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Ajudando a criar o futuro

História de: Patrícia Liberali
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2019

Sinopse

Patrícia tinha vontade de ser professora desde criança, apesar de seu irmão dizer que ela não ganharia dinheiro com a profissão. Mesmo assim, ela seguiu firme, fazendo Magistério e faculdade de Pedagogia. Trabalhou com educação infantil em colégios privados, até que decidiu experimentar algo diferente e foi trabalhar na Fundação Gol de Letra, atendendo comunidades carentes.      

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História completa

 

P/1 – Bom dia, Patrícia. Pra começar você poderia falar seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Patrícia Liberali Stelata, eu nasci dia dezenove de setembro de 1972 em São Paulo. Eu morava no Bom Retiro. Nasci no Hospital Beneficência Portuguesa.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Edgar Liberali e Sílvia Maria Liberali.

 

P/1 – Qual a atividade deles?

 

R – Meu pai sempre foi empresário, um empresário artesanal. Ele sempre fez estojo, faqueiro, sempre trabalhou com atividade manual. E a minha mãe, formada em Contabilidade, trabalhou na área durante um tempo, depois foi telefonista do Citibank e, quando nasceu o segundo filho - nós somos em cinco -, ela deixou a atividade profissional e foi ser mãe. Hoje é mãe e avó.

 

P/1 – Você sabe qual é a origem da sua família?

 

R – Minha mãe é de ascendência alemã e o meu pai de ascendência italiana. Região, essas coisas, eu não sei.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho quatro. Três homens, que são os mais velhos, o Edgar, o Sílvio e o Alexandre, e a minha irmã, que é a mais nova, a Rita.

 

P/1 – Qual a sua formação?

 

R – Eu fiz Magistério e depois fiz Pedagogia no Mackenzie. Fiz Psicopedagogia. E sempre atuei dentro de sala de aula. Quando eu estava no Magistério, sempre trabalhei com educação infantil em escola particular; nunca trabalhei em escola pública. Estudei a minha vida inteira, da primeira série ao quarto ano do Magistério, mas só os estágios eu fiz em escola pública. Trabalhar, concurso de escola pública eu nunca fiz, mas sempre gostei.

Eu lembro que eu tinha sete, oito anos, aquela coisa de brincar de escolinha. (risos) Meu irmão mais velho é formado em Engenharia na FEI e ele falava: “Ah, você quer ser professora. Você quer sofrer, você quer ganhar mal.” E eu sempre tive isso muito claro pra mim, que eu queria ser professora. Quando foi pra decidir na faculdade, eu fiquei na dúvida. Eu falei assim: “E agora?” Pensei em Assistência Social um momento e fiquei entre a Psicologia e a Pedagogia: “Será que é isso mesmo?” Até em Fono[audiologia], mas aí pensei: “Não, essa parte de Biologia, laboratório, não é comigo.” Eu falei: “Não, é Pedagogia mesmo, é o que eu quero.” Esse mesmo irmão tinha uma questão assim: “Já que você vai fazer Pedagogia, você tem que ganhar dinheiro. Então, você faz Administração pra ser dona de escola.” E eu falei: “Não, eu não quero ser dona de escola. Não é isso que eu quero.”

Desde pequena, eu sempre atuei paralelo à minha formação em trabalhos voluntários. A minha família é espírita, eu sou espírita desde que nasci, e lá no centro tinham as famílias que recebiam receita básica, bem assistencialista a atuação da casa. E lá tinha alfabetização de pais, então desde o Magistério eu fazia alfabetização de pais voluntariamente, ia pras comunidades. Sempre fiz um trabalho paralelo. E acabei ficando na escola particular por uma questão financeira: “Tenho que pagar faculdade e fazer, na época, trabalho voluntário remunerado.” Não tinha questão de Terceiro Setor, de ONG. Nesse centro espírita que eu frequentava quando eu terminei o magistério, eu fui conversar com o presidente do centro e falei assim: “Olha, seu Mário, se você pagar para eu dar aula de alfabetização aqui, aí eu consigo me manter aqui.” A casa não tinha dinheiro na época, para esse tipo de atividade tinha que ser um trabalho voluntário, então eu sempre fui pra escola particular, onde eu conseguia remuneração pra pagar faculdade. Na faculdade, eu saí da escola que eu trabalhava e fiquei dois anos na Telesp, na área de cultura e lazer, que não tinha nada a ver com a sala de aula ali.

 

P/1 – Como era esse trabalho?

 

R – A área de cultura e lazer na Telesp era uma área que atendia os funcionários da empresa. A gente promovia ações para os filhos dos funcionários ou para os funcionários: organização de curso de inglês, atividade cultural, atividade para filhos de funcionários; acampamento, visita ao Museu do Telefone, Memorial da América Latina. Envolvia atividades culturais e de lazer para os funcionários. Era um benefício, tanto que era uma área de benefícios da Telesp. Envolvia um pouquinho de RH, fiquei até na dúvida também: “Continuo nessa área de RH ou não?” Mas eu fiz orientação educacional e me mantive na área da Educação.

 

P/1 – Só pra voltar um pouquinho, qual foi o seu primeiro emprego?

 

R – Meu primeiro trabalho na área de Educação?

 

P/1 – Não, o primeiro mesmo.

 

R – Não vai considerar, mas é engraçado. Eu morava lá no Bom Retiro, morei até os seis anos de idade, e o meu pai sempre gostou muito de ir à sauna. Até hoje ele frequenta uma sauna lá no Bom Retiro. A minha tia e a minha mãe frequentavam uma sauna chamada Maria José, existe hoje lá no Bom Retiro, e toda quinta-feira era dia de mulher; nos outros dias, os homens que frequentavam.

Minha tia, irmã da minha mãe, morou até os meus quinze anos na minha casa com a gente. Ela saía do serviço e ia sempre pra lá depois do horário. Eu e minha irmã estudávamos de manhã. A gente ia pra lá à tarde, esperava minha tia chegar e ficava lá até a noite pra ir embora com a minha tia.

Eu fiz inglês dos nove aos quatorze anos. Eu ficava lá na sauna e quem cuidava eram umas italianonas velhas, mais senhoras. Tinha uma escadaria e tinha que descer a escada, pegar gelo ali embaixo, voltar. Pra elas era muito cansativo. Como eu passava a tarde lá, elas falavam assim: “Ah, vai lá filha, pega o gelo pra mim.” Eu descia lá, pegava o gelo. E o que eu comecei a fazer? Toda quinta-feira eu ia lá, aparecia um pessoal lá que falava inglês e elas não sabiam. Eu ajudava, entregava toalha, pegava o gelo, preparava lanche, servia a mulherada no salão. Não pagava sauna, ganhava gorjeta, ganhava graninha toda quinta-feira e ficava lá. Foi a primeira vez que eu ganhei o meu dinheiro semanal, no caso. Tinha treze anos e estava no Magistério na época. E fazia os estágios pra escola.

Um dia eu estava lá na sauna e a Edi me ligou. Eu dava aula em uma escola na Barra Funda que se chamava Tic-Tac, pré-escola. Ela falou: “Pati, eu arrumei uma atividade para eu fazer e vou ter que faltar na escola amanhã, segunda e terça.” Eram uns dois, três dias que ela teria de faltar. E a dona da escola, muito brava: “Tudo bem, você pode faltar, mas você põe alguém pra me ajudar aqui e ficar no seu lugar.” Ela me ligou para eu ir na escola cobrir naqueles dias. Fui, fiquei esses dois, três dias, a dona da escola precisava de auxiliar de maternal e eu acabei ficando. Trabalhei naquela escola no final do semestre. Eu fui pra lá na metade do segundo semestre. No ano seguinte, ela me deu uma sala e eu fiquei um ano e nove meses, quase dois anos, atuando naquela escola. Foi o meu primeiro emprego.

 

P/2 – Você já conhecia a Edi de onde?

 

R – A Edi é uma história de família: a avó dela era amiga da minha avó e a minha mãe é amiga da mãe dela. E ela e os irmãos dela são nossos amigos.

 

P/1 – E quando você começou a trabalhar nessa escola você tinha quantos anos?

 

R – Quatorze.

 

P/1 – Quatorze anos?

 

R – Quatorze anos e eu era auxiliar de sala. E você fala: “Nossa, então existe uma escola particular...” Desde que eu fazia Magistério e estava nesse emprego, minha mãe falava muito assim: “Patrícia, toma cuidado. Nessa idade pode parecer que não, mas as crianças ficam com marcas pro futuro.” Ela sempre me falou isso.

E era muito engraçado porque eu chegava lá... É quando você começa a perceber algumas coisas. Eu estava no Magistério e começou a questão da Emília Ferreiro com o construtivismo, uma outra linha de atuação, que fugia do tradicional. Eu via muita coisa no curso, mas chegava lá...

As donas da escola eram irmãs. E uma das irmãs colocava a criança de costas pra parede: “Então, agora você vai ver quantas formigas vão passar por aí.” Eu pensava assim, não desmerecendo: “Poxa, os pais pagam a escola e não sabem o que acontece.” Eu tive vários embates porque eu falava: “Não, eu vou resolver da maneira que eu acho.” E se eu fosse mais enérgica com essa criança - era o Dudu, eu não vou esquecer nunca.  O Eduardo ficava de costas e eu ficava: “Deixa que eu resolvo”, pra não gerar aquela situação. Mas eu era nova e como ficava essa argumentação?

Passei a conhecer pais fora dali. A escola era no cruzamento da [Avenida] Rudge indo pra [Avenida] Rio Branco, bem onde tem a LBV [Legião da Boa Vontade]. De um lado é Bom Retiro, do outro é Barra Funda. Algumas pessoas que eu conhecia começaram a colocar os filhos lá. E até que ponto você deixa, tendo esse tipo de educação? Isso gerou alguns embates e eu acabei saindo da escola. Eu falei: “Não, não posso concordar com algumas coisas, já que a escola não muda”. Eu tinha quatorze, quinze anos na época, fica uma situação superdelicada porque vai contra tudo o que você acredita, né? Ao mesmo tempo que eu tinha uma realização, eu tinha uma decepção, de você falar: “Não pode acontecer isso.” Até que não deu, a gente entrou em um acordo e eu fui embora.

 

P/1 – Mas você lembra da primeira vez que você entrou em uma sala de aula pra trabalhar?

 

R – Nossa, me veio o meu primeiro dia. No meu primeiro dia eu chorei tanto! Acho que até o que definiu um pouco, por mais que eu tivesse, foi a minha professora da primeira série.

Eu vim do Parque Infantil do Bom Retiro e fui para uma escola do estado gigante. Você chega, aquele monte de fila. E eu chorava, com medo de errar. Eu falava: “Acho que eu não vou conseguir aprender.” E a minha professora foi super bacana. Por isso que quando você falou ‘o seu primeiro dia’ eu lembrei desse dia. A Neusinha era a professora; ela não tinha metade do braço, então era uma figura que marcava já fisicamente. Mas [era] uma educadora ótima.

Quando eu entrei a primeira vez na sala de aula... Nessa escola, foi quando eu fui substituir. Eles todos pequenos e eu olhava e falava: “Será que eu vou dar conta? O que eu faço?” Mas eu sempre gostei muito das crianças menores, eu tinha muito afinidade, tanto que o meu objetivo sempre foi dar aula pra primeira série. Não sei se por conta desse marco meu, dessa história que eu tinha com essa professora minha, Neusinha, mas eu tinha essa coisa de dar aula na primeira série.

Eu fui ter duas turmas de primeira série, uma em 2000 e a outra em 2001, na escola particular, em Higienópolis. A criança pequena é algo que foi sempre muito fácil pra mim, era algo que eu gostava. Por mais que no início eu tenha ficado assustada porque eu tenho um tom de voz alto, e nem sempre foi assim essa conduta... Às vezes você gritar e falar: “Ai meu Deus, eu gritei! Não posso gritar, não é nada meu. O que eu estou fazendo?” (risos) Ou, se você era mais ríspida... Foi legal quando eu fui criando essa segurança. Se eu estou sendo mais ríspida nesse momento tem um motivo e se a criança chorou... No começo eu tinha uma preocupação que se eu fizesse alguma coisa diferente, e a criança chorasse, o que pensariam as pessoas na escola. Olha que maluquice! Até nessa escola onde eu dei aula, a primeira, foi muito legal porque foi onde eu comecei a criar segurança, até porque tinha que ter um enfrentamento com as donas da escola, então eu me colocava de uma maneira adequada. Tinha desafio em sala de aula, desafio com a conduta delas em relação às crianças. E pra mim era um grande desafio eu estar segura quando ela chegava e falava: “Por que essa criança tá chorando?” “Tá chorando por causa disso, disso e disso.”

Pra mim, num primeiro momento, foi assustador. O que foi mais assustador foi quando me deram mesmo uma sala que eu não era auxiliar, e foi um maternal. Porque eu sempre tive essa coisa, mesmo com a maternidade, de: “Ai, criança pequena parece que quebra.” Você chega num maternal, que a criança usa fralda, e você fala: “Meu Deus, o que eu faço agora se eu quebrar essa criança?” (risos) “Se eu não colocar a fralda direito?” Pra mim era a pior coisa, porque é essa coisa mais do cuidado e não era isso que eu queria. Pra mim foi um outro desafio. Eu fiquei mais assustada quando eu cheguei no maternal porque tinha essa coisa da fralda e eu falava assim: “Ai...” As crianças estavam desfraldando, tirando chupeta. Elas tinham dois anos, algumas nem isso. Pra mim era desesperador.

 

P/1 – E ainda tinha o problema de você ser muito jovem também, né?

 

R – Imagina, eu tinha quatorze, quinze anos. Tanto que quando eu saí de lá foi quando eu fui pra faculdade, já saí do Magistério e fui pra Pedagogia.

A minha ideia era ir embora de São Paulo, eu sempre tive isso. Desde os seis, sete anos, a gente foi muito para uma cidade que se chama Uchôa, na região de São José do Rio Preto, quatrocentos quilômetros daqui. E eu e a minha irmã, mais que meus irmãos, fomos criadas ali. Colocavam a gente no ônibus ou iam com a gente até lá, meu pai deixava a gente lá com um casal que foi praticamente meus avós, a dona Irene e o seu Diniz, e a gente ficava na casa deles. A cidade tem dez mil habitantes, na época tinha sete, oito mil, uma cidade que não desenvolve, nem tem campo pra isso. A gente circulava. Parecia hoje um condomínio fechado, vai. (risos) E a gente circulava, ia pro clube.

Eu sempre gostei dali, daquela região de Rio Preto. E quando eu acabei o Magistério, o meu pai tinha comprado uma casa de Cohab, ali na cidade de Uchôa. Eu falei: “Vou fazer faculdade em Rio Preto. Vou prestar Pedagogia e vou embora. Tudo bem?” “Tudo bem.” E muito engraçado lá, porque você só fazia inscrição e estava dentro da faculdade. Você fazia a prova por fazer. Eu fiz a inscrição em Rio Preto e em Catanduva para decidir depois, até pra me locomover de uma cidade pra outra, como ficaria mais fácil.

Na época, a minha irmã foi prestar Arquitetura no Mackenzie. Aí falei: “Quer saber? Nunca prestei USP, nada, tenho que prestar.” E inscrição, tranquilo. Questão do dinheiro, mesmo, era outra. Era caro fazer uma inscrição? Era, mas a gente tinha grana pra fazer inscrição na USP, no Mackenzie. Eu fiz inscrição, prestei Mackenzie, prestei USP, porque eu pensei: “Vai que eu não goste, não me adapte a ficar lá sozinha, ou a questão da locomoção. Vou prestar vestibular pra ver como é que é.”  Passei na primeira fase da USP, peguei pra São Carlos e falei: “Ah, São Carlos eu não vou.” Uma amiga minha, Adriana, ligou: “Ei, você passou no Mackenzie.” “Que passei no Mackenzie!” Não sabia nem o dia que ia sair a nota, nem nada. “Pega aí o Estadão.” “Quê, Adriana...” “Pega o Estadão, já chegou, tá aí?” “Tá.” Peguei o Estadão, olhei, aí tinha passado em trigésimo e não sei qual lugar. E a minha mãe: “Ai Patrícia, você vai embora...” E é um estigma em cima da profissão mesmo, da área, que existe até hoje. “Ai Patrícia, você já vai fazer Pedagogia, e vai fazer lá em qualquer faculdade? Faz Mackenzie, então, é melhor.”

Eu já tinha começado a levar minhas coisas pra lá e acabei ficando. E do segundo pro terceiro ano da faculdade que eu fui pra Telesp, foi quando eu mudei totalmente de área, saí da área da Educação. Junto com a Edi, a gente começou a dar aula de alfabetização de adultos nessa casa espírita que a gente frequentava ali na Casa Verde. Essa relação com a criança. Eu fazia evangelização infantil, que era até os treze anos. Quando eu fiz quatorze e fui pra Mocidade, eu já comecei a dar aula pras crianças de evangelização. Eu sempre tive isso muito presente.

 

P/1 – Como você foi parar na Telesp?

 

R – Uma amiga minha que fazia faculdade comigo, a Andréa, estava um ano à frente do meu, eu estava no segundo e ela no terceiro. São várias Andréas na minha vida. Essa Andréa fazia Mackenzie, era amiga de pagode do meu irmão e falou: “Ah Patrícia, está precisando de estagiário na Telesp, você não quer ir lá participar de um processo seletivo?” O prédio da Cultura e Lazer ficava lá na Augusta, bem com a Consolação, muito próximo ao Mackenzie, era só atravessar a Consolação. Eu fui lá fazer a entrevista, participei de um processo seletivo e logo comecei.

Fiquei dois anos, só que pra se manter na Telesp era só com concurso. E o Wilson, que era o meu gerente na época, falava: “Patrícia, presta o concurso, depois a gente vê como te encaminhar aqui pro RH.” Mas na época era concurso pra ser atendente, ficar vendendo cartão e umas coisas... Ficha... Eu falei: “Não, não, não.” Se eu fosse mais nova ainda, mas eu já estava terminando a faculdade, não era o que eu queria. Se fosse em um outro momento da minha vida... Porque você faz, né? Ficar lá na sauna ganhando uns troquinhos quando você tem treze anos de idade. (risos) Você faz alguma outra coisa, como na época do Collor, nessa passagem de eu sair da escola: fiquei um ano e meio, dois, sem trabalhar, só fazendo os estágios da faculdade e trabalho voluntário. Fazia curso de pintura em tecido, pintava vários panos, tinha muita coisa ali. Foi na época que pegaram todo o dinheiro da poupança e tudo o mais, meu pai ficou mal... “Coloca todo o dinheiro na poupança que tudo bem.” Ele pegou todo o dinheiro que ele tinha, dividiu para os cinco filhos, foram lá e tiraram tudo. E ele ficou numa situação mais delicada. Nossa, o que eu pintava de pano pra vender nesses dois primeiros anos de faculdade… Tecido, toalha, tudo. E fui pra Telesp. Você fala: “Não, eu quero ficar na área da Educação.” Por mais que eu tenha uma habilidade e curta pintar, mas [era] tudo por hobby, não porque eu queria fazer isso profissionalmente.

Quando eu saio da faculdade, outra vez: “Vou terminar a faculdade e vou trabalhar lá em São José do Rio Preto. Pegarei minhas coisas e irei embora.” Já estava definido. A minha irmã fazia Psicologia e uma amiga dela na faculdade, a Vera: “Patrícia, tem uma creche na Vila Olímpia que precisa de Coordenador Pedagógico.” Isso [em]  final de dezembro, início de janeiro. Eu tinha me formado, minha formatura foi no começo de dezembro. “Meu Deus, eu, coordenadora pedagógica de creche? Ah, mas é um desafio, eu vou lá conversar.”

Fui, um processo seletivo diferente, até. Tinha outras pessoas participando da entrevista. Eu comecei e fui coordenadora da creche durante sete meses, sete meses e meio, lá na Vila Olímpia. Atendia crianças de quatro a seis anos. Foi outro desafio pra mim, porque você chega e diz: “Ah, agora vou colocar em prática tudo o que eu aprendi!” Tinha a administradora da creche, que sempre levou a creche sozinha, e a instituição mantenedora resolve colocar a coordenadora pedagógica, que não existia, então era alguém com quem ela tinha que dividir. Foi todo um processo, primeiro ter uma conquista com ela e das meninas, que na época eram ADIs, Auxiliares de Desenvolvimento Infantil. São pessoas que não têm uma formação e foi na época que estava começando o movimento na atuação da creche de deixar de ser cuidadora. Não só eu deixar a criança ali pra comer, tomar banho, dormir e ser cuidada. Tinha criança que não queria dormir. Tinha a hora do sono, crianças de cinco, seis anos, a maioria não dormia. Ela tinha que almoçar e fazer a hora do sono à tarde. Foram várias questões: “Por que não mudar essa rotina? Como a gente muda isso?”

Eu tive algumas conquistas ali, foi um trabalho bem interessante, até em relação ao espaço, de pintar o muro. Você passava ali na frente e não identificava, era um muro de concreto pintado de branco, um branco gelo, sem identificação, sem nada. Minha irmã foi lá comigo, ela tem uma habilidade maravilhosa pra desenhar essa parte artística. A gente fez uns desenhos grandes, compramos tintas e pintamos todas as paredes da creche. Fazer festa junina envolvendo os pais. Foram coisas que aconteceram nesse tempo, pra mim foi importante. Aí começou a ter questões: tinha que ter um corte e estava em um movimento de dispensar algumas ADIs que não estavam cumprindo com o que precisava, de postura mesmo. E começou a ter questões entre as meninas.

Eu vinha em um movimento assim, de quando eu me formei, de ‘vai trabalhar’. E eu não dirigia. Era lá na Vila Olímpia e eu morava no Limão. O ônibus que ia pra Santo Amaro, a linha é Limão-Santo Amaro 669-A; era o ônibus que eu ia pro Mackenzie - até aí tranquilo, do Limão pra [Rua da] Consolação. Só que esse mesmo ônibus subia toda a Consolação, pegava a [Avenida] Paulista, a [Avenida] Nove de Julho, a [Avenida] São Gabriel, a [Avenida] Santo Amaro toda. Pra ir eu ia rápido, mas pra voltar, eu saía cinco, cinco e meia e chegava em casa às vezes oito e meia, nove horas da noite.

O meu pai achava um absurdo uma pessoa formada, que estudou, ganhar 400 reais e ter que viajar pra trabalhar. Às vezes ele me levava. Por mais que eu não dirigisse, essa coisa de ser independente: “Eu me viro, ando de ônibus, à pé, eu me viro.” Ele sempre acordou cedo, até hoje; ele me acordava, ia me levar. Eu voltava, chegava acabada, depois de duas horas e meia, duas horas, no mínimo, de transporte pra ir pra casa. Até que começaram as confusões lá de equipe e eu falei: “Quer saber? Eu vou embora.” Chegou em julho, eu decidi ir embora e saí da creche.

Mais uma vez: “Agora eu vou embora pra São José do Rio Preto.” “Mãe, nós vamos viajar pra Minas.” Esse casal que sempre morou em Uchôa se mudou pra Minas. Em Uchôa eu passei minha adolescência toda, até os meus 24 anos, dos sete aos 24 fui muito pra lá: Festa de Peão, Carnaval, namorados, toda a minha adolescência foi lá naquela região. Minha mãe nunca tinha viajado de avião. Eu falei pra ela: “Mãe, nós vamos pegar o dinheiro que eu recebi, vamos pra Minas, ficar em Sete Lagoas quinze dias com a dona Irene e o seu Diniz e eu vejo se vou ou não embora outra vez.” Nós fomos, ficamos umas duas, três semanas com eles, foi bem gostoso. A gente voltou e eu fiquei aqui vendo o que ia fazer e organizando; acabei não indo novamente porque em outubro comecei a namorar com aquele que é meu marido hoje. (risos) Acabei ficando e estou aqui até hoje. (risos) Esse movimento de ir, querer sair de São Paulo, sempre tive. Acabei não indo.

Comecei a namorar e uma amiga minha, uma outra Andréa, me liga. Ela e a Shirlei fizeram faculdade comigo, são minhas amigas porque a gente se conheceu na faculdade. Ela me liga e fala: “Pati, estou dando [aula em] uma escola no Pacaembu, na Peteca. Eles estão reformulando a equipe para o ano que vem.” Eu ali... “Agora estou na dúvida se vou ou se fico, preciso trabalhar.” Estava parada desde agosto. Era final de ano. Fui lá, fiz entrevista e comecei a dar aula nessa escola, ali na [Rua] Edgar Egídio [de Souza], no Pacaembu. Lá eu fiquei um tempo, também na área de educação infantil. E sempre esse dilema comigo: comecei lá com Maternal, fui pra Jardim I. Eu queria um pré, queria alfabetizar.

A questão era alfabetizar, eu tinha uma coisa com alfabetização. Eu dava alfabetização com adultos, mas tinha isso com a primeira série, com o pré, que na época algumas escolas já começavam o processo de alfabetização. A Eliane, que era a minha coordenadora na época, falava pra mim: “Você está bem aqui, por que eu vou te tirar daqui?” Eu cheguei até o Jardim II. Nessa época eu casei, em março, e já estava naquele movimento, em 99.

Em 98, eu com a minha outra amiga distribuímos vários currículos na região, em escolas que eu acreditava na linha de trabalho, com uma atuação mais participativa das crianças, que na época, até hoje, a escola é construtivista. Como é essa filosofia, como isso é trabalhado? Porque não é o método. Eu lembrava de uma professora que eu tive no Magistério que falava assim: “Porque ser mal remunerado, é sempre a escola que escolhe o educador e a gente tem que mudar isso. O educador tem que começar a escolher a escola que ele quer trabalhar, dentro do que ele acredita, e não só porque esse paga melhor ou tem um benefício.” Uma professora muito querida, Giselda, do quarto ano do Magistério e ela dava justamente aula de alfabetização. Eu pensava muito nisso, ela falou: “Porque educador parece que vai na feira, né? O que tiver tá bom. E não é isso. O que tiver mais barato ou quem faz a propaganda melhor. Vocês tem que acreditar no que fazem.”

Comecei a entregar currículos em algumas escolas que eu acreditava no trabalho. Na época, até a Edi dava aula no... Como é que chama, é uma na Rebouças... Porque no Magistério tinha uma questão de dar aula no Pentágono... Ai, a Edi deu aula lá, eu até participei de um processo seletivo, mas não passei. Mas já era algo que eu comecei mesmo a selecionar.

No final de 98 eu levei [o currículo] em algumas escolas e continuei na Peteca, mas eu tinha muito claro pra mim. O desprendimento das coisas, das pessoas, é muito difícil. Eu distribuí vários currículos e em 99 a Carlitos me chamou, no meio do ano. Essa coisa do despreendimento estava bem clara: “Eu só vou sair de um lugar que eu trabalho no final do semestre, eu tenho que concluir um processo, por conta mesmo do trabalho. É diferente de uma empresa, de outro tipo de atuação.” É um ciclo, é um semestre, um ano letivo.

Deu tudo certinho, porque eu casei em março e eles me chamaram pra atuar na Carlitos no segundo semestre. Uma escola mais classe média alta, o neto do Fernando Henrique, filha da Sílvia Poppovic. Um valor de mensalidade muito alto, que muda. É uma outra clientela que eu iria atender. Eu achava muito engraçado,  no processo seletivo tinha na ficha: “Quais os lugares que você já viajou? O que você conhece? Quais os idiomas?” Porque eu iria atuar para um outro público. E também na época já trabalhava por grupos, era grupo dois, grupos pequenos. Não tinha fralda, mas eram os pequenos. (risos) Era um desafio, mas dobrava o salário.

Eu tinha casado em março e o Vladimir também ali, com o salário, o meu, pra pagar aluguel. E dobrava o salário em uma escola muito bacana, em uma proposta de educação que eu acreditava, além do espaço físico, coisa diferente, tudo o mais. Mas era Grupo Dois. Eu falei: “Vou encarar Grupo Dois e vamos ver o que dá.” Já estava claro pra mim: “Eu não quero mais criança pequena.” Eu tinha sido coordenadora, voltar pra sala de aula não era uma questão, mas você faz outras coisas fora da sala de aula, e você fala: “Não, vou pra lá.”

Fiquei um semestre lá. Chegou no final do ano e a Manuela, dona da escola… A linha de trabalho dela sempre foi baseada na educação francesa, tanto que quando eu cheguei na França - eu fui lá pela fundação -, eu entrei em uma escola e eu fiz assim: “Nossa, eu tô na Carlitos.” Porque era nos moldes. Para as nossas capacitações, as pessoas vinham da França. Uma pessoa muito cuidadosa com o trabalho, o profissional que estava lá dentro, com a formação desta equipe dela, mas uma pessoa também muito receptiva. A gente a olhava, a Manuela, dona da escola, [como] uma pessoa muito entendida na área de Educação. Ao mesmo tempo que você mantinha uma distância, era uma pessoa acessível.

Eu lembro que no final do ano saiu uma professora da primeira série e vieram me perguntar se eu conhecia alguém pra indicar, porque iria ter um processo seletivo. Eu falei: “Eu conheço uma pessoa ótima, muito bacana, que é a Shirlei, uma amigona minha. Só que a Shirlei está gestante, então não tem como indicar.” Na época, eu ainda falei: “Ah, podia ser eu”, brinquei, mas lá tinha uma história de [que] pra você sair de um G2 e chegar numa primeira série, você tem que ir para um G4, um G5, para depois ir para o outro prédio. Brinquei e passou.

Chegou na festa dos educadores, no final da festa… Ela sempre muito cuidadosa também, a festa era um jantar pra equipe, sempre com muito cuidado. Todo mundo lá, dança e tudo. Na hora de ir embora ela falou: “Poxa, você não tem ninguém mesmo?” Eu falei: “Ah, se pudesse ser eu”, ainda brincando. Depois que eu fui embora: “O que eu falei pra dona da escola?”, nem tinha tanta amizade. Saí de férias e, quando eu voltei, as meninas da secretaria: “Patrícia, a gente não te encontrou, não te achava. Elas vão fazer um processo seletivo e queriam que você participasse.” Foi aí que eu consegui a minha primeira série na Carlitos. Pessoas que não me conheciam há muito tempo, mas que confiavam no meu trabalho, então foi super importante pra mim. Dei aula lá em 2000 e em 2001. Em 2001 comecei com uma outra primeira série.

Enquanto eu dava aula na Carlitos, eu continuei a dar aula de alfabetização de adultos em 2000, mas na Barra Funda; [se] chamava Escola da Barra e era um comitê do PT. Um amigo da minha irmã na faculdade organizava cursinho; ele sempre foi muito mobilizado, petista roxo. Ele montou uma escola perto do metrô Barra Funda justamente pras pessoas terem acesso. Nesse ano de 2000 eu dava aula ali perto do estádio. Eu descia toda a Conselheiro e ia pra Barra Funda à noite, três vezes na semana, e dava aula pra adultos. Era praticamente um trabalho voluntário.

 

P/1 – O que mudou quando você saiu do G2 e foi alfabetizar? Desafio...

 

R – Mudou o desafio, porque é uma escola que até hoje exige. A função do educador já exige, mas lá, por conta desse cuidado da formação continuada, que às vezes as pessoas falam: “Nossa, mas precisa tanto?” A gente tinha reunião semanal à noite, tinha reunião de orientação uma vez na semana de manhã com o parceiro e um momento individual. Quando eu fui pra primeira série tinha um volume de atividade e foi quando eu comecei a trabalhar com projetos, que eu comecei a iniciar depois, na fundação.

Foi na Carlitos que eu aprendi a fazer projetos na área de Português. Desde o Grupo Dois eu trabalhava com projeto, mas era algo mais amplo e mais lúdico. E o número de atividades. Pra vocês entenderem: No G2 eu trabalhava, por exemplo, com projeto de alimentação. Tinha os conteúdos, você desenvolvia o projeto, que pra criança menor era um projeto menor. Você ia trabalhar alimentação com diferentes focos durante o ano, era coisa mais pontual e mais ampla. Quando eu fui pra primeira série, além de eu ter de trabalhar com projeto, tinha o conteúdo. Então eu tinha que dar Geografia, História, Matemática. E eu tinha que dar Matemática usando o Material Dourado, que eu aprendi a usar no Magistério, e nunca mais usei.

 

P/2 – Material Dourado?

 

R – É. É um material que a escola montessoriana usa pra ensinar Matemática, cálculo, tabuada, de acordo com as barrinhas. São os cubinhos, as barrinhas, depois as placas, depois o cubão. Você trabalha as questões de multiplicação, de divisão. Pra mim era muito desafiador: crianças questionadoras, eu tinha alunos que feriado era [ir para a] Disney. Férias, um tinha ido pra África porque não tinha mais pra onde ir. A criança que vinha com uma bagagem de conteúdo, na época tinham acesso à internet já, tinham computador em casa. E eu tinha que acompanhar em uma velocidade a linguagem dessa criançada toda.

Foi muito engraçado o dia que eles falaram assim: “Patrícia, o Pedro vem visitar a gente.” A escola tinha esse movimento, porque a criança começava no G2, G1, junto, e estava na primeira série junto. Já tinha uma criança que era daquela turma e que tinha ido passar uma tarde com a gente. Tanto esse Pedro... E eu: “Tá bom.” “Não, ele vai sentar comigo.” “Não, ele vai sentar comigo.” “Ele saiu no ano passado, ele mudou pro Rio de Janeiro.” “Todo mundo tem saudades dele?” “Tem.”

Veio a secretária - a gente tinha ramal na sala, todas as salas com telefone, ramal, se eu precisasse de alguma coisa. Uma outra estrutura de ambiente educacional. A secretária veio e disse: “O Pedro vai chegar”, até que não sei quem falou: “Ah, porque é o neto do Presidente”. Aí que eu me toquei... Gente, o Pedro é quem? “Neto do Fernando Henrique [Cardoso].”

Chegou o Pedro. Segurança na porta. Os seguranças permaneceram lá o tempo que o Pedro ficou na sala. Tomou lanche com a gente. Você fala assim: “Nossa, o que é aquilo?”

Uma conclusão que eu tenho, independente de ser a Carlitos, a França, a Fundação Gol de Letra, a Vila Albertina: criança é criança em qualquer lugar! Com oportunidades diferentes. Aquelas crianças que estavam comigo naquela escola, naquele ambiente, são crianças que tinham oportunidades diferentes, falavam de uma maneira diferente, se colocavam de uma maneira diferente, tinham um conteúdo que eu tinha que viver correndo atrás, mesmo. Eu tinha que me inteirar daqueles assuntos.

Hoje eu penso muito: como trabalhar a questão de valores para esse público? Se eu pudesse hoje fazer um trabalho com esse público que _______, são pessoas que tem o poder financeiro aí. Como a gente pode trabalhar essas crianças de Carlitos, de outras escolas, em relação à sociedade, para uma atuação diferenciada na sociedade? Estar lá me fez pensar muito isso, é algo que eu penso muito. Porque eram vários desafios: eu tinha que me inteirar de projeto educacional, do conteúdo dessas crianças.

Nesse ano, eu tive uma aluna que a mãe dela... Eu falo, não é à toa. Eu, como espírita, acredito em algumas coisas, as questões das perdas foram surgindo na minha vida. Eu nunca tive uma perda próxima, de pai, de mãe, irmão. Perdi pessoas queridas, mas sempre por uma questão de doença, de idade, não que você não sinta, mas no decorrer... E eu ficava: “Nossa, quando eu perder alguém muito próximo, o que será de mim?” Eu sempre tive isso. E a minha primeira vivência, ao mesmo tempo distante e próxima, foi a mãe de uma aluna minha, da Gabi. A mãe tinha câncer e eu não sabia. No ano que a mãe dela ficou muito doente e veio a falecer, foi comigo. Eu tive que viver uma situação de perda junto com a Gabi. Naquele ano, foi um outro desafio, de ficar pensando: “Como eu vou trabalhar o luto com essa criança? Como eu trabalho isso?”

Foi uma primeira série cheia de coisas pra mim, com muitos desafios. Foi uma grande escola ali; mesmo eu tendo ficado dois anos e meio, dois anos, eu aprendi muito. A questão de projetos - tanto que, quando a Edi me convida pra participar de um processo seletivo da fundação, o objetivo da Edi era introduzir projeto no “Virando o Jogo”. Ela tinha isso muito claro porque ela fazia isso - eu não lembro o nome da escola, mas ela já tinha começado a fazer isso. Era algo que já estava na Escola da Vila. A Célia Cavalcanti veio pra fundação com essa proposta. Eu já tinha a questão de trabalhar com projeto, com a interdisciplinaridade lá na fundação.

Aprendi muito com a Carlitos e sair de lá foi um sofrimento, mas pra mim a fundação era algo que estava definido porque eu comecei em um movimento na Carlitos de embate com a minha orientadora, na maneira de conduzir questões. Porque eu não sou uma pessoa de mandar recados.

Uma coisa muito boa na fundação é isso. Eu sempre trabalhava e falava: “Nossa, eu não sei como aguentei fazer Magistério, Pedagogia, trabalhar em escola particular, que é só mulher. Só com mulher é muito chato.” É verdade. Tem a coisa da mulher em relação à vaidade e não sei… Eu fico me analisando; não sou uma pessoa vaidosa, nem nada, mas essa coisa mais mesquinha, de se pegar por umas coisas bobas. E eu nunca tive isso.

Foi muito engraçado. Na Carlitos eu tive a Bel de orientadora: ótima, uma pessoa de uma capacidade, um conhecimento bárbaro na área que ela fazia, mas uma pessoa não muito afetiva, distante, reservada. E me incomodava isso, porque ela podia falar coisas que não eram pra mim, mas ela queria que eu levasse alguma coisa pras outras pessoas, as duas parceiras minhas que eu tive de período. Eu tinha que fazer a ponte ali, até que eu cheguei e falei: “Eu não quero mais ser essa ponte entre vocês e as pessoas.” (risos)

A gente começou com alguns embates lá, em 2001. E 2001 foi o ano que eu fui pra fundação. Eu ficava meio período na fundação, [às] segundas, quartas, quintas e sextas. Eu só não ia às terças porque tinha reunião de orientação na Carlitos. Saía correndo às onze e meia e ia pra Carlitos. Eu comecei na fundação no dia 22 de abril de 2001. Eu saía correndo, sem dirigir, e vai embora, vinha aqui pra Higienópolis. Tudo a ver, né? Vila Albertina e Higienópolis.

Foi um ano bem cansativo pra mim. No final do ano, em setembro, eu engravidei. Eu estava casada já fazia dois anos e meio e engravidei pela primeira vez. E tive o aborto espontâneo em dezembro. Então, tive assim: “Ah, mas por que você discutiu? Por que você ficou nervosa? Você sabe que sua vida é maluca.” Na verdade, você fica sabendo que 25% das mulheres tem aborto espontâneo na primeira gestação. Foi um ano ali... A minha primeira perda próxima fez com que eu decidisse também. A Edi era amiga minha de família e amiga da Andréa Rondinelli por conta do Magistério, porque elas fizeram o Magistério juntas. A Edi fez Pedagogia, foi pra USP; a Andréa foi trabalhar com criança deficiente e isso é muito legal.

Eu conhecia a Andréa Rondinelli de nome, porque a Edi tinha duas, três amigas Andréa e ela chamava sempre pelo sobrenome, pra diferenciar. E os meus irmãos saíam até com a Edi, mas eu nunca fui amiga da Edi de sair, de balada, de sair à noite. Ela tem a idade mais do meu irmão, e a minha irmã frequentava a casa da Edi por conta da irmã mais nova dela, então a minha irmã conhecia a Andréa Rondinelli, já a tinha visto algumas vezes.

A Edi, quando precisou de uma educadora de leitura e escrita na fundação, entrou em contato com algumas pessoas que conhecia. Uma das pessoas fui eu, outra a Andréa, e as duas foram fazer entrevista com o Nelson Vilaronga. As duas davam aula em escola particular e as duas, até por questão de garantia -  a Andréa tinha os filhos, o marido -, as duas precisavam do dinheiro e não queriam largar uma estabilidade que tinha ali.

“Eu não vou largar o Carlitos pra ir pra fundação que eu nem conheço, um trabalho novo”. E a Edi fez assim: “Mas Pati, é a sua cara.” Ela sabia que eu sempre tive isso, sempre quis viver disso e nunca consegui. “Acho que vale a pena, mas vai pensando. Material, não tem nada que tem na Carlitos.” Na Carlitos, [a] taxa de material [era] altíssima. O que você pedia, atividade de culinária, você tinha pra fazer. Ela falou: “Olha, é uma outra realidade ali, mas acho que vale a pena você conversar.” Eu falei: “Edi, eu não vou chegar nunca.” “Vai conversar”, ela disse pra mim.

Fui fazer a entrevista e a Andréa Rondinelli também. A idéia do Nelson era pegar uma professora só, mas eu falei que não iria sair de onde estava no momento e a Andréa falou a mesma coisa. Sem uma saber da outra. O que ele fez? Ele me contratou pra dar aula de leitura e escrita de manhã, a Andréa pra dar aula à tarde e cada uma se manteve nos seus empregos. Durante 2001 a gente fazia essa vida dupla.

Eu conhecia a Andréa de bilhetes de porta de armário (risos), a gente trocava uma figurinha. Porque dava 11:30, cravado, eu tinha que ir embora, porque eu entrava às 13:15 na Carlitos, e ela chegava [às] 13:30 na fundação. Nós começamos em abril; eu fui conhecer a Andréa, fisicamente, em junho, era festa junina. E a gente se encontrou em um outro momento, depois de alguns meses.

Na época tinha o grupo de jovens, que era o Kiko, o Sidnei, o Alexandre, a Dadi, eram vários jovens. A ideia do Nelson já era formatar essa equipe, fazer um trabalho com esse grupo de jovens e montar a brinquedoteca. Ele queria mesmo ter as atividades de mediação e a brinquedoteca, que não estava totalmente inserida na grade do “Virando o Jogo”. Era uma proposta do Nelson, junto com a Edi. Porque a Edi dava aula de leitura e escrita, mas passa a ser assistente do Nelson na Coordenação, então ela tinha [os projetos] “A Cara da Vila” e mais o “Virando o Jogo”.

Era o Nelson, ela e os educadores, eu, a Andréa, a Bia de Educação Física... Eu não conheci a educadora de Artes Plásticas, Mônica, quando eu cheguei ela foi embora. Começou um formato de monitor, ficou um tempo sem educador de artes plásticas. Era jovem em formação. Em informática era a mesma coisa, que era o Marcelo.

E as salas, quando eu chego lá… Muito diferente, né? Você chega... Vocês já viram a sala da leitura e escrita? O Ricardo conhece? Não era aquela sala, era diferente, pra lá. Aquela era a sala de inglês - as crianças não eram alfabetizadas, mas tinham aula de inglês. (risos) Coitada, a professora de inglês, a Daniela, chegou lá junto comigo. Ela foi no neurologista, ela fez assim: “Acho que estou ficando maluca.” Ela fazia bingo de cor, bingo de números, pra conseguir ter as crianças na sala. E ela levava bala. Era o jeito que ela conseguiu de conquistar as crianças. E ela falava: “Eu vou ficar louca.”

Era uma parceria com uma escola de inglês. Imagina aquela menina que faz o seu inglês e dá aula na escola de inglês, CCAA, Yázigi, Fisk, não sei o que era, e colocam a menina lá na Vila Albertina, com um perfil, assim... Ela não sabia como lidar. Mas eu falava: “Daniela, você tem uma vantagem.”  “Por quê?” A gente entrava na sala e dava aula pra trinta na leitura e escrita, todas as turmas, e eram duas horas, não era a grade que a gente tem hoje. Eu dava aula das 7:30 às 9:00, uma hora e meia de leitura e escrita pra trinta. Aí, eles paravam como param hoje, uma hora pra lanche e socialização. Eu voltava das 10 às 11:30, outra aula. Eram só duas aulas com trinta. E foi o maior desafio de todos na minha vida toda, porque você fala assim: “O que eu faço?”

Tinha a Edi que era a pessoa direta, pedagogicamente, de sala de aula, que eu respondia. E o que ela queria? Estruturar o trabalho pedagógico. Até então era assim: existia o projeto pedagógico do “Virando o Jogo”. Existia o programa, mas a proposta pedagógica de sala de aula estava sendo construída ainda, não tinha. E pra mim era muito esquisito porque eu venho da escola particular, de uma Carlitos, que é tudo documentado, anotado, semanário, planejamento, registro, reunião, tudo. Eu chego lá e falo assim: “Ah, meu Deus. Eu entrego o planejamento pra Edi, mas será que está tudo bem o que eu fiz?” Uma pessoa que sempre teve uma cobrança e aí eu tinha autonomia. Ela discutia comigo, mas se eu falasse: “Eu não quero fazer isso; eu vou fazer isso por causa disso, disso e disso”, era muito bem vindo.

O bom é que eu cheguei e na turma C ela trabalhava com compositores brasileiros - coisas de Edi. E eu tinha que falar de Chico Buarque, Caetano Veloso, na Vila Albertina! (risos. Eu falava: “Meu Deus, eles não querem ouvir isso. O que eu faço?” E eram duas aulas semanais, de uma hora e meia! Nenhuma escola tem uma grade maluca dessa. Imagina você dar uma aula de uma hora e meia de Língua Portuguesa pra trinta, numa turma assim. Eu fiquei assim: “O que eu vou fazer?”

Muito do que eu fazia na primeira série eu usei [no grupo] de sete a quatorze anos lá na Fundação Gol de Letra. Os projetos que eu realizava na área de Língua Portuguesa e Literatura da Carlitos eu levei pra lá. __________ que eu falei, foi meu primeiro projeto da Carlitos de G2, eu trabalhava com a turma A do “Virando do Jogo”. Eu e a Andréa trabalhamos com futebol, vamos ver o que eles querem.

A gente saiu filmando as crianças; tem uma fita bem bacana lá, dos primórdios. A gente teve que filmar as crianças, depois eu pedi para o menino: “Agora você vai editar pra gente?” Ele fez assim: “Decupagem, você fala? Você fez a decupagem da fita?” Eu falei: “O que é isso?” “Nossa, você tinha que marcar tudo o que você gravou e a ordem!” Eu: “Ferrou! Não fizemos nada disso!!!” “Agora você vai ter que olhar fita por fita e fazer toda a decupagem. Aquilo era o nosso produto final, aquela fita. Teve dia da gente, eu e a Andréa, ficar até meia-noite lá, editando a fita do “Projeto Futebol” da turma B. E foi.

A gente entrou de cabeça em 2002, porque em 2001 o Nelson falou pra gente: “Bom, e aí? Eu preciso de alguém na leitura e escrita e eu preciso de gente na Formação de Jovens.” E a gente parceira, foi muito legal. As duas ficaram com a Formação e a leitura e escrita. Eu fiquei com a leitura e escrita da manhã e com a equipe de formação de jovens à tarde, e ela o inverso, formação de jovens na manhã, que na época não tinha monitor de área. Monitor de área foi existir só em 2005, na época só tinha mediador de leitura e brinquedoteca.

O ano de 2002 foi... Foi você que pegou no workshop que eu falei que foi o cão? Foi, porque além de ter toda a questão de mudança da fundação, teve a questão que a Andréa saiu de licença porque ficou grávida. Foi muito maluco.

Foi uma amizade que parecia que a gente já se conhecia há muito tempo. E tínhamos objetivos comuns, eu, ela e a Edi. Foi muito legal porque eu tive o aborto em dezembro de 2000. Voltei pra Carlitos decidida a sair de lá, até a Manuela não queria, falou: “Fica.” E a fundação tinha feito a proposta - o Nelson, junto com a Edi, tinham feito a proposta pra gente ficar o dia inteiro lá. Eu falei pro Vladimir: “Eu vou sair da Carlitos, vou pra Fundação, vou ganhar o que eu ganho trabalhando seis horas na Carlitos, mas é algo que eu quero fazer na minha vida. Estou cheia de desafios.” Porque era Formação de Jovens e eu fui trabalhar com adolescentes muito rápido. Eu falei: “Nossa!”

Foram muitas mudanças pra mim. Em 2001, ter uma Carlitos e a Fundação juntos, numa fundação com sala numerosa e eu: “O que eu faço?” Resolvi ler para os meninos “Feliz Ano Velho”. [Pensei:] “É da minha época de adolescência, eles vão curtir.” Curtiram, nada. As minhas aulas tinham que ser assim: meia hora eles falando. O Anderson é um querido meu, ele me chama de mãe, a Ariana... Foi a minha primeira turma de fundação, inesquecível. A turma C principalmente, que eram os adolescentes. E pra mim eram muito novos.

Os menores ainda eram uma coisa que eu lidava. Sabe ler ou não ler, está dentro da faixa etária. Tinha até quinze anos, não é como o formato de hoje, tudo direitinho. Tinha lá gente com quinze anos; os caras entravam e saíam da sala na hora que bem entendessem. Eu falava assim: “Como eu ponho limite pra isso?” Teve dia de eu me trancar no banheiro e chorar pra caramba. Eu chegar em casa e falar: “É o que eu quero, mas acho que não vou conseguir dar conta. Porque eu planejo uma coisa, entro na sala e não rola.” Eu falo pros educadores hoje: “Gente, não sei se alivia, mas o que vocês passam hoje, eu passei.”

É adaptação, mesmo.  Uma outra realidade. Além do tempo ser muito pesado, era hora e meia. Foi muito legal, porque essa turma C foi que me ensinou que tem que andar com RG, que eu não posso ir daqui lá, se a polícia me parar. Que quem revista mulher só pode ser mulher. Coisas que não faziam parte do meu mundo. Polícia invadindo casa, boca... Onde aquele lá é isso. E uma época eu dei até uma de curiosa. Eu tinha duas horas de almoço, eu saía muito na Vila. Até depois de um tempo eu comecei a não querer saber mais, porque eu me envolvia muito. Eu falava assim: “Tenho que me preservar pra conseguir fazer um trabalho.” Não que eu não me envolva, me envolve até hoje, mas como eu separo isso aqui, não levo isso pra minha casa.” Não posso ficar mal por conta de algumas questões; ao mesmo tempo, eu fazia o meu trabalho, que acredito que vai ter um resultado. Foi quando eu defini, mesmo, é na Fundação Gol de Letra que eu vou ficar.

Em 2002, eu e a Andréa, a gente tem esse formato: leitura e escrita em um período, formação no outro. Em agosto a Andréa saiu de licença-maternidade. A gente foi muito cúmplice porque eu tive o aborto em dezembro e a Andréa ficou grávida em dezembro. E pra essa menina me contar que estava grávida depois do meu aborto? “Agora quem está grávida sou eu.” E ela já tinha duas crianças, o Mateus e a Camila. A Catarina foi o temporão, a raspa do tacho. A Camila já estava com sete, oito anos. E ela não esperava uma gestação naquele momento, naquela época.

O segundo semestre foi bem difícil, porque saiu a Andréa de licença e fiquei eu dando aula de leitura e escrita pros dois períodos, fazendo formação nos dois períodos. A Edi, dizendo que iria embora a qualquer momento porque não dava mais. O Sóstenes chegou em maio, tentando organizar toda a casa. Por isso que naquele dia no workshop eu disse: “Foi o cão aquele ano.” Juntaram várias coisas, pra mim eram vários desafios.

Foi o ano que eu, a Edi e a Andréa mudamos a grade do “Virando o Jogo”. Foi uma conquista, a grade horária que a gente tem hoje: aulas de uma hora, não mais três turmas de trinta crianças. A gente forma seis turmas de quinze, dezessete, porque aí muda o número de atendimento pra duzentos. E aí, a gente consegue turmas com números mais adequados para uma proposta educacional. Você dá aula de uma hora de leitura e escrita, educação física; independente da área, é mais tranquilo.

Em 2002, pro “Virando o Jogo” tem essa grande mudança, que foi a mudança pra quem estava ali na ponta, muito significativa. A gente muda o formato de atendimento da rotina. A gente começa a pensar em atividades pra socialização, porque era assim: “Patrícia, você dá aula das 7:30 às 11:30.” Só que das nove às dez era intervalo. O que fazer de intervalo?

E a Helena, sempre muito envolvida. Quando eu chego lá, a Helena, depois, passa a ser legalmente minha estagiária. A Helena, na socialização. E vamos bater corda, botar uma bola, porque as crianças ficavam soltas e não tinha quem ficasse com elas. Era o educador. A Edi começa a pensar em tudo isso, junto comigo, com a Andréa. Como a gente muda isso? Não dá pra essas crianças ficarem soltas ou eles vão pular muro, vão detonar tudo. Vamos propor atividades. É quando a gente pensa em uma proposta de socialização com atividades pré-estabelecidas.

Foi um ano de muita mudança. O pessoal da sede, Luciano, Robertinha, Rose, sai das Perdizes e vai lá pra Vila Albertina. Pra gente é novo estar com a Rose, que não ficava muito ali com a gente, a pessoa que cuida da parte financeira, que ninguém se aproxima, tinha umas lendas assim. E você olha e fala: “Nossa, quem manda aqui é ela.” A gente via o Raí na época, em 2001 eu praticamente não via. Como a sede não era lá, qual era o movimento? Eles geralmente encontravam as pessoas em Perdizes e depois levavam pra fundação, então até essa visita chegar lá…

Entrevista, gravação, geralmente eram marcados à tarde. Eu fui ver o Raí depois de muito tempo. E foi muito legal pra mim: quando a Edi falou “Fundação Gol de Letra”, eu fui saber que era do Raí depois que eu estava lá, eu não sabia que era do Raí. (risos) Quando eu fui pra entrevista: “Ah, gostei. O que eu vou ter de fazer? De horário, vou tentar porque vou ter que ver se chego lá em Higienópolis” e tudo o mais. E aí fiquei sabendo que era o Raí o instituidor, junto com o Leonardo.

Foram muitas emoções em 2002. Tem gente que fala: “Nossa, como você lembra?” Tem coisa que marca, né? Mesmo a Andréa. A gente saiu de uma reunião [no] dia trinta de abril que era pra discutir questão de salário, a Rose, estava tudo muito confuso. Tinha criado, não sei se em abril já… Já tinha a Mônica da comunicação e a Carla, que seria a pessoa, não era a DI, era captação de recursos. Foi quando começou uma área de Comunicação e o DI. Vieram Bia, Léo e o Raí para conversar comigo, com a Edi e com a Andréa. E era um clima tenso, de insatisfação de várias pessoas. Tinha o Giva, que foi chamado em janeiro. Ele surgiu em alguma história já?

 

P/2 – Quem era o Giva?

 

R – O Giva foi a pessoa que veio pra ser coordenador geral da unidade, ele era uma função Sóstenes. Só que acabaram colocando ele como Coordenador Geral Pedagógico. Por que? Porque a Célia e a Rose eram as autoridades ali dentro, mas a Célia era a área social. E eu, que ficava meio período, eu não entendia algumas coisas. Então a gente tem a Célia, coordenadora social, o Nelson, coordenador pedagógico, a Rose é coordenadora financeira, sei lá. E vem um Giva? O Giva era pra coordenar tudo, mas não teve essa aceitação, aí veio a Célia Cavalcanti, pra dar um suporte na área pedagógica pra Edi.

Tinha essa questão do relacionamento do Nelson com a Rose, eles eram casados. E eu vim saber tudo isso muito depois. Eu achei que ninguém tinha a ver com ninguém, era tudo profissional. (risos) E aí, você fala: “Quantas relações misturadas.” O Giva veio em janeiro de 2002. mas ele ficou só até a metade do ano porque veio o Sóstenes em maio. E o Sóstenes…

O que eu vejo? Eu, mais de fora? Tinha que fazer alguma coisa. Aquela equipe, daquele jeito, acho que nem mediação de conflito. Não dava. Eles iam lá pra reunião no G5, voltava todo mundo soltando faísca e num desentendimento muito maior. Por que? Tinha um foco mais, não posso dizer assistencial, mas os critérios não eram como é hoje. A Bia, enfermeira, colocava as crianças, tinha uma conversa com a Célia pras crianças serem inseridas. Não tinha os critérios como a gente tem de um tempo pra cá. Porque esse, não esse. Não que elas não pudessem colocar, mas tinha que estar claro. Como a gente explica pra comunidade que é o fulano e não o beltrano? Essas coisas não ficavam claras. E essas informações eu não tinha acesso; eu tinha mais na ponta, quando você olhava e falava assim: “Nossa, essa menina tem cinco anos. O que ela está fazendo aqui?” E por que não justificar para o educador o porquê daquela criança de cinco anos. E a criança mentia. A criança falava que tinha seis, sete, mas ia na Emei [Escola Municipal de Educação Infantil]. Como ela tem sete se vai na Emei? Era só justificar, porque a gente teria argumento pras outras crianças.

Veio o Giva, junto com a Edi, o olhar pedagógico. O Nelson vai embora, uma saída meio estranha. Vai embora e a gente fica ali. Você faz formação, era a pessoa que acreditava em formação, foi embora. Mas que bom, tem a Edi, é uma pessoa que eu confio no trabalho profissional; não era uma questão pessoal, era uma questão mesmo profissional. Eu acredito no trabalho que ela faz, na Sônia, na Célia Cavalcanti, nessas pessoas, então vamos embora. Eu, a Andréa e os outros educadores, a gente foi tocando, mas tinha uma diferença do educador. Por exemplo, a Bia, que era professora de Educação Física da manhã e o... Como ele chama? O professor da tarde, o Henrique, que estava lá desde o começo. O educador inscrevia as crianças em vários torneios e a gente não tinha time de futebol. A gente avaliava que era frustrante. A criança participava de Copa isso, Copa aquilo, quando chegava lá eram times formados do Pinheiros, do Sírio, de escola particular. Ah, só pra inserir porque é da Fundação Gol de Letra? E a gente questionava muito isso. E aí formaram-se grupos mesmo. Aquela coisa mesmo: o Henrique é do grupo da Célia, a Bia é do grupo da Edi. Estava dividido mesmo, as pessoas estavam divididas.

Por isso que quando tem uma fala de quebra… Eu achei muito legal, eu falei: “Que bom que ela tem essa percepção.” No workshop, não sei se foi você ou a Márcia que falou: “Nesse momento de 2002”, não sei o termo que vocês usaram, mas foi um termo que foi: “Abafa, não queremos falar sobre isso aqui nesse momento.” Foi legal que vocês tiveram essa percepção, porque foi um ano de muitas coisas. Mudança de equipe, grupos fragmentados. [Da] pessoa chegar e falar assim: “Vocês mandaram essa pessoa embora? Não, tinha que ter cortado a cabeça desse.” Você ouvir isso de pessoas da comunidade, que atuavam dentro da fundação, você fala assim: “Nossa, alguém tem que segurar essa rédea aí. O negócio está complicando.” E foi mesmo. As pessoas tiveram que ser mandadas embora.

A gente também ficava preocupada. Eu e a Andréa ficamos: “Não, quem vai embora?” A gente não sabia quem ia embora, a gente sabia que uma mudança era necessária. E que, no caso, naquele momento, era mesmo mudança nas coordenações, era o estratégico mesmo. Foi o que o Sóstenes fez. Tinha que ser. A situação pegava pra gente na ponta, mas era uma questão mesmo das coordenações que estavam em desentendimento, não estavam falando a mesma língua, do que queremos, por que queremos fazer diferente. Não tinha uma escuta de um pro outro.

E eu e a Andréa Rondinelli ali naquele meio. Foi quando o Giva sai na metade do ano, sai a Mônica, a Carla da captação. Foram pessoas que entraram e saíram, tiveram uma passagem rápida na fundação, mas em um momento muito significativo. Como o Sóstenes comentou, teve coisas que ele não sabia, que ele foi saber depois, que não contaram pra ele sobre como estava a situação. E aí que eu vejo, depois de muitos anos, que ele também foi saber de coisas no desenrolar da história. Não é que ele chegou lá sabendo o que está acontecendo. “O que eu tenho que fazer?” Ele teve que segurar. Por isso que eu falei o nome dele, ele segurou uma situação muito crítica, ali, naquele ano. Foi bem estressante pra algumas pessoas. Eu estava numa posição de “o trabalho tem que rolar”, indignada com algumas coisas: “Não, não pode acontecer. Está acontecendo? Não pode, neste lugar vai acontecer isso? Não!” Um lugar que eu acredito, né?

Foi um ano de mudanças mesmo. Quando chegam a Olga e a Mônica, eu acho que elas falaram isso. E falaram aquele dia, não sei se no workshop ou a Olga colocou. Em algum momento, eu lembro que alguém estava junto e tinha alguém do Museu. Era meio que a salvação pra quem ficou. Eu, a Andréa. A Edi foi embora, o Nelson foi embora. A Mônica... A gente tinha ali, depositava muitas coisas na Mônica, na Olga, tanto fisicamente... A sala, não sei se falaram pra você. A sala do social era de reunião. A sala que vocês apresentaram, que fica o datashow? A sala do social era lá e o pedagógico era onde eu estava. Quebraram a parede. “Temos que ficar longe, senão solta faísca.” Uma coisa bem complicada. E quando elas chegam, junta.

 

P/2 – Então, vamos falar de 2003. É isso?

 

R – É. Em 2002 a Edi vai embora. Ela já tinha sinalizado várias vezes pro Sóstenes: “Não dá mais, eu não vou ficar, não vou ficar. Já deu o meu tempo.” E eles começam a pensar em como reestruturar essa equipe. E uma coisa que eu acho legal, eu sempre falo isso: na fundação, por mais que a gente tenha que pensar no perfil da pessoa, não tem ali a coisa do “quem indica.” Isso eu acho muito legal ali dentro. É necessário. Como eu, enquanto coordenação hoje, ou mesmo quando eu era educadora. O que acontece: “Nós vamos abrir seleção pra educador de Música. Cláudia, você conhece alguém? Ricardo, você conhece alguém? Indica.” Por que? Porque a gente que está lá dentro sabe o perfil da pessoa que tem que estar ali vivendo naquela comunidade, com aquelas crianças. Uma vez perguntaram: “Pati, precisamos de alguém pra leitura e escrita, você tem?” “Eu tenho a Shirlei”, que é aquela minha amiga que eu falei anteriormente, que estava gestante. Só que hoje ela está na Carlitos. (risos) Ela não vai sair da Carlitos pra vir pra cá.”

Era isso. A gente tem uma sacada, mas que é muito legal pra determinadas funções, a não ser que seja função que já tenha alguém lá dentro que possa assumir. Como eu, era educadora formadora e eu assumi uma coordenação do “Virando o Jogo”. A Valéria, que era assistente da Olga na área social, assumiu a Coordenação dos Jovens. Isso é bacana porque é uma valorização de quem está lá dentro. Mas, quando abri, e isso foi muito importante essa transparência, ainda mais por ser uma ONG, no movimento que a gente veio de 2002, foi um processo seletivo.

Eu não sei se a Olga contou, se a Mônica contou: foram várias fases que elas tiveram que passar, com muita gente, pra chegarem ali e serem selecionadas. Isso, pra mim na época, enquanto equipe, foi muito importante. Eu acho que seria diferente se eles chegassem com algum outro, que era conhecido, era amigo ou referência. Eu acho que naquele momento tinha que ser como foi mesmo, alguém muito neutro na história, muito imparcial, tanto que a gente estava legitimando a Mônica ali com unhas e dentes. E o que foi bacana, que é a importância pra gente. Porque a Andréa Rondinelli, como eu falei, estava de licença-maternidade naquela época. Ela saiu em agosto de 2002 em licença. A Edi, com a Zélia... Até a Edi por conhecer muito a mim e a Andréa na atuação profissional, não só pessoalmente, ela teve um cuidado assim: “Pati, a gente vai contratar uma pessoa pra ser coordenadora pedagógica e uma pessoa pra ser a coordenadora social.” Muita gente questionou: “Por que não a Andréa Rondinelli?”, por conta até do perfil. Se vocês tiverem a oportunidade de conhecer a Andréa... Pelo jeitão da Andréa, uma postura mais de liderança que a minha, a maneira de se colocar, a maneira de atuação. Mas não podia ser ninguém, nenhuma de nós, naquele momento. Isso estava muito claro. Eles contratariam alguém nas duas áreas. Teve um cuidado no sentido de: “A pessoa que chegar vai precisar de um assistente.” A Edi, chegou até pra ela, porque é difícil, não é uma posição só enquanto coordenação, não era só a minha coordenadora. E aquele cuidado por eu e a Andréa sermos amigas e ela, e o momento que estávamos passando.

O que ela definiu? A Andréa ficar como assistente, sai da Formação de Jovens e da leitura e escrita, vai pra Coordenação, passa a ser assistente da pessoa que chegar - até então não tinha essa pessoa. E eu ficaria totalmente com a Formação de Jovens, saio da leitura e escrita e chega uma pessoa pra leitura e escrita.

Fiquei com a leitura e escrita em 2001 e 2002. Em 2003 eu já peguei só a Formação de Jovens, manhã e tarde. Mediação de leitura e brinquedoteca. A Edi sai, tem toda uma passagem. Quando chegam Mônica e a Olga, a gente deposita nas duas tudo o que a gente acredita (risos). “Olha, vocês duas vão ter que segurar uma onda”.

2003 ainda ficou naquele movimento porque ficou aquelas pessoas. Tinha o Luís Fernando, que era da área social, que fica um pouco com a Olga, junto com o Alexandre. Depois eles vão saindo aos poucos - não sei precisamente como saem -, porque chegou uma situação das pessoas não se olharem. O Fernando era uma pessoa que, a gente que estava ali e sabia de histórias, não queria nem ver o cara na frente. Uma situação muito delicada. A Olga tinha que segurar uma onda forte ali no social, com um grupo de Mulheres em Ação, pessoas da comunidade que tinham uma Bia e uma Célia como referência. Pra elas, eu vejo assim, que foi um superdesafio. Um não, vários desafios. Como a gente conquista as pessoas? Como a gente une as equipes? Como a gente fala a mesma língua? Pessoas que estão chegando em um lugar novo, então elas tinham que se adaptar à fundação e se adaptar às emoções de toda aquela equipe que ficou. Mas chegaram bem, chegaram chegando (risos) e são duas pessoas chaves, junto com o Sóstenes, que foi a pessoa que foi mexendo e contratando essas pessoas.

Dessa história toda sobrou a Daniela Dias. Não sei se alguém já comentou da Dani Dias, era a pessoa que ficava lá onde fica o Vagner. Ela não é uma coordenadora, ela estava abaixo da Rose. Era a discípula da Rose, uma pessoa autoritária, que impõe. Bonitona de natureza, muito alta, que impõe uma presença já física, de estilo. Mas as questões... Ela fechava aquela cortininha e: “Ninguém me atrapalha porque estou fazendo a folha de pagamento.” Era algo tão imposto e tão autoritário que choca as pessoas. Como eu sempre falo, é a maneira de fazer. Ela podia falar de outra forma. Eu vejo que assim foi com a Fátima que ficou com o RH, é com o Vagner. Fechar folhas de pagamento não é fácil, você precisa fechar a cortininha e ficar sozinho, mas era o jeito que a coisa vinha pra gente. E sempre foi assim, dessa maneira: “Agora não posso!” Uma coisa bem: “Quem manda aqui sou eu.” Uma coisa bem assim: “Quem é ela pra achar que vai mandar em alguma coisa?”

É uma pessoa dessa época da Rose, da Célia, que permanece ali. Acho que ela saiu em 2003, porque pra mudar tudo, a Dani não cabia mais ali. Também é uma pessoa que foi afastada. Fica a Dani, aí ficam algumas coisas, porque a Mônica e a Olga têm que se adaptar. E com várias falas. Foi uma posição muito difícil pra elas. Imagina, todo mundo falando na orelha delas e achando coisas, porque era a minha interpretação, a interpretação da Andréa, dos outros educadores, de pessoas, que elas ouviam, ouviam. Foi um momento que elas tiveram que ter de muita escuta, pra conseguir organizar tudo, praticamente. Foi uma reestruturação ali, junto com o Sóstenes. Formou um tripé ali, pra organização, mesmo, pra mudança toda que teve. E por isso aquela história não aparece mais! A gente foi organizando a casa.

 

P/2 – São novos tempos?

 

R – Novos tempos, tempos de conquistas, amadurecimento. Porque aí você… Como eu, sempre cuidei de lista de “Virando o Jogo” e sempre da rotina. É o segundo ano que eu não mexo na grade do “Virando o Jogo”, do ano passado pra cá. Eu lembro [de] montar a grade horária do “Virando o Jogo” com a Andréa: quem vai ter aula do quê, que horário, que educador pode e quando. A gente tinha dança de segunda e quarta, teatro, música. Uma época, capoeira de terça e quinta. E você tem o profissional que no final do ano fala pra você: “No próximo ano eu só posso ficar de terça e quarta. Não posso mais de terça e quinta porque arrumei emprego.”

A gente montava a grade dentro das nossas necessidades, do que a gente acreditava para o aprendizado da criança, pra rotina, mas junto com os educadores. Hoje, eu falo muito pra Valéria: O Programa Jovens está num momento de reconstrução. Tem coisas que é você que vai ditar, no sentido [de]: “O programa, pra dar certo, vai ter que funcionar assim.” Você não está excluindo ninguém, mas a partir do momento que você dá um tempo pra sua equipe se moldar àquilo, você consegue organizar. Porque foi isso que aconteceu comigo e com a Andréa quando a gente foi fazer a Formação de Jovens. O Nelson fez assim: “Façam Formação dos Jovens.” “O que a gente faz, Edi? O que vocês querem? Que formação é essa?” “Pra que eles atuem na mediação de leitura e na brinquedoteca.” E a gente era financiado pelo IAS. A gente comprova material, eles faziam capacitação. Eles tinham a Adriana Klysis, que é uma brinquedista maravilhosa que durante três, quatro anos, ficou comigo aos sábados, fazendo oficina com os meninos em formação na brinquedoteca. Eu participei de capacitação, de como fomentar uma brinquedoteca e organizar esse espaço, junto com a Andréa. A gente começou a construir isso e foi uma desafio, estou lembrando agora. Como falei, as coisas vão voltando.

Eu não tive tanto na minha equipe, mas a Andréa teve situações de enfrentamento desses jovens. Os meus eram mais tranquilos. (risos) Dela sentar pra fazer reunião com os caras e eles ficarem lendo jornal: Sidnei, Breno, e não olhar na cara dela. E depois levantar, ir embora e largar ela sozinha, literalmente. Você fala assim: “O que eu faço agora?” Ela ficava arrasada.

E eu, a Edi e ela, começamos a pensar: “Bom, vamos organizar.” Foi aí que criamos os direitos e deveres dos mediadores. Porque eles falavam assim: “Vocês pensam que são quem pra tirar a gente daqui? A gente não vai sair daqui. A gente é bolsista, vocês não podem tirar a gente daqui.” Foram várias falas de enfrentamento que passamos com eles. Aí o cara faltava e chegava no outro dia e fazia assim: “Nossa, você não veio?” “Não, fui com o Raí lá pra receber o prêmio tal.” E ninguém avisava. Uma vez teve uma jovem que disse assim: “Nossa, muito legal. A gente chegou lá e o avião estava só esperando a gente para decolar.”

Por isso que eu falo: [eram] jovens maravilhosos, inteligentíssimos, protagonistas, todos os termos, pró-ativos. Mas como se dava a condução desse jovem? E quando a gente chegou pra organizar e colocar alguns limites, eu e a Andréa vivemos várias situações de enfrentamento. Por isso que eu falo pra Valéria: “Val, calma. Organiza. E dá prazo.” É aprendizado, né? Se a gente chegasse lá e falasse: “Então, agora a formação é de dois anos.” Não, a gente pensou: “O que é bacana? O jovem ficar dois anos.” “Por quê?” E a gente foi discutindo isso, eu, Edi, Andréa e Zélia. E a gente foi fazendo a formação, pensando nessa formação de dois anos, com uma bolsa, que valor é esse? Assina uma folha de presença ou não? Se o cara faltar, o que acontece? Aí a gente tem os direitos e deveres. E ele tem direito a que? Tem direito a opinar, a ser crítico. Tem que participar das reuniões. Que espaço é esse que a gente dá para esse jovem?

E qual foi a estratégia? Um dia nós sentamos com todos eles e falamos: “A partir do ano que vem vai funcionar dessa forma. Até o final do ano vai continuar assim, depois vai mudar.” “Por quê?” “Porque a pessoa podia se planejar.” Foi nesse momento que alguns foram e outros ficaram.

 

P/2 – Se queria estar no grupo ou não.

 

R – É. Foi o momento do cara pensar mesmo. Da maneira que eu estou fazendo ou quero fazer, não vai ser tão possível assim.

Quem ficou foi muito bacana. E eu me sinto à vontade de falar e falar desses jovens, porque são jovens muito queridos. Hoje, quando encontro o Sidnei, a Dadi… Não foram questões diretamente comigo, foram mais com a Andréa, ali, no tête-à-tête, e foram situações que depois eles se falaram, se desculparam. Foi muito bacana essa vivência. Se desculparam no sentido, não de: “Ah, estava errado”, mas de conseguirem perceber as coisas e pensar sobre aquilo.

A gente começou a estruturar mesmo o trabalho de formação dos jovens em 2003. Começou em 2002, mas foi muito difícil. Em 2003, também essa formação, que aí eu fiquei à frente, sozinha. E foi um outro desafio. A Andréa como assistente da Mônica, com questões mais burocráticas, administrativas, e eu ali na ponta com os jovens, com essa organização da rotina do “Virando o Jogo”, eu sempre...

Quando a Andréa foi embora pro Canadá fez assim: “Não, muita parte é sua.” Não, é da Fundação Gol de Letra o “Virando o Jogo”, não é da Patrícia. Mas a gente construiu, aquilo da gente construir, fazer todas essas mudanças. Vejo que teve crescimento - foi só crescimento, mesmo, que é algo que preocupa até hoje, né? (risos). Temos pernas para tudo. Dá pra abraçar tudo?

Em 2005 a gente começa com a formação de monitor de área. O que a gente começou a perceber? A gente tinha os jovens que ficavam dois anos no FAC e pra onde é que vai esse jovem? A gente tinha jovem que se destacava. Opa, o educador do VJ [Virando o Jogo] ter alguém junto é importante. E a gente tem onde colocar esse jovem que já tem uma bagagem maior, que é um multiplicador, que a gente acredita. Por que não juntar isso no VJ? Em 2005 tem a primeira equipe de jovens e a maioria deles veio das oficinas do programa de jovens: Cléber, Isaías, as meninas da dança, vieram dali de quando tinha as oficinas artísticas junto com a gente. O Wanderley, que foi monitor nosso nas artes plásticas. Até a formação a gente começou a questionar, porque a gente começava a formação e esse jovem - é o que a gente quer até hoje e a gente fala pra ele - [deve] criar asas pra outros lugares. Apesar de eu falar pra eles que eu vejo todos eles voltando e sendo um coordenador, um educador. Eu falo: “A Patrícia não tem vida longa. Já tenho oito anos lá, mas não é ad aeternum na Fundação Gol de Letra.” Eu falo pra eles, as pessoas da fundação não são eternas, vocês são dessa comunidade.

Acho muito bacana esse movimento de volta deles. A Ariana, que hoje é estagiária da leitura e escrita. Ela foi minha aluna lá na minha turma C. Isso é muito bacana. Você vê que é uma pessoa que está lá. E outras, independente de ser da área da educação, ou não, voltarem de uma outra forma. Eles entenderem que aquilo pertence à comunidade. Nós conduzimos, mas eles... Sentir-se pertencente, mesmo, àquele espaço. Eu fico vendo que é importante esse jovem estar ali e como a gente mostra isso pra ele. Quem garante que o Wanderley não possa ter uma atuação, ali, efetiva?

 

P/2 – Voltando, né?

 

R – Voltando. Pra mim, eu acho que é o máximo eles estarem ali. O quanto é importante pra esse jovem o vínculo. Tanto que é uma preocupação que a gente tem. O que a gente observa? Que o jovem não consegue se desligar. Essa ida, esse: “Vou voar, vou ter minhas conquistas e depois posso voltar, ou fazer coisas paralelas aqui”, são poucos. Por que? Porque tem jovem que não quer ir embora. Ele fica ali, acha que a Fundação é o único recurso, é um porto seguro. Até que ponto a gente dá autonomia pra esse jovem? É um questionamento que a gente tem.

 

P/2 – Até porque ele vem de criança, né?

 

R – É. Hoje é isso. Hoje a gente está... O Ricardo que circula mais ali. Se eu pegar a equipe de jovens que eu tenho hoje em formação, entra os monitores de área e os mediadores de leitura e brinquedoteca, que são trinta. Hoje, uns dez, doze, se não tiver mais, são do “Virando o Jogo”. É a leva que saiu, completou seus quinze anos. Pra ser mediador é a partir dos quinze, monitor a partir dos dezesseis. Fica pelo menos um ano como mediador. Ou foi para o Banco do Brasil. Porque a gente questiona: “O cara vai para o Banco do Brasil, fica um ano lá, ganha um salário mínimo e volta. Volta ganhando uma bolsa de 130 reais.” Tudo bem que tem uma questão da idade, ele entra no banco com quinze e sai antes de completar seus dezessete.

 

P/2 – Você falou do menor aprendiz?

 

R – Isso. No Banco do Brasil, que é uma parceria que existe. E olha isso, o cara volta pra ser mediador. Claro, volta com uma outra postura de responsabilidade e tudo o mais. Mas é isso: por que ele não foi pra outros lugares?

A gente sabe que tem uma questão de emprego, menor de idade, vai fazer dezoito anos, menino, tem exército, enfim, tem todas essas questões. Mas como a gente ainda fortalece esse jovem pra ele buscar outras coisas que não só a fundação? Também é uma preocupação e um cuidado que a gente tem nesse sentido. A gente diz: “A gente não quer vocês aqui embaixo da nossa asinha. É importante vocês voltarem.” Que nem os jovens que aparecem: “Ah, Patrícia, vai até lá. Vai fazer uma visita.” Somem, mas você tem notícias. E sabe que estão estudando, atuando de alguma forma, têm um projeto de vida. É isso que a gente quer.

A Cláudia - ainda não falei da Cláudia, né? Ela é importante. Quando começou a Formação de Jovens, porque eu deixei a formação e fui pra Coordenação, a Cláudia fez uma dinâmica de sexualidade e ficou inconformada porque tinha uma dinâmica da bexiga. O jovem coloca a bexiga na barriga - imagina vocês grávidos, independente de ser menino ou menina. E imagina o que mudaria pra vocês essa gestação. Não todos, mas vários: “Nada.” E a Claudia: “Como não muda nada?” Qual a perspectiva, o projeto de vida desse jovem? Eu vou ficar grávida e não vai mudar nada na minha vida? Não conseguem associar com nada, nem na relação física do espaço da casa, nem na vida escolar, na fundação. Nem sinalizar assim: “Ah, eu sei que eu vou ter que sair daqui.” Não, não muda em nada.

A gente quer que pense sobre isso. Lógico, a gente quer o melhor caminho, mas independente do caminho que ele construir, qual é essa expectativa? Por isso que a fala do Wanderley, essa quebra no ciclo familiar dele, que vem ali. O Sóstenes gosta dessa história, as pessoas gostam. Por quê? Porque quebra esse ciclo: “Eu não quero ser pedreiro. Eu ainda não sei o que eu quero ser, mas pedreiro eu sei que não quero ser.” Muda uma referência familiar, de colega, da comunidade. Isso pra gente é muito importante.

 

P/2 – E ele vai pra cultura, pras artes.


R – É. Porque aí, o que acontece? Ele contou pra mim; naquele dia no workshop, ele relembrou só. Ele deve ter contado aqui, lógico. Ele era um cara muito bom. Eu trouxe uma foto, está na mesa da oficina do Museu da Pessoa.

Ele fazia oficina de grafite do museu, um cara envolvidíssimo com tudo na fundação. E ele vai pra monitoria de Artes Plásticas porque ele grafita muito bem, um cara muito articulado. Ele vai, tanto que quando eu vejo ele numa oficina de dança do FAC eu falei: “Wanderley, o que você está fazendo aí?” “Cheio de menininha, né? É a oficina que tem mais mulher.” (risos)

Ele foi com esse intuito e virou uma referência masculina na área de dança; até então era só o Sidnei e o Wanderley passa a ser uma outra referência. E é muito legal que acabam acontecendo as apresentações, ele está nesse grupo e sai o produto do Ivaldo Bertazzo. E o cara vai, passa com os pés nas costas. Ele se destaca.

Não sei o número, mas foram vários da fundação que ficaram no Ivaldo, que estão no primeiro espetáculo. Que estão hoje lá não são muitos, não sei se são dois ou três, não tem muita gente, não. Ele se manteve, ele viu que a dança... Ele tem essa questão artística cultural muito forte, muito presente e continua frequentando a fundação da maneira que pode. Ele continua ali com a gente, fazendo trabalho voluntário; ele aparece na oficina, circula muito bem ali.

Isso é muito legal. Uma comunidade que vê o cara todo arrumado. Tem outros? Tem. Tanto que eu, que sempre fui de condução pra fundação, descia sempre na Pedra, mais pra baixo, você vê uma pessoa ou outra vestida ou com uniforme de alguma empresa. Uma mulher que é atendente de um laboratório, alguma outra referência, você fala: “Nossa, é difícil.” E você fala: “Olha que referência outra, que não é uma atividade de limpeza só, ou só um pedreiro.” Como o Wanderley fala: “Não menosprezando, mas como eu quebro isso? Eu não quero ficar carregando peso.” Ele falou tanto pra mim no meu grupo: “Eu não quero ficar carregando peso, não quero. Eu quero fazer outra coisa, eu consigo pensar outras coisas.”

 

P/2 – Legal, isso.

 

R – E a gente conseguir é uma conquista, né? Acho que aí a gente atinge a nossa missão: você dá a oportunidade pra pessoa se descobrir, descobrir que pode outras coisas. Porque aí ela vai conseguir transformar. Ela tem que se conhecer.

A gente não pode parar de pensar se está criando esses momentos ou não pra esse jovem, ali na fundação. Isso é uma busca constante. Quando tem uma quebra de um programa de jovens, no ano passado, que era a grande questão [no] final de 2007... Quando a Olga, a Mônica e o Sóstenes iam se reunir, porque tinham questões que até então não sabíamos; eu não sabia que era financeira. Você fala assim: “O que será que está acontecendo? Será que é só uma mudança de programa? E pra onde eu foco esse programa? O que vai ser agora? É emprego, é lei do Aprendiz?” O Raí está ali, numa liderança da Lei do Aprendiz. É isso que a Fundação quer? Mas e a parte cultural e artística? O que a gente faz com isso? E todas essas questões em xeque. A gente faz uma formação profissional desse mediador e desse monitor? Não, o que a gente quer? Isso é algo que a gente tem que constantemente discutir, para não perder de vista.

 

P/2 – Não perder o foco.

 

R – Não, senão... E é muita parceria, muita busca de pessoas. Por um lado é bom, mas como a gente controla? Eu tive um amadurecimento muito grande depois que eu fui pra coordenação. Por mais que você tenha… Tem gente que fala assim: “Patrícia é a pessoa que conhece o “Virando o Jogo””. É é muito legal pra mim isso, importante, por isso que eu vejo como amadurecimento, porque é um outro olhar. Um olhar de educador, formador, que não tem acesso a uma planilha, a conversas que dão as diretrizes pra Fundação. E você fala assim: “Como a gente pode mudar? Como a gente organiza determinadas situações? Como você deixa sua equipe segura e, ao mesmo tempo, em alerta?” O que aconteceu no ano passado no Programa de Jovens? Eu vejo que foi mais uma questão na maneira de, não sei, acho que se tivesse deixado as pessoas em alerta... Em alerta não no sentido da pessoa insegura, não é isso. mas se algumas pessoas ali soubessem de algumas coisas, acho que daria pra gente segurar melhor a situação. É um choque, é sempre um choque. Eu tenho que me desprender das pessoas, dos lugares, é muito difícil.

Outro dia eu brinquei e falei: “Só na marra, mesmo, né?” Acho que se o Rafael não fosse na marra, não ia. Você chega falando: “Não, deu o tempo dele aqui na Terra.” Não, tem que ser na marra. Eu sou uma pessoa muito apegada às coisas, às pessoas. E foi uma coisa muito inesperada. Eu pensava que fosse acontecer coisas nos programas, outras mudanças, de corte, que a gente sabe que acontece em todo lugar. É necessário, é preciso. Consigo entender que era importante naquele momento, assim como lá em 2002. Mas, dependendo de como as coisas são organizadas e conduzidas, eu acho que a equipe pode estar mais unida para segurar algumas coisas junto. Você via Olga e Mônica vindo com umas caras nas reuniões, sem poder abrir nada, e você fala: “Meu Deus, o que será que está acontecendo?” (risos) E: “Olha, não fica preocupada.” De ter alguns movimentos por conta do crescimento da Fundação, mesmo.

Como eu falei antes, a partir de 2003 começam a organizar a casa e a Fundação vai crescendo, é muito procurada. É difícil você impor o limite com educação, porque você sabe que tem aquela pessoa que quer usar o nome da fundação pra alguma coisa em prol de si mesmo, seu negócio ou empresa. Ou não. De um tempo pra cá eu consigo ter um olhar, o quanto ser do DI, da Comunicação... Algo que eu tento passar pra minha equipe de educadores, porque às vezes a gente está tão ali na ponta, tem outras coisas acontecendo e você fala: “Nossa, o pessoal do DI fica maluco.”

É aquilo, eu já contei para algumas pessoas. Antes a gente recebia doações. Quando eu cheguei na fundação era recebe doação, recebe doação. “Essa doação a gente vai receber, mas vai repassar, tudo bem pra você?” A gente não dá cota pras crianças. A gente não usa roupa, não distribui coisas. E hoje é muito claro, a equipe na fundação consegue trabalhar dessa maneira, através da rede, das parcerias: “Eu vou pegar os gibis que o senhor está me doando, mas eu não comporto cinco mil gibis. Eu vou ver quanto cabe no meu espaço e o resto eu vou passar pra rede, tudo bem?” “Tudo bem.” Mas até chegar nesse tudo com essa pessoa, fez isso.

Ele queria doar pra fundação, eu não queria tirar dele. O cara [era] colecionador, cinco mil gibis. “Por que não [doar] para uma gibiteca Henfil, para uma gibiteca em qualquer outro lugar? Vida útil de gibi já é pouca, aqui então, vai ser menor ainda.” “Usa para um trabalho pedagógico então, meu senhor.” “Se der uso, se não der eu não uso.”

A todo momento você tem que mediar esse tipo de situação, da pessoa querer ser para a fundação… “Entrei para a fundação”, enfim. Mas entra naquela questão dos princípios e valores das pessoas e a gente tinha que mediar isso também. Como a gente controla tudo isso? Hoje eu consigo ter essa noção do todo, o que é muito bom pra minha formação. Participar de um orçamento... Do ano passado pra cá, não ter mais a Mônica, que era a pessoa-referência total pra fundação, pra área pedagógica, que construiu e sistematizou muitas coisas ali com a gente. Ficar sem uma Mônica, você fala assim: “Será que a gente dá conta?” “Você dá conta, a equipe dá conta, a gente consegue.” É uma pessoa muito importante, que foi muito importante pra fundação, mas a gente consegue caminhar com as próprias pernas. E como vai ser isso?

Ano passado foi um outro momento de adaptar. E acho que até é uma das coisas que eu estou também lá. Apesar de não me imaginar fora dali, eu tenho questões conjugais por conta disso, porque meu marido não entende. (risos) Em vários momentos ele achou que eu fosse sair por questões pessoais, não profissionais. E nunca acontece. Ele fala: “Meu Deus, o que tem nesse lugar? Como você gosta do que você faz!” (risos) É, eu gosto do que eu faço.

Teve um momento que eu não sabia se iria continuar, justamente por aquela coisa de ‘time que está bom não se mexe’. Você fala: “Se eu continuar a fazer o que eu estou fazendo... Eu quero outros desafios.” Foi aí que teve uma mudança. Não verbalizei isso, não sei se eu tinha que ter sinalizado. Na época não sinalizei, mas aconteceram as mudanças, que foi o que eu continuei nesses três últimos anos. Teve um momento que eu pensei: “Se continuar isso, acho que já deu. Não é nada tão desafiador pra mim.” Apesar de eu gostar de trabalhar numa rotina, isso pra mim na fundação foi um aprendizado. Imagina: “Hoje não tem aula, tem visita.” “Hoje tem isso, aquilo.” Você fala: “Meu Deus, eu tô acostumada com a sala de aula ali.” E você vem para um lugar onde tudo acontece!

As pessoas entram a todo momento na sua sala pra te ver, pra ver as crianças. Você está muito exposto. O que, por um lado, acho também muito legal. Em uma dessas escolas que eu já trabalhei, faziam assim: “Olha, vai ter visita de pai pra conhecer a escola. Tudo bem organizado.” E eu falava: “Eu não faço nada diferente quando eles abrem a porta ou fecham a porta.” E na Fundação é muito legal. Lógico, é sempre legal o educador saber se vão abrir a porta, filmar, fotografar, quem é que está ali. É algo que a gente sempre pediu e pede porque incomoda também. Se tiver três visitas... Um dia calhou, mas os educadores entenderam... Três visitas numa sexta-feira, um dia que as crianças já estão exaustas, muito cansadas, educador… A gente teve na tarde três ‘abre e fecha a porta’, aí eu me desculpei com os educadores. Mas é um lugar que você pode chegar lá e isso eu acho que é muito gratificante.

A pessoa chega lá, de um FUMCAD [Fundo Municipal da Criança e do Adolescente], pra fiscalização. A primeira vez que a pessoa foi lá disse assim: “Nossa, acontece mesmo do jeito que está escrito.” Eu fiquei pensando e falei: “Pôxa, tem lugar que não acontece então. Meu Deus, a gente faz tudo direitinho.” Isso eu acho muito positivo também. É um lugar que te dá autonomia, liberdade de trabalho. Você pode se posicionar, falar: “Concordo”, “Não concordo”, “Gostei”, “Não gostei”. A gente tem essa abertura. Às vezes eu brinco com os educadores, até demais. Eu brinco e falo: “Tem hora que alguém tem que mandar. Vamos mandar.” Mas é algo muito bacana, que não foge ao controle, tem limite e, ao mesmo tempo, você vê as pessoas realizadas.

Eu me sinto muito realizada trabalhando ali dentro. Hoje eu tenho definido que se eu sair da Fundação Gol de Letra, não que eu não volte pra sala de aula, mas é [para] o Terceiro Setor. Isso já está claro na minha vida faz anos, é isso mesmo que eu quero. A outra questão que eu fico pensando é no que pode ser feito em escolas particulares pra essa questão de mobilização, não de caridade. Não vejo pela questão da caridade, do assistencialismo, não de fazer algo pra chocar criancinhas. Coitadinhos, eles não têm culpa de ter uma situação financeira diferente. Mas como a gente mostra que existe possibilidade de ações, que podem ser feitas em prol da sociedade, de uma comunidade. Diferente do assistencialismo, da coisa da caridade só. Isso é algo que eu penso também, mas eu não sei. Já tentei me imaginar várias vezes fora da fundação, a Edi várias vezes me pergunta: “Acontece alguma coisa?” Quando eu engravidei, ela: “E aí, já deu?” “Ah Edi, vou esperar nascer pra ver se agora deu.” Saí de licença. Quando você sai de licença.... Passei a minha segunda gestação lá no pique, trabalhando. E você fala assim: “E agora, o que eu faço? Eu volto ou não volto?”

Eu estava na segunda gravidez e a Mônica, antes de ir embora -  ela foi na metade do ano, final de junho -, ela falou assim: “Pati, se você resolver ir embora, avisa o Sóstenes antes pra ele se organizar.” Eu disse: “Não sei, eu vou sair de licença e depois eu vejo.” E você fala: “Dois filhos. Como vai ser, como não vai ser. Dou conta, não dou conta? Mais a Fundação e isso e aquilo. E eu tenho que dirigir.” “Você tem que dirigir agora, o carro tá parado faz um ano. Já comprou um, já vendeu, já  comprou o outro, já ficou parado há um ano e nada de dirigir.” Mas estava muito decidida a voltar. E aconteceu a perda do Rafael. Teve gente que disse: “Mas você vai voltar?”. Eu falei: “Lógico.” (chora) Uma coisa de “é lá que eu tenho que estar”.

 

(pausa)

 

R – Tinha parado lá...

 

P/2 – Se você iria voltar ou não...

 

R – É isso. Eu tinha mais dúvidas de voltar com ele que sem ele. E é o que eu falei: estar na Fundação nesse momento. Eu fiquei em crise, do dia três até o dia doze de março, que eu voltei… Tanto que falaram: “Patrícia, se quiser mais um tempo, não precisa voltar agora.”

Ao mesmo tempo que eu queria voltar, no domingo me deu pane. Liguei pra minha terapeuta: “Celina, tá tudo confuso. Parece que eu vou chegar lá amanhã, não vou conseguir pensar, funcionar. Não sei se eu vou dar conta do recado.”

Acho até que na semana passada culminou nisso porque eu venho pilhada, e eu já sou agitada de natureza. Foi a gestação todinha, igual a do Alexandre, numa boa. Não passo mal, mas começou a me dar alergia na pele. A Cláudia foi comigo, a homeopata queria me pôr de licença nos últimos quinze dias. Eu falei: “Não, eu tenho que resolver um monte de coisas, eu vou voltar!” E foi muito engraçado porque a Claudia lá no médico comigo e a homeopata, a doutora Cláudia, faziam assim: “Você precisa de licença. Eu já vejo com o seu médico pra gente afastar.” E eu: “Não, eu tenho muita coisa pra fazer ainda.” “Bom, então você vai pra casa hoje e amanhã.” Era uma quarta ou quinta e era para eu ficar dois dias em casa. Eu falava: “Não, Claudia, não posso.” E a Claudia: “Você vai pra casa.” Eu fazia assim: “Não.” Ficava no ‘você vai, não vai’. A doutora Cláudia fez: “Você é chefe dela?” “Não, ela que é a minha chefe.” “Tá vendo, é por isso que eu vou voltar pra fundação resolver o que eu preciso hoje à tarde. Depois eu volto e prometo que amanhã não vou trabalhar.” Mesmo porque não dava, começou uma alergia mesmo, de estresse. Dei uma parada por dois dias. E a Cláudia sempre comigo.

A Cláudia é uma pessoa importante. Ela começou lá em 2003. Eu saí de licença maternidade do Alexandre, ele nasceu em outubro de 2003 e eu trabalhei até o dia trinta de setembro. A Claudia entrou em setembro de 2003, então eu praticamente não fiquei com a Cláudia. Ela foi contratada pontualmente, com contrato fechado, não seria CLT nem nada, pra dar um suporte pra Mônica e pra Andréa na questão  do Banco do Brasil, da Leroy, nos projetos que a gente chamava de “agregados”. E ficou lá com a gente; dava aula também em escola particular. Mas depois de um tempo ela fica só na fundação, cuidando do Banco do Brasil e projetos agregados como parte da área pedagógica.

Era um quarteto bom ali: eu, Cláudia, Andréa Rondinelli e a Mônica. Uma equipe de peso, muito boa. A gente se pega na primeira mudança, que a Andréa Rondinelli vai embora pro Canadá. Foi difícil, porque a Andréa vai embora e como vai acontecer isso? A gente, sem a Andréa… É engraçado, porque a Cláudia faz muito assim: “Se a Andréa estivesse aqui.” E eu falava: “Então, gente, mas ela não está. Vamos pensar? Se ela tivesse seria diferente, ela faria diferente. A gente faz diferente.” Muitas vezes, tentava não pensar na Andréa pra não sofrer, é isso. Aí, fica eu, Cláudia e Mônica. E vem Telma, que ficou com a gente três meses, acho; veio para o Programa de Jovens, porque a Mônica contrata uma pessoa para o Programa de Jovens, fica com o “Virando o Jogo” ainda, eu ali, no suporte, e a Cláudia. A Cláudia foi saindo desses projetos agregados e vai ficando comigo, minha parceira de programa, do “Virando o Jogo” mesmo, entendendo um pouco mais. Esse movimento foi bem bacana, porque é uma pessoa que vinha com outro olhar. Por mais que eu estivesse na mesma sala, participando de tudo, quando eu passo a ser Coordenadora, ela passa a ser Educadora Formadora. Ela fica na função que eu praticamente sempre tive. Eu tinha que ter o desapego daquela função que eu sempre tive, por confiar muito na Cláudia, no trabalho dela. E saber que ela acreditava e acredita no trabalho que a gente faz ali na área pedagógica, como a gente funciona, pra mim foi muito tranquilo. Até hoje é ela que faz o trabalho de Formação de Jovens; minha parceira de “Virando o Jogo” ficou no meu lugar na minha ausência, participou de tudo.

Por isso que tem algumas pessoas que eu falei: “Falar da fundação e não lembrar do acontecimento é difícil.” Porque a Cláudia, os educadores, a Olga... (chora) Mesmo o Sóstenes, sempre comigo. Por conta da perda que a gente teve, do Luiz Guilherme, que foi o garoto do Masp, foi dia dezesseis de setembro de 2007. E no dia doze o Luiz Felipe tinha sido atropelado. Eu e a Mônica ficamos quarta, quinta e sexta-feira no Mandaqui, o menino na UTI com traumatismo craniano, uma situação muito delicada. E a gente ali, uma segurando a onda da outra. Eu falei: “Acho que o plano espiritual meio que foi preparando.” Porque você fala... A gente ali, aquela mãe com a gente, comigo, com a Mônica.

Você vivencia aquilo e [no] domingo liga a Aline. O celular estava no silencioso, vi que tinha cinco chamadas. Eu saindo pra almoçar, indo pra casa da minha mãe, e você vê seis chamadas: “Nossa, Aline.” Aí me toquei: Passeio Paulista. Mas vai pensar que alguém pode ter morrido em um passeio? Você nunca vai pensar. Você pensa que o ônibus atrasou, que a criança caiu, se perdeu, que alguém ficou pra trás na Casa das Rosas. Sei lá, acho que nem pensei em nada naquela hora, foi muito maluco. Mas eu falei: “Nossa, cinco ligações da Aline.” E a hora que eu ligo pra Aline, ela: “Pati, uma tragédia! O Luiz Guilherme caiu do vão do Masp! Pati, ele morreu, ele morreu!” A perna treme, você senta e fala... Nem com o Rafael foi assim. Você fala: “Meu Deus, pega essa mãe. E aquela mãe...” Depois que a gente participou de terapia e tudo.

Pessoas da fundação perguntavam: “Você se sente culpada?” “Não culpada, mas era a nossa responsabilidade. Não foi culpa de ninguém.” Mas imagina se é o meu filho que vai com a escola; independente do que tenha acontecido, estava com eles. Então não é a responsabilidade, a culpa não é nossa, a gente sabe que aquela situação não era uma situação de culpa, mas eu olhar praquela mãe... Isso depois. Naquele dia, o Daniel me pegou no Engenheiro, porque minha mãe mora ali. Veio com a Sueli, a mãe do Luiz Guilherme. A gente foi pro IML. Tudo aquilo.

Os educadores tinham passado essa perda, eu, a Cláudia, todo mundo... Olga, a fundação no todo. Foi um momento muito difícil, tanto que a gente fechou a fundação naquela semana porque não tinha condições de trabalho ali. Os educadores principalmente, a gente ali na ponta. Foi muito engraçado porque quando eu falei que estava grávida, no ano passado, em fevereiro que eu contei. Quando acabou o ano e a gente volta, é uma fala pra gente. Eu estava com um sentimento muito pesado. Eu falei: “Nossa, ano novo!” As pessoas queriam ver 2008 chegar e eu muito com essa coisa das perdas. Estava eu, o Sóstenes e a Olga e aí... (chora)

Eu falei que estava grávida, ele bateu nas minhas costas e falou assim: “Viu só que coisa boa? É uma vida nova pra todo mundo.” Foi uma gestação que todo mundo curtiu, todo mundo participou. Eu estava de licença, fiz reunião pedagógica na minha casa, no salão de festas pra não precisar ir, e o Sóstenes: “Tudo bem.” Uma coisa que os educadores não esperavam, a não ser os mais próximos: “Não vou visitar na maternidade, vou visitar em casa.”

Fiquei superfeliz, de educadores como André, Dani, irem ao hospital. Pessoas muito queridas - é o que eu falei, eu tenho que separar muito. Eu fiz um curso e eles dizem: em qualquer atuação profissional, por ter um lado afetivo, ter vínculo, pra não misturar e colocar os limites. Ainda no curso eu falei, estávamos eu e a Valéria: “Nossa, é muito difícil. São pessoas que estão comigo faz cinco, seis anos, não tem como a gente não se envolver com algumas coisas.” E pra mim é um aprendizado, eu tenho que separar muito bem. Eu ficava preocupada. Na licença-maternidade era muito engraçado porque tinha educador que queria ir na minha casa, falar comigo e ver o Rafael, e, por tabela, o Alexandre, sozinho; aparecia lá e não falava pra ninguém que ia. (risos) Ou os dois ou as duas que tinham mais amizade combinavam e iam e tinha gente que falava... “Você não vai junto?” “Não, porque eu quero falar com você e ver o Rafael, só eu.” Não é algo como eu comentei com vocês na terapia; diferente do meu marido, é um outro vínculo de relacionamento. E eu acho que esse vínculo todo, independente desse meu momento de vida, da perda ou não, a Fundação Gol de Letra propicia isso, um grupo muito unido. Era algo que eu tinha antes, quando eu cheguei, e que eu acreditava muito.

Eu vejo isso, RH em um movimento, por mais que todo mundo tenha que fazer muita coisa, junto com a gente e as outras coordenações. Como a gente garante uma integração entre as equipes?

Você estava lá no dia da festa junina? Difícil tirar o povo da sala, né? O povo fica lá na sala, ninguém vai pra festa, mas [é] como a gente pensa, é pras pessoas se aproximarem. Então coloca o vôlei na hora do almoço. São coisas que a gente sempre pensou e hoje consegue concretizar algumas coisas. É muita coisa todo o tempo.

Eu falo… O Ricardo, o Fernando e a Nádia, meu Deus do céu, comigo: “Patrícia, Patrícia, Patrícia”. Eles desistiram de mim porque não dá tempo, não conseguem sentar. (risos) Ao mesmo tempo que é uma rotina ali, pra todo mundo, independente da área pedagógica, ou não. Na área pedagógica tem aquele desgaste que é o desgaste mais emocional mesmo, de ponta, de você ouvir história, ter de consolar, ter que controlar emoções, apartar briga. Tem algo mais próximo mesmo, que as outras áreas não têm. E é algo que desgasta muito. Então, como a gente garante essa integração, nessa harmonia, nesse ambiente de trabalho, que é um lugar que a gente fala, a gente está ali e não se locomove em momento algum. A gente acaba almoçando fora se tem que ir no banco ou se tem que resolver alguma coisa fora. Não sei pra eles. Mas se você chegar lá, é lá que você fica. Não tem essa coisa de: “Ah, vou almoçar na esquina”. É todo mundo muito junto ali.

 

P/2 – Convivência intensa, né?

 

R – É. Como a gente garante, consola. Porque às vezes tem um educador que fala: “Hoje não dá.” Ou mesmo eu: “Meu Deus, esse menino outra vez!” “Essa mãe, Olga, não sei o quê, não sei o que lá.” E em alguns momentos um tem que segurar a onda do outro. Isso, ainda mais nesse momento, o pessoal...

Por isso que eu despenquei na semana passada, porque você ouvir da terapia, da homeopata: “Você tá saindo do eixo.” E você acha que está lá no eixo, firme e forte, se controlando e está tudo bem, a vida continua. Não que eu ache que esteja tudo normal, não. Mudei muito, minha equipe está sentindo muito. Não deixei de ser a Patrícia, mas é diferente. O olhar que você tem, a importância que você dá para alguma coisa ou outra. Não é a questão da responsabilidade, mas é a questão de: “Será que vale a pena eu bater de frente por determinada coisa? Ou por outra? O que é mais importante? Eu, enquanto coordenadora, na minha função, nesse momento: vale a pena?” Pra equipe é um desgaste ou não, pra equipe de coordenação. Isso tudo me fez pensar muito na minha atuação profissional mesmo, não só pessoalmente. Por isso que não dá para eu desvincular, fale da minha vida. (risos) Foi na vida profissional que chorei. (risos) Porque o que pega, quando fala da história de vida - até porque nesse momento eu tenho as coisas…

Se eu começar a falar da minha irmã, que eu lembro que minha irmã estava no parto, no momento… Na UTI, a pessoa que estava comigo, minha mãe... Acho que é duro nesse momento, tanto que quando eu estava no hospital minha mãe falava assim: “Esquece os outros!” A minha preocupação era: “Como eu conto pras pessoas o que aconteceu? Como fala? Como eu falo pra Cláudia?”

Foi muito rápido, tudo aconteceu muito rápido: é você estar terça-feira bem com ele, começa uma tosse, uma febrezinha; na quarta-feira você tira uma radiografia e não tem nada; na quinta-feira, depois de praticamente 24 horas, já não tinha o pulmão esquerdo. Vai pra UTI e aí, às dez horas da noite, não está mais com você. Você fala: “Meu Deus.” (chora)

Era isso, eu pensava: como eu falo, primeiro pro Vladimir, ele não estava comigo no hospital, ele estava indo pro hospital. Como eu falo pro meu pai (chora) e aí, você vai... A minha mãe e minha irmã estavam lá, mas e meus irmãos? Porque depois de cinco anos era um outro bebê. De repente, você fica pensando: “Como eu falo pra Cláudia, pra Andréa, que vieram agora aqui à tarde? Com a Ângela, que falou comigo na hora do almoço? Eu falei com as meninas todas agora. Com a Edi.” Me ajudou pra caramba porque na hora do almoço na sexta-feira a Edi e a Andréa e a Cláudia tinham ido lá, eu tinha encontrado com elas e tudo. Como você dá uma notícia dessas? Porque entra naquela questão da ordem natural das coisas, que você fala assim: “Meu Deus, tem alguma coisa.” Teve uma gestação complicada, nasceu com algum comprometimento e você fica naquela: “A qualquer momento pode acontecer alguma coisa.” Mas não. Então é difícil. Tem horas que você fala que não é... Por mais que você... Eu, que sou espírita, que acho que ajuda muito, isso é inquestionável, você aceita. E eu me coloco até em xeque se eu aceito, aceito no sentido... Tem horas que dá raiva, entendeu? Não está aqui como eu planejei, como eu queria. É difícil. (choro)

Antes era mais fácil, tanto que as pessoas [se] chocavam com algumas coisas. Levei isso pra terapia porque eu falava: “Tem horas que parece que eu sou irônica.” Teve uma reunião de coordenação com o Sóstenes, sobre o logo. Muda o logo, não muda o logo? Então, vai pra agência, porque [com] dez anos de Fundação Gol de Letra a gente vai mudar o logo. Isso faz uns dois meses. Ele fez assim: “Chegou o logo, vou apresentar pra vocês.” Ele [se] sentou na minha frente, com o material. “Deixa a gente ver.” “Não, eu vou marcar uma reunião pra gente apresentar.” Eu falei: “Ai Sóstenes, que coisa! Já está aí, mostra.” Ele falou: “Não, a gente tem que conversar, tem que amadurecer ainda.” “Tá bom.” No dia que a gente foi pra reunião pra apresentar o logo, ele fez assim: “Olha, pensa assim. É um momento de desapego.” Ele já tinha falado isso pra mim, lá na sala, no primeiro dia. Aí, chega lá e ele diz: “Bom, esse é um momento de desapego, porque vocês estão aqui há muito tempo...” Aí, eu virei assim, numa: “Bom, Sóstenes, aqui, desapego maior que o meu esse ano… Olha, não é um logo que vai me deixar mal.”

Todo mundo em silêncio. Ele saiu da sala, ninguém falou nada. Não lembro quem puxou um assunto. Em alguns momentos isso estava muito... Tanto que eu estava me estranhando, eu falei na terapia que tem horas que parece que eu sou irônica com algumas coisas. E é isso, não tem como não pensar. Ontem alguém disse assim: “Nossa, até chorei porque o Michael Jackson morreu.” Eu fiquei olhando... Eu fiquei com vontade de responder, mas eu controlo o responder. Até então eu estava respondendo e parece que é insensível, grosseira, porque é uma coisa inexplicável. A minha terapeuta agora parou de falar isso, acho que é o momento que eu não posso. Mas logo no início, quando eu liguei pra ela que tinha que voltar pra fundação pra trabalhar - liguei pra ela no domingo -, eu falei: “Nossa, é muito estranho. Tem horas que parece que eu tô bem, tem horas que eu começo a chorar do nada...” “Patrícia, é normal. Você vai ter vários sentimentos diferentes em muito pouco tempo. Faz parte do processo de luto”. Isso, eu chorando, né? Ela ia para um congresso e disse: “Só não pode fazer duas coisas: você não pode se matar, nem matar ninguém com esses sentimentos. O resto você pode sentir tudo o que você quiser.” Eu falei: “Nossa, tá bom, então eu já entendi.” (risos) E é isso. Na fundação, parece que quando eu falo uma coisa: “Ah, consigo fazer um relatório”, é algo que, pra mim, nesse momento, eu falo: “Será que eu dou conta?”

 

P/2 – É o desafio.

 

R – É o desafio. “Será que eu vou dar conta?” E, às vezes, de não querer demonstrar. Quando a Nádia me ligou, que eu comentei que estava no curso com a Valéria, ela falou: “Fala que você não vai, que não está bem, que não é o momento.” Eu falei: “Não, eu acho que é importante eu ir. Acho que não vai ser fácil”, mas está sendo mais fácil que eu imaginei. (risos)

 

P/2 – Que bom! (risos)

 

P/1 – Maravilha! (risos)

 

R – Tem mais coisas. Agora vocês podem perguntar. Eu já chorei, já falei sobre o assunto, viu como não é...

 

P/2 – Fazer você chorar, se emocionar. (risos)

 

R – É porque é aquilo, se você for ficar... Como a Andréa Rondinelli, uma pessoa que era aquilo, como a Mônica, quando foi embora me deu um cartãozinho: “Você vai conseguir ser mãe, coordenadora, mulher, esposa. Consegue, a gente dá conta.” A Andréa, lá no Canadá, a mesma coisa. E a Andréa ficou dois anos aqui na fundação, com os três filhos e o marido no Canadá, até ela decidir que iria embora mesmo, que dava pra ir naquele momento. Além de minha amigona, uma pessoa que eu admiro muito.

Na terapia a gente brinca com isso, que a notícia ruim chega rápido. Eu estava saindo do Santa Catarina, estava na garagem. Foi muito engraçado, eu vou ter que falar isso aqui, o Jérémie fica meio assim quando eu falo. Mas foi uma pessoa que me alegrou naquele dia, porque eles estavam comemorando o dia do Jérémie, no dia treze de fevereiro. Eu já volto a falar da Andréa.

Foi muito engraçado porque a Tatiana, que foi professora de dança… Parece que eles preparam tudo. Quinze dias antes eu estava fazendo a unha e comentei que se precisasse pra trocar alguém que morresse, eu ia chamar a Tatiana, porque ela não vive disso, mas faz isso. Quando morreu o Luiz Guilherme ela ficou com a roupinha dele embaixo do braço; o Daniel não queria pegar a sacolinha, eu fiquei meio assim, peguei a sacolinha suja. Mas ela lá, tranquilona: “Ah gente, eu troco, eu faço a minha oração, eu desprendo e tudo o mais.” É uma pessoa muito espiritualista.

Quinze dias antes eu comentei, fazendo unha com a Dora. Alguém comentou alguma coisa e ela falou: “Ah, eu troco. Já precisei trocar e pra mim é tranquilo.” Eu falei: “Ah, eu tenho uma amiga também. Quando eu precisar, já sei, tem a Tatiana e você, Dorinha.” Ó os papos, a gente nunca sabe. Quando oficializou mesmo a notícia do Rafael, eu fiz assim: “Liga pra Tatiana.” Minha mãe ficou olhando, todo mundo ficou olhando. A Tatiana já sabia que ele estava mal. E minha mãe: “Pra que você quer ligar pra Tatiana?” “Porque ela vai trocar o Rafael.” “Tudo bem.” Ainda mais nesse momento, ninguém fala nada. Ligaram pra Tatiana.

Chega pra Tatiana aquela situação, eu dei a roupa. Espera isso, aquilo. A gente lá e de repente ela: “Ah, o Jérémie.” Eu falei: “Tatiana, você estava em Mogi? Não, você não estava em Mogi porque você chegou muito rápido.” “Não, a gente estava comemorando o aniversário do Jérémie.” “E aí?” “Ele tá lá embaixo.” “Como assim, ele veio com você? Por que ele não subiu? “Não, ele tá muito mal, ele tá lá embaixo.” (risos) Eu falei: “Meu Deus, a hora que a gente descer, tem que resgatar o Jérémie.” “Pai, eu vou pra sua casa. O que eu faço com o Jérémie?” “Acho que eu levo o Jérémie pra minha casa.” (risos)

Diante de toda aquela situação, ficou engraçado. Porque dois dos meus irmãos estavam lá, os mais velhos, Edgar e Silvio. O outro, que é solteiro e mora com meus pais, ficou em casa com o meu pai. Estavam minha irmã, minha mãe. A gente desceu, “Vamos embora, vamos embora”. E cadê o Jérémie? Ela fez assim, pros meus irmãos: “Vocês podem ir lá no banheiro? O Jérémie deve estar lá no banheiro.”

Ai, Jérémie, desculpa contar isso. Eu comecei a dar risada.

Foi mais engraçado que eu desci e tinha uma pessoa naqueles sofazinhos da recepção do Santa Catarina, toda deitadinha. Eu falei: “Nossa, será que é o Jérémie?” Eu olhei bem de pertinho, acho que era um morador de rua que dorme lá. Eu falei: “Não é o Jérémie, Tatiana.” Daí que ela falou do banheiro. Ficou até engraçado.

No outro dia ele estava no crematório. A gente fica tão anestesiado que eu falei assim: “Ah Jérémie, só você pra me fazer rir ontem, hein? Naquela situação.” (risos) E ele todo sério, todo sem graça, não sabia o que falar. “Não Jérémie, numa boa.” Eu falo pra chegar na Andréa, tinha o Jérémie... Eu falei que estava tão bem amparada naquele momento.

E falando das notícias que correm. Eu estava saindo do [Hospital] Santa Catarina, na garagem. Tocou o telefone, estava 0000. Era a Andréa do Canadá, já tinham falado com ela. Não consegui falar com ela porque a ligação, eu estava no carro com meu irmão, o Vladimir foi pro crematório com o meu outro irmão e a terapeuta foi resolver lá no [Cemitério do] Araçá. Caiu o sinal e meu irmão falou: “Ah, ela no Canadá, celular e Paulista, você não vai conseguir falar com ela.” Não consegui falar com ela, fui falar na terça, na segunda-feira depois. Uma pessoa que, mesmo longe...

Não tem como separar a fundação da minha vida, ainda mais desse momento. Você falou da Edi; a Edi é uma pessoa que me levou pra fundação. A Andréa é uma pessoa que viveu ali comigo, intensamente, a fundação. E vive. Eu não falo muito com ela, mas ela sabe das coisas da fundação, por isso que eu falei que era uma pessoa importante. Eu não mandei folder, nem nada, por conta disso nem falei com ela. Mas acho que é uma pessoa importante de ter alguma fala...

 

P/2 – Mas na sua fala ela surge bastante também.

 

R – É. É uma pessoa importante pra história da fundação.

 

P/2 – E vocês chegaram a disputar a mesma vaga, né?

 

R – Sem saber. E é muito maluco isso.

Quando o Nelson fechou, ele falou: “Olha, fechei com você.” Ele me ligou, não lembro se foi a Edi que ligou: “Como você só pode meio período, você fica meio período e vai ficar uma outra pessoa nesse período.” Acho que foi ele. E a Edi que falou: “Ah, é a Andréa Rondinelli.” Mas eu não sabia, o Rondinelli era muito marcante pra mim por conta das vivências da Edi contar. Eu e ela frequentávamos a casa da Edi, mas a gente nunca se encontrou. Porque eu e a Edi nunca fomos de sair juntas, sempre momentos familiares: aniversário da Cecília, ela está no do Alexandre, dos meus irmãos todos. Então é assim, a família dela está sempre muito próxima à minha, é sempre nos momentos familiares que a gente tem junto. E nas questões profissionais, que ela sempre... A primeira escola que eu trabalhei foi ela quem me levou, na fundação foi ela também.

A Edi e a Andréa são pessoas muito queridas, muito importantes pra mim, pra história da Fundação. E as amizades que eu criei com a minha equipe pedagógica, que eu sou suspeita de falar, vão achar que estão puxando saco dos meus educadores. (risos) Mas eles são todos muito queridos. Até me perguntaram se vai algum educador falar. Quando eu dei o nome da Helena e do Daniel, porque são pessoas que estavam há mais tempo… Acho que a Helena [e] uma pessoa da vila, que está ali até hoje, e que representa muito bem a equipe de educadores. Até eu distanciar - comentei isso com a Olga, eu tive que fazer um distanciamento. Não é a história do “Virando o Jogo”, é a história da Fundação Gol de Letra, porque senão iria falar: “Não, tem que conversar com todos os educadores!” (risos) Não pode perder a Silvânia, algumas pessoas. Como eu lembrei da Bia, que deu aula ali. Pessoas... E [pra] eu entender essa mescla, tem que ter algumas pessoas do começo, algumas pessoas de alguns momentos importantes senão…

É um todo ali. Acho que não dá pra estar na fundação e não ser intenso ali, é um lugar que a pessoa tem que estar ali inteira. Tem coisas que vocês vão me perguntar que eu não contei?

 

P/2 – Não.

 

R – Não, não. Estou falando da fundação!!!! (risos) Agora já falei, já chorei. Agora tô tranquila.

 

P/2 – A gente falou bastante da fundação, acho que...

 

P/1 – Pode ser uma pergunta óbvia, mas é mais pra ter uma reflexão: qual você acha que é a importância da fundação pra comunidade, pra Vila Albertina?

 

R – Como eu falei, eu vejo a fundação, ali, como uma referência pras pessoas, que vai despertar possibilidades de escolha, conhecimento. Porque eu vejo que algumas pessoas acabam tendo descobertas ali dentro, descobertas profissionais... Pra mim [descoberta é] uma palavra-chave, eu acredito.

Muita gente fala pra mim: “Eu não acredito em mudança.” Se você acreditar que o ser humano não muda, você não pode estar na Fundação Gol de Letra. Ou que algum lugar mude, se transforme. Eu vejo a fundação, ali, como um meio de transformação. Uma transformação lenta; a gente tem tido conquistas agora. Se a gente for ver mesmo, aquela criança que entrou com os seus sete, oito anos, está saindo agora; essa família, como a gente trouxe essa família ali pertinho. Será que a gente conseguiu mudar?

Eu vejo que é um lugar onde as pessoas têm a possibilidade de mudar, de transformar, de se aprimorar, de ter conhecimento, acesso a outras coisas a que elas não têm. Ontem eu achei muito bacana. Tinha uma pessoa aqui no Pólo de Informações, que foi colocado. Não sei se você viu um mural azul. Do lado da porta da biblioteca, pelo programa de jovens, a Valéria fez o Pólo de Informações. E lá tem oportunidade de estudo, de emprego. Funciona, é isso. Até que ponto a gente está ali? Tem um trabalho que é mais de formiga, mais denso, é árduo mesmo. O programa do “Virando o Jogo”, programa de jovens, “Jogo Aberto”, as conquistas são mais lentas nessas mudanças de atitude, mas como eu consigo acessar a comunidade. Aquela pessoa estava marcando as informações que estão organizadas, não sei se era de emprego, escola, estudo, porque tem lá: Estudo, Trabalho. E uma pessoa que eu nunca vi na comunidade, então eu vejo que é um meio que eles têm de conseguir coisas enquanto pessoa, ser humano.

A fundação tem muito essa preocupação. Por isso que eu falo, quem não acredita que o ser humano muda e se transforma, não pode ficar ali. A gente tem que acreditar que, por mais demorado que seja o processo, por mais simples e tênue que seja essa mudança, mudou alguma coisa. A pessoa não é mais a mesma, passando ali, aprendendo alguma coisa ali. Por isso que a gente tem que estar atento à nossa proposta, nossa rotina. Não dá pra ficar, não na mesmice, mas a gente tem que acompanhar o ritmo dessa comunidade, desse jovem, dessa criança. O que a gente muda.

É muito claro pra gente: se a gente mudar, o que a gente muda, por que a gente muda? Se a gente fez sempre desse jeito… A questão da alfabetização, muita gente fala assim: “Eu fui alfabetizado com a Caminho Suave, por que vocês querem mudar?” Tem essa coisa de não conseguir mudar. Eu vejo que a fundação é uma oportunidade de mudança.

O que eu conheço e aprendi ali, que eu carrego pra mim, enquanto pessoa, que me relaciono com o outro e posso ensinar meu filho, meu colega, meu vizinho, alguma coisa que eu aprendi. Por isso que eu almejo - é um desejo [da] Patrícia, não [da] Fundação Gol de Letra - ter aquela referência positiva numa mãe, qualquer pessoa da comunidade ali dentro, como muda. Não é a história da Patrícia lá dentro, apesar de eu achar importante que eles saibam que eu tive que trabalhar pra pagar minha faculdade, eu sempre estudei em escola pública. Porque eles veem a gente ali e acham que a gente já nasceu assim, formado, com estudo, com o carro pra quem tem carro, ou morando em uma casa que não é na Vila Albertina. É importante eles terem esse olhar da nossa vivência, mas ter também um olhar pras pessoas da comunidade que conseguem ter mudanças e não precisam sair da vida. É aquilo: mudar o seu local, o seu bairro, o local a que você pertence. Tem muito a questão do pertencimento: “O que eu faço de melhor naquele espaço?”

Eu vejo que a fundação está ali pra isso, pra ajudar nessa transformação. Tem uma coisa que antes me frustrava, no início, que é como eu não consigo mudar o outro. “Ele não tá vendo? Está tão óbvio.” Pra mim. E eu consegui, nesses anos todos, perceber que ele só vai mudar se ele quiser. Não é a Patrícia. E a gente tenta mostrar isso pras crianças: “Eu tô aqui pra te ajudar. Você está nervoso, irritado, quer agredir. Segurar os seus braços, te amarrar, te prender, eu não vou fazer isso.” Mas como eu mostro para esse menino que se ele não der algum sinal que ele está disposto a essa mudança, eu não vou conseguir ajudar? Senão eu não consigo fazer pelo outro. Antes me frustrava, me frustrou durante muito tempo ter um jovem que você está lá com ele, ele faz alguma coisa e você fala: “Puxa, eu achei que ele fosse fazer diferente.” Ele não faz. E você diz: “Não, mas aí é uma questão dele.” Senão eu vou sofrer demais e vou me frustrar a todo momento. Porque essa mudança é lenta.

 

(pausa)

 

P/1 – Você estava falando da importância da Fundação.

 

R – Isso. Deixa eu lembrar. Eu falei da questão da frustração, muitas vezes eu me senti impotente. Você fala assim: “Como eu não consigo ajudar?” E você, como no meu caso, perceber o meu papel, que ajuda é essa, que tipo de ação eu estou fazendo aqui. Porque envolvimento você sempre vai ter, você não consegue separar. O que eu consigo hoje... Tem gente que fala: “Ah, chego em casa, contei, falei.” Tinha uma professora que falava: “Ai, contei tudo pro meu marido e lálálá”. Isso é algo que, depois de um tempo pensando… Acho que foi um mecanismo que eu própria criei pra não me envolver, porque antes eu chegava, pra mim era muito: “Nossa, mãe, você não sabe.” Encontrava minha irmã: “Nossa, você não sabe o que aconteceu. Porque o menino...” “Nossa, Vladimir!” E aquilo te suga.

O nascimento do Alexandre me ajudou muito porque eu chegava e era ele. Eu tinha que me dedicar a ele, eu tive que aprender a deixar a fundação. Porque é o que eu falei, se eu precisasse, eu ficava até meia-noite.

O Wellington foi um monitor bem bacana, dos primórdios. Wellington Firmino. Ele teve algumas questões na comunidade. Teve um outro jovem, ele morava sozinho e  queria que os jovens ficassem na casa dele; um dos familiares não queria que o jovem ficasse fora. “Pati, mas vai conversar.” Eu entrar naquela Vila Nova, às dez e meia da noite, você olhar... E pra mim... Não que eu me sinta bem, não é nada agradável, mas não é um lugar que eu fale: “Eu quero ir embora daqui.” Incomoda pelas questões das coisas que você vê.

A primeira vez que eu cheguei na Vila Nova, não sei se vocês foram pra lá. A Vila Nova é mais afastada, é mais pra dentro ali, mais pro lado do cemitério. Estava sendo desativada, estavam tirando algumas moradias por conta do terreno. E eu nunca tinha presenciado tão próximo. Aquele monte de fio, aqueles gatos, tudo ali, e você fala: “Meu Deus, aonde eu estou? Vai explodir.” Encanamento, tudo amarrado, você fala: “Como uma pessoa vive dessa maneira?” Choca, não estou dizendo que não fiquei chocada, que é tudo bem. Mas não que eu não vou lá porque eu fico com receio de ir ver, não. Sempre fui.

Aquele dia eu fui na Vila Nova, às dez e meia. Quando eu contei que teve que editar a fita, foi uma semana direto. Porque teve um boicote, foi numa semana de 2002. Teve um boicote com a gente, eu e a Andréa, em relação a edição dessa fita. Era meia-noite e a gente lá na fundação editando, aprendendo a editar uma fita. Saiu o que saiu, mas ficou muito bom, cheio dos recortes estranhos, mas saiu. Era algo assim, não tinha hora pra entrar, pra sair, era final de semana, feriado. Até em campeonato que o Henrique fazia e eu acompanhava, algo que eu sempre me envolvi muito. Quando nasceu o Alexandre, eu falei: “Bom, eu tenho horário pra sair, pra entrar. Eu tenho que me organizar, eu tenho o meu filho.” E você retoma algumas coisas, se organiza de uma outra forma, isso foi positivo até para eu conseguir. E coisas que eu não comentava porque ele está do lado, não é legal, não precisa ouvir. Não que ele não vá vivenciar isso, mas tem coisas que têm o seu momento. Eu vi que ele sentia se eu chegava mais irritada e verbalizar aquele monte de coisa que eu sempre falei, eu mesma fui parando. E eu percebo que é uma estratégia, um meio para eu não sofrer com algumas coisas. Porque tem hora que você acaba sofrendo, né?

Você dar uma dura num menino que não vai pra França, faltando quatro dias. É difícil, né? É difícil você ter que explicar pra ele que está difícil e por quê. Tem coisas que não são fáceis. Você vê uma mãe desesperada com uma determinada situação, ela não dá conta de resolver aquela situação com o filho dela e você fala: “Como eu ajudo?” Hoje pra mim é menos frustrante, eu me sinto menos impotente. Porque aí fica difícil, você diz: “O que eu to fazendo aqui? Eu quero ajudar, mas ______ ____ ___”. Mas o que que é? Quer ajuda? O que você está fazendo aqui? Qual é a sua ação pra estar ali orientando? Até a palavra tem que ser outra: eu oriento, não ajudo. O ‘ajudo’ é em que sentido? E você mostrar isso pros educadores também é muito difícil. O cara que está ali na ponta, ele diz assim: “Pati, hoje o menino surtou. Surtou. Ele chega toda segunda-feira, a gente sabe que ele apanha em casa e está aqui. O que a gente faz?” (risos) Tem hora que você tem vontade de mandar o menino embora, porque ele te enlouquece. “Acho que ele vai começar a vir de terça, quem sabe resolve.” (risos) É complicado. E se fosse um, dois...

Tem a Aline, que é outra muito querida. Todos são. Eu tenho medo de falar nome, né? Se alguém vir, vai falar: “Esqueceram de mim.” A Aline é uma educadora que veio da escola pública, concursada. Ela ficou com a gente até o ano passado. Ela dava aula em escola pública, foi pra fundação e fazia essas duas atuações. Ela segurou a onda durante um mês; no final do mês, depois de três semanas, ela desabou. Porque desaba. Professor, educador na fundação, mulher. Uma hora desaba. O homem já fica mais ali, demonstra de uma outra forma. Desaba porque você se sente impotente, mesmo. E ela fazia assim: “Mas eu dou aula em escola pública, achei que fosse fácil.” A gente explicou pra ela: “Você tem trinta na sua sala de aula lá da quarta série, da série que você dá aula. Dentro desses trinta, você pode ter dez que podem ter uma questão ou outra, você tem um contato com a sua criança.” Lá na Fundação, o que acontece? De vinte, quinze têm questões. Não é à toa que eles estão lá, então, em algumas situações você fica mesmo em cheque, impotente. Você fala: “O que eu faço agora?”

O educador acha que o coordenador vai ter sempre a ‘plimmmm’. (risos) E questiona: “E se vocês levarem a mãe?” “Não é nosso papel levar a mãe, o nosso papel é orientar essa mãe para que ela leve o filho. A gente pode levar uma vez pra mostrar o caminho do psicólogo. Depois, quem tem que assumir esse papel é a família, não é a gente.” Dependendo da maneira como você se coloca e fala, parece que: “Nossa, como você é fria.” E não é isso. É aquilo: até onde vai o papel da Fundação Gol de Letra? O papel da Fundação Gol de Letra é levar todo mundo para o médico? É achar tratamento psicológico pra todo mundo que precisa? Não damos conta. Tem que estar muito claro até onde a gente vai pra gente não frustrar, senão a gente frustra.

Tem o caso de um menino. Ontem a gente estava ali fora, eu, a Angela e a Cláudia. E o Wellington encostou em mim. Ontem ele não estava legal, sei lá, fumou, cheirou. Ele oscila. Há umas semanas ele voltou pra fundação, senta na minha frente, na frente da Olga: “Oi, Patrícia.” “Oi, Welliington!!!” “Oi, Olga!” “Tô no grafite.” “Que coisa boa! Você está no grafite?” Ele tenta voltar, tenta sair disso. Ele é viciado, não consegue. É um usuário que se não tiver uma ajuda forte, firme, ali presente, ele não vai conseguir sair sozinho. Frustra porque a mãe com comprometimento, um pai que trabalha e tem que dar conta de tudo, que não vai levar. E eu fui colocada em xeque no ano passado, porque ele tem esse movimento de ir e vir. Quando ele está bem ele aparece; você vê que ele começa numa abstinência, começa a ficar pilhado, não dá conta e volta. E a gente já deu endereço, já mostrou, já ensinou como chega, já falou, tudo. Mas a família tem que levar.

O que a gente faz? E não é só ele. Se fosse só ele seria fácil: “Opa, vamos levar o Wellington, a gente se dedica a ele e resolvemos a situação.” Não é. É muita gente. Pra gente ter as nossas conquistas, como fundação, como pessoa, como profissional. Se você falar: “Ah não, eu não consigo, eu vou embora!” (finge chorar) Você tem que criar mecanismos. Primeiro, é importante essa coisa da união, de um segurar o outro, às vezes quando bate na janelinha: “Wellington. Hoje é comigo, hoje é com você.” (risos)

Você vê que suga a sua energia, né? Não sou uma pessoa tão sensível assim para essas coisas. Tem gente lá que fala: “Ai, levou tudo embora.” “Difícil de eu perceber, viu?” (risos) Mas é porque é um desgaste emocional muito grande. Tem dia que a gente chega lá que a Olga brinca: “Nossa, já deu, já são cinco horas da tarde!” Porque você atendeu uma criança, um pai, resolveu... Você fala assim: “Meu Deus, parece que passou o dia inteiro”, numa intensidade de questões do outro que você fala: (suspiro) “Como que eu vou fazer?” Te coloca em xeque.

 

P/1 – Em matéria de lição, o que você aprendeu no seu trabalho, aprendizado?

 

R – Ai, eu falei já um monte de coisa, vou reunir tudo! (risos) De aprendizado na Fundação Gol de Letra? Eu aprendi muito. Do jeito que a fundação funciona, pra mim, pessoal e profissionalmente, me fez ficar mais segura enquanto profissional, acho que por essa autonomia, joga pra você. O Sóstenes fala assim: “Não me venha com problemas, venha com soluções.” (risos) E é isso, faz pensar na sua atuação. E o quanto eu troco, o quanto eu me relaciono com o outro. Nisso pra mim, profissionalmente, nessa segurança, esse fazer pensar.

Estar na coordenação hoje - vou juntar um pouquinho de tudo o que eu falei - amplia o meu olhar em relação ao trabalho da fundação. Eu não estou no DI, mas eu consigo perceber a fundação de uma maneira diferente, de como acontece na Comunicação, no Financeiro, no Administrativo. Em relação ao Social, a gente sempre trabalhou muito próximo. Essa parceria tem acontecido cada vez mais ali, a Educação Integral que a gente acredita acontece de fato e foi um aprendizado trabalhar dessa forma. Ver que trabalhar com projeto dentro de uma fundação, falando pedagogicamente, dá certo, [de] maneira interdisciplinar, que são batalhas na área da educação: trabalhar de uma maneira interdisciplinar e com projetos, tem escola particular que não consegue. Quando eu cheguei lá na fundação eu falei: “A Edi quer trabalhar com projeto aqui? Acho que não vai rolar.” E rolou, deu certo.

O que eu aprendi hoje, nesses oito anos? A minha formação profissional, se eu falar dentro de uma organização enquanto coordenação, ela aconteceu na Fundação Gol de Letra. Tem toda uma história aí, referências muito positivas, mas na prática, o que eu aprendi ali no meu dia a dia. A questão de saber lidar com a frustração, pra mim é um... A questão de eu não me sentir impotente, de fazer algo [em] que eu acredito. Eu faço algo que eu acredito.

O confiar nas pessoas, é algo que a gente coloca sempre muito pras crianças e até mais, quando eu era educadora formadora tinha isso, dos jovens em relação a mim. Antes ainda, enquanto educadora em relação ao aluno: como eu mostro a atitude que eu tenho, a fala que eu tenho com o meu grupo de crianças, de jovens, adolescentes, para que eles confiem no que eu estou dizendo?  Não enquanto autoridade, acreditar que eles são capazes. Pra isso eles têm que confiar em mim. Eu, como educadora formadora, como eu formo um jovem, passo conhecimento pra eles se eles não confiam no meu trabalho, na minha atuação, no que eu estou dizendo ali naquele momento? Isso é um ciclo: a criança tem que confiar no educador, que tem que confiar no jovem que está ali. O monitor, junto com a educadora formadora, tem que confiar na coordenação e eu tenho que confiar na equipe de coordenadores que eu tenho. Todo mundo está com o mesmo objetivo, isso é muito legal na fundação. Todo mundo tem o objetivo, que não é uma meta de alguma empresa ou algum lugar, de mercadoria, é uma questão de atitude. E quando a gente começa a conversar, eu tenho que mudar a minha atitude, o outro tem que mudar a atitude.

Como eu mostro isso pras pessoas que trabalham dentro da fundação, em outras áreas? É uma relação de confiança, também. Não que eu não confiasse, nunca fui uma pessoa desconfiada. Mas o quanto você tem que confiar nas pessoas [com] que você trabalha? E como você faz pras pessoas confiarem no que você faz, na sua atuação? Isso é uma outra coisa. Acreditar que o outro se transforma, muda.

Por isso que eu falo: quem não acredita que o outro vai mudar, pelo mínimo que seja, [que] em algum momento aquele aprendizado vai servir pra ele na vida em algum momento, não pode fazer o que a gente faz na fundação. A gente tem que acreditar, sim, senão vai por água abaixo a missão da fundação. [Para] você transformar uma realidade, mudar uma comunidade, você tem que acreditar que as pessoas mudam, conseguem vivenciar outras coisas. E aí, como a gente dá essa oportunidade? É uma busca constante, de atingir essa missão: que estratégia eu estou usando? O que eu estou fazendo? Porque envolve a questão dos valores.

O aprender, se a gente for ver, é uma estratégia: eu ensino dança pra criança, ela está tendo oportunidade de ter essa linguagem, esse acesso. Mas, por trás disso, o que eu quero que ela aprenda através da dança? O que ela vai desenvolver nessas linguagens todas? Que ser humano a gente está formando ali? A gente está formando ser humano, a gente não está só ensinando alguma coisa de dança. O nosso objetivo é esse: uma transformação de atitude. Lá nos princípios: “Aprender, Conviver e Multiplicar.” O aprender é o conhecimento mesmo, o que eu aprendi na leitura e escrita, na informática. Mas o que eu faço com esse aprendizado? É o conviver e o multiplicar, o grande xis da questão. Se eu aprendi, como eu mostro pra ele que ele pode mostrar pro outro, pode multiplicar essa atitude, esse conhecimento, esse valor, que a gente acredita lá dentro da fundação? Pra mim é aprendizado atrás de aprendizado.

Quando você senta com uma mãe, ela te mede de cima embaixo, como se dizendo: “Você não tem os problemas que eu tenho.” E ela falou isso pra mim, aí você fala assim: “Meu Deus, que imagem ela cria das pessoas que estão aqui? Será que estamos aqui pro filho dela ter meramente uma ocupação? Como eu mostro pra ela?” “Você não sabe o que é passar fome.” “Eu não sei mesmo, deve ser muito difícil.” E como você fortalece uma pessoa que está nessa situação? Você fica... A gente não ensina, a gente aprende muito.

 

P/1 – Como você imagina a fundação daqui a dez anos?

 

R – Ah, então, já falei! (risos)

Tem uma questão do espaço físico. Em relação ao espaço físico eu imagino a mesma estrutura. Se a Secretaria for lá em cima é muito bacana, é importante porque vai ter acesso direto com a comunidade. Eu quero muito, tem que falar tudo no sentido de realização, sempre assim: eu quero muito ver uma biblioteca com acervo excelente. É aberta pra comunidade e não é usada. Eu vejo aquela biblioteca com gente circulando, pessoas indo buscar trabalho, pesquisando, vejo mesmo. E vejo mais pessoas da comunidade atuando ali.

Algumas pessoas colocam assim, nessa semana eu ouvi: “Será que a fundação quer que tenha sustentabilidade?” Eu não sei se a fundação vai conseguir [que] a própria comunidade gerencie a fundação com as próprias pernas. Isso eu não sei se consigo ver. Não no sentido que não dá conta, mas pelas dificuldades financeiras que a gente enfrenta hoje, de você conseguir recursos.

Tem gente que fala assim: “Então, daqui um tempo a gente sai daqui.” Eu não sei se a gente sai daqui. Pode mudar a Patrícia, assim como foram embora a Mônica, a Andréa, as pessoas que passaram por ali, fizeram parte dessa história. Então a Patrícia uma hora não faz mais parte da história; fez parte, mas pode não estar mais ali. Só as pessoas da comunidade, isso eu não vejo que aconteça, mas o que eu consigo ver e acho que caminha pra isso, [são] mais pessoas da comunidade envolvidas profissionalmente e não só em áreas de apoio, que geralmente a gente tem o “Jovem em Formação” ou uma área operacional. Não. Pessoas em outras funções, com responsabilidades diferentes atuando lá dentro.

Vejo a questão do espaço físico. Quando eu cheguei lá tinha uma coisa, não sei se tem algum registro isso, da fundação ser uma creche. A fundação iria funcionar como uma creche, todo o prédio ali do fundo foi moldado pra isso, as pias, tudo. Estava tudo fisicamente estruturado pra isso e não aconteceu. Então, vejo que caminha mais do “Virando o Jogo” pro jovem.

É a coisa que eu idealizo ou não? Pra entender mais a pergunta: quando as crianças pedem piscina de bolinha ou uma piscina normal ali dentro daquela fundação... Essa estrutura dos programas, eu vejo isso, tem gente que já não consegue. O que eu vejo é muito jovem, eu acho que caminha pra isso: o crescimento do programa de jovens. Todas as implicações que ele teve na história dele, difícil. É cultural, artístico, empregabilidade, o que é? Eu consigo ver que ele começa a caminhar para um outro formato agora, vamos ver como vai estruturar, se com mais oficinas artísticas. Consigo ver.

O jovem é o público mais difícil [de] manter na fundação, porque a criança tem a responsabilidade [da] família. Como a gente co-responsabiliza a família, pra criança estar e permanecer ali. O jovem não, é mais difícil: trazer um pai pra reunião de pai, trazer esse pai pra participar dessa vida. “Você sabe que o seu filho faz grafite aqui?” “Não sei, não sabia. Nem sei o que ele faz aqui.” O mediador e o monitor, hoje, a gente consegue mostrar um pouco mais, mas [é] difícil. Quando a gente contrata um mediador ou monitor, a gente chama o responsável pra contar: “Seu filho vai ficar aqui de manhã ou a tarde fazendo isso, isso e isso.” E  conta. A gente já teve caso da mãe chegar e falar: “Então o meu filho fica o dia inteiro aqui?” “Não, minha senhora.” O nome da senhora é tal. “Ele falou que fica o dia inteiro aqui.” O que ele fazia esse outro meio-período? São coisas que você vai vivenciando ali, que você vai melhorando, aprimorando.

A escola ser parceira da fundação é algo que a fundação sempre quis que acontecesse. Difícil efetivar uma parceria, mas é algo que eu acho que vale a pena se a gente conseguir. Porque daqui a dez anos... Eu imagino umas parcerias mais efetivas. O que a gente já pensou, quando eu era educadora formadora: a gente tinha o Projeto Escola, que era fazer mediação de leitura nas escolas, nas Emeis, nas creches da vila. Quem fez esse projeto comigo e com a Andréa foi a Edi. A Edi colocava muito essa questão, de como a gente poderia levar essa importância - no caso era mediação da leitura -, a importância da leitura para esses educadores duma creche, uma Emei, de uma escola pública. E como a gente poderia ajudar nessa capacitação deles. Mas [foi] muito difícil, o máximo que eu consegui foi fazer uma reunião e levar um texto uma vez; eles ficavam felizes que a gente ia lá porque eles podiam fumar: “Ai que bom, agora eu não vou ficar com as crianças, que fiquem vocês.” E quando a gente apresentou o projeto na escola era assim: “É importante que o educador fique junto com a gente, as crianças.” Mas é uma conquista também, essa parceria com a escola.

Quem sabe, daqui a dez anos, aquela sala de reuniões [esteja] cheia de pais. Eu acho que a gente pensa bastante nessas ações. E ver também que a gente tem perna, que eu falei em algum momento. Ao mesmo tempo que tem gente que fala: “Ah, a Fundação Gol de Letra consegue financiamento fácil.” Mentira. Pode facilitar em algumas situações, eu vejo, mas é difícil, financeiramente.

Eu fico pensando até onde a gente consegue ter uma equipe que dê conta de tudo, porque a gente tem esses picos de crescimento. Agora é um momento. É disseminação? A gente precisa de mais gente na equipe pra disseminar. Na verdade, hoje a gente está numa tentativa de disseminação, no início da disseminação, que é a visão da fundação e, como a gente vai organizar tudo isso? É a grande questão que a gente tem levantado, eu, Olga, Ângela, Valéria: como vai acontecer esse crescimento? Porque é um momento de crescimento pra Fundação. E como faz isso? Se a gente desloca alguém daqui pra cá, como é que fica essa situação, que está funcionando bem por conta desses longos dez anos? Como a gente consegue continuar funcionando dentro das conquistas que a gente teve, dentro desses dez anos, disseminar sem perder a qualidade? Acho que é esse momento agora que tem que pensar muito bem. Tem que ser estratégico, tem que pensar, planejar, pensar um plano de ação. Porque começam a pipocar coisas: “Eu quero fazer.” “Eu quero fazer também.” Como a gente leva isso? O que a gente leva da fundação enquanto disseminação? Acho que é um momento, que a gente vivencia hoje, delicado nesse sentido. O que disseminar, como disseminar, quem são as pessoas que vão disseminar. Vejo que a gente está no start e é pensar direitinho como que essas coisas vão acontecer.

 

P/1 – Pra finalizar: o que você está achando desse projeto de memória, “Dez anos da Fundação Gol de Letra”?

 

R – Eu? Eu adorei! (risos) Como eu falei em algum momento: pra mim, é a Fundação Gol de Letra. E me fez pensar, porque quando vocês me passavam os nomes das pessoas…. Um dia eu lembrava de uma pessoa, no outro dia de outra, mas essa pessoa também foi importante.

O workshop pra mim, Patrícia, oito anos de Fundação Gol de Letra, foi importantíssimo. Eu comentei com algumas pessoas. Saber de onde o Raí teve essa ideia? Pra mim foi uma surpresa a maneira como ele quis iniciar tudo isso. A Tina. Depois, eu vi que a pergunta tinha sido feita antes. Eu colocaria ali. Quando me perguntaram: três pessoas, duas pessoas? A Tina tinha que estar junto ali; eu não sabia da história dela, o quanto ela foi importante nessa trajetória, como outras pessoas ali. O logo. Aí eu fiquei sabendo quem fez o logo.

Pra mim, o lugar que eu trabalho há tanto tempo, que amo de paixão, fazer todo esse resgate, pra mim é muito importante. E quando colocaram: “Não, você tem que ir lá”, pra mim é importantíssimo. (chora) Eu vejo que é um reconhecimento, né? Mas eu fico pensando, eu perguntei pra vocês naquela reunião: “Será que [o projeto] vai conseguir contemplar e reconhecer todo mundo? Lógico, a Patrícia, o Luciano, como outras pessoas... Tem gente que não pode fugir do depoimento? Não, não pode. A Olga [disse]: “Eu achei que foi um presente.” É um presente, um reconhecimento, uma valorização da gente. Eu, Olga, Ângela, Sóstenes, qualquer pessoa que vier aqui, é um quê a mais estar aqui.

Mas eu fico pensando: Como as outras pessoas também serão valorizadas? Eu me peguei, nesse meu... “Deixa eu fugir do VJ, deixa eu esquecer os meus educadores.” Os meus, olha a possessão (risos). Deixa eu me distanciar dos meus educadores porque cada um tem uma história, uma trajetória, um envolvimento, um enfrentamento ali, seus desafios diários. A gente brincou outro dia: “Olha, quem dá aula aqui no “Virando o Jogo”, dá aula em qualquer lugar.” Como essas pessoas... Nossa, a Nilza que foi da cozinha, a Bia, o Ronald, que era o médico. Cada vez que vocês mostram uma lista e alguém acrescenta um nome, você fala assim: “Mas como eu vou conversar com um e não vou conversar com o outro? Como eu vou contemplar todo mundo?” Naquele dia eu perguntei: “E todas aquelas histórias que escreveram? Como...” Porque você pede pra criança, pro jovem escrever a história, as pessoas estão se sentindo importantes, estão sentindo que fazem parte dessa história. Acho que esse movimento é muito importante.

Eu sempre gostei de uma linha, ali grudada na parede, quando eu dava aula de História e Geografia lá na Carlitos, de colocar... Pra mim é algo importante. Eu vivi isso na Carlitos, foi feito um livro que abordava a história do bairro de Higienópolis, onde a escola estava inserida; eu fiz parte deste livro, junto com a primeira série. Essa questão cronológica, como as coisas se dão, é algo que me pega muito.

Eu acho que é muito importante ter esse resgate. Quando você vê: “Nossa, começou aqui. Como que era?” Quando a Olga falou: “Eles começam lá como seu pai e sua mãe se conheceram”, eu comecei a chorar, na semana passada tudo eu chorava. (risos) Porque tudo acaba fazendo sentido. Eu saí de lá depois que conversei com a Sônia: “Sônia, eu queria tanto que você visse o projeto hoje, como está a proposta pedagógica, pra ver se é aquilo que você pensou.” E ela teve uma fala do quanto eles tiveram que fazer pra conquistar aquela comunidade. Consegui ter um outro olhar pra posição da Célia, das outras pessoas que estavam envolvidas no início daquela história.

Pra mim está sendo muito importante toda essa vivência, por mais que pra mim seja super... Eu não fico à vontade com uma câmera, refletores, máquina fotográfica. (risos) Mas eu acho que é muito importante pra história. O quanto a fundação é referência por conta do Raí, do Leonardo, do trabalho que a gente desenvolve. Pra mim é tão gratificante quando alguém chega lá e fala, quando um fiscal chegou lá e disse: “Vocês fazem o que está no papel.” Eu pensei: “Coloca em xeque a minha atuação profissional. Não, não estou enganando ninguém. Eu estou fazendo aquilo que a gente assumiu pra fazer.” E aí, eu acho que vem a credibilidade. Da hora que você chega lá e vê o que acontece, o quanto é difícil. Em momento algum a gente diz que é fácil; é difícil, é árduo. Você tem que ser perseverante, acho que pra estar ali tem que ser perseverante pra caramba. Porque senão você fala assim: “E agora?” Várias vezes.

A Márcia, quando fez as fotos, depois que eu me dei conta. Quando ela saiu da brinquedoteca e voltou ela fez assim: “Como que chama, você é coordenadora?” “Sou.” “Como chama o programa?” “Virando o Jogo.” “Tudo bem a gente voltar?” Abri a brinquedoteca outra vez e ela colocou umas peças de xadrez. Achei muito legal e depois fiquei pensando: lá tem muitas situações que você fica em xeque, que você fala “como que eu saio disso agora?” É muito bacana, estou adorando.

 

P/2 – Que bom!

 

P/1 – E agora que você já viu como é dar o depoimento, o que você achou?

 

P/2 – A sua experiência de falar da sua vida toda...

 

R – Adorei! Olha, se vocês não tivessem a Tina à tarde eu ia contar minha história de vida desde o começo, não iria nem me incomodar. (risos) Mas foi engraçado porque quando a Olga falou: “Não, Pati. Eu falei, o Ricardo estava comigo, então ele vai focar, vai ter uma outra estrutura.” Eu fiz assim pra ela: “Mas a minha história, eu não me incomodo de...”

A questão que foi hoje mais presente… Acho que se eu começo a falar mais dos meus pais, da minha família mesmo, pode ter alguma emoção além? Pode. Mas eu falei pra ela: “A perda está muito presente na minha rotina enquanto profissional, hoje. A perda não vai ter como fugir. Essa perda, esse momento que estou passando.” Mas me senti… A Helena, Jérémie, Olga, todo mundo que veio aqui e falou que vocês são uma simpatia, que fica todo mundo tranquilo, que é super gostoso. É de verdade, viu? Eu gostei, me senti muito bem, muito acolhida. Foi muito bom.

 

P/1 – É isso aí. Brigadão, Patrícia!

 

P/2 – Obrigada, Patrícia!

 

R – Eu vou depois pra contar a minha história de vida. (risos) Mais?





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