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"Ainda estamos engatinhando no Brasil"

História de: Lucy Amicón
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2008

Sinopse

Lucy relata sobre a organização e execução do evento CAD Brasil, realizado na Casa das Rosas, São Paulo. Os organizadores queriam deixar um legado e tornaram o local acessível para o público com deficiência física. Além disso, doaram todos os materiais que utilizaram no evento para o Projeto Arrastão. Após este evento, Lucy e seus dois sócios começaram a pensar outras maneiras de aplicar a sustentabilidade na empresa.

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História completa

P – Tudo bem Lucy? 

 

R – Tudo.

 

P – Você pode começar falando para mim seu nome completo, seu local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Lucy Amicon. Eu nasci em Buenos Aires, Argentina em dezembro de 1949.

 

P – Lucy, eu queria saber um pouquinho como que começou essa história de vocês começarem a pensar em trabalhar com responsabilidade socioambiental, como é que foi isso não sua vida?

 

R – Na verdade começou tudo por um relacionamento com uma amiga arquiteta, que há dois anos ela pertence à Ethos, através do Marcelo Takaoka. E ela me passou o site, e daí eu passei a receber as informações do Ethos, e comecei a me interessar. A conhecer um pouquinho mais do que é que era o Ethos. E através de conversa com ela também, como ela modificou o escritório, enfim. Ao mesmo tempo há dois anos nós, temos uma empresa que se chama Decora Brasil. Nós fazíamos um evento que se chama CAD  [Desenho auxiliado por computador] Brasil, o ano passado foi feito na Casa das Rosas. É um evento que vem da Europa, que na Europa está há 15 anos, está nos Estados Unidos também. E nosso, o ano passado a gente fez o projeto de evento de arquitetura e decoração, mas num ambiente tombado e com um tema. Ou seja, já era nossa intenção dar ao público alguma coisa a mais. Aí deixar depois benfeitorias dentro de um bem público que não tinha nenhum tipo de acessibilidade, por exemplo. A Casa das Rosas existia há muito tempo, com um uso de obras de poesia, e o acervo do Haroldo de Campos, e de poesia concreta, etc, etc. Só que era restrito às pessoas que tivessem algum problema físico. Então a gente entrou com a mostra, com os profissionais, que realmente abraçaram esse projeto, e bom, o resultado foi muito bom, foi muito bom na mídia, enfim. E a partir daí, nós fizemos também dentro do que a gente sabia nesse momento um reaproveitamento de todo o material que ficava depois da mostra. Ou seja, tudo aquilo que era desmanchado a gente entregou para o Projeto Arrastão, de Campo Limpo, mas com uma assessoria do profissional. Então ele doava, por exemplo, latas de tinta, mas ele ia ao local e falava assim: "Olha, você pode fazer, utilizar isto desta maneira." Enfim, foi um trabalho que neste aspecto não teve nada que foi para a caçamba, digamos. Tudo foi reutilizado de alguma maneira. Sem saber nós estávamos fazendo alguma coisa. Já este ano a gente começou a conversar com os três, somos três sócios, e porque realmente a gente tem a obrigação de - por ser um evento que recebe muita gente - de passar alguma coisa sobre sustentabilidade, sobre menos uso de carbono, menos carbono CO2, enfim, passar aos poucos. Ir caminhando a sustentabilidade. Ir indo por esse caminho. E decidimos juntar ao nosso logo de casa de arte, de design, a sustentabilidade como um projeto a longo prazo. Porque a gente sabe que isso não é de um ano, dois anos. É muito tempo. E foi aí onde nós tivemos procurando assessorar-nos mais. Então o Ethos, o Sistema Ambiental, que são duas meninas que realmente trabalham com isso super bem, Iniciativa Aberta, que também trabalha com a, o toda esta parte de sustentabilidade, principalmente do uso do carbono e diminuição do uso do carbono. Então, por exemplo, o que aconteceu? Eles me deram uma, uma série de perguntas para, um questionário, para responder sobre o que nós tínhamos feito o ano passado. Então eu...

 

P – São os indicadores do Ethos.

 

R – Exatamente. E aí então, na hora que a gente ia escrevendo e tal, nós começamos a sentir vergonha de tudo que a gente não tinha feito. Tipo, tudo, desde o lixo que foi todo misturado, até, sei lá, enfim, o uso de energia demais. Enfim, acho que quando você escreve no papel você percebe e pensa. Então eles vão fazer uma avaliação e vamos saber como nós decorar, podemos também diminuir esse consumo e depois fazer alguma coisa enquanto plantio. Isso depois eles decidirão. E ao mesmo tempo nós vamos criar os regulamentos para os profissionais no evento deste ano, onde eles, onde vamos criar indicações para uso dos materiais sustentáveis. E nisso o Sistema Ambiental vai nos ajudar, porque, evidentemente, o maior problema que temos hoje é que o fornecedor não tem, não está muito interessado, realmente em, só pensam em vender o produto. Alguns que falam: "Ah, é ecologicamente correto." "Ah, a madeira é assim." Tudo te falam. Mas quando você vai ver não sabe se realmente, alguns casos são verdade, outros não são. E nós sabemos que não vai ser todo o ambiente sustentável. Porque não tem, não tenho produto hoje. Só que se cada um deles fizer alguma coisa e a gente explicar isso para o público visitante, nós já estamos contribuindo. Nós já estamos conscientizando. E nós estamos acabando também um círculo danoso à empresa. Ou seja, criando e depois reutilizando tudo. Seja por qualquer tipo de meio. Ou doando, ou deixando na casa, ou vendendo. Enfim, nada vai ficar numa caçamba e vai para um lixão.

 

P – Muito legal. Você consegue observar assim que teve uma evolução dessa questão de responsabilidade socioambiental nesse ambiente que você trabalha, da decoração?

 

R – Não, eu acho que falta trabalhar muito ainda. Nós temos que...

 

P – Você vê algum desafio que você acha que tem que pensar melhor?

 

R – Então, isto que a gente está se propondo acho que assim é o nosso grande desafio. Porque reunir o bonito, a decoração, o design, o paisagismo ao que é a responsabilidade ambiental. Então esse é o nosso grande desafio. Porque realmente não se fala muito, mas o desperdício ainda aqui no Brasil é muito, é muito. Eu acho que a abundância que nós temos, não sei, por que, a cultura, não sei. Eu acho que ainda o desperdício em todos os sentidos é, e mais quando você arma um evento deste tipo, é uma coisa que até acho que tem que passar a dar vergonha, não fazer algo com isso. Com tudo o que acontece. 

 

P – Você acha que o Brasil está num estágio mais avançado do que os outros países, como é que você vê o Brasil dentro dessa posição?

 

R – Não, não. Lamentavelmente não. Não, eu acho que ainda nós temos muito o que aprender, muito. Não passamos ainda tudo. Tá certo, se fala da Amazônia, mas não é. A gente tem que aprender muito. É um país muito grande, é muito, e falta a conscientização tem que ser cultural. Tem que vir de lá de baixo. Eu acredito, por exemplo, que as crianças hoje em dia, as escolas estão tomando cuidado em ensinar muita coisa. E então essa geração que hoje, de repente, tem cinco ou seis anos, quando crescer eles vão ter muito mais cuidados. Mas é, estamos, eu te diria que nem, nós não estamos nem aprendendo a engatinhar, perto do que acontece, por exemplo, na Europa.

 

P – Como é que você vê assim, falando do Instituto Ethos, que está organizando essa conferência, como é que você vê o trabalho dele no Brasil? Você vê ele, consegue lembrar de alguma coisa que você acha que foi bacana que eles fizeram? Que deu um grande impulso.

 

R – Olha, eu não vou querer, assim, te falaria. Eu comecei há pouco tempo a seguir, mas pelo que estive lendo, e pelo que eu conversei com esta amiga, eu acho que muita coisa aconteceu. E quanto mais pessoas cheguem ao Ethos e colaborem, enfim. Bom, nós vamos fazer a diferença, tá?

 

P – Muito legal. Ah, é isso. Você gostaria de falar mais alguma coisa? Deixar registrado?

 

R – Não, eu adorei. Eu estava meio resistente em fazer, mas eu acho que foi muito bom.

 

P – Eu agradeço muito, viu?

 

R – Eu agradeço vocês.

 

P – Obrigada, pelo Museu da Pessoa. 

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