado, impactou muito os jovens. Os depoimentos que a gente ouvia, não é? [pausa]. Bem, enfim, se resgata, com isso, toda uma parte praticamente perdida que a gente tinha da História do Brasil. Com isso, um símbolo de um político que... Não se pode pensar nele como um ser humano perfeito mas que, pelo menos, quando se envolve, em termos de História retrógrada, você vê que se tem um bom referencial de político. Isso é muito bom para os jovens, principalmente na atual conjuntura.

 

P/1 –Alguma coisa, experiência dessas exposições, dessas coisas que você se recorda, que você queira registrar? Alguma pessoa?

 

P/2 – Ou algum momento também...

 

R – Da exposição?

 

P/1 – É... Das exposições itinerantes do “Projeto Memória”, não é?

 

[FIM DA PRIMEIRA FAIXA DO CD]

 

P/1 – Continuando... Você ia contar uma experiência com o “Projeto Memória”...

 

R – Olha, muitas foram as experiências, mas tem uma que eu... Que eu guardo assim com muito carinho. Porque uma vez, nós estávamos fazendo... Quando da exposição do Juscelino Kubitschek, eu falava com um grupo de alunos de uma escola bem pobre, de um bairro bem pobre, lá da Zona Leste. E um deles... E falava que o Juscelino andava muitas vezes a pé, quilômetros a pé, para estudar e tal, e falava um pouquinho do sacrifício dele. E um garoto falou para mim... Olhou para mim e disse: “E ele foi médico, não é?”. Eu digo: “Foi; ele conseguiu. Ele foi médico e depois deputado, e depois Presidente do Brasil.” E ele falou: “Eu também posso”. [suspiro]. E isso é uma coisa que, realmente, eu acho que... Sabe? Me marcou muito no Projeto Memória. É lógico que dentro desse programa da Fundação Banco do Brasil tem muitas coisas boas. Tem uma, por exemplo, do BB-Educar. Nós fomos fazer uma certificação e lá uma senhora chegou... Isso foi lá em Itacoatiara, não é? Ela pediu a palavra. E, muito emocionada, ela chegou para a gente e disse: “Olha, eu quero aqui agradecer ao Prefeito, eu quero agradecer aqui ao Secretário, porque me deu essa oportunidade maravilhosa... E, também, para o pessoal do Banco do Brasil. Porque... Você sabe de uma coisa? Durante a minha vida todinha, eu morria de vergonha, que toda vez que eu vinha receber o meu pagamento eu tinha que pôr o meu dedão numa almofadinha. Agora o meu dedo numa almofadinha nunnnncaaaa mais, viu!” [risos]. E você precisava ver o orgulho que ela tinha ao falar isso, sabe? Isso é uma coisa muita bonita. A gente ver isso numa pessoa quase de 60 anos, o que é uma vida todinha pondo o dedo numa almofadinha... O quanto de vergonha... O quanto de sentimento, não é? Guardado aí... Enfim, o resgate... Não é? Isso é...Vale a pena lembrar dessas coisas.

 

P/2 – Então, Altamires, eu estou imaginando assim o papel das agências, não é? Nesses projetos. Porque você estava lá na Super... 

 

R – Hum-hum

 

P/2 –Qual o papel daquele funcionário que estava lá na agência, ou do gerente, nesses projetos aí…? Que chegavam...

 

R – Olha, eu lamento muito dizer que, realmente, em termos de agência, não é uma questão de descaso, é uma questão que, realmente, os funcionários das agências, eles não têm nem condição de pensar em projeto, de conhecer a fundo e até aproveitar melhor esse instrumento que são os projetos sociais. A demanda dentro das agências é grande. Então, o que acontecia? Por exemplo, enquanto eu estive na Superintendência, o papel que era para ser feito pelas agências era feito na Superintendência, no meu núcleo. Ou seja, nós tomamos para nós exatamente esse papel, para ver as coisas realmente acontecerem. Lógico que eles nos davam um apoio muito grande no sentido de que articulavam, não é? Por exemplo, tinha projetos que nós trabalhávamos com... No interior, então teria de vir a partir dos Prefeitos, dos Secretários de Educação e tudo o mais, e nisso as agências nos apoiavam. Mas, em termos de implementação de todos os processos necessários, era feito porque eles não tinham condição de fazer isso. A realidade é essa. Quem  está nas agências hoje, não tem condição até de se dedicar a isso aí.

 

P/1 – Vamos entrar agora um pouco no Banco de Tecnologias Sociais.

 

R – Hum-hum.

 

P/1 – Que foi um banco que nasceu e é recente... Você acompanhou o nascimento dele, o início?

 

R – Acompanhei... O lançamento do Banco de Tecnologia Social. No Amazonas, por exemplo, tivemos tecnologias certificadas, mas... O que eu acho da Tecnologia Social? Para mim, também, é um instrumento muito grande de inclusão social [pausa]. E de mudança social mesmo. Veja bem, são tantas alternativas que você coloca à disposição dessas comunidades... Agora, o grande problema ainda é a questão de como... Da participação dessas pessoas, de como fazer com que essas pessoas estruturem projetos. Ou seja, estruturem o seu fazer, que acontece às vezes da maneira mais empírica possível na comunidade. Estruture isso em forma de projeto e inscreva no concurso. Então a gente... Por exemplo, perde muitas... Existem muitas tecnologias que não são aproveitadas, ainda, por essa impossibilidade das comunidades. Agora, para mim [pausa]... Temos, por exemplo, no Amazonas, tecnologias que se tivessem sido levadas realmente a sério, se tivessem sido implementadas, poderiam, por exemplo, ter resolvido já o problema da merenda escolar. Porque nós tivemos uma tecnologia, uma das que eu acho muito importantes, assim, uma proposta de uma Prefeitura do... [pausa] Amazonas, em que se fez toda uma... Vamos dizer assim, um projeto para se trabalhar, para se fornecer produtos... Gente, está ‘russo’ de sair [risos], espera aí [pausa]. Só um minutinho para eu estruturar o pensamento [pausa]. Bem, nós tivemos uma tecnologia que consistia no aproveitamento das matérias-primas naturais do Amazonas, não é? Então a pupunha, a farinha de macaxeira, o próprio peixe, enfim... Todas as frutas que se pudesse aproveitar e transformar para se fazer farinha de massa e depois fazer bolos, e tudo o mais. Então, isso foi trabalhado e para substituir a merenda escolar. Esse projeto foi, inclusive, certificado como Tecnologia Social, esteve na mídia e tudo o mais, porém... Dentro do município mesmo, ele não foi implementado. E, com isso, perdeu-se uma oportunidade muito grande de se fazer uma economia, de se dinamizar a economia do próprio município, porque, no momento em que eu aproveito os recursos naturais e coloco isso... Tipo assim... Compro isso aí, coloco como... Na merenda escolar, eu faço a matéria-prima da merenda escolar, eu estou dinamizando a economia do município... Estou, também, aproveitando os recursos que nós temos em abundância, porque nós temos. O Amazonas é rico em opção alimentar. O que nós não temos é aproveitamento.

 

P/1 – Então fica essa frustração...

 

R – É sim... Isso é uma frustração. Outra coisa também é... A gente vê também, por exemplo... Por favor, não é desmerecendo não, mas, por exemplo, a borracha nossa. A história da borracha é a história do Amazonas. E no entanto, Tecbor, uma tecnologia que está fazendo o maior sucesso aí, ela não chegou à Fundação Banco do Brasil, ela não chegou ao concurso pela... Por uma universidade do Amazonas. Que, para mim, teria sido um compromisso moral em resgatar essas tecnologias sociais e tudo o mais; e no entanto, não foi o que aconteceu. Ou seja, foi a Universidade de Brasília que apresentou essa tecnologia. E a gente fica perguntando assim: “Puxa, o que está acontecendo com os nossos pesquisadores?” Por que, de repente, não se vê tantas amostras, ou tantas inscrições no Programa do Banco de Tecnologia Social, de tecnologias geradas, por exemplo, dentro da Universidade do Amazonas? E nós temos... Olha, só para você ter uma ideia, no primeiro concurso que nós tivemos no Banco de Tecnologia Social, nós estávamos... Foi na época da crise da energia, estávamos com problema de energia no Amazonas e tudo o mais. E eu me lembro de que eu conversava com um dos pesquisadores da Universidade do Amazonas, e lá nós tínhamos projetos, e ele me falava que já vinha trabalhando nesse projeto há muito tempo. Trabalhávamos com matéria-prima, tentando, por exemplo, gerar energia com óleo de andiroba e tudo o mais. E no entanto, nenhuma dessas tecnologias chegou, por exemplo, ao Banco de Tecnologia Social. No último concurso, por exemplo, visitamos, inclusive, a universidade... Tivemos notícias de tecnologia que vinha melhorar muito, por exemplo, a qualidade das pessoas que trabalham com farinha, não é? O modo de assar a farinha, não é? De torrar a farinha, sem produzir o fumaceiro normal que... Veja bem, esse processo é um processo muito empírico e, por exemplo, quando se faz o processo de torrar a farinha com lenhas, gera um resíduo de fumaça que equivale a mais ou menos você fumar 300 maços de cigarro, em termos de nicotina. E nós temos tecnologia. Que faz você realizar esse mesmo processo de modo limpo, sem produzir essa toxina, nessa quantidade... E no entanto, por mais que a gente insistisse, isso não foi inscrito no Banco de Tecnologia Social. E a gente vê, também, a questão ainda das pessoas, em termos de pesquisadores, relutar. Porque sempre a questão é: e as divisas? Como é que vai ser, não é? Os “royalties”, a questão... Sempre essa questão assim: quem é que vai pagar os “royalties”... É uma tecnologia social, mas... Vai haver algum pagamento disso para a comunidade? E se tem muitas dessas interrogações. O fato é que você olha a potencialidade do Amazonas, você olha a quantidade de tecnologias que nós temos lá, e poucas delas estão no Banco de Tecnologia Social, poucos projetos nós recebemos. Essa é a grande frustração, sabe? Porque nós estamos num momento em que nós precisamos melhorar a qualidade de vida das populações, nós precisamos socializar esse conhecimento e precisamos fazer isso de um modo muito urgente. Não estou querendo, de jeito nenhum, desprezar a pesquisa, sabe? Mas nós precisamos de soluções imediatas para muitas coisas, para muitas das nossas mazelas sociais. E, infelizmente, elas não chegam ao Banco, não é? Que é o veículo que a gente poderia socializar isso com as demais comunidades. Por outro lado, acho que precisamos trabalhar melhor esse Banco - ele precisa ser mais conhecido das comunidades. Se precisa fazer um trabalho junto às comunidades. Não é só fazer o concurso, não é só captar as tecnologias... Eu sei que temos feito muito. Só o fato de nós termos estruturado esse Banco de Tecnologia Social, isso já foi um salto muito grande. Mas precisamos fazer muito mais, precisamos possibilitar a replicação dessa tecnologia, e eu estou falando é de apoio para isso, porque algumas precisam de apoio mesmo. Necessita um engajamento muito grande, da Fundação com as comunidades, com os governos, para que a gente possa fazer isso aí, para que esse banco possa cumprir realmente a sua missão.

 

P/1 – O seu contato com a Fundação... Com quais pessoas você se relacionava aqui em Brasília para receber esses projetos lá na Amazônia e implementar?

 

R – Olha, aqui... BB-Educar trabalhei com Beatriz, depois trabalhei com o Célio... Projeto Memória, Maria Helena sempre foi uma pessoa belíssima nesse sentido. Sempre que a gente chegava: “Olha, Maria Helena, precisamos de mais uma exposição, tal”. “Não dá, e tudo o mais, só dá para ir uma”. Mas sempre terminava... Terminamos ficando com duas exposições para fazer o projeto como a gente queria e tal. Então, foram sempre essas pessoas com quem a gente se... Que houve relacionamento. Na questão da geração de renda teve também o... Como é o nome dele? 

 

P/2 – “Bró” (?),

 

R - O “Bró” (?), Carl “Bró” (?), não é? Por sinal, eu passei hoje na Fundação e queria vê-lo. Porque foi a primeira vez que eu vim à Fundação. Eu trabalhei seis anos, mas nunca tinha ido à Fundação. Sempre conversava com eles, às vezes discutíamos aquela... [risos]

 

P/2 – Tem que _____, agora [risos].

 

R – Exatamente. Mas não. Mas não os conhecia. A Germana também, trabalhei com Estação Digital, tentando implantar uma Estação Digital em São Gabriel da Cachoeira. Vocês podem imaginar o que é isso? Nossa, gente. É um lugar em que a gente só vai, praticamente, uma vez por semana, área de difícil acesso mesmo, sabe? Então, lá nós temos uma Estação Digital. E tudo isso eu tive trabalhando junto com a Germana. Olha, várias foram as pessoas que estiveram conosco durante esse tempo. Às vezes, eu fico até com medo de citar nomes e, de repente, [risos] não lembrar de todos [risos].

 

P/1 – Todos eles falaram a mesma coisa [gargalhadas].

 

R – É, pois é... E depois, a gente realmente se sente muito... Porque acho que é muito importante reconhecer o trabalho dos outros; é muito importante reconhecer o trabalho do pessoal da Fundação, porque... Gente, é muita dedicação, sabe?

 

P/2 –Altamires, você agora se aposentou, não é? Recentemente... 

 

R – Hum-hum

 

P/2 – Dentro do Banco do Brasil, como você avalia a sua trajetória de funcionária do Banco e que... Pôde ter oportunidade, não é? De estar tendo contato com projetos sociais da Fundação Banco do Brasil.

 

R – Eu posso te dizer o seguinte [pausa]. Eu acho que, realmente, foi Papai do Céu tentando me dizer: “Bem, esse aqui é o presente para você, antes de voltar para casa”, [risos] entendeu? Minha identidade com o Banco do Brasil ocorreu quando eu comecei a trabalhar com os programas da Fundação Banco do Brasil. Aquele momento foi, assim, o momento em que eu me encontrei no Banco [pausa]. E toda essa vivência que a gente teve, tudo isso que se fez junto, foi elemento muito motivador. Até em momentos muito difíceis da minha vida, ter os projetos da Fundação Banco do Brasil comigo foi muito importante. Eu posso te dizer que nesses 22 anos, nos seis últimos anos, realmente, eu estava fazendo o que eu nasci para fazer, e o que eu gosto de fazer.

 

P/1 – Altamires, o que você acha que significa a Fundação Banco do Brasil para o país?

 

R – [suspiro]. [pausa]. Quem dera que nós tivéssemos mais Fundações Banco do Brasil. É uma pena que ela só seja uma Fundação Banco do Brasil. Olha... De repente, fogem-me até as palavras para dizer isso aí, porque ela significa muito. Eu nunca vi uma Fundação... Eu nunca vi nenhuma outra instituição que pense os seus programas, que pense os problemas do Brasil, que pense o Brasil em termos de... De tentar responder às problemáticas dele, como a Fundação Banco do Brasil. Eu não vi, até agora, por exemplo, uma Fundação que consiga estruturar os seus programas como ela faz. Essa questão de perceber, de ter essa leitura do Brasil, de um modo bem... Bem nítido, bem claro, sabe? Eu vejo isso quando ela faz, por exemplo, o Projeto Memória. Nossa, gente, quantas vezes eu ouvi as pessoas dizerem, por exemplo, mesmo lá no banco, algumas pessoas não conseguiam... Aprender a importância desse projeto. Vamos dizer assim: o valor [pausa]... Que ele tem nesse contexto social em que a gente vive e, de repente, a Fundação, ela tem “ene” demandas sociais, não é? “Ene” mazelas sociais nós temos para responder. Mas ela pensou numa coisa que é super importante: a memória deste país. Um país sem memória, o que é? Uma pessoa sem memória o que é, gente? Eu fico... É muita sensibilidade, sabe? Isso, realmente, é muito lindo. A questão, por exemplo, da Tecnologia Social... Nesse momento em que o tecido social está tão esgarçado, em que a gente não tem tanto tempo para esperar projetos a longo prazo, ela pensa num Banco de Tecnologia... Um local de referência, onde as pessoas possam: “Puxa, eu tenho esse problema, vamos lá no “site” da Fundação Banco do Brasil, lá tem alguma coisa para a gente”. Eu acho que ela é a cabeça pensante do Brasil, em termos de social. Eu sempre dizia, para todo mundo, que no Banco do Brasil ela era a cabeça pensante. Mas, realmente, em termos de Brasil, eu vejo, a Fundação Banco do Brasil como a cabeça pensante. E digo mais: nesses últimos anos, muito mais... Por exemplo, nesses últimos três anos, muito mais. 

 

P/1 – Você disse que teve o coroamento da sua carreira indo trabalhar com os projetos da Fundação, não é?

 

R – Hum-hum

 

P/1 – O que você aprendeu com isso?

 

R – Aprendi muito, sabe? [pausa] [suspiro]. Aprendi a lidar com o outro, aprendi a respeitar o outro... Aprendi a aprender com a simplicidade do outro. Aprendi que este país é feito de gente muito bonita... E eu não estou falando aqui de estética, de medidas... Eu estou falando de beleza interior, de garra, de determinação. De pessoas que, às vezes, até... A gente encontra já pensa que adaptadas pelo sofrimento, mas que quando você chega e diz assim: “Poxa, existe essa proposta, existe essa perspectiva...”, ele responde. Ele demonstra uma sensibilidade, e aí você vê... Que não obstante a pobreza, não obstante ... Ao abandono em que as massas sempre estiveram, mas existe no brasileiro uma sensibilidade para responder, sabe? Para construir, para se repensar. Eu aprendi isso. Eu aprendi a me reconhecer no outro, acima de tudo. [pausa]. E aprendi a respeitar a nordestina que eu trago comigo.

 

P/2 – Altamires, como você, com poucas palavras, poderia comentar a diferença que a Fundação fez lá no Estado do Amazonas?

 

R – Eu posso te dizer o seguinte: no estado do Amazonas, antes da gente trabalhar, nesses últimos... Anteriores a esses últimos seis anos, até 1999, eu não ouvia falar de Fundação Banco do Brasil. Eu não ouvia mesmo. E quando nós saímos, nós somos referência no Amazonas. Sempre tivemos apoio da Fundação. Para você ter uma ideia, quando você chega numa comunidade - só para você ter uma ideia - às vezes eles chegavam para mim e diziam assim... A gente ia para uma reunião... Eles vinham ao Banco, à Superintendência, e diziam: “Doutora, venha comigo à reunião, a gente vai fazer uma reunião assim, vamos lá e tal”. E eu dizia: “Mas eu não posso  estar me envolvendo com os problemas internos, por exemplo, da sua comunidade. Assim... Questão dentro das Associações Comunitárias, e tal”. Porque eles tinham que aprender a fazer isso. Eles não poderiam... Eu não podia assistir o tempo todo. Eles tinham que aprender a caminhar, resolver seus próprios problemas, e tal... Ele dizia assim: “Doutora, se eu chegar lá dizendo...”. Quando era uma ideia, alguma coisa assim: “Doutora, se eu chegar lá dizendo isso... Sabe, não vai... As pessoas não vão dar importância, mas a senhora é a Fundação Banco do Brasil, sabe?”. Eu me lembro de que uma vez, eu estava numa... Na reunião do BB-Educar, e aí a pessoa dizia assim: “Porque a doutora Altamires”... Falava, não é? A presidente da Associação... ”Porque a doutora Altamires está aqui”. “A....” [risos]. A representante do Banco do Brasil, a coordenadora do Banco do Brasil... Já teve momentos em que eu era a diretora do Banco do Brasil, enfim [risos]. Eu chegava para eles e falava: “Escuta, por favor, só Altamires, tá? Não precisa falar essas coisas e tal...”. E mal eu tinha falado isso e tal: “Pode chamar só de Tamires e tal”. Aí ela dizia: “A doutora Altamires, da Fundação Banco do Brasil...”. E depois eu percebi a necessidade que eles tinham de falar “da Fundação Banco do Brasil”. Porque a Fundação Banco do Brasil aportava, em termos de credibilidade, a iniciativa deles. Aí, então, eu deixei. [risos]. Sabe? Sempre. Sempre, sempre... A Fundação Banco do Brasil foi um diferencial. Muitas vezes, alguns deles chegavam para mim e diziam: “Doutora, eu não vim buscar recurso, eu só quero que a senhora vá participar do meu evento, porque eu quero dizer que a Fundação Banco do Brasil vai estar lá”. E, às vezes, eu fico pensando... Às vezes, acontecia de estar até cansada, porque isso acontecia muito nos finais de semana, me tomava os finais de semana, com a família e tudo o mais. Mas eu ia, porque eu acho que era o mínimo que a Fundação poderia fazer naquela circunstância. Mas que tinha uma resposta tão grande para a comunidade... Eu sempre ia, sabe? Então, a Fundação é isso... O significado dela é esse: é muita credibilidade, é muito significado para as comunidades.

 

P/2 – Altamires, você pode traduzir a Fundação em poucas palavras?

 

R – [pausa]. Em poucas palavras... [pausa]... [suspiro]. A Fundação, [pausa] ela é o instrumento que o Banco do Brasil tem para se tornar mais humano, para se tornar mais identificado com as camadas sociais... É o instrumento que o Banco do Brasil tem para, de fato, cumprir a missão dele... Isso, se ele realmente aproveitar a potencialidade que tem a Fundação.

 

P/1 –Você falou muito do “Projeto Memória”. E a Fundação agora está fazendo esse resgate dessa trajetória, desses 20 anos, não é? O que a senhora acha de estar fazendo parte dessa história, aqui contando para a gente?

 

R – Olhe, para mim [risos] é um elogio da vida, sabe? Eu nunca pensei... Eu tenho 50 anos e eu não sei muito lidar ainda com elogios. Mas esse foi um elogio que não me violentou [risos], sabe? Esse foi um elogio que veio tão natural e que, quando eu recebi, eu falei: “Puxa vida, Nossa!”. Porque ele é verdadeiro. Porque ele significa um pedaço da minha vida... Porque ele significa muito... Muitos sonhos meus... E eu estou muito feliz por isso. Eu sou muito feliz [pausa] pela vida... Por ter sido funcionária do Banco do Brasil durante esses 22 anos. Eu sempre dizia assim: “Olha, eu tenho muito motivo para brigar por essa instituição. Primeiro, porque ele é o banco do meu país, depois eu sou acionista, parcas ações [risos]. E depois... Ter a instituição que é a Fundação Banco do Brasil”. Então, para mim, realmente, é muito importante fazer parte e ficar na memória dessa Fundação.

 

P/1 – Gostou?

 

R – Gostei! [risos] Muito! [risos]. No início foi... Foi um processo de parir, viu? [risos].

 

P/1 – Tem alguma coisa que você queira falar e que a gente não lhe perguntou?

 

R - [pausa]. Uma coisa que eu queria falar [pausa]. [suspiro]. Eu só gostaria que essas cabeças pensantes da Fundação Banco do Brasil e que, às vezes até, tipo, são muito dinâmicas na Fundação, porque ela está sempre trocando... Mas que ela continuasse orientada em pensar o Brasil como ela vem pensando [pausa]. Com essa sensibilidade, com esse “feeling” para as questões sociais... [pausa]. Eu quero é que ela permaneça Fundação Banco do Brasil [suspiro].

 

P/1 – Altamires, então, em nome do Projeto dos 20 anos da Fundação, eu gostaria de agradecer muito o seu depoimento.

 

R – Eu é que agradeço a todos vocês.

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Nada.

 

P/1 – Quer dizer que foi difícil no começo, não é? Que você ficou nervosa?

 

R – Demais!

 

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