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História

Ajudar ao próximo como uma corrente do bem

História de: Henrique Celestino de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

As lembranças da família e das viagens para a praia. Projetos sociais que participou quando era mais novo. O incentivo das professoras para os estudos. A rotina movimentada da escola e do primeiro trabalho durante a adolescência. A escolha de qual curso seguir na faculdade. As experiências de emprego em Vendas e em Recursos Humanos. A expectativa do novo trabalho em sua área de formação. Voluntariado na Associação Sempre Zaki Narchi e na ONG espírita. As mudanças observadas na comunidade Zaki Narchi e sua quebra de paradigmas. As apresentações de dança. Impacto da pandemia em sua vida. Seus hobbies e sonhos para o futuro. 

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História completa

P/1 – Henrique, para começar, eu queria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, local de nascimento e a data. 


R – Claro! Perfeito. Meu nome é Henrique Celestino de Lima. Eu nasci aqui em São Paulo e atualmente tenho 25 anos de idade. 


P/1 – E a data de nascimento?


R – Nasci no dia 24 de maio de 1996.


P/1 – Qual é o nome dos seus pais?


R – Minha mãe é Sandra Leandro de Lima Alves e meu pai é Cícero Celestino de Lima. 


P/1 – E o que eles fazem?


R – Minha mãe é auxiliar de limpeza e meu pai também. Os dois.  


P/1 – E como é que você os descreveria?


R – Incríveis. O que eles não tiveram, eles fizeram de tudo para me dar. 


P/1 – E como eles se conheceram?


R – Eles se conheceram... uma vez eu perguntei para eles e eles disseram para mim que bem aqui, antigamente, eram barracos e tinha um bar, bem próximo ao rio. Estava tocando uma música e os dois conheciam a música. Eles ouviram a música, se olharam e daí eles começaram a conversar e aí teve um date dos dois. Aí casaram.


P/1 – E eles nasceram aqui em São Paulo também?


R – Não. Nasceram em Pernambuco, ambos.


P/1 – Você sabe por que eles decidiram vir para cá?


R – Dificuldades. Lá em Pernambuco não tem tanta facilidade com emprego e a fome também, lá, essas coisas todas. Eles vieram para São Paulo, montaram barraco e ficaram por aqui.


P/1 – Você tem irmão? 


R – Tenho. Comigo são seis, seis irmãos.


P/2 – Você está em qual grau da escadinha?


R – Eu estou no meio. Tem os dois mais velhos e tem os casais, minha mãe teve casais, na verdade. Tem os dois mais velhos... William tem 31, a Juliane tem 29, Viviane tem 26, eu tenho 25, a Liliane tem 22 e o Wilson tem 21. 


P/1 – Como é a sua relação com eles?


R – Perfeito. Não tenho do que reclamar não, todos super de boa.


P/1 – E com seus pais, como é a relação?


R – Eu só tenho uma relação um pouquinho ruim com o meu pai. Por ele ser de Pernambuco, ele não tem muita aceitação com algumas coisas. Então, a gente meio que se colidia bastante. Mas, em relação a isso, ele lá e eu cá. (risos) 


P/1 – Você quer contar?


R – Meu pai, para mim, ele é meio que... como posso dizer a palavra certa? Chucro, sabe? Lá, para ele, quando você tem uma orientação sexual, você não pode ter outra, você nasceu homem, tem que ser isso. Eu não sou assim, na verdade, eu sou bem... ele fala assim: “Você é?” Eu falo: “Não, não sou”. Mentira. (risos) Só que agora, atualmente, ele não mora mais com a minha mãe. Ele foi embora, então a gente só se fala pela internet (risos) e olhe lá!


P/1 – E como é que você se sente, em relação a ele?


R – O meu pai? Para mim, nem incomoda, porque meu pai não foi tão participativo em minha vida. Então, pra mim, nunca foi nenhuma formação minha. Não, antigamente, para não dizer que ele foi um mau pai, bem, acho que com meus dez anos de idade, ele era presente, depois também nem influiu em nada. 


P/1 – E, pensando assim, quando você era mais novo, tinha alguma comida, algum cheiro, alguma data comemorativa?


R – Páscoa. Era maravilhoso para gente, todos os domingos a gente comprava pastel, para gente comer em família. Deixa eu ver... aniversários também eram bem maravilhosos, Natal também, todo final de mês a gente ia para praia e o que a gente vivia comendo, todo mundo, assim, direto, era uma comida, não sei se vocês conhecem baião-de-dois, tipo: queijo, carne seca, essas coisas todas e lasanha. São coisas assim. E chuva também, o cheiro da chuva era bem presente na minha infância. 


P/1 – Por que eram presentes?


R – Não sei por quê. Acho que é uma coisa que eu sempre fico fixado, assim, quando eu sinto cheiro de chuva, falo: “Nossa, minha infância!” Porque é uma coisa que me lembra muito minha infância. Não sei se porque em Mairiporã, antigamente, tinha muito... lá em Mairiporã é muito mato, não sei se vocês já foram. Lá é muito mato. Então, assim, aquele cheiro de areia molhada. Lembra a minha infância. 


P/2 – Você lembra de alguma viagem marcante?


R – Que a gente fez? Para praia, que a gente fez, foi uma coisa que foi metade da família todinha, todo mundo junto. Só que sempre tem uma confusão, né? Porque, família...  (risos) Mas era todo mundo reunido. Toda vez praia, era com a família.


P/1 – Você sabe a história dos seus avós?


R – Não sei te dizer o certo, porque o que eles falam, meu tio, minha mãe, a história deles era muito triste, porque eles não tinham nem o que calçar lá e não tinham o que comer, também. Então, eles passaram muita dificuldade para comer, para sobreviver lá em Pernambuco, tanto que eles vieram para São Paulo. 


P/2 – Você os conheceu?


R – Meus tios, sim. Todos presentes na minha vida. Por isso eles vivem falando: “Valorize o dinheiro, valorize a família, valorize isso, estude sempre”. Porque lá, para eles, não tinha isso. Uma vez, para você ver como é triste, mesmo, a história deles, eles viviam falando: “Sabe sangue de boi?” Eles não tinham o que comer, então lá perto de onde eles viviam, tinha sangue, essas coisas, para fazer sarapatel. Eles iam e pegavam o sangue para se alimentar ou eles comiam farinha com café, para se alimentar, porque lá era difícil para eles comerem. 


P/1 – Você chegou a conhecer seus avós?


R – Sim. Todos eles. Só meu avô por parte de pai faleceu, mas eu também conheci todos. 


P/1 – Você sabe a história do seu nascimento?


R – Não sei dizer ao certo. Não sei. Eu sei que, pelo que eu entendi, quando eu nasci, meu pai não quis me registrar, dizendo que eu não era filho dele e foi para Pernambuco. E quem ia me registrar era meu padrinho, só que depois, meu pai, de muito tempo, voltou e me registrou. 


P/1 – E você sabe o... 


R – Motivo? 


P/1 – Não, o nome. Por que você tem o nome de Henrique?


R – Não sei. Meu pai queria colocar meu nome de Osvaldo. Graças a Deus, ele não conseguiu colocar. Mas não sei dizer ao certo, porque meus irmãos todos eles são William, Wilson, só eu que sou Henrique, não é com w. Então, não sei. Minha mãe falou que era bonito.


P/2 – Quando você lembra da sua infância, qual a sua primeira memória de vida?


R – De vida, de infância? Eu, de frente para um vídeo game, jogando Mário ou jogando Mortal Kombat, com os meus primos e irmãos. É o que eu mais vejo da minha infância, que a gente vivia brincando. 


P/1 – Ia te perguntar se você se lembra da casa que você morou. 


R – Lembro. É a casa da minha mãe. É um apartamento, na verdade. Então, [lembro] perfeitamente. (risos) Ela falava para a gente não subir, eu subia em cima dos guarda-roupas, me escondia para não ir para a escola, escondia embaixo da cama. Era assim minha infância. 


P/2 – Era aqui?


R – Era aqui.


P/1 – Então você já nasceu aqui?


R – Nasci e fiquei aqui. 


P/1 – Como é que foi crescer aqui, no apartamento? 


R – Olha, pra ser bem sincero, não me envolvi tanto com o pessoal daqui. Minha mãe, como pessoal daqui, ela vivia falando que o pessoal daqui era ‘confusão’, ela me colocava para fazer projetos sociais fora daqui, tipo dança, teatro, balé, inglês.


P/1 – Desde pequeno?


R – Desde pequeno.


P/2 – Isso com todos os seus irmãos?


R – A maior parte. Meus irmãos todos foram para alguma coisa, sabe? Só que ela mais investia se a gente gostasse, ela realmente investia. Ela falava bem assim: “Não conta para seu pai, mas pode fazer”.


P/1 – Como era o apartamento?


R – O apartamento, em si, tem dois quartos, um banheiro, uma cozinha e a sala. 


P/1 – E como era a divisão? 


R – No meu quarto, com meus irmãos, éramos nós quatro. Os dois mais velhos já tinham saído, porque eles casaram, então eram duas beliches, cada um... aí, no quarto do lado, minha mãe e meu pai. Seis pessoas. 



P/1 – Você lembra das brincadeiras que você tinha, na infância?


R – Luta, vivia brincando de lutinha; taco, tem uma brincadeira que a gente fala que é taco, não sei se você conhece, que é colocar duas garrafas, uma num ponto e outra no ponto em que a gente está. Deixa eu ver: esconde-esconde; polícia e ladrão; pega-pega, essas brincadeiras. 


P/1 – E desses projetos, o que você mais gostava de fazer?


R – Dança. Sempre amei dança.


P/2 – Qual estilo?


R – Jazz clássico.


P/1 – E você seguiu?


R – Segui durante um tempo, só que você tem que fazer outras coisas, estudar, eu tive que abandonar. Mas eu amava. Tinha lutas também, eu lembro que tinha lutas: judô, Muay Thai, mas a dança que me cativava. 


P/1 – E quando você era pequeno, você sonhava ser alguma coisa?


R – Sempre sonhei em lidar com pessoas, sempre. Acho que desde pequeno sempre pensei em estar em um lugar, conversando com diversas pessoas ao mesmo tempo. Eu pensava: “Nossa, se eu lidar com pessoas, ajudar o próximo de uma forma que eu mude de alguma forma, o pensamento dele, eu estou feliz” e por isso que eu decidi ir para Psicologia.


P/2 – Você tinha alguma atividade que você fazia com seus irmãos, que é bem característico da relação de vocês?


R – Eu acredito que a gente, eu sou sempre organizado, em tudo que eu faço. Eu sempre ficava cronometrando o tempo de cada um nas coisas, sempre fui controlador, ao ponto de controlar o que cada um fazia, sempre fui assim.


P/2 – E isso era uma questão, para você? Vocês brigavam? 


R – Sempre. Se eles fizessem alguma coisa que não estava no eixo do que combinei, então vamos parar. Parou a brincadeira. (risos) Sempre fui assim. Eu sou tão organizado, tão, tão, tão, que meu guarda-roupa eu organizo por cor. E eu sei quando a pessoa mexeu nas minhas coisas. Eu fico olhando: “Alguém mexeu aqui”, que eu sei. Sou tão assim. Tenho TOC, acho que isso é um TOC. 


P/1 – E a primeira lembrança da escola?


R – Na escola sofri muito bullying, por eu ser diferente das outras crianças. Eu sempre fui mais introvertido, sempre, sempre, sempre, sempre. Então, quando as crianças iam jogar futebol, se eu queria, sei lá, ler um livro, era bolada em mim. Sempre foi uma merda, na escola, sim. 


P/2 – Nem tinha muitos amigos, então?


R – Não. Eu fui ter amigos de verdade, assim, no ensino médio, porque eu comecei a retrucar. Mas antes não, não mesmo.


P/1 – Como é que era retrucar? 


R – Eu jogava de volta, xingava de volta. Se me xingava de uma coisa, eu xingava de volta, apanhava, mas também ia para cima. 


(P/1 – Você lembra alguma professora da escola?


R – Lembro de uma professora minha, o nome dela era Sandra, da primeira série, ela sempre falava que eu era diferente e, para mim, como eu era diferente, ela sempre falava assim para eu focar no que eu queria. E uma da quarta série, que o nome dela era Ângela, que super investiu em mim, muito. Tanto que eu recebi prêmios de... eu estudei na Escola Oliva Irene, lá na Vila Guilherme e eu sempre ganhava prêmios de melhor leitor, melhor aluno. Na quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, sempre.


P/1 – Como que era isso, para você?


R – Para mim era maravilhoso. O pessoal não ligava tanto para isso, mas eu falava: “Gente, melhor aluno, obrigado”.


P/2 – Você se lembra de algum desses prêmios?


R – Lembro. Um que eu recebi, eu tinha ganhado uma cesta bem grandona, assim, cheia de doces, com livros e tinha também um negócio assim: “Você foi o melhor aluno da sala, melhor leitor”, alguma coisa do tipo. Mas meus pais nem davam tanta... minha mãe sim, mas meu pai nem dava tanta bola, mas eu super me exibia.  


P/1 – Como que foi seguindo a sua formação? 


R – Então, como minha mãe tinha seis filhos, com quinze, dezesseis anos, eu tive que trabalhar, mas não foi trabalhar braçal. Foi um trabalho que eu trabalhava em escola também, trabalhava na escola, ia para outra escola de noite e ia para o técnico à noite, chegava tipo onze horas, meia-noite em casa, porque ia para o técnico ainda. Então, era corridinho meu dia, não ficava muito em casa.


P/1 – E como era, do que era esse técnico?


R – Eu fiz o técnico em Administração, porque não tinha noção do que eu faria. Primeiramente, na verdade, eu me inscrevi para fazer dança na Etec, de artes, só que no dia do teste, para fazer lá, que tinha que dançar solo, eu travei. Eu fiquei parado, falei pro pessoal: “Não vou conseguir fazer. Vou montar uma coreografia para você apresentar para o pessoal”, para ver se você tinha aptidão para você ficar lá dentro, aí travei, não consegui. (risos) Porque eram duas provas, era uma teórica e uma prática e na prática eu travei. Aí eu fui para lá e fui para Administração. 


P/1 – Você chegou a montar a coreografia?


R – Cheguei. (risos) Mas eu travei. Não sei por que na hora eu travei. Não sei se era por causa da bancada, em si ou se era as outras pessoas olhando, mas eu travei na hora. Não consegui dançar, também já estava muito tempo sem dançar, porque eu tinha me afastado, porque eu voltei.


P/2 – Esse trabalho era da escola?


R – Eu trabalhava com... eles falam que é _____, uma professora voltada só para parte de Tecnologia da Informação e eu dava suporte para ela na parte das planilhas, de organização das aulas, para os alunos do [ensino] fundamental I e II. 


P/2 – Você curtia?


R – Curtia, lógico. (risos) Eu colocava em prática o que já tinha aprendido dentro dos cursos. Tem, na verdade... aqui, acho que é escola estadual, aqui no Iprem, existia um projeto para as crianças, só que nem todo mundo sabia. Aí você tinha que fazer uma prova, o que você aprendeu na escola e no ensino fundamental, para ver se você tinha aptidão para ficar lá dentro. Passando, você fazia parte do grupo. 


P/1 – Você lembra o que fez com o seu primeiro salário?


R – Nossa, eu comprei um tênis, (risos) comprei um celular, endividei. (risos) Você nunca tem noção, só vai comprando, então me endividei, comprei um tênis e fui me organizando. E foi aí que tive educação financeira. Porque eu não sabia, noção do que era dinheiro. Minha mãe falou: “Dinheiro é isso e aquilo”. Eu coloquei no papel o que eu tinha vontade de comprar, aí eu fui me organizando, desse jeito. Com o técnico também, que eles tinham aulas de contabilidade, ativo passivo, DRE. Então, você só ia fazendo.


P/1 – E como era conciliar tudo isso?


R – Era ‘de boa’. Eu nunca... sou mil por hora, acho que na verdade sou cinquenta mil, porque eu sou muito elétrico. Sabe aquela pessoa: estou fazendo uma coisa aqui, pensando em outra coisa, já. Sou assim: tu tu tu tu tu. Por isso que, se a pessoa for lenta perto de mim, já fico incomodado, porque eu sou muito hiperativo.


P/1 – E na juventude, você falou que começou a ter amigos?


R – Sim. Mas eu também sou uma pessoa que não tem muitos amigos. Eu tenho, se você parar para pensar, amigos, amigos devo ter uns cinco. A gente tem colegas, né? Amigo de verdade, são pai e mãe. Mas amizade vim fazer depois que entrei na faculdade, as pessoas são totalmente diferentes. Então, foi na faculdade, no técnico, no ensino médio, que você vai procurando ideais. Então, foi aí, mas no ensino fundamental, não. 


P/1 – E que ideais que eram esses?


R – Eu sempre fui na vibe, quando eu estava no ensino médio, eu tinha uma vibe de rock, amava Slipknot, System of Down, adorava essas coisas assim. Então, minha vibe era ficar com um grupinho que gostava de rock. E fiquei com eles durante um bom tempo e foi uma das melhores coisas que fiz, porque eles me instruíam a fazer coisas boas, tipo: “Vai estudar, vai fazer isso e aquilo”. 


P/2 – Como foi a formação, sair da escola e começar a pensar em faculdade?


R – Na verdade, quando você sai do ensino médio, tem uma pressão muito grande de saber o que você vai fazer da sua vida. E aí, sei lá, você fica pensando diversas coisas. Eu, quando me formei no ensino médio, tinha diversas... pensei em fisioterapia, psicologia, professor, pensei um monte coisa. E fui anulando lapsos do que eu pensava em fazer, que lidaria com pessoas, mas cada um foi para uma área diferente. 


P/2 – Como foi o vestibular?


R – (risos) Você acha que sabe das coisas e, quando você chega, tem pessoas mais inteligentes que você na sua frente, é complicado. Fuvest, nossa, meu Deus do céu! É complicado, mas é necessário também. Você vê que tem coisas que você tem que aprender. Eu fui para Fuvest uma vez pensando que eu sabia muito, chegando lá eu via coisas que eu falei: “Que questão é essa aqui, que eu nem sei o que é isso!” Que nem parte de Física, foi na regra de três, seja o que Deus quiser! (risos) 


P/2 – E como foi receber a notícia que você passou no vestibular?


R – Para mim foi muito bom, muito bom mesmo. Eu lembro que eu fiquei muito feliz. Tomei um porre, eu peguei uma Catuaba horrível, tomei todinha, comemorei com meus amigos, que passei na faculdade. 


P/1 – No que você tinha passado?


R – Eu passei, nessa época, em Gestão. 


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Tinha acho que vinte e pouquinho, porque eu tinha entrado na faculdade de Psicologia, eu pagava, com dezoito. Minha mãe não tinha dinheiro para pagar, então eu pagava sozinho. Era oitocentos e pouquinho por mês, era salgadinho, tive que parar no quarto semestre, porque estava pagando mil e cem de mensalidade. Tive que parar, trancar o curso. Aí pensei: “Não vou querer parar de estudar, então vou fazer alguma coisa para eu estudar de graça”. Aí fiz ProUni, Fuvest, essas coisas, Enem.


P/1 – E como é que foi essa decisão de parar?


R – Foi chato, porque você está tirando uma coisa que você gosta muito, muito mesmo, você trancar uma coisa que você ama, por não ter dinheiro, é triste. (risos) Eu já tinha até a noção do que faria em Psicologia: “Vou me formar, vou para a parte comportamental e futuramente vou fazer a pós-graduação em Psicologia”. Neuropsicologia, eu pensava. Foi chato. 


P/1 – E você trabalhava ainda na escola?


R – Eu trabalhava com Recursos Humanos, na verdade, nessa época. Entrei como estagiário em administração, aí eu fui efetivado para a parte de Recursos Humanos, como auxiliar e até hoje. Ainda fui para vendas também. Fiquei desempregado, fui para vendas, em vendas eu cresci também.


P/1 – E como é que foram esses trabalhos?


R – Foram experiências e experiências. Eu já trabalhei com telemarketing, já trabalhei com vendas, já trabalhei como estoquista, (risos) um monte de coisa, vendedor. Meu segundo emprego foi numa loja de Fini. Eu trabalhava como balconista, de vendedor, estágio. Eu não aguentei não, me estressei. (risos) 


P/1 – Era muito ruim lá?


R – Não é que ruim, é que eu sou todo certinho. Eu organizava as prateleiras, aí vinham as pessoas e tiravam as coisas, ficava aquela bagunça de novo, ia lá e arrumava e ficava com raiva. Não quero isso para mim, não. Isso aqui não dá certo. Aí saí, pedi pra sair.


P/1 – E desses trabalhos que você fez, qual você mais curtiu?


R – RH. Recursos Humanos.  


P/1 – Em que área do RH?


R – Eu gosto de ficar bem na parte de admissão e demissão de pessoas e na parte de homologação também. 


P/2 – Você se lembra de alguma história marcante no RH?


R – Teve uma vez... eu sempre fiz amizade com pessoas simples, simples, simples, simples. Eu tinha amizade com as moças que trabalhavam na limpeza e minha gerente, uma vez, chegou em mim e falou que eu tinha que demiti-las. Foi bem chato para mim, bem incomum. Fiquei muito chato. As demiti com lágrimas nos olhos, sabe, porque, além de ser corporativo, a gente tinha uma amizade. Mas foi chato, tive que demiti-las.


P/1 – Como foi esse momento?


R – Para mim foi marcante também. Porque foi uma das vezes que eu falei: “Nossa, não é tão simples quanto parece e também eu não posso ficar lidando com emoções aqui dentro”, por ser no profissional. 


P/1 – E na faculdade de Gestão, como é que foi conhecer outras pessoas, diferentes?


R – Então, é interessante porque a maior parte das pessoas, na faculdade, tem a mesma visão que você. De liderar, de crescer, fazer alguma coisa. Então, super colidiu, super deu certo. 


P/1 – E teve algum professor, dessa época, que foi marcante?


R – Teve um professor meu que era gerente da unidade, que dava aula também. Ele também, justamente, cuidava da parte do curso de Psicologia. Era Ricardo, o nome dele e ele foi bem marcante, porque ele sempre incentivou todos os alunos a buscar sonhos. Então, ele foi essencial para mim, também. 


P/1 – Me contaram que você vai começar um trabalho novo. É isso?


R – Vou. Segunda-feira.  


P/2 – Qual que é?


R – Recursos Humanos, minha área. Estava na hora, também não estava trabalhando, eu não estava aguentando mais. Minha área. 


P/1 – E como estão as suas expectativas?


R – A gente cria bastante expectativa, porque a gente chega lá dentro e é tudo novo, pessoas novas e eu estou pensando como que eu vou segunda-feira, para não ser tão impactante.


P/1 – Como você conseguiu esse trabalho? 


R – Olha, eu fiz tanta entrevista, (risos) mandei tanto currículo, mas tanto currículo. Eu o procurei pelo Infojobs, foi o único pelo Infojobs que eu vi que deu certo. Geralmente nunca dá, Infojobs é complicado, mas esse deu certo. (risos) 


P/1 – E pensando aqui, na Zaki Narchi, como que é morar aqui, para você?


R – Olha, aqui você vê muita coisa, você tem que saber selecionar pessoas. Não estou dizendo que todo mundo é má pessoa, má índole. Mas, se você tem uma visão diferente dos outros, é melhor você procurar pessoas que realmente pensem igual a você, aqui também. Tem pessoas muito boas aqui, eu não sabia desse projeto que tem aqui, dessa ONG [se refere à Associação Sempre Zaki Narchi]. Aí eu procurei, teve um dia que eu vi entregando marmita, passei e fiquei olhando. Falei: “Nossa, o que é aqui?” Aí perguntei: “Precisa de voluntário aqui dentro?” Eles falaram: “Precisa”, aí eu me juntei a eles.


P/2 – Quando foi isso?


R – Foi há dois ou um mês atrás que eu resolvi fazer parte disso aqui.


P/1 – E como foi a experiência de estar mais próximo das pessoas?


R – Maravilhosa. Eu conheci a Elis, conheci o Ed. A visão que eles têm de crescer aqui dentro, de ajudar o próximo, é muito bonita e cativa também. Porque, na verdade, não só aqui eu sou voluntário. Eu também faço parte de uma associação lá em Santana, de uma ONG espírita, que faz doação de cesta básica, essas coisas. Aqui também faço voluntariado. Se não estou aqui, como eu estava desempregado, ficava lá, nos dois.


P/2 – E trabalho voluntário, sua mãe que incentivava, desde pequeno? O que representa fazer esse trabalho, para você?


R – Para mim, por mais que eu não tenha nenhum lucro com isso, ver o sorriso no rosto de outra pessoa é muito bom, é muito gratificante você ver uma pessoa e saber que você fez parte, que você ajudou outra pessoa, com alguns gestos seu. Que fez parte de mim, que você ajudou outra pessoa. Pra mim é muito bom.


P/2 – Teve alguma história marcante, para você?


R – Teve de um rapaz que é homossexual, ele também tem HIV e foi muito rejeitado, por muita gente. Ele estava passando por dificuldades financeiras, não tinha o que comer, viver. E pessoal da ONG espírita que eu faço parte, todo mundo fez arrecadação de dinheiro, comprou cesta básica, comprou um monte coisas, roupas, essas coisas, pra ele e deu para ele. O sorriso no rosto dele, as lágrimas. Aquilo, para mim, foi essencial, aquela história dele me marcou.


P/1 – E olhando, assim, para quando você era bem pequeno, aqui na Zaki Narchi e para agora, o que mudou?


R – Nossa, eu nunca pensei que seria dessa forma. Muita coisa. Porque quando você é menor... a maior parte da minha família é católica, tem esse negócio de que eu quebrei muito tabu da minha família, porque eu cheguei e falei assim... minha família: “Homem gosta de homem ou mulher gosta de mulher” e eu falei assim: “E se eu gostar dos dois?” (risos) Então, para eles foi um baque e nunca cheguei e falei assim... eu lembro que na festa de dezoito anos, (risos) no auge, lá, eu cheguei e falei: “Mãe, eu ‘pego’ meninos”. Minha mãe ficou: “O quê?” Falei: “É, mãe”. Ela fez aquele escândalo todo, aquele dia. Eu quebrei um paradigma na minha família todinha. Minha família é toda certinha e eu cheguei quebrando tudo. O errado. 


P/1 – Como foi esse momento?


R – No momento, no dia eu fiquei desesperado, mas depois... hoje eu vejo, assim, que muita coisa mudou, muita coisa mudou mesmo, as pessoas se aceitarem. Você vê agora negócio de não binário, essas coisas todas, mas antigamente não tinha isso não. Se você era diferente, você apanhava na cara, (risos) você era julgado, você era excluído. 


P/2 – Mas a vizinhança aceita, como que é isso?


R – Sinceramente, se não aceitar, paciência. Mas antes era complicado, você via julgamento no olhar, sabe?


P/1 – E esses projetos que você participou durante a infância, eram daqui?


R – Um dos projetos era na Vila Guilherme e o outro, se não me engano, era aqui próximo a Sylvia Design, aqui perto do Carandiru. Eles já existiam há muito tempo, na verdade. 


P/1 – Mas não eram daqui?


R – Mas eles eram voltados para as crianças daqui, era mais no foco de tirar crianças da rua. Aí tinha diversos cursos lá: dança, reforço, teatro, monte de coisa voltada à educação.  


P/1 – Você não tinha conhecimento daqui, dessas pessoas?


R – Não, nenhum. Eu sabia que tinha, mas não sabia que era uma associação, achava que era um grupo de pessoas aleatórias, depois que eu vi que era uma ONG. (risos) Aí eu fui chegando perto, perguntando aos poucos. Aí eu conheci Elis, conheci o Ed, aí fiz parte disso aqui. Fernanda. 


P/1 – E de onde veio essa vontade de ajudar?


R – Minha família, como eu te falei, todos eles passaram por momentos difíceis e só pelo fato de saber, pelo que eu entendi, foi muito corrente do bem, porque quando eles chegaram aqui em São Paulo, as pessoas os ajudaram. Então, não tem nada que pague o que eles fizeram. Porque eles chegaram aqui e ficaram com fome, ficaram com sede, não tinham onde morar, moravam de favor. Até eles conseguirem algo nosso, demorou. Então, os ajudaram também. Então, hoje em dia, eu vejo muito como corrente do bem, ajudar o próximo. E se bem que tem um filme também, Corrente do Bem. (risos)  


P/2 – Eles contavam como era aqui quando eles chegaram, as diferenças destas gerações?


R – Sim, contaram. Eles falavam que era muito complicado aqui, porque não tinha saneamento, tinha fome, tinha muitas brigas aqui também, não só por terreno, por espaço também. Então...


P/2 – Hoje você já sente que é diferente?


R – Muito diferente, mudou muito. Eu estou falando assim, em relação... você vê muitas pessoas se aceitando, em si. Pessoas novas dizendo: “Olha, eu sou isso, sou aquilo, gosto disso, gosto daquilo”, grupos. Antigamente era a coisa mais escondida. Hoje em dia você vê mais pessoas expressivas. 


P/2 – Então, foi julgamento, só pelo olhar? 


R – Sim. 


P/1 – Quer continuar, falar sobre isso? 


R – Sim. Olha, o julgamento por olhar, quando eu dizia, assim: você chegar no ambiente e as pessoas te olharem de canto: “Esse aqui é diferente”. E você sente, você se incomoda, mas você não liga. 


P/1 – E nisso também, você sentia esse olhar, por que você era diferente?


R – Sim, sempre senti.


P/1 – E como era a relação com as pessoas de fora daqui da Zaki Narchi?


R – De fora, era totalmente diferente, porque eu já andava com pessoas que eu sabia que me aceitavam. Então, ia para lugares que eu sabia que as pessoas me aceitavam, ia para o Masp, ia para a Biblioteca de São Paulo, essas coisas assim. 


P/2 – E os maiores desafios daqui, quais são?


R – Eu acho que hoje em dia não tem tantos desafios assim, porque a educação está para todos. Hoje em dia não estuda quem não quer, porque tem muita coisa, tem EJA. Tem jovens que nunca terminaram os estudos e têm a minha idade, está no segundo, oitava série e tem esses projetos para estudar, para fazer prova. Então, não estuda quem não quer. Mas hoje em dia mudou muito. Hoje em dia a educação está para todos. 


P/2 – O que você mais gosta daqui?


R – A relação que eu tenho com as pessoas, hoje em dia mudou muito. Hoje em dia o pessoal chega e fala bem assim pra mim: “Você é isso” e eu falo: “E você?” (risos) Então, hoje em dia, já sou bem desbocado.


P/2 – E o que você menos gosta?


R – Aqui? Algumas pessoas aqui são bastante arrogantes, posso dizer. Tem pessoas boas aqui, mas tem pessoas que ainda são leigas e arrogantes, aqui. Teve uma situação que aconteceu comigo: eu fui jogar uma coisa no garoto e pegou justamente numa criança. (risos) Fui lá e corri, pedi perdão, falei: “Meu Deus do céu, me perdoa”, corri, peguei gelo. E a mãe da criança mandou eu tomar naquele lugar. (risos) Então, é complicado.  


P/1 – E pensando, assim, em que tudo que você viveu, vivenciou, quais são os acontecimentos que mais ficaram marcados, em relação à Zaki Narchi?


R – ONG, aqui; minha infância que fiz projetos: capoeira, dança, reforço escolar. Essa parte da minha infância. Dança principalmente, foi uma coisa que me cativou muito, muito mesmo, que eu me via viajando para outros lugares para dançar, uma coisa que eu amava. Então, essa parte que mais gostei.


P/2 – E como foram essas experiências?


R – Incríveis. Coisas que crianças aqui não tiveram ainda, mas para mim foi maravilhosa. A parte que as pessoas que me motivaram a fazer vestibular também foram muito boas. Eu lembro que uma vez eu viajei para fazer um projeto de dança e tinha aquele lugar cheio de gente, lotadíssimo. Olhava, abria pela frestinha e via um monte de gente, minha família. Eu falei: “Caraca, que incrível!” (risos)  


P/1 – Quando você olhou, que você estava contando, como que foi?


R – A plateia? Nossa, meu coração a mil. A emoção também de ver sua família. Falei: “Nossa, minha família veio me ver!” Uma coisa que eles nunca viram, que eu fiquei meses treinando, diversos dias, para chegar nesse dia, o grande dia. É sensacional, não tem nem palavras. Você vê a pessoa tirando foto. Fala: “Nossa, que incrível!” e você fala: “Valeu, gente!”  


P/1 – E você sente vontade?


R – Sempre. Eu acho que é uma coisa que não sai, quando você se acostuma com algo que te dá aquele ânimo, você volta, sai e volta, sai e volta, sai e volta. Você volta a fazer suas coisas, sua vida pessoal, mas você tem um hobby, meu hobby ainda é dança.


P/2 – Como você se sente, dançando?


R – (risos) Não tem palavras de como você está. É libertador. Sentir os movimentos, é uma expressão, você está lá dançando, nossa, é cativante. É uma emoção muito boa, você está colocando sua expressão numa coisa. Mesma coisa se você fizer teatro, se você faz algo assim, muito bom. 


P/1 – Era importante. É importante. 


R – É importante. Se eu falar para Elis: “Elis, se eu colocar alguém aqui dentro dessa sala, para dar aula de dança, o que você acha?” Ela: “Perfeito, vamos conversar sobre”. Dança é essencial. Acho que quando você faz parte de algo que muda você de alguma forma, você quer reproduzir isso. Bom, pra mim é.  


P/2 – Então, você pensa em ajudar, oferecer para outras crianças?


R – Penso sempre, sempre, a mesma coisa que eu tive, sim. Porque, se eu vir que outra pessoa pegou a oportunidade de ter algo que eu tive oportunidade e eu ver que a pessoa está feliz com aquilo que eu tive também, está ótimo. Porque minha mãe nunca foi de me dar, ela dava as coisas com muita dificuldade, porque ela tinha que dar para seis filhos. Então, eu sempre fui assim de buscar, de ter o meu. O pessoal fala assim que eu tenho dinheiro, aqui, mas não é que eu tenho dinheiro, eu lutei por isso. Eu coloquei no papel, quantos meses eu fiquei sem gastar dinheiro com tal coisa, para ter determinada coisa.


P/1 – O que a pandemia afetou na sua vida?


R – A pandemia foi horrível para mim, porque eu fiquei preso dentro de casa e eu sou muito ativo. A pandemia, pra mim, foi horrível. Tive que ficar dentro de casa, onde mora eu, meu tio e meus dois avós, meus avós são idosos. Então, eu tive que me podar, pra pegar e satisfazer... anular minhas vontades, para não prejudicá-los, porque se eu soubesse que, se um dia, de alguma forma eu os deixei mal, doentes, eu ficaria muito triste e só tenho eles. 


P/2 – Você não mora com sua mãe?


R – Não moro com minha mãe. Minha mãe mora no apartamento de baixo, mas eu moro no apartamento de cima, porque na época que eu resolvi falar: “Eu gosto disso”, meu pai foi muito pejorativo. Ele dizia assim que, se eu fosse determinada coisa, ia sair da casa dele. Então, por receio, para não ter briga com meu pai e com minha mãe, eu optei por sair.


P/2 – E seu pai voltou para a cidade dele?


R – Meu pai está em São Paulo, aqui. Só que meu pai está com outra mulher. 


P/2 –  Como foi esse momento de separação, para sua família?


R – Para mim não foi tão ruim, porque eu já estava bem instruído. Então, para mim não mudou muita coisa. Meu pai não foi tão presente na minha infância, ele nunca foi numa formatura minha. Dia dos Pais, quem estava lá na maior parte das vezes era minha mãe. Um monte de pai e minha mãe lá. Então, quando ele foi, resolveu, que minha mãe falou: “Deixei seu pai” “Graças a Deus, ainda bem que se tocou”, porque é complicado. 


P/2 – E pensando na pandemia aqui para a Zaki, de uma maneira geral?


R – Pra Zaki? Os moradores? Nem todo mundo se importou. (risos) A gente está falando de uma comunidade. Então, muitas pessoas aqui não se importaram, pessoas se incomodaram, algumas, mas nem todos. Ainda tinham coisas aqui, eu falo que é muito Deus, porque eu não vi casos de Covid aqui na Zaki Narchi, não soube e, se teve, foi bem oculto.


P/1 – Você falou que você é bastante ativo, como é o seu dia a dia?


R – Muito. Às vezes, eu penso, eu começo agora, que eu não estava trabalhando, vinha pra ONG, ajudava. Eu amo jogar videogame, essas coisas. Então jogava, fazia live, fazer essas coisas tudinho, saía com meus amigos. Depois eles falavam: “Vamos fazer trilha?” “Vamos fazer trilha” “Vamos para o Rio de Janeiro?” “Vamos para o Rio de Janeiro” “Vamos pra Atibaia?” “Vamos pra Atibaia”. Eu sou super assim. Sou muito ‘vamos’. “Hoje” “Ok, vamos”. Tanto que eu faço meus hobbies: maquiagem, dança, andar de long, essas coisas, a ONG. Sou bem alegre, bem ativo na vida. 


P/1 – O que você gosta mais de fazer nas suas horas de lazer?


R – Jogar e ler livros. Gosto bastante de ler livros. Acho que o último, eu terminei atualmente de ler A Revolução dos Bichos, é um livro maravilhoso, todo mundo deveria ler.


P/1 – O que você achou?


R – Incrível. Uma revolução maravilhosa. Os bichos se voltando, (risos) naquele projeto todo. Interessante. 


P/2 – E você tem algum relacionamento?


R – Tipo assim, afetivo? Não. Eu tive, só que a gente optou por terminar, porque a gente não estava se dando bem. Estava sendo uma coisa bem abusiva. Então, é bem melhor, não gosto de uma coisa controlada, de uma pessoa que controle meus gestos, o que eu vou fazer. Eu gostava, mas de deixar: “Você faz sua vida, depois a gente volta e conversa”.


P/1 – E você tem um sonho?


R – Tenho. Claro que tenho. Todo mundo tem. Eu quero ainda me formar em Psicologia, na parte de Neuropsicologia. Quero trabalhar e ter meu próprio negócio, porque eu não gosto de trabalhar para o outro, odeio.


P/2 – Que tipo de negócio?


R – Eu já tenho, na verdade. Trabalho com maquiagem, já. Preciso investir mais nisso. Mas eu abriria uma coisa tipo bebidas, é uma coisa que dá dinheiro. Sempre falei isso pros meus chefes: “Na primeira oportunidade que eu tiver de ter dinheiro, vou abandonar vocês, desculpa”. Eles davam risada. Ainda bem que eles levavam pro lado... mas eu sempre fui assim. Meu jeito, eu nunca fui de entrar numa função e fazer só o meu, sempre olhava o do outro, aprendia a fazer o do outro também, porque na oportunidade que eu tenho que crescer junto com o outro, o outro fala: “Não vou hoje”. Eu falo: “Então eu faço, faço o meu e o seu”.


P/1 – Quais são as suas expectativas para o futuro?


R – Eu espero realmente estar formado, numa área que eu realmente goste, em outra, porque eu não quero parar por aqui. Ter minha própria casa, meu próprio carro, estar ajudando o próximo sempre, tendo as minhas coisas, essas coisas assim. Dança, coisa que eu amo. 


P/1 – A gente está chegando no final, mas tem duas perguntas ainda. A primeira era para saber se você queria contar alguma história que a gente deixou de te perguntar, se tem alguma história marcante?


R – Não sei, acho que o que eu diria para todo mundo é: “Estude, porque só o estudo te leva a algum lugar, para você ser alguém assim: ‘Realmente, esse aqui tem uma história, tem um conteúdo’”. Porque você ser uma pessoa e ser oco, ser leigo, não tem de nada. 


P/1 – O que você achou de contar uma parte da sua história?


R – Eu gosto, eu sou mega... ah, digo uma coisa: quando era mais novo, eu sofria bullying. Então, eu tinha uns pensamentos muito negativos. E eu digo isso porque eu não sei se é do jovem mesmo, de se cortar, essas coisas do tipo. E eu lembro que uma vez eu pensei em tirar minha própria vida e um rapaz, mendigo, morador de rua, veio conversar comigo e para você ver: é tão simples, mas tão simples, que aquele morador de rua me cativou. Que ele ainda me chamou, eu lembro que ele me chamou de filho de luz. Olha que interessante! Eu pensei: “Vou mudar”. E desde então eu passei em psicólogo, mudei, porque antes eu não aceitava que as pessoas saíssem da minha vida. Não aceitava que as pessoas fossem embora. Amizade, eu não tinha muitas. Eu não tinha muitas amizades e as que eu tinha, às vezes... é normal as pessoas saírem da sua vida. Eu não aceitava isso. Aí tive que passar em psicólogo, para aprender a aceitar o próximo e mudou muita coisa. Mas o que eu digo é: sempre buscar ajuda. Acho que é isso. 


P/2 – Seu interesse pela área profissional tem muito a ver com a sua experiência.


R – Super, super, super. O Setembro Amarelo, para mim, é muita coisa, também é muito importante, porque eu fiz parte daquilo. 


P/2 – Obrigada.


R – Nada. 


P/1 – É isso. Obrigada. Foi ótimo! 


P/2 – Obrigada! É interessante ter um projeto com diferentes idades, sabe? 


R – Sim. Tem pessoas, aqui, incríveis. Tem um outro rapaz aqui também que se chama João Felipe. Acho que ele é bem mais velho do que eu e a visão dele também, sobre o mundo, é muito interessante. Vocês deviam conversar com ele também. João Felipe, ele mora no bloco 26.

 

Entrevista de Henrique Celestino de Lima Entrevistado por Bruna Oliveira e Luiza Gallo São Paulo, 02/10/2021 Projeto: Comunidade Zaki Narchi -  Instituto Center Norte Realizada por Museu da Pessoa Entrevista n.º: PCSH _HV1047 Transcrita por Selma Paiva Revisada por Bruna Ghirardello P/1 – Henrique, para começar, eu queria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, local de nascimento e a data.  R – Claro! Perfeito. Meu nome é Henrique Celestino de Lima. Eu nasci aqui em São Paulo e atualmente tenho 25 anos de idade.  P/1 – E a data de nascimento? R – Nasci no dia 24 de maio de 1996. P/1 – Qual é o nome dos seus pais? R – Minha mãe é Sandra Leandro de Lima Alves e meu pai é Cícero Celestino de Lima.  P/1 – E o que eles fazem? R – Minha mãe é auxiliar de limpeza e meu pai também. Os dois.   P/1 – E como é que você os descreveria? R – Incríveis. O que eles não tiveram, eles fizeram de tudo para me dar.  P/1 – E como eles se conheceram? R – Eles se conheceram... uma vez eu perguntei para eles e eles disseram para mim que bem aqui, antigamente, eram barracos e tinha um bar, bem próximo ao rio. Estava tocando uma música e os dois conheciam a música. Eles ouviram a música, se olharam e daí eles começaram a conversar e aí teve um date dos dois. Aí casaram. P/1 – E eles nasceram aqui em São Paulo também? R – Não. Nasceram em Pernambuco, ambos. P/1 – Você sabe por que eles decidiram vir para cá? R – Dificuldades. Lá em Pernambuco não tem tanta facilidade com emprego e a fome também, lá, essas coisas todas. Eles vieram para São Paulo, montaram barraco e ficaram por aqui. P/1 – Você tem irmão?  R – Tenho. Comigo são seis, seis irmãos. P/2 – Você está em qual grau da escadinha? R – Eu estou no meio. Tem os dois mais velhos e tem os casais, minha mãe teve casais, na verdade. Tem os dois mais velhos... William tem 31, a Juliane tem 29, Viviane tem 26, eu tenho 25, a Liliane tem 22 e o Wilson tem 21.  P/1 – Como é a sua relação com eles? R – Perfeito. Não tenho do que reclamar não, todos super de boa. P/1 – E com seus pais, como é a relação? R – Eu só tenho uma relação um pouquinho ruim com o meu pai. Por ele ser de Pernambuco, ele não tem muita aceitação com algumas coisas. Então, a gente meio que se colidia bastante. Mas, em relação a isso, ele lá e eu cá. (risos)  P/1 – Você quer contar? R – Meu pai, para mim, ele é meio que... como posso dizer a palavra certa? Chucro, sabe? Lá, para ele, quando você tem uma orientação sexual, você não pode ter outra, você nasceu homem, tem que ser isso. Eu não sou assim, na verdade, eu sou bem... ele fala assim: “Você é?” Eu falo: “Não, não sou”. Mentira. (risos) Só que agora, atualmente, ele não mora mais com a minha mãe. Ele foi embora, então a gente só se fala pela internet (risos) e olhe lá! P/1 – E como é que você se sente, em relação a ele? R – O meu pai? Para mim, nem incomoda, porque meu pai não foi tão participativo em minha vida. Então, pra mim, nunca foi nenhuma formação minha. Não, antigamente, para não dizer que ele foi um mau pai, bem, acho que com meus dez anos de idade, ele era presente, depois também nem influiu em nada.  P/1 – E, pensando assim, quando você era mais novo, tinha alguma comida, algum cheiro, alguma data comemorativa? R – Páscoa. Era maravilhoso para gente, todos os domingos a gente comprava pastel, para gente comer em família. Deixa eu ver... aniversários também eram bem maravilhosos, Natal também, todo final de mês a gente ia para praia e o que a gente vivia comendo, todo mundo, assim, direto, era uma comida, não sei se vocês conhecem baião-de-dois, tipo: queijo, carne seca, essas coisas todas e lasanha. São coisas assim. E chuva também, o cheiro da chuva era bem presente na minha infância.  P/1 – Por que eram presentes? R – Não sei por quê. Acho que é uma coisa que eu sempre fico fixado, assim, quando eu sinto cheiro de chuva, falo: “Nossa, minha infância!” Porque é uma coisa que me lembra muito minha infância. Não sei se porque em Mairiporã, antigamente, tinha muito... lá em Mairiporã é muito mato, não sei se vocês já foram. Lá é muito mato. Então, assim, aquele cheiro de areia molhada. Lembra a minha infância.  P/2 – Você lembra de alguma viagem marcante? R – Que a gente fez? Para praia, que a gente fez, foi uma coisa que foi metade da família todinha, todo mundo junto. Só que sempre tem uma confusão, né? Porque, família...  (risos) Mas era todo mundo reunido. Toda vez praia, era com a família. P/1 – Você sabe a história dos seus avós? R – Não sei te dizer o certo, porque o que eles falam, meu tio, minha mãe, a história deles era muito triste, porque eles não tinham nem o que calçar lá e não tinham o que comer, também. Então, eles passaram muita dificuldade para comer, para sobreviver lá em Pernambuco, tanto que eles vieram para São Paulo.  P/2 – Você os conheceu? R – Meus tios, sim. Todos presentes na minha vida. Por isso eles vivem falando: “Valorize o dinheiro, valorize a família, valorize isso, estude sempre”. Porque lá, para eles, não tinha isso. Uma vez, para você ver como é triste, mesmo, a história deles, eles viviam falando: “Sabe sangue de boi?” Eles não tinham o que comer, então lá perto de onde eles viviam, tinha sangue, essas coisas, para fazer sarapatel. Eles iam e pegavam o sangue para se alimentar ou eles comiam farinha com café, para se alimentar, porque lá era difícil para eles comerem.  P/1 – Você chegou a conhecer seus avós? R – Sim. Todos eles. Só meu avô por parte de pai faleceu, mas eu também conheci todos.  P/1 – Você sabe a história do seu nascimento? R – Não sei dizer ao certo. Não sei. Eu sei que, pelo que eu entendi, quando eu nasci, meu pai não quis me registrar, dizendo que eu não era filho dele e foi para Pernambuco. E quem ia me registrar era meu padrinho, só que depois, meu pai, de muito tempo, voltou e me registrou.  P/1 – E você sabe o...  R – Motivo?  P/1 – Não, o nome. Por que você tem o nome de Henrique? R – Não sei. Meu pai queria colocar meu nome de Osvaldo. Graças a Deus, ele não conseguiu colocar. Mas não sei dizer ao certo, porque meus irmãos todos eles são William, Wilson, só eu que sou Henrique, não é com w. Então, não sei. Minha mãe falou que era bonito. P/2 – Quando você lembra da sua infância, qual a sua primeira memória de vida? R – De vida, de infância? Eu, de frente para um vídeo game, jogando Mário ou jogando Mortal Kombat, com os meus primos e irmãos. É o que eu mais vejo da minha infância, que a gente vivia brincando.  P/1 – Ia te perguntar se você se lembra da casa que você morou.  R – Lembro. É a casa da minha mãe. É um apartamento, na verdade. Então, [lembro] perfeitamente. (risos) Ela falava para a gente não subir, eu subia em cima dos guarda-roupas, me escondia para não ir para a escola, escondia embaixo da cama. Era assim minha infância.  P/2 – Era aqui? R – Era aqui. P/1 – Então você já nasceu aqui? R – Nasci e fiquei aqui.  P/1 – Como é que foi crescer aqui, no apartamento?  R – Olha, pra ser bem sincero, não me envolvi tanto com o pessoal daqui. Minha mãe, como pessoal daqui, ela vivia falando que o pessoal daqui era ‘confusão’, ela me colocava para fazer projetos sociais fora daqui, tipo dança, teatro, balé, inglês. P/1 – Desde pequeno? R – Desde pequeno. P/2 – Isso com todos os seus irmãos? R – A maior parte. Meus irmãos todos foram para alguma coisa, sabe? Só que ela mais investia se a gente gostasse, ela realmente investia. Ela falava bem assim: “Não conta para seu pai, mas pode fazer”. P/1 – Como era o apartamento? R – O apartamento, em si, tem dois quartos, um banheiro, uma cozinha e a sala.  P/1 – E como era a divisão?  R – No meu quarto, com meus irmãos, éramos nós quatro. Os dois mais velhos já tinham saído, porque eles casaram, então eram duas beliches, cada um... aí, no quarto do lado, minha mãe e meu pai. Seis pessoas.  P/1 – Você lembra das brincadeiras que você tinha, na infância? R – Luta, vivia brincando de lutinha; taco, tem uma brincadeira que a gente fala que é taco, não sei se você conhece, que é colocar duas garrafas, uma num ponto e outra no ponto em que a gente está. Deixa eu ver: esconde-esconde; polícia e ladrão; pega-pega, essas brincadeiras.  P/1 – E desses projetos, o que você mais gostava de fazer? R – Dança. Sempre amei dança. P/2 – Qual estilo? R – Jazz clássico. P/1 – E você seguiu? R – Segui durante um tempo, só que você tem que fazer outras coisas, estudar, eu tive que abandonar. Mas eu amava. Tinha lutas também, eu lembro que tinha lutas: judô, Muay Thai, mas a dança que me cativava.  P/1 – E quando você era pequeno, você sonhava ser alguma coisa? R – Sempre sonhei em lidar com pessoas, sempre. Acho que desde pequeno sempre pensei em estar em um lugar, conversando com diversas pessoas ao mesmo tempo. Eu pensava: “Nossa, se eu lidar com pessoas, ajudar o próximo de uma forma que eu mude de alguma forma, o pensamento dele, eu estou feliz” e por isso que eu decidi ir para Psicologia. P/2 – Você tinha alguma atividade que você fazia com seus irmãos, que é bem característico da relação de vocês? R – Eu acredito que a gente, eu sou sempre organizado, em tudo que eu faço. Eu sempre ficava cronometrando o tempo de cada um nas coisas, sempre fui controlador, ao ponto de controlar o que cada um fazia, sempre fui assim. P/2 – E isso era uma questão, para você? Vocês brigavam?  R – Sempre. Se eles fizessem alguma coisa que não estava no eixo do que combinei, então vamos parar. Parou a brincadeira. (risos) Sempre fui assim. Eu sou tão organizado, tão, tão, tão, que meu guarda-roupa eu organizo por cor. E eu sei quando a pessoa mexeu nas minhas coisas. Eu fico olhando: “Alguém mexeu aqui”, que eu sei. Sou tão assim. Tenho TOC, acho que isso é um TOC.  P/1 – E a primeira lembrança da escola? R – Na escola sofri muito bullying, por eu ser diferente das outras crianças. Eu sempre fui mais introvertido, sempre, sempre, sempre, sempre. Então, quando as crianças iam jogar futebol, se eu queria, sei lá, ler um livro, era bolada em mim. Sempre foi uma merda, na escola, sim.  P/2 – Nem tinha muitos amigos, então? R – Não. Eu fui ter amigos de verdade, assim, no ensino médio, porque eu comecei a retrucar. Mas antes não, não mesmo. P/1 – Como é que era retrucar?  R – Eu jogava de volta, xingava de volta. Se me xingava de uma coisa, eu xingava de volta, apanhava, mas também ia para cima.  (P/1 – Você lembra alguma professora da escola? R – Lembro de uma professora minha, o nome dela era Sandra, da primeira série, ela sempre falava que eu era diferente e, para mim, como eu era diferente, ela sempre falava assim para eu focar no que eu queria. E uma da quarta série, que o nome dela era  ngela, que super investiu em mim, muito. Tanto que eu recebi prêmios de... eu estudei na Escola Oliva Irene, lá na Vila Guilherme e eu sempre ganhava prêmios de melhor leitor, melhor aluno. Na quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, sempre. P/1 – Como que era isso, para você? R – Para mim era maravilhoso. O pessoal não ligava tanto para isso, mas eu falava: “Gente, melhor aluno, obrigado”. P/2 – Você se lembra de algum desses prêmios? R – Lembro. Um que eu recebi, eu tinha ganhado uma cesta bem grandona, assim, cheia de doces, com livros e tinha também um negócio assim: “Você foi o melhor aluno da sala, melhor leitor”, alguma coisa do tipo. Mas meus pais nem davam tanta... minha mãe sim, mas meu pai nem dava tanta bola, mas eu super me exibia.   P/1 – Como que foi seguindo a sua formação?  R – Então, como minha mãe tinha seis filhos, com quinze, dezesseis anos, eu tive que trabalhar, mas não foi trabalhar braçal. Foi um trabalho que eu trabalhava em escola também, trabalhava na escola, ia para outra escola de noite e ia para o técnico à noite, chegava tipo onze horas, meia-noite em casa, porque ia para o técnico ainda. Então, era corridinho meu dia, não ficava muito em casa. P/1 – E como era, do que era esse técnico? R – Eu fiz o técnico em Administração, porque não tinha noção do que eu faria. Primeiramente, na verdade, eu me inscrevi para fazer dança na Etec, de artes, só que no dia do teste, para fazer lá, que tinha que dançar solo, eu travei. Eu fiquei parado, falei pro pessoal: “Não vou conseguir fazer. Vou montar uma coreografia para você apresentar para o pessoal”, para ver se você tinha aptidão para você ficar lá dentro, aí travei, não consegui. (risos) Porque eram duas provas, era uma teórica e uma prática e na prática eu travei. Aí eu fui para lá e fui para Administração.  P/1 – Você chegou a montar a coreografia? R – Cheguei. (risos) Mas eu travei. Não sei por que na hora eu travei. Não sei se era por causa da bancada, em si ou se era as outras pessoas olhando, mas eu travei na hora. Não consegui dançar, também já estava muito tempo sem dançar, porque eu tinha me afastado, porque eu voltei. P/2 – Esse trabalho era da escola? R – Eu trabalhava com... eles falam que é _____, uma professora voltada só para parte de Tecnologia da Informação e eu dava suporte para ela na parte das planilhas, de organização das aulas, para os alunos do [ensino] fundamental I e II.  P/2 – Você curtia? R – Curtia, lógico. (risos) Eu colocava em prática o que já tinha aprendido dentro dos cursos. Tem, na verdade... aqui, acho que é escola estadual, aqui no Iprem, existia um projeto para as crianças, só que nem todo mundo sabia. Aí você tinha que fazer uma prova, o que você aprendeu na escola e no ensino fundamental, para ver se você tinha aptidão para ficar lá dentro. Passando, você fazia parte do grupo.  P/1 – Você lembra o que fez com o seu primeiro salário? R – Nossa, eu comprei um tênis, (risos) comprei um celular, endividei. (risos) Você nunca tem noção, só vai comprando, então me endividei, comprei um tênis e fui me organizando. E foi aí que tive educação financeira. Porque eu não sabia, noção do que era dinheiro. Minha mãe falou: “Dinheiro é isso e aquilo”. Eu coloquei no papel o que eu tinha vontade de comprar, aí eu fui me organizando, desse jeito. Com o técnico também, que eles tinham aulas de contabilidade, ativo passivo, DRE. Então, você só ia fazendo. P/1 – E como era conciliar tudo isso? R – Era ‘de boa’. Eu nunca... sou mil por hora, acho que na verdade sou cinquenta mil, porque eu sou muito elétrico. Sabe aquela pessoa: estou fazendo uma coisa aqui, pensando em outra coisa, já. Sou assim: tu tu tu tu tu. Por isso que, se a pessoa for lenta perto de mim, já fico incomodado, porque eu sou muito hiperativo. P/1 – E na juventude, você falou que começou a ter amigos? R – Sim. Mas eu também sou uma pessoa que não tem muitos amigos. Eu tenho, se você parar para pensar, amigos, amigos devo ter uns cinco. A gente tem colegas, né? Amigo de verdade, são pai e mãe. Mas amizade vim fazer depois que entrei na faculdade, as pessoas são totalmente diferentes. Então, foi na faculdade, no técnico, no ensino médio, que você vai procurando ideais. Então, foi aí, mas no ensino fundamental, não.  P/1 – E que ideais que eram esses? R – Eu sempre fui na vibe, quando eu estava no ensino médio, eu tinha uma vibe de rock, amava Slipknot, System of Down, adorava essas coisas assim. Então, minha vibe era ficar com um grupinho que gostava de rock. E fiquei com eles durante um bom tempo e foi uma das melhores coisas que fiz, porque eles me instruíam a fazer coisas boas, tipo: “Vai estudar, vai fazer isso e aquilo”.  P/2 – Como foi a formação, sair da escola e começar a pensar em faculdade? R – Na verdade, quando você sai do ensino médio, tem uma pressão muito grande de saber o que você vai fazer da sua vida. E aí, sei lá, você fica pensando diversas coisas. Eu, quando me formei no ensino médio, tinha diversas... pensei em fisioterapia, psicologia, professor, pensei um monte coisa. E fui anulando lapsos do que eu pensava em fazer, que lidaria com pessoas, mas cada um foi para uma área diferente.  P/2 – Como foi o vestibular? R – (risos) Você acha que sabe das coisas e, quando você chega, tem pessoas mais inteligentes que você na sua frente, é complicado. Fuvest, nossa, meu Deus do céu! É complicado, mas é necessário também. Você vê que tem coisas que você tem que aprender. Eu fui para Fuvest uma vez pensando que eu sabia muito, chegando lá eu via coisas que eu falei: “Que questão é essa aqui, que eu nem sei o que é isso!” Que nem parte de Física, foi na regra de três, seja o que Deus quiser! (risos)  P/2 – E como foi receber a notícia que você passou no vestibular? R – Para mim foi muito bom, muito bom mesmo. Eu lembro que eu fiquei muito feliz. Tomei um porre, eu peguei uma Catuaba horrível, tomei todinha, comemorei com meus amigos, que passei na faculdade.  P/1 – No que você tinha passado? R – Eu passei, nessa época, em Gestão.  P/1 – Quantos anos você tinha? R – Tinha acho que vinte e pouquinho, porque eu tinha entrado na faculdade de Psicologia, eu pagava, com dezoito. Minha mãe não tinha dinheiro para pagar, então eu pagava sozinho. Era oitocentos e pouquinho por mês, era salgadinho, tive que parar no quarto semestre, porque estava pagando mil e cem de mensalidade. Tive que parar, trancar o curso. Aí pensei: “Não vou querer parar de estudar, então vou fazer alguma coisa para eu estudar de graça”. Aí fiz ProUni, Fuvest, essas coisas, Enem. P/1 – E como é que foi essa decisão de parar? R – Foi chato, porque você está tirando uma coisa que você gosta muito, muito mesmo, você trancar uma coisa que você ama, por não ter dinheiro, é triste. (risos) Eu já tinha até a noção do que faria em Psicologia: “Vou me formar, vou para a parte comportamental e futuramente vou fazer a pós-graduação em Psicologia”. Neuropsicologia, eu pensava. Foi chato.  P/1 – E você trabalhava ainda na escola? R – Eu trabalhava com Recursos Humanos, na verdade, nessa época. Entrei como estagiário em administração, aí eu fui efetivado para a parte de Recursos Humanos, como auxiliar e até hoje. Ainda fui para vendas também. Fiquei desempregado, fui para vendas, em vendas eu cresci também. P/1 – E como é que foram esses trabalhos? R – Foram experiências e experiências. Eu já trabalhei com telemarketing, já trabalhei com vendas, já trabalhei como estoquista, (risos) um monte de coisa, vendedor. Meu segundo emprego foi numa loja de Fini. Eu trabalhava como balconista, de vendedor, estágio. Eu não aguentei não, me estressei. (risos)  P/1 – Era muito ruim lá? R – Não é que ruim, é que eu sou todo certinho. Eu organizava as prateleiras, aí vinham as pessoas e tiravam as coisas, ficava aquela bagunça de novo, ia lá e arrumava e ficava com raiva. Não quero isso para mim, não. Isso aqui não dá certo. Aí saí, pedi pra sair. P/1 – E desses trabalhos que você fez, qual você mais curtiu? R – RH. Recursos Humanos.   P/1 – Em que área do RH? R – Eu gosto de ficar bem na parte de admissão e demissão de pessoas e na parte de homologação também.  P/2 – Você se lembra de alguma história marcante no RH? R – Teve uma vez... eu sempre fiz amizade com pessoas simples, simples, simples, simples. Eu tinha amizade com as moças que trabalhavam na limpeza e minha gerente, uma vez, chegou em mim e falou que eu tinha que demiti-las. Foi bem chato para mim, bem incomum. Fiquei muito chato. As demiti com lágrimas nos olhos, sabe, porque, além de ser corporativo, a gente tinha uma amizade. Mas foi chato, tive que demiti-las. P/1 – Como foi esse momento? R – Para mim foi marcante também. Porque foi uma das vezes que eu falei: “Nossa, não é tão simples quanto parece e também eu não posso ficar lidando com emoções aqui dentro”, por ser no profissional.  P/1 – E na faculdade de Gestão, como é que foi conhecer outras pessoas, diferentes? R – Então, é interessante porque a maior parte das pessoas, na faculdade, tem a mesma visão que você. De liderar, de crescer, fazer alguma coisa. Então, super colidiu, super deu certo.  P/1 – E teve algum professor, dessa época, que foi marcante? R – Teve um professor meu que era gerente da unidade, que dava aula também. Ele também, justamente, cuidava da parte do curso de Psicologia. Era Ricardo, o nome dele e ele foi bem marcante, porque ele sempre incentivou todos os alunos a buscar sonhos. Então, ele foi essencial para mim, também.  P/1 – Me contaram que você vai começar um trabalho novo. É isso? R – Vou. Segunda-feira.   P/2 – Qual que é? R – Recursos Humanos, minha área. Estava na hora, também não estava trabalhando, eu não estava aguentando mais. Minha área.  P/1 – E como estão as suas expectativas? R – A gente cria bastante expectativa, porque a gente chega lá dentro e é tudo novo, pessoas novas e eu estou pensando como que eu vou segunda-feira, para não ser tão impactante. P/1 – Como você conseguiu esse trabalho?  R – Olha, eu fiz tanta entrevista, (risos) mandei tanto currículo, mas tanto currículo. Eu o procurei pelo Infojobs, foi o único pelo Infojobs que eu vi que deu certo. Geralmente nunca dá, Infojobs é complicado, mas esse deu certo. (risos)  P/1 – E pensando aqui, na Zaki Narchi, como que é morar aqui, para você? R – Olha, aqui você vê muita coisa, você tem que saber selecionar pessoas. Não estou dizendo que todo mundo é má pessoa, má índole. Mas, se você tem uma visão diferente dos outros, é melhor você procurar pessoas que realmente pensem igual a você, aqui também. Tem pessoas muito boas aqui, eu não sabia desse projeto que tem aqui, dessa ONG [se refere à Associação Sempre Zaki Narchi]. Aí eu procurei, teve um dia que eu vi entregando marmita, passei e fiquei olhando. Falei: “Nossa, o que é aqui?” Aí perguntei: “Precisa de voluntário aqui dentro?” Eles falaram: “Precisa”, aí eu me juntei a eles. P/2 – Quando foi isso? R – Foi há dois ou um mês atrás que eu resolvi fazer parte disso aqui. P/1 – E como foi a experiência de estar mais próximo das pessoas? R – Maravilhosa. Eu conheci a Elis, conheci o Ed. A visão que eles têm de crescer aqui dentro, de ajudar o próximo, é muito bonita e cativa também. Porque, na verdade, não só aqui eu sou voluntário. Eu também faço parte de uma associação lá em Santana, de uma ONG espírita, que faz doação de cesta básica, essas coisas. Aqui também faço voluntariado. Se não estou aqui, como eu estava desempregado, ficava lá, nos dois. P/2 – E trabalho voluntário, sua mãe que incentivava, desde pequeno? O que representa fazer esse trabalho, para você? R – Para mim, por mais que eu não tenha nenhum lucro com isso, ver o sorriso no rosto de outra pessoa é muito bom, é muito gratificante você ver uma pessoa e saber que você fez parte, que você ajudou outra pessoa, com alguns gestos seu. Que fez parte de mim, que você ajudou outra pessoa. Pra mim é muito bom. P/2 – Teve alguma história marcante, para você? R – Teve de um rapaz que é homossexual, ele também tem HIV e foi muito rejeitado, por muita gente. Ele estava passando por dificuldades financeiras, não tinha o que comer, viver. E pessoal da ONG espírita que eu faço parte, todo mundo fez arrecadação de dinheiro, comprou cesta básica, comprou um monte coisas, roupas, essas coisas, pra ele e deu para ele. O sorriso no rosto dele, as lágrimas. Aquilo, para mim, foi essencial, aquela história dele me marcou. P/1 – E olhando, assim, para quando você era bem pequeno, aqui na Zaki Narchi e para agora, o que mudou? R – Nossa, eu nunca pensei que seria dessa forma. Muita coisa. Porque quando você é menor... a maior parte da minha família é católica, tem esse negócio de que eu quebrei muito tabu da minha família, porque eu cheguei e falei assim... minha família: “Homem gosta de homem ou mulher gosta de mulher” e eu falei assim: “E se eu gostar dos dois?” (risos) Então, para eles foi um baque e nunca cheguei e falei assim... eu lembro que na festa de dezoito anos, (risos) no auge, lá, eu cheguei e falei: “Mãe, eu ‘pego’ meninos”. Minha mãe ficou: “O quê?” Falei: “É, mãe”. Ela fez aquele escândalo todo, aquele dia. Eu quebrei um paradigma na minha família todinha. Minha família é toda certinha e eu cheguei quebrando tudo. O errado.  P/1 – Como foi esse momento? R – No momento, no dia eu fiquei desesperado, mas depois... hoje eu vejo, assim, que muita coisa mudou, muita coisa mudou mesmo, as pessoas se aceitarem. Você vê agora negócio de não binário, essas coisas todas, mas antigamente não tinha isso não. Se você era diferente, você apanhava na cara, (risos) você era julgado, você era excluído.  P/2 – Mas a vizinhança aceita, como que é isso? R – Sinceramente, se não aceitar, paciência. Mas antes era complicado, você via julgamento no olhar, sabe? P/1 – E esses projetos que você participou durante a infância, eram daqui? R – Um dos projetos era na Vila Guilherme e o outro, se não me engano, era aqui próximo a Sylvia Design, aqui perto do Carandiru. Eles já existiam há muito tempo, na verdade.  P/1 – Mas não eram daqui? R – Mas eles eram voltados para as crianças daqui, era mais no foco de tirar crianças da rua. Aí tinha diversos cursos lá: dança, reforço, teatro, monte de coisa voltada à educação.   P/1 – Você não tinha conhecimento daqui, dessas pessoas? R – Não, nenhum. Eu sabia que tinha, mas não sabia que era uma associação, achava que era um grupo de pessoas aleatórias, depois que eu vi que era uma ONG. (risos) Aí eu fui chegando perto, perguntando aos poucos. Aí eu conheci Elis, conheci o Ed, aí fiz parte disso aqui. Fernanda.  P/1 – E de onde veio essa vontade de ajudar? R – Minha família, como eu te falei, todos eles passaram por momentos difíceis e só pelo fato de saber, pelo que eu entendi, foi muito corrente do bem, porque quando eles chegaram aqui em São Paulo, as pessoas os ajudaram. Então, não tem nada que pague o que eles fizeram. Porque eles chegaram aqui e ficaram com fome, ficaram com sede, não tinham onde morar, moravam de favor. Até eles conseguirem algo nosso, demorou. Então, os ajudaram também. Então, hoje em dia, eu vejo muito como corrente do bem, ajudar o próximo. E se bem que tem um filme também, Corrente do Bem. (risos)   P/2 – Eles contavam como era aqui quando eles chegaram, as diferenças destas gerações? R – Sim, contaram. Eles falavam que era muito complicado aqui, porque não tinha saneamento, tinha fome, tinha muitas brigas aqui também, não só por terreno, por espaço também. Então... P/2 – Hoje você já sente que é diferente? R – Muito diferente, mudou muito. Eu estou falando assim, em relação... você vê muitas pessoas se aceitando, em si. Pessoas novas dizendo: “Olha, eu sou isso, sou aquilo, gosto disso, gosto daquilo”, grupos. Antigamente era a coisa mais escondida. Hoje em dia você vê mais pessoas expressivas.  P/2 – Então, foi julgamento, só pelo olhar?  R – Sim.  P/1 – Quer continuar, falar sobre isso?  R – Sim. Olha, o julgamento por olhar, quando eu dizia, assim: você chegar no ambiente e as pessoas te olharem de canto: “Esse aqui é diferente”. E você sente, você se incomoda, mas você não liga.  P/1 – E nisso também, você sentia esse olhar, por que você era diferente? R – Sim, sempre senti. P/1 – E como era a relação com as pessoas de fora daqui da Zaki Narchi? R – De fora, era totalmente diferente, porque eu já andava com pessoas que eu sabia que me aceitavam. Então, ia para lugares que eu sabia que as pessoas me aceitavam, ia para o Masp, ia para a Biblioteca de São Paulo, essas coisas assim.  P/2 – E os maiores desafios daqui, quais são? R – Eu acho que hoje em dia não tem tantos desafios assim, porque a educação está para todos. Hoje em dia não estuda quem não quer, porque tem muita coisa, tem EJA. Tem jovens que nunca terminaram os estudos e têm a minha idade, está no segundo, oitava série e tem esses projetos para estudar, para fazer prova. Então, não estuda quem não quer. Mas hoje em dia mudou muito. Hoje em dia a educação está para todos.  P/2 – O que você mais gosta daqui? R – A relação que eu tenho com as pessoas, hoje em dia mudou muito. Hoje em dia o pessoal chega e fala bem assim pra mim: “Você é isso” e eu falo: “E você?” (risos) Então, hoje em dia, já sou bem desbocado. P/2 – E o que você menos gosta? R – Aqui? Algumas pessoas aqui são bastante arrogantes, posso dizer. Tem pessoas boas aqui, mas tem pessoas que ainda são leigas e arrogantes, aqui. Teve uma situação que aconteceu comigo: eu fui jogar uma coisa no garoto e pegou justamente numa criança. (risos) Fui lá e corri, pedi perdão, falei: “Meu Deus do céu, me perdoa”, corri, peguei gelo. E a mãe da criança mandou eu tomar naquele lugar. (risos) Então, é complicado.   P/1 – E pensando, assim, em que tudo que você viveu, vivenciou, quais são os acontecimentos que mais ficaram marcados, em relação à Zaki Narchi? R – ONG, aqui; minha infância que fiz projetos: capoeira, dança, reforço escolar. Essa parte da minha infância. Dança principalmente, foi uma coisa que me cativou muito, muito mesmo, que eu me via viajando para outros lugares para dançar, uma coisa que eu amava. Então, essa parte que mais gostei. P/2 – E como foram essas experiências? R – Incríveis. Coisas que crianças aqui não tiveram ainda, mas para mim foi maravilhosa. A parte que as pessoas que me motivaram a fazer vestibular também foram muito boas. Eu lembro que uma vez eu viajei para fazer um projeto de dança e tinha aquele lugar cheio de gente, lotadíssimo. Olhava, abria pela frestinha e via um monte de gente, minha família. Eu falei: “Caraca, que incrível!” (risos)   P/1 – Quando você olhou, que você estava contando, como que foi? R – A plateia? Nossa, meu coração a mil. A emoção também de ver sua família. Falei: “Nossa, minha família veio me ver!” Uma coisa que eles nunca viram, que eu fiquei meses treinando, diversos dias, para chegar nesse dia, o grande dia. É sensacional, não tem nem palavras. Você vê a pessoa tirando foto. Fala: “Nossa, que incrível!” e você fala: “Valeu, gente!”   P/1 – E você sente vontade? R – Sempre. Eu acho que é uma coisa que não sai, quando você se acostuma com algo que te dá aquele ânimo, você volta, sai e volta, sai e volta, sai e volta. Você volta a fazer suas coisas, sua vida pessoal, mas você tem um hobby, meu hobby ainda é dança. P/2 – Como você se sente, dançando? R – (risos) Não tem palavras de como você está. É libertador. Sentir os movimentos, é uma expressão, você está lá dançando, nossa, é cativante. É uma emoção muito boa, você está colocando sua expressão numa coisa. Mesma coisa se você fizer teatro, se você faz algo assim, muito bom.  P/1 – Era importante. É importante.  R – É importante. Se eu falar para Elis: “Elis, se eu colocar alguém aqui dentro dessa sala, para dar aula de dança, o que você acha?” Ela: “Perfeito, vamos conversar sobre”. Dança é essencial. Acho que quando você faz parte de algo que muda você de alguma forma, você quer reproduzir isso. Bom, pra mim é.   P/2 – Então, você pensa em ajudar, oferecer para outras crianças? R – Penso sempre, sempre, a mesma coisa que eu tive, sim. Porque, se eu vir que outra pessoa pegou a oportunidade de ter algo que eu tive oportunidade e eu ver que a pessoa está feliz com aquilo que eu tive também, está ótimo. Porque minha mãe nunca foi de me dar, ela dava as coisas com muita dificuldade, porque ela tinha que dar para seis filhos. Então, eu sempre fui assim de buscar, de ter o meu. O pessoal fala assim que eu tenho dinheiro, aqui, mas não é que eu tenho dinheiro, eu lutei por isso. Eu coloquei no papel, quantos meses eu fiquei sem gastar dinheiro com tal coisa, para ter determinada coisa. P/1 – O que a pandemia afetou na sua vida? R – A pandemia foi horrível para mim, porque eu fiquei preso dentro de casa e eu sou muito ativo. A pandemia, pra mim, foi horrível. Tive que ficar dentro de casa, onde mora eu, meu tio e meus dois avós, meus avós são idosos. Então, eu tive que me podar, pra pegar e satisfazer... anular minhas vontades, para não prejudicá-los, porque se eu soubesse que, se um dia, de alguma forma eu os deixei mal, doentes, eu ficaria muito triste e só tenho eles.  P/2 – Você não mora com sua mãe? R – Não moro com minha mãe. Minha mãe mora no apartamento de baixo, mas eu moro no apartamento de cima, porque na época que eu resolvi falar: “Eu gosto disso”, meu pai foi muito pejorativo. Ele dizia assim que, se eu fosse determinada coisa, ia sair da casa dele. Então, por receio, para não ter briga com meu pai e com minha mãe, eu optei por sair. P/2 – E seu pai voltou para a cidade dele? R – Meu pai está em São Paulo, aqui. Só que meu pai está com outra mulher.  P/2 –  Como foi esse momento de separação, para sua família? R – Para mim não foi tão ruim, porque eu já estava bem instruído. Então, para mim não mudou muita coisa. Meu pai não foi tão presente na minha infância, ele nunca foi numa formatura minha. Dia dos Pais, quem estava lá na maior parte das vezes era minha mãe. Um monte de pai e minha mãe lá. Então, quando ele foi, resolveu, que minha mãe falou: “Deixei seu pai” “Graças a Deus, ainda bem que se tocou”, porque é complicado.  P/2 – E pensando na pandemia aqui para a Zaki, de uma maneira geral? R – Pra Zaki? Os moradores? Nem todo mundo se importou. (risos) A gente está falando de uma comunidade. Então, muitas pessoas aqui não se importaram, pessoas se incomodaram, algumas, mas nem todos. Ainda tinham coisas aqui, eu falo que é muito Deus, porque eu não vi casos de Covid aqui na Zaki Narchi, não soube e, se teve, foi bem oculto. P/1 – Você falou que você é bastante ativo, como é o seu dia a dia? R – Muito. Às vezes, eu penso, eu começo agora, que eu não estava trabalhando, vinha pra ONG, ajudava. Eu amo jogar videogame, essas coisas. Então jogava, fazia live, fazer essas coisas tudinho, saía com meus amigos. Depois eles falavam: “Vamos fazer trilha?” “Vamos fazer trilha” “Vamos para o Rio de Janeiro?” “Vamos para o Rio de Janeiro” “Vamos pra Atibaia?” “Vamos pra Atibaia”. Eu sou super assim. Sou muito ‘vamos’. “Hoje” “Ok, vamos”. Tanto que eu faço meus hobbies: maquiagem, dança, andar de long, essas coisas, a ONG. Sou bem alegre, bem ativo na vida.  P/1 – O que você gosta mais de fazer nas suas horas de lazer? R – Jogar e ler livros. Gosto bastante de ler livros. Acho que o último, eu terminei atualmente de ler A Revolução dos Bichos, é um livro maravilhoso, todo mundo deveria ler. P/1 – O que você achou? R – Incrível. Uma revolução maravilhosa. Os bichos se voltando, (risos) naquele projeto todo. Interessante.  P/2 – E você tem algum relacionamento? R – Tipo assim, afetivo? Não. Eu tive, só que a gente optou por terminar, porque a gente não estava se dando bem. Estava sendo uma coisa bem abusiva. Então, é bem melhor, não gosto de uma coisa controlada, de uma pessoa que controle meus gestos, o que eu vou fazer. Eu gostava, mas de deixar: “Você faz sua vida, depois a gente volta e conversa”. P/1 – E você tem um sonho? R – Tenho. Claro que tenho. Todo mundo tem. Eu quero ainda me formar em Psicologia, na parte de Neuropsicologia. Quero trabalhar e ter meu próprio negócio, porque eu não gosto de trabalhar para o outro, odeio. P/2 – Que tipo de negócio? R – Eu já tenho, na verdade. Trabalho com maquiagem, já. Preciso investir mais nisso. Mas eu abriria uma coisa tipo bebidas, é uma coisa que dá dinheiro. Sempre falei isso pros meus chefes: “Na primeira oportunidade que eu tiver de ter dinheiro, vou abandonar vocês, desculpa”. Eles davam risada. Ainda bem que eles levavam pro lado... mas eu sempre fui assim. Meu jeito, eu nunca fui de entrar numa função e fazer só o meu, sempre olhava o do outro, aprendia a fazer o do outro também, porque na oportunidade que eu tenho que crescer junto com o outro, o outro fala: “Não vou hoje”. Eu falo: “Então eu faço, faço o meu e o seu”. P/1 – Quais são as suas expectativas para o futuro? R – Eu espero realmente estar formado, numa área que eu realmente goste, em outra, porque eu não quero parar por aqui. Ter minha própria casa, meu próprio carro, estar ajudando o próximo sempre, tendo as minhas coisas, essas coisas assim. Dança, coisa que eu amo.  P/1 – A gente está chegando no final, mas tem duas perguntas ainda. A primeira era para saber se você queria contar alguma história que a gente deixou de te perguntar, se tem alguma história marcante? R – Não sei, acho que o que eu diria para todo mundo é: “Estude, porque só o estudo te leva a algum lugar, para você ser alguém assim: ‘Realmente, esse aqui tem uma história, tem um conteúdo’”. Porque você ser uma pessoa e ser oco, ser leigo, não tem de nada.  P/1 – O que você achou de contar uma parte da sua história? R – Eu gosto, eu sou mega... ah, digo uma coisa: quando era mais novo, eu sofria bullying. Então, eu tinha uns pensamentos muito negativos. E eu digo isso porque eu não sei se é do jovem mesmo, de se cortar, essas coisas do tipo. E eu lembro que uma vez eu pensei em tirar minha própria vida e um rapaz, mendigo, morador de rua, veio conversar comigo e para você ver: é tão simples, mas tão simples, que aquele morador de rua me cativou. Que ele ainda me chamou, eu lembro que ele me chamou de filho de luz. Olha que interessante! Eu pensei: “Vou mudar”. E desde então eu passei em psicólogo, mudei, porque antes eu não aceitava que as pessoas saíssem da minha vida. Não aceitava que as pessoas fossem embora. Amizade, eu não tinha muitas. Eu não tinha muitas amizades e as que eu tinha, às vezes... é normal as pessoas saírem da sua vida. Eu não aceitava isso. Aí tive que passar em psicólogo, para aprender a aceitar o próximo e mudou muita coisa. Mas o que eu digo é: sempre buscar ajuda. Acho que é isso.  P/2 – Seu interesse pela área profissional tem muito a ver com a sua experiência. R – Super, super, super. O Setembro Amarelo, para mim, é muita coisa, também é muito importante, porque eu fiz parte daquilo.  P/2 – Obrigada. R – Nada.  P/1 – É isso. Obrigada. Foi ótimo!  P/2 – Obrigada! É interessante ter um projeto com diferentes idades, sabe?  R – Sim. Tem pessoas, aqui, incríveis. Tem um outro rapaz aqui também que se chama João Felipe. Acho que ele é bem mais velho do que eu e a visão dele também, sobre o mundo, é muito interessante. Vocês deviam conversar com ele também. João Felipe, ele mora no bloco 26. [Fim da Entrevista] 

Entrevista de Henrique Celestino de Lima

Entrevistado por Bruna Oliveira e Luiza Gallo

São Paulo, 02/10/2021

Projeto: Comunidade Zaki Narchi -  Instituto Center Norte

Realizada por Museu da Pessoa

Entrevista n.º: PCSH _HV1047

Transcrita por Selma Paiva

Revisada por Bruna Ghirardello


P/1 – Henrique, para começar, eu queria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, local de nascimento e a data. 


R – Claro! Perfeito. Meu nome é Henrique Celestino de Lima. Eu nasci aqui em São Paulo e atualmente tenho 25 anos de idade. 


P/1 – E a data de nascimento?


R – Nasci no dia 24 de maio de 1996.


P/1 – Qual é o nome dos seus pais?


R – Minha mãe é Sandra Leandro de Lima Alves e meu pai é Cícero Celestino de Lima. 


P/1 – E o que eles fazem?


R – Minha mãe é auxiliar de limpeza e meu pai também. Os dois.  


P/1 – E como é que você os descreveria?


R – Incríveis. O que eles não tiveram, eles fizeram de tudo para me dar. 


P/1 – E como eles se conheceram?


R – Eles se conheceram... uma vez eu perguntei para eles e eles disseram para mim que bem aqui, antigamente, eram barracos e tinha um bar, bem próximo ao rio. Estava tocando uma música e os dois conheciam a música. Eles ouviram a música, se olharam e daí eles começaram a conversar e aí teve um date dos dois. Aí casaram.


P/1 – E eles nasceram aqui em São Paulo também?


R – Não. Nasceram em Pernambuco, ambos.


P/1 – Você sabe por que eles decidiram vir para cá?


R – Dificuldades. Lá em Pernambuco não tem tanta facilidade com emprego e a fome também, lá, essas coisas todas. Eles vieram para São Paulo, montaram barraco e ficaram por aqui.


P/1 – Você tem irmão? 


R – Tenho. Comigo são seis, seis irmãos.


P/2 – Você está em qual grau da escadinha?


R – Eu estou no meio. Tem os dois mais velhos e tem os casais, minha mãe teve casais, na verdade. Tem os dois mais velhos... William tem 31, a Juliane tem 29, Viviane tem 26, eu tenho 25, a Liliane tem 22 e o Wilson tem 21. 


P/1 – Como é a sua relação com eles?


R – Perfeito. Não tenho do que reclamar não, todos super de boa.


P/1 – E com seus pais, como é a relação?


R – Eu só tenho uma relação um pouquinho ruim com o meu pai. Por ele ser de Pernambuco, ele não tem muita aceitação com algumas coisas. Então, a gente meio que se colidia bastante. Mas, em relação a isso, ele lá e eu cá. (risos) 


P/1 – Você quer contar?


R – Meu pai, para mim, ele é meio que... como posso dizer a palavra certa? Chucro, sabe? Lá, para ele, quando você tem uma orientação sexual, você não pode ter outra, você nasceu homem, tem que ser isso. Eu não sou assim, na verdade, eu sou bem... ele fala assim: “Você é?” Eu falo: “Não, não sou”. Mentira. (risos) Só que agora, atualmente, ele não mora mais com a minha mãe. Ele foi embora, então a gente só se fala pela internet (risos) e olhe lá!


P/1 – E como é que você se sente, em relação a ele?


R – O meu pai? Para mim, nem incomoda, porque meu pai não foi tão participativo em minha vida. Então, pra mim, nunca foi nenhuma formação minha. Não, antigamente, para não dizer que ele foi um mau pai, bem, acho que com meus dez anos de idade, ele era presente, depois também nem influiu em nada. 


P/1 – E, pensando assim, quando você era mais novo, tinha alguma comida, algum cheiro, alguma data comemorativa?


R – Páscoa. Era maravilhoso para gente, todos os domingos a gente comprava pastel, para gente comer em família. Deixa eu ver... aniversários também eram bem maravilhosos, Natal também, todo final de mês a gente ia para praia e o que a gente vivia comendo, todo mundo, assim, direto, era uma comida, não sei se vocês conhecem baião-de-dois, tipo: queijo, carne seca, essas coisas todas e lasanha. São coisas assim. E chuva também, o cheiro da chuva era bem presente na minha infância. 


P/1 – Por que eram presentes?


R – Não sei por quê. Acho que é uma coisa que eu sempre fico fixado, assim, quando eu sinto cheiro de chuva, falo: “Nossa, minha infância!” Porque é uma coisa que me lembra muito minha infância. Não sei se porque em Mairiporã, antigamente, tinha muito... lá em Mairiporã é muito mato, não sei se vocês já foram. Lá é muito mato. Então, assim, aquele cheiro de areia molhada. Lembra a minha infância. 


P/2 – Você lembra de alguma viagem marcante?


R – Que a gente fez? Para praia, que a gente fez, foi uma coisa que foi metade da família todinha, todo mundo junto. Só que sempre tem uma confusão, né? Porque, família...  (risos) Mas era todo mundo reunido. Toda vez praia, era com a família.


P/1 – Você sabe a história dos seus avós?


R – Não sei te dizer o certo, porque o que eles falam, meu tio, minha mãe, a história deles era muito triste, porque eles não tinham nem o que calçar lá e não tinham o que comer, também. Então, eles passaram muita dificuldade para comer, para sobreviver lá em Pernambuco, tanto que eles vieram para São Paulo. 


P/2 – Você os conheceu?


R – Meus tios, sim. Todos presentes na minha vida. Por isso eles vivem falando: “Valorize o dinheiro, valorize a família, valorize isso, estude sempre”. Porque lá, para eles, não tinha isso. Uma vez, para você ver como é triste, mesmo, a história deles, eles viviam falando: “Sabe sangue de boi?” Eles não tinham o que comer, então lá perto de onde eles viviam, tinha sangue, essas coisas, para fazer sarapatel. Eles iam e pegavam o sangue para se alimentar ou eles comiam farinha com café, para se alimentar, porque lá era difícil para eles comerem. 


P/1 – Você chegou a conhecer seus avós?


R – Sim. Todos eles. Só meu avô por parte de pai faleceu, mas eu também conheci todos. 


P/1 – Você sabe a história do seu nascimento?


R – Não sei dizer ao certo. Não sei. Eu sei que, pelo que eu entendi, quando eu nasci, meu pai não quis me registrar, dizendo que eu não era filho dele e foi para Pernambuco. E quem ia me registrar era meu padrinho, só que depois, meu pai, de muito tempo, voltou e me registrou. 


P/1 – E você sabe o... 


R – Motivo? 


P/1 – Não, o nome. Por que você tem o nome de Henrique?


R – Não sei. Meu pai queria colocar meu nome de Osvaldo. Graças a Deus, ele não conseguiu colocar. Mas não sei dizer ao certo, porque meus irmãos todos eles são William, Wilson, só eu que sou Henrique, não é com w. Então, não sei. Minha mãe falou que era bonito.


P/2 – Quando você lembra da sua infância, qual a sua primeira memória de vida?


R – De vida, de infância? Eu, de frente para um vídeo game, jogando Mário ou jogando Mortal Kombat, com os meus primos e irmãos. É o que eu mais vejo da minha infância, que a gente vivia brincando. 


P/1 – Ia te perguntar se você se lembra da casa que você morou. 


R – Lembro. É a casa da minha mãe. É um apartamento, na verdade. Então, [lembro] perfeitamente. (risos) Ela falava para a gente não subir, eu subia em cima dos guarda-roupas, me escondia para não ir para a escola, escondia embaixo da cama. Era assim minha infância. 


P/2 – Era aqui?


R – Era aqui.


P/1 – Então você já nasceu aqui?


R – Nasci e fiquei aqui. 


P/1 – Como é que foi crescer aqui, no apartamento? 


R – Olha, pra ser bem sincero, não me envolvi tanto com o pessoal daqui. Minha mãe, como pessoal daqui, ela vivia falando que o pessoal daqui era ‘confusão’, ela me colocava para fazer projetos sociais fora daqui, tipo dança, teatro, balé, inglês.


P/1 – Desde pequeno?


R – Desde pequeno.


P/2 – Isso com todos os seus irmãos?


R – A maior parte. Meus irmãos todos foram para alguma coisa, sabe? Só que ela mais investia se a gente gostasse, ela realmente investia. Ela falava bem assim: “Não conta para seu pai, mas pode fazer”.


P/1 – Como era o apartamento?


R – O apartamento, em si, tem dois quartos, um banheiro, uma cozinha e a sala. 


P/1 – E como era a divisão? 


R – No meu quarto, com meus irmãos, éramos nós quatro. Os dois mais velhos já tinham saído, porque eles casaram, então eram duas beliches, cada um... aí, no quarto do lado, minha mãe e meu pai. Seis pessoas. 



P/1 – Você lembra das brincadeiras que você tinha, na infância?


R – Luta, vivia brincando de lutinha; taco, tem uma brincadeira que a gente fala que é taco, não sei se você conhece, que é colocar duas garrafas, uma num ponto e outra no ponto em que a gente está. Deixa eu ver: esconde-esconde; polícia e ladrão; pega-pega, essas brincadeiras. 


P/1 – E desses projetos, o que você mais gostava de fazer?


R – Dança. Sempre amei dança.


P/2 – Qual estilo?


R – Jazz clássico.


P/1 – E você seguiu?


R – Segui durante um tempo, só que você tem que fazer outras coisas, estudar, eu tive que abandonar. Mas eu amava. Tinha lutas também, eu lembro que tinha lutas: judô, Muay Thai, mas a dança que me cativava. 


P/1 – E quando você era pequeno, você sonhava ser alguma coisa?


R – Sempre sonhei em lidar com pessoas, sempre. Acho que desde pequeno sempre pensei em estar em um lugar, conversando com diversas pessoas ao mesmo tempo. Eu pensava: “Nossa, se eu lidar com pessoas, ajudar o próximo de uma forma que eu mude de alguma forma, o pensamento dele, eu estou feliz” e por isso que eu decidi ir para Psicologia.


P/2 – Você tinha alguma atividade que você fazia com seus irmãos, que é bem característico da relação de vocês?


R – Eu acredito que a gente, eu sou sempre organizado, em tudo que eu faço. Eu sempre ficava cronometrando o tempo de cada um nas coisas, sempre fui controlador, ao ponto de controlar o que cada um fazia, sempre fui assim.


P/2 – E isso era uma questão, para você? Vocês brigavam? 


R – Sempre. Se eles fizessem alguma coisa que não estava no eixo do que combinei, então vamos parar. Parou a brincadeira. (risos) Sempre fui assim. Eu sou tão organizado, tão, tão, tão, que meu guarda-roupa eu organizo por cor. E eu sei quando a pessoa mexeu nas minhas coisas. Eu fico olhando: “Alguém mexeu aqui”, que eu sei. Sou tão assim. Tenho TOC, acho que isso é um TOC. 


P/1 – E a primeira lembrança da escola?


R – Na escola sofri muito bullying, por eu ser diferente das outras crianças. Eu sempre fui mais introvertido, sempre, sempre, sempre, sempre. Então, quando as crianças iam jogar futebol, se eu queria, sei lá, ler um livro, era bolada em mim. Sempre foi uma merda, na escola, sim. 


P/2 – Nem tinha muitos amigos, então?


R – Não. Eu fui ter amigos de verdade, assim, no ensino médio, porque eu comecei a retrucar. Mas antes não, não mesmo.


P/1 – Como é que era retrucar? 


R – Eu jogava de volta, xingava de volta. Se me xingava de uma coisa, eu xingava de volta, apanhava, mas também ia para cima. 


(P/1 – Você lembra alguma professora da escola?


R – Lembro de uma professora minha, o nome dela era Sandra, da primeira série, ela sempre falava que eu era diferente e, para mim, como eu era diferente, ela sempre falava assim para eu focar no que eu queria. E uma da quarta série, que o nome dela era Ângela, que super investiu em mim, muito. Tanto que eu recebi prêmios de... eu estudei na Escola Oliva Irene, lá na Vila Guilherme e eu sempre ganhava prêmios de melhor leitor, melhor aluno. Na quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, sempre.


P/1 – Como que era isso, para você?


R – Para mim era maravilhoso. O pessoal não ligava tanto para isso, mas eu falava: “Gente, melhor aluno, obrigado”.


P/2 – Você se lembra de algum desses prêmios?


R – Lembro. Um que eu recebi, eu tinha ganhado uma cesta bem grandona, assim, cheia de doces, com livros e tinha também um negócio assim: “Você foi o melhor aluno da sala, melhor leitor”, alguma coisa do tipo. Mas meus pais nem davam tanta... minha mãe sim, mas meu pai nem dava tanta bola, mas eu super me exibia.  


P/1 – Como que foi seguindo a sua formação? 


R – Então, como minha mãe tinha seis filhos, com quinze, dezesseis anos, eu tive que trabalhar, mas não foi trabalhar braçal. Foi um trabalho que eu trabalhava em escola também, trabalhava na escola, ia para outra escola de noite e ia para o técnico à noite, chegava tipo onze horas, meia-noite em casa, porque ia para o técnico ainda. Então, era corridinho meu dia, não ficava muito em casa.


P/1 – E como era, do que era esse técnico?


R – Eu fiz o técnico em Administração, porque não tinha noção do que eu faria. Primeiramente, na verdade, eu me inscrevi para fazer dança na Etec, de artes, só que no dia do teste, para fazer lá, que tinha que dançar solo, eu travei. Eu fiquei parado, falei pro pessoal: “Não vou conseguir fazer. Vou montar uma coreografia para você apresentar para o pessoal”, para ver se você tinha aptidão para você ficar lá dentro, aí travei, não consegui. (risos) Porque eram duas provas, era uma teórica e uma prática e na prática eu travei. Aí eu fui para lá e fui para Administração. 


P/1 – Você chegou a montar a coreografia?


R – Cheguei. (risos) Mas eu travei. Não sei por que na hora eu travei. Não sei se era por causa da bancada, em si ou se era as outras pessoas olhando, mas eu travei na hora. Não consegui dançar, também já estava muito tempo sem dançar, porque eu tinha me afastado, porque eu voltei.


P/2 – Esse trabalho era da escola?


R – Eu trabalhava com... eles falam que é _____, uma professora voltada só para parte de Tecnologia da Informação e eu dava suporte para ela na parte das planilhas, de organização das aulas, para os alunos do [ensino] fundamental I e II. 


P/2 – Você curtia?


R – Curtia, lógico. (risos) Eu colocava em prática o que já tinha aprendido dentro dos cursos. Tem, na verdade... aqui, acho que é escola estadual, aqui no Iprem, existia um projeto para as crianças, só que nem todo mundo sabia. Aí você tinha que fazer uma prova, o que você aprendeu na escola e no ensino fundamental, para ver se você tinha aptidão para ficar lá dentro. Passando, você fazia parte do grupo. 


P/1 – Você lembra o que fez com o seu primeiro salário?


R – Nossa, eu comprei um tênis, (risos) comprei um celular, endividei. (risos) Você nunca tem noção, só vai comprando, então me endividei, comprei um tênis e fui me organizando. E foi aí que tive educação financeira. Porque eu não sabia, noção do que era dinheiro. Minha mãe falou: “Dinheiro é isso e aquilo”. Eu coloquei no papel o que eu tinha vontade de comprar, aí eu fui me organizando, desse jeito. Com o técnico também, que eles tinham aulas de contabilidade, ativo passivo, DRE. Então, você só ia fazendo.


P/1 – E como era conciliar tudo isso?


R – Era ‘de boa’. Eu nunca... sou mil por hora, acho que na verdade sou cinquenta mil, porque eu sou muito elétrico. Sabe aquela pessoa: estou fazendo uma coisa aqui, pensando em outra coisa, já. Sou assim: tu tu tu tu tu. Por isso que, se a pessoa for lenta perto de mim, já fico incomodado, porque eu sou muito hiperativo.


P/1 – E na juventude, você falou que começou a ter amigos?


R – Sim. Mas eu também sou uma pessoa que não tem muitos amigos. Eu tenho, se você parar para pensar, amigos, amigos devo ter uns cinco. A gente tem colegas, né? Amigo de verdade, são pai e mãe. Mas amizade vim fazer depois que entrei na faculdade, as pessoas são totalmente diferentes. Então, foi na faculdade, no técnico, no ensino médio, que você vai procurando ideais. Então, foi aí, mas no ensino fundamental, não. 


P/1 – E que ideais que eram esses?


R – Eu sempre fui na vibe, quando eu estava no ensino médio, eu tinha uma vibe de rock, amava Slipknot, System of Down, adorava essas coisas assim. Então, minha vibe era ficar com um grupinho que gostava de rock. E fiquei com eles durante um bom tempo e foi uma das melhores coisas que fiz, porque eles me instruíam a fazer coisas boas, tipo: “Vai estudar, vai fazer isso e aquilo”. 


P/2 – Como foi a formação, sair da escola e começar a pensar em faculdade?


R – Na verdade, quando você sai do ensino médio, tem uma pressão muito grande de saber o que você vai fazer da sua vida. E aí, sei lá, você fica pensando diversas coisas. Eu, quando me formei no ensino médio, tinha diversas... pensei em fisioterapia, psicologia, professor, pensei um monte coisa. E fui anulando lapsos do que eu pensava em fazer, que lidaria com pessoas, mas cada um foi para uma área diferente. 


P/2 – Como foi o vestibular?


R – (risos) Você acha que sabe das coisas e, quando você chega, tem pessoas mais inteligentes que você na sua frente, é complicado. Fuvest, nossa, meu Deus do céu! É complicado, mas é necessário também. Você vê que tem coisas que você tem que aprender. Eu fui para Fuvest uma vez pensando que eu sabia muito, chegando lá eu via coisas que eu falei: “Que questão é essa aqui, que eu nem sei o que é isso!” Que nem parte de Física, foi na regra de três, seja o que Deus quiser! (risos) 


P/2 – E como foi receber a notícia que você passou no vestibular?


R – Para mim foi muito bom, muito bom mesmo. Eu lembro que eu fiquei muito feliz. Tomei um porre, eu peguei uma Catuaba horrível, tomei todinha, comemorei com meus amigos, que passei na faculdade. 


P/1 – No que você tinha passado?


R – Eu passei, nessa época, em Gestão. 


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Tinha acho que vinte e pouquinho, porque eu tinha entrado na faculdade de Psicologia, eu pagava, com dezoito. Minha mãe não tinha dinheiro para pagar, então eu pagava sozinho. Era oitocentos e pouquinho por mês, era salgadinho, tive que parar no quarto semestre, porque estava pagando mil e cem de mensalidade. Tive que parar, trancar o curso. Aí pensei: “Não vou querer parar de estudar, então vou fazer alguma coisa para eu estudar de graça”. Aí fiz ProUni, Fuvest, essas coisas, Enem.


P/1 – E como é que foi essa decisão de parar?


R – Foi chato, porque você está tirando uma coisa que você gosta muito, muito mesmo, você trancar uma coisa que você ama, por não ter dinheiro, é triste. (risos) Eu já tinha até a noção do que faria em Psicologia: “Vou me formar, vou para a parte comportamental e futuramente vou fazer a pós-graduação em Psicologia”. Neuropsicologia, eu pensava. Foi chato. 


P/1 – E você trabalhava ainda na escola?


R – Eu trabalhava com Recursos Humanos, na verdade, nessa época. Entrei como estagiário em administração, aí eu fui efetivado para a parte de Recursos Humanos, como auxiliar e até hoje. Ainda fui para vendas também. Fiquei desempregado, fui para vendas, em vendas eu cresci também.


P/1 – E como é que foram esses trabalhos?


R – Foram experiências e experiências. Eu já trabalhei com telemarketing, já trabalhei com vendas, já trabalhei como estoquista, (risos) um monte de coisa, vendedor. Meu segundo emprego foi numa loja de Fini. Eu trabalhava como balconista, de vendedor, estágio. Eu não aguentei não, me estressei. (risos) 


P/1 – Era muito ruim lá?


R – Não é que ruim, é que eu sou todo certinho. Eu organizava as prateleiras, aí vinham as pessoas e tiravam as coisas, ficava aquela bagunça de novo, ia lá e arrumava e ficava com raiva. Não quero isso para mim, não. Isso aqui não dá certo. Aí saí, pedi pra sair.


P/1 – E desses trabalhos que você fez, qual você mais curtiu?


R – RH. Recursos Humanos.  


P/1 – Em que área do RH?


R – Eu gosto de ficar bem na parte de admissão e demissão de pessoas e na parte de homologação também. 


P/2 – Você se lembra de alguma história marcante no RH?


R – Teve uma vez... eu sempre fiz amizade com pessoas simples, simples, simples, simples. Eu tinha amizade com as moças que trabalhavam na limpeza e minha gerente, uma vez, chegou em mim e falou que eu tinha que demiti-las. Foi bem chato para mim, bem incomum. Fiquei muito chato. As demiti com lágrimas nos olhos, sabe, porque, além de ser corporativo, a gente tinha uma amizade. Mas foi chato, tive que demiti-las.


P/1 – Como foi esse momento?


R – Para mim foi marcante também. Porque foi uma das vezes que eu falei: “Nossa, não é tão simples quanto parece e também eu não posso ficar lidando com emoções aqui dentro”, por ser no profissional. 


P/1 – E na faculdade de Gestão, como é que foi conhecer outras pessoas, diferentes?


R – Então, é interessante porque a maior parte das pessoas, na faculdade, tem a mesma visão que você. De liderar, de crescer, fazer alguma coisa. Então, super colidiu, super deu certo. 


P/1 – E teve algum professor, dessa época, que foi marcante?


R – Teve um professor meu que era gerente da unidade, que dava aula também. Ele também, justamente, cuidava da parte do curso de Psicologia. Era Ricardo, o nome dele e ele foi bem marcante, porque ele sempre incentivou todos os alunos a buscar sonhos. Então, ele foi essencial para mim, também. 


P/1 – Me contaram que você vai começar um trabalho novo. É isso?


R – Vou. Segunda-feira.  


P/2 – Qual que é?


R – Recursos Humanos, minha área. Estava na hora, também não estava trabalhando, eu não estava aguentando mais. Minha área. 


P/1 – E como estão as suas expectativas?


R – A gente cria bastante expectativa, porque a gente chega lá dentro e é tudo novo, pessoas novas e eu estou pensando como que eu vou segunda-feira, para não ser tão impactante.


P/1 – Como você conseguiu esse trabalho? 


R – Olha, eu fiz tanta entrevista, (risos) mandei tanto currículo, mas tanto currículo. Eu o procurei pelo Infojobs, foi o único pelo Infojobs que eu vi que deu certo. Geralmente nunca dá, Infojobs é complicado, mas esse deu certo. (risos) 


P/1 – E pensando aqui, na Zaki Narchi, como que é morar aqui, para você?


R – Olha, aqui você vê muita coisa, você tem que saber selecionar pessoas. Não estou dizendo que todo mundo é má pessoa, má índole. Mas, se você tem uma visão diferente dos outros, é melhor você procurar pessoas que realmente pensem igual a você, aqui também. Tem pessoas muito boas aqui, eu não sabia desse projeto que tem aqui, dessa ONG [se refere à Associação Sempre Zaki Narchi]. Aí eu procurei, teve um dia que eu vi entregando marmita, passei e fiquei olhando. Falei: “Nossa, o que é aqui?” Aí perguntei: “Precisa de voluntário aqui dentro?” Eles falaram: “Precisa”, aí eu me juntei a eles.


P/2 – Quando foi isso?


R – Foi há dois ou um mês atrás que eu resolvi fazer parte disso aqui.


P/1 – E como foi a experiência de estar mais próximo das pessoas?


R – Maravilhosa. Eu conheci a Elis, conheci o Ed. A visão que eles têm de crescer aqui dentro, de ajudar o próximo, é muito bonita e cativa também. Porque, na verdade, não só aqui eu sou voluntário. Eu também faço parte de uma associação lá em Santana, de uma ONG espírita, que faz doação de cesta básica, essas coisas. Aqui também faço voluntariado. Se não estou aqui, como eu estava desempregado, ficava lá, nos dois.


P/2 – E trabalho voluntário, sua mãe que incentivava, desde pequeno? O que representa fazer esse trabalho, para você?


R – Para mim, por mais que eu não tenha nenhum lucro com isso, ver o sorriso no rosto de outra pessoa é muito bom, é muito gratificante você ver uma pessoa e saber que você fez parte, que você ajudou outra pessoa, com alguns gestos seu. Que fez parte de mim, que você ajudou outra pessoa. Pra mim é muito bom.


P/2 – Teve alguma história marcante, para você?


R – Teve de um rapaz que é homossexual, ele também tem HIV e foi muito rejeitado, por muita gente. Ele estava passando por dificuldades financeiras, não tinha o que comer, viver. E pessoal da ONG espírita que eu faço parte, todo mundo fez arrecadação de dinheiro, comprou cesta básica, comprou um monte coisas, roupas, essas coisas, pra ele e deu para ele. O sorriso no rosto dele, as lágrimas. Aquilo, para mim, foi essencial, aquela história dele me marcou.


P/1 – E olhando, assim, para quando você era bem pequeno, aqui na Zaki Narchi e para agora, o que mudou?


R – Nossa, eu nunca pensei que seria dessa forma. Muita coisa. Porque quando você é menor... a maior parte da minha família é católica, tem esse negócio de que eu quebrei muito tabu da minha família, porque eu cheguei e falei assim... minha família: “Homem gosta de homem ou mulher gosta de mulher” e eu falei assim: “E se eu gostar dos dois?” (risos) Então, para eles foi um baque e nunca cheguei e falei assim... eu lembro que na festa de dezoito anos, (risos) no auge, lá, eu cheguei e falei: “Mãe, eu ‘pego’ meninos”. Minha mãe ficou: “O quê?” Falei: “É, mãe”. Ela fez aquele escândalo todo, aquele dia. Eu quebrei um paradigma na minha família todinha. Minha família é toda certinha e eu cheguei quebrando tudo. O errado. 


P/1 – Como foi esse momento?


R – No momento, no dia eu fiquei desesperado, mas depois... hoje eu vejo, assim, que muita coisa mudou, muita coisa mudou mesmo, as pessoas se aceitarem. Você vê agora negócio de não binário, essas coisas todas, mas antigamente não tinha isso não. Se você era diferente, você apanhava na cara, (risos) você era julgado, você era excluído. 


P/2 – Mas a vizinhança aceita, como que é isso?


R – Sinceramente, se não aceitar, paciência. Mas antes era complicado, você via julgamento no olhar, sabe?


P/1 – E esses projetos que você participou durante a infância, eram daqui?


R – Um dos projetos era na Vila Guilherme e o outro, se não me engano, era aqui próximo a Sylvia Design, aqui perto do Carandiru. Eles já existiam há muito tempo, na verdade. 


P/1 – Mas não eram daqui?


R – Mas eles eram voltados para as crianças daqui, era mais no foco de tirar crianças da rua. Aí tinha diversos cursos lá: dança, reforço, teatro, monte de coisa voltada à educação.  


P/1 – Você não tinha conhecimento daqui, dessas pessoas?


R – Não, nenhum. Eu sabia que tinha, mas não sabia que era uma associação, achava que era um grupo de pessoas aleatórias, depois que eu vi que era uma ONG. (risos) Aí eu fui chegando perto, perguntando aos poucos. Aí eu conheci Elis, conheci o Ed, aí fiz parte disso aqui. Fernanda. 


P/1 – E de onde veio essa vontade de ajudar?


R – Minha família, como eu te falei, todos eles passaram por momentos difíceis e só pelo fato de saber, pelo que eu entendi, foi muito corrente do bem, porque quando eles chegaram aqui em São Paulo, as pessoas os ajudaram. Então, não tem nada que pague o que eles fizeram. Porque eles chegaram aqui e ficaram com fome, ficaram com sede, não tinham onde morar, moravam de favor. Até eles conseguirem algo nosso, demorou. Então, os ajudaram também. Então, hoje em dia, eu vejo muito como corrente do bem, ajudar o próximo. E se bem que tem um filme também, Corrente do Bem. (risos)  


P/2 – Eles contavam como era aqui quando eles chegaram, as diferenças destas gerações?


R – Sim, contaram. Eles falavam que era muito complicado aqui, porque não tinha saneamento, tinha fome, tinha muitas brigas aqui também, não só por terreno, por espaço também. Então...


P/2 – Hoje você já sente que é diferente?


R – Muito diferente, mudou muito. Eu estou falando assim, em relação... você vê muitas pessoas se aceitando, em si. Pessoas novas dizendo: “Olha, eu sou isso, sou aquilo, gosto disso, gosto daquilo”, grupos. Antigamente era a coisa mais escondida. Hoje em dia você vê mais pessoas expressivas. 


P/2 – Então, foi julgamento, só pelo olhar? 


R – Sim. 


P/1 – Quer continuar, falar sobre isso? 


R – Sim. Olha, o julgamento por olhar, quando eu dizia, assim: você chegar no ambiente e as pessoas te olharem de canto: “Esse aqui é diferente”. E você sente, você se incomoda, mas você não liga. 


P/1 – E nisso também, você sentia esse olhar, por que você era diferente?


R – Sim, sempre senti.


P/1 – E como era a relação com as pessoas de fora daqui da Zaki Narchi?


R – De fora, era totalmente diferente, porque eu já andava com pessoas que eu sabia que me aceitavam. Então, ia para lugares que eu sabia que as pessoas me aceitavam, ia para o Masp, ia para a Biblioteca de São Paulo, essas coisas assim. 


P/2 – E os maiores desafios daqui, quais são?


R – Eu acho que hoje em dia não tem tantos desafios assim, porque a educação está para todos. Hoje em dia não estuda quem não quer, porque tem muita coisa, tem EJA. Tem jovens que nunca terminaram os estudos e têm a minha idade, está no segundo, oitava série e tem esses projetos para estudar, para fazer prova. Então, não estuda quem não quer. Mas hoje em dia mudou muito. Hoje em dia a educação está para todos. 


P/2 – O que você mais gosta daqui?


R – A relação que eu tenho com as pessoas, hoje em dia mudou muito. Hoje em dia o pessoal chega e fala bem assim pra mim: “Você é isso” e eu falo: “E você?” (risos) Então, hoje em dia, já sou bem desbocado.


P/2 – E o que você menos gosta?


R – Aqui? Algumas pessoas aqui são bastante arrogantes, posso dizer. Tem pessoas boas aqui, mas tem pessoas que ainda são leigas e arrogantes, aqui. Teve uma situação que aconteceu comigo: eu fui jogar uma coisa no garoto e pegou justamente numa criança. (risos) Fui lá e corri, pedi perdão, falei: “Meu Deus do céu, me perdoa”, corri, peguei gelo. E a mãe da criança mandou eu tomar naquele lugar. (risos) Então, é complicado.  


P/1 – E pensando, assim, em que tudo que você viveu, vivenciou, quais são os acontecimentos que mais ficaram marcados, em relação à Zaki Narchi?


R – ONG, aqui; minha infância que fiz projetos: capoeira, dança, reforço escolar. Essa parte da minha infância. Dança principalmente, foi uma coisa que me cativou muito, muito mesmo, que eu me via viajando para outros lugares para dançar, uma coisa que eu amava. Então, essa parte que mais gostei.


P/2 – E como foram essas experiências?


R – Incríveis. Coisas que crianças aqui não tiveram ainda, mas para mim foi maravilhosa. A parte que as pessoas que me motivaram a fazer vestibular também foram muito boas. Eu lembro que uma vez eu viajei para fazer um projeto de dança e tinha aquele lugar cheio de gente, lotadíssimo. Olhava, abria pela frestinha e via um monte de gente, minha família. Eu falei: “Caraca, que incrível!” (risos)  


P/1 – Quando você olhou, que você estava contando, como que foi?


R – A plateia? Nossa, meu coração a mil. A emoção também de ver sua família. Falei: “Nossa, minha família veio me ver!” Uma coisa que eles nunca viram, que eu fiquei meses treinando, diversos dias, para chegar nesse dia, o grande dia. É sensacional, não tem nem palavras. Você vê a pessoa tirando foto. Fala: “Nossa, que incrível!” e você fala: “Valeu, gente!”  


P/1 – E você sente vontade?


R – Sempre. Eu acho que é uma coisa que não sai, quando você se acostuma com algo que te dá aquele ânimo, você volta, sai e volta, sai e volta, sai e volta. Você volta a fazer suas coisas, sua vida pessoal, mas você tem um hobby, meu hobby ainda é dança.


P/2 – Como você se sente, dançando?


R – (risos) Não tem palavras de como você está. É libertador. Sentir os movimentos, é uma expressão, você está lá dançando, nossa, é cativante. É uma emoção muito boa, você está colocando sua expressão numa coisa. Mesma coisa se você fizer teatro, se você faz algo assim, muito bom. 


P/1 – Era importante. É importante. 


R – É importante. Se eu falar para Elis: “Elis, se eu colocar alguém aqui dentro dessa sala, para dar aula de dança, o que você acha?” Ela: “Perfeito, vamos conversar sobre”. Dança é essencial. Acho que quando você faz parte de algo que muda você de alguma forma, você quer reproduzir isso. Bom, pra mim é.  


P/2 – Então, você pensa em ajudar, oferecer para outras crianças?


R – Penso sempre, sempre, a mesma coisa que eu tive, sim. Porque, se eu vir que outra pessoa pegou a oportunidade de ter algo que eu tive oportunidade e eu ver que a pessoa está feliz com aquilo que eu tive também, está ótimo. Porque minha mãe nunca foi de me dar, ela dava as coisas com muita dificuldade, porque ela tinha que dar para seis filhos. Então, eu sempre fui assim de buscar, de ter o meu. O pessoal fala assim que eu tenho dinheiro, aqui, mas não é que eu tenho dinheiro, eu lutei por isso. Eu coloquei no papel, quantos meses eu fiquei sem gastar dinheiro com tal coisa, para ter determinada coisa.


P/1 – O que a pandemia afetou na sua vida?


R – A pandemia foi horrível para mim, porque eu fiquei preso dentro de casa e eu sou muito ativo. A pandemia, pra mim, foi horrível. Tive que ficar dentro de casa, onde mora eu, meu tio e meus dois avós, meus avós são idosos. Então, eu tive que me podar, pra pegar e satisfazer... anular minhas vontades, para não prejudicá-los, porque se eu soubesse que, se um dia, de alguma forma eu os deixei mal, doentes, eu ficaria muito triste e só tenho eles. 


P/2 – Você não mora com sua mãe?


R – Não moro com minha mãe. Minha mãe mora no apartamento de baixo, mas eu moro no apartamento de cima, porque na época que eu resolvi falar: “Eu gosto disso”, meu pai foi muito pejorativo. Ele dizia assim que, se eu fosse determinada coisa, ia sair da casa dele. Então, por receio, para não ter briga com meu pai e com minha mãe, eu optei por sair.


P/2 – E seu pai voltou para a cidade dele?


R – Meu pai está em São Paulo, aqui. Só que meu pai está com outra mulher. 


P/2 –  Como foi esse momento de separação, para sua família?


R – Para mim não foi tão ruim, porque eu já estava bem instruído. Então, para mim não mudou muita coisa. Meu pai não foi tão presente na minha infância, ele nunca foi numa formatura minha. Dia dos Pais, quem estava lá na maior parte das vezes era minha mãe. Um monte de pai e minha mãe lá. Então, quando ele foi, resolveu, que minha mãe falou: “Deixei seu pai” “Graças a Deus, ainda bem que se tocou”, porque é complicado. 


P/2 – E pensando na pandemia aqui para a Zaki, de uma maneira geral?


R – Pra Zaki? Os moradores? Nem todo mundo se importou. (risos) A gente está falando de uma comunidade. Então, muitas pessoas aqui não se importaram, pessoas se incomodaram, algumas, mas nem todos. Ainda tinham coisas aqui, eu falo que é muito Deus, porque eu não vi casos de Covid aqui na Zaki Narchi, não soube e, se teve, foi bem oculto.


P/1 – Você falou que você é bastante ativo, como é o seu dia a dia?


R – Muito. Às vezes, eu penso, eu começo agora, que eu não estava trabalhando, vinha pra ONG, ajudava. Eu amo jogar videogame, essas coisas. Então jogava, fazia live, fazer essas coisas tudinho, saía com meus amigos. Depois eles falavam: “Vamos fazer trilha?” “Vamos fazer trilha” “Vamos para o Rio de Janeiro?” “Vamos para o Rio de Janeiro” “Vamos pra Atibaia?” “Vamos pra Atibaia”. Eu sou super assim. Sou muito ‘vamos’. “Hoje” “Ok, vamos”. Tanto que eu faço meus hobbies: maquiagem, dança, andar de long, essas coisas, a ONG. Sou bem alegre, bem ativo na vida. 


P/1 – O que você gosta mais de fazer nas suas horas de lazer?


R – Jogar e ler livros. Gosto bastante de ler livros. Acho que o último, eu terminei atualmente de ler A Revolução dos Bichos, é um livro maravilhoso, todo mundo deveria ler.


P/1 – O que você achou?


R – Incrível. Uma revolução maravilhosa. Os bichos se voltando, (risos) naquele projeto todo. Interessante. 


P/2 – E você tem algum relacionamento?


R – Tipo assim, afetivo? Não. Eu tive, só que a gente optou por terminar, porque a gente não estava se dando bem. Estava sendo uma coisa bem abusiva. Então, é bem melhor, não gosto de uma coisa controlada, de uma pessoa que controle meus gestos, o que eu vou fazer. Eu gostava, mas de deixar: “Você faz sua vida, depois a gente volta e conversa”.


P/1 – E você tem um sonho?


R – Tenho. Claro que tenho. Todo mundo tem. Eu quero ainda me formar em Psicologia, na parte de Neuropsicologia. Quero trabalhar e ter meu próprio negócio, porque eu não gosto de trabalhar para o outro, odeio.


P/2 – Que tipo de negócio?


R – Eu já tenho, na verdade. Trabalho com maquiagem, já. Preciso investir mais nisso. Mas eu abriria uma coisa tipo bebidas, é uma coisa que dá dinheiro. Sempre falei isso pros meus chefes: “Na primeira oportunidade que eu tiver de ter dinheiro, vou abandonar vocês, desculpa”. Eles davam risada. Ainda bem que eles levavam pro lado... mas eu sempre fui assim. Meu jeito, eu nunca fui de entrar numa função e fazer só o meu, sempre olhava o do outro, aprendia a fazer o do outro também, porque na oportunidade que eu tenho que crescer junto com o outro, o outro fala: “Não vou hoje”. Eu falo: “Então eu faço, faço o meu e o seu”.


P/1 – Quais são as suas expectativas para o futuro?


R – Eu espero realmente estar formado, numa área que eu realmente goste, em outra, porque eu não quero parar por aqui. Ter minha própria casa, meu próprio carro, estar ajudando o próximo sempre, tendo as minhas coisas, essas coisas assim. Dança, coisa que eu amo. 


P/1 – A gente está chegando no final, mas tem duas perguntas ainda. A primeira era para saber se você queria contar alguma história que a gente deixou de te perguntar, se tem alguma história marcante?


R – Não sei, acho que o que eu diria para todo mundo é: “Estude, porque só o estudo te leva a algum lugar, para você ser alguém assim: ‘Realmente, esse aqui tem uma história, tem um conteúdo’”. Porque você ser uma pessoa e ser oco, ser leigo, não tem de nada. 


P/1 – O que você achou de contar uma parte da sua história?


R – Eu gosto, eu sou mega... ah, digo uma coisa: quando era mais novo, eu sofria bullying. Então, eu tinha uns pensamentos muito negativos. E eu digo isso porque eu não sei se é do jovem mesmo, de se cortar, essas coisas do tipo. E eu lembro que uma vez eu pensei em tirar minha própria vida e um rapaz, mendigo, morador de rua, veio conversar comigo e para você ver: é tão simples, mas tão simples, que aquele morador de rua me cativou. Que ele ainda me chamou, eu lembro que ele me chamou de filho de luz. Olha que interessante! Eu pensei: “Vou mudar”. E desde então eu passei em psicólogo, mudei, porque antes eu não aceitava que as pessoas saíssem da minha vida. Não aceitava que as pessoas fossem embora. Amizade, eu não tinha muitas. Eu não tinha muitas amizades e as que eu tinha, às vezes... é normal as pessoas saírem da sua vida. Eu não aceitava isso. Aí tive que passar em psicólogo, para aprender a aceitar o próximo e mudou muita coisa. Mas o que eu digo é: sempre buscar ajuda. Acho que é isso. 


P/2 – Seu interesse pela área profissional tem muito a ver com a sua experiência.


R – Super, super, super. O Setembro Amarelo, para mim, é muita coisa, também é muito importante, porque eu fiz parte daquilo. 


P/2 – Obrigada.


R – Nada. 


P/1 – É isso. Obrigada. Foi ótimo! 


P/2 – Obrigada! É interessante ter um projeto com diferentes idades, sabe? 


R – Sim. Tem pessoas, aqui, incríveis. Tem um outro rapaz aqui também que se chama João Felipe. Acho que ele é bem mais velho do que eu e a visão dele também, sobre o mundo, é muito interessante. Vocês deviam conversar com ele também. João Felipe, ele mora no bloco 26.


[Fim da Entrevista] 


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