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História

Além das expectativas

História de: Florinildes Santos Bernardino da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Florinilde nasceu em Sergipe e veio aos dois anos com sua família morar na favela Baixa do Sapateiro, no Rio de Janeiro. Ainda adolescente, trabalhou como arrematadeira em uma fábrica de sutiãs. Quando sua mãe, preocupada com o desemprego, começou a procurar vagas de empregada doméstica para a filha, Florinilde se recusou e se tornou professora leiga, figura comum na época. Seguiu em frente, cursando a Escola Normal e tornando-se professora oficialmente. Nessa entrevista, Florinilde nos conta detalhes de sua jornada.    

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História completa

P/1  - Vou pedir para que a senhora repita mais uma vez seu nome.

 

R - Meu nome é Florinilde Santos Bernardino da Silva. Eu nasci no dia 06/05/1947, em Aracaju, capital do estado de Sergipe. De lá saí aos dois anos de idade e fui morar no Rio de Janeiro, onde morei 28 anos. Casei-me e vim para São Paulo.

P/1  - Vamos voltar um pouquinho. Seus pais são de Sergipe?

 

R - Meus pais são sergipanos.

 

P/1  - Então seus pais eram de lá?

 

R - Meus pais eram de lá. Meus pais são sergipanos, minha família toda é sergipana.

Meus pais eram muito jovens. Eles se casaram muito cedo, meu pai tinha vinte anos e minha mãe dezesseis. Viveram só quatro anos juntos; separaram-se. Meu pai continuou em Sergipe e nós viemos para o Rio de Janeiro.

 

P/1  - Sua mãe já tinha quantos filhos?

 

R - Quatro.

 

P/1  - Os quatro com ele?

 

R - É, os quatro com ele. Meu irmão mais velho se chama José Rubens, eu me chamo Florinilde, minha irmã, Florinete - coisa de nordestino -, e meu irmão caçula, Jaime Augusto. Fomos morar no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Mas a senhora tem alguma lembrança de Sergipe?

 

R - Tenho. Eu tenho uma imagem do meu pai, quando um dia, já em fase de separação dos meus pais, lembro que minha mãe foi buscar água na fonte. Bonito, né? Ela foi buscar água na fonte. Eu fui com a minha mãe e quando voltávamos a minha mãe vinha com a lata d’água na cabeça; ela tinha uma rodilha, um torço para botar a lata em cima. Havia assim, lá chamam... Não lembro. Não é botequim que chamam, é outro nome. Ele estava na porta, digamos hoje um bar, de cócoras. Eu me lembro que ele usava um chapéu e aí minha mãe falou: “Olha lá seu pai!”

Ele veio, me chamou e eu parei. Ele me deu um dinheiro amarelo, era dois reais. Eu fiquei muito feliz, saí correndo com aqueles dois reais e entreguei à minha mãe. Ela chegou em casa e falou: “Volte, devolva este dinheiro e diga a seu pai” - eu não esqueço, era pequena mas não esqueço - “que você não precisa de dois reais, você precisa de pai.” Eu devolvi o dinheiro, muito chateada (riso), mas devolvi.

A minha mãe até hoje é desse jeito, graças a Deus. Tem uma outra imagem que eu voltei a Sergipe em 91 e não encontrei. Nós morávamos em uma rua, em um bairro chamado Siqueira Campos, a rua eu não me lembro o nome, em Sergipe. Nessa rua havia um morro todo de areia branca, como se fosse da areia da praia, mas era no meio da rua. Chamava-se Alto da Areia Branca, e a criançada toda brincava naquele morro. Eu voltei em 91 e não encontrei mais aquele morro. Foi uma decepção. (risos) Eu gostei de Sergipe, mas eu gostei mais da Bahia.

 

P/1  - E a origem dos seus avós? Seus avós eram sergipanos?

 

R - Ah! Que pergunta fantástica! Eu tinha um tio que mora no Rio de Janeiro - até depois posso dar para pesquisar esse meu tio. Ele fazia o levantamento da nossa árvore genealógica. Eu acho um luxo! Por que hoje em dia as pessoas fazem o pedigree do cachorro, mas da sua história de vida, jamais. [Pensam:] “Eu vou querer saber quais são minhas origens? Eu quero é mostrar que sou descendente de espanhóis, italianos, mas as minhas origens, a minha miscigenação, Deus me livre de ficar sabendo! Pode ser uma vergonha. De repente eu tenho um índio negro na família. Eu prefiro dizer que eu descendo de italianos, espanhóis, tem até um alemãozinho por aí.” (risos) Mas o meu tio pesquisava e ele se intitulava o “Conde Augusto”. A família toda se divertia. O nome dele é José Augusto - “Eu sou o Conde Augusto.” (risos)

Meu tio pesquisava porque, segundo a minha avó, a mãe da mãe da minha avó foi Lei do Ventre Livre, quer dizer, a minha bisavó e a minha tataravó foram escravas. Segundo meu tio, eles eram reis em alguma aldeia na África, só que nós não sabemos mais nada. Eram tribais. Eles tinham aquela coisa de hierarquia de tribo. Nós pertencíamos a essa família; meus bisavós não tiveram esse cuidado, quer dizer, se perderam; cada uma foi para um lado, para uma fazenda, outros foram jogados ao mar, problema do banzo na viagem. E ninguém sabe. Meu tio era o único que começou a pesquisar alguma coisa, mas ele não tem o nome de nada. Ele se intitula por conta dele o Conde Augusto. (risos) Um barato!

 

P/1  - Você chegou a ter contato com alguém, uma avó?

 

R - Sim. Quando eles se separaram, minha mãe… A família nordestina - de uma maneira geral na família brasileira, há alguns anos atrás, a avó cuidava dos netos, fazia comida; agora é que o pessoal da terceira idade está na rua o dia inteiro. (risos) Graças a Deus! Então a minha mãe veio para o Rio de Janeiro e a minha avó veio para acompanhar a filha porque ela já era viúva, e eu fui criada pela minha avó. Aprendi muita coisa das nossas origens porque no nordeste há muita preocupação com a cultura. A cultura com relação às crendices, aos provérbios e cirandas, músicas e coisas da terra.

 

P/1  - E a sua avó, ela sabia cantar?

 

R - Ela adorava, sabia tudo quanto era reisado. Nós temos um grande músico, um grande cantor, autor que grava música que são refrões do folclore brasileiro e ele diz que é dele. Eu não conto o nome porque eu gosto dele, mas a minha avó cantava. Como ele pode cantar se não conhecia a minha avó? Ele coloca no disco e diz que é criação dele, só que é do folclore popular. Ele ganha muito dinheiro. Que Deus o ajude. (risos)

 

P/1  - A senhora sabe cantar alguma coisa que a sua avó cantava?

 

R - Eu sei. Você é poderosa, hein? Ela cantava coisas assim: “A filha do rei da Espanha foi tomar banho no mar. A jóia caiu do dedo, ela pegou a chorar. Veio ilustre cavaleiro…” Não lembro mais. Essa música acho que era com relação o período em que o português chegou ao Brasil, o espanhol chegou ao Brasil e o negro trouxe a dança. O espanhol e o português trouxeram a roupa, o vestuário e tinha assim o reisado, a manifestação folclórica desses povos. A minha avó viveu essas coisas. Ela cantava e cantava...

 

P/1 - Não lembra mais outro trecho dessa música tão linda?

 

R - Deixe-me ver... Ah, é tanta coisa...

 

P/1  - E brincadeiras, a senhora se lembra?

 

R - Eu brincava muita de roda, de passar anel. Ah, era fantástico! Fiquei até emocionada. Passar anel. Observávamos muito as estrelas, era lindo, porque à noite sentava-se à porta e lembro que se escutava muito a novela da Rádio Nacional. Depois da novela da Rádio Nacional (minha avó era fã do Eron Domingos, que era um grande repórter), tinha o Jornal do Brasil, depois vinha a novela e depois eu ficava brincando. Minha avó contava histórias na porta e [a gente] brincava de roda, contava as estrelas, essas coisas.

 

P/1  - Por que sua mãe escolheu ir para o Rio de Janeiro?

 

R - Porque esse meu tio Augusto e minha tia Helena, que já faleceu, já estavam aqui no Rio; porque o Rio, São Paulo... As pessoas tentam o mercado de trabalho porque no nordeste até hoje é mais difícil. O meu tio Augusto já estava na Marinha - agora é oficial da reserva -, era marujo. Antigamente tinha aqueles marujos que andavam com a roupa azul-marinho e a roupa branca e aquela capinha maravilhosa. Meu tio era marujo e ele era o mais importante da família; era como se ele fosse soldado, só que ele era soldado da marinha, então a minha mãe já estava separada e ele mandou buscar para ajudar.

Fomos morar no Rio de Janeiro em Bonsucesso, numa favela chamada Baixa do Sapateiro. Era horrível, minha mãe rezava todo dia e jurava que um dia nós sairíamos de lá. E saímos, fomos morar em Duque de Caxias. Aí já foi uma casa, a casa tinha até muro, era fantástico. Nós éramos seis crianças porque a minha tia tinha dois filhos. Ela também era separada do marido e foi morar conosco.

Ficamos encantados com o muro e ficava todo mundo sentado em cima do muro, inclusive o cachorro Totó. Um dia o muro caiu. (risos)

 

P/1  - Vocês estavam sentados, não?

 

R - Não, mas o muro desabou. Houve uma chuva e o muro desabou.

 

P/1 - A sua mãe fazia o que para sobreviver, sustentar vocês?

 

R - A minha mãe trabalhou aqui no Rio de Janeiro como tecelã, ela trabalhava numa fábrica de tecido. Pegava aqueles turnos, largava às dez horas da noite. Depois ela saiu dessa fábrica que foi à falência - acho que era Sulfabril, Nova América, eu não lembro. Uma coisa assim, eu era bem criança. Ela saiu dessa fábrica e foi trabalhar nas Casas José Silva que foi o ápice da moda, da costura da roupa masculina. Tenho a impressão que foi na época do Calvin Klein que ficou famosa a Casa José Silva. Tinha grandes camisarias, agora tem poucas. Colombo, Luigi Bertolli, mas naquela época tinha José Silva, era o ápice, e a minha mãe era costureira das Casas José Silva. (risos) Fantástico!

Era um momento muito bom, minha mãe tinha um salário certinho e as coisas foram entrando no jeito. Ela ficou vários anos lá até que a Casa José Silva mandou quase todo mundo embora porque teve uma mudança. Hoje em dia quase ninguém usa mais camisa de manga comprida. Depois entrou aquela camisa “volta ao mundo”, que era linda - até o Collor fez campanha com aquela camisinha. Hoje as pessoas usam mais camisetas, mas houve um tempo que usavam calça e camisa. Agora não, mudou muito. Era muito bom.

A Casa José Silva tinha uma fundamentação social para com os empregados, uma coisa inédita porque as empresas brasileiras não têm muita preocupação com os funcionários no que se refere à parte social. De maneira geral, são as empresas estrangeiras que têm essa preocupação, que acreditam que é um salário indireto esse tipo de investimento, mas a Casa José Silva tinha, naquela época, essa preocupação. José Silva é um nome bem brasileiro, bem português, e era uma coisa incrível. Eles davam algumas coisas para as crianças em algumas datas do ano. Eu me lembro que no carnaval tinha um bloco da José Silva para juntar todos os funcionários, agregar as famílias. Eles davam a roupa, davam tudo. Tinha um cordão e a criançada, filho da costureira, filho do chefe, todo mundo no bloco com a camisinha com gravata. Eram coisas muito interessantes, todo mundo se conhecia na empresa e a minha mãe adorava.

Depois as Casas José Silva mudaram as coisas no Brasil e mandaram muita gente embora. Minha mãe pegou todo o dinheiro que recebeu durante o tempo que trabalhou lá, da indenização, comprou uma porção de bugigangas e foi vender na porta da José Silva. A minha mãe virou camelô. [Foi] Isso que aconteceu, agora ela fez [isso] há 30 anos. Com isso ela foi se firmando, vendendo coisas, porque ela percebeu que na hora do almoço as pessoas não tinham o que fazer, então ela vendia na hora do almoço para as colegas.    

 

P/1  - Onde era isso?

 

R - No Rio, num lugar chamado Caju, perto da rodoviária, onde tem aqueles armazéns. Ela vendia para as colegas. Com isso ela comprou um terreno e fez uma casinha no Rio de Janeiro; hoje ela mora numa casa muito boa de dois andares, mas ela segurou a barra sozinha.

 

P/1  - Ela e a sua avó?

 

R – Eu, a minha avó, meus irmãos. Inicialmente nós morávamos com meu tio e essa minha tia Lena que era cozinheira de um alemão - esqueci o nome dele. Ele era fantástico, ele me adorava, vou lembrar. Ele era muito amigo… Não lembro agora. Minha tia era cozinheira, minha mãe costureira e meu tio militar. Morávamos inicialmente nesse lugar em Bonsucesso, todos num barraco e depois fomos morar todos em uma casa em Duque de Caxias. De lá, com o passar dos anos, cada um foi fazendo as suas coisas.  

Hoje meu tio está na reserva, voltou para Sergipe como Capitão dos Portos, foi Comandante dos Portos; hoje mora em Maricá, numa casa na praia. O apartamento dele deixou na Tijuca para os filhos morarem, não quer mais saber de nada. Ele escreveu um livro, não sei o nome, depois vou procurar saber para indicar o nome dele.

 

P/1  - A senhora entrou com quantos anos na escola?

 

R - Eu me lembro que naquela época eu era do jardim [da infância]. Estudei num Grupo [Escolar] chamado Escola Bahia que fica em Bonsucesso, bem na Avenida Brasil, perto do IAPTEC [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas]. Eu me lembro até hoje da diretora, ela era muito forte.  Quando ela aparecia no pátio, todo mundo tinha muito medo. Todo mundo cantava o hino nacional perfiladinho, todo mundo ficava assim: “Vem a diretora!”

É um momento [de] que eu sinto muita saudade, o momento em que as crianças tinham um ritual para ir à escola. Tinha que colocar o uniforme, tinha uns que tinham até bibico; tinha que levar a lancheirinha mesmo que não tivesse lanche, tinha que levar os livrinhos, tinha que levar tudo. Lá na escola cantava-se o hino, hasteava-se a bandeira e tinha umas fitinhas para quem tinha nota boa. Eu nunca fui muito boa, não. Tinha uma fitinha verde e amarela.

As meninas mais bonitas… As professoras eram fantásticas, elas atropelavam as crianças negras assim, “de metrô”. Ah! Professor primário, eles são fantásticos para isso; eles atropelam, passam por cima “de bonde”, “de trem”. Então as garotas mais bonitas, os garotos mais bonitos, apresentavam a classe para os visitantes. Às vezes vinha um diretor, algum vendedor de livro e tinha que apresentar a classe; todo mundo tinha que levantar e cantar. Eu nunca fui escolhida, afinal de contas eu não preenchia os padrões e não preencho até hoje, mas tudo bem. Era muito bom, eu sempre tive vontade de ser convidada para falar e apresentar a classe porque eu sempre gostei muito de falar. Como as minhas professoras nunca me escolheram, eu montei o meu palco. Hoje eu tenho uma empresa, chama-se A Flor da Idade. Eu faço desfile de modas, faço eventos, eu mesmo pego meu microfone e falo tudo que eu quero. Não precisei delas. (risos)

 

P/1 - E a senhora tem alguma lembrança de alguma coisa que a senhora gostava muito na escola, alguma matéria, alguma amiga?

 

R - Eu me lembro que eu gostava muito de História. Eu me lembro que não estudava, só lia e pensava. Eu gostava muito de História e gostava também muito de matéria que falava sobre o céu, as estrelas, os planetas. Eu tinha prazer nestas coisas e gostava muito da História do Brasil. Chorava muito com a história do pobre do Tiradentes, meu Deus. Esquartejado! Quando eu via aqueles livros com aquele homem, com aquela corda no pescoço, ah! que horror, eu chorava na escola. Eu tinha muita pena, até hoje eu acho que foi uma violência, uma coisa assim que... A violência está aí, mas a violência veio, foi trazida pelos próprios imigrantes. Eles eram degredados, eram assassinos no país deles e vieram, foram convidados como castigo para povoar o Brasil. Eles eram patrões e donos dos negros: batiam, matavam e até esquartejavam. Foram nossos colonizadores. E o resultado... (risos)

 

P/1 - Seus irmãos iam à mesma escola que a senhora?

 

R - Sim. Meus irmãos iam à mesma escola e a minha mãe tinha uma preocupação de não deixar criança sem fazer nada porque minha avó era idosa - nem era tão idosa, hoje você olha uma pessoa de setenta anos e não é idosa. Eu tenho pessoas de 77 fazendo curso de Modelo em Passarela.

Minha avó, com cinquenta anos, era velha naquela época, então minha mãe tinha muita preocupação de não deixar crianças sem fazer nada para não ir para a casa do vizinho. Como ela saía às três horas da manhã para trabalhar e andava de trem maria-fumaça, quando voltávamos da escola tínhamos que ir para outra escola que era informal. Naquela época existia professor leigo; eram pessoas que não tinham emprego, as meninas que ainda não tinham se formado ou estavam na escola normal. Antigamente para entrar na Escola Normal tinha que fazer concurso e passar mesmo, não é fazer uma redação e a escola preencher as vagas com quem fez a redação, como fazem as faculdades de hoje. Naquele tempo você fazia um curso; não era ginásio, era acima do ginásio. Como era que chamava, hein?

P/1  - Colegial?

 

R - Colegial, acho que é hoje.

 

P/1  - Científico?

 

R - É. Era acima do ginásio. Colegial, Normal e Científico. Técnico. Para fazer um curso desse você tinha que ser bamba para entrar na escola do Estado.

Minha mãe ficava preocupada de nós ficarmos sem fazer nada e essas moças, essas senhoras davam aulas na sua própria casa. Como minha mãe não tinha tempo para ensinar a lição e minha avó era analfabeta, mas muito sábia, ela nos colocava para estudar à tarde ou de manhã. Todo mundo estudava na escola do estado e à tarde ou no outro período ia para aquela escola fazer a lição, então estudávamos o dia inteiro. Ninguém morreu, ninguém nunca foi preso, ninguém é bandido, ninguém usa tóxico. Não tenho nada contra, mas é um dano irreparável para a própria vida e para os outros.

Estudava de manhã e à tarde. Era no tempo da palmatória. Eu tinha uma professora chamada Arlete, eu [a] detestava. Ela me batia muito porque eu sempre fui muito conversadeira, desde criança. Às vezes a família muito austera atropela a criança. Às vezes é uma veia. Não adiantou, eu pego o microfone e falo mesmo em qualquer lugar.

Ontem fui homenageada no Clube Militar da Aeronáutica. Teve a Semana da Asa na Aeronáutica e fazem um baile em Santana em homenagem à Ícaro; [fazem] em todo o Brasil, acho que em todo o mundo. Ontem foi na Vila Militar, lá no clube no CASSASP [Clube Associativo dos Suboficiais e Sargentos da Aeronáutica], e eu fui homenageada. Tinha uns oito brigadeiros, outros militares, e a única mulher homenageada fui eu. Duas pessoas fizeram o uso da palavra; eu fui uma delas. Não adianta. “Essa menina é muito conversadeira, bota nota vermelha porque fala demais.”

 

P/1 - Você chegou a tomar a mão à palmatória?

 

R - Ah! Palmatória na mão... E milho. Essa professora Arlete...

 

P/1 -Você ajoelhou no milho?

 

R - Ajoelhava no milho, de costas para a aula. Olha que castigo errado! Em vez de botar para estudar bastante, botavam de costas, ausente da aula. Era o castigo ao contrário. Tinham que botar para estudar mais; botavam de costas, em cima do caroço de milho e eu ficava lá. E palmatória na mão.

Eu não gostava dela porque me lembro que as meninas que a mãe ia buscar e deixar não apanhavam. As meninas, as crianças que os pais nunca iam lá - minha mãe não ia porque ela trabalhava, minha avó era idosa e não era idosa de hoje -  apanhavam mais de palmatória. As que a mãe iam lá todo dia perguntar como foi não precisavam, não mereciam. Não faziam nada errado. Não sei se faziam, só sei que elas não apanhavam. Legal, né?

 

P/1 - A senhora tem uma lembrança de como era o Rio de Janeiro nessa época? A senhora ia à praia?

 

R - Não porque era muito pobre. Esse negócio de praia no Rio, isso é muito fantasia. Muita gente que mora no Rio não vai à praia, não. Agora tem os ônibus, mas antigamente não era tão fácil o acesso. As pessoas até iam para conhecer, mas iam até com roupa que não tinha nada a ver.

Eu me lembro da praia que fui nas férias para conhecer. Era a praia de Ramos, que era um horror e a Ilha do Governador, que era fantástica e agora é uma lama só, só poluição, só odor. Graças a Deus as grandes indústrias chegaram lá e poluíram toda a ilha. Maravilha. Esse é o progresso.

Eu me lembro muito do Rio de Janeiro na época da Carmen Miranda; eu era criança, mas adorava. Até hoje. De vez em quando eu faço uns trejeitos no carnaval da Faria Lima, o carnaval da terceira idade. Todo ano eu saio de baiana, dou uma de Carmen na avenida e rodo a baiana mesmo, não estou nem aí.

Me lembro muito da época em que eu pensei que era uma guerra. Minha mãe saiu para trabalhar, meu tio, todo mundo saiu para trabalhar e voltou muito tarde. Era uma confusão. Toda hora o repórter Esso falava, e tinha até um galo que cantava “tatatataa, tatatataa”, e o Eron Domingos entrava. Tinha um outro jornalista, um repórter também negro que se chamava Majestade. Lembra? Não, não é do seu tempo. Você não era nem gente! Era o Eron Domingos e o Majestade.

Hoje, eu me lembro, eu cheguei a entender o que estava acontecendo. Foi a morte do Getúlio. Foi uma confusão muito grande, um quebra-quebra, foi como se fosse assim... Na Bósnia. Tipo um estado de sítio, uma loucura, todo mundo caindo, gritando, chorando e repórteres; eu pensei que fosse uma guerra, mas não era. Foi o dia que o Getúlio morreu ou assassinou-se ou suicidou-se ou foi assassinado. Minha avó era fã dele, o adorava.

Me lembro que eu gostava muito de cantar, me lembro da Rádio Nacional. Cheguei até a ir lá umas duas vezes, já adulta, para conhecer. Naquela época, na época do rádio, eu adorava aquelas roupas maravilhosas que a Emilinha, a Dalva de Oliveira,  poderosa, que a Elizete Cardoso, a Ângela Maria, que era “a Sapoti”, usavam. O Cauby, o Nelson Gonçalves. Eu me lembro também quando o Nelson Gonçalves morreu porque ele tinha um carro… Mas eu não me lembro dele, eu me lembro que foi uma confusão. Era uma coisa tão fantástica que eu ficava assim.

Nessa época eu morava na favela, eu ficava ouvindo o rádio e era uma viagem muito grande. Hoje você liga a televisão e vê a imagem. É muito mais pobre do que você imaginar, pelo menos para mim. Eu vejo o cenário de uma novela e imagino as novelas que eu assistia: o “Direito de Nascer”, uma novela que tinha um cigano, eu não lembro o nome; me lembro daquelas novelas e era tudo mais bonito que os cenários que eu vejo hoje. E quando a Ângela Maria cantava eu ficava imaginando aquela roupa redonda bem cheia de coisas, aqueles vestidos bem cheios de coisas, eram lindos. Eu me lembro muito dessa época. Gostaria de ter registrado alguma coisa mais.

 

P/1 - Quanto tempo a senhora ficou morando na favela?

 

R - Quatro anos. Naquela época foi marcante, você imagina hoje. Nós íamos buscar água na bica; criançada de favela trabalha, viu? Trabalha muito. Nós íamos buscar água e tinha naquela época um malandro chamado “Boca Rica” porque ele tinha a boca cheia de ouro, era chique aquilo.

 

P/1 - Malandro lá da favela?

 

R - Era, lá da favela. Era o dono do pedaço. E ficava todo mundo na fila. Ele não fazia nada com o pessoal dali, mas eu tinha medo, tanto medo, só de escutar falar. Às vezes nós íamos buscar água e tinha pessoas mortas pelo caminho, mas tinha que fazer de conta que não estava nem vendo. Depois que eu saí da favela e fui morar numa casa legal, eu tinha medo de soldado do exército, era a polícia para mim.

Eu não devia nada. Na minha casa nunca teve nenhum problema. Meus tios, minha mãe nunca tiveram problemas com a polícia, mas pelo lugar que eu morava e pelo que escutava falar da polícia, eu tinha medo. Quando eu via um soldado eu corria, tinha medo. Gozado, né?

 

P/1 - Marcado.

 

R - Era marcado, era a repressão. Era soldado de roupa verde que não tinha nada a ver, que não estava nem aí, mas era a polícia e eu tinha muito medo.

 

P/1 - Como era a relação com os seus irmãos, vocês brincavam muito?

 

R - Muito, muito. Brincava de casinha, de professora, de pique, de esconder. Eu brincava porque naquela época a criança brincava com as coisas que ela tinha. Eu brincava muito de jogar pedrinhas, tinha campeonato de pedrinhas.

Você não sabe o que é isso? Não! Chama-se jogar nente. Por exemplo, você chega na rua e tem uma construção e aí você olha e tem umas pedrinhas redondinhas. Quando você vai à praia não tem umas pedrinhas mais bem acabadinhas? Então você pegava cinco ou seis pedrinhas daquelas e ficava jogando. Tinha campeonato de pedrinhas, e jogava muito amarelinha. Agora a Xuxa gravou uma música com a amarelinha por causa daquele grupo que tem uma música que fala: “Essa história de criança, como é bom!” e eu estava vendo. “Olha, amarelinha!”

Nós jogávamos amarelinha, brincávamos de garrafão, que era um negócio que nem uma cobra que você vai pulando e desenhava na areia o seu brinquedo. Eu me lembro que ganhei uma boneca e fiquei muito chateada porque pensei que ia ganhar uma boneca de porcelana - minha mãe me deu uma boneca e eu sei hoje que ela me deu a boneca que ela pôde. Só que eu fui dar banho na boneca e o rosto da boneca desmanchou, a boneca era de massa (riso), eu pensei que era de louça e a boneca era pintada, hoje eu sei que era pintada. Eram pintadas à mão, uma coisa linda. Não era assim como a Estrela, uma coisa tão prática, era mais manual. Pensei que era daquelas e fui dar banho na boneca; era tudo de pano e a cabeça derreteu. (risos) Criança tem mania - eu tenho um filho e ele é terrível, tinha mania de desmontar tudo que ganhava quando era pequeno, tudo quanto era brinquedo. Realmente, eu também fazia isso. Eu fui dar banho na boneca e era como dar banho na minha filha, ficou tudo molhado, era de pano e a cabeça derreteu. (risos)

 

P/1 - Deixe eu perguntar uma coisa: com quantos anos a senhora foi trabalhar?

 

R - Quatorze, trabalhar com carteira assinada porque a criança nordestina realiza muita tarefa doméstica. Não é como hoje, que as meninas adolescentes não lavam uma calcinha. As crianças descendentes de nordestinos fazem muitas tarefas: elas lavam a louça, fazem comida, varrem a casa, lavam a roupa e não é só a dela, a dos adultos também. A criança cuida do menor, tem muito isso na família nordestina. Com quatorze anos fui trabalhar com carteira assinada na Alteza.

 

P/1 - O que a senhora fez na Alteza?

 

R- Eu fui arrematadeira. Era uma confecção só de sutiãs que competia com a DeMillus, que está aí no mercado. A Alteza foi à falência. Elas eram concorrentes como a Duloren hoje, mas não chegavam nem aos pés da DeMillus, as duas eram grandes. O sutiã tinha um acabamento como se fosse uma barra, uma bainha de máquina e por dentro tinha um viés. Ficava uma coisa que eu cortava e tinha os dedos cheios de calos, cortava o dia inteiro. Era arrematadeira.

 

P/1 - A senhora já tinha aprendido isso antes?

 

R - Não, isso foi direto na fábrica. Naquela época criança menor de dezoito anos quando ia trabalhar fora ganhava metade do salário. Se você fosse arrematadeira e tivesse mais de dezoito anos podia fazer a mesma coisa que eu ou menos que eu, só que você ganhava um salário inteiro e o menor ganhava 50%. Então as empresas começaram a contratar bastantes menores, mas eu acho que isso era válido. Hoje em dia não pode botar o adolescente para trabalhar porque está explorado, está não sei o quê, e o resultado é este que se vê. Eu acho que devia até voltar o salário de menor e tirar esses adolescentes da rua, botar para aprender a fazer coisas, aprender a ter responsabilidades, compromisso.

 

P/1 - Quanto tempo a senhora ficou nessa empresa?

 

R - Quatro anos... Três anos e pouco, porque quando iria completar dezoito anos fui demitida um pouquinho antes. Os empresários sempre foram espertos. Como é hoje o serviço militar: vai completar dezoito anos, mandam embora um mês antes do interstício. Então eu fui mandada embora porque ia completar dezoito anos e eu quando completei dezoito fiquei muito feliz porque eu ia ser eleitora, eu ia votar. Peguei minha carteira profissional com meus três anos e alguns meses e joguei fora porque achei que não precisava mais. Minha mãe guardou. Quando fui me aposentar agora em 92 minha mãe me deu de presente a carteira. Então era assim a minha vida. Depois eu saí da fábrica de sutiã Alteza e fui trabalhar na Príncipe de Gales.

 

P/1 - A senhora estava estudando?

 

R - Estudando. Estudava no ginásio Ana Maria Gomes. Eu trabalhava em uma fábrica chamada Príncipe de Gales e também era arrematadeira, só que trabalhava com mantô e roupas de alta costura. Fiquei um tempo lá e a chefe era uma senhora portuguesa. Enquanto o patrão não estava lá, ela fazia costura para as freguesas particulares dela na empresa. Eu não sabia, só entendia que ela costurava e quando vinha alguém ela punha a roupa debaixo da mesa. Eu não sabia o que era aquilo; ela era a chefe, chamava de dona.

Um belo dia coloquei uns botões num mantô errados; cada mantô tinha quatro botões e outros tinham seis, eu era muito nova e não tinha experiência de olhar e já ver que o modelo era aquele. Coloquei os botões errados e o dono da empresa quando chegou, ela disse: “Foi ela que fez isso. Olha! Não aprende.” Jogou toda a culpa em mim. Eu depois fui entender que ela estava fazendo a costura dela no horário de trabalho e eu sozinha. Eu falei com a minha mãe e não voltei nunca mais. Ela teve que fazer tudo sozinha até arranjar outra boba.

 

P/1 - Nessa altura sua mãe não estava mais costurando, ela estava trabalhando já como camelô?

 

R - Já como camelô. Nessa altura eu já tinha uns dezesseis anos, por aí.

 

P/1 - A senhora ia de ônibus para o trabalho? Que meio de transporte a senhora usava?

 

R - Eu ia de ônibus. Morava em Duque de Caxias e no Rio tem um ônibus que se chama Praça Mauá ou Mauá/Caxias. Ele vai pela Dutra e muito rápido, então eu ia de ônibus. Acordava cedo e ia trabalhar de ônibus. Anteriormente, quando eu trabalhava na fábrica de sutiã Alteza, ia de trem. Eu peguei aquele trem antes, era meio que maria-fumaça mesmo. Era um trem que parava e tinha um monte de fagulhas na nossa roupa. Eu ia de trem e era um horror porque os homens não respeitam até hoje, não respeitavam as meninas que estavam no trem, então para você ter condições de viajar sem ser incomodada, tinha que ter uma turma. Eu tinha uma turma no trem, era uma festa! Tinham os rapazes, as mulheres que trabalhavam e quando chegavam os meninos entravam no trem correndo e guardavam lugares para nós sentarmos. Tinha festa de aniversário no trem, tinha um monte de coisas e era bom, muito bom.

Essa época foi da fábrica de sutiã Alteza. Da fábrica Príncipe de Gales, eu já viajava de ônibus. Depois eu não fui mais trabalhar e minha mãe falou: “E agora? Vai ficar você em casa e sua irmã.” A minha irmã era mais nova. O nordestino tem isso, ele protege muito o mais novo. Quando tem um mais velho em casa, aquele é o Cristo! (risos) Como das meninas eu era a mais velha de seis netos, eu era o Cristo. Eu aos oito anos ia à reunião de pais e mestres porque minha mãe não podia ir; minha avó era idosa, era eu que ia. Fiquei desempregada, minha irmã já estava com doze ou treze anos, eu com dezesseis ou dezessete, por aí. Minha mãe falou “bom”... E minha prima foi morar em casa - nordestino tem muito isso, vem o primo, vem um monte de gente. (risos)

 

P/1  - E seus irmãos, eram mais novos?

 

R - Eram mais novos. Eu sou a segunda e me lembro que a minha mãe disse: “Agora você vai trabalhar em casa de família porque está difícil de arranjar emprego” e arranjou uma casa de família para eu trabalhar. Eu fiquei desesperada porque eu não queria trabalhar de ‘peniqueira’, que era como se falava naquela época.

 

P/1  - Como se falava?

 

R - Peniqueira.

 

P/1 - É mesmo, usava-se essa expressão?

 

R - É. Usa-se até hoje, o nordestino usa. Quem trabalha como doméstica, até hoje o nordestino fala: “Ah! Fulana é peniqueira.” Antigamente não tinha muito banheiro, usava-se penico e então usa-se até hoje. O nordestino é cheio de trocadilho e fala até hoje ‘peniqueira’.

Eu não queria ser peniqueira, entrei em pânico. A minha irmã era a caçula e eu sempre fui muito ativa. Na rua onde morávamos tinha outras senhoras que davam aulas e eu comecei a dar aula por ali também, em casa, até que descobri que existia naquela época uma classe de professores chamada de professor leigo. Eram os professores que não tinham feito a Escola Normal ainda, porque a Escola Normal não era assim: pagou, passou. [Para entrar na] Escola Normal tinha que prestar um concurso barra-pesada - era o tempo da normalista, das grandes escolas normais desse país e muitas mulheres tinham boa condição, mas não passavam. Condição, digo, de conhecimento, mas não passavam no concurso, não conseguiam entrar com aquelas provas difíceis. Todo mundo queria ser normalista, os rapazes só queriam namorar as normalistas. Então naquele tempo eu me lembro que... Esqueci...

 

P/1  - Você estava falando que tinha uma categoria que era professor leigo...

 

R - Eu descobri esse negócio. Dando aula em casa descobri que as vizinhas que davam aula em casa e elas saíam. E eu perguntei: “Onde você vai?” “Eu dou aula.” “Você é formada?” – “Não, eu não sou formada, mas dou aula num lugar bem longe.” Eles botavam para dar aula num lugar bem longe e as escolas mais no centro eram as que já estavam no Normal, então mesmo quem estava no ginásio começava a dar aula.  

Descobri que existia esse professor leigo e o que fiz eu? Fui procurar onde era. Era na Prefeitura de Duque de Caxias. Cheguei lá e tinha o secretário da educação, professor Nilton; depois ele foi meu professor na Escola Normal. “Como é que faz para ser professor leigo?”

Eu faria qualquer coisa para não ser peniqueira; graças a Deus que eu fiz. E eles me explicaram: “Tem que falar com o secretário da educação, mas nem adianta porque você é muito nova. Professor leigo tem que ter muita experiência, não adianta que você não vai entrar.” Fiquei lá e me mostraram a sala do homem. Era uma fila enorme e tinha uma secretária que ficava segurando a porta para ninguém entrar. Passei um dia ali.

Teve um momento que a secretária saiu e foi buscar água para o secretário. Nesse momento abri a porta e entrei. Cheguei lá e falei: o meu nome é esse, eu tenho essa idade, eu preciso trabalhar e eu quero aprender, eu preciso estudar; eu preciso trabalhar para continuar meus estudos. Falei assim com o secretário. Ele ficou olhando para mim e eu consegui entrar como professora leiga. Trabalhei e estudei depois na Escola Normal, me formei e depois fiz [curso superior na Universidade] Gama Filho.

 

P/1  - E sua mãe, [como reagiu] quando você conseguiu?

 

R - Ela desistiu de me botar de peniqueira porque eu virei professora de repente! Dava aula num lugar horrível. Eu adorava o horrível trajeto. Chamava-se [Escola Municipal] Barão do Amapá.

O Rio não é essa belezura que todo mundo fica falando, não. O Rio tem lugares muito sofridos. Eu trabalhava numa escola que eu andava quarenta minutos de ônibus, depois eu andava uma hora a pé, depois eu atravessava um rio numa canoa [para chegar lá]. O canoeiro chamava-se Catuaba, [ele] já morreu, bebia uma catuaba incrível. Ele me esperava e me chamava de Excelência. “Excelência, estou aqui com o barco esperando, Excelência.” Bêbado! Eu subia no barco e ia em pé, de tanto que andava naquele barco. Lá do outro lado do rio os meninos me esperavam porque eu tinha medo de passar no meio dos bois.

 

P/1 - Era cheio de bois lá?

 

R - Era. Eles traziam cana pra mim, cana de chupar, e nós íamos chupando cana e cantando no meio do mato. Anos depois o meu dentista disse: “Você tem uns dentes lindos. Por que os seus dentes são lindos assim? O que você fez?” “Eu não sei, eu sempre escovei os dentes.” Conversando, ele me disse: “Deve ser porque você chupava muita cana. A cana de açúcar é natural, não tem esse açúcar que nós usamos, e ela protege o esmalte.” Falou uma porção de coisas que eu não lembro mais.

 

P/1  - A senhora ia cantando com os alunos?

 

R - Dava aula numa escola que é um parquinho atrás de um barzinho, chamava-se Tendinha, atrás de uma tendinha. Tinha crianças que tinham de pegar na mão até a quinta série, tudo numa sala só. Mas era ótimo, adorava. (chora) Muito bom. Depois eu entrei na Escola Normal no Rio mesmo, no Instituto de Educação Roberto Silveira e foi muito bom.

Tinha uma professora de português que adorava essa parte de teatro cênico, tinha professor de música; a escola era fantástica, era completa. Eu estava sempre no palco. Era folclore, estava eu tocando afoxé; era teatro, estava eu de Catirina. Nunca peguei personagem, mas aquilo que ninguém queria, como Catirina, até que um dia a professora me colocou. “Você foi tão boa nisso que vou dar um papel pra você fazer no teatro.” Fiz a ovelhinha negra da Maria Clara Machado. Bati em todo mundo. Maravilhosa. Mas era a personagem mesmo e podia bater. Se fosse hoje, não sei se eu faria, mas naquela época eu fiquei muito feliz.

Essa escola me traz uma lembrança muito boa porque havia um diretor, chamava-se professor Jalmir, e eu não esqueço: um dia eu vim dessa escola que eu trabalhava e cheguei atrasada no colégio, que era a Escola Normal; eu tinha o maior orgulho. Eu cheguei atrasada e o portão estava fechado, aí eu falei assim: “E agora? Não posso perder aula.” O que eu fiz? Dei a volta, pulei o muro e entrei para a escola pelo muro. (chora) Aí me levaram para a inspetoria. “Onde já se viu uma normalista pular o muro?” Me arrasaram, falaram um monte de coisas, “normalista não-sei-o-quê”.

Eu levava o uniforme na bolsa. Tinha uma gravata, um distintivo da escola, um broche bonito. Falaram, falaram e me levaram até a sala do diretor. “Ela fez isso, pulou o muro, uma normalista!” O diretor olhou, ouviu e depois disse assim: “Você pode voltar para sala mesmo atrasada porque você pulou o muro para dentro da escola.” Não esqueço. ”Você pulou para dentro, não tenho como punir, pode voltar para sala.” Foi uma lição para todo mundo. Maravilhoso, isso. Não esqueço nunca do professor Jalmir. (chora) Foi demais escutar isso, mas eu escuto até hoje: “Você pulou pra dentro da escola.” Só isso. Acabou a reunião e eu voltei pra sala de aula bem mais atrasada, porque depois de tudo aquilo... (risos) Foi fantástico.

Depois eu fui dar aula na Prefeitura de Duque de Caxias. Já era normalista, já estava formada e lá em Duque de Caxias houve uma época que o prefeito era um coronel. Esse coronel, não me lembro o nome dele, fazia nós passarmos seis meses sem receber salário e eu ficava desesperada porque já estava fazendo a Universidade Gama Filho. “E agora? Como é que vou pagar a Universidade?” Minha mãe queria que fizesse Pedagogia porque era de graça e eu não queria porque eu não queria ser pedagoga. Eu queria ser assistente social e fui estudar na escola paga. A minha mãe [dizia]: “Ah, metida! Não aguenta.” Eu passava o ano inteiro sem poder pagar praticamente, mas sempre fui muito audaciosa; eu marcava audiência com o reitor e ia. A secretária queria me matar: “Onde já se viu!” Mas havia um professor que era da cadeira de Assistência Social que intercedia. Ele intermediava, conversava com o diretor do meu problema. Eu ia lá porque pra falar com o diretor tinha que falar primeiro com ele e eu explicava: “O prefeito não paga, eu não posso parar de estudar. Eu não tenho como pagar. O dia que ele me pagar, eu venho aqui e pago tudo.” Eu passava o ano todo na Universidade Gama Filho - cinco, seis, oito meses sem pagar. No dia que recebia, ia lá e pagava tudo, então o diretor, toda vez que acontecia, ele tomava a frente. Pessoas muito importantes, uma sensibilidade, né? E assim eu consegui estudar na escola mais chique do Rio de Janeiro naquela época. Fiz a faculdade de Serviço Social, aproveitei, foi fantástico, cantei no coral da Universidade Gama Filho porque eu não podia usar a piscina, não tinha tempo. Podiam usar, os alunos - olha que chique! -, aquela piscina olímpica maravilhosa. Eu não podia usar porque não tinha tempo, mas podia cantar no dia de sábado e então fui cantar no coral. Fui regida pelo maestro Abelardo Guimarães, era uma coisa de deuses. Eu amava fazer aquilo.

 

P/1 - Vocês se apresentavam?

 

R - Nos apresentávamos. Depois eu cantei no coral da Gama Filho e foi indo.

Depois o que aconteceu? Eu entrei na Prefeitura de Duque de Caxias nesse período já de normalista e comecei a dar aula nas escolas municipais mais próximas. Nesse período em que o prefeito não pagava nós ficávamos sem receber salário, mas todo mês, no dia do pagamento, todo mundo ia para aquela fila. Eu era muito popular, era muito falante, então ficava na fila andando pra lá e pra cá, cumprimentava todo mundo, era um ponto de encontro. Todo mundo sabia que aquele dia era dia de pagamento mesmo sem pagamento e todo mundo ia pra fila. (risos) Todo mundo se conhecia e nessa época eu fiquei conhecida no meio do professorado.

Eu tinha um colega que se chamava Silvério do Espírito Santo. Ele era deputado estadual e quando eu voltava pra Duque de Caxias, ele naquele carro poderoso, preto, às vezes me dava uma carona. Ele fazia o curso de Direito e eu fazia Serviço Social e ele me convidou pra ser vereadora. Ele ia bancar toda a minha campanha e tinha até um slogan: “Uma flor para o seu bairro abandonado.” Era o meu slogan. Eu era muito nova e tive medo de me candidatar. Eu falei com a minha mãe e minha mãe falou: “Na minha família nunca teve político. Olha esse negócio, depois o povo vai mandar te matar, porque eles matam.” Eu fiquei com medo de morrer, não fui. Quem sabe eu poderia ter entrado nessa vida, mas fiquei com medo de alguém mandar me matar. Minha mãe falou: “Já imaginou você vereadora? Eles vão mandar te matar!” Aí eu não fui, mas eu tinha até slogan e ele ia bancar toda a minha campanha porque ele achava que eu era muito popular. Nem comecei minha carreira política, acabou.

 

P/1 - E na adolescência, a senhora contou que trabalhava muito. A senhora ia a baile, namorava?

 

R - Eu fui muito bonita quando adolescente, mas não fui muito namoradeira porque tinha pânico [de] engravidar e os vizinhos, as vizinhas olhavam pela janela. Isso era um pânico. Porque primeiro pensava-se no vizinho falar que tá namorando, se agarrando e tinha um negócio que chamavam de ‘fon-fon’, que os rapazes passavam a mão no seio das meninas. Deus me livre! Então eu não fui muito namoradeira, não era uma época que as meninas namoravam muito.

Eu dançava muito porque eu sou da época do rock, da época do Elvis, do Chubby Checker. Sou do cha-cha-cha e dançava muito rock. Eu tenho um irmão que se chama Rubens, mora no Rio de Janeiro. Ele é mais velho que eu quatro anos e aqueles negócios de jogar por baixo da perna, jogar pra lá, virar pra cá, eu fazia tudo aquilo. Tinha muitos campeonatos, em todo lugar tinha e todo mundo: “Vai ter um festival de rock, vamos lá!” [A gente] se inscrevia na hora e dançava aquelas coisas, era fantástico.

Eu dançava muito rock, muito mesmo. Na minha época de ginásio, antes da Escola Normal, eu fui Miss Simpatia. Todo mundo que queria dançar em algum lugar -  naquela época tinha o baile Luz Negra - ia falar com a Flor, na sala da Flor porque ela sabia. Naquela época baile era assim: qualquer pessoa fazia um baile na sua casa no final de semana. Era só levar Coca-cola - não sei se era, acho que era Coca-cola - e os meninos levavam Cuba Libre e chegando lá misturavam, botavam limão. Ficava todo mundo tomando Cuba Libre e dançando, um na casa do outro. Dançava-se muito, era fantástico!

 

P/2 - Você lembra de alguém especial dessa época, de algum amigo...

 

R – Eu tive um amigo que foi assim, chamava-se Paulo. Ele passou no concurso da marinha e a primeira viagem dele como marujo foi para Portugal. Ele mandou foto para nós e tinha até uma foto dele pequenininha vestido de marinheiro. Lá eles foram passear - coisa de marujo, acho que namorar, essas coisas. Na volta eles vinham num carro que bateu na Ponte do Rio Tejo e ele faleceu. (chora)

E não era muito namoradeira, não, tinha medo de engravidar. Como os meus pais eram separados, a minha mãe criou a gente [dizendo]: “Se vocês aprontarem e aparecerem aqui grávidas, vão falar que eu não criei vocês direito!” E então eu não namorava muito; eu dançava muito.

Eu me lembro que [quando tive] o meu primeiro namorado já tinha quase dezoito anos. Eu gostava muito de excursão - Aparecida do Norte, Coroa Grande, uma praia do Rio de Janeiro. Fazia excursão no final de semana, essas coisas, mas não fui namoradeira, não, até que eu gostaria de ter sido. (risos) Tempo perdido!

.

P/1  - Depois a senhora se casou no Rio. Como foi?

 

R - Sim. Como foi que aconteceu?

Um belo dia, eu já era normalista e eu morava no Rio, numa parte de Duque de Caxias que era um bairro de periferia, tipo Penha, e a Escola Normal era num bairro melhor, Vinte e Cinco de Agosto, um bairro bom tipo Vila Mariana. Era um luxo ir todo dia para aquele bairro; aqueles meninos todos bem tratados, uns meninos bonitos.

Naquele tempo - não era o tempo de vocês - usava-se um aplique nos cabelos. Todo mundo usava peruca e eu usava aplique. Eu tinha um corpo muito bonito, então ia para a escola de mini-saia; dobrava aqui escondido, chegava na porta da escola, desdobrava. (risos)

Eu me lembro que um dia eu vi um garoto muito bonito, um garoto negro, mas a pele - eu sempre fui muito exigente - uma pele! Uns dentes bonitos. Eu disse: “Nossa, que garoto bonito!” e fui embora para a escola. Um dia eu fui no baile no Clube dos Quinhentos - porque eu dançava muito, Luz Negra, essas coisas - fui no baile e lá estava o garoto. Fiquei olhando aquele garoto bonito, gordinho. Hoje é meu marido. (risos)

Eu havia lido numa revista que quando você está num baile e quer dançar - naquele tempo tinha mexerico da candinha, essas coisas, Revista do Rádio -  e ninguém lhe tira para dançar, você deve dar uma volta no salão. Eu acho que ainda funciona. Aí, eu e minha colega - o nome dela é Orsina, ela mora no Rio ainda - fomos dar uma volta no salão, porque ninguém nos tinha tirado para dançar ainda e era uma vergonha ficar sentada ali, era uma humilhação. Fui passar bem perto daquele garoto que estava lá. Ele me tirou para dançar e fui dançar com ele, mas estava tão cansada que dormi dançando. (risos). Eu cochilei no ombro dele e até hoje ele fala: “Você dormiu no meu ombro no primeiro dia.” (risos) Namoramos, depois ele sumiu e começou a namorar uma menina que era crente - a mãe dele também era crente. Ele sumiu e eu nunca mais o vi.

Um dia ele apareceu na minha casa. Ele é militar, da base aérea de Cumbica e ia uma vez por mês ao Rio de Janeiro, no fim de semana, feriados, porque ele morava na base aérea e não tinha como ir todo fim de semana para o Rio. Ele ia e ficava na casa da namorada. Quando saía da casa da namorada dele, ia para a minha casa bater papo com a amiga, que era eu. Eu, minha irmã, todos nós. Nesse tempo eu tinha um namorado, chamava-se Jorge. Ele voltava da casa da namorada mais cedo e ficávamos os três sentados. Olha que coisa!

Ele tinha um amigo que tinha carro, só que dizia que o carro era dele. Era do amigo dele, um fusca, era moda. Ele levava o meu namorado até o ponto do ônibus no carro e meu namorado nem.... “Que legal! O Nelson é bonzinho”. Levava e voltava; ficava sentado comigo e eu ficava pensando assim: ”Eu tenho vontade de namorá-lo, mas se um dia eu namorar de verdade, ele vai pensar que sou dessas. Então eu não vou namorar.” Ficavam os dois, um olhando dentro do olho do outro. Antigamente namoro era isso, [a gente] ficava olhando, parece que ia entrar um dentro do olho do outro. (risos) Ele ia embora e nós não namorávamos.

Um dia estava passando aquele filme “Dio Come Te Amo”, foi um sucesso. Antigamente as pessoas iam ao cinema com as melhores roupas, as filas do cinema dobravam. Era uma coisa fantástica, pior de que fila de banco. As pessoas iam ou de roupa azul ou de roupa rosa, era lindo. Todo mundo ia ver aqueles filmes fantásticos, aquele glamour todo de Hollywood. Meu marido ficou lá em casa, e eu fui assistir a um filme com o meu namorado. Era um domingo e ele veio mais cedo, e quando eu saí [e] eu olhei, eu vi que o bicho ia pegar. Eu olhei no olho dele, ele olhou para mim e só faltou dizer: “Não vai.”

Eu fui e desmanchei o namoro naquele dia com o meu namorado. [Quando] voltei, ele já tinha ido embora e não voltou mais. Eu escrevi uma carta. “Terminei o namoro e estou precisando de um amigo, porque eu estou muito triste.” Só para falar para ele que eu não tinha mais namorado. No final do mês, quando ia para o Rio -  ele ia uma vez por mês - ele foi na minha casa porque eu estava muito triste.

 

P/1 - E afinal?

 

R - Afinal, namoramos e casamos. Mas teve uma passagem nesse casamento… O pessoal da classe pobre tem muito isso, quando o filho começa a trabalhar: “Vai trocar essa porta, vai reformar a casa, vai fazer um monte de coisa.” Quando começamos a namorar, eu já tinha terminado a Gama Filho ou estava na Gama Filho, uma coisa assim. A mãe dele começou a falar: “Terminou com aquela menina e agora está namorando esta.” Eu não podia ir na casa dele, eu ia na casa da avó dele. Ele me apresentou através da avó dele.

Um belo dia, eu não sei o que aconteceu. Minha sogra foi na minha casa e disse: “Meu filho está namorando, mas não vai casar tão cedo porque ele tem que reformar a casa, a irmã dele está estudando e ele tem que pagar a escola.” Desmanchei com ele. Falei: “Você quer saber de uma coisa, eu sou um ótimo partido.” Eu percebi uma coisa: o homem sempre acha que é um ótimo partido e que a mulher está sempre desesperada para arranjar um namorado. Eu resolvi e falei para ele: “Eu sou um ótimo partido, sou uma menina linda” - porque eu era linda - ”eu tenho faculdade.”

Naquela época uma garota negra com faculdade não era brincadeira, não, era muito dificil. Hoje é, você imagina naquela época! Eu era a única negra na classe e me formei em 74, 73, porque em 75 eu vim para São Paulo.

Uma garota negra na classe? Eu tinha alguns professores que sentia que era importante para eles. Eles eram brancos, mas me davam a maior força, inclusive esse diretor. Falei para ele: “Sou formada, sou professora.” Dava aula, não recebia, mas era professora. Desmanchei com ele e naquele dia foi que o negócio pegou: ele pediu para ficar noivo. Não aceitou, não. E aí casamos. “Não, te quero, te amo.” Ficamos noivos naquele dia, quer dizer, ele marcou o noivado e a minha sogra teve que ir no meu noivado. (risos) Naquele tempo tinha noivado, tinha que fazer pedido. Tinha um bolo, me lembro que era um bolo que tinha aquele bolo de abacaxi em cima, aquela calda. Alguém fez um bolo, tinha uma toalha lá. Tinha que fazer o pedido, falar mesmo.

.

P/1  - Juntou a família?

 

R - É, a família. E ele teve que fazer o pedido.

 

P/1  - Foi na sua casa?

 

R - Foi na minha casa, mas foi legal. Nós casamos e viemos para cá, eu fui trabalhar...

 

P/1 - Por que vieram para São Paulo?

 

R - Viemos no mesmo dia.

 

P/1  - No mesmo dia?

 

R - No mesmo dia, de ônibus.

 

P/1 - Mas por que? Ele ia ser transferido?

 

R - Não, porque ele já morava em São Paulo, em Cumbica. Ele ia todo mês, mas morava na base aérea de Cumbica.


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