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Não, que Europa! Eu vou pra São Paulo!

História de: Maria Agustina Comas
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Publicado em: 25/05/2021

Sinopse

Agustina Comas nasceu em Montivideo, Uruguai. Formada em design têxtil e moda pela Escuela Universitaria Centro de Disenõ de Montividéu. Através do pai que tem uma empresa de logística Uruguai/Brasil, arrumou uma carteirinha de imprensa internacional com o jornal El País e veio com uma amiga da faculdade pra São Paulo Fashion Week, nesse momento decidiu que iniciaria sua carreira em São Paulo. Em busca por estágio conheceu Jum Nakao, convidaram o Jum pra ser diretor criativo da marca do Guga Kuerten e ela foi para Florianópolis ser a estilista do masculino. Nas fábricas do sul começou a prestar atenção nos resíduos sólidos, tudo que sobra no corte, ficou incomodada com a sobra de roupa, de peças. A marca do Guga fechou, voltou para São Paulo, ficou super deprimida, ficou achando a indústria muito suja. A Comas foi criada em julho de 2015, produz peças por meio da técnica “upcycling”, processo pelo qual produtos descartados são recuperados, transformados e recolocados no mercado. Desde que a Comas foi criada, o trabalho evitou que mais de três mil metros de tecidos fossem jogados no lixo.

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História completa

Eu sou Agustina Comas e nasci em Montevideo, Uruguai, em 9 de novembro de 1980. Meu pai chama Nicanor Comas Arocena e minha mãe Maria Del Rosário Ogenar Siciliano. Minha mãe é médica psiquiatra e psicóloga e meu pai é empresário. Ele é transportista. Trabalha com logística e transporte. 

Por muito tempo, eu quis ser médica, acho que era muito pelo que o meu pai esperava de mim, e hoje ele me apoia pra caramba na minha carreira, mas no começo ele achou estranho, quando eu fui pro lado das Artes, do Design, e foi muito influência da minha mãe.

Eu via que eu queria mais pintar, desenhar, e aí no último ano... lá no Uruguai você escolhe, nos últimos dois anos você já vai se especializando. Então, pra você entrar numa determinada faculdade, você tem que feito o que chama batigerato, que são o quinto e o sexto ano, você já tem que tê-lo feito nesse caminho.

Eu fiz quinto biológico, porque eu ainda achava que eu ia fazer Medicina. E aí foi que eu me liguei, no final do ano que eu falei: “Nossa, eu quero fazer Arquitetura”, mas eu achava que eu não sabia desenhar, porque eu não tinha tido muito essa experiência. Estudei pra caramba e consegui, foi um negócio academicamente, na época, um puta desafio e eu gostava de me enfrentar a esse tipo de coisas, eu consegui e então, no sexto ano eu já fui pra Arquitetura.

Esse ano que eu não entrei em faculdade de Design, que eu fui pra Europa, fiquei dois meses na Europa, fiz mochilão. me abri muito politicamente, conheci pessoas de esquerda que tinham sido filhos de exilados. Eu me abri muito pra outras realidades que eram diferentes do que minha família esperava

Aí eu estudei História da Arte todo esse ano, aí virei rato de museu, só queria ver,  Design e arte e só queria absorver mais tudo isso. Comecei a conhecer pessoas mais diferentes, comecei a frequentar as festas da Faculdade de Arquitetura, que na época era a faculdade mais diferente. A faculdade uruguaia de Arquitetura é maravilhosa, um prédio incrível e tinha muita festa legal e pessoas mais parecidas comigo. Comecei a experimentar muito a roupa. Tanto que no último ano da escola eu lembro que tinha boatos que eu era drogada. Porque eu me vestia diferente. Eram umas bobagens, assim. Eu ainda nem usava drogas. (risos) Fui usar depois.

Eu consegui fazer minha residência, porque meu pai tem essa empresa de logística Brasil/Uruguai. Minha conexão com o Brasil é muito através do meu pai, eu vim em 2004. Eu já tinha me formado lá, mas eu fiz vestibular aqui. E aí eu frequentei a Santa Marcelina, até ter o carimbo no passaporte, depois eu saí.

Eu arrumei uma carteirinha de imprensa internacional com o jornal El País, que meu pai conhecia as pessoas e, na cara de pau total, eu e uma amiga da faculdade, veio pra São Paulo Fashion Week.

Aí eu conheci meu primeiro namorado brasileiro, que era o Francio, que era fotógrafo, Passamos duas semanas bem São Paulo, assim, com Francio nos levando pra todos os lados, conhecendo botecos e festas, porque, na época, São Paulo Fashion Week tinha milhões de coisas. Era muito divertido. Aí eu falei: “Não, que Europa! Eu vou pra São Paulo

Eu cheguei no Brasil sabendo escrever o português correto e aí fui melhorando minha fala. Enquanto eu ia na Santa Marcelina, esperando sair a minha documentação, comecei a procurar estágio

Nessas buscas, eu conheci o Jum Nakao, eu estava ali na Benedito Calixto, Aí eu escutei uma pessoa perguntando pra outra: “Como está o Jum, melhorou?” E eu estava justo olhando as roupas do Jum e tinha me marcado muito o desfile dele, no São Paulo Fashion Week. Aí eu falei: “Oi, tudo bom? Eu sou uruguaia, estou procurando um estágio, ouvi que alguém perguntava pra você sobre o Jum, eu gosto muito do trabalho dele, enfim queria saber se eu posso entregar meu currículo pra você”.  “Eu sou mulher do Jum eu vou te dar o telefone”

Comecei a trabalhar com o Jum, como estágio, e aí eu trabalhei no desfile A Costura Invisível, que foi um dos desfiles mais importantes da história da moda brasileira, que eram as modelos com cabelo de Playmobil, com as roupas de papel, que rasgavam no final e esse foi o meu estágio.

Eu ainda não trabalhava com resíduo, só tinha esse gosto de juntar coisas, sempre estava catando coisa na caçamba. Aí convidaram o Jum pra ser diretor criativo da marca do Guga Kuerten, aí ele me chamou pra ser estilista do masculino, fomos morar em Florianópolis.

De cara, caí na Dudalina, H J Hering, Tecnoblu, as fábricas do sul, aí que eu comecei a prestar atenção pra resíduos sólidos, tudo que sobra no corte, comecei a ficar meio incomodada com a sobra de roupa, de peças. A marca do Guga fechou, eu voltei pra São Paulo e tive aí uma fase bem punk, fiquei super deprimida. Fiquei achando essa indústria muito suja, sei lá, que faz, produz e sobra. Fiquei meio mal, até meio dei uma paralisada.

Eu entrei lá na Daslu, fiquei lá cinco anos. Eu estava com essa questão das sobras, tal, muito forte. Eu comecei a trocar ideias com a Inês Pires, uma super amiga da faculdade do Uruguai. “E se a gente fizesse algo com essas roupas?”

Aí veio um convite pra Ana, do Uruguai, de Magma, que é uma loja multimarcas super importante de lá, que chamou vários designers pra fazer coleções com o lema de sustentabilidadevamos. A gente vai lá, cata tudo, cria uma versão e faz com a roupa, a roupa. Aí começamos um processo, vendemos lá. E a Fernanda Yamamoto estava abrindo a loja dela, FY Convida, em 2009, que era multimarcas. Convidou a gente pra vender, aí a gente começou a vender também no Uruguai,  a gente começou a dar oficinas também.

 Hoje eu chamo de disseminação de escala horizontal, porque não é uma marca produzindo mais, senão muitas marcas se beneficiando com essas técnicas. Hoje o meu método é o sistema Comas de Upcyclinga, a gente colocou esse nome, é um sistema mesmo de criar, desenvolver e produzir roupas a partir de roupas, sistematizado e com escala.

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