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História

Alma petroleira

História de: Cristina Lúcia Duarte Pinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância na cidade do Rio de Janeiro. Mudança para Brasília. Formação em Engenharia Mecânica. Retorno ao Rio de Janeiro. Início de sua carreira profissional na Petrobrás, em 1987. Participação no desenvolvimento do Pré-Sal. Casamento. Filhos. Reflexão sobre a vida pessoal e profissional.

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História completa

Projeto: Petrobrás

Entrevistado por: Douglas Tomás e Márcia de Paiva

Depoimento de: Cristina Lúcia Duarte Pinho

Local: Rio de Janeiro

Data: 21 de Julho de 2009

Realização: Instituto Museu da Pessoa

Código: MPET PRESAL HV007

Transcrito por: Maria da Conceição Amaral da Silva

Revisado por: Isabela Rangel Fraga Burgo

 

P – Boa tarde, Cristina. 

 

R – Boa tarde.

 

P – Gostaria de começar pedindo que você nos diga seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R – O meu nome é Cristina Lúcia Duarte Pinho, nasci em 30 de outubro de 1958, no Rio de Janeiro, em Vila Isabel.

 

P – Cristina, qual o nome dos seus pais?

 

R – Ari de Almeida Pinho e Rute Duarte Pinho.

 

P – E a atividade deles?

 

R – Meu pai se formou em Direito, trabalhou no Ministério da Fazenda e também como auditor da Comissão de Valores Mobiliários. A minha mãe era formada em Contabilidade, além de ser artista plástica, também fazia desenho de arquitetura e trabalhava no Ministério do Exército.

 

P – Você tem irmãos, irmãs?

 

R – Somos três, né? Eu sou a mais velha, tenho um irmão que é o do meio, formado em Engenharia Naval.  Hoje é diretor de uma empresa de certificação chamada Bureau Veritas. E tenho uma irmã que é professora da UNB [Universidade de Brasília], de Artes Cênicas, que também já foi dançarina e possui um grupo de dança.

 

P – Você pode falar o nome deles?

 

R – O meu irmão se chama Luis Roberto Duarte Pinho e a minha irmã é Márcia Duarte Pinho. 

 

P – Me conta como foi sua infância, você cresceu em Vila Isabel?

 

R – É. Nós três nascemos em Vila Isabel e crescemos lá. Mas, quando eu tinha aproximadamente 13 anos e meus irmãos eram mais novos, claro, nós fomos para Brasília, pois o meu pai passou para o Ministério da Fazenda. Então passamos uma parte da nossa adolescência e início da idade adulta em Brasília. Ficamos lá seis anos.

 

P – Vamos ficar um pouquinho ainda antes de Brasília. O que você se lembra de Vila Isabel da sua infância? Quais são suas memórias?

 

R – Ah, bom, nós morávamos numa rua chamada Jorge Rudge, que terminava em um conjunto que na época o pessoal apelidava de Iapi [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários]. Realmente, era do antigo Instituto, né, Iapi, onde meu pai também trabalhou e os funcionários tiveram oportunidade de comprar apartamento ali. Nós moramos lá muitos anos, nasci e fiquei lá até os 13 anos de idade. Era ótimo, porque era um conjunto de classe média baixa, mas, com muitas crianças. E tinha um lugar para a gente brincar e jogar pique-esconde, ainda tinha uma pedreira no final que a gente podia jogar bola. Podia brincar de boneca nos buracos da pedreira. Foi uma infância muito boa. Eu estudava num colégio muito bom, que era de freiras, bem perto de casa. Ia a pé e voltava a pé. Foi uma infância bem tranqüila. 

 

P – E os seus irmãos brincavam juntos ou era brincadeira mais com o pessoal da vizinhança, qual era a diferença de idade?

 

R – Não, a gente brincava, é que eu brinquei pouco com os meus irmãos durante um período, né? Porque eu e a minha irmã nós uma diferença de idade pequena, razoável, um ano e meio. Para o meu irmão já são quatro anos. Então, cada um tinha a sua turma ali. Mas, nós tínhamos vários colegas regulando na mesma idade e com alguns deles ainda tenho contato. É bem interessante isso. 

 

P – Que bacana. E essa escola que você falou, como ela se chamava? 

 

R – Nossa Senhora de Lurdes. Era um colégio de freiras, da Congregação Maria Auxiliadora. Foi o colégio que eu saí, fiz logo o primário. O jardim de infância, na verdade, eu fiz num colégio particular, que era bem próximo da minha casa, se chamava Tetê. Todos os meus irmãos estudaram ali. Quando terminava esse colégio, ele não prosseguia durante muito, era pequeno, pegava só o jardim de infância e pré-primário. Quando se entrava no primeiro ano a gente ia para o colégio de freiras. Nesse colégio estudamos eu e minha irmã, meu irmão foi para o Colégio São José, na Usina.

 

P – E do colégio, assim, o que você gostava de estudar? Do que você se lembra? Tinha alguma professora...

 

R – Eu sempre fui muito boa em Ciências Exatas. Sempre gostei de Matemática e fui muito boa aluna mesmo. Tanto que eu fui de uma pequena turma de meninas que pulou a oitava série, hoje é a oitava série, né? Pulamos a admissão e passamos direto para o ginásio. Fomos até um pouco rechaçadas pelas meninas mais velhas que já estavam no ginásio. Nós éramos umas pirralhas, né? Passamos com pouca idade para o primeiro ano ginasial. Na verdade, passamos com 12 anos, chegamos lá, as meninas todas tinham 14. Então, você imagina o choque, nós fomos bem maltratadas no início, a ponto de esconderem a nossa mochila, fazerem brincadeiras maldosas. Criança pode ser bem maldosa, né. Mas, éramos muito unidas. São essas pessoas, essas mulheres que hoje têm a minha idade, que ainda tenho contato. Nós éramos seis e tenho contato com três delas. Sofremos juntas a maldade das meninas mais velhas. Mas, depois de um ano, com auxílio das próprias irmãs e dos pais, a gente acabou se adaptando.

 

P – A novidade acabava também, né?

 

R – A novidade acabava, mas a gente continuou unidas. Dávamos o desprezo que tinha que ser dado para as meninas mais velhas e no final elas se adaptaram à nossa presença.

 

P – Tem alguma professora que tenha te marcado mais dessa época? Alguma que você lembre com carinho?

 

R – Tem a professora Vitória, que eu lembro, de Matemática, porque eu gostava muito da matéria e ela era realmente muito boa. A imagem dela é bem forte na minha cabeça. Ela era muito jovem, para mim, é claro, já era uma senhora, mas, hoje quando vejo as fotos percebo que ela era uma jovem. Não tinha nem 30 anos, provavelmente e era minha professora. Era também muito legal. Assim, dessa época, praticamente só me lembro dessa pessoa e da diretora da escola, que era a irmã Andrea, uma pessoa muito boa. Não me lembro de mais ninguém especial.

 

P – E como foi a ida para Brasília? 

 

R – Foi muito animada, porque meu pai tinha uma vida muito difícil aqui. Trabalhava em três empregos e a gente quase não se via. Ele acordava muito cedo e voltava muito tarde. E quando a minha mãe o incentivou a fazer o concurso do Ministério da Fazenda foi muito legal, pois ele estudou bastante e passou. Aí nós fomos para uma vida completamente diferente, saímos de um apartamento pequeno, de classe média baixa, como falei. E ele foi para um único emprego em Brasília, trabalhar como auditor fiscal do Ministério da Fazenda, já com seu curso de Direito completo. Quando meu pai se formou já tinha mais de 40 anos, eu fui à formatura dele, tinha 11 anos, provavelmente. Me lembro perfeitamente. Um calor tremendo naquela faculdade no Centro do Rio. Um negócio tremendo. Mas, foi muito bacana. Me lembro dele com aquela bata lá junto com aqueles jovens, numa época bem tumultuada no Rio, né? 1968, 1969. Alguns dos colegas dele tinham desaparecido, ainda nos resquícios da Ditadura Militar e da Revolução.

 

P – E contava para vocês também? Chegou a contar em casa?

 

R – Não, ele não falava muito. Mas, no dia daquela Passeata dos 2000 ele chegou em casa muito abalado. Isso eu me lembro. Mas, ele não comentava muito. Eu era muito jovem, 10 anos, 11, acho que ele não queria falar para a gente não ficar muito nervoso. A turma de Direito da faculdade dele foi muito perseguida, eram jovens que estavam ali no calor da revolução. Mas, ele já pai de família e tal, provavelmente com 38, 40 anos - é o cálculo que eu faço - ele estava ali na dele, né?

 

P – Não deve ter sido fácil, né?

 

R – Não deve ter sido fácil, exatamente. Alguns colegas dele sumiram, outros depois reapareceram. Mas, ele se formou e fomos para Brasília em 1972. Ficamos lá de 1972 a 1978. E a vida melhorou muito, porque nós fomos para um apartamento, eu me lembro, ah, meu Deus. O quarto só para nós. Eu e minha irmã com um quarto bacana. O apartamento era lindo, a cozinha era toda forrada de fórmica. Aquilo era uma novidade. Minha mãe estava eufórica com uma cozinha daquele tamanho. Copa, cozinha, uma suíte. Imagina que espetáculo. Então a vida...

 

P – ___ ela estava chegando naquela época, eu acho também, né?

 

R – Não, os apartamentos eram novinhos, pois eram apartamentos funcionais do Ministério da Fazenda. Moramos inicialmente numa quadra e depois fomos para outra melhor ainda. Acho que meu pai deve ter sido promovido durante algum período, então fomos para uma outra quadra: 316 sul e ficamos lá até o final. Uma sala grande, muito confortável, a vida melhorou porque ele tinha um emprego só. Tinha um horário mais rígido, mas, plenamente aceitável, de oito, nove horas por dia de trabalho.

 

P – Podia estar mais com vocês.

 

R – Podia estar mais conosco. Eles passaram a ter uma vida social, coisa que não tinham no Rio de Janeiro. Eu me lembro de ir, algumas vezes, à restaurante. Meus pais nunca foram de sair muito, mas, passaram a ter amigos em Brasília, alguns deles já fruto de amizade aqui no Rio, que também fizeram concurso e foram para lá. Na verdade, foi muito interessante, porque apesar deles estarem maduros, já entre 35 e 45 anos, fizeram concurso e foram juntos para lá. Então, quando chegaram já tinham uma amizade e fizeram mais amizades. Frequentavam cinema juntos, jantares. Foi uma época muito boa da nossa vida. Fizemos grandes amigos, né? A vida mudou para melhor.

 

P – E lá você estudou onde?

 

R – Estudei de novo num colégio de freiras chamado Maria Auxiliadora, da mesma congregação do Nossa Senhora de Lurdes, foi inclusive indicado pelas freiras daqui. Lá eu conheci outras meninas, algumas muito legais, outras nem tanto, porque aí você vai lidar com jovens filhas de pessoas importantes, né? Deputados, senadores, sem freio nenhum. Uma juventude que, naquela época, já era complicada. Brasília sempre teve, infelizmente, essa cultura muito forte de proteção pela importância do cargo que os pais ou os parentes têm. E alguns jovens realmente não tinham censura nenhuma. E, na minha turma, tinham meninas sem freio algum, simplesmente faziam o que achavam que tinham que fazer. As freiras sofriam bastante com elas porque seus pais eram muito poderosos e tinham o mau hábito de livrar seus filhos das penalidades que mereciam pelo seu mau comportamento. Elas tinham muito dinheiro. Então, foi a primeira vez que tive contato com jovens de outra classe, pois o colégio não era caro. Era um colégio que os meus pais podiam suportar, mas, era um dos melhores de Brasília, se não o melhor. Então, tinha de tudo, desde a jovem que tinha bolsa, com quem também fiz amizade, até as mulheres que depois casaram com pessoas poderosíssimas, até mesmo da Era Collor. Reconheci algumas delas no jornal, que foram minhas colegas de ginásio, já eram meninas ricas naquela época. Então, tinha de tudo na escola, foi muito rica a experiência. 

 

P – E a adaptação foi difícil? Como foi para você chegar num mundo tão...

 

R – Não, porque como tinha de tudo, você se junta com o grupo que melhor lhe convém, né?

 

P – Mais próximo, né?

 

R – Mais próximo. Então, uma jovem como eu ia jamais ter acesso à um grupo já fechado de meninas ricas e poderosas, elas não faziam questão. E, na verdade, nem eu, porque elas eram mais velhas, já tinham reprovado, fumavam, bebiam, tinham um namorado. E eu, muito jovem, criada de jeito diferente, fui me unir com outro grupo, que normalmente era de classe média, ou até mesmo média baixa, de meninas com bolsa, né? Havia uma menina que tinha bolsa lá, a mãe dela era separada, então ela já tinha dificuldades e tal. Enfim, você se junta com pessoas que fazem mais parte da sua vida, é assim.

 

P – Em relação à cidade, Cristina, você saiu de Vila Isabel que é quase como uma cidadezinha pequena, né? Que todo mundo se conhece, tem uma proximidade. E Brasília era bastante diferente.

 

R – Mas foi muito bom, porque Brasília é uma cidade muito bonita, né? E eu gosto sempre de muita mudança, até hoje gosto de mudar. Então, ter mudado para um apartamento mais bonito, uma escola grande, fazer novas amizades, isso tudo não fez com que eu e meus irmãos temêssemos alguma coisa. Talvez, até pelo clima de animação que meus pais estavam de ir para aquela cidade. E eles estavam relativamente protegidos, pois estavam indo com um grupo de amigos. Foi tudo uma boa novidade. Só tenho boas lembranças da cidade, inclusive, apesar de ser um mundo bem diferente. Ter que ir com o ônibus da escola para a escola. Antes, eu ia a pé, naquele mundinho de Vila Isabel. Mas, tudo isso foi, foi muito bem vindo, participar, ir ao clube. Meu pai logo se tornou sócio de um clube. O nosso núcleo de amizade, que era muito pequeno, passou a ser bem mais extenso. Isso foi muito bacana. Também, eu estava numa fase em que era importante fazer amizade, já saindo da fase adolescente e entrando na fase adulta. Foi uma época muito legal de namoros e amigos e amigas. Entrei na faculdade também, acabei fazendo os primeiros anos da faculdade lá na UNB, que é uma universidade extraordinária. O campus é muito bacana.

 

P – Então, vamos com calma. Desse grupo de amigos que você criou lá, como vocês se divertiam, o que vocês gostavam de fazer nessa juventude?

 

R – O que gente fazia… Brasília sempre convidava você ir para à casa das pessoas, tá? Naquela época, ainda não tinha uma vida social de bar e tal tão intensa quanto tem hoje. Brasília mudou completamente. Hoje, está cheia de restaurantes, bares, lugares super interessantes para ir. Antigamente não, era ir ao clube, festa na casa dos amigos e das amigas. Ir ao clube jogar tênis, se encontrar com os amigos. Eventualmente ia para um bar, ou coisa parecida, mas, não era comum na minha época. A maior estripulia que a gente fazia era pegar o carro e fazer besteira no Eixão, né? [risos].

 

P – Fazer besteira era o que?

 

R – Era fazer corrida, pegar o carro e correr no Eixão, porque lá era uma pista de corrida fantástica. O Eixão é uma via muito larga que corta a cidade na sua direção longitudinal.

 

P – No eixo, né?

 

R – Exatamente. Se você lembrar, desculpe, é na direção das Asas, assim. Então, tem o centro do avião e aqui as asas, o Eixão cortava as Asas também. Imagine uma via larga de ida e vinda com quatro pistas de cada lado, de madrugada você ia cortando a cidade toda, era uma pista de corrida.

 

P – Mas você dirigia? 

 

R – Não, eu era namorada do motorista louco. Mas, a gente fez isso poucas vezes, depois nos acalmamos. Depois, a polícia começou a fazer um esforço bem grande para acabar com isso, porque houve umas mortes lá. Assim como no Rio, era uma época que tinha corrida aqui no Alto da Boa Vista. Era um negócio de maluco, porque os jovens se matavam fazendo essas bobagens. E a gente teve a nossa fase de louco também. Não tínhamos droga e não bebíamos, pelo menos a gente estava são fazendo isso. Mas, foram poucas vezes.

 

P – E o que vocês gostavam de ouvir? O que vocês ouviam de música? 

 

R – Ah, me lembro que a gente ouvia rock, né? Foi a época do filme Jesus Cristo Super Star, né? Foi a época de Pin Ball, outro filme. Foi a época...

 

P – Do Hair.

 

R – ...do Hair, daquela Jornada ao Centro da Terra, qual o nome daquele conjunto? Esqueci.

 

P – É, esqueci agora.

 

R – A gente viajava ouvindo aquilo, né? Era uma época que se ouvia muita música estrangeira. Um pouco mais tarde comecei a ouvir MPB [Música Popular Brasileira].

 

P – E você foi muito namoradeira? Um namorado loucão?

 

R – Não, namorei pouco na minha vida. Em Brasília, namorei uma pessoa, que foi meu primeiro namorado, um rapaz bonito até, não me lembro o nome dele. Depois,  namorei esse motorista do Opalão. Depois, logo namorei meu primeiro marido, comecei a namorar e fiquei com ele direto, até casar.

 

P – Você o conheceu lá em Brasília?

 

R – Foi, lá em Brasília.

 

P – E você casou moça também?

 

R – Não, até que demorei bastante para casar. Nós começamos a flertar no meu aniversário de 15 anos, né? 

 

P – Mas, era uma criança também...

 

R – Era, começamos a flertar no meu aniversário de 15 anos, mas, começamos a namorar mesmo um pouco mais tarde. Talvez com 16 anos. O nome dele é José Alexandre, cantava com o Oswaldo Montenegro. Aí, comecei a  conhecer essa turma de músicos. Foi uma época muito interessante na minha vida. E somos amigos até hoje: Oswaldo, Madalena, Zé Alexandre. Ele é padrinho do meu filho. Ficamos juntos muitos anos, eu me separei quando tinha 26 anos. Foram dez anos de relacionamento entre namoro e casamento, meu filho tinha quase três anos quando separei.

 

P – Você casou com quantos anos?

 

R – Casei com 22.

 

P – Você já tinha se formado ou estava...?

 

R – Estava no final, faltando seis meses para me formar. Nisso a gente já tinha voltado para o Rio, né? Então, meu namoro começou com 16 anos, com ele. E eles começando essa vida artística, né? Eu fui no primeiro show do Oswaldo, participei no primeiro disco deles. Foi bacana. Meu pai ficou lá em Brasília. Nós ficamos morando lá até 1978, quando eu vim para o Rio de Janeiro, já na faculdade, e transferi para a Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

 

P – Deixa eu te perguntar: como é que você escolheu a sua profissão e o que você escolheu?

 

R – Eu escolhi pelo seguinte: gostava de Ciências Exatas. Então, sabia que não podia fazer Biomédicas, tinha chegado à conclusão. De Ciências Humanas, eu tinha uma atração por Psicologia. Então, fiquei entre as duas coisas: se fazia Psicologia, ou alguma coisa de Exatas. Entre isso e tal me atraiu a Engenharia. Nunca gostei de Engenharia Elétrica, não gostava da matéria Eletricidade, achava um negócio pouco físico [risos]. Então, pensei: "E Engenharia Florestal? Poxa, pode ser uma boa, né? Floresta e tal, mas, vou ter que morar no interior, no meio de uma floresta. Não estou gostando dessa história não." Então, pensei: "Engenharia Civil parece interessante." Mas, Engenharia Mecânica foi o que me chamou mais atenção. Aí, eu disse: "Não, acho que isso aí que vou gostar de fazer." Então, fiz Engenharia Mecânica, desisti da Psicologia. Mas, dentro da UNB, naquela época já era uma universidade muito adiantada, tinha matérias optativas. E eu cheguei a fazer matérias de Humanas, inclusive ligadas à Psicologia. Então, nós tínhamos as matérias obrigatórias do curso e as optativas que eram completamente fora do curso. Podia fazer em qualquer faculdade. E as optatórias, que a gente chamava. Optatórias porque, na verdade, tinha que fazer para poder, contar créditos. E a UNB, era, naquela época, já com a intenção de você, já saindo, né, da ditadura. Quer dizer, não ter a possibilidade de formar grupos muito unidos. Fazia a sua inscrição em casa, por meio de crédito. O sistema de crédito foi instituído por algumas universidades de modo proposital., foi para não ter aquele grupo que vai começar da faculdade junto até o final.

 

P – E terminar junto.

 

R – E terminar junto. Então, você fazia uma cadeira aqui, uma ali. Andava pela faculdade o dia inteiro, né, mudando de salas, de grupos, de turma. E a UNB era exatamente assim. Não era um fingimento disso, era isso. Eu recebia um livro em casa e montava meu calendário daquele semestre, meus horários em casa, sozinha. Você nem fechava com os seus amigos, não tinha como fazer isso. Chegava lá com aquilo pronto, fazia sua inscrição e escolhia as cadeiras. É claro que havia uma regra para escolher as cadeiras, não podia fazer Cálculo II antes de Cálculo I, obviamente. Mas, escolhia os horários e montava a sua grade. Dificilmente, sua grade era idêntica à de um outro, porque você fazia em casa sozinha. Então, ao mesmo tempo, na época, achei aquilo fantástico. Hoje entendo porque eles faziam aquilo. A UNB foi um local em que tenho boas lembranças, mas não grandes amigos, porque não consegui formar um grupo na Universidade de Brasília, né? Por outro lado, havia a possibilidade de fazer cadeiras que não tinham absolutamente nada a ver com a faculdade. Meus amigos continuaram os mesmos que eu tinha formado até fora da universidade, ou pela vizinhança ou pela própria escola que frequentei anteriormente. 

 

P – E aí, quando você começou no seu curso essa escolha se mostrou...

 

R – Acertada. Eu sempre gostei. Gostei de todas as cadeiras que fiz. Nunca lamentei ter feito Engenharia Mecânica, não durante esse período, a não ser, realmente, quando vim para o Rio. E ainda namorando meu primeiro marido, o José Alexandre. Quando eu vim para o Rio, ele ainda permaneceu em Brasília, não pode se mudar. Depois, então, veio para o Rio também.

 

P – Ele é carioca também?

 

R – Carioca. Aí, foi um momento em que a gente começou a ficar bastante tempo juntos. Eu comecei a frequentar com mais intensidade esse grupo de artistas e a vida boêmia do Rio. Aí, resolvi que não ia mais fazer Engenharia Mecânica, ia largar e ser artista.

 

P – Balançou, né?

 

R – Balancei. Falei: "Ah, não quero mais ser engenheira, quero ser artista." E levei a sério.

 

P – Trancou?

 

R – Não, meu pai não deixou, pediu, por favor, para eu me formar. Falou: "Olha, faz o que você quiser, mas, se forma. Não tem razão para não se formar, faltam seis meses para se formar."

 

P – Nossa.

 

R – "Se forma, pelo menos." Então, atendendo ao pedido dele, depois de quase cinco anos de faculdade, né, fiz o sacrifício de me formar. Paralelamente a isso, eu fiz vestibular de novo para Teatro. Passei, me lembro que, você sabe que vestibular para Teatro você tem que fazer uma performance, né? Eu escolhi uma coisa ótima, facílima, inclusive: Navalha na Carne [risos]. Fazendo o papel da prostituta, olha que louca. Ainda, escolhi um negócio completamente abissal, né? Não lembro nem como tive coragem de fazer um negócio desse. Eu sei que fui fazer e passei no vestibular, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, para Teatro. A banca lá achou que eu tinha o talento. Bom, fazer a prova do vestibular não foi tão difícil. Engenheira, quase formada, estudei lá alguma coisa. Mas, não entrei, não fiz, não me inscrevi. Na verdade, comecei a trabalhar...

 

P – Você ainda estava se formando quando fez esse outro vestibular?

 

R – Estava me formando. Aí me formei. Então, fiz vestibular, fiquei terminando meu curso e casei com o Zé Alexandre, bem como terminando um estágio, um trabalho de Engenharia Mecânica, ganhando algum dinheiro. Fazendo vestibular para Teatro e trabalhando junto com o grupo também. E casando. Foram as três coisas ao mesmo tempo, no mesmo ano. Ainda ficando de noite no Baixo Leblon. Quer dizer, foi uma época bem intensa, né? Não era à toa que eu pesava 48 quilos [risos].

 

P – Nossa. E aqui no Rio você veio para a UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], para a Engenharia?

 

R – Foi, no Fundão. Exatamente. Aí, eu larguei, terminei tudo e comecei a trabalhar no grupo do Oswaldo. Comecei a trabalhar como produtora, ajudando a Madalena, que já estava com ele há muitos anos. Ajudando a produzir e participando como atriz do grupo. Ficamos nessa vida alguns anos. Engravidei do Amure, tive o Amure ainda nessa vida. Devo ter trabalhado com eles uns dois anos e meio.

 

P – Isso era o quê? 1978, 1979, ou já 1980?

 

R – Não, isso já foi...

 

P – Início da década de 1980.

 

R – Foi entre 1981 e 1983, por aí. Foi quando me formei, casei e tive o Amure. Ele nasceu em 1982 e casei em 1980.

 

P – Você estava trabalhando com o Oswaldo, tendo neném e tinha largado a Engenharia?

 

R – Já tinha largado a Engenharia. Trabalhávamos eu e o Zé Alexandre no grupo do Oswaldo. Obviamente duraços, todos éramos, né? Mas, vivendo na luta. Até que a Marília Pêra montou uma peça chamada Brincando em Cima Daquilo.

 

P – Maravilhosa.

 

R – Maravilhosa, foi recentemente refeita pela, essa atriz que é tão interessante, ela fez agora, este ano.

 

P – Fez, eu não fui ver mas...

 

R – Fui ver de novo. A peça não é atemporal, na verdade, tinha tudo a ver com aquela época em que a mulher estava sofrendo repressões e tal. Então, hoje ela ficou um pouquinho fora do tempo. Débora Bloch. É mais para você ver a performance de uma atriz. Mas, naquela época foi uma peça muito chocante. 

 

P – E aí você foi trabalhar?

 

R – Aí, fui ver a peça. Na verdade, fui ver os ensaios, porque o Oswaldo era o diretor musical da peça. Jovem ainda, né? Mas, a Marília Pêra, de alguma forma eles tinham estabelecido alguma conexão, o convidou para ser o diretor musical da peça. Aí fui ver o ensaio. Amiga do Oswaldo e tal, fui lá, conhecer a Marília Pêra. Quando vi aquela mulher atuando, falei: "Eu não vou ser atriz de jeito nenhum. Sem chance. Como vou ser atriz? Nunca vou chegar nem perto dessa mulher. Vou ser uma engenheira medíocre. É melhor ser engenheira medíocre do que ser uma atriz medíocre. Como atriz medíocre vou morrer de fome." Tomei aquela resolução naquele dia. Larguei o teatro. Falei: "Não tem a menor condição. Ela é extraordinária. Não tenho esse talento." Aí, voltei e falei: "Vou voltar para a Engenharia." Então, tinha me formado, estava fora do mercado, isso foi em 1984, eu diria. É, entrei na Petrobrás em 1987. É, 1984, né? Eu tinha me formado em 1981. Aí, falei: "Deus me livre, não vai dar, não vou sustentar uma família sendo atriz." Resolvi voltar para a Engenheira. Aí eu tive que ralar, né? Porque era uma época difícil. O mercado para Engenharia nessa época estava péssimo no Brasil, passando por uma dificuldade extrema. As indústrias estavam fechando. 

 

P – Aquela inflação louca.

 

R – Inflação louca. O país estava entrando naquela década perdida. Foi uma época muito difícil para o pessoal que se formou comigo. Na Engenharia, a maioria das pessoas não se formou, muita gente não foi para a carreira de engenheiro porque não tinha emprego. As empresas de Engenharia fechando, ou na iminência de fechar. Poucos projetos acontecendo. Mas, havia ainda um ramo da Engenharia que estava investindo dinheiro: as empresas como a Natron, por exemplo, internacional. Ainda havia alguns projetos como o Angra I, Angra II. A indústria naval estava indo para o ralo, nessa altura do campeonato. Estava assim, tropeçando, para depois, no final da década de 1980 acabar mesmo. Então, no meio da década de 1980 a coisa já estava muito ruim para o país. Assim mesmo eu fiz, telefonei para um primo meu que era engenheiro na Natron na época, falei: "Luis, você precisa me ajudar. O que que eu faço para voltar para a área de Engenharia?" Ele falou: "Ó, a Natron tem um programa em que você faz um curso de alguns meses na UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro], que ela mesma dá aula. Quer dizer, os profissionais da Natron dão aula lá e os melhores alunos são pegos para trabalhar na Natron." Falei: "Ah, que interessante, bacana." À essa altura, meu casamento não estava indo muito bem, estava indo mal mesmo. Eu pedi para o meu pai pagar o curso e ele pagou. Veja bem, à essa altura, eu já estava velha, com 25 ou 26 anos. Sem emprego, dando aula particular para fazer um dinheirinho, com um filho pequeno, o casamento já não estava bem, dura como sempre. Mas, fiz o curso. Era à noite, na UERJ. Foram uns seis meses de curso e foi um investimento. Tinha que ser uma ótima aluna. Foi um curso de Flexibilidade e Análise de Tensões em Tubulações. Gostei. Bacana para caramba. E me destaquei no curso. Quando me destaquei, a Natron me convidou para ir trabalhar. Então, em janeiro 1986, entrei na Natron para ser engenheira. Nossa mãe do céu, salário, que beleza. Aí, fiquei rica, né? De uma hora para outra. Estava mal pra burro, claro que estava rica, para quem não ganhava nada, fiquei rica.

 

P – E você já estava separada? Seu marido trabalhava com o que, Cristina? 

 

R – Meu marido era artista, é cantor até hoje. 

 

P – Mas, você já estava separada?

 

R – Estava. No final de 1985 a gente se separou. Em janeiro de 1986 eu já estava praticamente separada, né? E aí, no curso da Natron, no fim de 1985, tinha conhecido o meu segundo marido. Era meu colega de turma. Mas, a gente não namorou nem nada, eu estava terminando o casamento. Em janeiro ou fevereiro de 1986, entrei na Natron. Ele estava lá, era estagiário da Natron e eu fui ser sua chefe. Ó, que espetáculo! Ele era tão bonitinho. Ah, mas que estagiário simpático, né? Aí começou: olha daqui, olha dali. Ele era engenheiro. A Natron, apesar de ter me contratado, já não estava bem das pernas.  Só tinha os contratos de Angra. Então, ali fiz novas amizades, inclusive amigos que tenho até hoje na Petrobrás. Especialmente um chamado Marcelino Guedes, que foi diretor da Transpetro e hoje é o presidente, presidente não, não sei qual é o cargo. Mas, trabalha na Petrobrás e é responsável pela nova refinaria lá do Nordeste. Um cara de alto nível na companhia. Ainda na Natron, a empresa meio mal das pernas. A gente trabalhando sempre com medo de perder o emprego, né? Ele entrou na minha sala e falou assim: "Cristina, vamos fazer o concurso da Petrobrás." Eu falei: "Que concurso, rapaz? Eu acabei de entrar aqui. Não quero mais estudar, estou cansada." "Vamos fazer o concurso da Petrobrás." "Não, não vou fazer o concurso da Petrobrás." "Vamos fazer o concurso da Petrobrás! Você tem que fazer! Vamos eu, você, o Celso e o Renato. Nós quatro. A gente estuda juntos e tal." Falei: "Ai, meu Deus do céu, não é possível. Tudo de novo. Não acredito." Isso foi em meados de 1986. Mas, ele me convenceu e a gente resolveu fazer. Então, estudamos para o concurso da Petrobrás que ia ser no final daquele ano.

 

P – E aí?

 

R – Ele insistiu e nós fomos fazer um curso aqui no Centro do Rio, à noite. A gente saía do trabalho, íamos aqui e fazíamos um curso de três horas para relembrarmos., porque o concurso da Petrobrás pega gente que sai da faculdade. Então, imagina aqueles cálculos todos, aquelas integrais horrorosas, derivadas, que a gente não lembrava mais nada. Fizemos o curso e eu tinha que estudar muito, né? Foi durante três a quatro meses para estudar, à essa altura, estava separada, morava sozinha e tinha um filhote pequeno.

 

P – Pois é, isso que eu queria perguntar: como você consolidava curso, trabalho e filho?

 

R – Então, era duro.

 

P – Me diz o nome do seu filho também.

 

R – Amure. Eu era hippie, obviamente, artista, dei um nome maluco para ele, pobrezinho. Esse nome é indígena [risos]. Fui no Museu do Índio, aqui em Botafogo, procurar o nome dele. 

 

P – É o máximo.

 

R – Pesquisei em um livro até achar um nome que fosse com um som que eu gostasse e significasse alguma coisa, né?

 

P – E qual é o significado?

 

R – É não achei [risos].

 

P – O som era bonito.

 

R – O nome, o som era bonito, mas, na verdade Amure era o nome de um cacique da tribo dos Parecis. Imaginei: "Um cacique não pode ter um nome que signifique algo ruim." Então, dei o nome dele assim mesmo: Amure Pinho da Rocha e Silva.

 

P – E é um cacique.

 

R – Ele é um cacique. Meu filho vai ser um cacique, muito inteligente.

 

P – Ele está com quantos anos agora?

 

R – Agora ele tem 26, vai fazer 27 em setembro.

 

P – E aí então...

 

R – Eu e Amure morando sozinhos, né? Ele com aproximadamente três anos. Eu trabalhando o dia todo, estudando à noite. Meus pais foram fundamentais para me ajudar, a minha mãe ficava com o Amure de noite, muitas vezes esperando eu chegar do trabalho ou do curso. 

 

P – E de manhã era creche? Como era?

 

R – Ele estudava o dia inteiro no Colégio Batista Shepard. Colocava ele seis e pouco da manhã no ônibus, ele ia e voltava, pegava ele seis e pouco da tarde na porta de casa. Uma ocasião, inclusive, logo no início das aulas, eu muito jovem, esqueci de colocar na lancheira dele seu o endereço. Primeiro dia de aula, ele se enfiou em qualquer ônibus e o pobre do motorista não sabia onde ele estava. Ele, pequenininho, dizia: "É aqui que eu moro." Eu aqui na Vinte e Oito de Setembro, enorme, né, ali em Vila Isabel. "É aqui, É aqui." Mas aqui aonde, né? Ele reconhecia a rua toda. A minha sorte foi que uma vizinha viu o Amure dentro do ônibus sozinho, ele e o motorista. Ella viu e falou: "Esse menino é meu vizinho. É ali que a gente mora e tal." Aí o Amure foi para casa.

 

P – Mas ele sabia direitinho, né, mais ou menos a noção.

 

R – Ele tinha uma noção, mas, não sabia dizer o prédio, não sabia nada, tinha três anos. Ficou rodando uma hora e meia dentro do ônibus porque a mãe maluca esqueceu de colocar a fitinha da cor, né? Tinha um negócio de fita. Eu enfiei ele no ônibus, ele saiu da escola e se enfiou no primeiro ônibus que tinha. E o Batista era um colégio imenso. Imagina quantos ônibus não tinha. Ele saiu, puf, entrou no primeiro, o motorista ficou perdido, coitado. Bom, essa foi uma das cenas interessantes da infância dos meus filhos. Cada um tem uma história maluca. Bom, aí eu estudava. O Amure chegava seis e pouco da tarde, a gente jantava, dormia, três horas da manhã eu acordava e ia estudar. Aí, estudava de três até às seis da manhã. E começava tudo de novo. Ia trabalhar e tal. Fiz isso durante alguns meses para poder passar no concurso da Petrobrás, porque se fosse estudar de noite estaria muito cansada, não adiantava. O melhor é dormir e acordar. Aí, eu acordava, tomava um copo de guaraná em pó, lembra disso?

 

P – Lembro.

 

R – [Risos]. Pois é, ficava ali esperta, ligadona e estudava. Passei para a Petrobrás no final daquele ano. 

 

P – Mas, e a empresa que você estava trabalhando, ela...

 

R – Perdeu quatro engenheiros de uma vez só. Eu e os outros três que tinham estudado com a gente, tínhamos estudado juntos. Nós éramos quatro, né? Nós três continuamos, mais dois colegas, que continuam na Petrobrás até hoje e um pediu demissão, porque ele ia ser transferido para Macaé, aí, não quis e voltou para as empresas de engenharia privada. A esposa dele não se adaptou a morar em Macaé. Foi isso. Em 7 de janeiro de 1987, entrei na companhia.

 

P – E ela representava uma certa segurança para você naquela época.

 

R – Ah, completamente. Porque antes de eu entrar na Natron teve um hiato, né? Entre eu resolver, poder entrar na Natron e estar sem emprego. Então, fiquei trabalhando em, em algumas empresas. Numa empresa, por exemplo, que eu trabalhei, assessorava um ex-diretor da Eletrobrás que quis montar uma empresa de consultoria. Um negócio à parte. Estava se aposentando, montou essa empresa de consultoria e ele precisava de alguém para ajudá-lo a organizar, comprar móveis e tal. E eu atendi a um chamado dele, fui assessorá-lo nisso. Então, no início da empresa era só eu e ele, né? Estava começando, uma empresa para fazer programas de software, imagina, em 1980 e pouco. A primeira vez que eu vi um microcomputador foi na casa dele. Um espetáculo aquilo. O bicho falava comigo. Não sabia nem que é que era: "Meu Deus, como é que pode?" Um negócio bacana, né? Porque eu ainda era da época do cartão. Na faculdade, aquele cartão caía, fazia lambança, os cartões perdiam a ordem. Ele tinha um computador em sua casa. Então, aquilo foi um espetáculo e trabalhei para ele durante esse período. Passava na porta da Petrobrás, ali no Centro, na avenida Chile, dizia assim: "Um dia, vou trabalhar aí dentro." E passava ali na rua trabalhando para ele, fazendo os contatos que tinham de ser feitos. Eu tinha muito forte na minha cabeça que aquele período da minha vida era um período, uma coisa temporária. Aquela luta toda tinha um tempo, uma maturação. E aquilo ia acabar.

 

P – Cristina, e aí o estagiário bonitinho, quando você passou na Petrobrás, como ficou?

 

R – Ele ficou na Natron e a gente começou a namorar.

 

P – Depois que você saiu, ou vocês já começaram a namorar enquanto você estava...

 

R – A gente começou a namorar um pouco antes. Eu fiz concurso para a Petrobrás, passei, ele continuou na Natron um tempo. Depois, fez concurso, estava se formando. Eu já estava formada há um tempão. Sou quatro anos mais velha que ele. Aí, ele fez concurso para a CSN [Companhia Siderúrgica Nacional]. Fabio Jobim Sartore, que é meu marido até hoje. A gente namorou um tempo. Ele foi para Volta Redonda trabalhar. Eu continuei no Rio trabalhando, fazendo meus estudos na faculdade. Na verdade, na Petrobrás você entra e estuda antes de ir trabalhar. Então, estava estudando. Aí, no final do estudo se escolhe o lugar em que você quer trabalhar.

 

P – O curso era Engenharia de Petróleo?

 

R – Não, Engenharia de Terminais e Dutos. Quando eu entrei pra companhia, escolhi Terminais e Dutos. Aí, fiz o curso, aproximadamente nove meses de curso. Em outubro daquele ano, pude escolher para onde iria. Os primeiros tinham o direito de escolher onde iam, os outros sobravam. Acho que fiquei em oitavo ou nono lugar na minha turma e escolhi um lugar que ninguém queria ir: Volta Redonda. E tinha uma vaga lá. Então, não disputei com ninguém, né? Quem vai querer sair do Rio para ir à Volta Redonda? Em dezembro de 1987, me casei com o Fabio e começamos uma vida nova em Volta Redonda. Ele já estava lá há alguns meses, porque tinha passado no concurso. E aí começamos uma vida nova no interior de Volta Redonda. Eu, ele e meu filho. 

 

P – E lá a Petrobrás tinha o que? 

 

R – A Petrobrás tinha um terminal pequeno de despacho de gás para a CSN, justamente. Então, era uma época em que a gente tinha acabado de montar uma estação de recebimento de gás da Bacia de Campos. Fazia um pequeno tratamento naquele gás e despachava direto para a Companhia Siderúrgica Nacional e outras pequenas empresas da região, como a Papel Piraí e a Litografia Volta Redonda. Havia poucas empresas. Era um terminal pequeno, responsável pelo despacho de óleo diesel e principalmente gás.

 

P – Para atender essa região industrial mesmo.

 

R – Para atender essa pequena região industrial e uma grande consumidora, que era a Companhia Siderúrgica Nacional. Eu trabalhei lá até 1989. Quando houve a greve de 1988, na CSN, foi horrível, houve morte dentro da Companhia, não sei se vocês se lembram disso, né? Meu marido estava lá. E a gente era muito jovem. Ele já era engenheiro. Os engenheiros tinham uma posição em que normalmente eram gerentes dentro da Companhia. Houve muita ameaça, né, ao gerente naquela época. Ameaça à integridade física deles, à família. Depois daquelas mortes, o Fábio tomou uma decisão que não ia mais trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional. Não era um bom local. Foi muito traumático aquele período, né? Nossos amigos presos dentro da Companhia, tiro, um negócio horrível. Então, resolveu que ia fazer também concurso para a Petrobrás e tinha concurso naquele ano. Isso em 1988. Ele fez uma prova excelente e passou em primeiro lugar no concurso para engenheiro experiente. O local para ele trabalhar era Macaé, então, pedi transferência.

 

P – Ele escolheu Macaé?

 

R – Não tinha como escolher. O concurso que ele fez era para trabalhar era Macaé, não havia outra opção.

 

P – Era uma demanda da própria Petrobrás.

 

R – Uma demanda da própria companhia, para trabalhar em Macaé. Então, ele passou. Foram poucos que passaram, que era para engenheiro experiente. Ele passou numa leva acho que de no máximo 25 ou 30 pessoas. Então, pedi transferência, aleguei que meu marido estava entrando. Essa companhia é muito flexível, normalmente você consegue. Ainda, a Bacia de Campos era uma área fácil de ir naquela época, estava em pleno crescimento e absorvendo pessoas do Brasil inteiro.

 

P – Isso que você falou foi em 1989?

 

R – Não, isso é 1988. Ele fez concurso em 1988 e fomos todos pra lá em 1989. Chegamos em julho de 1989. Eu grávida de oito meses. Fui conhecer meu médico três semanas antes da minha filha nascer [risos]. 

 

P – Lá em Macaé?

 

R – Em Macaé. Ele tinha que ir. Apesar de gostar muito do meu médico em Volta Redonda, que tinha me acompanhado, falei: "Eu não vou ficar aqui pra ter um filho sozinha enquanto você está lá, vamos embora." Aí, fomos. Fui conhecer lá o velhinho que deu a luz a minha primeira filha mulher, né? Em julho...

 

P – Qual é o nome dela?

 

R – Luiza Pinho Sartore, nasceu em agosto de 1989. Cheguei com oito meses em Macaé para ter a filha no mês seguinte.  Aí, fui conhecer o médico. Gente, ele era muito velhinho. Quando olhei pra ele, falei: "Meu Deus do céu." Ele foi me auscultar com um negócio de madeira, você já viu? [risos]. Um um instrumento de madeira. Colocou aquilo na minha barriga, falei: "Meu Deus do céu, onde estou? Que cidade é essa?"

 

P – De volta ao passado.

 

R – De volta ao passado. Afirmei: "Gente, vou ter coragem de ter filho aqui?" Mas, o hospital era bom. Acabei tendo filho lá, foi tudo certo. A Luiza nasceu perfeita. Tive que fazer uma cesariana, mas, foi ótimo. Nasceu lá, aí, começamos uma nova vida. Agora quatro de nós.

 

P – E você foi para que área em Macaé?

 

R – Inicialmente, eu ia trabalhar num terminal que tem lá perto de Macaé, já indo para Campos. Mas, logo que cheguei, um engenheiro que trabalhava no segmento de exploração e produção queria ir trabalhar nesse terminal, porque tinha turno. E ele tinha interesse em trabalhar em turno. Então, nem cheguei a trabalhar no terminal, me mudaram para a antiga Rpse, que era Região de Produção Sudeste. Foi minha grande sorte, né? Porque era uma área da companhia que estava em pleno crescimento, justamente a área de Exploração e Produção da Bacia de Campos. Depois, nós mudamos o nome, né? Antigamente era Região de Produção Sudeste, depois passou a fazer parte do segmento de Exploração e Produção. Foi muito legal. Eu peguei o boom da Bacia de Campos, o melhor da Bacia. O início de Marlim, uma história fantástica, peguei a história do início de águas profundas.

 

P – Me conta um pouco disso também, Marlim já estava sendo descoberto? Marlim, Albacora...

 

R – Marlim já tinha sido descoberto. Tinha Garoupa, já tinha acontecido. As plataformas do Norte e Nordeste já estavam lá e tal. Cheguei em 1989, que foi o início da produção de Marlim, com o piloto de Marlim. mas, não peguei o projeto da P-13, que foi o piloto de Marlim, já estava instalada lá. Quando cheguei na Bacia de Campos já estavam trabalhando para o, aliás esse era o pré-piloto, né? O piloto de Marlim, que era a P-20, já estavam trabalhando nele para instalar uma outra plataforma. Aí, peguei toda a produção. Mas, logo que cheguei, não fui trabalhar nessa área, fui trabalhar numa área que dava suporte técnico para as unidades em operação. Não estava ligado ao projeto de Marlim, porém, sabia que estava acontecendo. Eu estava um pouco distante, trabalhando em uma área que dava suporte técnico...

 

P – Para outras operações de vários campos.

 

R – Para outras operações de vários campos, exatamente. Norte, Norte-Nordeste, Sul da Bacia. Não Marlim exatamente, não tinha nada. Só tinha a P-13 operando, uma unidade que era o pré-piloto de Marlim. Eu ainda não estava conectada ao projeto em si.

 

P – Era um trabalho que dava uma abrangência - esse suporte para várias...

 

R – Dava uma abrangência. Era exatamente isso, um trabalho interessante. Mas, entrei numa área muito tímida da companhia, trabalhava na área de Exploração e Produção, mas, na área de Facilidades. Eu era simplesmente uma engenheira especializada em sistemas de ar-condicionado e refrigeração e dava então suporte técnico às unidades nessa área. Além disso, dava aula, dei muita aula dentro das plataformas. Orientando os operadores e tal, mas, ligado à esses sistemas de ar-condicionado e refrigeração, como engenheira mesmo.

 

P – Cristina, deixa eu te perguntar também. 1989, aquela época ainda era um universo bastante masculino, né? Ou não? Ainda mais para engenheira.

 

R – Era, desde que eu entrei na faculdade. Quando cheguei aqui no Rio, eram 90 pessoas numa turma, das quais só seis eram mulheres. A turma anterior tinha uma única mulher, que descobri porque logo que cheguei no banheiro do Bloco G, que era da Engenharia, estava escrito assim: "Banheiro da Denise." Eu nunca entendi. Aí, cheguei assim: "Como banheiro da Denise?" "Não, só tinha uma aluna, era a Denise. A gente escreveu: banheiro da Denise." E estava escrito lá: "Banheiro da Denise." Logo que eu cheguei. Nós éramos só seis mulheres. Na Petrobrás, embora nunca houvesse preconceito para ter concurso para mulheres, era difícil haver mulher.

 

P – E na Bacia de Campos, especialmente na plataforma nessa época?

 

R – Não tinha mulher nenhuma.

 

P – Também não tinha. Você chegava a dormir ou ia e voltava...

 

R – Eu dormia. Muitas vezes, dividia camarotes com outros homens, outros engenheiros. Um tempo depois, começamos a ter camarote feminino em algumas unidades, porque começamos a receber operadoras mulheres. Mas, logo que cheguei não, havia poucas. Gerente mesmo não havia nenhuma. A primeira gerente mulher de plataforma foi a Cristina, uma outra Cristina. Ela foi gerente do Norte-Nordeste em que ano? Se a primeira unidade que eu fui gerente foi a P-7, ela foi no ano anterior. Eu diria que isso foi em 1988, 1989, talvez 1990. A primeira gerente de plataforma mulher foi a Cristina. Eu fui logo no ano seguinte. Aí começou a ter mais mulheres e operadoras também. A Petrobrás ficou muitos anos sem fazer concurso. Então, todo universo de operadores e técnicos que tinha eram homens. Era com esses que tinha que lidar mesmo. A Petrobrás ficou dez anos sem fazer concurso.

 

P – E alguma vez você sentiu certo machismo, alguma...

 

R – Para a minha carreira assim não, nunca senti nenhuma grande restrição. Talvez algumas frases infelizes em alguma reunião, mas nada muito sério. O ambiente do segmento de Exploração e Produção sempre foi muito bom, sempre foi muito aberto, né? Não era tão hierarquizado como outras áreas da companhia, como a ___, por exemplo, que era muita antiga e talvez muito mais masculinizada, né? O EP [Exploração e Produção] sempre esteve muito na ponta da tecnologia, no desenvolvimento, com muita relação com o Centro de Pesquisa. Um ambiente muito mais informal. Eu nunca percebi uma forte restrição às gerências femininas, ou mesmo engenheiras. Encontrei com algumas pessoas, pontualmente, na minha carreira, que não aceitaram serem gerenciados por mulheres. Mas, isso é problema das pessoas, não da companhia. Não é uma cultura da companhia. Problema pontual.

 

P – Isso a gente acha até hoje, né?

 

R – É, cada dia mais raro, né? Mas, na companhia em si nunca percebi nenhum grande machismo. Sempre existiu uma coisa, que agora está cada vez menor, que é o seguinte: a teia de relacionamento masculina chama outros homens para serem gerentes e tal. Então, teve uma época na nossa vida que tivemos que formar a teia de relacionamentos femininos e fazer as mesma coisa. Hoje, acho que isso não é mais necessário. Você não precisa proteger a mulher para ela poder galgar determinados... eu não vejo mais assim.

 

P – Aí, você estava contando que assumiu a gerência da P-7 em 1990...

 

R – É, fiquei um tempo como engenheira técnica, né?

 

P – Dando esse suporte.

 

R – Dando esse suporte. Depois, fui convidada para ser gerente de um Setor de Utilidades. Utilidades são todas as facilidades de produção que não estão ligadas diretamente à produção de óleo e gás, mas, dão suporte à Facilidades e à Produção. Então, também fui gerente dessa área. Fiquei algum tempo nessa área e depois fui convidada para ser gerente da Unidade Petrobras 7, que era uma uma unidade semi-submersível na Bacia de Campos. Foi o primeiro lugar em que fui gerente de plataforma, gerente setorial de operações, na verdade. Eu não ficava na plataforma, ficava em terra, embarcando de 15 em 15 dias, passava pelo menos uma noite lá. Às vezes, até duas noites, para ver como as coisas estavam andando, dar orientações para o grupo e tal.

 

P – Você é uma dessas pioneiras também, né?

 

R – Eu sou uma dessas pioneiras, exatamente. As duas Cristinas eram as pioneiras na época, a Cristina Quesada e eu. 

 

P – E como foi assumir uma plataforma, Cristina?

 

R – Foi muito bacana.

 

P – Era um desafio?

 

R – Trabalhar com homens sempre foi um desafio, mas, foi uma coisa que estava muito acostumada, porque desde a faculdade eu só lidava com homens, né?

 

P – Mas, eu falo também numa plataforma, essa ideia que é quase como uma cidade, um pequeno...

 

R – É, isso. Era um negócio, foi muito legal porque foi a primeira vez que eu tinha um negócio que precisava dar resultado na minha mão. Tinha um orçamento, tinha responsabilidade sobre a segurança das pessoas, tinha que produzir óleo e gás, tinha resultados visíveis. O que eu fazia hoje aparecia amanhã. Então, foi um exercício gerencial muito bacana. Possuía muito orgulho de ser gerente de plataforma, porque tinha resultado para mostrar no final. Resultado de uma unidade industrial. Eu tinha que performar com aquele grupo que estava ali.

 

P – E a P-7 estava em qual campo?

 

R – Campo de Bicudo, na área sul da Bacia de Campos. E havia uma tropa de gente muito especial, um time muito bacana. Foi uma época de muito entusiasmo na minha vida. Eu já estava um pouco chateada de estar trabalhando onde eu estava. Aí, fui trabalhar nessa área, foi bem excitante. Fiquei na P-7 por três anos. 

 

P – E é um aprendizado, né? Conta para a gente, porque acontece um pouco de tudo. Tem problema...

 

R – É, eu como gerente lá, tinha que não só cuidar das minhas tarefas, das minhas responsabilidades de planejamento, como falei, orçamento, a produção. A eficiência da unidade, as obras, naquela época a gente tinha muitas obras nas unidades, da segurança das pessoas. Além de ouvir os anseios dos empregados, né? Muitas vezes, embarcava e tinha que ouvir os problemas. 

 

P – Ser meio psicóloga também.

 

R – É. Talvez até pelo fato de ser mulher, talvez demonstrasse que ia ter um pouco de paciência para ouvir o que o empregado tinha a dizer. Então, não era incomum eu embarcar e ouvir até sobre o casamento dos caras [risos]. Sobre os problemas deles, entendeu? E, na época, na P-7 eu era a única mulher. Era a gerente, não tinha outra. Mais tarde, a gente até tinha rádio-operadoras. Começaram a aparecer soldadoras mulheres, pintoras. Mas, era muito raro. Durante um bom período, eu era a única mulher daquela plataforma, que embarcava eventualmente ali.

 

P – Em relação a trabalhar embarcada, você ia lá esporadicamente, embarcava, passava quanto tempo? Como é que é a vida de embarcado?

 

R – O maior período que passei foram 11 dias, mas não nessa posição e sim dando aula para os operadores. Foi um período bem longo, porque tive que ir à várias unidades para dar aula. Lembro que ainda amamentava a minha filha. Amamentei meus filhos durante muito tempo: oito ou nove meses. Todos eles. A Luiza devia ter seis meses de idade, eu embarquei e... Não, tinha mais. Talvez estivesse já no oitavo mês, eu embarquei e foi um problemaço. Porque os meus seios ficaram repletos de leite [risos]. Lembro que eu ia para a pia tirar o leite do seio, porque ainda produzia muito leite. E passei 11 dias embarcada naquela época, foi o maior período que passei embarcada na minha vida. É duro. Não gosto de trabalhar embarcada. Eu acho bacana embarcar eventualmente. Vivenciar aquela vida das pessoas, comer com eles, conversar, trabalhar, interagir com aquele time, era bem bacana. Mas, passar 14 dias embarcada não era, nunca foi pra mim. Nunca gostei desse regime 14 por 21. Muito tempo fora de casa, eu sentia saudade. Mas,  trabalhar eventualmente embarcando eu gostava muito. É bom  sair do escritório. Até hoje, gosto de fazer alguma coisa diferente, visitar uma unidade, uma universidade, uma área industrial. Isso é bom para sair daquele dia a dia do escritório. É estimulante. 

 

P – Da rotina. 

 

R – Da rotina, é muito bom. Isso é uma coisa que eu fazia com frequência porque gostava mesmo. Como gerente setorial de operações.

 

P – Aí, dessa gerência da P-7 você...

 

R – Fui convidada para ir para a P-20, quando comecei a trabalhar em Marlim. A Petrobrás 20 era uma semi-submersível que era o piloto de Marlim, que acabou ficando. Quando cheguei em Marlim, já estava lá. Tinha a Petrobrás 18, a Petrobrás 20, a 27. Já tinha a Petrobrás 33 e a 32 estava chegando. Aí, peguei a 32, a 35 e a 37 chegando no período. Até chegando o boom de Marlim, que foi no ano 2000, onde alcançamos o recorde de produção do campo de Marlim. Foi uma coisa fantástica, foi histórico. E eu peguei os melhores anos do campo de Marlim, justamente com a instalação das unidades, bem como um time com uma sinergia espetacular, com os melhores gerentes que já tive. Foi uma época de ouro.

 

P – Quem é um dos melhores gerentes?

 

R – José Formigli, que hoje é o gerente executivo do Pré-Sal. Foi uma época maravilhosa, muito bom.

 

P – E Marlim é meio emblemática para a Petrobrás, né?

 

R – Emblemática, isso.

 

P – Acho que também para quem passou por aquela época, todo mundo fala.

 

R – Ah, o time que passou por aquilo não esquece mais, porque foi uma época importante, de grandes desafios tecnológicos. A gente estava explorando, produzindo em águas profundas e instalando os primeiros Fpso [Unidade Flutuante de Produção, Armazenamento e Transferência], que adaptamos para serem plataformas de produção, fazendo as primeiras operações de off-load, colocando planta de processo em cima de navio. Era tudo diferente, né? Então, fazendo ancoragens em lâminas d'águas acima de mil metros. Tudo era especial em Marlim. Dos desafios tecnológicos ao grupo ao estímulo que era trabalhar e produzir, ter a maior produção da Bacia de Campos também num único ativo de produção. Isso era bastante estimulante. Foi uma época bem bacana.

 

P – Cristina, a gente pode dizer que todas essas inovações serviram um pouco de escola para o que veio depois, para essa área de offshore?

 

R – Com certeza, essa foi a grande escola, não só no que se refere à tecnologia, como também na forma de produzir um campo. A filosofia, a estratégia que nós utilizamos em Marlim de atacá-la por partes várias fases de desenvolvimento, foi a mesma que a gente aplicou em outras áreas da companhia, como Roncador, Marlim Sul, Marlim Leste, Albacora... Não, Albacora não, Albacora Leste, só tivemos uma unidade. Especialmente Roncador e Marlim Sul que a gente também fez assim por fases. Ou seja, você vai conhecendo o reservatório e vai colocando na unidade. É uma estratégia semelhante à que a gente quer fazer agora no Pré-Sal. Então, a primeira escola mesmo que a gente aplicou isso foi em Marlim. Antecipando produção e tendo mais segurança para colocar a unidade definitiva no campo, tendo menos chance de errar.

 

P – Essas que você falou, até por uma questão que você está contando de planejamento, estratégia, você falou também das inovações que vocês fizeram...

 

R – Isso, junto com a comunidade, com a universidade, com os supridores e com o Centro de Pesquisa. A Petrobrás sempre trabalha com muita gente.

 

P – Eu queria que você falasse um pouco disso. Essa inovação técnica que vocês tiveram e que desenvolveram, você atribui à que? À essa conjunção de parcerias com universidade, ou o que? Você que vivenciou esse momento também.

 

R – No primeiro momento você inova porque precisa. Se nós não inovássemos em Marlim, não iríamos produzir em água profunda. O óleo estava lá, a gente tinha que tirá-lo de lá. Então, desenvolvimento tecnológico você pode fazer sozinho ou em parceria. O Centro de Pesquisa sempre trabalhou muito com universidades, empresas de serviço, outras operadoras. Dependendo da forma com que você quer abordar aquele problema e quão estratégico aquilo é para você. Então, se trabalhar com todos esses participantes é muito importante, você corta caminho, né? Antecipa as coisas. Promove uma rapidez grande no desenvolvimento tecnológico. E isso foi fundamental para que a gente produzisse Marlim. A companhia sempre primou por ser inovadora e, digamos, sem temor de aplicar determinada tecnologia, porque precisava. Totalmente. Se a gente não tivesse feito isso, não teríamos produzido uma gota de óleo em águas profundas. Então, são desafios que a companhia sempre teve e vai continuar tendo. Está agora com um grande desafio pela frente, que é a produção do Pré-Sal. E isso faz parte da cultura da empresa: arriscar. É Colocar a tecnologia e arriscar, sem ter muito medo de errar. Arriscar, mas tendo atenção para a pesquisa e para o conhecimento também. Quando eu digo arriscar, é disso que estou falando, porque se você está no estado da arte, está no limite tecnológico, já está arriscando. Você não sabe se vai dar certo, faz tudo para dar certo. Faz análise de risco e quer se certificar e, pelo menos, quantificar o risco que está tendo. Mas, se você não tiver coragem de dar aquele passo para a frente, você não vai fazer. E a companhia não pode ter medo de errar. É disso que eu estou falando. E a cultura da Petrobrás, até hoje, tem sido não ter medo de errar. Porque se a gente começar a ter medo de errar, não inovamos mais. Você não cria mais, e aí, não vai conseguir avançar e desafiar todos esses obstáculos que têm pela frente, quando você está tratando de áreas que ninguém no mundo antes produziu. A Petrobrás foi uma das primeiras no mundo a produzir em águas profundas e reconhecida como a melhor companhia de produção em águas profundas no mundo. Durante um período. Agora existem outras. Há companhias que estão produzindo em águas mais profundas do que a gente. Mas, a Petrobrás foi pioneira nisso, reconhecida internacionalmente pela sua capacidade e competência tecnológica. Então, nós agora vamos fazer a mesma coisa de novo. A companhia vai ser a primeira a explorar o Pré-Sal em águas profundas e ultra profundas. Não tem jeito. Ou a gente faz, ou não faz [risos]. Não há opção. 

 

P – Cristina, a gente chega lá no Pré-Sal. Quero chegar também, mas, não quero atropelar a sua trajetória. Você ficou quanto tempo em Macaé? 

 

R – 15 anos.

 

P – As crianças cresceram lá?

 

R – Isso. Depois eu tive outra menina em 1995, a Julia Sartore, que vai fazer 14 anos essa semana. E permanecemos lá até 2004, quando eu vim para o Rio. Antes disso, fui gerente da Petrobrás 7, como falei. Depois, fui gerente da Petrobrás 20. E durante o período Marlim, meu chefe era o Formigli. Ele saiu, foi trabalhar como gerente executivo de uma área de serviços, a Pserv, ainda dentro de Exploração e Produção. Eu continuei na P-20. Mas, queria conhecer outras áreas da companhia. Não queria ser só gerente setorial de operações. Então, surgiu a oportunidade de trabalhar na área de Serviços, como gerente do setor de Ancoragem e Terminais Marítimos. Eu quis conhecer essa área e pedi para ir para lá. Troquei de posição com o gerente que estava lá. Ele foi para a área de Produção e eu fui para a área de Ancoragem. Foi muito bacana.

 

P – Isso quando?

 

R – Foi em 2003.

 

P – Aí, em 2003 você assumiu essa gerência, você pode repetir?

 

R – Isso. Em 2003 eu pedi para mudar, para ir para a área de Serviços para ter uma outra experiência na companhia. Fui trabalhar na área de Ancoragem e Terminais Marítimos. Gostei muito. 

 

P – Aqui na sede?

 

R – Não, lá em Macaé.

 

P – Ainda em Macaé.

 

R – Fiquei lá aproximadamente, não me lembro bem o mês, mas foi no início de 2003. E continuei trabalhando em Macaé. Meu marido também estava trabalhando em Macaé, na Bacia de Campos. Ele trabalhava no Suporte Técnico nessa época. Fiquei um ano e pouco na Ancoragem. Era um trabalho bem mais tranqüilo do que ser gerente de plataforma. O gerente anterior tinha feito um ótimo trabalho de organização do setor, quando cheguei lá estava tudo bem organizado, arrumado. Eu tinha só que fazer o trabalho, manter o pessoal motivado e planejar os desafios que iam ter naquele ano, de ancorar as unidades e tal. Mas, é um trabalho bem tranquilo.

 

P – E dos sistemas vocês já tinham também, para...

 

R – Não conhecia quase nada. Dessa área conhecia muito pouco. Fui aprender muita coisa nessa área de Ancoragem. Principalmente aprender a ser prestadora de serviço dentro do segmento de Exploração e Produção, porque quando você trabalha para a plataforma, você está no topo da cadeia alimentar. Está todo mundo trabalhando para você, né? Então, a Ancoragem trabalha para você, os navios, os barcos de apoio, tudo trabalha para você. Eu fui ser a prestadora de serviço que vai levar pedrada do cara que está aqui. Mas, queria participar, queria ter essa...

 

P – A Ancoragem atende à todo mundo também?

 

R – Todo mundo. Mas, sempre prestando serviço. E era uma experiência que eu queria ter. Como é que é o outro lado? Como é o outro lado da Exploração e Produção? Como é quando você não está no topo da cadeia alimentar? Foi muito bacana a experiência. Até que, em julho de 2004, quando estava voltando das minhas férias, com o joelho rompido de uma aventura de esqui, o Formigli, que já estava aqui no Rio trabalhando como gerente executivo da área de serviços, foi convidado para ser gerente executivo da Engenharia de Produção. Era uma nova gerência executiva criada pelo diretor Estrella na época. Aí, ele me convidou para ser gerente geral de Instalações de Produção, Manutenção e Inspeção. Cargo que ocupo até hoje. 

 

P – É Instalação...

 

R – É Instalações da Produção, Manutenção e Inspeção. Era um cargo irrecusável, né? Eu era gerente setorial, passei a ser gerente geral. Estava pulando pelo menos um degrau na escala hierárquica da companhia, né? E vir trabalhar na sede. Era um desejo meu vir para o Rio, porque à essa altura meu filho mais velho já estava morando aqui, estudando. Meu pai, minha mãe já tinha morrido, estava muito doente, começando a apresentar sintomas de Parkinson, então, era uma coisa preocupante. Era época boa de eu vir para o Rio. Em agosto de 2004, fui embora, em setembro de 2004, fiz a mudança para um apartamento. Meu marido só conseguiu a transferência em novembro de 2004. E ele foi trabalhar no Centro de Pesquisas da companhia, como gerente também de Tecnologia, Materiais e Corrosão. E eu como gerente geral aqui no Edifício Sede, estou nesse cargo até hoje, foi uma excelente experiência, diferente, né? Trabalhar na Sede. Eu sempre vim de área operacional, de produção. Trabalhando numa unidade de negócio em Macaé, com experiência sempre fora do Rio. Foi minha primeira fase como profissional morando no Rio de Janeiro. Profissional de um determinado nível, né? Antes eu era quase uma estudante. Quando saí daqui, fui morar em Volta Redonda, depois em Macaé. Quer dizer, morei muito tempo fora do Rio de Janeiro. 18 anos fora do Rio, já formada. Então, foi tudo muito legal, tudo muito diferente. Trabalhar na Sede, lidar com aspectos estratégicos, ser o suporte técnico de todas as unidades de negócio do E&P [Exploração e Produção]. Fornecer suporte de decisão para os níveis hierárquicos mais altos da companhia, ter acesso à gerência executiva, diretoria, ao próprio presidente. Algo que eu nunca tive chance de, estando como gerente setorial,pois trabalhando em Macaé se está muito distante desse centro do poder. E você poder trazer a sua experiência profissional, sua sensibilidade da operação e da produção de óleo e gás. Quer dizer, onde as coisas acontecem, para dentro da Sede da companhia, é muito importante.

 

P – Do lado operacional mesmo para o lado das decisões...

 

R – Para o lado da decisão do negócio. É muito importante, entendeu? Fazer esse mix é importante para qualquer companhia. Trazer pessoas que já tiveram aquela vivência operacional para, justamente, atuar como suporte de decisão, suporte técnico, gestão do conhecimento. Com um time de consultores e técnicos de alto nível. Uma sede tem que ser isso, tem que ser enxuta, mas, experiente para poder dar as diretrizes para as outras áreas de negócio da empresa.

 

P – E tem que ter essa trama, né? Essa maleabilidade do outro lado também, não ser só um lado distante do que que está acontecendo lá.

 

R – Exatamente. Ter uma sede que se criou só na sede não é bom para ninguém, né? É bom ter esse mix de pessoas, que vieram lá da área operacional para vir depois já maduras, experientes e exercerem esse papel gerencial. Foi o meu caso. 

 

P – O próprio Formigli também, né?

 

R – O Formigli veio, claro. Começou a vida dele embarcado, como gerente da área de Engenharia de Poços, veio crescendo na companhia e hoje está exatamente no lugar que deveria estar, depois de muitos anos. Ficou anos em Macaé também. Sei lá quantos anos ele ficou, talvez 15 ou 16, ficou mais do que eu, com certeza. Porque saiu da faculdade e entrou na Petrobrás, não teve aquele desvio que eu tive. Sempre foi mais certinho. Então ele saiu do IME [Instituto de Matemática e Estatística], ou ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica]? Não, IME. Saiu do IME e entrou na Petrobrás. Então, eu vim para o Rio e estou trabalhando até hoje aqui. Minha família custou um pouquinho para se adaptar, principalmente as crianças. O Rio de Janeiro é uma cidade bem diferente de Macaé, elas nasceram em Macaé.

 

P – Elas gostavam de Macaé?

 

R – Adoravam.

 

P – Porque Macaé era uma vida calma também. Isso a gente não explorou, mas tinha um lado de uma vida mais calma, né?

 

R – Era uma vida ótima. Eu tinha uma casa ótima, com um espaço muito bom. Macaé é uma vida em que as pessoas vão na sua casa, você faz churrasco, vai na casa delas, aparece sem ser convidada. É assim que funciona, né? Principalmente nos anos em que morei lá, que tinha tão pouca vida social, bares, restaurantes, não tinha quase nada. Muito ruinzinha a cidade, nesse aspecto de suporte. Hoje, melhorou bastante. Então, a vida era praticamente dentro de casa. Ir na casa do outro, o outro vir na sua casa. Você curtir a casa, a piscina, o sol, a praia. É isso, né? E as crianças brincando no quintal, na rua, com os vizinhos. Era uma vida muito boa nesse aspecto. Trabalhar e almoçar em casa. Era assim, agora não é mais, tá? A cidade cresceu demais. As pessoas que estão lá não têm mais essa vida tão calma quanto eu tive. Hoje, dificilmente um amigo meu vai para casa almoçar, o trânsito não deixa.

 

P – Cristina, essa sua nova gerência é um outro tipo de pressão, né? Diferente até de ser gerente de uma plataforma, que é uma baita pressão?

 

R – Totalmente diferente. Primeiro que a exposição dos seus atos é maior, então, você está sendo o tempo todo medida, né? "Agora a Cristina é gerente geral." Você é medida pelos seus pares, pelos seus subordinados. E eu quando cheguei na Sede, não tinha a menor ideia da autoridade que ia ter. Quer dizer, tinha alguma ideia, mas não podia imaginar que fosse, não é autoridade que eu quero dizer, é o quanto esse cargo representa para a companhia. Você começa a perceber aos poucos, conforme as pessoas vão falando com você. Foi assim um pouco chocante perceber que as pessoas tinham uma certa deferência para falar comigo, entendeu? Pô, eu sempre fui tão escrachada na frente operacional, falava um monte de palavrão. Conversava informalmente com meus colegas. Vestia macacão, bota. Quando cheguei aqui, o Formigli falou assim: "Olha, você vai ter que dar uma segurada nesse seu jeito” [Risos]." "Mas, como assim dar uma segurada?" "Não, Cristina, é porque aqui vai ser, não estou querendo que você mude completamente, mas é bom dar uma suavizada no vocabulário, né?" Eu era muito desbocada. Agora, estava trabalhando na Sede da companhia. Esse foi um aspecto. Outro aspecto é, tive que ser mais madura na defesa das minhas ideias. Não que eu tenha que abrir mão delas. Mas, defender as coisas com mais propriedade, com fatos e dados. Hoje, os erros que você comete na defesa de alguma coisa têm muito mais consequências do que tinham na unidade. O seu poder de decisão e de influência é muito maior. Então, você tem que estar bem amparado, ter a tranquilidade para ouvir o que as pessoas estão falando, decidir com elas, orientar. Esse negócio de dar o suporte de decisão para a alta gerência da companhia é um papel muito importante do gerente geral, além de se posicionar, não pode ser omisso. Então, se está fazendo errado tem que dizer que não está legal, que essa não é a melhor decisão. Tem que se expor.

 

P – É uma tarefa difícil. 

 

R – É uma tarefa difícil. Você tem que ter confiança no que está fazendo, tem que ter confiança no gerente acima de você, de que ele vai te dar o suporte, tem que compartilhar. Tem que costurar as coisas antes de levar, tem que ser mais político, mas, político no bom sentido, né? Vamos esquecer essa conotação brasileira de ser político. Mas você tem que costurar as coisas, negociar. Tem que aprender a negociar melhor, se posicionar bem, ouvir as pessoas que estão à sua volta, ter bons gerentes trabalhando com você, de forma que eles, realmente, cresçam com você. Façam um trabalho, integrem uma equipe que vai ter a postura esperada de se posicionar, de dar o suporte adequado. Dar o suporte à decisão, as orientações para a melhoria dos processos de Engenharia de Produção. Meu trabalho hoje é de zelar e garantir a melhoria dos processos ligados às minhas disciplinas no segmento de Exploração e Produção, de forma que a gente possa produzir óleo e gás da melhor maneira possível. Com a melhor eficiência e menor custo. Esse é meu trabalho hoje. Mas, já vou mudar.

 

P – Já vai? A gente chega lá, primeiro, você vai me explicar. Instalação são todas...

 

R – As unidades de produção.

 

P – Diz respeito à todas as unidades, o que for instalado desde a plataforma ou algum equipamento? Abrange...

 

R – Tudo. Deixa eu explicar. Instalação de Produção são as seguintes disciplinas: Engenharia Naval, Engenharia Submarina, Facilidade de Produção e Processo, Top Side e Manutenção e Inspeção. Tudo que está relacionado ao Suporte Técnico, desde a árvore de natal, que é o equipamento que está lá no...

 

P – Na boca do poço.

 

R – Na boca do poço, exatamente, no leito marinho, até o flair é comigo. Suporte técnico à essas disciplinas, no que se refere a equipamento, tá? É isso. Há algumas disciplinas de Mecânica Mole, que estão envolvidas nisso aí, que não são comigo, mas, com uma outra área chamada Processamento. O que se refere à equipamento é comigo.

 

P – Não é pouca coisa, né? Vamos combinar.

 

R – Não, é muito importante. É um time de quase 90 técnicos, engenheiros, consultores da Petrobrás, mais algumas pessoas que dão suporte, que são contratadas. São umas 115 pessoas trabalhando com a gente nessa Gerência Geral.

 

P – O que dá mais problema nessa parte toda de inspeção, manutenção? Eu queria perguntar: vocês trabalham também com manutenção preventiva, né?

 

R – Não, você tem várias técnicas de prevenção. Na verdade, de manutenção. O meu trabalho é dar as diretivas. Eu não executo nada. Quem executa é o campo, tá? Mas, toda parte de procedimentos, orientações, direcionadores é dado pela Sede. Harmonizar o que tem de melhor na companhia e espalhar esse conhecimento é a Sede quem faz. Medir o que vocês estão fazendo, ver as tendências, a integridade das instalações, esse papel é da Sede.

 

P – E as diretrizes para a manutenção...

 

R – São dadas pela Sede.

 

P – Mas, é uma manutenção preventiva.

 

R – Você tem várias. Tem a manutenção preventiva, a manutenção preditiva, a manutenção na condição e a manutenção corretiva. Todas essas técnicas são válidas, cada uma no seu nicho, cada uma com a sua aplicação. O papel da Sede é dar essas orientações, é ter como se fosse uma política de manutenção de Exploração e Produção. Procedimento E&P. “Qual é a política de manutenção que deve ser adotada nas unidades de produção de óleo e gás da Bacia de Campos? Ah, é essa daqui. O livro é esse daqui. Você tem que seguir isso. Esses são os índices de controle que você tem que medir, essa é a manutenção que você tem que fazer." Agora, o plano de manutenção: "Vou trocar esse parafuso." “Não, isso é lá na unidade.” Esse detalhe eu não entro, digo ao cara quais são as diretivas que ele tem que seguir e de que forma ele vai medir para eu poder comparar um com o outro e saber se aquela manutenção está eficiente ou não. Agora, o fazer, planejar e executar é na unidade operacional. 

 

P – E essas diretrizes vocês vão definindo de que forma? Com estudo...

 

R – Com estudos, conhecimentos, nossa própria experiência. Como  falei, a grande contribuição de uma Gerência Geral como a minha no segmento E&P é a melhoria contínua dos processos. Então, você tem que pegar os erros, os acertos, os gaps, as ineficiências e transformar em procedimentos, direcionadores, filosofias a serem aplicadas de forma que você tenha sempre melhoria de tudo. Além de garantia de que você vai estar sempre produzindo óleo e gás de maneira mais eficiente possível, com menores custos e segurança. Esse é o meu trabalho.

 

P – E dentro dessa parte também de redução de custo, isso tem que ser... é diretriz de vocês como cada unidade ou cada...

 

R – As unidades têm que controlar seus custos. Como eu falei, já tinha um orçamento na P-20. Elas têm os orçamentos delas de custo operacional, custo de investimento, tudo. Então, têm que se manter naquilo. Eu vou procurar fazer, por meio dos direcionadores, que elas gastem cada vez menos e produzam mais. Todo mundo vai estar buscando isso. E mantenham as suas unidades íntegras e aplique a lição que a gente aprende aqui nos projetos novos. Eu também sou responsável pelas diretrizes de projeto para aplicação em projetos novos. O que eu aprendi aqui, tenho que aplicar lá, se aprendi que um determinado sistema de bombeio vai operar melhor com três bombas assado numa determinada configuração, vou aplicar isso nos projetos novos. 

 

P – Vamos chegar ao Pré-Sal. A sua gerência já está acompanhando também os novos projetos?

 

R – Já.

 

P – Conta pra gente um pouquinho, o que vocês...

 

R – Bom, a Gerência Executiva do Pré-Sal, cujo gerente é o Formigli, foi criada para trabalhar matricialmente. Ou seja, não é independente por si só. Precisa do apoio técnico de várias gerências da companhia, do E&P. Por que? Para que nós pudéssemos justamente absorver a experiência advinda de vários projetos aplicadas à isso. Então, a minha Gerência Geral, como dava suporte técnico para várias unidades operacionais do E&P e participou do desenvolvimento da produção de várias unidades do E&P, agora trabalha para o E&P Pré-Sal, com direcionadores de projeto, suporte ao desenvolvimento do projeto. Suporte técnico na área de Naval, Top Side, tudo isso. Aqueles técnicos, junto com o Centro de Pesquisa, com o setor de Engenharia da companhia, com a área de Serviço da Exploração e Produção, nós todos trabalhamos para fazer o Pré-Sal acontecer. 

 

P – Você sabe me dar uma média de quantas gerências fazem essa rede? Conformam essa rede para o...

 

R – Bom, na Engp, trabalham a Gerência de Reserva e Reservatório, a Gerência de Poço, a minha Gerência e a Gerência de Processamento. Somos quatro gerências gerais trabalhando para o Pré-Sal. Só nesta Gerência Executiva de Engenharia de Produção. Fora isso, temos ainda trabalhando para o Pré-Sal o Centro de Pesquisa e a área de Serviços. Dentro da área de Serviços, há mais quatro gerências trabalhando para eles. A área de Engenharia, o Jurídico, sei lá, talvez umas 20 gerências trabalham para o Pré-Sal. Assim, mole.

 

P – Cristina, já era utilizada essa forma matricial? Eu sei que foi usada até para a estruturação do Procap [Programa de Capacitação Tecnológica em Águas Profundas] também, né?

 

R – O Procap é um programa, é diferente.

 

P – Não, pois é para o programa, para a sua estruturação. Agora, isso já vinha funcionando na Petrobrás para outros tipos de...

 

R – Para o E&P foi uma...

 

P – Ou é agora?

 

R – Foi original.

 

P – É agora para o Pré-Sal.

 

R – Para o Pré-Sal foi bem diferente.

 

P – Então o que é que...

 

R – Nunca tínhamos trabalhado matricialmente no desenvolvimento de projeto dessa maneira. Sempre teve uma… por exemplo: a UN-RIO, por exemplo. A UN-RIO trabalhou na implantação dos seus projetos como UN [Unidade de Negócio], responsável. O Pré-Sal não é uma unidade de negócio. É uma gerência executiva que trabalha com o apoio técnico de várias gerências até uma determinada fase do projeto. Depois, entrega para uma unidade de negócios, entendeu? A unidade de negócio vai cuidar do Pré-Sal. Isso para nós foi uma novidade, a forma como a gente está preparando o Pré-Sal para ser entregue para uma unidade de negócio operar e produzir. 

 

P – E as unidades, por exemplo, Espírito Santo e Santos?

 

R – Não trabalharam assim.

 

P – Não, mas, elas estão ligadas ou vão recebendo de vocês...

 

R – Elas vão recebendo da Gerência Executiva do Pré-Sal.

 

P – Do Pré-Sal, o que está saindo...

 

R – Assim que ficar pronto o conceito e o projeto básico, a Gerência do Pré-Sal entrega esse projeto de implantação para a UN continuar o desenvolvimento. 

 

P – Em relação à esse projeto básico, quando teve mais ou menos um início? Quando vocês começaram a trabalhar dessa forma?

 

R – Ah, tem pouco tempo, começamos a trabalhar dessa forma ano passado.

 

P – E vocês têm uma previsão...

 

R – Final de 2007. É, em abril de 2008, a gente começou efetivamente a trabalhar. 

 

P – E vocês têm um projeto, uma previsão de quando vocês vão finalizar esse projeto para...

 

R – Não, porque começa com um projeto, depois entramos em outro. Então, a gente tem planos para até 2020, em relação ao desenvolvimento do Pré-Sal.

 

P – Aí, vocês trabalham o Pré-Sal como um todo ou estão trabalhando ele setorizado pelas, por exemplo, Bacia de Santos...?

 

R – A gente está focando fortemente na Bacia de Santos. Tem Pré-Sal no Espírito Santo.

 

P – Que já está até produzindo?

 

R – Isso, nós estamos aproveitando unidades que iam para lá produzir uma determinada área. Essa área tem Pré-Sal, então a gente vai furar mais embaixo e produzir o óleo.  Mas, a intenção de colocar as unidades não era essa, elas vão simplesmente produzir o Pré-Sal porque já estão lá, ou estarão. Para a Bacia de Santos, não. Para a Bacia de Santos é um Plano Diretor de Exploração do Pré-Sal da Bacia de Santos, é esse que estou dizendo que tem um plano especial.

 

P – É esse projeto básico, vai de...

 

R – Quando eu digo projeto básico, é uma expressão que significa que é um projeto de uma unidade mais avançada em relação à um projeto conceitual, tá? O que estou falando agora é mais do que isso, eu estou falando do Plansal, que é uma espécie de Plano Diretor de Exploração do Pré-Sal na Bacia de Santos. 

 

P – O que é o Plansal?

 

R – Então, hoje, a Gerência Executiva do Pré-Sal trabalha fortemente para isso. 

 

P – Com toda essa rede de...

 

R – Com toda essa rede de relacionamento de gerências que estão trabalhando matricialmente para o Pré-Sal. 

 

P – E essa rede vai trazer todo o conhecimento que vocês acumularam nesses anos...

 

R – Essa é a intenção. Cada área e disciplina traz para aplicação no Pré-Sal todo esse conhecimento já desenvolvido da produção de outras áreas da companhia.

 

P – Seria possível você partir do zero? Qual é a importância da Bacia de Campos para esse projeto?

 

R – É impossível partir do zero, sem chance. Primeiro porque a lâmina d'água do Pré-Sal é de 2.200 metros. Então, se a gente não tivesse o desenvolvimento em água profunda, jamais ia conseguir produzir lá. Segundo, porque apesar dos reservatórios terem característica muito diferente, você sempre aprende alguma coisa. Embora Marlim, por exemplo, tenha uma característica muito distinta, na Bacia de Campos a gente tem reservatórios semelhantes à esses que estamos achando no Pré-Sal, são os carbonatos. Então, alguma coisa a gente aprendeu lá para perfurar. Segundo, é o que eu falei, o approach que a gente está usando para o desenvolvimento do Pré-Sal foi o que usamos também na Bacia de Campos. Tem toda uma escola aí para você colocar um piloto, um teste de longa duração, entender melhor como é que é o reservatório. Isso já tínhamos usado na Bacia de Campos.

 

P – Vocês já tinham teste de longa duração também?

 

R – Já tínhamos usado na Bacia de Campos, então, são coisas que estamos aplicando direto. A Bacia de Campos foi a grande escola. Hoje, a gente não seria capaz de produzir uma gota de óleo no Pré-Sal se não tivéssemos aprendido bastante na Bacia de Campos. Isso é toda uma história da companhia em águas profundas que, com certeza, está fazendo a diferença. É por isso que a gente está conseguindo, vamos conseguir produzir o Pré-Sal em toda a sua plenitude em alguns anos.

 

P – Em relação à esse teste de longa duração, até para quem não é da área e quiser depois ler ou assistir a entrevista, vocês participam também? Como é que é? 

 

R – Mesma coisa, ele é um projeto de desenvolvimento. Então, apesar de ser um teste de longa duração, tem início, meio e fim curto, esse projeto tem 15 meses. Nós participamos ativamente com todas as nossas disciplinas para que ele pudesse acontecer, desde o reservatório até o flair das unidades, houve a participação da Engenharia de Produção, nas suas várias disciplinas, dando suporte técnico ao Pré-Sal.

 

P – Você falou que os reservatórios têm certas diferenças. Você pode explicar, assim, de uma forma bastante....

 

R – Não é a minha disciplina, mas posso explicar de uma forma bem...

 

P – Básica.

 

R – Básica, simples, né? Em Marlim, os reservatórios não são carbonatos, são toleditos, então, têm uma permeabilidade melhor do que esses carbonatos que nós temos no Pré-Sal. Estes carbonatos são menos permeáveis, dão um pouco mais de trabalho para tirar o óleo de lá. Além disso, eles não são totalmente homogêneos. Então, tem todo um aprendizado que a gente precisa ter de produção de óleo nos carbonatos, que é diferente do que a gente aprendeu em Marlim. Em certo aspecto, a sensibilidade que os engenheiros de reservatório tiveram lá em Marlim, de conhecer a natureza, está sendo trazida, de alguma forma, para entender o comportamento dos reservatórios carbonáticos. Mas, isso é novo para a companhia. Tínhamos poucos reservatórios carbonáticos antes de achar o Pré-Sal. Temos alguns e estamos aplicando o que a gente conhece. Isso junto, inclusive, com universidades, consultores internacionais e outras operadoras que têm conhecimento. A gente está tentando compartilhar isso para acelerar o conhecimento dentro da companhia. 

 

P – E da sua área, como vocês também estão se preparando para fazer essas novas diretrizes? Vocês também estão fazendo...

 

R – Estamos trabalhando fortemente, mudando...

 

P – Mudando os seus estudos?

 

R – Mudando a nossa forma de operar e de manter as unidades. Procurando fazer unidades mais simples e menores. Estamos aplicando uma forma diferente de produzir o Pré-Sal por conta de todas as dificuldades que existem na área com relação à logística. É muito longe. Então, a gente tem que pensar diferente, senão não vamos conseguir fazer da forma mais econômica possível. Estamos tendo que otimizar nossos recursos para o Pré-Sal.

 

P – Até devido às condições também, né, Cristina?

 

R – São condições diferentes, climáticas, ambientais, é longe da costa. Há vários desafios, principalmente de logística.

 

P – É a logística que cuida também dessa parte? Tem uma Logística nessa...

 

R – A parte de logística, a disciplina em si, está sendo criado um grupo agora, né? Especialista em trabalhar com Logística do Pré-Sal.

 

P – Esse ambiente é um pouco mais hostil do que a Bacia de Campos?

 

R – É, em termos de altura de onda, corrente e vento.

 

P – Isso para manutenção e também para instalação?

 

R – Para instalação é complicado, já traz um pouco de desafio, ancorar a unidade, né, movimentar os barcos. Tudo isso traz alguns desafios, pendurar os raisers. Tudo é mais complicado nessas unidades, mas, não é impossível, tá? Já temos tecnologia para fazer isso.

 

P – Vocês já têm?

 

R – Já temos. Só que a gente quer otimizar, fazer do jeito mais barato. Então, a gente agora não só tem a tecnologia como também está querendo melhorar o que temos de modo a colocar lá e produzir o Pré-Sal de uma forma ótima.

 

P – A escolha de plataformas menores, que você falou, seria em função do custo ou do...

 

R – Do custo de transporte e de operação das unidades. Além disso, porque para a característica desses reservatórios, não é preciso colocar unidades onde seja necessário processar 200 mil barris. A característica desses reservatórios carbonáticos é diferente dos arenitos que eu falei lá de Marlim, em que você precisa injetar muita água para trazer aquele óleo que é mais pesado. Esse óleo é mais leve, então, não tem uma movimentação de água grande. Se não tem uma movimentação de água, não precisa processar essa água dentro de uma unidade, ou seja, a unidade não precisa ser muito grande. Há uma série de boas características do Pré-Sal, que faz com que a gente pense em trabalhar com unidades menores: 100 mil barris, 120 mil barris. Além disso, tem toda essa parte de desafio logístico, em que a gente quer investir um pouco mais na automação e no gerenciamento remoto dessas unidades, de forma a reduzir o número de pessoas que vai estar dentro delas. Vai aliviar bastante os custos operacionais de transporte dessas pessoas, comida, água, diesel, tudo isso.

 

P – Isso é uma novidade.

 

R – É, vai ser uma novidade. Esse é um trabalho bacana, vou estar trabalhando nisso, vai ser legal.

 

P – Depois, a gente vai ter que fazer outra temática com você, quando já houver, para você contar como é.

 

R – Tá bom.

 

P – Cristina, quero te perguntar, o que você sente ao estar participando disso? Ainda, vocês têm essa sensação de estarem passando por um momento meio histórico? Como é? O que você está sentindo?

 

R – Estamos. Eu tenho claramente isso. Quando fui para Marlim, não tinha isso claro. Eu percebi no meio do jogo. Mas, agora que estou começando, porque falei que Marlim, quando eu fui já tinha começado, assim mesmo eu, no meio do jogo, percebi que aquele jogo era importante. E peguei o boom de Marlim, o pico de produção. Eu tenho muito orgulho de ter participado disso. Realmente, agora com o Pré-Sal nós estamos vivenciando uma nova era na companhia, em que há  um novo mundo para ser explorado e produzido. Onde temos a expectativa de dobrar a produção da companhia, dobrar a produção no Brasil de óleo. Já alcançamos a autossuficiência, agora podemos ser exportadores de petróleo em 10, 15 anos. Já exportamos, mas, podemos ser grandes exportadores, ou, pelo menos, grandes produtores e contribuir fortemente para o crescimento  do país. A companhia estará dobrando de tamanho, provavelmente nos próximos dez anos. É um momento histórico estar participando, poder estar na companhia e mais ainda, privilegiada no local onde estou. Podendo participar fortemente do desenvolvimento do Pré-Sal, podendo orientar, dar suporte à decisão para os gerentes executivos e diretores e procurando influenciar de forma que a gente possa tomar os melhores caminhos e garantir que estamos tomando as melhores decisões. Assim, no futuro, em dez anos, a gente vai olhar para trás e pensar: "Realmente, aquela turma lá, aqueles gerentes, operadores e engenheiros fizeram um trabalho extraordinário." É muito bacana.

 

P – Queria saber, das suas metas de gerência, tem alguma coisa que você possa falar sem quebrar o sigilo? Algo meio...

 

R – Da minha gerência?

 

P – É, da sua gerência.

 

R – A minha gerência vai continuar trabalhando e dando suporte técnico para o Pré-Sal. Vamos participar fortemente agora da elaboração do projeto, das diretrizes, dos oito FPSOs, que vamos colocar ao longo dos próximos anos no Pré-Sal. Já estamos trabalhando nesses três que vamos colocar. Nessa primeira fase serão 11 FPSOs. Num futuro...

 

P – Os três primeiros entram quando?

 

R – Até 2013 entram três, até 2016 entram mais oito. Em 2017, a gente estará produzindo um milhão de barris no Pré-Sal. Por exemplo, quando a Bacia de Campos produziu um milhão, eu estava lá. É bacana isso. Se eu puder estar participando agora do mais um milhão no Pré-Sal, vai ser um marco histórico bacana. Então, a minha gerência atual vai continuar dando esse suporte técnico forte e garantindo, principalmente, que esse conhecimento não se perca, que a gente possa passá-lo de técnicos para outros técnicos. A Petrobrás vai receber mais engenheiros, operadores e técnicos que vão trabalhar para o desenvolvimento da companhia nos próximos 20, 30 anos. Um dos grandes méritos também da sede de uma corporação é ter a gestão do conhecimento e isso é uma das responsabilidades da minha área também.

 

P – Vocês fazem um trabalho interno?

 

R – Sim, para garantir que esses conhecimentos fiquem documentados e passados, o conhecimento formal, tácito, né? E o conhecimento não tácito também, para os técnicos e engenheiros que estão entrando.

 

P – Tem uma parte que é bastante sigilosa, né? Que é para ser mantida dentro da empresa, ou não?

 

R – É, essa parte é. Mas, ela atinge muito mais o pessoal da Exploração do que da minha área, que possui algum sigilo, mas, nem tanto. A parte de Exploração é bem mais sensível. Reservatório e Exploração é bem mais sensível do que Top Side ou Engenharia Submarina.

 

P – Cristina, queria te perguntar, você comentou que já está meio mudando de...

 

R – Estou, nunca fiquei mais de quatro anos em um lugar no Petrobrás. É uma coisa incrível. Agora, estou mudando para uma Gerência Geral nova que deve começar seus trabalhos no final de agosto, início de setembro, se chama: Operação da Produção e Manutenção. Ela será responsável pela melhoria dos processos de operação da produção, é uma caixa em que a gente identificou essa necessidade dentro da Engenharia de Produção, com o controle, né, da melhoria desses processos. Tínhamos olhado muito para desenvolvimento da produção, de processos, etc. Agora, verificamos que passa a ser absolutamente necessário que a gente também atue nos processos de produção da operação em si. Então, essa Gerência Geral vai ser formada por Operação Segura em Plataforma, Operação Segura em Sonda, Eficiência e Otimização da Operação e Manutenção e Inspeção. Vai ser responsável por controlar, medir e fazer projeções de vários itens de controle das várias unidades de produção do segmento E&P. Vai atuar mais fortemente, juntando a Operação, Manutenção e Segurança das Operações, tentando fortalecer essa disciplina dentro da E&P, de forma que a gente possa operar cada vez mais unidades com segurança e custos operacionais otimizados. Vamos focar muito na aplicação de Engenharia de Manutenção, de forma a garantir a integridade e a confiabilidade de nossos equipamentos. A gente já faz tudo isso, claro, no dia a dia das nossas unidades. Senão, a gente não estava operando, não tinha nada funcionando. Nós queremos agora que a Sede tenha uma influência forte nisso, dando direcionadores e tentando harmonizar todas as ações da mesma forma que fizemos com projeto, fazer isso em Operação da Produção.

 

P – E vocês também vão dar essas diretrizes...

 

R – Vamos.

 

P – Da mesma forma, vai ser uma...

 

R – Vamos fazer a mesma coisa: suporte técnico; suporte à decisão e gestão do conhecimento. Tudo isso, disseminação de tecnologia associada à essas disciplinas, buscando sempre a melhoria dos processos de operação.

 

P – Tá certo. Queria te perguntar também, se você me contaria uma história que você acha assim ou engraçada, ou interessante, ou que tenha te marcado. Você contou várias aqui, muito boas até. Mas, é uma pergunta que a gente sempre faz. Tem alguma outra história que você lembre que tenha sido...

 

R – Marcante assim?

 

P – É. 

 

R – Acho que tem uma relativamente recente. Minha filha é muito talentosa, a mais nova, tem 14 anos. Ela canta muito bem. E sempre achei muito importante a criança ter um conhecimento humano, né, ter a oportunidade de tocar um instrumento, cantar, fazer balé e tal. Abrir um leque de oportunidades para as crianças, sempre achei isso muito importante. A criança não sabe o que vai fazer, então abrindo para ela, quem sabe ela não vai escolher. E a Julia sempre teve esse talento muito forte para dança, artes, desenho e escrita. Muito talentosa no modo artístico, né? E ela com essa voz maravilhosa começou a fazer aula de canto. Claro, as escolas têm aquele evento anual em que você vai para um determinado ambiente, vai lá mostrar. E ela foi cantar, na primeira vez tinha 11 anos, a gente aqui no Rio, e ela travou. Entrou no palco e... Aí, claro, ambiente de pais e tal. Bate palma. Saiu chorando, não queria mais voltar, então, a professora me chamou. Fui lá, sentei com ela, falei assim: "Ó, deixa eu te explicar uma coisa: quando eu era bem pequena, a minha escola sempre fazia eventos para os pais. Me lembro perfeitamente que uma professora que eu gostava muito falou: 'Cristina, você entra e fala bem alto a sua fala.' Eu fiz: 'tá bom, né?' Sempre fui muito desinibida, mas, estava nervosa. Entrei e vi aquela platéia cheia de gente, eu era bem pequena, não me lembro muito bem a minha idade, talvez sete, oito anos. E a minha fala era só uma frase. Eu tinha que passar pelo palco e muito séria com um negócio na mão, que eu não me lembro o que era. Talvez estivesse cheio de amendoim, porque eu tinha que passar vendendo amendoim. Eu tinha que passar e falar assim: 'Amendoim, torradinho.' Era só fazer isso e passar pelo palco, repetir isso umas três vezes. Eu entrei muito séria. Olhei para a frente e falei: 'Vou fazer o que a professora mandou.' Saí falando: 'Amendoim torradinho, amendoim torradinho.' Fiz direitinho e fui embora. Foi uma festa. Eu fiquei surpresa como aquilo foi um sucesso. Eu só fiz isso [risos]." Mas, naquele momento, contei isso para a minha filha, né, que eu venci o medo, cheguei lá fiz exatamente o que a professora falou. Ela olhou e falou assim: "Você não teve medo?" Falei: "Não, eu olhei para a frente, para as pessoas e fiz. Volta lá e faz da melhor maneira possível." "Mas a voz não vai sumir?" Falei: "Não vai sumir. Vai lá. Faz desse jeito que eu estou te falando que vai dar certo." Aí, ela foi. Muito bacana!

 

P – E conseguiu. 

 

R – Conseguiu. Ela ficou um pouco nervosa, mas, pelo menos cantou. É bacana quando você lembra história, passa para um filho e dá certo. 

 

P – É muito bonitinho.

 

R – É bacana, é isso que me lembro.

 

P – É bacana sim. Cristina, eu queria saber o nome dos três. São três?

 

R – São três. Amure, que é o mais velho, está fazendo 27 anos agora em setembro. A Luiza está fazendo 20 em agosto e a Julia vai fazer 14 agora. Todos fazem em julho, agosto e setembro. Todo mundo junto. 

 

P – E o que o mais velho, Amure, está fazendo?

 

R – Amure se formou em Comunicação e Propaganda, é muito talentoso. Trabalha numa empresa chamada Brands. Hoje, é gerente de Novos Negócios. Então, ele tem que juntar quem tem uma boa ideia, quem tem dinheiro. Ele faz o projeto e ajuda o cara a vender aquela ideia, né? Está na luta também. Gosta muito do que faz, um trabalho difícil, você tem que correr atrás de patrocínio e tal, mas, bacana. A Luiza está fazendo Biologia, passou em primeiro lugar no Fundão. Muito inteligente também, estudiosa, mas, não é nerd não. Gosta de farra, participa fortemente da vida dos estudantes de Biologia. Eles têm uma vida muito diferente da Engenharia, acampam juntos, têm toda uma interação que o pessoal da Engenharia jamais teve. Isso é legal. E ela participa ativamente da Atlética, que é do grupo da Biologia. É o tal do nosso Centro Acadêmico. A Julia, que vai fazer 14 sexta-feira, é totalmente diferente dos outros dois, muito voltada para a área artística. Não sabe o que quer, mas, se mete em tudo. É também uma pessoa muito especial. 

 

P – É a caçulinha.

 

R – Exatamente. Além disso, tenho um marido que vem me dando todo o apoio.

 

P – Qual é o nome dele?

 

R – Fabio.

 

P – Você disse que ele está no Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello]?

 

R – Não, hoje trabalha no Gás e Energia. É gerente dos terminais de GNL [Gás Natural Liquefeito], tanto aqui no Rio quanto lá no Ceará. É uma posição que ele está há pouco tempo, quatro meses. Está trabalhando bastante para fazer com que esses terminais operem da melhor maneira possível.

 

P – Cristina, você se considera uma petroleira? Que tem toda essa história de ter uma alma petroleira?

 

R – Sim, com certeza.

 

P – O que é alma petroleira para você?

 

R – Cara, eu acho que é um pouco daquilo que falei para você: não ter medo de errar. Procurar, claro, acertar sempre, mas, não ter medo de arriscar. É absolutamente necessário que a gente continue arriscando para poder vencer os obstáculos. É ter um espírito de corpo muito forte, defender a empresa, defender o time que trabalha com você. Ser leal à sociedade brasileira, no sentido de saber exatamente a sua missão. Minha missão é produzir óleo e gás para esse país e fazer isso com lealdade, honestidade. E ter na cabeça que a gente tem que perpetuar essa companhia, somos responsáveis por isso. Essa companhia tem que durar 200 anos, porque é fundamental para a sociedade brasileira. Eu não tenho a menor dúvida disso. 

 

P – Acho que ela chega lá, né?

 

R – Com certeza.

 

P – Acho que não são os pequenos problemas que todas as companhias possuem que vão derrubar uma companhia composta por um corpo técnico tão forte quanto a Petrobrás. A Petrobrás é composta essencialmente por petroleiros que fizeram um esforço tão grande ou maior do que eu fiz para entrar nela. 

 

P – Bacana, muito bonito. Cristina, tem algo que a gente não conversou que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Não, acho que a gente falou tudo. É bacana participar desse projeto, né? Fazer essa linha da vida assim e relacionar isso à Petrobrás é muito estimulante. Acho que sou uma pessoa muito privilegiada.

 

P – Vocês é que estão fazendo essa companhia.

 

R – É isso.

 

P – Então, muito obrigada por ter vindo aqui colaborar com a gente.

 

R – Obrigada.

 

- - - FIM DA ENTREVISTA - - -

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