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História

Alfabetização, um projeto social e de vida

História de: Patrícia Teixeira de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2009

Sinopse

A adaptação da adolescente Patrícia Teixeira a Brasília – e de seus sete irmãos – não foi fácil: haviam deixado para trás, em BH, berço da família, escola, amigos, parentes, referências. Com 16 anos foi trabalhar. Adiante, ingressou no Banco do Brasil. Ali descobriu o caminho dos seus sonhos, na área da Educação, materializado nos projetos sociais do Banco, particularmente o BB Educar, que acompanha há 15 anos e em cuja coordenação aposentou-se. Sente-se privilegiada nessa trajetória por ter estudado a teoria e vivenciado a prática. Ou melhor, vivido intensamente a realidade de comunidades onde pôde cumprir o objetivo maior do programa: alfabetizar.

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História completa

P/1 – Patrícia, boa tarde. 

 

R – Boa tarde. 

 

P/1 – Obrigada por ter vindo. Vamos começar este depoimento com você falando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Patrícia Teixeira de Almeida, nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em 03 de fevereiro de 1956.

 

P/1 – E os nomes dos seus pais?

 

R – Meu pai é José Maria Teixeira de Almeida, e minha mãe é Lúcia Teixeira de Almeida.

 

P/1 – E quais eram as profissões deles?

 

R – Meu pai era funcionário do Banco do Brasil e a minha mãe, dona de casa.

 

P/1 – Você passou a sua infância em Belo Horizonte, Patrícia?

 

R – Sim, até os 14 anos eu fiquei. Eu nasci em Belo Horizonte, fiquei em Belo Horizonte até os 14 anos. Meu pai era funcionário do Banco e veio para Brasília em 1970. Eu vim com ele.

 

P/1 – Você tinha irmãos?

 

R – Na época, sete irmãos. E todos, assim, protestaram incrivelmente pelo fato de voltar para Brasília [risos], porque todos adoravam Belo Horizonte e aqui também não tinha muita coisa na época, não é? Muita terra, então, foi um protesto geral. 

 

P/1 – E como é que foi a sua infância lá em Belo Horizonte? Em que bairro   você morava?

 

R – Eu morava na famosa rua Ramalhete, que era uma rua que era um acontecimento na cidade, porque tudo girava em torno da rua Ramalhete: músicas, festas, vôlei, sinuca, pingue-pongue. Enfim, uma infância absolutamente animada, embora tenha estudado em colégio de freira, com uma tradicional família mineira, assim, uma educação mais rigorosa. Mas depois consegui a libertação estudando num colégio estadual que também era um colégio famoso em Belo Horizonte. E a vida cultural era muito intensa, as minhas duas irmãs eram músicas. Então, convivia num meio musical muito intenso. E vindo para Brasília, ficamos absolutamente ilhadas, essa foi a razão do protesto, não é? Mas foi uma infância, assim, bem intensa, agradável e rica.

 

P/1 – Quais os lugares que você frequentava lá? Você se recorda?

 

R – Na época, tudo girava em torno mesmo da rua, não é? Dos bairros, dos amigos, dos acontecimentos da região. E eu vim para cá com 14 anos, então, adolescente, pré-adolescente praticamente, não tinha muito autonomia de voo. Tinha que ficar circulando mesmo por ali, pelo bairro e tal. E o colégio, festas e coisas assim do gênero. 

 

P/2 – Como é que foi essa saída de Belo Horizonte para chegar em Brasília, assim, o choque em termos de cidade? Em 1970, Brasília era pequena como você comentou, não é? Como é que foi essa chegada? O que você sentiu de diferente, assim?

 

R – Protesto, choque total, não é? Porque assim... Muito dessa coisa do grupo de adolescência, típico de adolescência, meus irmãos todos mais ou menos nessa faixa etária, e chegar aqui e encontrar pessoas de diversos lugares do país, com culturas bem diversificadas e bem diferentes. E também não ter aquele grupo de origem, de Belo Horizonte, não é? Com os mesmos programas, não é? Foi um choque bem grande.

 

P/2 – Você veio morar aonde aqui?

 

R – Eu morava na quadra de bancários também, porque meu pai era bancário - na 416-Sul. E aí, com o tempo, essa impressão da cidade foi se desfazendo e o grupo... Fomos arrumando novos amigos, novos grupos de amigos e essa coisa se rompeu, dessa bronca de Brasília, não é? Mas dois voltaram. Dois irmãos voltaram e o resto da família ficou aqui em Brasília.

 

P/1 – Patrícia, você já tinha alguma profissão em mente? Tipo alguma coisa que você queria ser quando crescesse, quando era criança?

 

R – Não. Um dos choques, assim, mais sérios na minha vida foi a questão da formação, porque em Belo Horizonte tinha colégios muito bons, públicos, e eu cheguei aqui em Brasília e, no mesmo ano, era como se repetisse o ano, não é? Em função do que eu tinha visto em Belo Horizonte. Aí eu comecei a trabalhar muito cedo porque eu achava que... Isso, num certo sentido, foi bom. Eu acabei me aposentando muito cedo também. Mas, por outro lado, prejudicou um pouco os meus estudos também porque com 16 anos eu fui trabalhar no Colégio Dom Bosco, e já comecei então a ter em mente uma formação a partir daí. A querer mexer com Educação, a trabalhar com Psicologia, e foi em função desse meu primeiro emprego. 

 

P/1 – Mas você foi trabalhar em quê nesse colégio Dom Bosco?

 

R – Eu fui trabalhar como secretária, mas eu acabei trabalhando no setor de Psicologia, ajudando a psicóloga na orientação, enfim, serviço de secretaria, mas tomei contato com a orientação profissional e comecei a curtir. Daí, comecei a fazer Psicologia.

 

P/1 – Você estudou aqui em Brasília mesmo, Psicologia?

 

R – Estudei em Brasília Psicologia, depois... Mas assim... A grande paixão sempre foi Educação, aquela história de que lá em casa eram três irmãs, a obrigação era ser música, todos tinham que ser músicos, era obrigação. Eu, muito rebelde, falei para minha mãe: “Vou te mostrar que eu vou ser alguma coisa diferente”. E acabei sendo bancária, que eu falei assim: “Praga de mãe a gente tem que tomar cuidado porque é uma marca na vida!”. E eu me arrependo muito disso. Realmente, minhas irmãs têm uma vida intensa cultural e tal, e o Banco era muito limitado, carreira de bancária propriamente, não é? E eu entrei por circunstâncias, assim, alheias à minha vontade: necessidade de independência, necessidade de bancar os meus estudos, família muito grande, o meu pai não podia. E eu entrei para o Banco e consegui fazer o que eu queria. Mas, dentro do próprio Banco, aí surgiu a possibilidade de trabalhar com Educação e essa foi a grande descoberta para mim. E assim... Realmente, uma revolução na minha vida, porque eu, a partir daí, foquei na Educação. Mesmo tendo feito Psicologia, eu trabalhei com psicologia educacional e fui fazer pós-graduação e mestrado em Educação. E a minha vida toda se dirigiu nesse sentido, em Educação.

 

P/1 – Seus pais tinham uma ligação com música?

 

R – Minha mãe era música, pianista, tocava piano e a minha família toda tem muitos músicos.

 

P/1 – As suas irmãs seguiram carreira?

 

R – Seguiram. As duas cantam em coro, tocam e tal.

 

P/1 – Lá em Belo Horizonte?

 

R – Não, aqui.

 

P/1 – Aqui?

 

R – Aqui em Brasília. 

 

P/1 – Ah, que interessante!

 

P/2 – Voltando um pouquinho. Você comenta que vai trabalhar no Colégio Dom Bosco e depois faz Psicologia. 

 

R – Hum, hum. 

 

P/2 – Quando você entra no Banco, você está fazendo Psicologia? É isso ou você já está formada?

 

R – Eu entrei no Banco logo em seguida em que eu entrei no curso de Psicologia. Foi na mesma época. 

 

P/2 – Quando você entra no Banco?

 

R – Eu entrei em 1976.

 

P/2 – 1976. O que significava ser um profissional do Banco do Brasil naquele momento?

R – Significava autonomia. Para o meu pai significava o futuro promissor, era a glória. Era a filha bancária seguindo a carreira maravilhosa dele. Porque é possível entender isso, uma família grande, que foi sustentada com o salário do Banco. A minha mãe nunca trabalhou, então, era aquele endeusamento. Então, tinha aquela mística de que o Banco era o grande emprego, um futuro assegurado e tal. E eu não sei, isso não passava na minha cabeça. Tanto que, num determinado momento, eu nunca me senti bancária. Eu não me senti bancária até trabalhar lá dentro com Educação. Eu dizia: “Eu estou bancária mas eu não sou bancária!” [risos] Porque aquilo era um meio de vida, era um modo de sobreviver e conquistar as coisas que eu queria, não é?

 

P/2 – Você foi trabalhar em que área quando você foi para o Banco?

 

R – Como todo mundo, eu trabalhei em agência. Caixa eu nunca fui, mas assim... Abrindo conta, aqueles serviços, assim, pouco estimulantes, muito rotineiros.

 

P/2 – Corriqueiros, não é?

 

R – E aquilo era assustador. Tinha outros sonhos na vida. Mas assim... O Banco, mesmo com essa resistência em me assumir como bancária, o Banco sempre abriu um leque de possibilidades incríveis para os funcionários, não é? A gente via amigos de várias formações conseguindo um espaço para trabalhar no Banco, e quando eu percebi os projetos que existiam na área de Educação, eu falei: “Então é possível permanecer aqui, é possível me formar e conseguir achar um espaço aqui dentro”. E foi o que acabou acontecendo, não é? Aí eu me tornei, de fato, bancária. A partir daí, no Banco do Brasil. 

 

P/1 – E como é que você toma contato com esses projetos do Banco na área de Educação? Como é que isso surge? Quando surge?

 

R – No Banco sempre... Assim... Talvez hoje não tanto, mas na época em que eu tomei posse, sempre passava. O Banco teve uma... A questão da ascensão social, o Banco é muito democrático, isso aí tem que ser pontuado, assim. E o Banco... Todo o processo seletivo era muito divulgado na empresa. E tomei contato com o processo para ser psicóloga colaboradora, na área de Pessoal. Eu fiz a seleção, passei e comecei a atuar como colaboradora da área de recrutamento e seleção e logo me chamaram para compor o quadro da área. E eu saí da agência e fui trabalhar no Departamento de Pessoal do Banco. Eu passei muitos anos trabalhando com psicologia organizacional.

 

P/1 – Aqui em Brasília mesmo?

R – Aqui em Brasília. Fazendo seleção para as mais diversas áreas do Banco. Tanto de ingresso - ingresso nem tanto, a gente contribuía - mas as diversas carreiras do Banco os psicólogos é que trabalhavam. 

 

P/1 – Entendi.

 

R – Mas assim... Eu comecei a ter certos conflitos. Porque, se por um lado isso era uma coisa interessante, profissionalmente falando, por outro, o psicólogo era, de alguma forma... Como é que eu vou dizer? Era um bode expiatório da empresa. Assim... Muitos cargos eram direcionados para a seleção, quando na verdade não deveriam ser. E eu comecei a ter conflitos com a área e achar que não era bem por aí. Por outro lado, é muito difícil você designar o futuro de uma pessoa, conflitos pessoais em relação. Aí eu optei por mudar a área de               

 

P/1 – Pois é, o que significa isso? A parte de Educação do Banco?

 

R – Significa cuidar da parte de metodologia de todos os cursos internos da empresa. O Banco tem cursos em todas as direções, todas as áreas de       formação, desde o funcionário que entra às diversas especializações dentro do Banco. Então, por exemplo, ser responsável pela metodologia de um curso como negociação, um curso como... Eventos, Seminários, cursos de relações humanas, enfim, diversos treinamentos. E eu me formei dentro do Banco, na área metodológica que a gente chama, então, eu cuidava da parte de metodologia dos treinamentos que eram concebidos dentro da empresa. E o Banco, hoje, tem até uma universidade corporativa, mas começou com esses cursos internos que acabaram se transformando em uma universidade dentro                   do Banco. 

 

P/1 – Isso que você está falando é de que ano? Que você se forma e vai trabalhar nessa área?

 

R – Nessa área, a partir de 80 e poucos. Eu fiquei lá muitos anos, eu fiquei  uns 12, 13 anos nessa área de formação, até tomar contato com o programa BB-Educar, esse que eu me aposentei trabalhando nele, que é um programa de educação de jovens e adultos. 

 

P/1 – Quando a Fundação surge, em 1986, você toma conhecimento?

 

R – Com o surgimento?

 

P/1 –  Isto. 

 

R – Sim, mas nessa época a gente... Com o surgimento da Fundação sim, enquanto braço do Banco, responsável por esses programas. Mas, na verdade,                                                                                           eu fazia um programa social dentro do Banco ainda, não é? Então, depois que eu me aposentei é que o programa em que eu trabalho foi para a Fundação Banco do Brasil. 

 

P/1 – Entendi. 

 

P/2 – Como é que é essa sua descoberta do BB-Educar? Como é que se dá isso? Porque o BB-Educar é um projeto que agora já completa algum tempo, não é?

 

R – 15 anos. 

 

P/2 – 15 anos. É um dos projetos mais antigos, sociais, que o Banco tem,  associado à alfabetização. E como é esse contato? Você vem trabalhando nessa parte de cursos da empresa, no setor de formação? E como é que você enxerga esse programa?

 

R – O programa BB-Educar nasceu, na verdade, no setor em que eu trabalhava no Banco, no setor de planejamento de cursos. E eu entendo, assim, que o BB-Educar, ele vai ao encontro de uma espécie de vocação dos funcionários do Banco, porque eu já vi alguns cursos voltados para a educação de comunidades, onde as pessoas trabalhavam com o desenvolvimento de um determinado local, tomando conhecimento das potencialidades daquela comunidade; já havia alguma coisa naquele sentido. Mas o BB-Educar nasceu pela necessidade de alfabetizar pessoas não-alfabetizadas dentro do Banco. O Banco tinha um quadro de funcionários não-alfabetizados. E eu acho que a grande felicidade foi esse encontro de uma espécie de vocação, de um desejo de fazer mais por uma comunidade do que simplesmente repassar, de ser um intermediador financeiro. Eu acho que todos os funcionários trazem esse desejo, esse sonho, de fazer mais pelas comunidades. E aí, a partir do momento em que descobrimos que havia funcionários não-alfabetizados dentro da empresa, nós... Houve um movimento no sentido de alfabetizar essas pessoas e, em seguida, os funcionários se encantaram com essa possibilidade de continuar fazendo esse trabalho ou, voluntariamente com o respaldo da empresa. E aí é que nasceu o BB-Educar. 

 

P/1 – Quem eram as pessoas que trabalhavam com você nessa época? Quem você se lembra que estava envolvido com essa implantação do BB-Educar?

 

R – Bom, diretamente havia duas pessoas que se envolveram na criação desse projeto, que eram a Lia e a Nilda, que são duas assessoras lá na área. Porque elas encamparam a ideia e se responsabilizaram pelo projeto. Mas tem muitos chefes, muitas pessoas que endossaram, porque se não fosse isso, não teria acontecido, não é? Aí vocês gostariam de nomes de todas essas pessoas?

 

P/1 – Claro!

 

P/2 – Lógico!

 

R – Tem um dos chefes lá na época, na área, o Franco, que era uma pessoa que se encantou com o projeto. Tem uma outra pessoa que é muito importante também, que daqui a pouquinho eu me lembro. Isso tudo nessa fase embrionária do programa, nessa fase em que ele ainda estava servindo a atender os funcionários da organização. E depois, uma pessoa de grande importância que é o atual diretor de Recursos Humanos, que é o Luís Osvaldo, que foi quem, realmente, decidiu retirar a ideia da gaveta e colocar na rua. Porque nós começamos a trabalhar nesse programa como funcionários alfabetizando voluntariamente nas comunidades e onde a gente... Onde tinha um curso BB-Educar, numa localidade, as pessoas se encantavam com a proposta e elas falavam: “Mas nós queremos também ser alfabetizadores, nós também queremos abraçar essa ideia”.

 

P/1 – Pessoas fora do Banco?

 

R – Pessoas fora do Banco. Em 1991, 1992, nós estávamos trabalhando voluntariamente e a PUC de São Paulo... Inclusive é uma pessoa que tem que citar o nome, que é a Estela Graciane, professora da PUC, ela fazia a nossa formação, nossa capacitação. Com uma energia, uma possibilidade de mobilizar as pessoas para essa causa, incrível. Eu acho que ela ganhou muitas pessoas dentro do Banco, conquistou muitos funcionários. Então, nós passamos a fazer o trabalho, mas esses cursos continuavam acontecendo com  a PUC e, mais tarde, sem mesmo a PUC trabalhando. Em 1996, quando o número de solicitações de fora, pessoas que queriam também ser alfabetizadores fora do Banco, aumentou muito. E em 1996, o Luís Osvaldo, atual diretor de Recursos Humanos, autorizou, conseguiu com a diretoria do Banco autorizar a ampliação do programa para fora dos muros da empresa. Aí nasceu. Hoje o BB-Educar é praticamente feito com pessoas de fora do Banco, mas durante um período muito grande, somente os funcionários. Quer dizer, eu acho que esse foi um ganho qualitativo para os funcionários imenso, porque o funcionário do Banco sempre tem – meio dentro da minha história – de ser uma pessoa privilegiada, porque tem o clube do Banco, porque tem a moradia, uma quadra de Banco, que tem, enfim, rotulado durante algum tempo como os “marajás”, parece que o pessoal precisa mesmo sair dos muros da empresa e ver a realidade lá de fora, não é? E acho que foi o primeiro contato, assim, mais forte. Além desses outros programas que eu citei, foram contatos fortes com a comunidade, com uma realidade muito diferente da nossa e uma realidade adversa. Você se depara com as desigualdades sociais brasileiras e vê que só a intermediação financeira é pouco para os funcionários, não é? Então, acho que foi um dos momentos cruciais para mim essa saída do funcionário e que ele vai atuar junto das pessoas da Faculdade como alfabetizador e depois alfabetizando também, formando alfabetizadores fora da comunidade. Então, eu acho que esse é um momento que marca. Assim... De uma importância muito grande.

 

P/1 – Patrícia, mas como é que começa? Vocês fazem cartilhas? Vocês montam a turma dentro do Banco? Como é que funcionava essa primeira turma? Como é que era isso?

 

R – Quando a gente trabalhava com voluntário, e até hoje, durante um bom tempo, o BB-Educar funcionou quase que com trabalho voluntário. Nessa época, as pessoas se encarregavam de montar as suas turmas onde conseguiam... Por exemplo, eu alfabetizei num lixão de Brasília, outras pessoas alfabetizavam num salão paroquial, num prédio onde moram, numa escola cedida, numa escola pública, enfim... 

 

P/1 – Mas levavam o nome BB-Educar? Como é que era isso?

 

R – Os funcionários faziam um curso dentro do Banco, um curso de formação de 40 horas, ministrado pela PUC de São Paulo. E a partir daí, eles tomavam conhecimento da metodologia, pelo menos uma formação inicial para começarem um trabalho de alfabetização que durava de seis a oito meses. Aí, alfabetizavam fora do horário do Banco, um trabalho voluntário. Então, isso foi muito tempo nosso trabalho como funcionário do Banco e foi assim que eu comecei também, como funcionário do Banco ensinando às pessoas. E essas pessoas que alfabetizaram, tiveram depois a oportunidade de serem formadoras de alfabetizadores. Então, tudo é uma cadeia dentro da empresa. Quer dizer, aqueles que se entusiasmaram, continuaram estudando, depois eles fizeram uma seleção e essas pessoas puderam ser formadoras de alfabetizadores, que é o que eu sou também. Então, eu sou alfabetizadora e formo alfabetizadores, num quadro de cem pessoas, todas formadas dentro do próprio Banco, dentro da própria empresa. E aí nós formamos pessoas de fora da empresa para serem alfabetizadoras nas comunidades. 

 

P/2 – Então, ainda hoje, existe a possibilidade de pessoas do Banco estarem participando do BB-Educar...

 

R – Sim.

 

P/2 – Além das pessoas que são de fora e que querem auxiliar isso aí. 

 

R – Sim. Só que devido às transformações havidas dentro da empresa, uma série de mudanças estruturais grandes, os funcionários trabalhando muito, esse quadro reduziu bastante. Mas ainda encontramos pessoas... Nos cursos que a gente dá, ainda encontramos funcionários que querem alfabetizar. 

 

P/1 – Bom, essa ideia nasce aqui em Brasília, não é? Como é que isso é difundido para o resto do país?

 

R – A ideia do BB?

 

P/1 – A ideia do BB-Educar.

 

R – Olha, houve, inicialmente, três projetos-pilotos contando com funcionários já do Banco: um em Minas Gerais, em Goiás e em Tocantins, logo no início do projeto. E depois, como eu falei, todos os projetos do Banco são muito democráticos. Então, quando havia uma seleção para instrutores, por exemplo, quando havia cursos... E nós temos... O Banco do Brasil tinha centros de treinamento espalhados por todo o país, então, havia os cursos programados e os funcionários se inscreviam para fazer os cursos. Então, eu acho que esse aspecto democrático do Banco, de dar acesso para as pessoas que querem se envolver com uma causa e poderem participar como voluntários também, não é?

 

P/2 – Muito legal. E como é que foi... Porque, em 1996, o BB-Educar já começa a se aproximar da Fundação Banco do Brasil. Como é que é essa aproximação? Essa relação do BB, inicial, do BB-Educar, com a Fundação Banco do Brasil?

 

R – 1996? Eu não saberia te dizer qual é essa aproximação porque eu acho que sempre... Eu acho que assim... Uma visão muito pessoal... A partir do momento em que a Fundação se firma como braço social do Banco, não tinha mais porque se justificar um programa dessa natureza, que é estritamente social, voltado para as comunidades, ficar ainda no Banco do Brasil. Então, já começou aquela possibilidade, uma discussão de uma possibilidade de migrar esse programa para a Fundação Banco do Brasil. Porque, realmente, no Banco do Brasil o que existia eram os cursos de formação, mas o trabalho era absolutamente dos funcionários, então, precisava de um apoio institucional mais marcado, mais forte. Então, eu acho que aí é que começa essa questão da transição de se pensar nisso. Até que - acho que em 2000, se eu não me engano - esse programa sai do Banco e vai para a Fundação Banco do Brasil.

 

P/2 – Então você vai junto?

 

R – Não. Eu já tinha me aposentado nessa época. Eu me aposentei na coordenação do programa, em Brasília. 

 

P/2 – Ah, você coordenava esse programa ainda quando parte do Banco?

 

R – Como funcionária do Banco. Mas eu permaneci no quadro porque eu era tanto alfabetizadora como formadora de alfabetizadores. E eu permaneci prestando serviços à Fundação Banco do Brasil, e como sou até hoje, não é? Até hoje a gente é. Esse programa passa a ser, assim... Para muitas pessoas quase que um projeto de vida, como foi para mim. Virou um projeto de vida. Eu fui estudar, fiz mestrado na área de Educação, estudando sempre a alfabetização de jovens e adultos, e hoje eu fui convidada pela Fundação para coordenar um projeto de acompanhamento dos núcleos que estão acontecendo no Brasil todo, chamado... Nós criamos coordenações regionais para acompanhar o programa BB-Educar. Por isso que eu continuo. Desde que eu me aposentei, eu nunca me afastei do programa.

 

P/2 – Continua sempre participando. E com esse tempo de atuação, você tem um número próximo de quantas pessoas que participaram desse programa?  Que foram beneficiados?

 

R – De alfabetizandos? Eu não tenho esse número hoje para te dar porque nós estamos consolidando este ano uma informatização do programa, que foi uma coisa que ficou meio... Meio em segundo plano. E este ano é mais uma conquista desses 15 anos, então, eu não saberia te dizer hoje os números atuais do programa. 

 

P/2 – Mas foi muita gente?           

 

R – Temos 104 educadores que atuam no Brasil inteiro. Eu acredito que uma média de 200 cursos de formação de alfabetizadores por ano. Cada um desses 200 cursos, cada um desses cursos tem 20... Forma 25 alfabetizadores, que formam turma com 25 pessoas por ano. Então eu acho que é um número...

 

P/2 – Considerável.

 

R – Considerável.

 

P/1 – Só para a gente pontuar mais claramente. Existem duas frentes então: uma que alfabetiza e uma que forma alfabetizadores. 

 

R – Hum, hum.

 

P/1 – E isso nasce concomitantemente?

 

R – Sim, porque a partir do momento... Deixa eu retomar para ficar mais clara essa história. A partir do momento em que as formações iniciais dos educadores é feita pela PUC São Paulo... E aí nós teremos que romper, uma hora qualquer, com essa formação e assumir esse processo... E a partir do momento em que a gente rompe... Rompe não, a partir do momento em que a gente consegue fazer um curso e assumir esse curso, os próprios funcionários passam a formar os novos alfabetizadores. O pré-requisito para ser educador do programa tem que ser alfabetizar, porque não se consegue uma pessoa formar pessoa sem passar por essa experiência, não é? Então, um dos pré-requisitos era exatamente esse: que os funcionários que alfabetizaram nas comunidades, se envolveram com o projeto, fazendo a seleção, e passaram a ser, então, os formadores. Então, é um pouco depois que surge o quadro de educadores do programa.

 

P/1 – Bom, é um trabalho voluntário por parte dos funcionários, não é? Mas qual é o papel efetivo do Banco então? Fornecer, sei lá, certificado, camiseta? Qual é o papel do Banco?

 

R – Você quer do Banco ou da Fundação agora?

 

P/1 – Primeiro do Banco e depois da Fundação. 

 

R – Primeiro do Banco. Primeiro o suporte para formação dos alfabetizadores, com os locais. Esses cursos aconteciam nos centros de formação do Banco do Brasil, tinha uma certificação que tinha a marca do Banco, porque isso também era importante para as pessoas. E algum material, algum recurso pedagógico - um caderno mais um kitzinho básico para os alfabetizandos. Esse era o apoio do Banco. Quando ele vai para a Fundação Banco do Brasil, esse apoio se amplia, se amplia de uma forma muito consistente. Primeiro com o material de treinamento, que hoje nós temos o material todo concebido dentro da empresa, com cadernos de textos... Enfim, todo o kit do curso de formação foi feito dentro da formação pelos próprios funcionários e com muita consistência teórica. Os recursos que vão para os alfabetizandos é um kit maravilhoso onde eles têm caneta, cadernos, borracha, pasta, camiseta, enfim, um kit para oito meses...

 

P/2 – Rico. 

 

R – Rico. Material didático para o grupo de educadores, não é? Para o grupo de educadores também para utilizar em sala de aula, certificado. E quando ele se alfabetiza, ele ainda recebe um almanaque que é o primeiro livro dele. Então, tem muitos aspectos simbólicos, mas tem muito suporte mesmo, teórico e suporte para formação. Esse suporte de recursos materiais para funcionar. A partir do momento em que nós colocamos essa coordenação, e a partir do momento que foi para a Fundação, começaram a fazer também prospecções do que impactava o funcionamento desses núcleos, porque são muitos os problemas. Então, outros programas surgiram a partir dessas necessidades. Um deles, por exemplo, tem agora em fase piloto também, programa de óculos, porque as pessoas mais velhas já não enxergam e não têm como fazer uma consulta médica, não têm como obter um óculos. Então, a Fundação está fazendo um programa que se chama Ver a Vida, que também está voltado para isso. Programa de alimentação alternativa, buscando levar alguma discussão sobre alimentos mais ricos para transformar a alimentação dessas pessoas. Enfim, outros programas surgem a partir das necessidades detectadas nas comunidades.

 

P/2 – Dentro das formações, não é?

 

R – Dentro das formações.

 

P/1 – Bom, havia algum tipo de incentivo, de divulgação, para que todas as agências tivessem pessoas fazendo curso de formação?

 

R – Havia sim. Acho que num determinado momento foi bastante incentivado. O funcionário... Num determinado momento, chegou a haver, inclusive, uma discussão, acho que chegou a se efetivar uma certa remuneração para o funcionário, simbólica. Assim, por exemplo, se ele alfabetizasse seis horas semanais ele ganhava uma a mais como uma comissão. E foi muito interessante que isso durou muito pouco porque os próprios funcionários reagiram e disseram: “Nós não queremos isso, nós queremos fazer um trabalho voluntário!” Porque os funcionários viam que o salário de um bancário, em relação ao de um professor, por exemplo, de uma comunidade pequena do interior, já era uma diferença muito considerável. Então, os funcionários disseram: “Não, nós não queremos!” Mas o que eu poderia dizer? O funcionário é estimulado, muitas administrações estimuladas a montar o programa. Mas eu acho que a grande questão mesmo é do funcionário, é aquela vocação, aquela necessidade de dizer: “Eu estou fazendo algo, eu me sinto útil! Meu trabalho no banco pode ser monótono, pode ser corriqueiro, mas fazendo esse trabalho eu me sinto um cidadão”. Isso não é apenas retórica, eu acho que isso a gente via nos depoimentos, via, assim, na emoção das pessoas que viam alguém se alfabetizar no fim de oito meses: “Eu ajudei a fazer isso, tal”. Porque, num determinado momento, a gente até... Eu vou dizer... Como é que eu poderia usar uma expressão? Não havia estímulo mesmo por parte das administrações e, até se você, por exemplo, chegasse atrasado no trabalho porque você estava alfabetizando - estava num núcleo de alfabetização - isso era um ponto contra a sua carreira bancária. Num determinado momento, isso foi bem complicado. Depois não. Acho que com essa discussão dos movimentos sociais, a ampliação do terceiro setor, a questão da ampliação das ONGs,  atuando em parceria com o Banco em diversos locais, acho que isso contribuiu muito para essa questão mudar. E mesmo dentro do Banco, hoje, nós temos uma área de desenvolvimento regional sustentável. Então, o BB-Educar passa a ser pontuado como uma ação que as agências vão... Eu não sei bem como isso funciona, mas assim... É um reconhecimento pelo trabalho das agências que fazem isso, não é? Acho que isso vai mudando com a relação também do país, como o trabalho vai sendo mais importante e considerado. Inclusive, eu vejo isso dentro de um contexto do movimento de alfabetização no país, porque durante muitos anos a alfabetização de adultos foi considerada... Não foi considerada um programa prioritário para o governo, não é? Com as mudanças já, principalmente agora no governo Lula, isso passa a ser um programa, uma política pública. E a Fundação passa a ser parceira do Governo Federal. Então, isso também muda muito essas relações dentro do projeto. 

 

P/2 – Você chegou a viajar para visitar algumas dessas... Desses núcleos de alfabetização?

 

R – O trabalho que eu faço, atualmente, é exclusivamente nesse sentido de acompanhar os núcleos. Porque durante muito tempo, como o nosso forte era a formação dessas pessoas, nós concentramos muito o nosso trabalho na formação inicial. Mas os problemas aconteciam a partir da formação inicial, quando as pessoas vão para o núcleo e começam a se deparar com as...

 

P/2 – A realidade.

 

R - ... Dificuldades. Porque alfabetizar jovens e adultos não é uma coisa simples. Até por isso que a gente briga por políticas públicas consistentes. Porque eu acho que as pessoas mais capacitadas deveriam fazer esse trabalho, não o contrário, não pessoas que não têm formação. Porque o adulto não-alfabetizado, ele já passou uma vida recebendo ‘não’, ele já passou a vida não sabendo ler e escrever, e ele já buscou alternativas, de alguma forma, para se virar. E agora ele tem que ser convencido, de alguma maneira, a acreditar que ele pode, que ele é capaz de aprender. E, inclusive, assim... Ele questiona: “O que eu vou ganhar com isso? Eu vou conseguir emprego? Eu vou melhorar de vida?” Então, é todo um trabalho além, que você tem que estar discutindo com a pessoa que vai alfabetizar para mantê-la ali, acreditando que ela pode aprender. Isso exige uma capacitação, isso exige uma discussão permanente dos educadores. E nossa formação estava concentrada muito no curso inicial. Então, esse programa no qual eu trabalho atualmente é exatamente voltar para as comunidades, mês a mês, e defrontar e discutir o que está acontecendo em cada local. E dar suporte ao trabalho do alfabetizador e do coordenador, porque cada região tem um coordenador pedagógico. Então, no ano passado nós tivemos o projeto-piloto e eu fui ao Piauí inteiro, atendendo cinco municípios e me deparando com as mais diversas dificuldades, não é? Uma sala de aula dois por dois metros quadrados, o sol batendo no meio da tarde, as pessoas ali sem um quadro-negro, sem nada, e pessoas do lado de fora assistindo aula. Quer dizer, quem chega cedo entra na sala e quem não chega, está do lado de fora. E outras condições. Assim... Os alunos sem óculos, os educadores sem material, sem alguém para discutir com eles os seus problemas. Um aluno que não aprende, por que não aprende? Enfim, e começamos, então, a fazer esse acompanhamento mensal e fizemos esse trabalho todo no Piauí. E este ano estendemos para mais cinco Estados. A ideia é exatamente essa: acompanhar, ver o que acontece em cada região e tentar discutir com os educadores, não é?

 

P/2 – Você falou que foi alfabetizadora também, não é?

R – Fui. 

 

P/2 – Existiu algum aluno marcante?

 

R – Existem vários. 

 

P/2 – Uma pessoa que você teve _________

 

P/2 – Existe. Por incrível que pareça, o aluno que mais me marcou foi aquele que não consegui alfabetizar. Porque ela... Acho que ela mais me ensinou nesse tempo todo. Porque – dona Marisa – ela, inclusive eu brinco que ela foi a garota-propaganda do BB-Educar, ela saiu nos pôsteres, nos cartazes e eu não consegui alfabetizar a dona Marisa. Primeiro dá assim um sentimento, assim, de impotência muito grande, não é? Você acha que é fácil, vai lá, tenta fazer e não consegue. Mas todo o processo dela foi onde mais eu aprendi, porque ao tentar reverter essa condição, uma pessoa absolutamente inteligente, lúcida, que fala com um poder político na comunidade fantástico, mas ela não se permitia errar. Quer dizer, e ao não se permitir errar, ela não se permitia aprender. Só que eu passei um ano estudando o processo dela, depois fui estudar isso na pós-graduação para tentar entender por que eu não conseguia alfabetizar uma pessoa tão inteligente, brilhante, como era a dona Marisa. Então, eu acho que devo uma boa parte do que eu sei, hoje, a essa pessoa que continua a se repreender, mas que continua tentando, não é? E eu me relaciono até hoje com ela, foi a minha primeira turma, mas até hoje a gente se encontra. E ela é muito engraçada que ela faz um jogo como se... Ela sabe o que significa para mim eu não ter conseguido alfabetizá-la. Então, ela no mestrado, por exemplo, eu precisei de fazer uma entrevista com ela, ela falou assim: “Não venha porque hoje eu não estou boa, porque hoje eu não vou conseguir ler nada”. Ela sabe que eu não sei. Quer dizer, ela sabe que eu sei que ela não sabe ler, mas ela faz um jogo assim, de fingir que sabe para não me deixar triste, entendeu? Mas assim... A gente aprende, infelizmente a gente aprende muito com essas pessoas, mas o grande desejo seria alfabetizá-las e não aprender com elas. E outras pessoas marcantes, alunos, alfabetizadores, não é? É um processo de interação humana, onde a gente aprende muito porque existe uma barreira ideológica muito grande de classes sociais no Brasil. E quando a gente vai lidar com essas pessoas, a gente começa a ver que você está num outro universo, que você tem que se re-educar para poder... Tem que aprender o que é a diferença, como chegar no outro e como conversar com o outro. A linguagem a utilizar e várias questões, assim, para poder interagir com eles na condição de educador, não é? E aí... E se transferir também da condição de educador para a de aprendiz, que também não é mera retórica porque se você não faz isso, você não consegue chegar junto dele.

 

P/1 – Patrícia, você falou que seu trabalho agora é ir às comunidades, não é?

 

R – Hum, hum. 

 

P/1 – Como é que se dava isso no início do programa? A proximidade com a comunidade. Como montar uma turma num lugar inóspito? Como é que era isso?

 

R – A formação de turma e o trabalho voluntário, inicialmente, sempre tiveram muita carga dos educadores. Eles é que partiam para as comunidades para escolher os locais, para ver onde alfabetizar, então, não havia muito a intervenção da coordenação do programa. A gente tomava conhecimento pelo que chegava, das fotos, dos... Mas era sempre um conhecimento distante, agora a gente vai e conhece essa realidade, não é?

 

P/1 – Por que teve essa necessidade de proximidade com essas comunidades?

 

R – É exatamente pelo fato de que uma formação é um trabalho complexo, não é fácil. Nós temos diversos problemas, de diversas dimensões. Evasão, entre aspas. Eu falo entre aspas porque eu não sei se o aluno evade ou se ele percebe que aquele processo não está acrescentando nada para ele. Nós temos problemas dessa natureza, e o educador se sentia muito sozinho para resolver tudo isso. E a gente sabia - a gente sempre soube - que um trabalho não poderia se pautar apenas por essa formação inicial. Então, ele vai para a Faculdade, começa a se deparar com os problemas. Aí sim, ele precisa de apoio, ele precisa de alguém para discutir tanto pedagogicamente quanto questões estruturais, não é? E esse acompanhamento já estava no programa, no projeto inicial do programa BB-Educar, mas não se viabilizou. E foi uma demanda de todos os educadores do programa durante esses 15 anos. No ano passado, a Fundação conseguiu aprovar esse projeto. Para nós, faz toda a diferença.

 

P/1 – Então, a partir do ano passado só que vocês passaram a ir junto às comunidades?

 

R – Após a formação, não é? Após a formação inicial. Voltar para acompanhar o que está acontecendo, se as pessoas estão alfabetizando, se não estão alfabetizando. Os índices brasileiros de analfabetismo, eles praticamente não reduzem - ou a redução é muito baixa. São feitos programas e programas ao longo desses anos todos, nós temos um nível de reprodução de analfabetismo muito grande. E é muito frustrante você trabalhar com uma ideia dessas e pensar que a cada ano... Quando eu comecei o programa, eu não imaginava que 15 anos depois eu faria a mesma coisa, eu nunca imaginei. Eu falo que eu vou só me sentir bem quando eu estiver desempregada. No dia em que esse trabalho acabar. É muito triste ver a produção de novos analfabetos, é muito triste ver que a pessoa vai para uma sala de aula acreditando que pode se alfabetizar e sai sem se alfabetizar, não é? Quer dizer, então, é uma responsabilidade muito grande nossa, que estamos trabalhando com isso, não formar novas gerações de analfabetos e nem frustrar a expectativa dessas pessoas que foram lá acreditando que podiam se transformar, ler e aprender a escrever.

 

P/2 – Qual é o percentual hoje de analfabetos no Brasil?

 

R – As estatísticas variam em torno de 16 a 17 milhões de pessoas. Isso se considerar analfabetos em níveis iniciais. Agora, se você colocar o analfabetismo funcional, esse número se amplia muito. Eu acho que nós vamos chegar aí uns 40% de pessoas que não conseguem. O analfabeto funcional é aquele que lê e não consegue... Não sabe te dizer o que leu, não é? Então, esse número aumenta bastante.

 

P/1 – Você falou de formação, de formar novos analfabetos. O que significa isso?

 

R – Significa que embora hoje a gente possa falar, no Brasil, de uma universalização do ensino básico, ou seja, todas as crianças estão tendo... A maioria das crianças brasileiras estão tendo acesso à escola, nem sempre elas se alfabetizam na escola. Então, novas gerações de jovens e adultos de não-alfabetizados estão sendo formados no Brasil. Essa que é uma questão complicada, quer dizer. E por isso também os índices não abaixam, não reduzem, porque a gente alfabetiza e novos analfabetos são gerados.

 

P/2 - Quer dizer, o acesso à escola não melhorou a qualidade do ensino.

 

R – Não. O Brasil optou pela massificação do ensino que, num certo sentido, é até interessante, pela quantidade, mas agora é hora de primar pela qualidade, porque senão a gente não reverte esse processo. 

 

P/1 –  Patrícia, não dá sensação de nadar contra a corrente, não?

 

R – Às vezes sim, às vezes sim. Mas exatamente, quando a gente vai para as comunidades e vê as pessoas sem meios, sem recursos, as professoras idealistas, que lutam e fazem um trabalho e conseguem algum resultado, isso é que dá força para a gente. É exatamente essa volta para as comunidades que faz a gente acreditar que é possível fazer, não é? Que é possível reverter isso. É claro que só isso não basta, claro que a gente tem que brigar por políticas públicas e por recursos para a educação. É muito pouco acreditar que as pessoas, sozinhas, vão fazer alguma coisa. Mas é essa energia que a gente vê na ponta, as próprias pessoas que a gente consegue alfabetizar e que conseguem prosseguir os seus estudos, isso nos leva a continuar brigando. E eu digo mais: Assim... Esse apoio institucional que a gente tem hoje, também é outro fator que faz a gente acreditar que não está brigando contra a corrente. Porque eu acho que nesses 15 anos, a gente conseguiu ampliar a qualidade do nosso trabalho, profundamente. Tirar essa visão ingênua de que só a boa vontade faz alguma coisa e começar, efetivamente, a buscar qualidade do nosso trabalho. Acho que a questão do acompanhamento regional é isso, o que a gente está fazendo, quais são os nossos números, quais são os nossos resultados, o que a gente pode conseguir melhor do que isso, não é? Ou se não pode, por que não está conseguindo. Então assim... Eu acho que a gente está profissionalizando esse trabalho, a partir de agora. Por isso que essa sensação de que... O BB-Educar é surpreendente por isso: a cada ano que passa, é uma perspectiva nova que se apresenta e que faz a gente acreditar que dá para fazer melhor.

 

P/1 – BB-Educar é um jovem de 15 anos, então, não é? O que você vê para o futuro desse jovem?

 

R – Bom, no presente, é um jovem que mostrou a sua cara, que está buscando mostrar a sua cara, não é? Alguns problemas, a cara que não é tão bonita quanto a gente queria, mas se assumiu, não é?

 

P/2 – Cheia de espinha.

 

R – Algumas espinhas e tal. Mas assim... É uma cara que... É um projeto que teve a coragem de mostrar a sua cara. Eu acho que isso é fantástico para um adolescente. Estamos aqui mostrando a que viemos, não é? O futuro que eu gostaria muito é que a gente ampliasse a nossa participação política. Não trabalhar isoladamente num programa de uma instituição. Que a gente, cada vez mais, estivesse envolvido nos projetos, nas políticas públicas voltadas à alfabetização de jovens e adultos no Brasil. Porque aí sim, eu acho que a gente consegue assegurar coisas maiores que pequenos números de uma instituição. Eu acho que... Eu não vejo outra via.

 

P/1 – Vocês contam com a parceria - ou contaram - com as escolas das comunidades locais, com os professores locais? Como é que você…? 

 

PAUSA – FIM DA PRIMEIRA FAIXA

 

P/1 – Bom, eu estava perguntando se vocês têm... Contam com a parceria das escolas locais, com os professores locais? Como é o relacionamento com os educadores das comunidades que já existem?

 

R – Eu acho que esse é um outro ponto, é um outro ganho adicional, tanto por BB-Educar quanto para as comunidades, porque hoje nós estamos trabalhando quase que 90% com educadores de escolas municipais e rede federal de ensino, formando esses educadores. Por incrível que pareça, são essas coisas que no Brasil acontecem... Os funcionários do Banco do Brasil formando, contribuindo para a formação de professores do Brasil. E essa é uma relação fantástica porque os professores estão ávidos de capacitação e a gente chega a lugares que, às vezes, tem gente que nunca fez um treinamento na vida. Professores com dificuldade de chamar xerox, de fazer um curso e a gente chega com uma proposta que, geralmente, agrada muito, de romper com aquela educação tradicional e fazer coisas que atraiam as pessoas para estarem na escola. Então, eu acho que esse é o adicional do BB-Educar, na formação de educadores no Brasil inteiro, todo o país. Nós trabalhamos em parceria com as Prefeituras. Hoje, basicamente, elas são os nossos parceiros. Outras instituições, mas, basicamente, as Prefeituras formando educadores, e esses educadores vão formar então nas comunidades, não é?

 

P/2 – Qual seria, agora, passando para a sua relação com a Fundação Banco do Brasil, o momento mais marcante que você vivenciou na Fundação, no momento que o projeto migra para a Fundação e que você começa a auxiliar?

 

R – Olha, é difícil falar de um momento. Mas assim... Recentemente teve uma coisa que foi muito... Um processo muito bonito, que foi a formação de todos os educadores do programa e que a Fundação patrocinou um curso de pós-graduação dos educadores do BB-Educar. Então, foi um momento de consolidação, assim, de conhecimento. De produção do saber, assim, fantástico. Foi muito emocionante, assim, ver. Acho que foram 48 projetos de monografias produzidas só com as experiências dos educadores dentro do BB-Educar. Então, isso foi há dois anos – 2004 - eu acho que foi, realmente, um momento de uma política de consolidação de produção de conhecimento a partir de experiências. Agora a gente está lançando um livro com os melhores trabalhos produzidos nesse contexto. Então, eu acho que isso marca porque o grupo, embora sejam todos bancários, a formação dos educadores era muito heterogênea. Tem pessoas da área de Educação, tem pessoas da área de Saúde, tem pessoas da área bancária...

 

P/2 – Economia.

 

R – Economia. Então, esse curso, além de uniformizar um pouco a formação dos educadores, ele fez essa produção de conhecimento que foi bem interessante.

 

P/1 – Patrícia, a retirada do programa do Banco do Brasil passando para a Fundação, isso não afastou um pouco o funcionário das agências, talvez, do programa? Houve algum impacto nesse sentido?

 

R- Não, eu acho que não porque a Fundação nesse ponto trabalha de uma forma bem integrada com o Banco. Eu acho que o afastamento maior dos funcionários foi mesmo em função de reestruturações internas da empresa. Porque os funcionários passaram a trabalhar um tempo maior. Houve, enfim, desde o Plano de Demissão Voluntária do Banco, houve reestruturações internas muito impactantes, que afastaram um pouco as pessoas dessa... Porque, inclusive, assim... As pessoas tiveram que buscar mais as suas carreiras, fazer cursos para ascensão funcional, houve uma competitividade maior dentro da empresa e eu acho que afastou um pouco desse tipo de trabalho. Mas a gente ainda vê pessoas... Mas eu acho que, pelo fato de estar na Fundação, não. Eu entendo que não. 

 

P/1 – Você falou um pouco dos outros programas da Fundação que acabam indo integrar o BB-Educar nas comunidades, não é? Você poderia falar um pouco mais sobre essa... Sobre a atuação desses novos programas da Fundação, auxiliando o BB-Educar?

R – Eu tenho um maior conhecimento de um deles, até porque eu trabalhei em parceria com a Fundação, que é o programa BB-Comunidade. Mas esse não trabalha diretamente com os funcionários do Banco, não é? Mas eu acho que é uma ideia fantástica você ceder espaços ociosos dos clubes do Banco do Brasil para as comunidades para fazer educação complementar de crianças. Então, elas vão jogar futebol, vão fazer reforço escolar, vão fazer… O que mais? Atividades artísticas em espaços que não estariam ocupados durante a semana, então é o programa BB-Comunidade. Eu tive a oportunidade de trabalhar nesse programa com um parceiro da Fundação que é a (Fenabb ?) – Federação das ABBBs. Então, eu acho que esse é um programa maravilhoso que atende mais de 50 mil crianças no Brasil. E eu fico imaginando assim: uma ideia simples porque se todo mundo cedesse um espaço que está vazio, outras capacitações poderiam acontecer. E tem hoje um programa também muito interessante que é o programa de inclusão digital que nós até estamos pensando em que medida nós podemos fazer o BB-Educar conversar com esse programa. Porque levar o computador a determinadas comunidades com os monitores das próprias, do próprio grupo. E hoje, o computador se revela como atração para todo mundo, até para uma pessoa não-alfabetizada. E já há experiências no sentido de alfabetizar com computador, muito interessantes, muito motivadoras, não é? Porque o adulto quer, ele vai ao Banco, ele mexe num caixa, ele mexe num teclado, por que não ele também aprender ali e o computador mostrando onde está o erro dele ali, vermelhinho? Muito estimulando essa questão, acho que nós estamos procurando conversar com esses dois programas: inclusão digital com o BB-Educar. E que eu me lembre da área de Educação, seriam esses dois programas.

 

P/1 – As exposições do projeto Memória, aquelas cartilhas, isso já aconteceu esse diálogo também?

 

R – O programa Projeto Memória, agora, que homenageou o Paulo Freire, eu tive a oportunidade de ver o impacto desse programa numa comunidade próxima de Paracatu, onde foi um acontecimento a exposição do Projeto Memória. Os educadores se revezavam num museu lindo da cidade, onde expuseram Paulo Freire e agora estão querendo que volte para fazer uma caminhada pela cidade, mas... Eles se envolveram com a ideia, adoraram o material produzido e acho que teve um impacto muito positivo também junto  aos educadores da rede de ensino. Acho que, pelo que eu fiquei sabendo, foi o projeto que, assim, mais impactou. 

 

P/1 – Entendi.

 

P/2 – Todos os projetos que você citou - do BB-Educar, o BB-Comunidade, e de inclusão digital - são da área de Educação da Fundação. Você podia falar um pouquinho das pessoas com as quais você convive nessa área lá na Fundação?

 

R – Eu convivo há muitos anos com o diretor da área, que ele alfabetizou junto comigo lá no lixão, foi meu companheiro de alfabetização, então, eu acho isso um diferencial, uma pessoa que já alfabetizou, que já foi formador de educadores e que hoje também forma novos alfabetizadores. Então, isso faz toda a diferença porque ele entende os problemas, entende, se envolve com as questões e se envolve com os projetos que a gente propõe. A Regina, que é assessora...

 

P/1 – Você não falou o nome dele.

 

R – (Barfa da Nere ?). 

 

P/1 – [risos]

 

R – É, a gente tem o vício de não citar nomes. Então, (Barfa da Nere ?) é um companheiro de muitos anos, de 15 anos de alfabetização, que eu acho que é... E hoje está à frente dessas mudanças, dessas grandes mudanças, da capacitação do grupo, porque ele sabe das carências. Tem a Regina. Eu acho que uma coisa interessante também é que a Fundação tem procurado trabalhar com pessoas técnicas da área, faz uma mescla, não é? Mas traz muitos educadores para o programa, então, isso muda tudo. A Regina é companheira também de formação há muitos anos, alfabetizadora, e está fazendo uma gestão maravilhosa. O Fernando também, que trabalhou na área. Quem mais eu poderia citar? Fernando agora está na área de avaliação. Esse projeto de avaliação do BB-Educar, em alguma medida, também abriu uma perspectiva de ampliar a avaliação dentro da Fundação Banco do Brasil. E o Fernando saiu do BB-Educar com o projeto de avaliação e migrou para outra área. 

 

P/1 – O que é esse projeto de avaliação?

 

R – Esse de acompanhamento regional do BB-Educar. Quer dizer, já fazia parte, a Fundação já tinha uma intenção de avaliar os seus programas. Que esse é um outro nó no Brasil. Avaliar os resultados dos programas sociais é complexo, é difícil, e as metodologias também são novas. E o BB-Educar foi pioneiro nisso. Então, o Fernando acompanhou o trabalho de constituição desse grupo do acompanhamento regional do BB-Educar e agora ele migrou para uma área de avaliação da Fundação Banco do Brasil. Então, é outra pessoa também especial - educador do BB-Educar - e que leva a nossa experiência e agora amplia, porque ele vai trazer outros referenciais de avaliação para nós do BB-Educar. E no lugar dele, também, foi a Márcia, que é outra educadora do programa, que também tive a oportunidade de acompanhar, alfabetizada na ABBB. Então, eu acho que isso é muito interessante, quer dizer, as pessoas estão ali e sabem o que estão fazendo, elas não estão só, eles não só cuidam do aspecto administrativo, elas têm a competência técnica e elas têm clareza de um projeto pedagógico que está por trás de tudo isso. Eu acho que isso é um grande diferencial. 

 

P/2 – Existe algum caso engraçado ou curioso que você viveu dentro da Fundação Banco do Brasil nesse tempo todo aí?

 

R – Nossa, são tantos, agora lembrar de algum assim... Caso engraçado...

 

P/2 – Alguma viagem mais engraçada, algo que aconteceu por lá mesmo?

 

R – Nossa, são... Nos cursos?

 

P/2 – Ah, no que você quiser, curso, dentro da Fundação, às vezes alguma viagem que você fez de situação curiosa, uma situação que aconteceu.

 

R – São muitos casos engraçados. Até nesses 15 anos, agora, a gente está tentando resgatar um pouco dessa história não contada do BB-Educar, porque quando junta um grupo de... Acho que seria uma dinâmica muito interessante juntar um grupo de educadores para contar histórias porque você “vara” uma noite morrendo de rir, porque a gente vai para lugares muito inóspitos, muito engraçados. Outro dia mesmo, eu estava lembrando com uma colega que eu viajei para dar um curso no Maranhão e a gente pegou um ônibus e, de repente, a gente olha para o lado de fora e a nossa mala estava escancarada e os cachorros procurando alguma coisa dentro, tudo aberto. E aí perguntaram: “O que vocês querem?” “Não, eles estão procurando maconha.” Aí eu falei: “Não, mas aqui são educadoras, não trabalhamos com esse...” [risos]

 

P/2 – Não mexemos com essa área não. 

 

R – E chegamos na comunidade e vimos que estávamos numa região muito perigosa, o pessoal brinca que lá tinha inclusive o Sindicato de Pistoleiro e a gente não sabia, a gente chegou assim, absolutamente...

 

P/2 – Desinformada.

 

R – Desinformada. Aí começamos a escutar os casos de assassinato. Inclusive quando nós chegamos lá e tal. São engraçados mas, ao mesmo tempo, são dramáticos, porque a gente... E a gente já estava tão assustada com aquilo, com aquela cidade absolutamente fora dos padrões, não é?

 

P/2 – Faroeste.

 

R – E aí encontramos, em frente à Matriz, várias casinhas - cidade pequena do interior - com luzes vermelhas. E, normalmente, você associa luz vermelha a casa de [risos], de moças, de...

 

P/2 – De meretriz.

 

R – De meretriz e tal. E nesse dia... Aí perguntamos, eu fui entrevistada de manhã na rádio, e perguntamos: “Muito estranho tudo que está acontecendo. A gente chegou, as pessoas procurando maconha na nossa bolsa; depois essa... Não é? Muito livre a questão”. “Não...”, ele falou: “Não, essa luz vermelha que vocês viram não é casa de meretriz, é casa que vende buchada”. Eu falei: “Buchada!” [risos]. Por isso que eu falo: você chega em determinado lugar, você tem que se alfabetizar, você tem que se...

 

P/2 – Informar.

 

R – Se informar qual é a cultura da região. Como é que as pessoas vivem, como é que as pessoas... Deixa eu ver outro. Tem muitos casos engraçados. É que... BB-Educar não é um nome muito fácil, as pessoas confundem com várias coisas. Então, eu já dei cursos em que chegaram mães que queriam fazer cursos para bebê, por exemplo, achando que era um curso de puericultura. Não, não é. Uma vez também, eu dei um curso aqui próximo a Brasília... Esse foi bem dramático porque cheguei na porta da sala de aula e tinha uma fila de dois quilômetros e eu não entendi o que estava acontecendo ali. Fiquei feliz, era a primeira vez que eu ia a um curso com essa... Com esse tipo de procura. Que bom, as pessoas estão querendo ser educadores e alfabetizadores. Não. Acharam que era um concurso do Banco do Brasil! E não contente com isso, o coordenador lá do movimento, que não soube explicar muito bem o que estava acontecendo, saiu com o meu carro para procurar novos educadores, porque ele achava que tinha pouco. Mas é porque ele não tinha visto a fila que estava do lado de fora. E nisso, ele fundiu o motor do meu carro, eu fiquei ilhada numa cidade aqui durante uns dois dias. Então assim... Eu acho que a gente passa por situações as mais adversas. Agora mesmo eu acabei de chegar de um curso no interior do Paraná, num lugar que eu nunca... Numa cidade que é o pior IDH do Estado, mas que eu nunca pensei de encontrar as condições de existência, ou de falta de recursos que eu vi naquele lugar. Inicialmente, isso nos assustava muito, que a gente chegava: “E agora, como eu vou dar um curso?” Acho que noventa... Antes do BB-Educar passar para as comunidades, 1992, esse diretor de Recursos Humanos fez uma reunião com os educadores falando que ele pretendia abrir o BB-Educar para as comunidades. E foi muito curioso nessa época, porque as reivindicações das pessoas eram assim: “Eu fui para um lugar que não tinha alguém para tirar xerox para mim”. “Eu fui para um lugar que não tinha aparelho de som”. Hoje isso virou brincadeira porque, assim... Depois dos lugares que a gente começou a conviver, eu vou para um lugar que não tem energia elétrica, eu vou para um lugar que eu tenho que dar um curso onde, às vezes, eu não tenho uma mesa direito, uma cadeira, um quadro de giz, não é? Então, eu acho que isso muda muito a nossa perspectiva, o nosso olhar e a capacidade de resolver os nossos problemas e de enfrentar as situações com humor, atentando, embora algumas sejam dramáticas, mas eu procuro sempre levar: “Vamos resolver, vamos arrumar, vamos ver no que vai dar”. Mas acho assim... Uma sugestão que acho que... Seria muito curioso e muito interessante, a gente vai tentar fazer isso agora, em se reunir um grupo de pessoas e trazer essas memórias de coisas alegres, coisas divertidas, coisas emocionantes que a gente viveu ao longo do...

 

P/1 – Tem alguma coisa programada para a comemoração desses 15 anos do BB- Educar?

 

R – Tem. Nós vamos ter um Encontro agora - 16 a 20 de outubro - onde, entre outras coisas, vamos tentar buscar essa história, você lembra que eu te contei. Nós vamos... Nós estamos reformulando o curso agora. Agora assim... Recolhendo os 15 anos e mostrando toda a produção nossa, nos assumindo. Acho que agora é a ruptura total com a formação que nós recebemos da PUC. Total não, eu estou falando o seguinte: a PUC nos trouxe muita formação e muita informação, mas chegou a hora da gente dizer o que a gente quer e em que a gente acredita. E agora é esse momento. Então, nós vamos ter alguns palestrantes de fora, vamos ter a renovação desse curso e vamos ter a comemoração dos 15 anos. Um momento, assim, de resgate mesmo dessa história.

 

P/1 – E bom, resgatando essa história, como você avalia essa trajetória junto ao programa, junto ao Banco, junto à Fundação?

 

R – Eu acho que foi um caminho, assim, muito desafiador. Uma das coisas mais interessantes é a possibilidade de estar o tempo todo... Porque eu acho que não vou encontrar isso em lugar nenhum, o relacionamento teoria com prática, estudando e, ao mesmo tempo, estando nas comunidades. Eu acho que isso eu não encontrei nem na Universidade, nem nas instituições em que  trabalhei. Acho que no BB-Educar essa ponte, essa práxis, de fato, foi um lugar onde eu pude fazer. Acho que a grande conquista pessoal, de ter aprendido tanto com a realidade. Acho que também não posso negar que devolvi muito disso, porque me envolvi com os projetos, me envolvo com a mudança, com a criação de novas perspectivas de trabalho. E até com as brigas mesmo, porque eu acho que não aceitar que você fique fazendo a ação social sem ver resultado, fazendo ação social sem ver a transformação da realidade, acho que isso é a grande... Que é uma grande questão minha atual. Eu não consigo mais que é bom e bonito estar há 15 anos fazendo isso sem que isso, realmente, se traduza, eu não digo somente em números, mas se traduza em ação consequente, não é? Um recurso bem empregado, que transforme as comunidades. Eu acho que essa é a minha grande questão atual. 

 

P/2 – Você podia traduzir a Fundação Banco do Brasil em algumas palavras para a gente?

 

R – [pausa] Eu acho que a Fundação Banco do Brasil representa a possibilidade de fazer ações voltadas para o desenvolvimento do país que busquem resultados sem perder perspectiva da participação local das pessoas que vivem ali. Eu não poderia dizer tanto dos funcionários do Banco porque nem todos os projetos estão ligados aos funcionários, mas também como um braço e que também possibilita os funcionários do Banco terem uma ação nesse sentido. Acho que é isso que eu teria a dizer, acho complicado falar em poucas palavras sobre a instituição, não consigo.

 

P/1 – O que você aprendeu dentro da Fundação?

 

R – Olha, conviver com a diferença. E essa diferença, eu não estou dizendo a diferença dos meus pares, não é? Com a diferença social. Aprender com a divergência teórica, que é muito complicado, não é? E aprender a partir da prática. Acho que essa é a grande questão. Aprender errando, podendo errar e visando acertar, não é? Acho que esse é o grande aprendizado. 

 

P/1 – Patrícia, eu sei que as dificuldades são muitas, mas qual é o maior desafio que esse programa BB-Educar tem?

 

R – É que a Educação, ela não está descontextualizada. A educação não é um projeto à parte de qualquer projeto de nação. Então, quando você se depara com os problemas da educação de jovens e adultos, você vai se deparar com problemas como a fome, com a falta de moradia, a falta de saúde, problemas estruturais brasileiros, não é? Então, ao mesmo tempo, você vai... Como dizia o nosso grande mestre Paulo Freire: “Se educação sozinha não transforma, sem ela também a sociedade não vai mudar”. Então, a gente acredita, está nela, e fazendo Educação. Porque a gente acredita que ela tem a sua parcela, mas a grande dificuldade é que ela sozinha não vai transformar. Eu não vou... De repente, um alfabetizando sai da sala de aula porque ele tem que trabalhar, então ele tem que fazer uma opção: “Ou eu como, ou eu estudo.” Então, no Brasil, a gente se depara com isso, questões como essa, questões muito maiores do que a sua capacidade de resolver, não é? Então, esse é o grande desafio. E o outro grande desafio é reverter esse processo de culpabilização dos indivíduos. Deixa eu tentar explicar isso. Isso, para mim, é uma questão muito séria porque a gente vive uma questão ideológica de achar que o grande responsável pelo analfabetismo é o próprio analfabeto. Isso está no senso comum, isso está na representação de alguns professores, de algumas autoridades inclusive. E ele acaba incorporando essa ideia: “Eu aprendo, eu não aprendo porque eu sou incapaz, porque eu não quis, ou porque...”, não é? E muitos educadores repetem esse discurso, que é ideológico mas que acaba se mantendo. Então, é um grande desafio fazer essa pessoa acreditar que ela é capaz e que ela vai aprender. Acho que essa é uma das primeiras barreiras que a gente vai ter que romper.

 

P/1 – Com certeza. A gente está caminhando para o final já, para as últimas perguntas. Tem uma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de falar? Uma colocação? Algum ponto que a gente não soube tocar?

 

R – Assim, acho que são muitas, muitos acontecimentos, muitos fatos. É uma história muito longa e a gente fica sempre com a sensação de que não consegue traduzir tudo isso, toda a importância desse programa. Mas eu acho que vocês tocaram, abordaram as questões centrais. Assim... Por hora, pelo menos, eu acho que consegui dizer o que estava… O que me chegou mais à memória nesse momento. É complicado.

 

P/1 – Bom, não só o BB-Educar está fazendo aniversário, mas a Fundação completou 20 anos agora e está com esse projeto de recontar, de resgatar essas histórias, não é? Como é que você vê esse programa? O que você está achando?

 

R – Eu acho isso fantástico. Eu fiquei me perguntando porque a gente... Porque as pessoas não tomaram essa iniciativa antes. Eu vejo hoje nós, o BB-Educar, com 15 anos, outros programas que tiveram uma existência longa e sem esse registro tão importante. E, principalmente, sendo essa forma que não aborda somente a questão institucional, que mistura isso com a vida das pessoas. Como as pessoas se sentem, como as pessoas se emocionam, como as pessoas curtem ou não tudo o que fizeram. Eu acho isso fundamental. Não só pensando em outros projetos, mas pensando... Assim... Pensando também em outros projetos. Porque uma história não se faz sempre do nada, mas também quanto se fez, e, às vezes, nem tudo foi tão valorizado e nem tudo foi tão lembrado, não é? Eu acho esse registro perfeito, maravilhoso, eu acho que quem teve essa iniciativa está de parabéns e, principalmente, de escolher uma alternativa, uma metodologia tão interessante, tão diversificada.

 

P/2 – O que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Eu tenho... Eu tenho... Como estou há muito tempo no programa, eu tenho tido a oportunidade de falar várias vezes, mas fica sempre a sensação de que você não diz tudo, não é? Eu acho que eu me coloco melhor, às vezes, na escrita, de forma escrita, lembrando de casa, tendo um tempo maior. Uma câmara sempre bloqueia, sempre dá... “E agora, o que eu vou dizer?” Pois é quando você sai daqui que, certamente, vai aparecer uma história muito engraçada, certamente vai aparecer uma história muito emocionante que eu... “Por que eu não me lembrei de contar?” Mas acho que faz parte do projeto, faz parte do processo isso mesmo, não é? Eu não me sinto constrangida de falar, mas eu... De alguma forma há um bloqueio na memória, na lembrança, talvez alguma forma mais solta, de algumas pessoas conversando, ou mesmo eu escrevendo houvesse coisas assim que devessem estar aqui presentes, lembradas. 

 

P/1 – De forma alguma, foi muito bacana. 

 

R – Hum, hum. 

 

P/1 – Bom, em nome do projeto, Patrícia, eu gostaria muito de agradecer o seu depoimento.

 

R – Está joia, então.

 

P/2 – Obrigado.

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