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História

Alice e a arte

História de: Alice Santos Coelho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Alice Coelho nasceu no Vidigal e é a filha do meio de pais diaristas. Durante a infância, sua brincadeira favorita era de pique fruta. Ela estudou a vida inteira num só colégio e tem muitos amigos na comunidade. Na escola, sua matéria favorita é Ciências. Junto com as amigas criou um grupo de Rap chamado Pérola Negra. Entrou no Nós no Morro aos 6 anos de idade por influência da mãe. Ao fazer o teste para a minissérie Suburbia achava que não seria aprovada. Sua personagem em Suburbia é Maria Rosa e tem muito em comum com a própria Alice.

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História completa

Meu pai nasceu na Cruzada e minha mãe no Vidigal. Eles se conheceram num baile, de dançar agarradinho. A minha avó, da parte da minha mãe, é baiana. Eu adoro as comidas que ela faz quando vai lá pra casa. Ela é da Igreja e não gosta de muita brincadeira, funk, essas coisas. Ela começa a orar: “Oh, Glória”; “Tira essas músicas do Diabo.” Eu: “Ih, vó, para com isso!” Mas esses funks de agora são muita baixaria, Cruz Credo! Numa letra só já falou 20, 30 ou trezentos palavrões e desvalorizando as mulheres também. Ridículo. Prefiro curtir mesmo essas coisas da época do meu pai, das dancinhas com a cabeça. Por isso que eu curto mais hip hop. Nós temos um grupo de rap, eu e mais duas garotas que tá fazendo também a minissérie. As outras garotas têm 15 anos; eu 16, e cantamos rap, um pouco de cada coisa: amor; protesto; onde a gente mora.

Nós mesmos escrevemos e cantamos nossas próprias letras. Meus pais são diaristas e trabalham juntos na casa dos clientes deles. E tem uns artistas, que ele trabalha na casa e é bem legal. Eu tenho muito orgulho por eles, do meu pai e da minha mãe. Eu sempre tive ciúmes da minha irmã mais nova, de 13 anos, e a minha mãe me contava uma história de quando ela tava fazendo xixi no pinico, no vaso, eu queria afogar ela por causa de ciúmes. E agora eu amo ela e vi que é só ciúme bobo da infância, porque é muito bom ter uma irmã pra ficar do teu lado, conversar, sair. Onde eu moro é maravilhoso, adoro morar lá, meus amigos. A gente mora de frente pra praia. Eu estou morando na rua agora que é do lado do “Nós do Morro”, o teatro que eu faço as aulas. Tinha vizinha chata que a gente não podia gritar que elas tacavam água gelada na gente. Ela tacou água quente no meu primo pequeno. Tudo mau humor.

E tinha vizinha que era legal também, que dava doce ou pedia pra gente comprar cerveja e dava cachê, dinheirinho. A gente comprava tudo de bala e dividia, fazia piquenique na rua, comprava biscoito Fofura, Guaravita e ficava na rua. E tinha a festa de lama. Quando era aniversário de alguém tinha que fazer um “bolo de chocolate” com lama. Desenhava, fazia a fôrma, pegava aquelas flores mais bonitas, vermelhas e enfeitava. Era tipo família naquela rua que eu morava. Na comunidade um ajudava o outro. Não tinha arroz, o outro emprestava ou até dava. Era sempre uma união, um ajudando o outro.

Eu sempre estudei no Tamandaré, até hoje. Tô no primeiro ano, estudando de noite. Eu adoro estudar e gosto mais de Ciências. Nunca repeti, e sempre fui aquela menina dedicada da escola. E já colei, assumo. Normal, mas também já passei cola. É a vida, faz parte da vida. Uns falavam que era só louco que tinha no “Nós do Morro”, que era uns caras malucos por conhecer a arte: “Ah, são loucos, tem que ver as peças, o cara fez um gay, a mulher fez uma coisa”, isso e aquilo. Eles não percebiam que aquilo era teatro, que era só uma peça. Eu entrei por causa da minha mãe e fiz a minha primeira peça, que eu morri de vergonha, porque era todo mundo da comunidade, me olhando. Umas pessoas rindo, falando: “Olha lá a Alice”.

E eu: “Deus do Céu”. Mas eu respirei fundo e consegui fazer, e tô há seis anos no “Nós do Morro”. Minha mãe tem oito ou nove anos no Teatro e a gente sempre ia ver os espetáculos dela. Ela pediu pra gente fazer e acabou que fez a inscrição e a gente passou num teste. Eu tinha medo do Guti Fraga, que é o diretor do “Nós do Morro”, porque ele ficava olhando sério pra mim e eu falando o texto, Deus do Céu. E agora ele é um super pai, uma pessoa bem especial em nossas vidas.

A gente faz arte, improvisação, capoeira, jongo, essas coisas de dança. Tem audiovisual que aprende o plano médio, plano geral, e tem a biblioteca onde aprende um pouquinho sobre arte. A Maria Rosa é uma menina que curte muito funk, baile, sair com a Conceição e se arrumar, maquiagem, batom... Gosta de um garotinho também, que é o Carlinhos. O que a Maria Rosa é eu também sou. Eu gosto muito de me arrumar, ficar no meu quarto um tempo, pra mim. Coisa de adolescente.

E tudo é um pouco o que acontece com a gente na minissérie. De ter aquela casinha que não é tão boa, mas é uma casinha que a gente se sente feliz... Uma família unida. As comidas também. Mas nunca na minha vida eu fui num baile funk. Por mais que no Vidigal tá pacificado; com a UPP, e só tem um lugar que tem baile, que tem um horário pra acabar, às vezes tem briga também porque não quer acabar com a festa e acaba brigando com policial.

Já teve um cara que morreu porque foi pra cima do policial. Não foi legal, por isso que eu não gosto de curtir essas coisas porque tem pessoas que não sabe curtir, e tudo é um limite. Essas coisas não são legais e eu espero que o mundo mude, que pare com essas matanças e briga. Vamos conversar, se entender melhor, porque não adianta nada isso.

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