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História

Agulha e linha

História de: Júlia Maria Medeiros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/04/2005

Sinopse

O pai de Júlia Maria Medeiros veio de Portugal para o Brasil, onde trabalhou como taxista. Ela realizou o curso de corte e costura e trabalhou na Companhia Nacional de Tecidos como refiladeira, e descreve o ambiente de trabalho, seus patrões, o funcionamento da fábrica, as diferentes etapas de confecção de uma camisa e o aprendizado da costura em máquina industrial. As máquinas perigosas, os acidentes de trabalho e problemas de saúde. Compara, ainda, as linhas de produção antiga e atual, comenta o interesse e participação da luta sindical, as greves e a repressão da ditadura militar nos anos 60. 

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História completa

P - Para começar a entrevista, diga seu nome completo, o local e a data do nascimento.

R - Meu nome é Júlia Maria Medeiros, eu nasci em São Paulo, Capital, em uma rua chamada Barão de Serro Largo nº 55, Vila Gomes Cardim.

P - O nome dos seus pais?

R - Acássio Medeiros e Lídia de Oliveira Medeiros.

P - O que eles faziam, Júlia?

R - Meu pai, ele a princípio foi, como se diz, tinha uma padaria em sociedade com outro depois ele acabou virando um taxista e foi como ele se aposentou.

P - E a sua mãe?

R - Minha mãe era do lar mesmo.

P - E o nome dos seus avós maternos?

R - Mariana da Consolação Redondo e Leopoldo de Oliveira.

P - E os avós paternos?

R - Do meu pai eram, Júlia da Conceição Medeiros e José Medeiros.

P - Eles moravam em São Paulo também?

R - Os avós paternos não, eles faleceram em Portugal, eu sou descendente de portugueses e os meus avós maternos também eram portugueses, mas residiam no bairro do Brás.

P - Você sabe por que os seus pais vieram para o Brasil?

R - Bom, o meu pai veio com 13 anos de idade, porque ele era muito levado lá em Portugal, dava muito trabalho e os meus avós mandaram ele com um primo bem mais velho para cá, porque achou que aqui, longe da família, ele ia criar responsabilidade e deu certo. (riso)

P - Por que eles escolheram o Brasil?

R - Porque já tinha alguns parentes aqui, porque lá contava-se que o Brasil, era um país muito rico, muito potente, com muitas riquezas e minérios, essas coisas todas, então foi por isso que mandou para cá.

P - Você se lembra da sua casa de infância?

R - Ai tudo. (riso) Era uma casa estilo antiga, quadrada que tinha uma varanda na frente e outra nos fundos e um quintal enorme, cercado de jardim. E no fundo tinha um, criação de galinhas, aquelas de raça não lembro o nome,né, e nós tínhamos no quintal, um casal de cães, pastor alemão, o cachorro chama-se Barão e a cadela chamava-se Lira e era muito minha amiga e me defendia de tudo. (riso)

P - E seus irmãos?

R - Ah, o meu irmão, o mais velho, chama-se José, uns chamam ele de Zezinho, outros de Zezo, né, e me superprotegia sempre porque ele tinha 17 anos quando eu nasci. Então, onde ele ia me levava junto, se sentia orgulhoso de me carregar no colo, né, então era aquele xodó comigo. A minha irmã, a mais velha de todas, chama-se Mariana, mas desde pequena é chamada por Nena, esta praticamente me criou também, minha mãe tinha problema de saúde, né, e o caçula que é esse que mora comigo, chama-se Roberto, problemático mas muito assim sensível também.

P - Como era o cotidiano de vocês? O dia -a - dia da casa?

R - Ah bom, nós começávamos o dia bem cedo mesmo, eu acordava tão logo meu pai acordasse, ele madrugava, ele acordava às 4 e meia da madrugada para cuidar do jardim, da horta dele, da criação, depois pegava o táxi, que é da parte que eu lembro, quando tinha a padaria eu não lembro que eu acho que ainda era bebê ainda, né, eu lembro do táxi para frente. Então, ele já saía com o táxi, quando era por volta das 18 horas, 18:30 ., ele voltava para casa. Às vezes vinha para almoçar e quando ele saía pela manhã, tinham que me distrair, porque eu queria ir junto e algumas vezes ele me levava no táxi. E quando me distraiam eu chorava um pouco, mas depois ficava brincando com o caçula e quando o outro chegava do serviço, às vezes, me levava eu para passear um pouquinho, discutia com a minha irmã, os dois tinham ciúmes de mim, um queria ficar comigo o outro também, então, né, eu lembro muito bem disso, tenho saudade até.

P - Você se lembra de quando ia passear de táxi com o seu pai?

R - Ah, eu lembro quando ele parava com os amigos, eu lembro que um dos fregueses dele, dos passageiros dele era o falecido Adhemar de Barros, os Titulares do Ritmo, algumas vezes ele pegou esses passageiros comigo dentro do táxi. Eu cheguei a ganhar um brinquedo do Adhemar de Barros, era um brinquedo e ao mesmo tempo uma bolsa, era uma bolsa, tamanho para criança mesmo, era de pelúcia e era um cachorro, abria um zíper em cima e dentro a gente guardava as coisas, que ele gostava muito de mim. E os Titulares do Ritmo, eles cantavam, às vezes, para mim dentro do táxi.

P - Ah, é?

R - É.

P - Você se lembra de alguma música?

R - Ai a música infelizmente essa não lembro, eu sou, para música eu sou ruim (riso).

P - Você estudou?

R - Eu estudei o primeiro grau completo.

P - Aonde estudou?

R - Eu estudei, do jardim até o segundo, antigamente se falava primeiro, segundo ano, né, hoje é primeira série, segunda. Até o segundo ano primário no Educandário São Francisco de Assis, ficava na Euclides Pacheco, no Gomes Cardim. E depois nós mudamos para a Vila Formosa e eu continuei até terminar o ginásio no Externato Nossa Senhora do Sagrado Coração em Vila Formosa mesmo. Que nós havíamos mudado, não dava para continuar no primeiro colégio. Estranhei um pouquinho, né, porque eu estava habituada naquele, se bem que era mais rígido do que o segundo, o segundo era um colégio de freiras, mas mais aberto e o primeiro não, o primeiro era mais fechado, mas eu estava habituada, estranhei um pouquinho, mas depois eu peguei o embalo

P - Quais eram os costumes desse segundo colégio?

R - Ah, do segundo colégio, nós tínhamos mais tempo de recreio por exemplo, uma vez por semana, nós não tínhamos aula, que naquele tempo tinha aula aos sábados, hoje em dia não tem em escola nenhuma. Então, aos sábados a gente tinha mais lazer e nesse lazer, a gente pintava com a mão, passava tinta no pé e carimbava o pé nas folhas de sulfite, tinha brincadeira no play-ground do externato, então, tinha todo esse tipo de coisa, fora a aula de religião que era sagrado porque era colégio de freiras, né, mas não era obrigado a assistir, mas eu assistia todas.

P - O que aprendiam na aula de religião?

R - Ah, desde a história do principio, da história da Bíblia, de quem era Deus, de quem foi Adão e Eva, tudo isso daí, a gente aprendia até a vida assim em sociedade com a religião.

P - Voltando para a família, tinha alguma profissão, algum ofício que seus pais valorizavam, gostariam que vocês exercessem?

R - Bom, o meu pai gostaria que eu fosse psicóloga e eu nunca gostei disso, sabe, e eu queria ser aeromoça, na ocasião, porque tinha uma moça na minha rua que ela era aeromoça e ela me incentivava para isso, porque diz que eu sou comunicativa desde pequena e precisava ser e eu sou muito solícita com as pessoas, tinha que ser também, né? Mas o meu pai tinha preconceitos, aeromoça e bailarina, filha dele não, porque disse que desviava, desvirtuava, aquela coisa toda, sabe essas pessoas estrangeiras e tradicionais, a família do meu pai é desse tipo. E então, em represália eu não quis continuar estudo, eu parei no ginásio por causa disso, me arrependo hoje, né? Porque deveria de ter seguido alguma coisa diferente e depois quem sabe eu conseguiria dobrar meu pai e partir para aquilo que eu gostava. Mas também tem as sua vantagens, eu não estaria conhecendo tantas pessoas diferentes como eu conheço hoje através do que eu segui.

P - Quando parou de estudar, chegou e falou para o teu pai, como foi isso?

R - Eu simplesmente deixei de ir à escola, levei uma tamanha bronca Aí ele me mandou para a casa de um padrinho em Vargem Grande Paulista, é o primeiro pedágio de São Roque e meu padrinho era muito rígido e de lá eu fiz algumas travessuras, aí eu já estava com 15 anos e queriam que eu namorasse um rapaz que tinha acho que o dobro da minha idade, ele chegou perto de mim falou assim: "Fica tranqüila, eu não vou contrariar sua vontade porque os seus pais querem e o meu também".Ele só tinha pai, eu tinha pai e mãe. (riso) Mas, por causa disso, meu padrinho passou a chave no quarto onde eu estava e era casa de dois pavimentos, eu escorreguei pelo cano de água, desci, peguei a estrada e vim à pé descalça de São Roque para cá e com a mão cheia de bolha, porque eu escorreguei, esquentou a mão e queimou, né? (riso) E lembro disso hoje eu acho graça e penso assim que infantilidade, também 15 anos, né? Hoje as meninas com 15 anos são mais maduras, mas no meu tempo ainda pensava até em brincar de boneca, com boneca até.

P - Quanto tempo passou em Vargem Grande?

R - Fiquei mais ou menos uns 18 dias, além disso anterior a isso, eu dei uma chicotada no rosto do capataz lá do sítio (riso) e tudo isso eu fazia. Fui brincar com os filhotes de porquinhos lá no chiqueiro, lá no fundo, com um vestido de festa e voltei para a sala toda enlamaçada (riso) e depois meu padrinho bravo falou assim para mim: "Vai tomar um banho e se vestir como gente", eu desci a escada com um shortinho curto e foi daí que ele me trancou. (riso)

P - Como chegou aqui, andando à pé de São Roque até São Paulo?

R - Não cheguei até São Paulo, meu pai com saudades de mim, foi me buscar e me encontrou na estrada, chorando, toda descabelada, com os pés feridos as mãos também, ele passou direto diz que de repente ele pensou: "Parece que eu vi minha filha na estrada", ele deu ré, levou multa por causa disso, não podia fazer aquilo. Aí, ele falou: "O que você está fazendo?", eu falei: "Estou indo para casa não agüento mais meu padrinho." Aí ele falou: "Mas por quê?". "Ele passou chave no quarto", aí meu pai se queimou, falou: "Não, ela não vem mais para cá, eu dou bronca eu mando que vá para o quarto, mas passar chave não, ela não é criminosa." Aí, nunca mais fui para a casa do meu padrinho e até hoje não tenho notícia dele. (riso)

P - Júlia e aí o que decidiu fazer da vida?

R - Ah, eu retornei ao meu emprego, porque eu estava em férias coletivas, eu já estava trabalhando. Fui trabalhar contra a vontade do meu pai, tirei o documento com a ajuda da minha mãe, consegui convencê-la e fui trabalhar na confecção, porque foi o que eu achei no jornal e era o mais próximo de casa. E foi lá que eu comecei a entrar mais em costura, eu já sabia, né, como eu fiz um curso de corte e costura, então como eu já estava pendendo para esse lado, eu entrei, claro que é bem diferente a costura industrial daquela doméstica, né, máquina, sistema, tudo diferente. Mas foi daí que eu comecei e fiquei nessa categoria.

P - Como fez esse curso de costura doméstica, como procurou o curso, o que aprendeu?

R - É, eu estava ainda, antes de terminar o ginásio, terminei em 59, se não me falha a memória e antes de terminar, no início do ano, até antes do início do ano, ainda no finzinho de 58, eu vi uma escola de corte e costura próximo de casa e eu achei que se eu aprendesse eu teria mais chance de ter mais roupas para mim, porque sai mais barato fazendo, né. Aí eu entrei no curso e a professora não exigia nada antes e eu não consultei em casa, aí quando estava para vencer o mês que o meu pai soube que eu estava fazendo o curso: "Você tinha que ter me consultado e se eu não tivesse dinheiro para pagar?" Aí eu falei:" Agora tem que pagar, porque tem quase um mês que eu estou aprendendo lá." Em casa ninguém viu, eu fazia os moldes, tudo escondido no meu quarto. E peguei aquele gosto comecei costurar. E a primeira costura que eu fiz de verdade foi para o, uma camisa para o meu irmão e ele não contou nada para o meu pai, tirei as medidas dele, tudo, fiz, ele gostou muito da camisa, para o mais velho foi. Depois fiz um vestido para mim que meu irmão comprou os cortes de tecidos para mim. Depois aí, meu pai gostou da idéia e começou comprar de monte de peças de tecido lá para mim fazer sabe, depois eu queria ter o meu dinheiro particular e para mim aprender nem sempre eu tinha meu próprio tecido, eu pegava de pessoas vizinhas, de crianças, tecido e a pessoa me dava o tecido me dava confiança e eu não cobrava a mão-de-obra, então, com isso eu fui aprendendo e aprendi durante 1 ano e dois meses mais ou menos.

P - E você costurava na escola? Tinha máquina?

R - Na escola e em casa também, eu tenho uma máquina, essa máquina deve de ter mais ou menos uns 120 anos, porque minha avó comprou ela em segunda mão já era antiga e a minha avó criou todos os filhos naquela máquina de costura ela era manual, de virar manivela. E depois, quando a minha avó ainda estava viva, mas estava no finzinho da vida ela disse: "Eu quero que fique com a minha neta caçula" e das netas a caçula era eu. Meu pai mandou reformar, mandou adaptar pedal e ficou para mim, tenho até hoje, é uma relíquia, já quiseram me comprar, mas não vendo.É uma Singer, antiga.

P - Sabe se ela é importada?

R - Eu acho que sim, porque está escrito o nome dela, acho, em inglês parece, ou alemão sei lá, qualquer coisa assim.

P - Depois que terminou o curso procurou um emprego?

R - Foi e consegui, só que eu pensei que fosse igual ao curso, depois chegou lá, eu vi que era diferente. Pensei que eu fosse cortar e alinhavar, confeccionar e na indústria não existe esse sistema de alinhavar, você tem que ter o golpe de vista e juntar, unir as folhas de tecido e ir embora na máquina. Mas eu não comecei direto na máquina, eu comecei com serviço manual lá. E lá eu comecei como refiladeira, refiladeira é um tipo de, se fosse em um outro tipo de indústria, o que sobra do tecido, se chamaria rebarbas. Então, raspariam com um tipo de metal para tirar as rebarbas, no tecido a gente usa a tesoura e a gente recorta o que está a mais. Eu tinha até defeito antigamente nesse dedo, no polegar, porque eu segurei errado na tesoura, uma das argolas da tesoura me vem até aqui que eu só consigo manusear ela desta forma e tenho e trouxe até para mostrar para vocês a minha primeira tesoura na firma, toda enferrujada, mas eu guardo de recordação.

P - Voltando um pouco, como conseguiu ter um emprego, tirou a carteira?

R - É, eu tirei uma carteira de menor, minha mãe foi comigo, mesmo contrariando meu pai, depois eu procurando no jornal, desses jornais de bairro, se não me engano acho que até era Gazeta do Tatuapé, estava escrito: "Precisa-se de menor que seja esperta, comunicativa que saiba tratar, lidar com seus colegas, para trabalho manual em confecção na Rua Passos 249, no bairro do Belém e isso foi em 1960. Aí minha mãe foi, eu fui primeiro sozinha, falei com eles, ele disse assim: "Gostei de você, você é muito comunicativa parece esperta, mas a gente quer um responsável, ou o papai ou a mamãe." Aí eu disse: "Serve a mamãe, porque o papai é meio bravo." Falei, né. Aí ele disse: "Serve." Aí minha mãe foi comigo ele disse que gostou muito de mim, no dia seguinte eu já comecei, já cheguei atrasada porque eu me atrapalhei toda sabe, eu queria me produzir toda e fiquei não sei quantas horas na frente do espelho e me atrapalhei toda, mas entrei atrasada assim mesmo. Quando eu cheguei, umas cinco ou sei garotas também entre 14 e 16 anos, estavam me aguardando na entrada da seção e me disseram para mim: "Seja bem - vinda, agora você é nossa colega." Aí, eu me senti totalmente à vontade e lá eu fiquei 20 anos.

P - Qual o nome da firma?

R - Quando eu comecei ela se chamava. Companhia Nacional de Tecido, era a razão social dela, depois eu não sei porque e quais foram as questões eles mudaram a razão social para Companhia Orly Industrial e não me lembro, parece que foi quando houve o Golpe Militar, acho que em 64. Tanto que quando eu entrei a gente contribuía com o Instituto Nacional de Pensões dos Comerciários - IAPC. E depois entrou o Golpe Militar, em 64 e passou a ser INPS então aí foi quando eles mudaram a razão social da firma.

P - Já começou a trabalhar registrada?

R - Imediatamente registrada, eles me registraram no mesmo dia. Era uma firma muito boa, os proprietários, o principal proprietário hoje é falecido, chamava-se doutor Camilo (Ansara?), ele era o presidente da empresa e muito bom era um senhor acho que árabe, libanês, não sei, mas muito, muito bom mesmo sabe, ele tinha os sobrinhos que trabalhavam junto, tinha o (Ramuã?), o Oswaldo e o Nicolau. O (Ramuã?) e o Oswaldo eram melhores, eram mais humanos, o Nicolau era meio bruto assim, mas a gente relevava porque tinha os dois que eram melhores e a esposa do doutor Camilo, a dona Iolanda (Ansara?), era uma senhora que nunca teve filhos, então ela fez um orfanato, ela montou um orfanato, se não me engano acho que no Mato Grosso e desse orfanato ela adotou um garotinho, da raça negra, que ela chamava de afilhado e levava sempre o menino lá para a gente ver. O menino, ela vestia ele como príncipe sabe, muito bonitinho, sempre com roupas de veludo e blusas de ceda de babadinhos, assim, e de boina. E ela chamava nós, as funcionárias, de suas afilhadas, também, ela dizia: "Ah, eu adoro minhas afilhadas" e sempre parava na minha máquina, conversando comigo, ou na minha mesa antes de eu ser costureira lá.

P - Ela ia sempre até lá?

R - Ia sempre, pelo menos uma vez por mês ela fazia visitas na firma e lá tinha um senhor chamado Roque Chaves Murano, também hoje falecido, era um senhor baixinho, gordinho, muito bravo, mas comigo, olha eu não sei o que eu tinha que eu conquistei aquele homem com tudo, ele me superprotegia, tinha uma encarregada uma portuguesa chamada Maria Alice que ela, acho que era um pouquinho de ciúmes, de dor - de - cotovelo não sei e ela pegava muito no meu pé, apesar de que meu serviço, modéstia à parte, era perfeito e eu produzia bastante, mas ela sempre implicava comigo e ela era sempre chamada atenção por ele por causa minha. Depois veio o Paulo, ser o gerente lá, o Paulo Costa Júnior, um jovem ainda, que ele até casou depois de estar trabalhando; lá dentro e de vez em quando ele sentava do lado da minha máquina e batia longos papos comigo e um dia ele disse assim para mim: "Nós temos quinhentas funcionárias mulheres aqui, você sabia?" Falei: "Sabia", aí ele disse assim: "Você e sua amiga Lurdinha, são as duas únicas diferentes." Eu falei: "Como assim, mais feias, mais bonitas, mais burras ou mais inteligentes?" Ele falou assim: "Não, eu considero as duas inteligentes e bastante simpáticas, amigas de todo mundo." Ele disse: "Eu digo diferente no seguinte, aqui, a maioria ou melhor, 498 fumam e vocês duas não, então vocês são diferente fora outras coisas mais assim...", não sei se eu posso falar aqui?

P - Pode ficar à vontade.

R - É, quando eles assediavam elas, elas estavam sempre correndo para sair no carro com eles e não importava que a maioria deles eram casados, a Lurdinha e eu não, não era o nosso fraco e não é até hoje. (riso)

P - Como era o cotidiano de trabalho nessa primeira fase de refiladeira na empresa?

R - Bom, ali vinha do corte, as peças cortadas e amarradas por espécie, por exemplo: o pé - da- gola, que é aquela tirinha que vai na camisa social, a esporte não tem. Vinha as duas folhas, da gola alias eram três antigamente, porque antigamente as camisas, aqui em baixo na golinha tinha uma costura aqui, onde se colocavam umas barbatanas, para ela ficar bem durinha, então eram três folhas da parte de cima, mais duas folhas da parte de baixo que era o pezinho chamava pé - de - colarinho, então só aí eram cinco partes. E, então quando saia do corte e ia para a seção, uma pregava o forro numa das partes, a outra fechava, a outra virava em uma máquina, não sei se ainda existe essa máquina, virava e passava, para ficar bem pontudinho era uma máquina que tinha dois pinos que elas encostavam assim, colocavam o colarinho aqui, encostavam os dois pinos assim, aí virava e aqueles dois pinos deixava o colarinho pontudinho, aí ia para a pespontadeira. Depois ia para outra que pregava a primeira parte do pezinho - de - colarinho, a outra pregava a segunda parte, a outra fechava os cantinhos. Aí ia para a gente, a gente revirava e com a argola da tesoura, parte da tesoura a gente passava assim para ficar esticadinho e o que sobrava embaixo a gente refilava ou recortava, mas o nome correto na indústria é refilar, ou era não tem mais isso, hoje é feito por máquina, eu nem conheço essa máquina. Existia até 79 que foi quando eu saí fora, aposentei, parece que hoje não existe mais isso daí é por máquina. E aí depois, ia para pespontar aquele pé - de - colarinho, aí ia para outra que pregava na camisa só que aí aquela parte da camisa já tinha passado por uma série de pessoas, uma pregava a pala, a outra rebatia ou pespontava, que era a mesma coisa, a outra unia o ombro, uma outra pespontava o ombro, ia para uma segunda, uma outra pessoa que pregava a manga, uma outra fechava e naquele tempo não era fechada com costura invisível, era fechada com costura rebatida essa costura de jeans, que é rebatida, onde a máquina chama interloque, uma máquina que coloca uma parte por baixo outra por cima e segura esticado e ela vai e já sai arrebatida a costura. Ia para pregar o punho depois, outra rebatia o punho, um punho que já havia passado pelo mesmo processo do colarinho: uma prega o forro, a outra fecha, a outra vira e passa, a outra pesponta e a outra refila o que sobra também, assim. E depois disso ia para caseadeira, no princípio, no comecinho, eles mandavam para fora para casear, depois vinha para, teve máquinas, hoje existe máquinas para isso e mandavam para fora para pregar botão manual, hoje existe máquina que prega botão. E depois dela toda pronta, é que se fazia o que ele chama fralda da camisa, aquelas camisas que eram arredondadas, acho que ainda existe algumas, outras já são retas, assim mais moderna. Então aí que ia para embalagem, para passadeira e depois para embalagem aliás, antes para rematadeira, era rematado cortado os fios, depois para as passadeiras e posteriormente para embalagem e para expedição, era esse o processo todo da costura.

P - Por quantas pessoas passava uma peça, mais ou menos?

R - Bom, o colarinho passava por cinco pessoas, o punho por três, já são oito, depois a pala passava por três, já são 11, depois pregar a manga 12, fechar 13, pregar o punho 14, rebater 15, pregar o colarinho 16, rebater 17, casear 18, pregar o botão 19, fazer a bainha de baixo 20, arrematar 21, depois passar 22, embalar 23, 23 funcionárias em uma única camisa, isso sem contar outras peças porque eu sempre trabalhei em confecção masculina, onde entrava pijama masculino, robbie, calças, depois parou um tempo, mas naquele tempo existiu, hoje voltou de novo a cueca samba - canção, então também tinha, nessa sessão nunca trabalhei porque eles pegavam pessoas com menos experiência, que é mais simples confeccionar uma cueca samba - canção do que uma camisa, ou uma calça, ou uma jaqueta, ou o robbie, então é mais complicado, então as mais experientes ficavam nessa parte e as menos ficavam nessa parte de confecção de cuecas.

P - Como aprendeu, alguém ensinou na fábrica?

R - Olha eu sempre fui muito curiosa, tudo o que eu vejo eu acho que eu devo de aprender e para mim não existe o não sei, existe uma coisa chamada, boa vontade, então não existe ninguém incapaz, todo mundo que quer fazer uma coisa consegue, é só querer. Então nas horas de lanche eu sou de comer pouco, sempre fui, nas horas de lanche enquanto as outras iam lanchar eu ia mexer nas máquinas das outras e claro que daquelas que eram mais chegadas a mim, então tinha umas amigas que eu dizia: "Posso sentar na sua máquina na hora do lanche?" "Olha pode, mas não me deixa sem passar linha porque eu fico nervosa quando eu vou costurar e tá desenfiada a máquina" "Tá bom " Então eu devagarinho pegava um pedacinho de tecido, a princípio eu tinha medo porque a máquina industrial, ela é muito rápida, é o que você falou, que a motor ela é mais difícil, então ela é muito rápida, mas eu arranjei um jeitinho punha um pé na frente outro atrás e apertava atrás, porque eu tinha medo de pegar o dedo e peguei uma vez, mas depois de ser profissional, enfiei agulha no dedo que atravessou. E então, eu costurava aqueles pedacinhos de pano então, ficava meio torto eu dizia "Eu posso fazer perfeito, eu tenho que fazer reto" e foi indo eu peguei o jeito da máquina, quando foi um dia na hora do lanche, a menina estava superatrasada, não estava bem porque, toda moça tem seus problemas, de saúde, tudo e ela não estava bem aquele dia, estava abatida tudo e ela se atrasou. Aí eu falei: "Vou tentar ajudá-la nesses vinte minutos de lanche" e eu consegui fazer, adiantar o serviço dela e aprendi, pregando punhos e aí ela falou: "Você que fez? Ai, muito obrigado, você me ajudou então você marca como sendo produção sua." Eu falei: "Não, eu não sou a costureira, fica para você a produção." Mas ela foi muito honesta e falou com a encarregada: "Eu estava atrasada e quem me ajudou foi a Júlia, ela sentou na hora do lanche e ela fez e não fez errado esta perfeito." A encarregada veio olhou e falou assim: "É então eu vou pôr você na outra máquina a partir de agora." Aí a partir daquele dia eu comecei, a menina produzia 390 pares de punho e eu com três dias na máquina, passei a produzir 850 pares, porque eu adquiri um certo jeito uma técnica, só que eu não sou canhota para escrever para me alimentar, mas para costurar eu sou, na máquina, eu seguro com esta mão. Eu nunca consegui com esta de forma alguma, mas foi uma técnica minha apropriada e foi isso que me (fim da fita 05 - lado A1) deu aquela prática. Dali me puseram em outros serviços e com alguns meses, eu já estava no overloque, no (travéte?,) (travéte?), é uma máquina que faz aquelas costurinhas de reforço na barrilha da calça e nos bolsos tanto de calça social, como jeans, tem aquela costurinha, tipo de um pespontinho juntinho, um caseadinho. Então, era uma máquina de (travete?), meia perigosa, depois já estava na de casear, na de pregar botão e com isso eu acabei ficando costureira - piloto, não consta no meu documento, mas constava na ficha da firma, que infelizmente quando pegou fogo, queimou a ficha. Mas eu era costureira piloto, eu fazia peça a inteira, fazia amostras para Fenit, infelizmente queimou o painel aonde tinha toda a minha seção e eu em primeiro plano e eles colocava aquele painel sempre na Fenit.

P - Como marcavam a produção diária para cada pessoa?

R - Ah sim, era marcada a produção. As peças vinham em pacotes, então tinha pacotes que tinham uma peça só, tinha pacotes que tinham de duas, varia tinha pacotes que tinham até 100 peças, para ser confeccionada, porque era distribuído, dividido, pelo tom do tecido, que vocês sabem que o tecido branco, se você pegar, colocar, um e outro perto, às vezes um é mais branco, outro é azulado, outro é mais amarelado, então tinha uma funcionária, antes de vir para a seção, que ela separava e numerava as peças, para que não fosse uma camisa bem branquinha com gola ou punhos amarelados, ou azulados, vice e versa. E então, a gente separava assim e nesses pacotes vinham umas fichas em cima, escrito o número de peças e a gente tinha um saquinho de tecido pendurado na máquina, onde a gente ia guardando as fichas e no final do dia somava para saber quantas peças confeccionou no dia e a gente recebia um prêmio de produção, dependendo do número de produção que dava e eu sempre ganhei, recebi às vezes até melhor como prêmio de produção do que com salário, eu produzia bastante.

P - O pagamento era mensal?

R - Era mensal, agora quem quisesse optar por quinzenal podia, tinha naquela época o pagamento era dia 10 e o vale no dia 25, mas eu sempre optei por mensal porque eu achava que rendia mais dinheiro do que tirar vale, né?

P - O que fazia com o dinheiro que recebia?

R - Ah, eu era tão criançona viu, no dia que eu recebia, no dia seguinte, eu ia para a cidade, olha sempre fui de comer pouco mas muito gulosa, então eu ia para a Loja Americana me enchia de sorvete, de sundae, daquelas coisas todas (riso) e também gostava de comprar, né, toda mulher é vaidosa, até hoje eu gosto de comprar produtos de maquiagem, embora eu seja alérgica, não posso usar muito essa coisas, mas comprava essas coisas, bolsa, sapato eu tinha uma coleção infinita de sapato, com saltos desse tamanho, hoje em dia não posso usar por causa de problema de coluna. Comprava, fazia coleção de sapatos, de bolsa, de bijouteria, era isso que eu fazia. (riso) O que sobrava, eu dava para minha mãe, quando sobrava.

P - E o que ela fazia com o dinheiro?

R - Ah, às vezes, ela comprava até coisas para mim mesma, né, e outras vezes ela usava na casa mesmo.

P - Júlia, você falou sobre uma máquina que era perigosa...

R - É o (travete?), é perigoso, o próprio overloque, porque eles tem uma lâmina, né, para cortar o fio e se a gente se distrair um pouquinho... Ah, hoje as minhas unhas apesar de serem longas estão curtas, eu usava pintada de vermelho e hoje não uso por falta de tempo, que eu estou sempre na luta, mas a minha unha era super comprida, vermelha assim sabe, e muitas vezes eu cortei ela, como se fosse aquele, guilhotina sabe, ela desce assim como uma guilhotina e cortava reto minha unha por falta de atenção, porque eu produzia, mas batendo papo com a do lado ou com a de trás, o tempo todo. (riso) E me distraia sempre.

P - Quais os problemas de saúde decorrentes da sua profissão?

R - Ah, sim, a máquina de overloque, ela solta um pó do tecido e em geral os tecidos são sintéticos, esse tecido sintéticos, eles são anti-alérgicos para a gente usar, vestindo, né, mas o pó que ele solta, entrando nas narinas, no aparelho respiratório, eles causam uma alergia. E também o fato de ficar muito tempo sentado, causa problemas para as mulheres, por exemplo, quando são casadas ou quando vão casar, surge problemas de, muitas vezes de aborto por causa de estar muito tempo sentada e em um movimento contínuo do pedal da máquina. E nós tivemos inclusive, quando eu trabalhei nessa firma, na Orly, uma companheira nossa, ela estava no terceiro ou quarto mês de gestação e ela teve até um aborto em conseqüência do movimento contínuo e isso deixou com que as outras ficassem todas chocadas então, é prejudicial sim. E também ficar fixando muito no mesmo ponto na costura traz problemas de visão. Eu, atualmente, tenho ambliopia, que foi um uma miopia que acabou misturando com outros problemas e deu atrofia do nervo óptico, foi o motivo por eu me aposentar foi este, né, eu não tenho visão hoje total do olho direito, em razão disto e também em razão daquele pó que solta do tecido eu tenho rinite alérgica, então, de vez em quando tampa a respiração sabe, eu tenho dificuldade em respirar por causa da alergia que causou com o pó do tecido.

P - Certo. Fale também do peso daquele breque que é controlado no pé.

R - Ah sim, tem. A máquina industrial ela tem um motor pesado, não é igual aquele motorzinho de uma máquina doméstica, né, e então, ela tem uma mola, uma mola mais ou menos de uns 8, 10 centímetros de comprimento e da grossura de um polegar. Essa mola é chamada de breque, assim, vulgarmente chamado de breque, ela tem um outro nome é fricção, qualquer coisa assim, mas a gente chama de breque, porque se ela estiver com o molejo bom, você consegue brecar facilmente o pedal, parar a máquina no ponto exato. Mas, se aquela mola estiver enfraquecida e já meio aberta, a máquina dispara, aí ela fica rodando, rodando, só desligando ela da eletricidade que ela pára, ela ainda funciona um tempo até acabar a força do motor e depois ela pára. Mas, se a gente estiver desatenta e não tiver muita prática, tem que ter muita prática, porque pouca prática não resolve, aí quando a gente está segurando o tecido a mão vai junto é aonde a gente acaba pegando o dedo. E se for a máquina do overloque ou do (travete?) é pior ainda, além da agulha tem a lâmina, se o dedo vai corta, a gente chegou ver não mulher, mas homem, porque existe pouquíssimos homens que trabalham atualmente na máquina de costura sabe, porque hoje em dia até as mulheres estão fazendo a parte de alfaiataria, mas os poucos homens que trabalham nessa área, um deles que eu conheci, chamado Cláudio, que trabalhou comigo, teu chará, ele cortou a pontinha do dedo indicador na máquina do overloque, quando arrebentou a mola, sabe, ela abriu perdeu a força e aconteceu isso, por isso que é perigosa.

P - Eram comuns esses acidentes?

R - Eram comuns. Hoje em dia não é tanto, porque tem essa tal de Cipa, não tinha naquele tempo, então, existem pessoas de dentro da própria industria que é escolhida, fazem um tipo de uma diretoria, não sei bem como é que chama e eles é que controlam essa parte então, tem que ter equipamentos de segurança, quando vai trabalhar em um serviço assim, já vê se a pessoa é alérgica, já fica longe daquele tipo de trabalho, as máquinas são diariamente conferidas pelo mecânico de manutenção para ver se não vai haver o risco de enfraquecer a mola, qualquer coisa desse tipo, para não haver mais esses acidentes. Mas eu, tenho notícia atualmente que ainda há, não sei se por desatenção do funcionário, ou porque o equipamento não está bom, no meu tempo era por falta de equipamento bom sabe, agora não sei.

P - Comparando a linha de produção antiga com a de hoje, o que mudou?

R - Eu posso te falar pouca coisa porque como eu te falei eu parei em 79, mas eu tive o cuidado do ontem de ligar para duas amigas minhas e perguntar para elas. Ela disse que de quando ela começou, ela não conhece esse termo refiladeira, porque é feito em máquina, então, isso já mudou. Negócio de marcar por exemplo a casa das camisas ou das calças, tinha uns papelões com a medida e era colocado na frente da camisa, ou no cós da calça, para marcar o local onde ia casear, ela disse que isso não existe mais, a máquina marca, a própria máquina tem o espaço coloca ali a máquina faz uma marca e depois é caseado, eu não conheço esse tipo de máquina, não tinha no meu tempo. O que ela me disse mais? Ela me falou, eu deveria ter anotado, ela disse que outra coisa que mudou também, por exemplo o punho da camisa, antigamente existia o punho simples e o punho duplo, hoje existe o punho reversível, ele serve como punho simples e como duplo também. A maioria das camisas, social principalmente, vem caseado dos dois lados, só que em um lado vem um botão em cima da casa, quem quer usar abotoada usa, quem quiser usar com abotoadura, arranca o botão e usa com abotoadura. Então esses punhos, eram antes de confeccionar, eles eram, vinham quadrados, no meu tempo, então se colocava um molde arredondado e colocava em cima do avesso do punho e com lápis riscava ao redor, aí ia para a costureira, ela costurava em cima do lápis, não existe mais, já vem cortado no sistema, porque já tem os moldes apropriados e o cortador já corta desta forma, não precisa mais isso daí, então isso não existe mais, chamava-se riscadeira, não tem mais. E também tinha as meninas que alfinetavam, peças assim tipo jaqueta, elas alfinetavam uma parte na outra para ir para a costureira, mas parece que isso mudou não é por causa do modernismo não, é porque a costureira ia por na máquina e, às vezes, não tomava cuidado e vivia espetando alfinete no dedo, então, agora eles treinam bem a costureira para que faça a peça, sem precisar alfinetar, não tem mais também alfinetadeira.

P - Tirando a alfinetadeira, por que acha que ocorreram essas mudanças, o desaparecimento desses postos de trabalho?

R - Bom, um pouco pelo modernismo, porque a máquina toma o lugar do ser humano, então, como nas outras categorias o computador hoje em dia fala mais alto do que o ser humano, então, na costura também tem máquinas modernas que também às vezes substituem em parte o serviço manual, então, é por este motivo que aconteceram essas coisas. E também por medidas de segurança, porque esse movimento, tem essa doença tendisinovite, não sei se eu falei o nome correto, acho que sim, não é só em datilógrafo, digitador que dá não, qualquer pessoa que faz um movimento contínuo tem esse problema e quem fica um dia inteiro com uma tesoura na mão, também tem. Eu tive sorte que eu parei e não fiquei com problema, não precisei de uma cirurgia, mas eu tinha uma dor no polegar direito, por causa da tesoura, era aquele movimento continuo e naquele tempo a gente trabalhava nove horas e meia diárias, para compensar para não trabalhar no sábado, então, tinha que ter 48 horas diárias, semanais, para poder receber as 240 horas ou 241 porque, a gente era horista então recebia conforme os dias do mês. Mas hoje em dia está parece que com 42 horas a carga horária semanal, está 42 horas, porque o sindicato batalhou e diminuiu a carga horária, mas mesmo assim se for ficar essas horas todas com a tesoura na mão, é dose né, então por isso que é feito manual agora, é por máquina.

P - Júlia,você falou da tesoura, mas o que mais usava para trabalhar?

R - É o giz de alfaiate, que os alfaiates que não trabalham nas empresas, trabalham particularmente, com as suas lojinhas, seus ateliês, ainda usam, porque é um trabalho mais artesanal, na confecção já deixou de ser artesanal, tudo por linha de produção, tudo corrido. Mas tinha o giz, tinha o lápis, o alfinete, a tesoura e a fita métrica e hoje a gente não precisa mais da fita métrica na confecção, porque já vem tudo cortado adequado mesmo, não precisa mais e a máquina tem uma pecinha que a gente pode acoplar a ela, parafusar, chamado guia, então, ela serve para fechar as peças e também para pespontar, é só pôr o tecido, a peça encostada do guia e vai em frente que sai na medida que for necessário o pesponto. Hoje em dia se usa o pesponto na beiradinha, né, naquele tempo existia o pesponto com meio centímetro, existia o pesponto na beiradinha e existia o pesponto duplo nas camisas, que era um para dentro e outro na beiradinha, hoje é difícil de ver o de meio centímetro é mais os pespontos na beiradinha mesmo, é mais moderno.

P - Durante a sua vida profissional participou de sindicato?

R - Ah, desde os 15 anos que eu milito em sindicato, toda a vida, parece que está na veia, nas veias da gente sabe, eu sempre gostei da luta sindical.

P - Como começou seu interesse?

R - Começou porque tinha os dissídios coletivos, que é para tratar do aumento da categoria e o antigo presidente do sindicato, Reinaldo, senhor Reinaldo, ele foi lá era tempo de dissídio coletivo e ele brincou comigo, eu estava sentada bem na frente, ele passou e fez assim com o dedo no meu nariz, brincando, né? E eu acho fui com cara dele, depois alguém falou mal dele, eu resolvi tomar a defesa dele e perguntei onde ficava o sindicato, ele me deu o endereço, naquele tempo ficava no antigo prédio Martinelli. Só que lá meu pai dizia que era perigoso, eu entrei de sócia mas não ia nas plenárias, eu telefonava para saber o que aconteceu, então acabei ficando amiga dele. Quando mudou que eles compraram a sede na Florêncio de Abreu e ali não era perigoso, eu passei a participar. Hoje em dia existem as comissão de fábrica, naquele tempo existia comissão de salário, que funcionava só na época do dissídio coletivo, então nessa época, eu sempre era escolhida pelas próprias companheiras de firma para ir dialogar sobre o aumento de salário e fui tomando aquele gosto e quando tinha que paralisar uma firma podia contar comigo porque eu ia, eu nunca mostrei medo, podia estar cheio de policiais lá, que para mim é o mesmo que nada. Atualmente eu estou aposentada e eu já fui participar de piquetes em porta de firma e já cheguei até a tirar o cacetete da mão de um policial. (riso) Eu sou muito atrevida sabe, então eu sempre gostei desse tipo de coisa, não para baderna, veja bem, quando eu via que o negócio era baderna, eu caía fora, é quando a luta é justa, quando o salário justo não está sendo pago, quando o patrão está com assédio com as funcionárias e elas não agüentam mais,precisam do emprego, mas também não estão mais agüentando aquilo, porque ainda hoje isto acontece, mas acontece mesmo e por incrível que pareça atualmente tive notícia de que não só o patrão homem tem assédio com as funcionárias mulheres, mas a patroa mulher está assediando o homem também, está acontecendo isto. Então, quando isto acontece a gente vai e vai à luta e luta pela justiça, então é por isso que me levou a este movimento.

P - Participou da alguma greve?

R - Olha, no tempo da ditadura, nós íamos fazer uma greve e tivemos que dispersar porque nós descobrimos agentes do DOPS no meio, eles estavam se fazendo passar por trabalhadores das industrias do vestuário e a gente desconfiou que não era e junto com essa greve, teve um movimento na Praça da Sé, chamado Movimento da Panela Vazia, os mais jovens não lembram disso, porque deviam de ser muito pequenos na ocasião, mas faz algum tempo já, bastante tempo. E nesse movimento, começou com esse movimento e a gente ia fazer greve, eu estava sentada em uma das muretinhas da Praça da Sé e dois, jovens ainda viu, sentaram do meu lado e um disse assim para mim: "O que está acontecendo dentro da Catedral?" E eu desconfiei, eu disse para ele: "Bom, eu não sei porque não estou no movimento, agora, se você está interessado..." e ele olhou para mim e disse assim: "Você não, senhor." eu falei: "Que seja, se o senhor está interessado, você vai lá ver porque eu não entrei lá dentro." Mas eu desconfiei porque eu vi que eles estavam perguntando à outras pessoas, se fosse do movimento ele estava por dentro e não precisava perguntar. Aí, no mesmo tempo veio um outro jovem mais muito forte, tinha quase dois metros de altura, vestido de preto e me pega com violência e me levou eu e eu pensei: "Me enganei o agente é ele." Aí ele me colocou em uma kombi e disse assim para mim: "Você é maluca, você estava dando trela para um agente." E me levou de lá para um tipo de um sítio que tinha em Itaquera e lá tinha padres tinha seminaristas, tinha estudante, a maioria dos estudantes, eram estudantes de direito e de medicina, que eram muito visados no tempo da ditadura, ali nós ficamos algum tempo e dispersou a greve que a gente ia fazer. Nós íamos fazer uma greve porque os patões estavam abusando e não estava dando nem mesmo o aumento de lei na ocasião e por isso que a gente ia fazer a greve.

P - Quem estava levando o pessoal para o sítio?

R - Era uma kombi de uns rapazes que, na mesma kombi tinha estudante e tinha pessoas de sindicatos também, não me lembro de que sindicato que era, mas não era do meu com certeza, porque do meu conhecia todos, mas eles estavam como olheiros alí, para livrar as pessoas, quer dizer. Aí, quando eu cheguei em casa, minha mãe estava desesperada e disse para mim: "Quando você sai eu nunca sei se você vai voltar, eu quero que você largue isso daí." E eu dizia para ela que eu ia largar, mas nunca consegui. Eu não sei se é uma espécie de atração que eu tenho pelo perigo, até hoje, sempre tive isso, desde pequena, tudo que era perigoso sempre me encantou desde pequenininha, parece que é uma coisa, não sei acho que eu puxei meu pai, meu pai era assim.

P - Quanto tempo ficou no sítio?

R - Não, ficamos algumas horas apenas, foi só para esfriar sabe, depois aí eles, a gente trocou de carro, cada um entrou em um carro e me deixaram na porta de casa, assim. Não conheço as pessoas, nunca tinha visto antes, mas eles deveriam me conhecer, saber daonde que eu era, porque senão não teriam ido lá me pegar. E eu ainda fiquei brava, eu disse para ele: "Você é um bruto, você me machucou e não adianta porque eu não falo nada."(riso) Foi o que eu disse para ele e ele falou: "Você ia falar para quem não devia." Mas eu não ia falar, ele pensou mal, né?

P - Você se lembra de outra greve?

R - Não, não tinha muitas greves na ocasião sabe, a gente não usava nem as camisetas com o logotipo, a gente não, para panfletar, a gente panfletava muito escondido, era uma coisa bem restrita mesmo, porque era uma coisa bastante perigosa, na ocasião, um primo meu, que era estudante de direito na ocasião, ele foi preso na Praça da Sé e levado para o Rio de Janeiro, quando nós achamos ele, ele estava com a cabeça raspada, porque disse que pegou, o tal de piolho e o corpo cheio de feridas, foi espancado aquela coisa toda e ele nem estava na luta, ele apenas parou para olhar. Então, a gente tinha cuidados porque a vida é preciosa e muitos perderam a vida nesse tempo e com certeza, a maioria tudo jovens sabe, que prometiam um futuro bom para todos nós e deixaram de viver.

P - Algum colega seu de trabalho teve problema?

R - Não, porque o nosso sindicato orientava sempre para que a gente tomasse cuidado, mas de outras categorias por exemplo dos estivadores, o que hoje é o vice-presidente da Cobap, senhor Osvaldo Lourenço, ele hoje sofre de bronquite asmática porque ele passou dois anos num porão onde a água chegava até a altura do joelho, mas não que pegaram ele e prenderam, ele se escondeu lá. Teve uma filha dele, que ele foi conhecer, quando a menina já estava com dois anos e meio, que a esposa dele deu a luz quando ele estava escondido. Um outro, que já é falecido, que também... Ah, esse sim esse fez parte da categoria porque ele foi alfaiate, Antonio Chamorro, ele já é falecido, as costas dele era totalmente cheia de cicatriz porque ele foi torturado, mas torturado mesmo, espancado nesse tempo, ele entrou em um movimento estudantil e pegaram os estudantes e ele foi junto. Fora outras pessoas que a gente ficou conhecendo através de um documentário, sobre a ditadura, que aí fiquei até sabendo porque que existe feminista, é por causa da ditadura que existe a feminista, não existia até então. E foi por causa destas torturas todas, porque disse que não havia torturadora mulher, os torturadores eram homens, então as mulheres que foram torturadas, criaram o movimento feminista, que existe inclusive, esse movimento.

P - Você se aposentou em 79?

R - É, eu entrei no auxílio-doença por causa dos olhos, porque a gente achava, digo a gente, porque os médicos achavam e eu também, que poderia voltar a visão, eu tinha a maior esperança e passei quatro anos e dois meses, nesse auxílio-doença, só que não houve essa chance e me mandaram para um especialista e o especialista disse para mim assim: "Eu sinto muito ter que te informar, mas é irreversível, nem cirurgia há." ele falou para mim.

P - Como funciona o auxílio-doença?

R - O auxílio-doença, a gente fica um certo tempo na caixa da previdência e recebe todos os meses, como se fosse aposentada, mas a cada tempo tem que passar no médico perito e depende do médico que a gente passa, tem uns que dá um mês, outros dá dois, eu passava sempre em médicos que me dava seis meses, um ano, seis meses, um ano, assim sabe? E eles são treinados para maltratar a gente, que é para a gente desistir do auxílio-doença. Agora, se eu não tenho aptidão para o trabalho, por causa da visão, porque a minha categoria exige uma visão perfeita, e no início inclusive eu tinha imagem dupla, se eu fosse sentar em uma cadeira, quantas vezes que eu dei vexame e sentei no chão Por que a que não era real, parecia real para mim e eu ia sentar e sentava no chão direto, não tinha como ver, uma pessoa me estendia a mão, eu ficava procurando qual que era a real, qual que não era, porque a imagem era dupla e eu ficava muito tensa, muito nervosa e chorava muito e um dia um oftalmologista me disse assim para mim, eu fui passar em uma consulta, ele falou: "É bom você sentar lá fora se acalma, porque não tem como eu examinar seus olhos, você chorando desse jeito, daqui a pouco você me afoga com as lágrimas aqui." Aí eu tive que me acalmar um pouco a recepcionista dele me acalmou me tranqüilizou, aí mesmo assim ele falou: "Olha eu vou marcar para você voltar amanhã, porque inchou os olhos, avermelhou e eu não tenho como ver, eu precisava dilatar a pupila e não pode dilatar com o olho inflamado, inflamou de tanto chorar." E ele disse para mim, ele falou assim: "Você se acalma porque se não nunca vai voltar a visão normal, porque a tendência, é ir amenizando até que você veja uma imagem só e não mais imagem dupla", ele falou né, "Mas, enquanto não acalmar a tendência é piorar." Aí eu procurei espontaneamente uma psicóloga para aceitar o fato, mas não foi nem ela que me ajudou, foi um jovem cego dos dois olhos que pediu ajuda para mim, muito bonito o rapaz e quando ele me pediu ajuda, eu disse à ele: "Você está brincando, você está na frente da prateleira dos copos." Ele tirou o óculos e disse: "Mudaram as prateleiras de lugar e eu não enxergo." Aí que eu vi que ele tinha os olhos totalmente branco, né? Aí eu falei: "Como você consegue sair sozinho, por que eu estou desesperada, eu fiquei cega do olho direito." E ele me disse para mim: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei, no caso você pode ser rainha, eu faço tanta coisa não tendo os dois." E foi mais ele que me ajudou, do que a psicóloga. Aí, voltou ao normal a visão do outro, às vezes, me atrapalha um pouco, o tempo nublado por exemplo, eu fico com o olho meio embaçado, porque ele cansa muito ele força e eu não me adapto com nenhum óculos, tem quatro em casa e não me adapto. P/ 1 - Atualmente como é seu dia - a - dia?

R - Atualmente eu continuo levantando supercedo, porque eu deixo as minhas coisas em ordem, meu irmão está aposentado também, não sabe fazer nada, tem que deixar almoço tudo arrumado para ele, se não ele me bagunça tudo (riso)

P - Moram vocês dois?

R - Nós dois e depois eu vou para as associações, porque ainda sou a segunda secretária da Regional 1, que pega as associações de São Paulo, porque está com duas chapas lá e a Federação não aceita nenhuma das duas, então continua funcionando a antiga, então passo a visitar as associações diariamente e estava dando plantão diário na Federação, aí o Jaime, o presidente contratou um secretária para serviços burocráticos, para que a gente tenha mais chance de cuidar da gente também um pouco e com isso, eu agora vou ter um pouquinho mais de tempo de me dedicar às (fim da fita 05 - lado A2 ) associações, mas mesmo assim, diariamente eu saio cedo e faço essas visitas, quando precisam de ajuda eu fico ajudando, às vezes as pessoas requisitam a gente, como no caso agora, vocês requisitaram para essa entrevista, às vezes alguma repórter precisa de alguma matéria, sobre como um aposentado consegue viver com esse salário minguado, e é assim que é o dia - a - dia da gente.

P - Agora você milita na luta dos aposentados, como é essa luta?

R - Bom, essa luta, é uma luta que parece que nunca vai ter fim, porque existe muitas defasagens, por exemplo tem a defasagem de 79 a 83, que eles não pagavam corretamente, o salário do aposentado e os aposentados entraram com processos, você vê que já tem quase dez anos, ou mais até e ainda foi ganho, está na Justiça já ganho, com cálculos prontos e o INPS recorre, recorre, INSS hoje, eu sempre engano, recorre e está lá embargado o dinheiro e não paga. Surgiu outras coisas, a diferença do 13º de 88 e de 89, que eles tinham que pagar na base de 120 cruzeiros ou mil cruzeiros, já não me lembro mais e eles pagaram na base de 87, então, falta a diferença, está na Justiça também. Estamos também, uma luta dos aposentados, tem uma diferença de uma perda atual de 47,07%, também estamos na, batalhando por isto, então, tem várias caravanas a Brasília, ontem, hoje e amanhã o Jaime que é o presidente está lá em Brasília, teve que largar esposa e filho para ir para lá porque, para pressionar e junto com essa luta de defasagem, há da Saúde também, que nós costumamos dizer que a Saúde no nosso país está doente, então, nós estamos batalhando com isso também, porque o aposentado, ou o futuro aposentado, tem direito a uma saúde digna, um tratamento digno para a saúde, mas não tem sabe, é um absurdo que você tenha que pagar um colosso de convênio médico e às vezes que não cobre tudo, se você for casada e tiver esperando uma criança, eles não te aceitam no convênio, a menos que você pague uma taxa extra, quer dizer a sua criança não tem direito ao tratamento? Você não tem direito ao pré-natal? Então, é uma coisa terrível, se tem uma pessoa portadora de uma doença infecto-contagiosa, a mesma coisa, não aceitam no convênio, tem um ou outro que aceita, mas é uma taxa absurda a mais, então, é uma luta nossa também dos aposentados. E a gente tem muita esperança de chegar lá viu, porque muitas das lutas que nós temos atualmente não é nem mais por nós, porque bem ou mal, nós estamos aposentados, mas e os futuros aposentados como fica? Quantos anos vocês vão ter que pagar para se aposentar ainda, porque eles mudaram todo o sistema. Agora se você me perguntar quais os sistemas, já não sei mais te dizer, tinha a fórmula 90, depois veio a fórmula 100, depois mudou para outra fórmula que eu já não sei mais o nome, é isso que é a luta.

P - Para terminar, se você fosse mudar alguma coisa na sua vida, o que mudaria?

R - Bom, se eu tivesse que mudar alguma coisa na minha vida, eu ia fazer o curso que meu pai (riso) pediu para mim fazer sabe, porque eu acho, atualmente eu vejo que um psicólogo, ou psicóloga, ajuda muito o ser humano, porque antigamente, a gente não precisava desse tipo de profissional, porque as religiões, especialmente a católica, tinha tempo para o povo e eles faziam às vezes do psicólogo, ou psicóloga quando a pessoa precisava, é nessa vida moderna, nesse corre - corre, quem que não precisa de uma orientação. Então, com certeza isso eu mudaria, eu ia ser a psicóloga que meu pai queria.

P - Está o.k. A gente agradece a sua ajuda a colaboração.

R - Que isso, disponham, para mim foi um grande prazer, vocês são simpatissíssimos e eu gostei muito de estar aqui e quando precisar, é só me chamar. P/ 1 - Que bom. (riso)

R - Tá?

P - Obrigada.

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