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História

Alaim: uma vida próxima à praia

História de: Alaim Francisco Felix
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/02/2021

Sinopse

Alaim fala de sua infância no interior de Bahia; de sua estada em Salvador durante a ditadura militar e do período em que viveu no Rio de Janeiro. Fala de seus afetos: namoros, casamentos, filhas e, também, sobre a praia. Relata as mudanças que ocorreram em Santa Cruz Calábria a partir dos anos 1990 e do impacto das políticas de educação ambiental e de inclusão digital na comunidade de pescadores.

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História completa

P/1 – Alaim, para a gente começar, você pode falar o seu nome completo? 
R – Alaim Francisco Felix. 
P/1 – E onde você nasceu? 
R – Eu nasci em Senhor do Bonfim ao norte da Bahia, extremo norte da Bahia. 
P/1 – Que dia? 
R – 6 de Janeiro, dia dos Reis Magos, 1954. 
P/1 – E qual o nome de seus pais? 
R – Meu pai Abrão Francisco Felix e a mãe Hosana de Moura Felix 
P/1 – E que é que eles faziam? 
R – Ah, são produtores rurais. Meu pai tinha fazenda de fibra de sisal, era o maior explorador de sisal da região era meu pai, era mesmo. 
P/1 – Eles vendiam para quem o sisal? 
R – Vendiam para a Hering. 
P/2 – Qual a origem deles? 
R – Meu pai, segundo eu soube, era descendente de Árabe. Minha mãe era portuguesa. P/1 – Tá, e como que você descreveria seu pai e a sua mãe? 
R – Ah meu pai era um homem muito inteligente, empreendedor, culto, que mais? E minha mãe... 
P/1 – Quais as lembranças que você tinha dele? 
R – Ah todas as lembranças, as melhores do mundo, meu pai era um homem maravilhoso, é educador, empreendedor, melhor pai, fala de um pai... 
P/1 – Como empreendedor? Que... 
R – Hein? 


P/1 – Por que é que você acha que ele era empreendedor? 
R – Porque ele tinha empresas. Ele tinha, naquela época, há muito tempo atrás, cinquenta anos atrás, ele tinha um “empólio”, que antigamente chamava “empólio”. Hoje em dia supermercado tem supermercado, né, ele tinha um “empólio”, ele tinha tudo, vendia tudo, secos e molhados que se diz, não é? Grande, da cidade era o maior. Além de ser produtor rural, ele tinha esse comércio, e quem administrava o comércio era minha família, minhas irmãs mais velhas, meus irmãos. 
P/1 – E a sua mãe? 
R – E minha mãe era uma religiosa, beata de Igreja, mas uma santa, e se chamava Hosana, carismática, linda, maravilhosa. 
P/1 – E as lembranças dela? 
R – Todas as melhores possíveis, dentro do meu coração nunca esqueço, penso todo dia nela. 
P/1 – Descreve um pouquinho para a gente. 
R – Hein? 
P/1 – Descreve alguma lembrança. 
R – A lembrança dela é que ela era isso. Quer dizer, eu saí de casa muito cedo para estudar, fui estudar com uma irmã minha, que primeiro casou logo cedo e me levou como filho mais novo - dos irmãos eu era o mais novo -, me levou para morar com ela. Daí eu fui, para aprender lá na escola, faculdade através dessa saída, mas sempre eu visitava meus pais, todas as férias tava colado. Minha mãe me chamava de príncipe, era “o meu príncipe Alaim”, pelo nome. E ela também sempre foi uma pessoa leve, sempre argumentei muito, conversava muito com a minha mãe, saía do grande centro para ir lá para o interior para contar as histórias do centro, do grande centro. Isso ai tem esse valor, né, da linguagem, de tudo. 
P/2 – Ela era Árabe também? 
R – Não, minha mãe era portuguesa, descendente né, somos descendentes. 
P/1 – E você falou que você tinha irmãos, quantos irmãos você teve? 
R – Ah meus irmãos são... eram onze, né, morreram dois ficaram nove... um, dois, três, morreram três, agora só tem oito, comigo. 
P/1 – E você é o menor? É isso? 
R – Eu sou o mais novo. 
P/1 – Mais novo. 
R – Dos homens. 
P/1 – E como é que era essa relação com seus irmãos? 
R – É, era assim: um ensinando o outro. Família, assim, de grandes irmãos, um vai ensinando o outro, principalmente homem com homem né - mulher ensina mulher e homem ensina homem. Tudo na minha vida aprendi com meus irmãos, desde a coisa boa à coisa misturada, chamada né [risos]. 
P/1 – Conta um pouco pra gente disso. 
R – De, vamos dizer andar a cavalo, dirigir em carro, que tinha em casa, né, fazenda. Como eu fui educado fora, quando eu ia eles me ensinavam as coisas que eles aprendiam, essas coisas de fazenda, do manuseio do dia–a–dia né. Que aprendizado: graças a eles aprendi muita coisa, hoje em dia eu sei tudo, quer dizer, quase tudo em termos de roça, de plantio de cultura porque eu aprendi com eles, com essa influência de família mesmo. 
P/1 – A sua infância você passou aonde? 
R – Eu passei minha infância educado com uma irmã minha. Minha irmã era professora, aí o marido dela era dentista na região, uma família muito boa, e eu fui educado na escolaridade, né, mas daí eu fui morar com ela com dez anos. 
P/1 – Antes disso você morou aonde? 
R – Morei com meus pais. 
P/1 – Na fazenda? 
R – Não, na cidade. A nossa fazenda era mais ou menos a três quilômetros da cidade - da sede, do centro da cidade. Era como se fosse um pertinho, dava para ir a pé, andando. 
P/1 – E como é que era sua casa? Você lembra? 
R – Minha casa era uma casa grande, assim, de estilo colonial. Tinha quatro portas e doze janelas, imagine o tamanho da casa, tomava um quarteirão. Era daquelas casas coloniais que o piso era de assoalho, de tábua de jacarandá, aquela coisa, né. Ainda existe essa casa lá em Senhor do Bonfim. 
P/1 – Como que era a rotina de vocês, da família quando você era criança? 
R – Quando era criança, era esperar meu pai chegar da roça, para vir com todas as mercadorias para a gente degustar. E se plantava de tudo naquela época, era fartura. Hoje em dia fica difícil você comprar as coisas porque você tem que ir no mercado para gastar, naquele tempo a gente plantava se dava ou se vendia era assim o cooperativismo entre as famílias, entre os produtores. 
P/1 – E as brincadeiras? 
R – Ah, todas, joguei gude, joguei futebol, nadei em rio, pesquei, tudo de que uma criança do interior pode fazer eu fiz. 
P/1 – Com quem que você brincava? 
R – Com meus irmãos, com os amigos da rua, a gente brigava, discutia, ficava inimigo, voltava a ser amigo, coisa de criança, todo mundo já fez isso na vida, né. Só que eu vivi com mais intensidade isso, subi em um ipê no quintal do vizinho para tirar as frutas, colhi as frutas, saí correndo - era coisa de criança mesmo [risos]. 
P/2 – Você lembra de uma história da sua infância que até hoje você não esqueceu?... 
R – Ah tem muita história... 
P/2 – Uma arte. 
R – Tem muita história: uma vez eu estava no quintal de uma vizinha - quase vizinha, no mesmo quarteirão - e ela era uma dessas pessoas antigas, né, e ela usava uma espingarda de... botava pólvora para explosão e botava sal grosso. Sabe o que é sal, né, espingarda de sal e às vezes atirava nas crianças, nos meninos quando… ela tinha essa atitude. Antigamente não tinha essa proibição, não tinha essa atitude de governo de proibir isso e muita gente foi baleada com sal, pá, tiro de sal. 
P/2– Até você? 
R – Eu não [risos]. 
P/1 – Mas ela atirava para quê? 
R – Já atirava para... não, atirava para atirar mesmo, para espantar. 
P/1 – Os meninos faziam muita algazarra lá? 
R – Mas lógico, eu subia nos coqueiros, nos pés de fruta, né. Tinha uns pés de caju maravilhosos, e a gente subia para tirar os cajus, de dia cedinho ao em vez de ir para escola, a gente ia para lá, aí ela ficava com a espingarda e atirava em quem pegasse, os meninos sempre corriam né, mas é né? Viagem né? Não sei também se tinha sal dentro, mas tinha um explosivo, a explosão né? Da pólvora, acho que ela não botava nada não porque... mas “nego” dizia: “Não vai lá não que ela bota sal grosso na espingarda”. Mas a gente ia de qualquer jeito, menino sabe como é que é né? Até que... 
P/1 – E como é que era sua cidade assim? 
R – Ah minha cidade era linda. Minha cidade é no sertão, mas é como se fosse um oásis no sertão: é entre as serras, termina a Chapada Diamantina e vem para o cerrado da Bahia, que é o final da Chapada Diamantina e compreende essa cidade, Senhor do Bonfim. Fica dentro desse oásis, dessa depressão, desse cânion né? Chamado... 
P/1 – E como é que era a comunidade assim? 
R – A comunidade era bem sociável, mais religiosa, puramente religiosa. Lá nessa cidade tinha uma escola, um colégio dos Maristas, que tem em todas as capitais. Lá tinha uma escola Marista e uma Sacramentina: para as mulheres, Sacramentina, e para os homens, o Marista. Eu fui educado no colégio Marista até os dez anos. 
P/1 – E quais são as memórias que você tem desse colégio? 
R – Ah todas de boa, bom ensinamento, a cultura avançada, tinha teatro, cinema, espaço de jogos estudantis, era religião também, era bom, puta estrutura tinha, tudo de bom e do melhor. Graças a Deus eu fui bem educado nessa escola, aprendi tanta coisa boa - embalsamar aves, insetos, aprendi tudo isso lá. Hoje em dia eu faço algumas coisas ai. 
P/1 – Tem algum professor que te marcou? 
R – Todos eram gringos, né, falavam embolado. A maioria era gringo, mas tinha alguns que marcaram através de um carinho do ensinamento né? Mas a maioria era gringo - sueco, austríaco, alemão, inglês, português, era mais de fora. 
P/1 – Você tem algum caso pra contar para a gente da escola? 
R – De lá não lembro muito não... 
P/1 – Não? 
R – Só mais para a frente. 
P/1 – E aí você estudou lá até os dez anos? 
R – Até os dez anos 
P/1 – E depois, por que você saiu de lá? 
R – Porque essa irmã minha casou, ela era de chamego comigo e eu era um moleque muito bonito também, né, de fato. E ela: “ah vou levar meu irmão”. Era assim comigo a minha irmã, até hoje é assim comigo, como se fosse minha segunda mãe, aí me levou para morar com ela. 
P/1 – Onde que era? 
R – Ela foi morar em Rui Barbosa, cidade também secular, antiga, colonial que fica aqui no oeste da Bahia, cidade na Bahia também. 
P/2 – E como foi quando você teve que sair da sua cidade? 
R – Ah não, que eu tinha um chamego muito com ela, uma identificação muito grande com ela. Como se fosse minha mãe, ela cuidava de mim, cuidava da minha roupa, era quem me dava banho, quem me dava minha comida. Com 11 irmãos era ela que fazia essa interação com a família, aí aproveitei a dica e fui com ela. Foi bom também, né? Porque fiz faculdade, estudei muito. 
P/1 – E não sentiu alguma diferença daquela casa que você brincava? 
R – Não, não, porque a outra casa era parecida, era muito grande essa outra casa também - grande, dois andares, com galpão, com sótão. Era uma casa mágica, meio fantasmagórica, mas interessante. No centro da cidade, no centro do jardim, a casa com referência, dizem que essa casa foi de Rui Barbosa, dizem! Mas não tenho certeza, é a história que contam. 
P/1 – E você não estranhou não? 
R – Não, não tenho não. 
P/1 – Sentiu saudade não? 
R – Saudade a gente sempre tem né? Das coisas que mexem com a gente, mas lá também se superava tudo, era uma família também, uma nova família. Mas eu em todas férias caía lá no interior, para visitar minha mãe, minha família, meus irmãos 
P/1 – E ai como é que foi? Você passou sua juventude em Rui Barbosa? 
R – É, a juventude eu passei uma etapa em Rui Barbosa depois fui pra Amargosa... eu fui para Juazeiro da Bahia, voltei para a origem, Senhor do Bonfim e Juazeiro, que eu queria fazer o vestibular para Agronomia em Juazeiro, meu objetivo era esse. Aí eu fui para Juazeiro, com essa influência eu fui no científico em Juazeiro, primeiro ano, segundo, terceiro, antigamente era científico, primeiro, segundo e terceiro ano, do segundo grau no caso. Lá no terceiro ano, eu me apaixonei por uma morena e ela ia passar o ano e eu fui com ela. Aí fui ver, cheguei em Salvador para Geologia, passei em Geologia, larguei e fui fazer Química, a vida... 
P/1 – Volta aí, volta, volta... 
P/1 – Você foi muito rápido [risos]. 
R – É que eu falo rápido assim. 
P/1 – Não, me conta um pouco da sua juventude, como é que foi? 
R – A minha juventude foi assim, minha juventude basicamente em Juazeiro, de 15 a 18 anos... 
P/1 – De 15 a 18? 
R – É, Juazeiro foi ótimo. Foi lá que eu fiz música, estudei música, tínhamos um conjunto musical, a gente participava de teatro, tudo. A cultura em geral de Juazeiro, era nós que participávamos, os alunos desse colégio 
P/1 – Você tinha um grupo de música? 
R – Tinha, fundamos um conjunto 
P/1 – O que é que você tocava? 
R – Eu tocava violão, cantava, percussão, tudo. A gente se envolvia com tudo, interatividade. 
P/1 – E como é que chamava? 
R – Com k, Kujuntos, k u juntos. 
P/2 – Que tipo de música vocês tocavam? 
R – Música popular brasileira, tocava popular, a gente foi influenciado porque João Gilberto nasceu em Juazeiro da Bahia, entendeu? E fomos influenciados pela Bossa Nova. É origem minha, hoje em dia eu toco muito Bossa Nova por isso, porque eu fui influenciado por João Gilberto, conheci muito João Gilberto, me deu um violão de presente, eu tenho um violão até hoje e quem me deu foi João Gilberto, fizemos uma permuta 
P/1 – Você ia muito em festa? Como é que era? 
R – Festa direto, lá em Juazeiro tinha uns clubes antigamente. Já perderam essa característica, os clubes sociais, mas tinha uns três clubes sociais no centro da cidade. Aí era bagunça, pulava o muro para ir pro clube quando não podia entrar, que era de menor, era uma confusão, mas sempre estava la dentro de uma certa forma. 
P/2 – E vocês tocavam onde com esse grupo? 
R – Tocava em colégio e reuniões em geral, jardim, na linha férrea, na... como que era o nome? Esqueci o nome, vou lembrar... Em todo lugar, em aniversários, em casamentos. 
P/1 – E você lembra do seu primeiro namoro? 
R – Ah lembro, meu primeiro namoro... eu namorei minhas primas primeiro, eu pequenininho já namorava minhas primas, era um chamego [risos]. 
P/1 – Mas seu primeiro namoro de verdade como é que foi? 
R – Meu primeiro namoro... eu fui noivo nesse primeiro namoro, com uma garota linda chamada Albani, eu Alaim e ela Albani. Namoramos muito tempo, namoramos uns 4 ou 5 anos... 
P/1 – Como é que você conheceu ela? 
R – Ah conheci ela... eu vinha de bicicleta, eu e um colega meu de bicicleta, eu no quadro e ele pedalando e ela vinha na esquina e eu atropelei ela. Foi aí que começou o namoro, eu acho que ela já me paquerava, ela tinha quatorze anos nessa época. 
P/1 – Mas você atropelou de propósito [risos]? 
R – Não, foi na esquina, mas aí gostei quando vi o visual da morena. Que deus lhe deu um bom lugar, porque ela já faleceu, com vinte e três anos de idade. Fiquei meio atordoado com isso, mas foi uma pessoa maravilhosa, me incomodou muito, num sentido bom, né, me trouxe alegria, educação, no caso de respeito, era uma pessoa maravilhosa, tenho em meu coração todo dia quando peço e oro, faço sempre a ela uma oração, pedindo que Deus lhe dê um bom lugar, quero encontrar um dia ela, vida após morte tem sentido, acredito muito na reencarnação, então um dia. 
P/1 – Foi por causa dela que você foi para Salvador ou não? 
R – Não, é como disse assim [entrevistado declama] “deixaste–a?” perguntaram ao poeta e ele disse “não, é que ela foi pular nas estrelas e eu me perdi no meio da música”. É um poema. P/1 – Vocês se separaram antes dela morrer? 
R – Sim, fui para Salvador e ela ficou na cidade, essa mudança, depois nos encontramos em Salvador. Mas já estava em outra etapa, ela estava com outra formação, depois soube essa notícia que ela morreu com 23 anos, mas é a vida. 
P/1 – Você lembra de alguma festa tradicional?... 
R – Na cidade? 
P/1 – É. 
R – O São João em Senhor do Bonfim, minha cidade, é a festa mais tradicional. Para mim é um dos melhores São João do Brasil. São 30 dias de forró, tudo de graça, bebida e comida. Se nasceu no Bonfim, se a casa tiver aberta com as bandeirolas, São João passou, você pode entrar comer e beber, não paga nada, toda a cidade é assim. E tem a guerra de espada, o conflito da espada, já ouviu falar de guerra de espada? 
P/1 – Não. 
R – Espada é um tubo feito ou de papelão rígido ou de taboca de bambu, ele enche de pólvora, pedra e polvora, muita pólvora, risca na ponta e... tem o efeito visual né, é pirográfico, é o termo certo [risos]? 
P/1 – Mas e? 
R – Aí tem essa guerra, é rua com rua, uma rua se prepara e vai invadir a outra rua e aí guerreia, jogando fogos um no outro. A espada é um tubo mais ou menos desse tamanho assim... carregado de pólvora, quando você risca na ponta ela tem o poder de... é como se fosse um adrianino, já ouviu falar disso ou não? É um foguete, um tubo de foguete, só que lançando ele, ele vai e parabólica, e atinge as pessoas. Fere as pessoas ali, mas a gente tá acostumado, a gente vai com luva, com colete, com casaco, com bota, com calça jeans e vai e pega na mão, joga no outro. Uma confusão, mas é magnífico, gratificante, quando perde o medo... tem gente que se acidentar, se queimar. 
P/1 – Mas você fazia isso? 
R – Fazia muito, até hoje se eu for pra lá eu faço, adoro vestir uma jaqueta de couro, com chapéu, me agasalho bem, caio dentro, me molho de água fria - para a pólvora não pegar em você - e saio para a guerra, é a guerra normal. 
P/1 – E como é que você foi parar em Salvador? 
R – Salvador por causa disso, pelo vestibular, para fazer faculdade. Eu deixei de fazer essa faculdade em Juazeiro e fui para Salvador, aí eu comecei minha vida em Salvador. 
P/1 – Você lembra do seu primeiro dia de aula na faculdade? 
R – Ah, para lembrar agora tá difícil. 
P/1 – Como é que foi? 
R – Puxar a memória agora para 40, quase 40 anos atrás, é 40 anos atrás, 41 anos atrás. 
P/1 – Como é que foi esse período de faculdade? 
R – Ótimo, o período de faculdade foi na época da ditadura militar e eu me envolvi nas questões políticas, fui secretário do DCE [Diretório Central dos Estudantes] de Química e aí começou a vida política. Preso saía, preso, aquela confusão toda, participei das passeatas, de tudo tudo, fui preso político nessa época. 
P/1 – Conta um pouco melhor isso, você se envolveu no DCE... 
R – Me envolvi totalmente, totalmente 
P/1 – E aí vocês faziam o que... 
P/2 – que tipo de atividade?... 
R – Militância política.
P/2 – como militante... 
R – É como militante. 
P/2 – Que atividades vocês faziam? 
R – Naquela época, a gente fazia tudo, né, protesto, pichação, guerra mesmo, não pegava em arma, naquela época, nessa idade, mas fazia tudo o possível. 
P/2 – Que ano foi mais ou menos? 
R – Ah isso aí foi em 1978 à 1982, nessa época toda. 
P/2 – Você chegou a ser preso? 
R – Lógico, não foi uma, nem duas vezes, não. Preso fui eu com a comunidade, quando tinha uma reunião, que naquela época quatro pessoas não podiam estar juntas no mesmo lugar, era só dois e olhe lá. Então, quando tinha qualquer movimento estudantil, os homens chegavam com a cavalaria e a gente tomava pedra. Na época nessa cidade, lá em Salvador, as calçadas eram de pedra portuguesa, a gente arrancava as pedrinhas para atirar na força policial, era uma guerra mesmo, eu participei disso ativamente, não me arrependo não. 
P/2 – E as vezes em que você foi preso, como é que aconteceu? 
R – Ah, tinha pichação, cascudo, porrada. Não exacerbadamente, porque sabiam que a gente tinha uma certa formação, não era aquele militante de guerrilha, mas no normal tinha, não ia preso sozinho, ia preso uma comunidade: 10, 15, às vezes 20 nos camburões da vila. 
P/2 – Ficou muito tempo? 
R – Não, era período, assim, fim de semana, dois, três dias, mandavam embora. 
P/2 – Tem algum episódio das vezes em que você foi preso? 
R – Ah não, teve, teve umas coisas que... barra pesada. Uma vez a gente ia participar de um congresso do SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] em Belo Horizonte. Chegamos na rodoviária, todo o pessoal do nordeste foi preso, ônibus por ônibus, ninguém assistiu nada... 
P/1 – Porquê? 
R – Aí ficamos preso no ônibus esperando. Dois dias depois liberaram a gente. 
P/1 – Mas porquê? 
R – Para não participar do congresso. Sabe que em Minas era um dos grandes redutos do militarismo? Minas, Rio Grande do Sul, São Paulo, mas Minas era maior ainda, Minas é... 
P/2 – Congresso S? 
R – Simpósio, como é?... 
P/1 – Sociedade Brasileira. 
R – Sociedade Brasileira, negócio da ciência, eu esqueço. 
P/2 – Ah tá. 
R – SBPC não é isso? 
P/2 – Sim, é isso. 
R – Traduz aí. 
P/1 – Pesquisa e ciência eu acho, não é?... 
R – É. 
P/1 – Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ciência... 
R – Em prol da ciência, não sei o que é... 
P/2 – É... 
R – É que eu to meio... quarenta e tantos anos atrás, se me desse um texto antes eu tinha, mas tudo bem vai, pode ir. 
P/1 – Tá ótimo, é assim mesmo, vai vindo. 
R – É natural, é para ajudar. 
P/1 – E você disse que você não terminou a faculdade? 
R – Não, eu fiquei no último ano, faltando um semestre, aliás. Larguei, que eu casei também, né, engravidei uma menina nova, e aí me levaram na tora para casar, aí me casei e mudei minha vida. 
P/1 – Como é que você conheceu essa menina? 
R – Conheci lá no ICBA. ICBA é Instituto Cultural Brasil–Alemanha, entrei no corredor da vitória, conheci ela lá e ela fazia teatro. Me envolvi em teatro, fazia música para teatro, essas coisas. Conheci essa menina, aí não tem outra coisa, ela engravidou e a família veio me buscar: “Você vai casar de qualquer jeito”. 
P/2 – Ela era de onde? 
R – Ela era de Itapetinga. Uma pessoa maravilhosa, tenho uma filha com ela, se chama Miala - é Alaim ao contrário. Linda e maravilhosa minha filha, mora em Salvador, é formada em Design de Modas, trabalha lá no setor de modas. 
P/1 – Mas aí faltavam seis meses para você se formar e aí você casou? E vocês foram morar onde? 
R – Fomos morar em Itapetinga. Passamos um tempo lá, aí eu voltei para Salvador e de Salvador fui para o interior de novo, para a fazenda. 
P/1 – Mas você fazia o que lá em Itapetinga? 
R – Itapetinga é roça, pessoal tinha uma fazenda grande de gado e coisa e tal. Mas passei um período curto, eu nunca fui preso a nada não. Aí levei ela comigo para o interior para a gestação, aí nesse período que ela teve nenê aí... moramos um tempo junto, mais um ano e nos separamos. Mas é minha amiga até hoje, minha filha essas coisas. Aí casei de novo. 
P/1 – Aí você foi para onde? 
R – Aí eu fui pro Rio de Janeiro. Morei nove anos no Rio, trabalhei com H Stern um tempo. 
P/1 – Fazendo o que? 
R – H Stern é uma das grandes produtoras de mineração no Brasil, é grupo alemão. Eu fiz curso de gemologia e diamantologia, trabalho com esmeralda, pedras preciosas em si, sou técnico nisso também, através da H Stern eu fiz isso.... 
P/1 – Mas onde você aprendeu isso? 
R – Cursos, a minha família toda foi garimpeiro nesse intervalo, meus irmãos trabalham com isso, eu nasci praticamente dentro de um garimpo - quer dizer, minha mãe não, meu pai, que era produtor de gemas, comprador e produtor. Mas só que eu saí cedo de casa, vim aprender depois, hoje em dia sou profissional. 
P/1 – Aprendeu com quem? 
R – Aprendi na vida, e também nesses cursos que eu fiz no Rio de Janeiro da H Stern. 
P/1 – E aí você ficou lá no Rio quanto tempo? 
R – Fiquei nove anos. 
P/1 – Nove anos, como é que foi esse período? 
R – Ótimo, ótimo, ótimo. Rio de Janeiro nessa época era maravilha, maravilha, maravilha, tudo de bom e do melhor. Aí voltei para um carnaval em Salvador, conheci uma morena, casei e vim morar aqui, larguei tudo de novo. 
P/2 – Mas no Rio de Janeiro você falou que era muito bom, por que é que era muito bom? 
R – Porque, naquela época, não tinha essa vida louca que tem agora, entendeu? Essas guerras de tráfico, naquela época não tinha, não. A gente andava a noite toda, nunca fui assaltado no Rio de Janeiro, subia morro descia morro... hoje em dia você não pode andar nem em qualquer lugar, tá perigoso. 
P/2 – Você morou em qual lugar do Rio? 
R – Morei em Copacabana. 
P/2 – E como era esse trabalho com as pedras? 
R – Pedra é o seguinte, a gente fazia a inspeção dos garimpos. Fortaleza tinha um Garimpo de alexandrita, suposição, eu ia fazer inspeção, saber da produção, da qualidade, do mercado e levava de volta para o setor. Fazia a inspeção nos garimpos para saber que tipo de produção estava, como, para fazer uma análise melhor para não ter o desvio né? 
P/2 – E você conhecia as pedras? 
R – Conheço tudo, eu sou gemólogo e diamantológo, conheço diamante e gemas em geral. 
P/2 – Qual sua pedra preferida? 
R – Ah, minha pedra preferida é alexandrita. 
P/2 – Por quê? 
R – É a pedra mais bela que existe. Ela vibra as sete cores do arco íris, é uma pedra mágica, no claro ela tem luz, no escuro ela fica opaca. Tem uma história interessante, vou contar essa história pra vocês... 
P/1 – Conta. 
R – Essa pedra foi descoberta - isso aí é milenar - na época de Alexandre, O Grande. O rei Alexandre, dizem o seguinte, que alexandrita foi isso... Alexandre da macedônia, não é? Ele ganhou um presente - uma alexandrita grande - aí botou o súdito dele para tomar conta: “não pode sumir, se sumir mando lhe degolar”. No outro dia de noite que chegou lá o assecla dele, do rei, foi falar: “Meu rei a pedra sumiu, roubaram a pedra e botaram outra no lugar”. “Ah, então vamos matar ele”, aquela confusão toda. No outro dia, a pedra começou a brilhar no mesmo lugar, por isso que botaram o nome de alexandrita, que ela mudava de cor. De noite ela era uma coisa e na luz era outra coisa. Aí batizaram essa pedra, nunca sabia o nome dessa pedra, é a pedra mais cara do mundo, a mais cara que existe. Mais cara do que o diamante, que ela tem a dureza dez também, do diamante. A única pedra que tem dureza igual o diamante é a alexandrita, a esmeralda tem dureza nove e aí vai decrescendo até... 
P/1 – Aí por que é que você saiu do Rio de Janeiro? 
R – Se eu casei, conheci isso aqui e de lá vim me embora 
P/1 – Mas você casou lá no Rio? 
R – Não, casei lá em Salvador. Conheci, casei não, quer dizer, concubinato né? Conheci essa morena em Salvador, de lá eu vim para aqui. Ela mora aqui até hoje, nos separamos agora recentemente, uns anos atrás, mas somos amigos demais da conta. 
P/1 – Mas porque você resolveu sair? 
R – Mas que a vida faz isso da gente. As mudanças da vida, ué. Tudo que começa, um dia acaba. 
P/1 – Aí você voltou para Salvador? 
R – Dizem que a única eternidade é o espírito. Aliás também o pensamento que leva com o espírito eu acho, mas do contrário a vida é cíclica, vai. 
P/1 – Mas aí você veio para Salvador. 
R – Vim para Salvador em um carnaval, conheci essa morena e de lá não deu outra, aí vim para aqui... 
P/1 – Quanto tempo demorou? 
R – Aí passei uma porrada de tempo aqui, uns vinte anos aqui. 
P/2 – Mas você já conhecia aqui. 
R – Não, conheci ela lá em Salvador. 
P/2 – Não, o lugar. 
R – Aqui já conheço a muito tempo. A primeira vez que eu vim pra Cabrália - Cabrália não, Porto Seguro - aqui era pequeníssimo. Aqui eu vim em 1978, a primeira vez que eu vim aqui. Depois eu vim em 1982, aí eu vim com ela em 1987. 
P/1 – E por que é que vocês resolveram vir morar aqui? 
R – Primeiro porque ela tinha família aqui, aquela pousada lá, Arakakaí, é da família, Arakakaí. E aí eu gostei do lugar, maravilhoso, eu também queria dar um tempo de... eu nunca me separei da praia, minha vida sempre foi praia, surfista, todas as atividades de praia. Aí eu digo: “Ah, vou pra praia”. Aí montei uma barraca de praia. Foi a melhor barraca que tinha aqui em Cabrália, barraca linda e maravilhosa. Depois a gente passa lá para você conhecer, e daí foi essa a vida 
P/1 – E aí você tinha barraca? 
R – Não era uma barraca, era uma cabana, chamada né? Grande, bonita com tudo de bom e do melhor. 
P/1 – Era um restaurante também? 
R – Um restaurante, é. Panorâmico, arrumadinho, qualidade. Era o - não é me vangloriando - mas era o melhor da cidade, de aspecto, música ao vivo, eventos culturais, desfile de moda, a gente fazia tudo lá. 
P/1 – Mas você falou que você é pescador também? 
R – Sou pescador, tenho carteira de pescador, tenho um barquinho pequeno de pesca. Mas faço pesca artesanal, não é pesca para ganhar dinheiro, é hobby. Então eu faço uma pesquinha, vou ali, hoje mesmo eu ia pescar cedo, marcamos mas aí eu vi o tempo mudando, eu faço a pescaria aqui perto, vou ali rapidinho volto ––––– 
P/1 – Como é que é pescar? Por que é que... 
R – Pescar é maravilhoso - é terapia, faz bem ao corpo e à alma, né. O peixe é a melhor alimentação e o mar faz a terapia, de leveza, de desbloqueio das coisas ruins que penetram na gente, tanto pelo pensamento, como por tudo. 
P/1 – Mas você só pesca aqui por perto? Não vai para outro mar não? 
R – Não, por outro mar eu vou, fora aqui, 12 milhas, 10 milhas. 
P/2 – Mas vai e volta no mesmo dia? 
R – Mesmo dia. Às vezes faço… chama–se boca de noite. Você sai 11 horas da noite e passa o dia todo. Ou então saí de tarde, passa a noite e volta de manhã cedo. É uma pesca melhor para a gente aqui, né, pesca pouco, que pesca para comer, para a gente degustar, não é para vender. A não ser que pegue uma rede que chegue muito peixe, aí vai ter que vender, ou então dar para as pessoas. Eu não vendo, dou. Quando ganho de presente, também dou. 
P/2 – E na época que você tinha um restaurante, a relação com os pescadores como era? 
R – Ah, total, primeiro eu tinha tudo em casa. Bebida, que o pescador gosta mais de bebida, da cachaça boa. “Nego” ia trocar peixe por cachaça, por isso, por aquilo outro. Fazia uma determinada compra na barraca - uma aquisição - e dava o peixe como pagamento, e a gente fazia esse câmbio. E aqui antigamente não tinha frigorífico, não tinha câmaras frigoríficas para armazenamento. Então o peixe chegava, tinha que vender ou dar, chegava num preço alto, tipo dez reais o quilo e ia abaixando até zero, que, se não vendesse, fazia o quê? A quantidade que eu levava para casa era mais que suficiente para passar dois, três, quatro, cinco dias e a maioria não tinha nem geladeira. 
P/2 – Eles vendiam para quem nessa época? 
R – Vendiam para poucos restaurantes. Basicamente a pesca era mais forte aqui na época da temporada, do turismo, que aí vinha muita gente de fora e ia consumir o peixe. 
P/1 – Mas eles vendiam direto para vocês ou tinha alguém que intermediava? 
R – Não, vendiam para todo mundo. Eu tinha um acesso maior porque além de ter barraca de praia tinha contato com o pescador, como até hoje eu tenho. Hoje em dia tem mais coisa, tem uma cooperativa, tem câmara frigorífica, tem freezers e freezers, tem mais armazenamento - antigamente não tinha. Hoje em dia tem mais qualidade, a manipulação do peixe tá melhor, que antigamente o peixe era jogado na areia, no chão, em qualquer lugar. Hoje o pessoal tem mais coisa, tem uma tarifa ali para cuidar do peixe, uma melhor qualidade, chama “manipulação do pescado”. Vou fazer esse curso de aquicultura hoje por isso, de aquicultura e pesca, para aprender todo o mecanismo do pescado. 
P/1 – A gente vai chegar nesse curso. 
R – Tô antecipando. 
P/2 – Você ajudava os pescadores a vender o peixe? 
R – Eu comprava deles, né? 
P/2 – Comprava, que época foi essa? 
R – Ah essa época, 1980... década de 1980. 
P/2 – E o que aconteceu? 
R – De 1990 teve uma mudança radical: cresceu a cidade. A cidade aqui era pequeníssima, tinha 12, 10 mil habitantes. Hoje em dia tem 60, mudou muito. 
P/2 – Que mudança radical foi essa? 
R – Pela superpopulação, aqui é uma cidade pequena, basicamente nativa. E veio muita gente de fora, de uma hora pra outra. De uma hora pra outra, em dez anos, a cidade cresceu três vezes mais. 
P/2 – Mas o que causou? 
R – A expansão urbana. 
P/2 – Mas você acha que o que é que causou essa expansão rápida? 
R – Descoberta. Muita gente descobriu um paraíso aqui, aí vieram famílias e famílias e famílias. E também o êxodo rural, muita gente do cacau quebrou aqui no extremo sul da Bahia, e muita gente que não tinha para onde ir, veio para as cidades que tinha opção melhor - praia, pesca. Aqui a pessoa só morre de fome se quiser, se pegar um anzol aqui nessas pedras você pega um peixe na hora. Camacã, essa linha toda onde tinha o cacau, não tinha esse acesso, e o pessoal não tinha essa prática, então eles vieram parar aqui através do êxodo rural, sedimentaram aqui, cresceu a cidade, abriram os bairros, imensos os bairros que hoje em dia tem aqui. 
P/1 – E o que você acha que mudou? 
R – Acho que mudou tudo, até a própria sobrevivência da cidade em si, no caso de tranquilidade. Mais assalto, mais roubo, mais droga, mais tanta coisa, que antigamente não tinha essas coisas aqui. 
P/1 – Como é que era antigamente? 
R – Antigamente você andava aqui a vontade, “a la vonté”, e não tinha... a partir de seis horas da tarde, você podia andar nu aqui nesta praia que não tinha um pé de pessoa nem nada. Hoje em dia fica mais difícil, mudou geral. 
P/2 – Pra você o que é que essa mudança? 
R – Pra mim a mudança foi ao por quê? Digo no termo comercial foi, porque veio mais gente, eu adquiri mais patrimônio através da barraca, movimento em si. Mas para mim teve também o lado negativo, foi essa dificuldade da parte social. 
P/2 – Como assim? 
R – Como é, quer especificar? 
P/2 – Para comunidade? 
R – Para comunidade, como que eu digo? Me atrapalhei todo, repita aí faz favor. 
P/1 – Que é que mudou pra você? O que é que representou essa mudança na cidade? 
R – A mudança para mim foi bom. Foi o caso de muita gente aqui que tinha um comércio e evoluiu o comércio, vendia muito - mais ainda do que eu vendia antes, que antigamente era mais só pro pessoal da cidade. Aí com esse movimento grande, do êxodo rural para cá, não só o pessoal pobre, mas um pessoal com condições, cresceu a cidade, foi construindo mais. Aí sempre ia para um restaurante de qualidade, para comer melhor, degustar melhor, beber melhor e isso foi evoluindo também, me adaptei a essa mudança. 
P/2 – Mas você disse que na parte social. 
R – É, a parte social foi isso, veio droga. A droga, ela entrou aqui com grande escala, o crack, a cocaína, a maconha, até outras, a bebida em excesso. Antigamente não tinha mendigo de rua, hoje em dia tem vários pedintes, alcoólatras, viciados, para a sociedade isso aí é uma coisa pejorativa. 
P/2 – E os jovens Alaim, como é que você vê os jovens aqui? 
R – Os jovens aqui precisam de uma inclusão social. Nós temos agora esse curso aqui de Aquicultura e Pesca, já para isso, para dar essa inclusão social para o jovem. A prioridade é o jovem que tá no primeiro grau, já agrega a formação de segundo grau, recebe o caminho do segundo grau e o curso profissionalizante. Mas realmente tá difícil colocar o jovem lá, eles não têm essa... a própria estrutura da casa, do lar deles, não dá condição de fazer isso. Eu tô indo de casa em casa, batendo na porta, chamo um: “Fulano, tem isso, pega, vamos fazer, vamos assim”. Com sacrifício, mas tô levando para a escola, para dar essa inclusão social. 
P/1 – Como é que você conheceu esse projeto, o “Pescando com redes 3G”? 
R – Esse projeto eu fui apresentado porque já fazia parte da colônia ali, como pescador artesanal. Aí veio esse projeto através do Xêpa - que agora é candidato até a vereador - que é diretor de pesca e me falou: “Ah você não quer entrar?, “Vou!”. Como eu estava ocioso, tinha me separado de um casamento, eu disse: “Rapaz, vou entrar nessa”. E valeu a pena, voltei a estudar. Eu bebia, deixei de beber, fumava cigarro, deixei de fumar, por causa dessa necessidade de foco, de focar naquilo, que se eu bebesse era dois dias de ressaca, daí não tinha como estudar, a mente não trabalhava, parei! Tem mais ou menos oito meses que eu... um ano e pouco que tô diminuindo, agora eu parei geral. 
P/1 – Mas explica um pouco melhor, é um curso? Como é que é isso? 
R – É um curso técnico pelo Instituto Federal do Paraná, curso de aquicultura: tudo sobre água e pesca: tudo sobre água, curso técnico. 
P/2 – E quem tá promovendo? 
R – Quem promove é o Ministério da Educação e Cultura, Ministério da Pesca e Instituto Federal do Paraná. 
P/1 – Mas é por parte desse projeto “Pescando com redes 3G”? 
R – Não, tem a ver com a parte da inclusão, da junção que é a rede 3G. Ela vem para dar essa dimensão ao pescador, uma nova dimensão ao pescador, nova orientação ao pescador. O pescador pescava artesanalmente, até pescando em alto mar, não tinha noção. A 3G dá orientação, que é comunicação entre o pescador e a colônia, o sindicato, a cooperativa. O barco leva um aparelho chamado tablet, para digitar, para colocar as informações do pescado e a antena da 3G para dar informação de comunicação. Quer dizer: você tá com o pescado já, o barco pronto para vir embora e ele liga: “Ó, tô com tanto assim de peixe, assim tal, com tal qualidade”. Aqui em baixo, na terra, já fica mais fácil a colocação desse pescado, quer dizer: não perde tempo com isso. A interação da 3G é mais ou menos isso, e a inclusão, em cima da técnica da 3G, para orientar mais o pescador. 
P/1 – O que é que é esse projeto pra você? 
R – O projeto é inclusão também. Além da inclusão do pescador na digitalização, que é tudo digital, e a informação mais rápida, a comunicação mais rápida. Um caso de acidente, tá em alto mar, não tem rádio não tem nada, como é que ele vai? Então hoje em dia tem o celular, e essa antena propícia para o cara que tá a 30 milhas a poder ter uma comunicação, entendeu? 
P/2 – Alaim, e esse curso de pesca e? 
R – Aquicultura. 
P/2 – Isso. 
R – São similares, bem similares. 
P/2 – Aqui, quem que promove aqui na cidade? É o instituto brasileiro de... 
R – Não, quem promove... 
P/2 – Que você faz o curso aqui não é? 
R – Aqui. 
P/2 – Onde você faz esse curso? 
R – Lá naquele lugar que a gente tava ali, na colônia dos pescadores, colônia de pescadores. 
P/2 – Ah, isso. 
P/1 – Mas os professores vêm para cá? 
R – Não, é ensino à distância. Lá tem o portal, tem o data show. No horário da aula, abre-se o portal e vem toda a informação através de online, de interação, computador, através de digital. 
P/1 – Quantas pessoas fazem o curso com você? 
R – Ó, inicialmente tinha 30. Foi diminuindo, por causa disso: por causa da informação. Aí nós estamos querendo agora trazer o curso para a quarta etapa, pelo menos 100 alunos agora, iniciamos com 30, tá em termos de 15 agora. 
P/1 – E por que é que diminuiu? 
R – Abandona, falta de informação, de educação em si. Esse curso tem uma logística interessante, porque ele tem ajuda de custo, ajuda financeira para estudar, tudo grátis do curso, desde os livros, do acesso a internet, tudo é de graça, até a inclusão digital, de custo de internet à colocação desse curso. 
P/1 – Mas o pessoal tem dificuldade? Por que será? 
P/2 – Dificuldade porque às vezes o cara se matricula e não vai no curso. Hoje em dia, para fazer a prova, eu tô pegando na casa - “Ó, tem prova hoje”. Tem o portal e o “nego” sabe, mas às vezes o cara não liga. Tem aluno que se dedica, esses alunos... qualquer escola tem isso, né, e tem outros que não se dedicam, para não terminar o curso, não deixar aleatoriamente, a gente vai ali, pega no pé de cada um: “Vamos lá e fazer esse estudo”, para terminar o curso com chave de ouro. 
P/2 – Alaim, você falou que falta estrutura na casa às vezes. 
R – Não, na casa tem, a escola tem tudo... 
P/2 – Não, não, quando você vai nas casas. 
R – A estrutura de família, orientação familiar. Pegar um jovem de 18 anos, ao invés de: “Vai pra onde?”, “Vou pra escola”. Manda ir pra escola para saber e a mãe tem interatividade com isso, né. Olha quem ta fazendo o curso, sou eu… sou eu com 58 anos - vou fazer 59 - Gilbertinho tem 56, Silvio tem 48, é os que tão mais dentro da escola, que os jovens debandaram a maioria. P/2 – Você ouve eles falarem alguma coisa sobre o curso? Os jovens? Por que é que não vão? 
R – A maioria porque arranjou um emprego, que não sei o que e coisa e tal. Horário também, problema de horário, né? Que esse curso também deveria ter à noite, à noite funciona bem mais, fecha mais o pacote. É isso que tão querendo fazer agora, incluir um horário à noite, duas teleaulas à noite. 
P/1 – Porque esse não é à noite? O que você tá fazendo? 
R – Esse é pela manhã e pela tarde só, mas o horário é flexível. O horário é segunda e terça de oito ao meio dia, e quarta e quinta de duas às seis da tarde. Quer dizer: a pessoa pode ter inflexibilidade no emprego, se quiser, né, lógico, mas tem muita gente que não... 
P/1 – Quando eu te perguntei no cadastro você falou que você era funcionário do IABS [Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade]... 
R – É. 
P/1 – E o que é que você faz? 
R – Eu faço essa relação do mapeamento participativo da barcaça da Veracel. Eu dou sustentabilidade ao pescador para as reuniões, e foco: “Vai ter uma reunião em Prado”. Aí eu reúno os pescadores para levar para Prado. “Tem uma reunião em Alcobaça”, eu faço esse meio. “Tem uma reunião aqui na casa de Belmonte, aqui em Cabrália”, eu ligo para os pescadores, eu reúno: “Vai tal data ter reunião tal”. Agendo eles para ter essa reunião com os pescadores. 
P/1 – Entendi, mas não tem nada haver com esse projeto “Pescando com redes 3G”? 
R – Lógico. 
P/1 – Esse trabalho que você faz então tem a ver com o projeto. 
R – Tem, não tem a ver diretamente com o curso, eu faço esse trabalho e dou sustentação para também o curso... 
P/1 – Você dá sustentação? 
R – Que o IABS, ele faz um trabalho também com o pescador, esse “Criatório da Ostra” é através da IABS, que é a aula prática do curso teórico, aula prática através da IABS. 
P/2 – Esse curso que você tá fazendo.... 
R – Então, ela tem diretamente um vínculo com o curso, que os professores são vinculados a IABS. 
P/2 – A Telefônica e a Vivo, elas tem ligação com esse curso que você tá fazendo? 
R – Também, são parceiros, depois você tira até a foto aqui atrás, se quiser. São as parcerias da Vivo com o IABS, com Instituto Cultural, o “escambau a quatro”, tá tudo aí. 
P/1 – E o que é que você estava buscando quando você resolveu fazer esse curso? Por que é que você foi fazer esse curso? 
R – É que a gente fica meio ocioso, né, queira ou não queira. Você sai de um casamento, de uma atividade, aí você fica meio ocioso. Aí, para não perder esse pique, gosto muito de ler, aí eu digo: “Ah, vou entrar nessa”. Entrei para ter mais uma formação, e daí foi a melhor coisa que eu fiz porque tô saindo aí com chave de ouro, os primeiros alunos. Me dedico e ensino também os outros que tenham dificuldade de aprender, eu ensino, tô até indo em casa: “Vamos lá aprender meu irmão”. E isso também me fortalece, a cada dia me fortalece mais, eu ensinando, me fortalece. 
P/2 – Os outros alunos do curso, seus colegas, eles tão achando que esse curso pode ajudar eles? Eles comentam isso? 
R – Com certeza, tá tendo essa conscientização, lógico. 
P/2 – No que, Alaim, que pode ajudar? 
R – Porque é um curso profissionalizante. A partir do momento que é um curso profissionalizante, é pouco tempo do curso, dois anos, e você já sai com uma carta na mão do curso profissional, que hoje em dia é a carência maior. Estão investindo aqui 46 milhões de dólares, aqui nessas bacias para cultivo de camarão, de ostra, de mexilhão. Então vai abranger esses alunos agora, que estão se formando, e outros que virão. 
P/1 – Qual a diferença desse curso? Assim, além do diploma? Porque eles pescam hoje sem, o que é que esse curso tem de benefício? 
R – Não, esse curso não é para o pescador que pesca, são para os filhos do pescador. É para inclusão social e prática do filho do pescador, que o pescador já tá velho, não vai estudar. Também, a maioria dos pescadores aqui, não tem nem o primeiro grau, não tem nem como fazer o curso. É o filho do pescador, a inclusão é mais para o filho do pescador - filhos, filho e filha, né? Para a família. 
P/1 – O que aprende nesse curso? 
R – Tudo. Aprende matemática, mais física, mais biologia, biologia marinha, ecologia, meio ambiente. Tudo que a gente não sabia: como cuidar mais do pescado, como não predar o pescado, para não faltar, como pescar peças no limite de alimentação. Porque, realmente, a gente pegava qualquer peixe pequenininho antigamente. Hoje, se tem uma noção melhor, você pega o pequenininho, você solta, para poder dar a continuidade na vida marinha, a subsistência - esse é o objetivo. 
P/2 – Alaim, os seus colegas, você falou que eles têm 40 e poucos, 50 anos. Eles também são pescadores? 
R – Não, a maioria não. Da turma ali, o único pescador sou eu. 
P/2 – Qual a atividade deles? 
R – Tem filho de pescador estudando lá. 
P/1 – Ah, tem? 
R – Quantos anos que tem o filho? 
R – Ah, deve ter uns 22 anos, ou 23 anos por aí. 
P/1 – Mas ainda não é pescador? 
R – Ele é pescador profissional, tem carteira de pescador, mergulhador, pesca ele mesmo. Mas ele faz o curso também com a gente, é um menino mais... tem uma formação, um segundo grau, já tem outra, né. 
P/2 – E os outros que não são pescadores, você lembra a atividade deles? 
R – Ah, um é funcionário público, o outro é profissional liberal, tem vários. 
P/1 – E quando acabar o curso, que é que você quer fazer? 
R – Eu? Quero continuar aqui em Cabrália, minha vida é aqui, meu patrimônio todo, que eu desenvolvi, é aqui. Vou sair daqui para onde, pelo amor de Deus? 
P/1 – Mas você quer fazer alguma coisa relacionada? 
R – Dentro desse setor, eu passei agora no concurso de meio ambiente, fiscal de meio ambiente, em quarto lugar. Um exemplo, por causa do curso, a bagagem que eu tinha, se eu não estudasse no curso, eu não ia fazer, não ia passar, que a concorrência era grande. Mas dado que já havia dois anos estudando no curso, agora eu passei em quarto lugar, dos alunos eu fui o único que passei, graças a Deus foi isso. 
P/2 – Você ainda trabalha no restaurante Alaim? 
R – Não, aí já larguei. 
P/1 – Não trabalha? 
R – Não, eu dei para ex–mulher. Ela quer tomar conta agora das coisas, mas já tô na IABS e sou profissional em várias coisas, sou pedreiro bom, carpinteiro bom e tudo, eletricista, faço tudo, então qualquer coisa... mentiroso também [risos]. Brincadeira, não grava isso não [risos]. É a empolgação, só vai. 
P/1 – E os outros alunos, o que é que você acha que eles vão fazer depois? 
R – O objetivo é esse, se tiver uma demanda de emprego, todo mundo vai ser qualificado para o emprego. Agora, os melhores são mais qualificados, é o que eu explico a eles: “Vocês têm que aprender, estudar, fazer aula prática”. E o problema é esse: muita gente não se interessa em dar continuidade a coisa bem feita, faz para ter um diploma. Eu não, eu vou para a aula prática porque eu sou um aluno que hoje em dia que tem… quem tem o maior número de aulas práticas sou eu, montei toda a estrutura com os professores, com os engenheiros lá em Santo Antônio de Guaiú, do início ao fim. 
P/2 – Estrutura do que? 
R – Do criatório de ostra, de camarão, de mexilhão, as aulas práticas a gente faz lá, nas enseadas. 
P/1 – Os outros alunos também? 
R – Faz, tem as aulas práticas toda semana. Alguns vão, outros dizem que não podem ir, mas eu vou na hora, largo qualquer coisa pra ir pra aula prática, como é que vou me formar sem uma aula prática? Tem que ter. 
P/2 – Alaim, não tinha criação de ostra... 
R – Tinha não. 
P/2 – Só de camarão? 
R – Nem de camarão não tinha aqui não, aqui em Cabrália não. Esse camarão é criado lá em Canavieiras em diante, onde tem as grandes bacias límpidas de criatório. O investimento lá é pesado, grandes fazendas de camarão, investimento muito alto, multinacionais, né. 
P/2 – Agora, com a fartura de peixe daqui, o que é que essa criação muda? Por que ostra? 
R – Agrega mais, quanto mais... aí é a parte comercial, isso é para a demanda, o peixe que se pesca aqui, 90% não é consumido aqui. É para fora hoje em dia, hoje em dia da pesca muito não é, muitos barcos pescando. 
P/2 – Mas os barcos daqui? 
R – De fora também, aqui nativo tem poucos barcos. A maioria são barcos de fora, de Sergipe, de Fortaleza, de Paraíba, Rio Grande do Norte, tem muitos, muitos, muitos. Também ensinaram a muitos pescadores que não sabiam. O pescador aqui, antigamente, viajava 10 milhas, 15 milhas, não saía daqui. Hoje em dia viaja 50, 60 milhas, 80 milhas. Essa é a influência da pescaria de fora, o pescador não é acostumado a viajar muito não, acho que é até meio preguiçoso para pescar, né. 
P/1 – A pescaria aqui mudou muito? 
R – Mudou muito. 
P/1 – Como é que era antes? 
R – Porque antigamente tinha poucos barcos, barquinho pequeno. Hoje em dia tem barco de 30 metros de comprimento, com autonomia para passar de 60 dias. O barco nativo daqui no máximo passava uma semana. 
P/2 – Agora daqui mesmo, vocês tem poucos barcos grandes que ficam muito tempo, né? 
R – É, tem poucos. 
P/2 – Dá para contar Alaim? 
R – Da para contar de mão. 
P/2 – Quantos mais ou menos? 
R – De grande aqui, do nativo mesmo, deve ter uns quatro ou cinco, no máximo. O resto é de fora, porque o porto é livre, você sabe que o porto é livre? Os caras, às vezes, vêm de fora pescando pra ir pra Prado, o barco dá uma pane, ele encosta aqui, descarrega aqui, aqui no mar aberto, o porto é livre. 
P/1 – Isso é bom ou isso é ruim? 
R – Bom também para a cidade, ué, por que não? Chega mercadoria na cidade, mercadoria nova, os vendedores e os atravessadores ganham dinheiro, os donos de restaurante ganham dinheiro, porque vem o peixe mais barato, essas coisas. 
P/1 – Tem muito atravessador? 
R – Puxa, é o que mais tem. 
P/2 – E para os pescadores nativos, tudo isso que você acabou de falar, como é que resolve isso? 
R – Eu acho que é um aprendizado para eles também. Como? Melhorar o barco dele, a capacitação dele, para pescar, o material que ele usa, tudo isso influencia. 
P/2 – Mas como que pode eles conseguirem essa... 
R – Como? Cursos, o SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] dá cursos sobre isso, o SENAI [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] dá cursos sobre isso, é inclusão. 
P/1 – Você conhece esses aplicativos que eles... 
R – Conheço, já trabalhei já com esse aplicativo e tudo. 
P/1 – E como é que é? O que é que você acha deles? 
R – Funcionam quando tem um receptivo lá, quando o pescador sabe manusear aquilo, para dar interatividade. Se ele não sabe, ele guarda aquilo e não fala nada, a primeira vez foi isso. 
P/1 – O que é que aconteceu? 
R – Teve que recolher todos os aparelhos. 
P/1 – Por quê? 
R – Porque não sabia se comunicar, chegava lá, travava os outros, batia um dedo errado ali e acabava com tudo, não sabia recuperar o aparelho. 
P/2 – Quantos eram Alaim? Quantos aparelhos você lembra? 
R – Acho que eram 22 aparelhos. Aí recolhemos esses aparelhos, agora colocamos tablets, porque é mais fácil o tablet, é maior a tela. 
P/2 – Antes era o que? 
R – Era smartphone, eram esses aparelhos mais modernos, que é similar. 
P/1 – Mas quais eram? Por que é que eles não conseguiam? 
R – Às vezes o cara não sabe nem o celular dele direito, como é que ele vai num aparelho mais sofisticado? 
P/2 – Mas teve um curso? 
R – Teve um curso, eles dizem que sabem, mas na hora... mas agora demos um curso mais contundente. 
P/1 – Ah, é? 
R – Pro cara aprender, foram dois dias. 
P/1 – Você participou desse curso? 
R – Lógico que eu faço parte. 
P/1 – E você que mobilizou eles também? 
R – Não, foi engenheiro, o pessoal vem da IABS, tudo pessoas qualificadas, ensinam. Também acompanho, e eu tomo conta da parte interativa, para que eles viajem, eu fico na comunicação, eu ganho para isso, dar assistência. 
P/2 – Alaim, e agora os tablets foram quantos? 
R – Ah, veio uma quantidade, não tenho bem ideia não, mas uns 15 ou 16 também, acho que uns 20 por aí. 
P/2 – Como é que tá o uso disso? 
R – Tá melhor, tá melhor porque é mais autonomia, porque esse tablet ele funciona com mais rapidez do que o outro, e também colocaram uma antena com mais capacitação, a antena era para 15 milhas, colocaram uma antena agora para 30 milhas. 
P/1 – A antena fica no barco? 
R – Fica no barco, tem uma antena receptora aqui e tem uma antena lá no barco. 
P/1 – E como é que funciona isso? 
R – Funciona através do tablet. O tablet grava tudo quando ele para na antena lá, pega o sinal, entrou no sinal e pá, digita tudo e eu recebo aqui pelo tablet, na terra, tem que ter um receptivo aqui. 
P/2 – Alaim, quantos pescadores mais ou menos você acha que realmente estão usando o tablet? 
R – Olha, eu acho que uns 15 devem estar usando, porque não é só em Cabrália, é Cabrália, é Prado, é Guaiú, que fica a perto de Cabrália, tem... 
P/2 – Tem várias comunidades? 
R – Comunidade pesqueira que é através da IABS também, da 3G, lá em Guaiú, que é uma parte da colônia daqui, pra dar essa sustentabilidade também. Que lá tem escola também, o pessoal estuda também lá nesse setor, só vem aqui fazer as provas, através desse portal... portal... coloquei o termo certo... 
P/1 – E esses aplicativos eles servem pra que? 
R – Servem para, como eu te falei, para orientar o pescador a trabalhar melhor com o pescado, a manipulação do pescado, o armazenamento e também a venda do pescado mais rápida, que ele tá lá fora, ele liga para mim através do tablet - “Ah tenho isso de pescado, pesquei isso, mil quilo de guaiúba, é o peixe né, cem quilos de cação, 300 quilos de albacora”. Bota a lista, eu aqui capto, eu já sei quem vai querer albacora, quem vai querer o cação, quem vai querer a guaiúba, daí encaminho para ele, quando ele chega aqui já está tudo vendido. 
P/2 – E quem faz isso? 
P/1 – Ah, você faz isso? 
R – Lógico, através da empresa. 
P/2 – Qual? Fica onde essa empresa? 
R – Essa empresa tem uma parte dela que é o próprio pescador, através do pescador, do barco do pescador e a colônia, a cooperativa recebe o peixe também. 
P/1 – A cooperativa você diz a colônia? 
R – Não, a colônia é uma coisa, a cooperativa é outra. A cooperativa é a que fica ali na frente, onde embarca e desembarca o gelo, onde desembarca o gelo e o peixe. 
P/1 – Na sede mesmo? 
P/2 – Não, é em outro lugar. 
R – Lá na frente mais um pouco, na tarifa. 
P/1 – Ah, aquilo é uma cooperativa? 
R – Tem também dos índios também, que faz essa comunicação, que montaram para mim, no mesmo setor 3G, na marisqueira lá dos índios. Eles também querem o peixe e quando o barco chega é a mesma coisa, faz meio parceria: “Ah, falta aqui cação”. “Aqui tem”, aí já leva uma quantidade para eles e o pescador não fica a mercê de, quando chegar, ainda procurar um comprador para entregar, que tem essa interatividade. Para quem tem essa logística com a IABS, com a 3G, fica fácil essa comunicação. 
P/2 – O aplicativo também tem algumas coisas sobre o clima, você já ouviu algum pescador... 
R – O aplicativo tem tudo. 
P/1 – O que é que tem? 
R – Tem o GPS [Sistema de Posicionamento Global] de orientação através de satélite à clima, tábua de maré, ali abre “quero saber o tempo que vai dar aqui no mar”. Já tem tudo através de GPS, comunicação a satélite, tem tudo, esse aparelho tem tudo, é um microcomputador, não é? O tablet. 
P/1 – Mas o que os pescadores usam mais? 
R – Lá fora tem que usar tudo o que ele sabe, se ele aprendeu a usar aquilo ali ele abre “o tempo tá ruim” tem que saber a... como que dá o nome? 
P/1 – Previsão de tempo. 
R – A previsão de tempo, pronto... 
P/1 – Mas pra que é que ele usa essa informação? 
R – A previsão do tempo é para ver se vai chover, para ele ver se vai para o norte, sul, leste ou oeste. Se ele tá em alto mar, ele quer uma orientação: “Tá chovendo para que lado?”, “Para o sul”. Ele não vai para o sul, ele vai sair da zona de turbulência, chamada no mar, então ele vai se afastar o máximo possível daquela região que tá afetando o mar. 
P/1 – E a tábua de marés, por exemplo? 
R – A tábua de maré é se a maré é alta, se é baixa, se é média, a tábua de maré é mais aqui, influencia aqui essa mudança de maré. 
P/2 – Alaim, se você ouviu de alguém, por que, você falou que tem mais ou menos uns 15 usando o tablet, você já ouviu de algum deles, alguma história assim que usou. 
R – Já, tem uns, aquele Genivaldo mesmo é “profina”, é o cara que mais interage com a gente, tem o barco, o cara tem um conhecimento, já manipula aquilo bem, já da outra vez, acho que é um dos únicos que sabe fazer perfeitamente aquilo. 
P/2 – É o que... 
P/1 – E os outros? 
R – É meio assim... meio açúcar, meio sal. 
P/1 – Os outros usam mais pra que? 
R – Usam mais para armazenamento, dicas de armazenamento, dados de armazenamento. Mas o Genivaldo sabe tudo: ele abre ali, coloca, já manda diretamente, os caras fazem o armazenamento, deixam para colocar aqui, não comunicam com a gente, o Genivaldo já manda e–mail, sabe mandar e–mail e tudo mais, aí fica mais fácil. 
P/2 – Os outros Alaim, já falaram alguma coisa para você por que tão usando menos que o Genivaldo? 
R – Não, ele não fala em Genivaldo, ele não faz isso porque ele não tem a comunicação, o satélite não funciona lá, a antena, quando ele se afasta além de 30 milhas, sempre perde toda a comunicação, a comunicação através disso aí é só de 30 milhas pra cá, passou... A gente navega a 120 milhas, longe daí fora, aí se não tiver a proximidade dessa interação da antena não funciona. É isso que eu tava questionando, se trás uma antena mais potente, que dê um sinal fora desse limite de 50 milhas - que 30 milhas é pertinho daqui, 30 milhas é onde passa a barcaça, pertinho daqui, dá pra você ver a olho nu - então a pescaria daqui é longe daqui 
P/2 – O que eles reclamam mais é dessa coisa da antena? 
R – Dessa coisa da antena, não é do aparelho, a antena. 
P/2 – Fora isso eles falam... 
R – Não, sabem algumas coisas, eu disse que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. O ensino é a mesma coisa, o cara vai aprendendo até saber, papagaio aprende a falar repetindo várias vezes, né. O cara vai ter que aprender um dia, digitando, um dia errando, um dia aprendendo, vai aprender, não tem dificuldade nenhuma... 
P/1 – Mas... 
R – É mais o medo da inibição, esse negócio digital, isso é inibição. Tem gente que quando vê “Aí!”. Pensa que é um bicho, depois que pega, você vê que é uma criança, não tem medo, pega um aparelho ali... tudo sobre, dá um nó em mim, digita igual gente grande, sabe tudo, vive daquilo e jogos né de... game. 
P/1 – Você falou que para você é bicho também ou não? 
R – Quem? 
P/1 – Você tem facilidade de usar essas coisas? 
R – Não, eu to aprendendo agora, fiz inclusão digital agora, depois do curso, não sabia nem pegar nesse babado... 
P/1 – Que é que você achou? 
R – Comprei um notebook para poder aprender mais em casa, comecei a me... se não fica atrás, se é doido, Deus me livre, o dia ficar meio... evoluir de um lado e estagnar de outro, não poderia nunca. Aí tive que correr atrás do notebook, e agora tô em casa direto. 
P/1 – O que é que você achou quando vieram com essa proposta de trazer mais tecnologia? 
R – Achei interessante, o futuro será esse, daqui mais uns anos a escola vai ser virtual, totalmente, não vai ter mais escola, vai ser esse, a facilidade hoje em dia né. 
P/2 – Alaim, se você pudesse chamar esses jovens, por onde que você acha que conquistaria eles? 
R – Eu acho que tem que ser verbalmente, chegar junto, conversar, explicar, mostrar a validade disso, o valor que tem, a mudança que pode ter na vida dele, mais rápida possível. Você, se preparando culturalmente, facilita a vida para qualquer um, elimina a ignorância e o objetivo da inclusão é isso, eliminar a ignorância. Infelizmente nosso país ainda está muito aquém de outros e outros países. 
P/1 – Que é que você aprendeu de mais importante participando desse projeto? 
R – Bom, aprendi... rapaz eu acho... sobre o mar, eu era fascinado, sempre fui, mergulhei muito, mas agora eu tenho mais profundidade no conhecimento da vida marinha. Hoje em dia, se eu mergulhar, eu não corto mais uma planta de baixo da água, não piso mais no coral, o coral é vivo. Antigamente, eu nadava em cima dos corais, não sabia de nada, era a realidade. Então é a conscientização que você vai ter, você não preda mais. Eu mesmo não faço mais isso, eu para pisar num bicho vivo ali é uma coisa difícil, só se eu não estiver vendo. Antigamente, eu matava as tartarugas aí, comia ovo de tartaruga, fazia tudo. Hoje em dia não faço mais, essa coisa de conscientização - vai estudando, vai tendo consciência, consciência, consciência e vai eliminando as coisas que você vê que vai prejudicar você e os outros também. 
P/1 – Além desse conhecimento ambiental, você já utilizou esse conhecimento para mais alguma coisa? 
R – Eu acho que eu uso todo dia. Na minha casa hoje em dia você não entra calçado mais, comprei seis pares de chinelo, botei tapete já para não ter esse inclusão - “Aí o sapatinho, calça aí a sandalinha limpa” - para poder entrar. Porque você sabe, em casa, você não pode, mesmo em meu sítio, eu moro em um sítio que, do portão do meu sítio para chegar em minha casa dá 50 metros, dentro do meu sítio. Então ali agrega, você vai pisar em cocô de galinha, cocô de cachorro, quer dizer lá, de repente aparece na rua é essa coisa, você com um chinelo, você não pode pisar dentro de sua casa com o pé que você vem da rua. Eu sou meio chinês, meio japonês, nessa história de limpeza, de assepsia, sabe? Por isso eliminei muitas coisas, doenças que você leva para dentro de casa, pragas, fungos, coisas que ao habitar você leva pra dentro de casa. 
P/1 – Legal. 
P/2 – Você mora só? 
R – Graças a Deus, não. Moro só não, cachorro, galinha, pato, vizinhos, a gente não mora só, né? Amigo sempre vai lá. 
P/2 – Eu ia perguntar como é que as outras pessoas da casa reagiram. 
R – Ah mas tem sempre gente lá, eu quase não fico em casa, só chego em casa de noite. 
P/1 – O que mudou na sua vida depois que o projeto começou? 
R – Mudou, mudou em muitas coisas, mudou. Eu voltei a estudar mais, a ler mais a me preparar mais, gostar mais de mim, daí é funcional, me relacionar mais com as pessoas, entendeu? É que eu vivia para o trabalho. Saía de manhã para trabalhar, voltava de noite. Agora não, eu estudo, já trabalho dentro do estudo que eu faço, já ensino mais alguém, isso me dá mais responsabilidade. 
P/1 – Como é que é ensinar alguém? 
R – É fundamental, é necessário demais, ensinando você aprende mais ainda, você sabe disso, né? A lógica de ensinar é aprender, isso te prepara para ensinar, aquilo onde você prepara pra ensinar você aprende mais, com certeza. 
P/1 – E na colônia, que é que você acha que mudou com esse projeto? 
R – Ah mudou tudo, até a própria estrutura da colônia, o relacionamento, gente jovem da colônia o dia todo, o curso em si buliu com todo mundo, por exemplo, a colônia devia fazer uma faculdade, pra dizer a maior, a inclusão. 
P/1 – Ela não fazia antes? 
R – Não fazia, era uma pescadora, mulher de pescador, entrou, começou a estudar e tá se formando em Ciências Sociais, interessante, né? Você vê uma pessoa que... 
P/1 – E na comunidade mudou alguma coisa? 
R – Tá, porque tô vendo aqui muita gente de Cabrália, muitos jovens de Cabrália, muito cidadão de Cabrália, tá fazendo o curso, tá estudando. É um número pequeno, que o primeiro curso tá sendo agora, mas vai ter continuidade, com isso vem mais gente. Queremos colocar agora, na segunda etapa, mais ou menos 100 alunos. Foi 30. Agora vai ser 100 - 100 com tutoria, presencial. E eu quero me candidatar à tutoria também, para dar força na sustentabilidade, para ensinar eles, além de estar lá no portal, estar lá tirando as duvidas, essa interação. E vai ter duas vagas para isso, eu tô estudando, passei em um dos primeiros, com fé em Deus eu vou ser, já para poder dar essa força na sustentabilidade e também para não precisar sair dali para ir trabalhar fora, eu trabalho fora fim de semana... 
P/1 – Ah é? Onde? 
R – Não deixo de falar, tem muito trabalho pra fazer aí. Eu sou carpinteiro profissional e fiz muitas coisas, então sempre tem algum “Alaim, preciso de você pra fazer isso”. Eu faço. 
P/2 – Legal. 
P/1 – E os jovens, você acha que eles tão se interessando mais pela pesca? 
R – Olha eu tô vendo... Jovem para pesca?... 
P/1 – Não? 
R – Pesca, não. 
P/1 – Por quê? 
R – Pesca... Ein? 
P/1 – Por que não? 
R – Porque a maioria que estudar, quer se formar, quer sair da cidade. Geralmente aqui, ó, a idade quando começa a crescer, o filho da cidade quer ir morar fora para estudar, quem tem uma certa condição. Quem não tem uma certa condição, arranja um empreguinho aqui e fica na prefeitura, como tem muita gente. 
P/1 – Mas com um curso desse que é pra trabalhar não é né? 
R – Com um curso desse abre as perspectivas, com certeza. 
P/1 – Você acha que eles se interessam em ir para o mar? 
R – Lógico, tem muita gente, tem muito nativo, nativo mesmo, que dentro do curso, vai entrar agora, nesse curso, nessa nova etapa do curso e eu tô priorizando mais esse pessoal nativo e principalmente o de primeiro grau, para não deixar ficar na rua de bobeira e usar porcaria e se misturar no caso, né? Eu tô pegando no pé, tem gente que eu tô indo dentro de casa e “Venha cá”. E levo em frente, o casal de namorados - que isso funciona “Você e a Fulana”. Vai lá, pega o cara e a menina, “Vamos lá”, hoje mesmo levei dois, o casal, para poder, porque aí os dois estudando, crescem juntos. 
P/1 – Mas você que leva as pessoas para participar do curso? 
R – Levo, de casa em casa. Pego, “Venha cá”, meus conhecidos, filhos de conhecidos meus, falo com o pai antes: “Então vai lá, Alaim”. Eu vou lá e... Os filhos de Genivaldo, ui, lá na casa deles falei: “Rapaz vai lá em casa”. Eu fui lá e botei a filha e o filho. Quer dizer, tem que ter um agente desse tipo para poder interagir com a comunidade. 
P/1 – Nessa nova etapa que você tá fazendo? 
R – Nessa nova etapa, que a outra etapa foi aleatória, esse curso aconteceu em novembro. A gente ia começar o curso em março, já deu um atraso muito grande. Esse não, esse vai ser dentro do cronômetro certo, para poder não ter evasão. 
P/1 – Que é que mais você gostaria que acontecesse na comunidade em relação à pesca? 
R – Eu queria que Deus descesse aqui e abençoasse a cidade mais uma vez... 
P/1 – Como assim? 
R – E deixasse todo mundo feliz, tudo que eu queria era isso, cidade feliz, não, brincadeira, só levei o papo. 
P/2 – Enquanto ele não vem... 
P/1 – Em relação a pesca mesmo? 
R – Olha a pesca [risos]... repita a pergunta que eu fiquei meio... 
P/1 – O que você que acontecesse aqui na cidade em relação a pesca? 
R – Em relação à pesca já ta tendo esse curso, para pesca não tem igual. E também a preservação do ambiente pesqueiro, que essa barcaça da Veracel tá acabando com tudo. Dessa trajetória, de cento e pouco quilômetros, ela faz um arraso, são cinco barcaças, 24 horas passando pra lá e pra cá. Nesse caminho que o peixe passa, que o peixe de corso principalmente, peixe que se movimenta, que tem o peixe das pedras e tem o peixe que se movimenta, ele não passa mais por essa região porque ele vê que ali ta o… uma barcaça dessa carrega sabe quanto? 150 caminhões, é como se fosse 150 caminhões carregados. Uma barcaça leva 150 caminhões de toneladas, 150 mil toneladas, imaginem. 
P/2 – Toneladas de que Alaim? 
R – De material da Veracel, de fibras de celulose. Imaginem esse círculo indo e voltando ininterruptamente, esse setor que ela abrange são mais ou menos 300 metros de comprimento por 50 de largura. O que ela faz, qual o efeito predador que ela não faz em nesses recifes e tudo mais, desses casulos marinhos, nos lugares que habitam os peixes. Ele não vai ficar mais lá, pela própria zoada que eles determinam e também acabando a região de pesca do pescador, pescador botava rede aqui perto, não bota mais. Quem vai botar na frente de uma barcaça daquela, se ela não enxerga ninguém na frente? 
P/2 – Tem algum movimento para isso? 
R – Tem esse movimento que a gente tá fazendo aí, o mapeamento participativo. É esse trabalho que a gente tá fazendo, conscientizando o pescador, a sua origem e seu valor através da pesca, para ele ter consciência do que ele tem aqui, e preservar também. Por isso estamos botando que qualquer barcaça vá para 50 milhas náuticas, que ela saia dessa influência de pesca artesanal - que pesca de alto mar é diferente, é 100 milhas em diante. Então eles tem que navegar do lado de fora dessa maré - que aqui é o chamado “Charlotte”-, aqui eles estão depredando. Abrolhos, eles estão passando dentro de Abrolhos, essa maior questão é lá, e Prado tá um negócio de guerra que você precisa ver. 
P/2 – Quem está liderando esse movimento? 
R – Ah, nós pescadores, as comunidades, as ONGs [Organização Não Governamental] voltadas ao meio ambiente, os ambientalistas, todo mundo. 
P/1 – E vocês fazem uma ação específica? 
R – Com certeza. 
P/1 – O que é que vocês tão fazendo? 
R – Todo o tipo de ação voltada a minimizar essa coisa toda aí, é uma questão séria, estamos aí à oito meses brigando. Mas a Veracel é mala não é? Muito rica a empresa, e chega numa comunidade dessa, com um prefeito desse aqui e dá uma vantagem pro prefeito, um dinheiro aí... Você sabe que não funciona só o pescador, é uma comunidade em geral. Mas estão fortalecendo um bocado de coisa boa. O Instituto Chico Mendes e outros órgãos e ONGs estão se fortalecendo, se juntando para dar esse freio, ou então fazer com que eles tomem consciência que isso aqui, antes de mais nada, era do pescador. Da costa pra lá quem tinha atividade era o pescador artesanal, queira ou não queira, eles invadiram um espaço que era deles, já veio dos índios, que essa história já vem dos índios. Como isso? Aí vai ter que fazer o quê? O mecanismo que dê direito ao pescador, preservar, aqui o Ricardo falou sobre as resets, que deveria ter em cada região dessas, que é essa preservação permanente, para poder dar... que é daí de onde veio o criatório, a procriação dos peixes, o acasalamento, tudo veio para aqui perto. O peixe não se acasala em alto mar não, ele vem pras enseadas, pras beiradas dos costões e fazem aí, onde tem o mar calmo, onde tem os mananciais, os mangues, essa entrada aí. 
P/1 – Você falou que você tem uma filha, você só tem ela ou tem mais? 
R – Eu tenho duas, uma... como é que diz? Uma filha natural e a outra... 
P/1 – Que você sempre cuidou é isso? 
R – É, como é o nome? Tem um termo... um cara estudado, esqueci. 
P/1 – O que é que você espera para elas? 
R – Todas de bom, tudo formada já. Minhas filhas tudo formada, independentes, mandam dinheiro para o papai: “Papai, posso mandar dinheiro pra você?”, “Não precisa, não”. 
P/2 – São duas? 
R – Lindas e maravilhosas, uma Miala a outra Aida. 
P/2 – Aida? 
R – É, tudo a cima de 25 anos. 
P/1 – Elas formaram em que? 
R – Uma se formou em Administração de Empresa e é design de modas, é modista. Morou seis anos em Milão, dentro da Espanha também, bem é estudada e a outra é formada em... é nutricionista, trabalha no Grupo Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Estão bem encaminhadas todas as duas, são lindas, loiras, lindas e maravilhosas, não é porque são minhas filhas, é porque são bonitas mesmo. 
P/1 – Você ainda tem algum sonho? 
R – Tenho; P/1 – Qual? 
R – Todo dia eu sonho. 
P/1 – Qual? 
R – Meu sonho é ter longevidade, para ver essa mudança, acompanhar essa mudança. Eu não queria morrer cedo não, eu queria viver um tempo, mais uns 30 anos ainda pela frente aí. Minha família sofre de família com longevidade, então espero para conhecer com essa oportunidade que eu tive agora de ter essa grande mudança para mim, eu quero ter mais vida para poder dar essa orientação para esse povo. 
P/1 – Quando você fala dar essa orientação você... 
P/2 – Para quem? 
P/1 – Para quem? 
R – Para comunidade que precisa de orientação, para um aluno, para um estudante, para essa inclusão social, procurar fazer antes. Como eu digo a eles: “Ó, eu nessa época tenho 58 anos de idade - fazendo 59 - e tô entrando nesse caminho de inclusão com você que tá novo, não deixe de ter essa oportunidade, não jogue fora tá?”. E é essa a realidade, pego mais menino de 18 anos, que é fundamental colocar. O cara que já tem 25, 30 anos, ele já sabe o que quer, pode ir por necessidade, mas o novo tem que ter essa inclusão, para não deixar entrar em caminhos tortuosos. 

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