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História

Ajudando nas pesquisas médicas

História de: Reinaldo Ramos de Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2014

Sinopse

Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, o bibliotecário Reinaldo Ramos de Carvalho fala sobre os conflitos que teve na sua infância com seu pai devido aos problemas de alcoolismo. Recorda a separação dos pais, a mudança do pai para a cidade de Resende e a morte dele quando Reinaldo ainda era criança. Fala da mudança da família do bairro do Jabaquara para a Vila Madalena, as brincadeiras de infância, o início da puberdade e o primeiro emprego na Bijuterias Ido. Recorda como começou a trabalhar na Bireme e explica as pesquisas que fazia para auxiliar os médicos. Finalizando falando sobre o seu cotidiano depois da aposentadoria, o cuidado com a mãe de 90 anos e o fim do casamento.

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História completa

Meu nome é Reinaldo Ramos de Carvalho, nasci em São Paulo, em 14 de setembro 1957. Meu pai é Francisco Ramos de Carvalho, minha mãe, Elvira Batista dos Santos. Nasceram em Ilha do Bananal, em São Paulo. O meu pai era motorista de ônibus da CMTC e minha mãe era do lar. O meu pai, eu nunca tive uma convivência boa com ele, porque ele, naquela época, quando eu comecei a sentir quem eu era mesmo, estava começando, ele bebia muito. Então acho que é uma praxe quase de todos os pais na época, e eu tinha mais contato com a minha mãe, poucas vezes eu tive uma conversa com o meu pai. Ele trabalhava, chegava em casa, tinha vez que ele não chegava nem bem em casa, já chegava no bar, então até o próprio rapaz do bar, o Seu Licínio, muitas vezes ele tirava o dinheiro e deixava com a minha mãe, porque ele sabia que ele ia gastar tudo. Minha mãe era calma, e lidava bem com a gente. Era eu e mais dois irmãos: Gleide Aparecida Demi Correia e o meu irmão, José Luís Ramos de Carvalho. Eu deveria estar mais ou menos com uns 11 anos quando meus pais se separaram. Depois da separação deles, ele foi pro Rio de Janeiro, Resende, Estado do Rio, que onde tinha uns parentes dele, e isso foi em 73, mais ou menos. Em 74 ele veio a falecer, culpa disso foi a pinga. Ele foi levado para o hospital lá em Resende, fizeram glicose na veia, melhorou, no mesmo dia, voltou pra casa, quando foi mais ou menos de madrugada, ele voltou de novo, só que quando ele voltou deu insuficiência respiratória nele, aí ele morreu, nós fomos lá no enterro.

Era uma casa ao fundo, tinha um terrenão enorme na frente, mas enorme, não tinha nada plantado, era tudo capim, mas era enorme. Só que tinha a entrada pelo fundo, que era na Rua Maracá, que era a entrada pelo fundo, que era alugado, e na frente era a Avenida Leonardo Da Vinci e foi ali que eu passei toda a minha infância. A casa era de alvenaria e era dividida, era geminada com uma outra casa, ao lado, meu pai, quando ele estava com a gente, ele plantava, assim, hortaliças, ele fazia hortas, não sei mais o que, e daquela horta muitas vezes minha mãe retirava recursos, porque ela acabava vendendo, era couve, era cenoura, era um monte de coisa, ele plantava, isso ele gostava de fazer, de ter sua hortinha sempre em ordem, sempre. E eu, uma das poucas passagens que eu tive com ele, que ele, eu ia no Campo do Metal, que era lá na Vila Guarani, entre a Vila Guarani e Americanópolis tinha um campo enorme, eu ia com ele muitas vezes recolher esterco de cavalo, não sei se era muito bem contra a minha vontade ou não, mas ele ia, a gente fazia isso. Depois ele fazia a horta, a gente semeava tudo aquilo lá em cima e com aquilo lá minha mãe também tirava um dinheiro, além dela passar roupa pra fora. Eu cheguei a vender sorvete também, nesse Campo de Metal, quando eu era, assim, os meus 12 anos, mais ou menos, eu saí pra vender sorvete também nesse campo.

Estudei no colégio, colégio de madeira, São Martinho de Lima, e a gente respeitava os professores, porque o professor, naquela época, eram os nossos segundos pais. A gente fazia aquela fila tradicional, cantava o hino, entrava pra dentro da escola e, enquanto o professor não sentava, a gente não sentava, a gente ficava quieto, depois sentava. Depois eu fiz o primeiro ano, o segundo, depois eu fui pro Colégio Monte Alegre. Depois de lá, eu fui pra aquele Coronel Domingos Quirino Ferreira, que foi lá perto da Avenida do Café, na Rua Diederichsen, eu concluí, vim pra cá.

Depois eu mudei pra Pinheiros, foi na época que eu tinha os meus 14 anos.  Aqui na João Miguel Jarra, 132, apartamento um, nós viemos morar aqui. Eu vi também a construção daqui, enquanto eles estavam colocando a tubulação na João Miguel Jarra inteirinha, a tubulação de água, esgoto, alguma coisa assim, aqueles tubos enormes, era tudo de terra ainda, não tinha asfalto, não tinha nada ainda. Porque, quando eu cheguei aqui, tinha uma meia dúzia de pessoas no nosso bloco, tinha uma meia dúzia de famílias morando, o resto não tinha ainda.

Eu comecei meu namoro aqui também, não demorou muito também, acabou terminando logo meu namoro aqui. Tinha o problema já do colégio, eu já tinha procurado emprego, achei um emprego, eu já estudava à noite, começou toda essa minha vida aqui em Pinheiros. Eu fui procurar emprego, porque, na verdade, quem trabalhava em casa fora mesmo era a minha irmã, e ela sempre falava: “É, já está na hora dele procurar emprego, que não sei que”, ela ficava sempre falando, pressionando a minha mãe, e depois me pressionando também. A minha irmã sempre foi assim, meio autoritária. Peguei e arrumei, que naquele tempo também emprego, você saía de um aqui, se você ficasse dois dias desempregado, você era vagabundo, porque aqui, naquele tempo, você não escolhia, o empregador não escolhia você, você que ia lá e: “Não, tem emprego aqui?”, tinha uma lista. Eu fui trabalhar na Bijuterias Ido, era uma bijuteria de judeu, ali perto da Oscar Freire com a Cardeal Arcoverde, era um portão verde, hoje em dia tem um portão verde lá, só que eu não sei, lá não está funcionando mais. E o meu serviço aqui era pegar bijuteria, polir a bijuteria, e tinha aquelas bancadas enormes, cada um pegava uma certa quantia da produção.  Eu cheguei a comprar tênis na época, um tênis caro, eu ia no cinema, comprava minhas coisinhas, Coca-Cola, esses negócios todo, todas essas guloseimas, e ajudava um pouco em casa também, eu dava um pouco do dinheiro, metade do dinheiro.  

Eu estava namorando uma menina aqui na Fradique Coutinho, não sei o número, é perto da Livraria da Vila, o nome dela é Cleonice, eu já estava na biblioteca que o Paulo, esse meu amigo. Ele estava de férias e falou pra mim assim: “Ó, tem um serviço pra você, você procura o Francisco ou o Fernando e você vai fazer um teste lá no serviço”. Então o Paulo me indicou, ele falou: “Só que eu estou de férias, você procura esses dois lá”. Eu fui lá na Bireme, fiz o teste, passei, em 77, passei e comecei lá no serviço. Mas antes disso eu trabalhei na PBK, na Capitão Antônio Rosa, que hoje já não existe mais esse negócio de comércio de prédios, porque eles só faziam aquilo, e na Paulista, porque eles tinham na Quinta Avenida, na Paulista, eles tinham um outro escritório lá, então eu fazia isso daí.  Em 14 de fevereiro de 1977, eu me lembro, me registraram nesse dia. Depois, nesse período que eu já estava lá, mais ou menos, acho que uns cinco, seis anos já na biblioteca, eu, essa minha namorada, Cleonice, falou pra mim assim, a gente já estava namorando há um bom tempo, ela falou assim pra mim: “É melhor você arranjar uma faculdade, uma coisa assim, porque, se você sair desse emprego, você vai trabalhar com algum negócio”, e ela me incentivou bastante. Fui, fiz a faculdade, fiz o pré-vestibular na USP, e passei, começou minha vida acadêmica mesmo. Só que quando atingiu acho que o segundo ano de faculdade, terceiro, porque eram quatro anos, acho que foi o segundo ano e meio, ela, não sei se ela estava enjoada de mim ou, assim, porque eu estava envolvido totalmente no estudo. Eu falei: “Já que você pediu pra mim estudar, eu vou estudar”, só que a gente não saía mais, não ia no cinema. Ela pegou, terminou, mas quem me deu um empurrãozinho pra mim foi ela. Eu peguei, continuei, hoje eu estou.

Quando eu entrei na Bireme, eu fui fazer o exame do DOPS pra saber, naquela época, se eu tinha algum envolvimento na polícia, alguma coisa assim, que era lá perto da Estação da Luz, eu fui fazer um requerimento, peguei esse requerimento, como não tinha nada, então eu entrei lá no serviço. Me registraram. Eu pegava revista nas estantes, colocava papeletinha no meio e depois levava pro xerox, eu mesmo fazia isso, depois que fazia todo esse processo, eu fazia isso daí. Eu auxiliava na pesquisa. Mas nesse meio tempo, enquanto eu estava fazendo a faculdade, que era de quatro anos, que era na Sociologia e Política, lá na General Jardim, eu fiz lá, enquanto eu estava fazendo isso, a gente estava fazendo parte de biblioteca. Eu sempre comecei, por isso que eu falo que funcionário antigo lá é legal. Eu terminei em 89 e fiz minha colação em 90.  Depois que eu já estava na biblioteca, eu vi a passagem, depois que veio os index médicos, os médicos tinham dois negócios, ou eles pegavam no index médico a pesquisa que eles queriam, eles tinham que fazer ano pós ano, cada cubículo desse daqui era um ano, aqui, então eles pegavam e pediam. Quando eles pediam pra NLM fazer, que era uma biblioteca norte-americana, então essas bibliotecárias antigas, principalmente a Maria Helena Piegas, a Maria Luiza, e tinha acho que mais uma outra, ela tinha um horário na USP, que só funcionava lá, em 77, quando eu entrei. Então o motorista, o Cícero, pegava, levava elas até a USP, fazia o levantamento, vamos supor, eu, como médico, eu pedia, demorava quase, mais ou menos uns 20 dias pra você entregar a pesquisa, isso feito pelo computador, pro médico. Então ela ia na USP, fazia todo aquele trabalho, que era em 80, que era um acesso que tinha, acho que era duas horas, três horas, não sei quantas horas que eram o acesso, ela faziam uma busca, reunia, cada médico ia lá, ela reunia um monte de papel, tudo escrito o que o médico queria, não sei mais o quê. Nesse processo todo que eu comecei, do computador, que é uma história que eu tenho de lá, é o seguinte, eu cheguei a trabalhar um mês, um mês e pouquinho, quando o meu amigo saiu de férias, no kardex, que era umas folhonas, uns arquivos grandes, então a gente anotava a revista, vamos supor, a New English, Lancet ou American Journal, não sei o que, anotava e a Raquel, o negócio já passava pro computador, foi aonde começou já o sistema quase online, começa lá. Começaram a fazer essa transição entre o papel e o negócio, e o computador. Era tudo digitalizado já. Acho que foi em 77, 78, 79, mais ou menos nos anos de 80, mais ou menos, começou isso. Então, quer dizer, eu fazia essa parte porque se desse errado o computador, a gente tinha como recuperar nas fichas, ficou mais ou menos um ano assim. A gente digitava e eu anotava no papel. Depois de um ano que dava, deu tudo certinho, eliminou o papel, ficou só no computador, chegava a revista, a gente anotava no computador a revista que chegou, tudo assim, já ia pra estante.  Na Bireme mesmo eu trabalhei acho que uns dez anos, mais ou menos, na Bireme, depois passamos a ser estatutário, ser da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp, eu fiquei trabalhando até a minha aposentadoria, trabalhei 37 anos lá, eu saí, agora, dia primeiro de julho de 2013. Quando aposentei eu estava trabalhando no levantamento bibliográfico quando me aposentei, eu saía, depois de um certo horário, a gente ia lá pro caixa, eu ficava no caixa. Até que era bom pra mim, porque bem antes de eu me aposentar como bibliotecário, eu saía daquele serviço que eu estava fazendo, de fazer o levantamento para o médico, diretamente com ele, era como se fosse um refresco, eu ia lá e ficava trabalhando no caixa um período. Eu pensei que eu ia sentir muito parar de trabalhar, primeiro que, quando eu me aposentei, eu saí, fui de férias na casa dos meus primos, como todo ano eu vou pra lá, no interior de São Paulo, uma cidade chamada Itararé, eu fui pra lá, fiquei um mês lá, sabendo que eu estava aposentado. Então aquilo lá, não caiu minha ficha porque era de costume tirar férias e ir pra lá, quando eu cheguei aqui que eu falei: “Agora vai pesar o negócio”, não, muito pelo contrário. Como diz o meu colega Antônio, que ele se aposentou um pouquinho antes que eu, nós pegamos uma carta de alforria, porque muitas vezes você no serviço, preso, querendo fazer um monte de coisa, não podendo, e você muitas vezes, uma, duas, três horas, você pudesse sair e resolver aquele probleminha e voltar.

Estou cuidando da minha mãe, ela nasceu no ano de 24, ela vai fazer 90 agora, dia 21. Eu faço alguns trabalhos pra alguns médicos da escola, eu faço alguns trabalhos, claro que eu cobro, mas é muito pouco, mas, assim, eu recebo. As mesmas pesquisas que o pessoal fazia comigo lá, as mesmas pesquisas.  Tem um pessoal que trabalha com o Doutor Laranjeiras, que é, que ele fala sobre entorpecente, todo esse pessoal pede pra mim, então eu faço o trabalho, cobro, fico com a minha mãe, a hora que ela tem que ir pro médico, não é um trabalho, assim, que vem toda hora, é muito pouquinho, mas eu fico no meu computador fazendo, quando eles pedem, eu faço, vou, entrego, mando, enfim.

Eu conheci minha ex-esposa num casamento da minha prima. Eu comecei o namoro mais ou menos, por aí, 90, 91, 92. O casamento foi feito lá, lá no interior mesmo, porque, se fosse feito aqui em São Paulo, olha só, eu teria que pagar a igreja de lá, arquidiocese de Itapeva, a de Sorocaba, a Sé, a minha igreja que eu queria casar, se eu quisesse trazer ela pra cá, eu indo pra lá eu pagava só a igreja deles, então eu fiz lá. O único pitoresco que aconteceu foi pra ela se despedir da mãe e do pai, que ela nunca tinha saído de lá, foi um sufoco, chorava muito, muito, muito, muito mesmo. Saiu, chegamos aqui em São Paulo, na Zona Norte, onde que ela está com o filho até hoje, ali no Jardim Peri, perto do Horto Florestal, ela nunca tinha vindo aqui, eu sempre mostrava o apartamento pra ela de fotografia, porque ela nunca veio pra cá, nunca. Ela falou: “Não, está bom, qualquer lugar que você for está bom”, eu falei: “Mas você nem conhece direito, você conhece só por foto”, mas ela veio, gostou. Me separei em 2004, vai fazer dez anos, eu me separei em junho de 2004, então já fez dez anos, e ficamos juntos 15 anos. E o meu filho nasceu em 94, ele tem 20 anos agora.

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