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História

"alfabetizar é inesquecível"

História de: Rosana Ramuno Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/05/2011

Sinopse

São Paulo. Caçula. Família Italiana. Imigração europeia. Primeira Guerra Mundial. Bairro da Lapa. Faculdade de Pedagogia. Trabalho. PlayPen. Alfabetização. Aprendizados. Amizade no trabalho. Saída de emprego.

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História completa

P/1 – Rosana, primeiro eu gostaria de agradecer a sua presença aqui no museu e, pra começar eu queria que você falasse pra gente o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Rosana Ramuno Ferreira nasci em São Paulo mesmo, São Paulo, 21 de novembro de 1962.

 

P/1 – Certo. E qual que é o nome dos seus pais?

 

R – Rosário Mario Ramuno e Alzira Ramuno.

 

P/1 – E qual que era a atividade deles?

 

R – Meu pai trabalhava com comércio, trabalhou muito tempo em uma rede de loja de calçados e no final ele abriu a dele mesmo. A gente tinha três lojas. Depois quando ele faleceu já estava aposentado. E minha mãe sempre ficou em casa com os quatro.

 

P/1 – Certo. E seus avôs?

 

R – Os avôs paternos, o meu avô veio da Itália, veio primeiro, ele lutou na Primeira Guerra Mundial, depois lá com a crise ele decidiu vir, largou minha avó com dois tios, já tinha o Giovane e Zina. Ele veio sozinho, fez aqui alguma coisa, um negócio com outros parentes que tinha e aí minha avó veio com os dois e teve mais dois filhos aqui. O meu avô Rafael e a vó Carmela são de origem italiana. E da parte materna os dois avós eram do Brasil mesmo, mas com descendência um de português, outro de alemão. Eu acho que meu avô materno era de descendência alemã e a família da minha avó portuguesa.

 

P/1 – E dessa família que veio da Itália? Eles contaram como é que foi a chegada, onde que eles foram primeiro?

 

R – Olha, o meu avô é naquele esquema que tem no Museu da Imigração mesmo, eles chegavam ali e dali eram despachados. Mas como meu avô não veio pra trabalhar em fazenda, ele tinha familiares aqui, ele se encaminhou em São Paulo mesmo. Eles moraram muito tempo no Brás. O que eu sei, eles contavam muito, meu pai lembra muito da infância também lá. Família pobre naqueles lugares não tinha recurso. Meu avô teve um bar e criava eles com muito sacrifício, depois eles vieram morar na Lapa na época que a Lapa era assim, terra, rua de terra ali, meu pai estudou lá e meus tios também, no Anhanguera que era o antigo ainda, não esse que tem agora. É isso o que eles mais contavam. Meu avô contava muito história da guerra, que o tempo que ele ficou ferido na Suíça, isso ele contava bastante. E a minha avó mesmo eu mal conheci porque ela morreu em 64, eu tinha dois anos, ela teve infarto fulminante. Agora, o meu avô Rafael morou com a gente, ele contava bastante história, só que ele falava um italiano meio brasileiro, só nós que entendíamos.

 

P/1 – Você tem irmãos? Falou de quatro...

 

R – Tenho. Somos quatro. Duas mulheres e dois homens. Tem o mais velho o Rafael, a do meio, Meire, depois eu e o Naldo que é o mais novo, o Ronaldo. É tudo com R em casa. Coitado do meu pai, só a minha mãe que ficou com A.

 

P/1 – E como é que foi a infância de vocês? Onde vocês moravam?

 

R – Quando eu nasci... Nós nascemos, aliás, os três primeiros nasceram em casa, naquela época com parteira mesmo. Só o Ronaldo que nasceu no Hospital Sorocabana de cesariana, porque a minha mãe teve que fazer cesárea e operar, não podia ter mais. Eu nasci na Cincinato Pomponet, Rua Doutor Cincinato Pomponet. Os meus dois irmãos, o Rafa e a Meire na Vila Leopoldina. Nós vivemos muitos anos na casa na Cincinato porque meu pai trabalhava nessa empresa e ele que assumia o encargo da casa, era pertinho do serviço dele. Depois a gente morou na Doze de Outubro, sempre perto da Lapa, na Rua Dronsfield. Ficamos assim, dois meses só em Santana numa época de transição que o meu pai comprou uma casa na Lapa, a gente, então, foi morar na Belchior Carneiro. De lá eu saí, eu casei, morei lá ainda mais um tempo, morei acho que quatro anos de casada, cinco anos lá, eu construí no fundo e depois que eu comprei minha casa.

 

P/1 – E como é que era a infância na Cincinato? Nessa casa com os...

 

R – Ah, era divertida. Quatro, imagina, a minha mãe era uma heroína. Já pensou quatro crianças dentro de casa? Não tinha empregada, nada disso, era ela que cuidava. Mas minha mãe sempre deixou a gente brincar muito dentro de casa, ela não gostava muito de rua, apesar de poder ter acesso, não era tão perigoso, meu pai e a minha mãe preferiam que a gente brincasse em casa. A gente brincava de coisas assim: fazer cabana, no beliche dentro do quarto. Tinha uma banheira que tinha tirado lá da casa que a gente enchia no quintal e nadava ali, brincava. Essas brincadeiras, molecagem, mas muito mais dentro de... bola. Ela deixava brincar de bola em casa, fora, com bolinha. Meus primos também gostavam de ficar com a gente em casa porque a minha mãe deixava a gente brincar, eles curtiam, principalmente, os filhos da minha tia Neusa, eles vinham muito pra brincar com a gente.

 

P/1 – E tinha alguma data comemorativa que tenha marcado a sua infância, primeira infância?

 

R – Ah, eu acho que... Assim, a família italiana é muito de se reunir. Enquanto os parentes, os tios italianos do meu pai foram vivos, Natal, Ano Novo, sempre passou junto, muito aquela coisa de quintal mesmo, aquelas mesas grandes. A minha vó também por parte de mãe morava em Jaraguá e ela tinha um quintal amplo, aquela família grande, minha vó teve oito filhos, era uma família numerosa. Nessas festas sempre estávamos reunidos. Aniversário tinha sempre aquela coisa de família, mas não era um evento tão grande quanto Ano Novo, essas coisas todas, Natal. Sempre família junto e meu pai era muito família, sempre foi. 

 

P/1 – Você tem assim, uma lembrança marcante do período da infância que tenha te marcado, um fato assim que…?

 

R – Tem várias, né? Positivamente, eu sempre me lembro das brincadeiras com os meus primos e os irmãos, mais do Ronaldo que era da minha idade, a Meire e o Rafael já eram mais os dois. Eu, o Naldo e a Bete e o Eduardo que são meus primos, a gente brincava sempre... Estávamos sempre juntos no que fazia, em festinha, tudo. Mas não teve nenhum evento assim que me lembre, que me marcou na infância.

 

P/1 – E aí quando você era pequenininha assim, começou a estudar, qual que é a sua primeira lembrança da escola?

 

R – Escola eu lembro tudo. Aquela época não fazia muito pré, a gente ficava em casa mesmo, era difícil ter. Eu comecei o primeiro ano, a primeira série que é agora o segundo ano, no SESI. O SESI tinha uma escola dentro da Igreja Nossa Senhora da Lapa. Eu comecei lá, meus irmãos fizeram até a quarta série lá. Naquela época tinha ainda o exame de admissão, na época. E aí eu comecei lá, mas eu já sabia ler e escrever porque meus irmãos me ensinavam.

 

P/1 – E como é que eles te ensinavam?

 

R – Era brincando. Davam caderno, brincavam, a gente ficava muito junto, aquela coisa da mãe ficar junto também, minha mãe gostava de ver... Aquela coisa que tem família que acompanha, hoje é mais difícil. Eu cheguei praticamente alfabetizada. Minha primeira professora era a dona Inês. Eu lembro que eu tinha muita facilidade. Eu sempre gostei de escola e era um valor da família. A escola pro meu pai e a educação era um valor, era escola pública, mas era muito sacrificado pra ele pagar material, uniforme, tudo pra quatro. Naquela época não se ganhava nada, era tudo do pai. Depois na segunda série eu fui pro Pereira Barreto e do Pereira Barreto eu só saí formada no colegial.

 

P/1 – Como é que era pra você pequenininha os seus irmãos irem pra escola e você ficar, você sentia alguma coisa?

 

R – Ah, eu tinha vontade de ir. Eu queria ir, eu tinha essa vontade, ficava observando eles fazerem a lição, gostava de ver, gostava que a minha irmã desse lição pra eu fazer também. Essa coisa de ter a referência do mais velho sempre foi um motivador, sempre queria ir também pra escola. A única coisa que depois eu não ia bem era Educação Física, sempre fui mais preguiçosa.

 

P/1 – Dessa primeira escola, o SESI que era dentro da igreja, como é que era a escola ou a aula?

 

R – Era muito pequeno, tinha de primeira a quarta série, era uma coisa... Os primeiros anos mesmo do Fundamental I, eram poucas professoras, eu me lembro de duas, da Inês e da Aurora… a Aurora não chegou a ser minha professora, mas foi dos meus irmãos, a minha irmã tinha certa amizade com a filha dela, e tinha padres ali que moravam perto. Eu nem sei o que fizeram lá agora, porque depois logo fechou, não sei o que virou. Mas era uma coisa muito pequena mesmo. Uma casa. Era uma casa. Eu me lembro de algumas lições, lembro daqueles movimentos de coordenação motora que a gente fazia, as historinhas pra fazer o “i”, a letra cursiva... Isso eu lembro bem.

 

P/1 – E como é que foi mudar dessa escola pequena para uma maior?

 

R – Na verdade, como meus irmãos também iam mudar, já estavam no Pereira Barreto, eles sempre foram uma referência pra mim. Eu fui pro Pereira Barreto meio que conhecida, porque já pelo sobrenome os professores conheciam. Mas eu estranhei porque era uma escola maior. Segunda série foi professora Maria Aparecida, eu me lembro que no começo eu tinha um pouco de medo, ela era muito mais velha e séria. Eu tinha um pouco de medo dela. Mas depois eu me apaixonei por ela. Na terceira série eu lembro que eu tinha uma professora, eu estudava de tarde, eu queria ir pra manhã, e era uma professora muito brava. Aí a minha mãe conseguiu me colocar de manhã e foi assim, uma maravilha porque eu peguei a dona Odete que era um sonho de professora, em tudo pra ensinar. Eu me lembro que você motivava bastante. A última foi a Leda da quarta série. Essas eu lembro todas. Mas assim, depois eu continuei lá, a minha vida e eu foram sucedendo os meus irmãos. Os professores que eram os mais antigos da escola me conheciam. Aquela época tinha muito também disso, os professores não ficavam circulando muito. O pessoal que era da 12ª delegacia do Pereira Barreto era um pessoal que ficava muito. Tanto que mais tarde a diretora, quem assumiu a direção foi a minha professora de Educação Física. Eu tenho boas recordações de lá, histórias boas.

 

P/1 – E tinha uniforme?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como é que era esse uniforme?

 

R – Até a oitava série teve, o nono ano de hoje, tá? Era saia cinza, daquela cinza chumbo, não podia ser muito curta, tinha cinco dedos do joelho. Tinha isso naquela época, você entrar... A camisa branca e o coisinho da escola, o símbolo da escola, o logo no bolso. E o sapato tinha que ser sapato fechado, eles não deixavam entrar com sandália.

 

P/1 – E que tipo de material que você levava pra escola?

 

R – Tudo. Assim, que era tudo comprado em... Isso era uma coisa bem legal, adorava sair pra comprar material, até hoje adoro papelaria. Era aquela coisa de comprar caderno, encapar em casa. Quando menor tinha aquele plástico que colocava em cima da mesa pra tomar o lanche. Sabe? Tinha um plástico que eles pediam junto com o material que era pra forrar na hora que você ia comer o lanche, depois tirava, limpava e levava pra casa. Tinha isso, tinha o estojo, lápis de cor, que eram aqueles estojos lápis de cor, a mala. Tudo era curtido. Os livros. Aquela época tinha estoque de livro. Hoje não pode mais ter porque os livros mudam de ano pra ano, as informações. Aquela época você ia nas livrarias e tinha aqueles estoques dos livros de português, língua portuguesa, de matemática. Era assim.

 

P/1 – E a escola ficava perto da sua casa? Como que vocês iam pra escola?

 

R – Sempre estudei perto. Eu ia a pé mesmo. A minha mãe levava até a quarta série e depois da quinta série em diante a gente ia sozinho e voltava com as colegas. Eu ia a pé porque morava... O Pereira Barreto era uma distância, deixa-me ver, uns 500 metros de onde eu morei sempre, não mais do que isso. Muito próximo.

 

P/1 – E você lembra da hora do lanche, se você levava lanche, ou se você comia na escola , o que você gostava mais?

 

R – É. Até a quarta a gente levava. Depois na quinta série tinha cantina, a gente podia comprar. Até hoje estava lembrando com uma amiga que ela falou do sanduíche de mortadela quente com vinagrete. Eu falei: “Poxa, isso me lembra da infância que a gente levava o dinheiro pra comprar e comer só mortadela quentinha na chapa com vinagrete”. Lá tinha coxinha, refrigerante, o que quisesse pra você comprar. Agora, minha mãe sempre dava aquele dinheiro, era aquilo que a gente gastava, não era uma época de ter de monte, de desperdício. Isso não tinha. Nem podia, eram quatro!

 

P/1 – E tinha assim, nesse período até a quarta série, você se lembra das aulas, como é que elas funcionavam, dos recreios?

 

R – Até a quarta ou depois? Até a quarta?

 

P/1 – É. Vamos falar primeiro desse primeiro período, você falou dos professores...

 

R – As aulas eram muito tradicionais até a quarta série no sentido de a professora vir, dar as lições, tinha muita cópia, tinha as lições de casa, minha mãe acompanhava, meus irmãos acompanhavam a lição de casa pra tirar alguma dúvida. Tinha pesquisa, naquela época a tia Cleusa usava muito aqueles mapas vazados pra gente fazer mapa, aquele... Ai, não existe mais, eu acho. Sabe, fazia decalque, você pintava em cima e saía? Eu usava muito porque não tinha essa coisa da imagem que a gente tem hoje, de recurso, nem da internet e nem muito de revistas a gente tinha. Tinha aquela coisa muito pedagógica, escolar, da escola, coisas que facilitavam pra você fazer uma pesquisa de bandeira, essas coisas. Mas do resto da aula não lembro nada. É engraçado, eu lembro que as professoras eram mais sérias, mas eram todas muito calmas, muito tranquilas, as professoras até a quarta.

 

P/1 – A classe era grande?

 

R – Eram classes grandes de... Era sim. Agora você me falou, mas eu acho que era de 25, 30. Naquela época não tinha muito menos do que isso.

 

P/1 – E como é que foi a mudança daí pro ginasial? Teve diferença?

 

R – Eu não senti a diferença, gozado, né? Hoje tem certa proteção, quando faz essa transição, né? O Vera mesmo trabalha com polivalência ao sexto e o sétimo, só vão com especialista no oitavo ano. Mas eu não tive dificuldade em ter vários professores, eu me adaptei bem, alguns eu já conhecia de nome porque meus irmãos contavam. Eu me lembro do professor Luís, de História, que era muito engraçado e eram divertidas as aulas com ele. Tem alguns professores que eu lembro mais, outros que eu lembro menos. Mas assim, no ginásio já tinha um perfil de professores que davam uma aula diferente, que era mais interessante, outro que era mais monótono. Você tinha essa comparação. Até a quarta você não tem muito porque é um professor só...

 

P/1 – E mudava de prédio ou ficava no mesmo…?

 

R – Não. Só mudava o horário mesmo, porque a escola, na época, ainda tinha o que hoje é Fundamental I e II. Quando eu passei pra quinta série eles foram acabando com esse ciclo e aí passou tudo pro Anhanguera, porque foi passando e o Pereira Barreto até hoje é só Ensino Médio, eu acho. Eu fui pegando o último ano de cada série. Quando eu ia pro sexto, acabava a quinta, eu ia pro sétimo... Foi acabando e aí foi tudo pro Anhanguera, tanto que o mais novo fez no Anhanguera, o meu irmão mais novo. E o Médio eu consegui terminar todo lá. A turma dos meus irmãos foi a primeira turma de Ensino Médio do Pereira Barreto a se formar. Foi uma transição, a escola passou só pra Ensino Médio e a outra... Era assim. Agora, não mudou de prédio, não. Era o mesmo prédio, até hoje é muito parecido, eu passo muito na frente, eu entrei acho que há uns oito anos. Há uns oito anos eu estive lá e eu vi aquela entrada, a mesma estátua que tinha tá lá, o tipo de corredor. Passa por reformas, mas não foi... As salas são no mesmo lugar...

 

P/1 – E assim, de quem você se lembra de dessa fase do Fundamental? Pessoas marcantes.

 

R – Do Fundamental? Você fala professores e colegas?

 

P/1 – É.

 

R – De professores todos até a quarta e do Ginásio eu lembro muito do Sergião de Matemática que era muito legal. Chegava de manhã e dava umas aulas maravilhosas. Eu me lembro do Luís de História que era muito divertido. Tinha o... Eu gostava muito dos meus professores, mas tinha uns mais chatos assim. Adolescente é complicado, né? Eu acho que adolescente tem essa coisa... De amigo me lembro da Márcia, da Martilene... Alguns não tenho mais contato, nem por internet com esses amigos que foram dessa época. Do colegial do Ensino Médio sim, mas dessa época não.

 

P/1 – Tinha uma matéria que você gostava mais?

 

R – Sempre gostei mais da Matemática. Sempre.

 

P/1 – Mais facilidade?

 

R – É. Facilidade. Tinha facilidade e gostava. Mas com a profissão fui descobrindo as outras áreas. É interessante a polivalência por isso. E antes eu não gostava muito... Eu gostei muito de história, porque eu tive professores marcantes tanto no Ensino Médio quanto no Colegial. Tem a ver com professor, com certeza. Inglês eu adorava, adorava, sempre gostei. Francês eu odeio até hoje, tenho horror, porque naquela época na quinta e sexta era francês e a professora fazia aquelas chamadas orais horrorosas. Ela gritava. Até hoje... Nem filme francês eu gosto de ver. Juro que eu começo a ouvir aquilo, eu começo a... Acho que tem, é claro, uma ligação com a memória daquela época. O inglês não. Já tive uma passagem gostosa, sempre gostei. E biologia que foi minha paixão, a professora do Ensino Médio, uma das preferidas.

 

P/1 – E uma matéria que você não gostava muito? Era educação física mesmo?

 

R – Geografia.

 

P/1 – Geografia.

 

R – Educação Física o problema era o horário porque você tinha que acordar muito cedo e eu odiava. Até hoje eu odeio. E olha, a vida inteira eu trabalhei, levanto seis, cinco da manhã. Mas eu tinha que levantar cedo, eu não era esportista, eu não jogava bem vôlei. Depois acabei jogando um pouco de basquete com a minha altura, e eu adorava handball. Mas vôlei… até hoje jogo muito mal. Tinha isso de você ter que fazer aquele esporte que você não se dá bem. Eu meio que fugia, se eu pudesse eu fugiria, tinha os meios lá. Agora, Geografia foi uma área que... Gente, eu fui conhecer geografia depois o que era, porque era questionário, questionário, questionário pra estudar, aquela professora falava o que era monções. Só definição e aquilo me afastou da área muito. Agora que eu tenho que dar aula, eu reaproximei da área pra ver que não era nada daquilo, mas eu sofria com Geografia, aquelas provas que você se tranca no quarto e fica estudando, estudando.

 

P/2 – Deixa só eu te perguntar uma coisa, na parte de inglês, quando que você começou a ter aula de inglês? Você só aprendeu na escola? Até que ano você teve?

 

R – Pra eu trabalhar bilíngue, né? Na sexta série é que começava o inglês. O inglês de escola estadual, porque naquela época o ensino melhor, bem melhor do que hoje, mesmo assim a professora de inglês era uma que entrava muito de licença. Ela não saía, ela acabava voltando, mas ela ficava grávida, saía...  Na verdade eu tive muito verbo to be até o colegial, eu sabia tudo de verbo to be. Tem gente que não consegue, mas eu consegui porque eu fazia.... Não davam outra coisa, sabe? Depois eu fiz um curso de... Eu gostava muito, eu fiz o CCAA, o basicão lá. Mas daí eu entrei na faculdade de Pedagogia, meus caminhos foram pra outro lado. Teve uma hora que eu pensei em fazer línguas, fazer inglês mesmo. Aí eu fui pra pedagogia, fui embora. Eu fui fazer curso de inglês mesmo mais avançado um pouquinho, porque eu não falo até hoje, depois bem já quando eu estava saindo da PlayPen, 2004, 2003 eu fui fazer. Isso assim, eu entendia bem, eu fazia reunião com eles, eles falavam, mas eu falar até hoje eu não falo.

 

P/1 – E tinha assim, nessa sua escola atividades extracurriculares ou fanfarra, jornal?

 

R – Tinha isso. Desfile. Isso é legal. Tinha fanfarra sim, eu nunca participei da fanfarra, mas tinha os desfiles, era obrigatório ir porque era militarismo aquela época. Essa coisa do civismo era muito... Tinha educação moral e cívica como matéria curricular. Quando tinha o sesquicentenário da Independência, essas coisas, a gente saía tudo fantasiado, a fanfarra na frente, aqueles carros, os grupos. Hoje não existe mais isso, por causa do militarismo tiraram tudo. Mas tinha sim esse tipo de tradição de sair e desfilar nas ruas da Lapa, às vezes em Vila Leopoldina. Mais naquela região que a gente ficava.

 

P/1 – Como é que foi depois pro colegial? Você fez o colegial normal ou...

 

R – Eu não fiz normal que na época existia. Eu fiz colegial, prestei Medicina Veterinária logo que eu saí. Não passei na primeira fase por dois pontos, era 42, eu fiz 40. Aí eu fui fazer cursinho, mas aí quando eu fui pesquisar naquela... Hoje existe um monte de faculdade particular, mas naquela época não era comum, era uma ou outra. E Veterinária só tinha em Jaboticabal ou a USP. Eu falei: “Quantos anos eu vou fazer de cursinho pra pegar aquilo?”. E era integral e eu precisava trabalhar porque não dava pro meu pai me sustentar na faculdade. Uma amiga falou: “Presta Pedagogia, você sempre ajuda a gente a fazer as coisas”. Desde a escola eu chamava as amigas pra estudar comigo, principalmente matemática. Eu chamava, eles estudavam e tudo mais. Eu falei: “Ah, vou fazer”. E quando eu fiz pedagogia realmente eu me apaixonei, eu não sabia que ia me apaixonar tanto. Não trabalhava com educação na época, eu trabalhava com comércio e eu me apaixonei pelo curso, mais por sociologia. Por isso eu falo que pra mim a educação foi uma decisão política mesmo, uma chance de mudança social.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho pra você falar mais como é que foi esse período de colegial, se teve alguma mudança que você sentiu, estava mais velha, questão de responsabilidade...

 

R – Eu sempre fui muito responsável, eu acho que por causa da família mesmo. Meu pai sempre jogou pra nós que tinha que passar de ano, não era uma coisa que a minha mãe ficava atrás pra fazer. Ela olhava se fez, mas nunca teve isso de ter que ficar porque sabia que era responsabilidade. No colegial eu senti, é claro, o aumento. Eu fiz de manhã até o segundo colegial, eu não trabalhava. No terceiro eu quis trabalhar, não foi nem a pedido do meu pai, mas eu quis pra ajudar em casa, aí eu mudei pra noite. Foi aí que eu rompi com a minha professora de biologia que era minha paixão da minha vida, a Beatriz e ela falando: “Não, você não vai para a noite. Você não vai”. Porque é diferente, tem uma diferença grande do curso. Mas o último ano eu fiz no noturno. Eu já estava trabalhando meio período e à noite eu fazia o colegial. Eu sentia a responsabilidade da escolha. Escolher a profissão, eu fico pensando, o meu sobrinho também, é muito novo, a gente sai com 17 anos, não sabe muito bem o que quer. E a escola, hoje tem mais, tinha pouca coisa de orientação vocacional, de te levar pra ver coisas, entrevistar, conhecer profissões. Acho que deixava... Quer dizer, hoje a escola particular tem mais, eu acho que a pública deve ter pouco ainda. Mas a decisão foi difícil, eu queria fazer Veterinária porque eu gosto de cachorro, eu gosto de gato, eu gosto de animal. Era por isso. Mas no final não era uma boa decisão porque eu ia sofrer muito. Eu estabelecia uma relação com o animal que eu ia sofrer demais. Na verdade eu achei que a escolha não era boa não, que eu ia fazer e ia acabar sofrendo.

 

P/1 – E como é que foi a mudança pra noite, conciliar o trabalho e a aula?

 

R – Na verdade quando a gente tem essa idade tudo é bom, porque você consegue trabalhar, consegue ficar de madrugada estudando, fazendo trabalho e tudo mais. Se fosse mais velha eu acho que o pique seria outro. É mais difícil porque eu tinha que conciliar, mas como eu trabalhava meio período eu conseguia estudar, conseguia ajudar algumas colegas ainda e fazer. Mas teve mais farra mesmo. À noite tinha, eu tinha mais amigos, eram os mesmos que eram dos meus irmãos, tinha essa coisa do grupinho, mais barulho, classe mais barulhenta, o professor mais cansado. À noite tem uma diferença bem grande do período da manhã pra estudar. Mas eu não senti, não me lembro de sentir grandes diferenças no meu cansaço. Eu sentia lá no curso a diferença do pique. As pessoas já chegam com outro pique.

 

P/1 – E você trabalhava com seu pai?

 

R – Na mesma empresa que ele. Não era com ele. Não tinha loja ainda, mas era uma rede de 12 lojas, ele era o comprador, eu trabalhei lá como... Naquela época eu fui... Lá também eu fui bastantes coisas, fui recepcionista, depois eu trabalhei com controle de estoque de todas as lojas e teve mais uma função... Eu acabei, na verdade, ficando com três, quatro funções, porque você vai fazendo... Eu fiquei lá três anos. Eu saí pra ir pra minha primeira escola pra dar aula, que foi o Santo Ivo.

 

P/2 – Rosana, você falou que você tinha os amigos dos seus irmãos na época do colegial. Como que era conviver com seus irmãos quando você estava no colegial e eles já estavam na faculdade? Você saía com eles?

 

R – Não. Com os mais velhos eu não saía. Era sempre a Meire com o Rafael, eu conhecia os amigos, eles frequentavam minha casa, o Rafael já fazia, estava no começo de Engenharia Elétrica e a Meire fazia Psicologia no Objetivo, Unip agora. Ela fazia Psicologia lá, eles já tinham o grupo de amigos deles. Esses que eu fiz eram os amigos de infância porque eles eram um pouco mais novos que os meus irmãos, eles estavam um pouco mais atrasados. Mas de grupo de sair junto, não. Era mais eu com os com dois anos mais novos que eu.

 

P/1 – E o que vocês faziam? Vocês iam passear, iam ao cinema ou iam andar...

 

R – Mais assim... Um pouquinho no shopping, não tinha tanto shopping, era um número bem menor. Cinema a gente ia bastante na época, também esses cinemas não eram cinemas de shopping, eram cinemas de rua. Meu pai não era de deixar muito sair à noite, mais o Rafael e a Meire que eram maiores, até fazer 18 meu pai controlava bem à noite. Ele no colegial me deixou um pouquinho mais com um grupo de amigos, mas meu pai controlava. Minha mãe não era de controlar, mas meu pai era bem controlador. Depois de formada, tudo, eu saía muito com a minha irmã, porque aí as duas não namoravam... Ela namorava, tava já namorando há alguns anos, mas ela saía muito com ele e me levava. Eu ia pra viagem pra Campos do Jordão, ia pra discoteca, mas isso mais velha. Nessa época de colegial era mais o meu grupo mesmo da escola que ficava junto. Eram coisas assim, aquela época não tinha grandes baladas que nem tem hoje, as festas, eram coisas mais assim, era época da discoteca, mas à noite meu pai nem pensar em me deixar ir. Eu ia só às matinês com eles. Eram essas coisas que a gente fazia mais light.

 

P/1 – E como é que foi o cursinho? O período de cursinho?

 

R – Eu fiz Objetivo... Eu achei assim, foi divertido, mas é muito cansativo o cursinho, porque o colegial deixa de dar uma série de coisas que depois vão ser exigidas e tem coisa que falta base mesmo. Por exemplo, eu era uma aluna que estudava, mas física eu corria atrás do meu irmão pra me ensinar, química tinha muita coisa que tinha ficado, eu achei, com buraco. Eu achei que as partes mais fortes mesmo era história que eu tinha base, biologia e matemática. Mesmo assim tinha uns gaps aí, logaritmo, porque o professor muda essas coisas. Mas acho que até hoje deve ter, nunca a gente chega... Porque sempre coloca um pouco acima do que é comum. Mas foi uma época gostosa, assim, gostosa. Foi rápida, eu fiz o semi, não fiz o intensivão do ano inteiro, depois eu entrei em Pedagogia e parei, falei: “Ah, vou fazer, estou gostando”. E fiz os três anos, naquela época eram só três de Pedagogia pra formar em magistério e orientação. Depois eu fiz mais um ano de supervisão e direção e aí que eu fui pra pós-graduação. Daí eu continuei lá mesmo, eu fiz a pós, já saí...

 

P/1 – E aonde que você foi estudar?

 

R – A faculdade? Eu fiz na Campos Salles, fiz três anos lá. Tudo. A pós-graduação... Só em Psicodrama Pedagógica que eu fiz no GETEP (Grupo de Estudos e Trabalhos Psicodramáticos), eu não fiz lá, que era o grupo que trabalha com psicodrama só, tanto o psicodrama na área de psicologia como na área pedagógica. Eu fiz pedagógica porque era o que me interessava na época. Nunca quis ir pra área de psicologia.

 

P/1 – E como é que foi o período de faculdade?

 

R – Ah, foi ótimo. Eu gostava muito. Eu trabalhava no escritório ainda até às cinco e fazia a faculdade. Eles tinham um... Isso que era legal lá. Eles tinham um horário das cinco às oito e meia, às nove. Não acabava muito tarde, eu saía direto, direto e eu ia pra faculdade. E era um grupo vespertino, vamos dizer, intermediário entre o noturno. Era um grupo bom, mas com muitos alunos na sala, aquelas classes grandes. Eu fiz assim, um grupo bom de mulheres casadas, eu não era casada ainda, mas tinha aquelas... Eu tinha amiga formada já em Biologia que tinha voltado pra fazer Pedagogia. Tinha essa amiga que mais tarde, a Isolda, que eu fui trabalhar com ela no Santo Ivo, que ela já era orientadora, tava fazendo curso pra se aprimorar, mas ela já exercia o cargo. Minhas amigas eram sempre as mais velhas da faculdade. E era assim, professores bons naquela época, tinha muito professor que era da PUC e da USP. Agora, os que eu mais me lembro era a professora de filosofia, a Bete, que era também da USP, que era maravilhosa, pegou dois anos a gente, porque o primeiro ano é mais geral e o segundo é focado em educação. A de sociologia que era a Eulália, eu fui monitora dela, era muito boa aquela professora também. Eu acho assim, os professores eram exigentes, tinha certa exigência como trabalho da gente, não tinha essas coisas faz o que quer, né? Nem tanto trabalho pra nota assim, tinham os trabalhos, mas você tinha que estudar pra prova, não tinha muito jeito. Então você ficava.

 

P/1 – No período da faculdade você entrou em contato com a pedagogia propriamente dita, que você não tinha pensado nisso antes, como é que foi conhecer as correntes? Teve alguma corrente pedagógica que você se identificou, que você estudava mais?

 

R – Com certeza. Foi o boom do construtivismo, né? Nem se sabia muito ainda o que tava vindo com a Emília Ferreiro, período de 84, 85. Começa a especulação aí nessa pedagogia, nessa mudança do professor como centro, como professor coordenador. Isso me chamou a atenção sim e me chamava a atenção a questão social da educação, a possibilidade de transformação através da educação. Foi a época do... Até que foi acho que mais forte, por isso que eu falo que foi uma decisão política. Foi a época da saída do militarismo que teve a noite do barulho lá. Os alunos eram militantes nesse sentido, ainda estavam envolvidos com a política nesse sentido de tirar de vez e entrar o primeiro Presidente Civil, o Tancredo. Foi uma época de muita... A política estava em alta e se falava muito na época da transformação através da educação. Era o que chamava atenção. Agora, as escolas ainda, é que eu vou entrar mais pra... Eu percebi as escolas ainda muito tradicionais. Trabalhando ainda... Poucas estavam com incursões no construtivismo. Hoje nenhuma escola não se diz isso, que é construtivista, apesar de muitas não serem ainda. Mas o discurso não era muito bem visto. Escolas de ponta eram difícil achar. Eu trabalhava em uma escola extremamente tradicional na época. Hoje não tanto, o Santo Ivo. Quando eu saio da faculdade que eu vou direto pegar, eu pego uma escola bem tradicional, aquela que você recebia o planejamento semanal de uma professora programadora e todo mundo dava igual. O que pra mim é o extremo do tradicional.

 

P/1 – E você teve que fazer algum estágio no período da faculdade?

 

R – Sim. É obrigatório. Não lembro quantas horas agora, mas tinha no magistério que eu fiz lá dentro mesmo porque o Campos Salles tinha magistério à noite, eu consegui fazer no curso até às 11 horas lá. Teve de primeira a quarta série, isso pra tirar a carteirinha de magistério. Porque hoje é diferente. Hoje como a formação de professores virou universitária, quem faz Pedagogia é só pra orientação, direção, supervisão. Naquela época não. Era obrigatório fazer o magistério, você escolhia uma. De orientação também. Você tinha que ir a uma escola, eu fui a uma municipal, fiz estágio numa escola municipal com a orientadora educacional. Mas era mais de observar, ver como fazia a organização dos fichários dos alunos. Não acompanhava entrevista, essas coisas assim, seria muito invasivo. Eu fiz um pouco lá e fiz um pouco no Santo Ivo. No terceiro ano eu tive esses dois, acho que eram 360 horas... Era bastante. E depois eu tive de administração, que era junto a direção. Também foi numa escola municipal. E supervisão que não tinha. O de supervisão era fora porque supervisora é aquele ligado à delegacia de ensino que vai às escolas. Mas daí esse daí era outro tipo de estágio que ele pedia.

 

P/1 – E como é que foi começar a trabalhar na escola? Trocar o escritório pra ir...

 

R - Uma loucura, né? O escritório me deu muita noção de saber como funcionava um departamento pessoal, de organização. O escritório te dá muito isso, porque é outra área e você tem uma noção. Só que você vai pra um rumo totalmente diferente. Eu peguei segunda série na primeira turma e eu peguei em março, março, abril, porque a professora largou, foi pro interior e aí a Isolda me chamou e falou: “Você assume?”. Eu falei: “Assumo”. Faço a minha primeira reunião com os pais, numa escola particular, numa escola que tinha certa exigência. E aí quando foi no meio do ano a professora coordenadora da língua portuguesa também saiu, quem assumiu fui eu. Eu acabei coordenando os três anos que eu fiquei lá. Desde que eu comecei minha história eu trabalhava direto sábado e domingo estudando e fazendo as coisas, e criando, e me inteirando, porque você pega uma coisa andando. Eu fiquei três anos no Santo Ivo. Mas era muito tradicional na época. A escola hoje mudou muito. Mas era muito preso, foi quando uma pessoa que era... Pode contar da próxima quando eu entrei na PlayPen, ou não?

 

P/1 – Pode falar.

 

R – Tinha uma amiga minha que também era... Eram cinco segundas séries lá, escola grande, e uma mãe de aluno dela, que era muito amiga dela falou: “Rose, tem uma vaga na PlayPen”. E ela dava aula na PlayPen, essa Denise: “Você não quer ir lá? Eu te indico”. E a Rose já tava com muitos anos de Santo Ivo, não queria. Eu fazia psicopedagogia na época, porque meu curso foi de um ano e meio. Ela falou: “Rô, você gosta de novidade? Essa escola que a Denise trabalha é uma escola de ponta, porque eles têm assessoria, porque é construtivista. Vai lá”. Aí eu fui com a cara e coragem, porque ela não ia me indicar, a moça não me conhecia, ela conhecia a Rô. Eu marquei uma entrevista com a coordenadora, na época a Ana Maria Machado e conversei com ela tudo e ela falou: “Olha, Rosana, eu já tenho uma pessoa...” era pra quarta série “Eu já tenho uma com experiência pra quarta. Eu queria e tal, mas eu gostei muito de você, vou segurar seu currículo”. Nesse tempo tinha uma proposta do Santo Ivo, porque o Santo Ivo acho que até hoje é, não sei, era a tarde até quarta série e de manhã que era de quinta série. Eu trabalhava a tarde. Mas tinha uma sala de terceira e uma de quarta de manhã. Eles me ofereceram a terceira e assumir a coordenação da assistente que ia sair porque estava gestante. E eu naquela dúvida, porque eu tinha me encantado, apresentaram-me a PlayPen, eu fiquei encantada. A escola bem menor, uma escola com uma proposta pedagógica, alfabetização baseada na Emília Ferreiro, tinha assessora de todas as áreas na época e assessora de ponta. Era o pessoal que tinha vindo da reforma que foi feita na prefeitura, que o material, acho que até hoje não tem um material tão bem escrito como aquele. Porque foi um material que quando o Jânio assumiu a prefeitura ele mandou queimar, elas saíram correndo pegando tudo. Foi a época do Projeto Ipê e tudo mais e foi uma construção desse pessoal, muito bonita. Eu tava louca pra ir, mas aí a ela falou já tinha arrumado, eu falei: “Então tá bom, né?”. Falei pra Isolda: “Tudo bem. Eu vou aceitar, vou pra terceira série”. Quando foi em janeiro a Ana Maria me ligou e falou: “Olha, nós estamos mandando embora a professora do pré e eu queria alguém pra alfabetizar”. Eu falei: “Meu Deus, eu nunca alfabetizei”. Mas eu tava encantada com a escola, eu joguei tudo pro alto, não quis nem assumir a... Falei: “Isolda, você vai me perdoar, mas eu não posso. Eu quero ir pra lá”. E foi assim que eu fui. Peguei o pré lá. E foi assim, muito interessante porque na época era uma escola de ponta mesmo, o trabalho da PlayPen em 90. Eles tinham as assessoras, dona Nadia, não vou lembrar o nome, a Maria Amábile que ficou muito tempo com a gente. Eram pessoas que estavam ligadas a educação e muito envolvidas com o construtivismo. Elas criaram currículo que... O pré era maravilhoso, porque ele era todo relacional. A parte de alfabetização a gente usava pra trabalhar com ciências, com estudos sociais. Eles almoçavam na escola, naquela época já almoçavam, só que o inglês era diferente, eles tinham só 40 minutos de inglês todos os dias. Era como uma aula vaga, que nem a gente tem aula de educação física, tinha 45 minutos, acho que era, eu saía da aula e vinha a professora de inglês, dava e eu voltava. Na verdade a gente era contratada pra trabalhar das oito, acho que era das oito, até às três e meia. Você ficava à disposição, nesse tempo você tinha assessoria, você tinha tudo nessas aulas. Era bem interessante o trabalho lá. Aí eu peguei e falei: “Ah não, eu vou embora, eu vou pra lá”. 

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho na verdade pra sua primeira aula no Santo Ivo, se você se lembra de como é que foi o momento de encontrar com aqueles rostinhos todos olhando pra você...

 

R – Gozado, com criança eu não tenho problema, nem com adolescente... Desde a primeira vez não teve nenhum stress, não teve insegurança com eles, nada. Já dei aula até, tenho aluno até nono ano. Não tem isso. Agora, pra dar reunião com os pais, com adulto simplesmente... Eu me lembro da primeira reunião com os pais, tinha uma pauta muito determinada, já pré-determinada, muito diferente do que hoje a gente faz, que a gente cria uma reunião. Era muito determinado, mas mesmo assim, falar de uma coisa que eu não tinha vivido. O primeiro ano em qualquer escola ou pra qualquer série é complicado porque você vai falar de uma coisa que você não viveu. Você fala de uma coisa que você leu que vai acontecer, mas não sabe muito bem. O que eu lembro mais é disso. E lembro assim, que me marcou muito a característica dessa faixa etária de segunda série. Duas características, uma que assim, eles sentem o seu humor, é uma coisa, você não precisa falar nada. Era incrível no dia que você tá mais triste chove bilhetes e bilhetes pra você: “Eu te amo. Eu te adoro”. São muito espontâneos. Eles escrevem mesmo. E uma diferença da segunda série que é assim, no primeiro semestre eles são muito dependentes de você ainda. No segundo já parece que é uma transformação muito grande, já tem certa independência no fazer, no levantar a mão, nos procedimentos, que é bem interessante. Mas assim, de lembrar... Tenho aluna hoje formada que é filha do meu dentista, fui eu que a descobri, ela é formada em Odontologia. Mas tem alguns que, olha... Faz muito tempo, já vai fazer 25 anos de magistério.

 

P/1 – E como é que foi entrar na PlayPen? É uma escola bilíngue...

 

R – Era tudo muito diferente. Eu tava com 28 na época, era tudo diferente pra mim, era o que eu queria e tinha uma liberdade de planejamento, porque era... Agora já é mais, até quando eu saí de lá era uma de cada série. Eu sei que tinha muito poder de criação, de fazer fichas, de criar. No pré então a alfabetização a gente fazia na hora. Surgia a notícia do jacaré, corria, mandava xerocar, a gente tinha esse esquema lá, e já saía a ficha na hora pra eu trabalhar com eles na aula de língua portuguesa.  Era uma coisa muito dinâmica e de criação, com aluno muito protagonista e o professor muito protagonista. Isso me apaixonou. Dar aula na PlayPen, até escrevi isso lá no workshop, foi uma verdadeira faculdade, porque você tinha essa autonomia e você tinha o profissional ao lado, o assessor que você vinha e falava: “Eu fiz isso, eu fiz...” “Vamos por aqui, vamos fazer...”. Não é que você estava lá também fazendo o que dava na telha, você tinha com quem discutir, com parceria e era em cima do que você tava fazendo, não era em cima do que o assessor imaginava que deveria ser. Nós tínhamos o currículo, mas as coisas poderiam ser desviadas com o perfil da sala, pelo perfil. Sempre teve... Isso pra mim foi um sonho, porque não existia. A Guida aquela época, pelo porte da escola, a escola era uma casa ali. Ela tinha uma casa com alguns quartos, o pré ficava bem no fundo assim, que dava pra um gramado, e a jabuticabeira era central das salas assim. Era isso. A escola e a parte do infantil ali. O que ela investia ali só de assessoria era uma fortuna pra época, não existia escolas de ponta. E pagava bem, porque pra eu sair foi uma coisa... Dar aula na PlayPen era o sonho de qualquer professor, vamos dizer assim, na época que tinha essa ideia arrojada de mudança, de transformação.

 

P/1 – E você já conhecia a PlayPen antes, ou você conheceu...

 

R – Não. Eu conheci... Essa mãe de aluna que falou pra Rose, que ela trabalhava, falou que é uma escola que trabalha com construtivismo, mas não sabia como, qual forma. Quando eu fui conversar com a Ana Maria, que a Ana Maria me contou, também é uma profissional maravilhosa, a Ana Maria, eu fiquei apaixonada. Tanto que eu larguei a proposta da escola de ir pra manhã com coordenação pra ir pra PlayPen, que era tudo. Era bilíngue e era muito diferente, é o que eu falei, a gente era contratada pra ficar até as três, três e meia lá. E reunião pedagógica, um enfoque na formação... Isso que me chamou muito a atenção, porque não tinha não, imagina. No outro tinha reunião pedagógica e olha lá. Uma meia dúzia de reunião. A PlayPen não. Desde que eu entrei eram sistemáticas as reuniões pedagógicas com a coordenadora e assessoria. O que se investiu em profissional lá foi a verdadeira faculdade que eu fiz, porque tudo que foi de prática eu vi lá.

 

P/1 – E você se lembra como foi o seu primeiro dia de aula lá? Pegar os menorzinhos...

 

R – Olha, eu lembro uma coisa bem interessante. A gente fazia as tarjetinhas com os nomes coloridos, em azul os meninos, eu tinha uma auxiliar, pela primeira vez, por que eu não tinha auxiliar, era a Isabela. Depois a Isabela foi professora muitos anos lá. E a gente fez a tarjetinha azul e rosa. Tinha um menino que chamava Adrian, mas eu achei que era menina, eu acho que eu li Adriane, alguma coisa, e eu tinha feito a tarjeta rosa. Eu tenho foto dessa turma, a primeira turma foi assim, muito marcante porque eu trabalhei com eles no pré, eu alfabetizei essas crianças, aí eles foram pra primeira, eu fui pra segunda, peguei-os na segunda e os peguei na terceira. Eu acompanhei três anos essa turma. Era uma sala animada e era muito heterogênea. Eu tinha uma diversidade na alfabetização, porque você tinha desde aquele que tava ortográfico, já acentuando, tinha uma Renata, tinha uma Fernanda que já escrevia e tinha aquele, coitadinho, que não conseguia ainda combinar as letras. A gente fazia aqueles grupinhos pra tentar tirar essas crianças, fazer entrar no alfabético pelo menos. Era bem interessante o trabalho, não eram poucos alunos, eu tinha 25 eu acho, na época. Era eu e a Isabela, e eu me lembro de todos. Se eu pegar o álbum de fotos deles eu me lembro de todos da minha turma lá.

 

P/1 – E como é que foi alfabetizar?

 

R – Eu acho que a gente nunca esquece. Você vê, é uma turma que eu nunca vou esquecer, mesmo que eu não tivesse pegado outro ano. Porque foi o processo de cada um, era o jeito de cada um, você tinha que conhecer cada um direitinho porque a gente fazia aquelas reuniões com a coordenação e com a assessora, e você falava do processo de cada um deles, trazia as avaliações, ver se estava fazendo isso. Era individual, às vezes a auxiliar ficava na sala e você chamava um por um pra ver como que estava lendo, como que estava escrevendo. É uma relação com eles inesquecível. Eu acho que não tem coisa mais bonita do que alfabetizar. É que é algo muito lúdico e eu gosto muito do nível de discussão. Não que eu não goste de brincar, adoro brincar, mas eu queria os mais velhos. Por isso que eu fiquei um ano na alfabetização e eu já tinha falado pra Ana: “Ana, quando surgir mais velho você me dá?”. Logo surgiu a segunda série, a própria Denise acabou saindo, e terceira e, por final eu fiquei na quarta por muitos anos. Mas olha, alfabetizar é inesquecível, maravilhoso.

 

P/1 – Como é que foi a relação sua com esses alunos?

 

R – Era divertido. Muito divertido porque a escola era menor também e tinha... Eu tinha os alunos, o Adrian, o André, o Geraldo, eles se escondiam da gente. Na hora que acabava o play, porque lá não era recreio, a gente falava a hora do play, eles tinham aquele play maravilhoso que era com árvores no centro e balanço de pneu, tudo muito... Eles se sujavam muito. E quando a gente voltava do play, sempre os três, mas era brincadeira mesmo, eles se escondiam pra brincar de pega-pega e eu tinha, ou eu ou a Isabela, tinha que ir atrás deles pra achá-los. Então era uma sala bem divertida, era uma sala alegre, tinha a Fernanda. Fernanda é bailarina hoje. Com muitos ainda eu segui um pouquinho. Porque a Fernanda ficou comigo muito tempo, depois eu acompanhei como professora particular e ela chorava muito, e a mãe vinha, pedia muita atenção porque a mãe trabalhava muito, a mãe tinha uma academia de balé da Elza Prado. Ela viajava às vezes pra Espanha atrás de coreografia, mas ela tinha um agradecimento, aquela mãe. Sabe aquelas famílias gostosas? Tinha histórias muito bonitas ali de alunos que até hoje eu acompanho. A Anna Livia que hoje é advogada formada, tem o Daniel que hoje é médico. Então essa era uma turma gostosa, era uma turma lúdica... Bom, com essa idade tinha que ser. Mas era alegre, era uma turma alegre.

 

P/1 – E você sentiu alguma mudança depois, de pegar os mais velhos?

 

R – Eu vinha da segunda série, com a experiência de segunda. Quando eu voltei pra segunda pra mim não foi grande novidade. Era diferente o deles, porque eu aprendi muito mais a brincar, mais... Bom, isso eu fiz até quarta série, agora que eu não faço mais porque é mais velho, mas eu fazia muita roda com eles. Roda da conversa, hora da novidade, tinha todo esse momento deles falarem. É daí que surgiam muitas coisas que você ia dar na aula no dia seguinte porque você pegava aquele currículo vivo, o que tava chamando a atenção deles no momento e dali produzia as fichas que eles iam trabalhar e tudo. E na época não tinha essa facilidade do computador tão grande, era mais xérox mesmo, fazia aquela montagem rápida e xerocava.

 

P/1 – Como é que foi pra você a mudança depois da escola de prédio? A anexação da casa?

 

R – Foram várias fases, né? Foi assim, nós começamos naquela casinha, depois ela comprou a casa de balé pra ampliar pra quinta série que não tinha ainda. A gente precisava ampliar inclusive pra escola não acabar, porque a tendência dos pais é ir saindo antes da quarta série. Até a terceira a gente tinha certo número, depois os alunos saiam porque tinham medo do vestibulinho, de ter que ir pra outra escola etc. Ela comprou e começou a quinta série lá. Quando começou a quinta série, o que marcou foi o seguinte, em 95 a Ana Maria... Não. Em 94 a Ana Maria saiu e assumiu a Maria Laura que ficou provisória na coordenação, que hoje é professora lá e no meio de 95 já veio a Márcia, Márcia tava no mestrado, em processo do mestrado dela e a Márcia que assumiu a coordenação em 96 definitivo. Quando a Márcia veio, teve uma mudança total, porque nem assessorias, só ficou das assessoras a Mara, Maria Amábile de matemática e o corpo de professores mudou inteirinho, eles renovaram, fiquei só eu. Eu continuei e aí em 96 eu começo ser auxiliar da Márcia. Eu fiquei como professora e auxiliar de coordenação. Nós ficamos juntas e aí veio essa casa e uma proposta muito inovadora também, porque nós já tínhamos a semi polivalência na quinta e sexta série, que eram duas professoras pra dar todas as matérias de quinta e sexta. Foi bem interessante, mas os pais eu acho que tiveram um pouco de medo da proposta. E aí foi esvaziando, no final a Guida optou por ter especialista mesmo, no geral. Mas a gente conseguiu manter mais alguns anos essa semi polivalência com as primeiras turmas. Foi bem interessante. Eu fiquei como coordenadora dois anos, mas eu nunca me afastei da sala de aula, eu não quis parar. Quando eu saí de lá eu já tinha parado com a coordenação, eu só tava com aula. A mudança de prédio foi assim, acho que falaram bastante disso, foi uma coisa que falaram bastante. A Guida decidiu a reforma, tinha conseguido já o dinheiro, financiamento pra construção do prédio novo, a gente teria que sair, e sair de lá, arranjar outro lugar não era fácil.  Nós vimos muitas casas na época. Eu me lembro da gente, o pessoal da coordenação indo com ela em várias, olhar. Chegamos nessa que era em frente, que era de pai de alunos nossos, de ex-alunos que voltaram a ser alunos nosso. E essa casa foi adaptada, a gente dava aula, por exemplo, numa sala um pouquinho maior que essa a gente colocou um biombo. A Daniela, eu lembro dava aula na terceira série aqui e eu na quarta ali. Era um biombo, quer dizer, uma divisória com uma porta. A gente viveu assim, com aquele número de alunos pequenos, porque muitos saíram. Fizemos o máximo pra ter bienal, pra correr tudo normal pra não perder mais alunos. E culminou numa reunião também que a gente teve com os pais dizendo que a gente não ia abandonar a Guida quando vem a negação... Atrapalhou. Atrasou muito a construção do prédio novo. Foi uma época difícil que a gente tinha que pegar assinatura, muitas vezes não tinha nem reunião pedagógica pra ir pegar assinatura dos moradores, porque era prioridade fazer tudo isso. Isso foi um impacto muito grande pra escola no número de alunos, a Guida foi uma sobrevivente mesmo, eu me lembro dela chorando várias vezes, coitada. Não sei como ela dormia, porque foi uma constante pressão. Mas graças a Deus saiu, começou a escola nova, mas eu acho que a escola, quando a gente entra no prédio novo eu já vi que a PlayPen era outra proposta, tinha começado uma nova escola ali.

 

P/1 – E assim, como é que foi pra turma mudar de prédio? Mudou os espaços...

 

R – Pros alunos?

 

P/1 – É. Da adaptação dos espaços mesmo.

 

R – É uma apropriação, né, dos espaços novos. Mas eu acho que foi um alívio, porque você sai de uma casa que você está assim, eles tinham aula de educação física, tinha um pouquinho de aula de natação, mas a maior parte na garagem. Era uma garagem aquilo, não tinha quadra. E aí você vai pra um espaço que tem tudo isso. Tinha quadra, as salas eram muito boas, pra época pro número de alunos que a gente tinha era vazia, vamos dizer assim, que a gente volta. Eu acho que a apropriação do espaço foi muito tranquila, foi uma felicidade muito grande, uma conquista dos alunos que esperaram, ficaram pra ver o resultado e pros professores também.

 

P/1 – E como foi o processo de recolher assinaturas? Você chegou a ir a algum lugar?

 

R – Cheguei. Várias casas.

 

P/1 – Tem alguma história assim, de uma das casas que...

 

R – Tinha pessoas assim, tem história que falavam que... Mentiram que a escola ia ser pra não sei quantos alunos, e aquela coisa que o trânsito ia ficar inviável, o barulho ia ficar infernal, que havia certa história encantada, aí que fizeram pra atrapalhar a Guida. E tinha muita gente que não sabia muito bem realmente o que tinha assinado e quando percebia falava: “Não, mas é uma escola, não vai trazer mal nenhum pro bairro”. Mas tinha certo receio, que a gente sabe, onde tem escola muda o trânsito, tinha esses receios que é normal de quem é morador da região que ela conseguiu abrir a escola, que é muito difícil. É uma região protegida.

 

P/1 – E as bienais? Você participou…?

 

R – As bienais foram a coisa mais linda, eu achei. Tem várias coisas lindas que eu acho que lembraram. Naquele dia até a Márcia andou mandando uns e-mails, a Márcia, a Guida e eu trocamos e-mail lembrando coisas bonitas da escola que foi... A bienal nasceu com a Tereza, que foi a professora, a mãe dessa bienal na concepção dela e essa ideia, começou com uma ideia de trazer a literatura junto com a arte. Porque tinha um sonho da Márcia muito grande na formação do professor, de o professor estar em contato com artes também. Tanto que a minha formação em artes eu devo toda à PlayPen. Visita a museu, artistas, tudo que aconteceu. Mas tinha essa visão da Márcia, da coordenadora de que a gente também participasse. Não era uma coisa da área de artes, era nossa. Surgiu essa ideia de um acordo com aquela Berlendis, a editora, na época a Donatella era viva ainda, que era uma das donas, agora acho que é o filho que toca. E veio a Tomie Ohtake que era um livro que a gente adotava, Gota D’Água e a gente contava, eu estava naquela época com terceira série, a gente contava história pra eles, o livro, o livro tinha imagens lindas da Tomie e a editora também fornecia alguns materiais com filmes, a gente fazia os trabalhos de recorte e colagem, de pintura. A ideia era trabalhar com artistas vivos também, porque a gente trabalha muito com Monet, com Van Gogh, que já morreram. O aluno tinha impressão que o artista era uma coisa já de gente que morreu. Conseguimos trazer a Tomie Ohtake, tinha essa proposta assim pro artista vir com a gente. A primeira bienal foi da Tomie, ela veio, e assinou os livros, foi muito emocionante. Depois teve, eu não vou lembrar na ordem, mas teve o Ianelli que foi fabuloso, o do Ianelli também, faleceu recentemente. A gente foi ao ateliê dele, foi a casa dele, viu as esculturas, depois ele foi numa praça inaugurar uma escultura, foi um dos representantes da escola. Esse contato da literatura, a arte e o artista junto, nasceu dessa concepção, a bienal de artes, de trazer isso. E a editora promovia o quê? As oportunidades de trazer o artista, o material que a gente precisasse, a Donatella sempre vinha em reunião pedagógica. Era uma coisa, eu não sei como tá hoje, eu acredito que esteja igual, mas não era que a professora de artes ia fazer, era feito reunião pedagógica e todos os professores, inclusive até o nono ano participavam das discussões e como podiam entrar nesse projeto que era a bienal. Foi acontecendo dessa maneira. Nessa casinha teve a bienal e ficou muito bonita. Agora não me lembro do nome do artista, mas ele trabalhava com sombras e cordel, era um trabalho muito interessante. Acho que foi minha última bienal lá.

 

P/1 – E você se lembra do porque bienal e acompanhar a bienal daqui, ter esse nome?

 

R – Na verdade não surgiu pra acompanhar a bienal, surgiu como uma forma de integração da arte no nosso currículo, como projeto da escola e não como projeto de artes. Eu me lembro da Márcia querer muito isso. E de uma ideia de que os artistas fossem artistas vivos, de trazer esse artista pra dentro da escola. Tinha uma professora muito sensível, que é a Tereza, muito tempo assessora lá, continuou, a sensibilidade da Tereza com arte, de pensar com esses alunos nessa criação. Não tinha nada a ver com artesanato, nada disso, era uma coisa da criação mesmo e do processo de criação. O que eu achava muito bonito também, que eu achei um diferencial, que é difícil eu ver, eu vejo uma dificuldade pra artes conseguir fazer uma saída na escola. Ninguém quer... Lá não. A gente ia junto, a gente gostava, a gente escrevia o projeto, na montagem estava todo mundo junto. Acredito que até hoje seja assim. É um trabalho que não se vê por aí afora. Agora, de bienal ser de dois em dois anos foi uma ideia de que não seria possível fazer todos os anos, não aguentaria, também porque a escola trabalhava com projetos.

 

P/1 – E como é que era esse trabalho com projetos?

 

R – Também vem com a Márcia. A Márcia vem do mestrado com a coisa da formação do professor protagonista, professor autor, e ela vai resgatando isso da autoria curricular nossa. A Márcia foi muito ousada, porque a gente reescreveu o currículo da escola todinho. Os professores com a equipe pedagógica, mas ela deu pro professor mesmo o aval de protagonista dessa história dentro da sala de aula e do currículo com o aluno. O trabalho com projetos, ela veio formando porque foi aquele boom também do Fernando Hernandes, do pessoal da Espanha que vem com essa proposta e ela nos formou pra isso. Dentro do currículo a gente manteve um currículo de cada série normal, que precisava, que era o mínimo que tinha e tínhamos aulas de projetos, que eram coisas que a gente ia tirando dos alunos que estava acontecendo. Nós tivemos sobre Copa do Mundo, mas não era uma coisa assim, qualquer. O meu projeto de quarta foi: “Por que o futebol é muito valorizado no Brasil”. Não. “Por que o futebol é uma paixão nacional?”. Tenho até hoje esse projeto. Pela pergunta a gente ia falando o que a gente sabe do tema, o que a gente precisava discutir e as áreas iam entrando, acrescentando. Você via o que tinha de matemática pra aproveitar, o que tinha de língua portuguesa, o que tinha de história, muita coisa. A gente acabava saindo em virtude disso, ia ao Morumbi, ao Museu do Morumbi, acabava fazendo saídas e ampliando. Quer dizer, o professor aprendia demais, né? É uma ousadia porque você entra num tema que você não sabe absolutamente nada e você vai com eles, mas é um professor pesquisador, é uma proposta diferenciada. E os alunos sabem que você vai com eles, não tá dominando tudo. Aí não é pra dominar, né? Tiveram vários projetos assim. “O corpo humano é uma máquina?”. Nossa, esse foi super divertido porque a gente chamou os pais numa reunião e os pais também falavam se achavam que era, que não era. Os alunos também estavam divididos, porque era, porque não era. Nós tivemos uma discussão e fechamos o Dia das Mães. Foi lindo. Eles fizeram uma poesia com a conclusão, a minha sala, de que não era uma máquina porque a mãe gerava um ser humano, não podia ser uma máquina. Eu tenho outro também guardado até hoje. Foi assim, foram projetos maravilhosos que nasceram de discussões com alunos, da percepção do professor e aquilo se transformava num projeto e ia. E teve o projeto diferencial da quinta dimensão, que tem uma coisa que nós não víamos no Brasil, ela trouxe da Califórnia, da universidade, que foi também muito legal. No começo os alunos gostavam muito, das cartas, do que aquele aluno falou.

 

P/1 – Como é que era esse projeto? Pra quem não conhece.

 

R – Olha, a quinta dimensão foi um trabalho que eles fizeram na Universidade de Berkeley e acho que até hoje existe esse projeto. É um projeto meio que social ali da universidade e tem uma entidade, eu não lembro qual que é a de lá, que conversa com esses alunos que frequentam. Uma coisa virtual, inventada. E no processo de criação quando a Laura veio nós criamos o golfinho. O golfinho se comunicava através de cartas com as crianças e as crianças respondiam. Desde dar tarefas pra eles no computador até coisas que aconteciam do projeto ele conversava. Era a gente que escrevia pro golfinho, na verdade eram as professoras. A Laura começou a escrever no começo pra dar um modelo, depois a gente escrevia. A partir disso eles tinham as aulas de informática que ela desenvolveu, as tarefas que o golfinho dava pra eles. Nós tínhamos os cartões de tarefa, tudo. A partir disso teve até uma viagem que eles foram pra Califórnia, foi a Márcia, a Daniela Bahia, foi um pessoal pra lá pra conversar com o pessoal da universidade. E vinha muita gente de lá, vários... Veio o John, veio a Eva, vieram pessoas que eram da universidade. Melinda acabou vindo também pra trabalhar e ficou. Bem interessante. Era um projeto de informática, mas na verdade com uma visão de trabalho ético, não tinha nada a ver com trabalho de informática. Tinha uma sala toda pintada, a gente pintou, e tinham os golfinhos pintados. Acho que eu tenho uma foto aí. A gente fazia aquela roda, sentava todo mundo na roda e depois que liam as cartas eles podiam escrever. Escreviam pro golfinho também, deixavam lá e iam pro computador fazer a tarefa. Tinha desde coisas pedagógicas que a gente queria até outras coisas.

 

P/1 – Como é que era a relação entre os professores? Os professores de português, os professores de inglês, tinha alguma diferença?

 

R – Quando a Márcia entrou, e foi uma coisa que ela detectou, nós tínhamos duas escolas. Duas assim, tinha três. Nós tínhamos o infantil que era uma escola a parte, tínhamos a turma do inglês que era outra escola e a turma de língua portuguesa. Quando a Márcia veio, ela fez um esforço muito grande de integração das equipes pedagógicas e ela fez um trabalho muito bonito, inclusive de conseguir integrar alguns currículos. A gente conseguiu o currículo de inglês com o de português, algumas integrações, não repetir ou que uma dava a outra... Entendeu? Projetos juntos. Chegamos a desenvolver projeto em inglês e português, que foi a proposta que a Márcia fez. É claro que com a mudança de prédio, com toda dificuldade, as coisas foram dificultando. Ficou um pouco mais difícil, eu acho que a gente não terminou dessa maneira tão como estava. Mas acho que tá dentro do esperado pela crise que a escola passou e pela proposta, de outra proposta que a Guida vinha sonhando pra escola.

 

P/1 – Outra pergunta que eu queria fazer, se você não se lembrar não tem problema, é curiosidade porque eu já ouvi falar, que a escola tinha um hino…?

 

R – Tem um hino. Agora, onde tá esse... Talvez eu tenha, não sei. Eu tenho muito arquivo, porque como eu fiz coordenação muita coisa ficava comigo, eu não perdi nada, mas eu tenho coisa em disquete até hoje, que nem tem computador com disquete mais. Mas eu posso olhar. Tem um hino, eu não lembro, eu não sei cantar, talvez quem sabe é a Kica, que era das professoras mais criativas que a gente tinha lá. Pode ser que ela lembre, mas eu posso olhar pra ver se eu tenho essa letra. Em algum lugar eu devo ter. Porque tem muita coisa, projetos eu tenho quase todos guardados, meus eu não joguei, graças a Deus.

 

P/1 – E como é que foi isso daí na sua carreira, depois que teve a mudança pro prédio novo, o que aconteceu?

 

R – Eu falei da quinta dimensão, eu ia falar mais alguma coisa dos projetos, ou não? Ah, do projeto eu queria falar. Essa coisa do projeto, de trabalhar com o projeto que a Márcia trouxe foi muito interessante, mudou a visão da escola e era um perfil de professor mesmo bem interessante. A gente acabou indo pra Barcelona, fazendo curso lá, trazendo coisa. Também foi bem interessante. Agora, profissionalmente pra mim, quando a escola mudou, eu não via mais um lugar pra mim lá. Eu não queria mais ficar só com coordenação, não era... Eu tinha que escolher, eu não aguentava mais porque eu fazia duas coisas. Ou eu ficava professora, ou eu ficava coordenação e eu achei que coordenação não era uma coisa que a Guida queria pra mim naquele momento. Eu optei por professora e, com a saída da Márcia, por mais que a gente falasse que não, pra mim é um marco a saída da coordenadora é uma saída da equipe dela, porque foi uma equipe formada. Eu já estava lá, mas eu acabei ficando porque ela escolheu de eu ficar, não foi a Guida que me mandou ficar. Porque é diferente. E eu achei que estava na hora também de eu sair um pouco e ver outras escolas, outras realidades. Eu precisava, já estava 15 anos com as mesmas questões. Acho que é interessante dar essa chacoalhada. Aí teve essa proposta, eu entrei no Vera como auxiliar, professora auxiliar, que eu nunca fui, nem no começo da carreira, mas pra ser auxiliar de sétimo ano, que é nessa proposta de polivalência. E agora eu tô como professora de sexto ano, que também é nessa proposta de polivalência e tô adorando. Eu adoro a escola, é uma escola com assessoria, um suporte muito grande, um investimento enorme na formação do professor, que é o que eu sempre olhei nos lugares que eu acabei ficando.

 

P/1 – Certo. Então pra gente ir encerrando assim, é uma parte da PlayPen, como é que você vê a escola PlayPen daqui uns cinco anos? Você tem uma perspectiva? Ou como é que vai estar a educação daqui cinco anos?

 

R – Eu posso dizer assim, a educação no Brasil eu não tenho muita esperança, desses políticos… não. Eu vejo muita promessa e pouca mudança. Eu tenho muitas amigas na escola pública. Eu sempre fico perguntando. Eu não vejo também uma proposta firme na questão de fazer uma escola integral e que os pais tenham compromisso também, porque não existe escola sozinha.  Virou uma coisa que a escola se vira com o aluno e virou outra coisa. Pro Brasil, realmente, enquanto não achar uma coisa mais séria não... Eu não tô vendo nada de melhora assim, de formação. Há uma distância enorme da escola pública da escola particular muito grande e que precisa ser mudado esse quadro. E pra PlayPen, do jeito que a coisa anda, eu acredito que em cinco anos estará com colégio de ensino médio aí formado e maior do que tá. A Guida merece, a Guida apostou a vida dela nessa escola. E com muito esforço, foi muito difícil ela conseguir o que ela conseguiu agora. E eu acho que a Guida tem uma visão sempre pra frente de educação. Eu acho que você entra em 90 com a visão de educação que ela já tinha, ela como Ariana, eu acredito que ela vá fazer uma coisa diferenciada também, pra ensino médio que ela possa... Quando ela teve essa visão da escola bilíngüe, há anos, ninguém falava. Hoje é comum, mas quando a Guida trouxe essa ideia e apostou nessa ideia não tinha. Eu acredito que a escola vá crescer muito e vai ser muito bom se ela conseguir chegar ao ensino médio, eu acho, pra gente ter uma visão do todo desse processo de educação.

 

P/1 – Agora que você falou da questão da escola bilíngue, me lembrei que tinham centros de estudos bilíngue, como é que funcionavam?

 

R – Na verdade nasceu com uma proposta da Márcia também, não era só de bilinguismo, era um centro de estudos... Ela abre como painel de debate sobre a educação. A Márcia também é aquariana.  Ela sempre tá uns cem anos a frente. Juro-te. Trabalho de projetos que foram feitos lá eu não vi em nenhuma escola ainda. Olha que eu fui lá à Espanha ver, falar de Barcelona, eu não vi. Não conseguem fazer porque é muito difícil, você precisa ter uma equipe boa. Mas eu acho assim, esse centro começou por essa vontade da Márcia. Eu não tenho mais o primeiro convite, mas eles devem ter lá, que foi feito. E essa necessidade e a crença que a gente sempre quis lá ainda foi difícil, é difícil conseguir conversar com outras escolas, mas não só particulares, de tentar um trabalho com a pública também. A gente tentou isso lá muito. Mas é difícil porque há impedimentos da própria escola pública, não é fácil. A gente queria trazer uma troca, que fosse uma troca verdadeira entre esses alunos e tudo mais, mas poucas vezes conseguimos alguma incursão. E quando chega o Mr. French, quase na minha saída, ele conseguiu realmente fazer um congresso que a escola hoje é conhecida aí fora em outros estados graças a esses congressos que eles está... Eu estive no primeiro deles e realmente muito bem feitas as discussões, os temas escolhidos. Hoje eu converso com gente do Vera que fala: “Ah, porque a PlayPen... Porque o congresso...”. E ficou uma coisa mais de troca entre as escolas bilíngues. A concepção não era só essa, mas hoje acho que é essa cara que tem e muito em virtude ao Mr. French.

 

P/1 – Você tem assim, uma história marcante com os alunos da PlayPen, um evento, uma festa, um halloween, não sei, alguma atividade que tenha marcado, festa junina?

 

R – Ai, são muitas. Com os alunos, com os colegas... Assim, dos colegas que a gente vai sempre lembrar, nós tínhamos uma amizade que ia além da escola. A gente se encontrava, a gente tinha festa de final de ano, coisa rara também que não existe. A equipe de fundamental I com a fundamental II se encontrar na casa de uma que doava a casa, ou num lugar que fazia um amigo secreto geral. Tinha a Guida que levava a gente pra Paraty no Dia dos Professores... De cabo a rabo assim, de pré-escola a todo mundo. E tinha uma integração que era uma escola, era a escola, não eram as equipes separadas, as panelinhas. Tem assim, coisas na ilha, coisas lindas de a gente ficar assim sentado, tem uma cena, a gente... A Guida deve ter foto, alguma coisa disso, na ilha ali que ela apagou as luzes dos refletores e tinha a lua assim, que nós fizemos ali um círculo e fizemos uma oração, enfim, os pedidos. Foi muito bonito aquilo lá, nunca vou me esquecer daquela última vez que a gente foi pra Paraty. A equipe era aquela equipe maravilhosa, eu não sei quem ela chamou, mas era a equipe da Malu, da Melinda, o Rafael, a Daniela Bahia. Éramos todos professores... A Maria Laura que continua hoje, não sei se ela vai ser entrevistada, porque ela é uma profissional e uma pessoa... Eram pessoas assim, juntou ali um grupo de pessoas que combina muito o jeito de pensar em educação. Acho que por isso que deu certo. E dos alunos, deixa-me ver uma... Nunca vou esquecer um aniversário da Guida que a gente chamou os trovadores... Olha que coisa, aquilo só existia lá na PlayPen também. Chamamos os trovadores urbanos pra fazer uma surpresa e os alunos se reuniram. A jabuticabeira não é onde é agora, ela era num centro, também devo ter fotos, a gente vai vendo aí. Ela era bem assim, no meio e tinha as salas em volta. Os alunos saíram todos da sala e ficaram em círculo, e ela saiu da sala dela que ficava ali perto, os alunos e os trovadores iam entrando e cantando (choro).

 

P/1 – Deve ter sido mesmo uma cena super bonita.

 

R – Foi. Nunca vou esquecer.

 

P/1 – A gente vai agora mudar um pouquinho de assunto, ir pra parte mais pessoal, aí depois a gente...

 

R – Tá.

 

P/1 – Vamos perguntar do seu estado civil, você é casada?

 

R – Sou casada. Não tenho filhos, mas eu acabei vendo todas as fases com os alunos. Tenho dois cachorros o... Tinha que ter cachorro, não tenho filho. Tenho o Truta e a Nina e moramos só eu, meu marido e os cachorros.

 

P/1 – E como é que você conheceu o seu esposo?

 

R – Foi muito engraçado. Foi na rua. O Carlos é policial militar e um dia eu estava tentando pegar um táxi, eu estava com muita pressa. Eu andava e olhava pra trás, olhava pra trás, ele parou, achou que eu estava sendo assaltada, ele estava fardado, ou que eu estava correndo de alguém. A gente se conheceu e de lá ele foi um dia em casa bater papo. Daí namoramos, noivamos e casamos em cinco anos. Não foi pouco tempo.

 

P/1 – Certo. E o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer? Passear...

 

R – Correr.

 

P/1 – Correr?

 

R – Agora eu corro. Gosto de ler, gosto muito de ler, mas correr pra mim se tornou uma coisa assim, que me dá um bem estar tanto físico e emocional. Quando eu tenho uma reunião, por exemplo, ao invés de ficar tensa eu vou correr que eu faço a reunião... É uma coisa que eu descobri recentemente que me trás um bem estar físico e mental.

 

P/1 – Certo. Agora vamos entrar pra uma parte final mais avaliativa. Como é que você... Quais foram os seus maiores aprendizados na PlayPen, na escola?

 

R – Eu acho que foi aceitar diferenças, porque a gente era de um grupo de professores que se dava muito bem, mas muito diferentes uns dos outros. Isso me fez crescer muito nos termos de que eu acho, eu fico mais apaixonada pelo diferente do que pelo igual, porque o igual a gente se combina muito e não te provoca. Vem muito da Kica, porque a Kica tinha umas questões que ela fazia de umas certezas que eu tinha, que ela quebrava, eu ia pra casa pensando que ela falava isso: “Será que é assim?”. E eu acho que essa diferença de poder trabalhar com grupo, é o mesmo respeito que você trata as diferenças dos alunos, que você pode vê-los como pessoas únicas, cada um do seu jeito, cada um crescendo da sua maneira. A PlayPen me ensinou isso, a PlayPen me trouxe amigos de verdade pra vida toda, trouxe mais o quê? A formação eu não posso dizer que eu falei, a minha verdadeira faculdade foi a PlayPen, dos profissionais que eu... E uma certeza assim que eu acredito em educação, que o professor é o protagonista da sala de aula. Qualquer assessor, qualquer outra, o coordenador, ele pode colaborar fazendo questões, interrogações, mas jamais ele vai saber o que é uma sala de aula como professor sabe, como ele é protagonista. Como ele e os alunos dele têm que ser os protagonistas do currículo. Isso eu aprendi na PlayPen. Não é fácil de você encontrar por aí. Porque a gente tem uma questão hierárquica de dominação, que é dominação e que tira um pouco desse protagonismo do professor e dos alunos da sua história de estudante. Não sou absolutamente contra currículo, pelo contrário, sou a favor, mas tem que ter esse espaço e mostrar que saber, o conhecimento não está na escola, o conhecimento está na vida, é isso que faz a pessoa querer avançar, querer estudar, querer fazer as coisas. A escola fica muito escolar, a escola sai pouco. Eu me lembro da PlayPen que o que a gente mais queria na época era sair, era levar esses alunos pra ver, fazer relações, outras relações possíveis. Isso eu acho que eu levo pro resto da vida.

 

P/1 – Teve alguma dessas saídas com os alunos da PlayPen que foi marcante?

 

R – São muitas. Porque a gente saía muito. A gente foi pra Juquehy uma vez com de quinta a oitava, foi de quinta a oitava inteiro, fazer um estudo de meio. Era muito assim, a gente se virava, porque os passeios não podiam ficar muito caros, a gente tinha pouco aluno e a gente não podia fazer um orçamento monstruoso. Não era fácil. Alugar ônibus e tal. A gente pegou um hotel em Juquehy pra ir com uma turma que fazia saídas que era bem interessante. Tiveram várias dessas saídas que a gente se virava pra fazer acontecer, pra poder ir, que não tinha, nós não tínhamos orçamento pra isso. Era uma coisa bem suada. Bienal a gente valorizava, bienal ia muito e qualquer mostra que vinha, por exemplo, essa de Monet a gente foi. Toda que vinha de fora a gente levava os alunos, achava importante mesmo por causa da bienal de artes. Mas tinha essas do projeto que a gente se virava pra ver coisas que tinham a ver e, que nem eu falei, ir ao Morumbi. Não era pra escola, era pra cada sala, porque cada sala estava com um projeto diferente. Era suado, viu?

 

P/1 – E quais foram os seus maiores desafios nesse período de PlayPen?

 

R – O maior desafio, os maiores, acho que foi a saída. Desligar-me. Foi muito difícil porque 15 anos eu me apego muito às pessoas, muitos amigos já tinham saído e tudo. Mas eu sofri muito, eu até escrevo uma parte no Vera que eu tô num labirinto, porque eu tô tentando me achar. Não era o prédio em si, mas era como eu me sentia fora da PlayPen depois de 15 anos. Mas agora já faz seis anos, já tem tempo. Mas acho que o maior desafio foi eu conseguir me desligar de lá. Foi muito difícil. Até emocionalmente foi difícil.

 

P/1 – E as maiores alegrias?

 

R – Foram muitas. Acho que é aquilo que eu falei, nós saíamos muito juntos, fazíamos... Tenho aqui fotos de workshops de sábado, a gente saindo do workshop que a gente fazia tudo com a cara alegre, sorrindo. Às vezes saía e ia almoçar todo mundo junto, ia se divertir. Eu acho que eu nunca vou esquecer o primeiro ano que eu entrei lá, depois não foi mais surpresa. Eu recebi o primeiro ano lá, mas tinha vindo de uma escola grande tipo Santo Ivo que eu conhecia o dono, mas é uma figura inacessível. A Guida deu no final do ano um presente pra cada um, fez um jantarzinho na casa dela, ela morava em outro lugar, e ela fez um presente pra cada um com um cartão escrito pelas mãos... Até hoje eu tenho. Eu falei: “Eu não acredito que ela fez isso”. A dona da escola escrever um cartão pra você. E ela tinha esse carinho, agora a escola é maior, não sei se ela consegue com tanto como ela gosta, de comprar... Esse relógio eu ganhei dela. Ela ia comprar um presente, ela escolhia um pra cada um, pra poder personalizar a coisa. Tem coisas que não tem preço. Cartão escrito por ela não tinha preço de ver o agradecimento que ela tinha por aquela equipe. Eu tive muitas alegrias. Da Barcelona que eu custeei o curso, mas quem custeou a passagem foi presente da escola. Foi também uma grande alegria, eu queria muito Barcelona, eu gosto muito do trabalho com projetos, estar lá com o Hernandes, com a equipe que trabalha na Universidade de Barcelona. Nossa, foi um presentão. Acho que tudo que entrou foi... Tiveram momentos difíceis, teve de crise, mas nada que a gente não contornasse com o nosso próprio grupo, com as nossas possibilidades.

 

P/1 – E o que você acha da PlayPen comemorar os 30 anos assim, por meio de um projeto de memória, envolvendo toda a comunidade escolar?

 

R – Não conhecia isso, esse trabalho. Tanto que quando eu falei hoje com o pessoal, estava sentada almoçando com os amigos do Vera, eu falei: “Eu vou ao Museu da Pessoa”. Eu falei: “Olha, pelo que eu ouvi, eu também não conhecia, eles trabalham com algumas empresas, com algumas instituições e fazem o resgate da memória. É isso”. Eu achei fabulosa a ideia. Desde que eu fui lá ao workshop eu falei: “Nossa, que ideia maravilhosa de resgatar dessa maneira e trazendo as pessoas”. Porque por mais que a gente conte a história você perde tanta coisa. Você trazer a pessoa, a emoção, o que a gente viveu é uma coisa linda que vocês estão fazendo e que a Guida decidiu fazer. Eu acho que é um momento pra ela muito feliz, um momento bom da escola, de alunos, acho que um dos melhores que ela está vivendo e merece comemorar esses 30 anos e essa vitória que ela tá tendo.

 

P/1 – E o que você achou de vir pra cá, sentar aí nessa cadeira e dar essa entrevista pra gente?

 

R – Inédito, mas foi uma delícia lembrar minha própria história, a história do local, de amigos, de pessoas. Foi emocionante.

 

P/1 – Que bom. Olha, Rosana, gostaria muito em nome do Museu da Pessoa de agradecer sua presença, da PlayPen. Foi muito legal.

 

R- Ah, eu também.




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