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História de: Hely Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2005

Sinopse

Hely Rodrigues nasceu em Belo Horizonte. Começou a tocar bateria com treze anos, aprendendo com um vizinho que era músico. Tocou em diversos álbuns do Beto Guedes, Lô Borges, Caetano Veloso. Tem enorme carinho pelo Clube da Esquina, que, apesar de não ter feito parte diretamente, sempre acompanhou de perto. Milton Nascimento é uma figura bastante presente na sua vida, musicalmente e como pessoa. Hoje toca no 14 Bis, banda que tornou-se a parte mais importante da sua vida. 

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História completa

P1- Oi Hely, por favor, começa falando seu nome, data e local de nascimento.

 

R- Oi, eu sou o Hely Rodrigues, eu toco no 14 Bis, nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, num bairro bacana, é um bairro bem humilde, porém de pessoas legais, honestas, em Belo Horizonte.

 

P1- E o nome dos seus pais, completo?

 

R- O nome do meu pai é José Miguel Ferreira e o nome da minha mãe é Maria Agostinha Dias.

 

P1- Eu queria que você contasse como foi e em que período da sua vida começou a sua relação com a música.

 

R- Bem, a minha começou como músico, quando eu vi um africano que morava perto da casa dos meus pais, ele tinha uma banda e ele era uma pessoa multi instrumentista e, dentre os instrumentos, ele tocava bateria também. Então o meu primeiro contato com a bateria foi vendo esse africano tocar e quando eu percebi aquilo, eu achei muito interessante o instrumento e o vendo tocar, eu falei “Poxa, é o que eu quero fazer” e eu tive a sensação que ao sentar na bateria eu iria tocar.

 

P1- Quantos anos você tinha?

 

R- Treze anos. Então eu pedi a ele, “Poxa, é um barato esse negócio aí, eu estou afim de ver” e ele falou, “Você toca?”, eu falei “Toco”, “Então vem para cá e assuma”. Aí eu sentei na bateria e tentei me organizar no instrumento e vi que não saía nada, a coordenação, não tinha como, aí eu falei, “Gente, eu tinha a certeza de que eu iria tocar isso”. Aí para mim aquilo se tornou um desafio, eu falei, “Poxa!” e me deu um mal estar muito grande e eu entrei numa de tocar aquilo e eu fui correr atrás e ele foi o único cara que me deu os toques. Ele falou “Hely, você tem que arrumar umas coisas para você ir distribuindo as batidas, os toques e tal”. E aí comecei ele foi meu maior incentivador, o nome dele é Ubadiê. 

 

P1- E você tem contato com ele?

 

R- Não e eu estou afim de achar essa pessoa, porque eu gostaria imensamente de fazer um trabalho sobre ele porque como músico, ele era muito bom e como pessoa ele era melhor ainda.

 

P1- E o que a sua família, seus amigos, acharam dessa sua escolha?

 

R- Eles não gostaram muito a princípio, porque o músico nessa época era muito marginalizado, era uma profissão que você tinha que cair na noite e não sei o que, e nessa o teatro e a música, eram profissões pouco recomendadas para as famílias tradicionais, então foi uma barreira que eu tive que vencer. Mas eu acho ótimo que a família, embora eles não tenham gostado, eles não tiraram esse incentivo, não me cortaram o barato. Eles chegaram, “Se é isso que você quer, manda ver e pronto” e foi ótimo.

 

P2- Entrando no assunto Clube da Esquina, eu queria que você contasse como começou a sua relação com eles.

 

R- Bem, eu não faço parte do Clube da Esquina diretamente, então eu conheci o Beto Guedes e gravei com ele a Página do Relâmpago Elétrico, eu, Flávio, Vermelho, José Eduardo. E eu tocava também antes do 14 Bis, eu e o Vermelho, a gente tocava com o grupo Bendegó, que é um grupo baiano, e a gente dividia o show com Caetano Veloso. Depois dessa época a gente começou a estruturar o 14 Bis e aí gravamos o disco do Beto, fizemos alguns shows com o Bituca, o Milton Nascimento, eu, Vermelho e Beto Guedes e gravei também o disco do Lô Borges, o Via Láctea. Então sempre tive esse contato com os Borges que são uma família espetacular. Então eu acho que de certa forma, a gente veio fazendo parte dessa coisa de estar indiretamente ligado ao Clube da Esquina. O núcleo mesmo, Clube da Esquina é o Lô, os Borges, o Milton Nascimento, o Beto, esse pessoal aí e a gente é amigo. Eu acho que o Clube da Esquina é um tecido, um tecido de sensibilidade, de emoção, é uma trama espetacular, e isso foi um legado que eles deixaram para a gente e a moçada que está chegando hoje também, está sentindo a pressão desse trabalho que eles fizeram que eu acho de uma importância incrível. Lá fora o pessoal tem um conhecimento sobre o Clube da Esquina, que eles valorizam tanto isso lá que eu acho que a gente não tem nem idéia do que significa. Eu acho que a gente precisa mais dar uma escutada no pessoal lá fora para gente saber organizar isso mais legal, valorizar isso mais adequadamente. Eu acho que foi um movimento assim, que aconteceu em Minas Gerais, que utiliza muito a cultura mineira que é muito forte na arte da culinária, na música que é uma coisa muito elaborada, então eu acho que é fantástica essa coisa que está surgindo agora, que está sendo jogada para cima, eu acho um barato.

 

P1- E para você na época, quando saiu o Clube da Esquina 1, 1972, como você recebeu esse disco naquele momento?

 

R- Olha, foi um negócio muito legal esse Clube da Esquina, é um disco que bate na gente com uma violência que é inexplicável, é muito legal você saber que está perto de pessoas que como diz o Tom Jobim, por exemplo sobre o Lô, que ele é um dos melhores compositores que ele já conheceu. Então quem sou eu para dizer diante de tais palavras, do Tom Jobim, então eu fico muito feliz de ser amigo do pessoal, de ser filiado a essa coisa, de estar caminhando, mesmo que indiretamente, com essa moçada toda. Eu acho que assim, é muito bacana.

 

P1- Mas como músico e como ouvinte, o que você sente ao ouvir esse disco, o que ele te trás de emoções e o que ele significa para você?

 

R- Significa muito, a gente cresceu muito com isso. O Milton, por exemplo, ele deu uma virada, uma mesclada na música, na maneira de tocar. Por exemplo, havia bossa nova, havia uma série de coisas (pausa), tinha aquele movimento do pessoal do Rio, mas o Milton conseguiu dar uma nova roupagem à música. Então ver aquele lance da Guarânia, foi negócio excepcional e com a ajuda do Som Imaginário, com Robertinho Silva, com Tavito, Luis Alves, os caras se integravam de uma forma bacana e conseguiram dar uma mexida na bossa nova e incrementar um punhado de coisas. Surgiam uns ritmos que a gente ficava maluco, falava “Poxa, o que é que é isso?”, é uma nova forma de tocar. Inclusive, o lance da gravação do disco do Beto Guedes, por exemplo, aquilo eu tive uma influência muito grande no A Página do Relâmpago Elétrico, teve uma música que eu fiz uma bateria que foi altamente influenciada pelo lance do Milton, do Som Imaginário, foi uma batera que eu fiz, a música era um seis por oito e eu mandei um dois por quatro em cima, que tem a ver, mas foi um negócio que chocou muito, o pessoal falou assim, “Hely, essa batera está meio estranha”. Então eu comecei a experimentar essa batera com Tavinho Moura e ele é um cara que a música dele, eu sempre brinco que a música é mais quebrada do que arroz de terceira, então é uma música que é difícil, ela é simples, mas é difícil de ser tocada. E eu comecei a experimentar isso e no disco do Beto foi um negócio que revolucionou.

 

P2- É Chapéu de Sol?

 

R- Não, foi em Lumiar, tan, tan, tan, tan, tan, tan tan, tan (canta), então ela é toda torta aquela musica e essa batera foi a que ficou e deu um outro barato. Eu acho legal que o Beto tem um ouvido espetacular, ele percebe esses lances bacanas, essas coisas sutis. Eu acho que o Clube da Esquina é tudo isso, o Lô Borges também, eu ficava ouvindo aqueles temas dele, era um negócio muito maluco assim, para a época, eu falei assim “Gente, esse povo está muito na frente, muito mesmo”. E a gente estava acostumado a ouvir coisas lá de fora, e Beatles e um monte de coisas inglesas, eu acho que Minas tem uma influência muito grande da Europa, acho que dado a Mina de Morro Velho em Nova Lima, então teve muito inglês tirando ouro e a gente tem essa influência que eu acho bacana demais. Eu acho que no mundo a influência inglesa é muito saudável, é bacana e é um negócio muito diferente e o Clube da Esquina, o Milton, o Beto, o Lô Borges, essa moçada aí, captaram muito bem isso e fizeram. O Clube da Esquina é isso aí, é essa mistura maluca, bacana e gostosa que deu no que deu aí e tem muito mais pano pra manga ainda para rolar.

 

P2- Com certeza.

 

P1- Eu queria que você explicasse um pouquinho mais sobre esse negócio que, no meio das influências, o Milton trouxe a Guarânia, o que é isso?

 

R- A Guarânia é aquela coisa dessa música paraguaia, é essa coisa do Tinlaquetin, Tinlaquetin (canta) e era aquela coisa, uma novidade para gente. O Milton, naquela San Vicente, por exemplo, outro dia eu estava vendo na tevê ele tocando com o Wagner Tiso, é um negócio esplendoroso aquilo, então eu não sei onde que o cara estava com a cabeça que ele pegou aquilo. Esse povo tem uma percepção muito legal, então ele pegou isso e a gente também que está acompanhando a moçada e o Milton é uma pessoa que é um paizão, o Marcinho definiu bem isso, “vespa fabricando mel, é jóia marrom”, é o cara e ele sabe das coisas e ele sempre deu força para muita gente e continua percebendo essas pessoas que estão chegando agora também, está sempre dando trela pras pessoas e ouvindo as coisas boas, é o cara.

 

P2- E aproveitando que você citou um sucesso do 14 Bis, com letra do Marcinho, você poderia falar um pouco sobre o 14 Bis, sobre o Flávio Venturini? 

 

R- Eu sou grato a vida, eu sou grato às pessoas, aos meus amigos e em especial ao pessoal do 14 Bis porque a gente já veio chegando com o apadrinhamento do Milton, ele foi o primeiro produtor do 14 Bis e eu sou feliz de ser amigo do Flávio Venturini, do Cláudio Venturini, do Vermelho, do Magrão. Juntos a gente fez um negócio legal e deixa um legado bacana para as pessoas. É uma coisa bacana, o 14 Bis é a minha vida e me deu muito em termos musicais e de amizade, como pessoa, é um negócio bacana e que as pessoas percebem isso, a gente está há vinte  e cinco anos na estrada e temos um público bacana e é isso.

 

P1- Para terminar então, eu queria que você falasse o que você está achando desse movimento que é o Museu Clube da Esquina? O que significa essa iniciativa para você?

 

R-  Eu acho até que foi um pouco tarde isso. Eu já vislumbrava isso há alguns anos atrás e eu ficava invocado com isso, eu falava “Gente, tem que botar lenha nessa fogueira”, eu falava com o Marcinho Borges, “Cara, vocês não tem idéia do que isso é”. Mas é aquela história, o mineiro, infelizmente ou felizmente, nós não temos marketing, eu acho que a gente precisava ter um cara para chegar e dar força para essa coisa, porque ela já tem a força em si. Eu acho que as alterosas, a gente sempre teve essa coisa escondida por isso que ela é tão forte, porque ela fica sempre entre as montanhas e assim, aquilo não escapa nada, aquilo fica denso, fica essência. Eu acho isso legal, mas precisa dessa coisa ser jogada para fora, porque o mundo tem que saber disso.

 

P1- Mas parece que o mundo já conhece bem o Clube da Esquina, não é?

 

R- Com certeza, mas eu acho que a coisa está chegando, mas está, tem uma palavra que eu esqueci agora, mas está...

 

P1- Embrionária, será?

 

R- Não, ela está crescendo um pouquinho devagar, ela precisava vir mais forte. Eu perdi o termo que definia melhor, mas...

 

P2- Está entendido, eu queria agradecer em nome da Associação do Museu Clube da Esquina, obrigado pelo seu depoimento.

 

R- Obrigado vocês, eu só tenho que agradecer, eu estou fazendo uma obrigação de dar o meu humilde depoimento sobre o Clube da Esquina, que é uma coisa muito maior e outras pessoas de maior gabarito já souberam e já disseram sobre o Clube da Esquina, com muito mais propriedade que eu.

 

P1- Imagina, foi ótimo o seu depoimento. 

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