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História

"Águas passadas não movem moinhos"

História de: Oto Angler
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Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Setor comercial. Grupo Pão de Açúcar. Imigração a trabalho. Busca por oportunidades. Gerente de lojas. Conquista e sucesso.

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História completa

P/1 – Eu queria só que o senhor repetisse o seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R/1 – Meu nome é Oto Angler, sou suíço e nasci no dia 23 de janeiro de 1929, em Berna. 

 

P/1 – Berna? 

 

R/1 – Na Suíça. 

 

P/1 – Berna como que é, uma cidade...

 

R/1 – Berna é capital da Suíça e a parte alemã, porque na Suíça tem três línguas: tem o alemão, o francês, o italiano e tem um pequeno percentual, 1% mais ou menos romanche, que é uma língua que ninguém conhece, mas as línguas oficiais da Suíça são três: alemão, francês e italiano. 

 

P/1 – E os pais do senhor, eles eram da Suíça também, da mesma região?

 

R/1 – Não, eram mais do norte, a capital, Berna, é mais ou menos no centro da Suíça e eles eram de uma outra região, mas meu pai trabalhava numa indústria têxtil, depois deu uma crise e ele foi pra Berna para trabalhar como motorista da prefeitura, motorista de ônibus.  

 

P/1 – E a mãe?

 

R/1 – Minha mãe cuidava dos filhos, que chegavam um atrás do outro. Tenho dois irmãos, eu sou o mais velho, e depois de um ano aparecia outro, então, nessa época era difícil. Fora isto, ela trabalhava fora de casa, também numa indústria têxtil. 

 

P/1 – Seu Oto, como era o nome dos seus pais?

 

R/1 – Meu pai se chamava _____ e minha mãe ______.

 

P/1 – E como era a sua infância numa cidade como Berna? Suas brincadeiras, a escola...

 

R/1 – Bom, como eu já falei, como você pode ter percebido, a gente era de um nível bem humilde, então a gente ia à escola pública, como hoje na Suíça, o pessoal vai na escola pública e tinha umas brincadeiras de rua. Jogamos futebol na rua... Eu não era muito de jogar, eu gostava de ler. Então, tinha uma biblioteca lá na escola primária, a gente podia pegar livros na terça e na quinta, no máximo dois livros, e tinha depois que devolver dois dias depois. Eu sempre lia esses livros, ficava a noite inteira. Como a minha mãe não gostava de gastar a luz, eu comprei uma lanterna e lia debaixo do cobertor. 

 

P/1 – E quais eram os seus autores preferidos? Existia algum preferido?

 

R/1 – Ah tinha, tinha o Calmai, que era um autor alemão, que escrevia sobre índios, histórias assim. Eu gostava muito também de ficção, mais de aventuras, livros de viagem, do Kipling. Tinha um autor que escrevia até sobre o Brasil, o ______, então, acho que foi o meu primeiro contato com o Brasil, foi com livro do ______.

 

P/1 – E aí, o que o senhor lembra de ter lido sobre o Brasil nessas suas leituras? 

 

R/1 – Bom, o título do livro era, não era floresta, como se diz... A floresta cromada, queria dizer... Escrevia que... Nessa época, claro, não havia tanto progresso, mas estava crescendo alguma coisa. Mas o que tomava conta, o que era o fundo mesmo, era floresta. Quer dizer, tudo o que o homem fazia, a floresta, a chuva tentava retomar. Então, a expansão da civilização era meio complicada. Mas era interessante. Era um cara que viajava muito e tinha um jeito muito gostoso de contar a história.

 

P/1 – E essas leituras despertavam no senhor curiosidade por conhecer esses países, o Brasil?

 

R/1 – Eu gostava... Depois eu comecei a trabalhar bastante cedo. Cheguei depois da guerra, em 1939 houve a guerra. Aliás, no início, no primeiro dia da guerra, eu estava no hospital tirando o apêndice e meu pai foi recrutado para defender a fronteira. A gente depois contou, saiu do hospital, o pessoal estava todo indo lá ao exército. Tinha um vizinho que tinha uma padaria, então comecei a trabalhar na padaria, mas eu sempre sonhava em um dia viajar, mas as fronteiras estavam fechadas e a gente tinha que esperar até o fim da guerra, que foi em 1945. E depois, lá eu comecei a trabalhar, e mais tarde a gente pegava a bicicleta, andava com a bicicleta, não tinha muito carro, não tinha gasolina. Andava de bicicleta, fazia camping, acampamento, tinha a mochila, a barraca no porta-bagageiro e a gente viajava muito a Suíça de bicicleta. Até na companhia onde eu trabalhava, nessa cooperativa de consumo, onde eu comecei... Quer dizer, comecei com alimentação na padaria, mas depois foi história, não vou falar de supermercado, porque nessa época não tinha supermercado: era um balcão de um lado, o cliente de um lado e o vendedor de outro. Essa cooperativa tinha 47 lojas, então, eu formava lá um grupo de jovens e no fim de semana a gente pegava a bicicleta e passeava. Isso era um passatempo barato e gostoso. Depois da guerra eu comecei a viajar. A minha primeira viagem foi com dois colegas de trabalho. Pegamos a nossa Vespa, que era uma lambreta, e fomos à Alemanha, à Dinamarca e à Suécia, fizemos lá 3500 quilômetros. Fomos à Suécia e voltamos. Essa é uma história muito interessante, porque os meus dois amigos casaram, um com uma sueca e outro com uma dinamarquesa, eu fui o único que escapou solteiro nessa viagem.   

 

P/1 – Seu Oto, quando a guerra estourou o senhor tinha dez anos?

 

R/1 – Eu tinha dez anos, é.

 

P/1 – E, bom, o senhor passou até os quinze anos praticamente, dezesseis, no meio da guerra. Quais foram as privações, as mudanças que o senhor percebeu nessa sua passagem de garoto pra adolescente nesse período de guerra?

 

R/1 – Bom, é claro, a coisa, que já não era fácil devido a situação econômica dos meus pais, ficou um pouquinho mais complicada, porque a Suíça era neutra durante a guerra e, aparentemente, o Hitler precisava um pouquinho da Suíça, mas estava bem no meio do tiroteio. Então, a gente ia à noite, tinha que colar jornais e papéis, cartolina nos vidros, tinha que apagar, tinha muito alarme aéreo, a gente tinha que ir ao porão da casa. Caiu uma bomba lá na Suíça, mas o problema era depois, com a alimentação. Não tinha mais importação, então a gente plantava batatas e coisas assim, pequenas alfaces em todo canto, até nas praças públicas. Os meus pais também tinham uns dois terrenos pequeninos, de cem metros quadrados, e a gente plantava lá cenoura, vagem, alface para se manter. Tinha o racionamento, em que a gente recebia lá uns cuponzinhos, uma meia dúzia de ovos, cem gramas de chocolate, meio quilo de açúcar, trezentas gramas de queijo e assim por diante. Então, a gente, por exemplo, ia... Tinha ainda no inverno aquecimento, fogões à lenha. Então, durante o verão a gente ia às florestas, não podia cortar nada, mas a gente pegava os galhos que caíam e guardava depois, então, era muito para a sobrevivência. Eu, depois, logo comecei a continuar a ajudá-la na padaria, sabia até fazer pão e mil folhas, entregava o pãozinho de manhã, antes de ir pra escola. E entregava também as revistas que hoje vão pelo correio, de casa em casa. Tinha que subir a escada, bater na porta, entregar a revista, pegar o dinheiro. Então, a gente fazia uma série de pequenos trabalhos para ajudar em casa. Com o primeiro dinheiro que eu ganhei, comprei uma bicicleta para poder entregar mais pãezinhos e mais revistas.

 

P/1 – Inteligente, já começou pensando no negócio. 

 

R/1 – É... Olha, nessa primeira vez que eu subi na bicicleta, eu tive um medo danado, acho que esse medo foi porque eu quebrei o braço, mas depois a gente perde o medo. 

 

P/1 – Depois da padaria, o senhor foi pra cooperativa. 

 

R/1 – É, a padaria era muito mais um quebra galho, uma ajuda durante a guerra, e depois, na Suíça, você precisa aprender alguma coisa, então, essa aprendizagem era uma coisa interessante. Tinha uma loja pequena perto da casa e a Damicros, que era uma rede de supermercados, de mercearias que tinha. Lá tinha um senhor gerente que era muito atencioso com as crianças, porque normalmente a criança ficava lá atrás porque não tinha fila, tinha auto-serviço, era que o balcão, o homem lá atrás e os adultos, que eram mais altos, sempre foram servidos primeiro. As crianças ficavam lá atrás e ele sempre olhava se tinha criança, então eu gostei desse homem. Pensei: “Bom, um dia eu quero ser que nem ele.” Não sei se foi isso o início, o incentivo de trabalhar numa loja ou trabalhar em alimentação. Então, eu comecei, lá em 1945, com essa minha experiência de vida profissional, fiquei aprendendo. A gente lá faz o prático, eu trabalhava no escritório, o escritório nessa época não tinha essas mesas que a gente tem hoje, era tudo em pé. A escrivaninha era alta, a gente ficava lá atrás em pé, tinha que tomar conta do estoque, contar todos os dias o que saiu, e à noite a gente ia à escola. Então, fiz essas coisas durante uns dois, três anos. Depois, fiquei na empresa, trabalhei no escritório, mas eu não gostei muito. A gente ficava lá na contabilidade somando coisas e eu falei: “Eu gosto de trabalhar nas lojas.” Então, eu perguntei um dia, falando: “Olha, se você quiser trabalhar na loja no sábado à tarde, quando você não trabalha mais no escritório, você pode trabalhar.” Então, eu fui. Não era fácil porque na loja só trabalha mulher, gerente... Eram todas mulheres, e não gostaram muito de, de repente, ir lá um homem, mas aprendi. Aprendi muito, porque tinha os tickets de mercadoria e, por exemplo, tinha cem gramas de queijo, você não podia cortar 110 porque a conta não fechava e também não podia cortar noventa gramas, senão o cliente reclamava. Então, a gente aprendia lá com precisão a cortar queijo e fazer as coisas. Então, trabalhei lá, gostei muito e comecei até a dar cursos para vendedores. Então, eu praticamente trabalhava de manhã durante a semana, no escritório, a noite ia à escola e, às vezes, durante a escola ou depois da escola, eu ainda dava aula para os vendedores. 

 

P/1 – Puxa! E como foi? Eu sei que a gente tem uma trajetória bem ativa, mas como foi que o senhor teve contato e ouviu falar do Pão de Açúcar? Como foi esse encontro?

 

R/1 – Depois dessa cooperativa, que era em Berna, as fronteiras abriram. Eu dei um pulinho lá na Bélgica um dia, peguei a mala, fui ao trem, falei tchau para os meus pais e fui lá pra Bruxelas. Fiquei lá. Mas estava difícil porque todo mundo voltou lá das colônias. Trabalhei lá um tempão em posto de gasolina, depois me expulsaram, fui pra Holanda. Voltei. Depois de Berna, eu fui pra Zurique para trabalhar na Migros. Estava lá há meio ano, quando a Migros inventou o primeiro supermercado com açougue e com padaria. E um belo dia falaram: “Olha, vai vir um brasileiro pra você mostrar a loja.” Estava olhando e não chegou o brasileiro como eu imaginava, alguma coisa mais escuro, seja o que for. Mas estava lá um rapazinho franzino lá no meio da loja, numa prancheta, e era um francês, era o François Bayrou, que era um dos sócios do Pegue e Pague. Então, como eu tinha a tarde livre, eu mostrei pra ele a cidade e outros supermercados. E conversa vai, conversa vem, eu perguntei: “Olha, lá em São Paulo, lá no Brasil, não tem um lugar pra mim?” E ele falou: “Olha, nós temos duas lojas, mas vamos inaugurar mais.” E depois matinha contato, mandava num aniversário um cartãozinho, no fim do ano... No dia 23 de dezembro, em 1956, veio uma carta: “Olha, nós estamos começando a expansão, pode vir o mês que vem.” Só que eu tinha que resolver as minhas coisas lá. E depois, no dia quatro de junho de 1957, eu venho aqui para trabalhar no Pegue e Pague. O Pegue e Pague tinha duas lojas, a Loja 1 na Enrico Freitas, que hoje é o Compre Bem, e a Loja 2, que é o Pão de Açúcar, na Jardim Floriano, e eu trabalhei lá. Já sabia falar um pouquinho de português, pegava o bonde, morava lá no Humaitá, e ia trabalhar lá. Depois já inaugurei as Loja 3, 4, 5, 6 e 7. A sete era a loja da Pegue e Pague que era dentro da Cias, lá do Paraíso, e ainda a Loja 8. E, depois, achei que não era bem isso que eu queria. Antes de eu vir pra cá, e isso era outro lance, eu tinha um amigo alemão que tinha uma rede de 46 lojas na Alemanha, e ele me escreveu perguntando se eu ia trabalhar com ele, mas eu falei: “Olha, acho que eu vou, aqui acho que não vai pra frente. O país é do futuro, mas acho que não é meu, nem dos meus filhos.” Pedi a conta e ainda fiz uma viagem para Foz do Iguaçu para conhecer alguma coisa do Brasil. Na hora que eu voltei dessa viagem, eu tinha uma carta na caixa postal do meu amigo: “Olha, infelizmente não dá mais, houve um problema.” Houve uma tragédia familiar lá com ele. Eu pensei: “Bom, agora eu já estou com a passagem, eu vou voltar.” Voltei pra Suíça mas não quis ficar, então tive um emprego na Espanha, uma outra oferta para ir trabalhar na Nigéria, na África, e tinha amigos que também tinham umas lojas e uns carros de vendas lá em Istambul. Falei: “Bom, vou pra Istambul.” Eu fui pra Istambul e fiquei dois anos e meio lá. Nesse intervalo, casei com a minha esposa, que eu conheci aqui no Brasil e nós casamos na Suíça, moramos ainda na Turquia. E meu sogro sempre escrevendo: “Não, está tudo bem no Brasil, está crescendo, vem trabalhar.” Mas tinha um probleminha, ele tinha uma fábrica de peças torneadas de alta precisão onde eu nunca quis trabalhar. Primeiro, não era muito o meu ramo; e, segundo, nunca ninguém vai me falar que eu casei com a minha esposa por causa da fábrica. Mas, enfim, voltamos pra cá, eu trabalhei um pouquinho lá, mas nunca gostei muito.  

 

P/1 – Seu Oto, quando o senhor chegou ao Brasil, voltando um pouquinho, qual foi a impressão que o senhor teve? O senhor, que tinha uma leitura da sua infância, os relatos do escritor alemão, como que foi o encontro com o país?

 

R/1 – É, foi bem diferente. Claro, a gente fica fantasiando e a vida era bem mais dura, mas eu gostei. Eu gostei da liberdade, gostei das pessoas, fiz muita amizade, fui muito bem recebido, tanto pelos diretores, Fernando, Pacheco de Castro, _____ que era o Raul Borges e o próprio François. Cheguei a morar junto com um contador num apartamento lá na Humaitá e gostei muito, todo mundo ajudando, eu me senti muito bem. E, olha, gostei do meu trabalho, achei interessante, gostei do povo, a gente se divertia bastante, me senti muito bem. Quer dizer, nunca passou pela minha cabeça, pela minha mente: “Olha, que pena, que saudade.” Não sei, pode ser um pouquinho do meu sangue, _____ cigano, não sei o quê.

 

P/1 – E como eram as lojas, como eram os supermercados nesta época? 

 

R/1 – Ah, a coisa era bem mais difícil, não tinha muita concorrência como tem hoje, não tinha outros supermercados, tinha praticamente esses dois e tinha o Sirva-se, as duas lojas do Sirva-se, na Gabriel Monteiro da Silva e na Consolação, e mais alguns outros. Mas o problema eram as feiras que vendiam de tudo, até alimentação, arroz, feijão, tudo à granel; e as quitandas, que nessa época estavam nas mãos dos portugueses, onde a dona de casa comprava com a caderneta e pagava no final do mês. Mas como nunca dava para pagar tudo, sempre sobrava alguma coisa, então ela tinha que continuar com o dinheiro que ganhava. O marido ganhava, pagava conta e não sobrava dinheiro, então o pessoal não conseguia ir ao supermercado, porque no supermercado tinha que pagar com dinheiro. Depois, o cliente estranhou muito, era tudo empacotado, tinha gente que entrava na loja e perguntava: “Bom, mas quem que vai me atender?” Porque estava acostumado com a quitanda, a ser atendido pelo dono, pelo Seu Joaquim, Dona Maria, o ajudante deles, e estava muito, muito complicado. A gente começou a fazer folhetos e estava difícil, eu me lembro. A gente não podia subir nos prédios, a gente tirava a capa de trabalho, colocava um paletozinho, alguma coisa, entrava pela área de serviço do prédio com os folhetos, subia ao último andar e depois ia andar abaixo apra jogar os folhetos até, normalmente, o zelador pegar a gente, expulsar e ainda dar uma bronca. Então era muito, muito difícil porque o consumidor não conhecia o sistema, se atrapalhava, estava com receio: “Será que o meu dinheiro vai dar?” Mas, devagarzinho... 

 

P/1 – O que o senhor acha que foi feito nesse período de inovação para começar a consolidar a posição dos supermercados na sociedade? 

 

R/1 – Bom, o que a gente mostrava é que ninguém roubava ele no peso, que a mercadoria era de boa qualidade e a fruta e verdura ele podia escolher, porque nessa época ainda o feirante não deixava muito pôr a mão nos produtos. E a praticidade, os produtos refrigerados, principalmente nos perecíveis, a gente começou a trabalhar enquanto na feira estava lá no vento, no calor, numa maneira não muito higiênica, mas é claro que a gente tinha muita dificuldade com os preços, porque a gente precisava vender sempre com preços justos pra pagar também as instalações. Devagarzinho o consumidor se acostumou, mas foi muito, muito difícil. A gente trabalhava muito em cima disso aqui, mostrando as vantagens de qualidade, de frescor e dos produtos. 

 

P/1 – Em que áreas que o senhor trabalhou ao longo da sua trajetória dentro do grupo?

 

R/1 – Bom, quando eu entrei, o Pão de Açúcar tinha seis lojas, então eu era um tipo de supervisor, visitava. Eu não tinha nem sala, nem nada, não tinha nem mesa no escritório. Ia lá onde estava _______, e em cima tinha um salão de festa. Depois, atrás, tinha lá o escritório. Então, de manhã eu pegava o meu carro, visitava as seis lojas, ainda pegava os cartazes que o Senhor Antero mandou pintar lá pelo cartazista, colocava lá no meu fusquinha e visitava o dia inteiro as nossas lojas, verificando a exposição, variedade, preço, vendo problemas de pessoal. Depois, à noite, eu voltava e conversava com o Abílio e com o comprador que lá também já começou, o Arnaldo, mas quem que estava fazendo as compras era ainda o Antero. Na carne, era o espanhol lá, o...   

 

P/1 – Gregório.

 

R/1 – Gregório. E a gente fazia as pequenas estratégias: “Bom, vamos fazer isso, ver se está em ordem, compramos muito deste ou daquele produto.” O depósito era aqui na Loja 1, o gerente do depósito era o senhor Almeida, então também ele falava: “Olha, toma cuidado, as lojas estão pedindo muito disso, daquilo, vê se não falta mercadoria.” Então, era um grupo pequeno de pessoas, mas muito unidas e com as decisões muito rápidas, quer dizer, era muito gostoso de trabalhar. E depois, mais tarde, o depósito mudou lá para a Loja 6, na Alfonso Bovero, _________ depois ocupava mais com embalagens, comprava embalagens. Eu ajudava lá no depósito, mas a gente tinha um problema com os compradores de fruta e verdura, então, à noite, quando eu voltava, ia pra casa, tomava um chuveiro e ficava no Ceasa, fazendo as compras. Depois, a gente começou a inovar, porque compramos diretamente do produtor. Por exemplo, compramos da granja os ovos, começamos a empacotar os ovos, compramos máquinas com essa rede de algodão, empacotamos a batata, laranja e cebola já lá no Ceasa. Quer dizer, uma série de coisas que antigamente a própria loja fazia, a loja recebia a mercadoria em caixas e depois empacotava. A gente fez um pequeno centro de distribuição no FLB. 

 

P/1 – Então, quer dizer que vocês compravam no Ceasa para abastecer o supermercado?

 

R/1 – É.

 

P/1 – E depois é que você começaram a receber direto dos...

 

R/1 – É, muita mercadoria a gente...

 

P/1 – E foram criando todas as embalagens, vocês foram responsáveis por embalar os alimentos?

 

R/1 – É, porque a princípio, no começo, a gente sempre comprava caixa de tomate, caixa de laranja, seja do que for, e a caixa ia diretamente pra loja, a loja recebia do caminhão a caixa e empacotava depois na própria loja. Então, começamos a fazer isso aqui no Ceasa, a gente alugou um galpão, compramos máquinas e montamos uma equipe que empacotava essas coisas à noite, algumas coisas à tarde que não eram batata, cebola, que não dependiam de vir bem fresquinhas, podiam ter vindo do dia anterior, e com isso facilitava, para as lojas ficava mais fácil, a gente economizava também mão de obra e a coisa ia mais rápida e mais produtiva para a loja. Fizemos isso com uma série de mercadorias.

 

P/1 – Seu Oto, o que o senhor acha, nessa história, que foi mais marcante com o grupo? Tem alguma coisa que o senhor falou: “Puxa, isso é algo que eu não vou esquecer!” 

 

R/1 – Olha, tem muita coisa que eu não vou esquecer. Mas uma das coisas marcantes era, em 1976, quando o Pão de Açúcar... A expansão dele no começo era sempre para não imobilizar muito dinheiro, sempre comprar coisas já prontas, porque num supermercado no interior, eu me lembro que a primeira vez que a gente saiu de São Paulo foi pra Loja 12, lá em Santos, que já era um supermercado. Depois, a Loja 15 em Campinas, e o que também marcava o espírito de time é que a gente falava: “Olha, vai ter inventário.” O Pão de Açúcar comprou uma loja em Campinas, lotava um ou dois ônibus, foi o pessoal do escritório, das lojas. Todo mundo no domingo fazendo inventário nesta loja, segunda-feira já abria com o nome do Pão de Açúcar. Então, a expansão sempre foi comprando. Tinham muitas pequenas redes, mas lojas individuais. Uma coisa com que eu fiquei impressionado, como em 1976, quando se comprou a Eletroradiobraz, que era do mesmo tamanho, até um pouquinho maior. Quer dizer, era uma coisa muito grande, e como o Pão de Açúcar sempre teve, até hoje tem a cara dos funcionários: “Vamos fazer, vamos lá!” Espírito de equipe, de time, então essa é uma das coisas. E depois, tinha muitas outras coisas. A inauguração do primeiro Jumbo lá em Santo André, que veio tanta gente, tanta gente que nunca tinha se visto isso aqui, então tem muita história pra contar. A primeira loja em Brasília e depois a rede de Minibox, Superbox, onde no começo eu só tratava lá dos supermercados, mas depois de um certo tempo fiquei responsável também pelos Jumbo, depois mais tarde pela divisão, pela regional do Rio, depois pela divisão Superbox, então tem muita coisa. A primeira loja em Portugal, foi lá o Senhor Antero para inaugurar em primeiro de maio, eu não me lembro mais bem o ano, 1970 e tanto, então tem muita coisa. Mas o que é marcante nessa história do Pão de Açúcar é a agilidade, a velocidade. Não tinha nunca nenhum obstáculo, bomba, não vai dar. Vai ser difícil, então vamos fazer um esforço a mais. Então, é uma história de sucesso. É claro que lá no fim dos anos 1980, quando a companhia passou por uma série de dificuldades, a gente ficou triste, mas nem por isso era pra abandonar o barco.  

 

P/1 – E o senhor tem algum causo, alguma coisa engraçada que tenha acontecido com o senhor envolvendo o supermercado, alguma loja?

 

R/1 – Bom, eu não vou falar que era muito engraçado. era até meio complicado lá, durante a época dos pacotes econômicos, onde todo mundo virou fiscal do presidente. eu estava lá no Rio e tinha um cliente que quis atingir o Pão de Açúcar, não sei, até o próprio doutor Abílio, então achou lá uma geléia e fez essa com preço, uma etiqueta diferente, e quis fazer um caso grande, foi na imprensa e tudo isso aqui. Eu estava nessa época lá junto com o Márcio Milan, a gente estava lá o Rio e até publicamos um anúncio que a agência fez, eu colocando meu nome, minha experiência, me colocando À disposição. Mas o cliente não se deu por satisfeito e fomos à casa dele, então eu falei: “Olha, deve ser alguma cilada, é muito gozado, porque essa mulher nos quer na casa dela.” E fomos lá, ela falando, falando: “Bom, mas não vai ficar assim, não pode, eu não estou satisfeita!” A gente pensou: “Bom, o que ela quer provavelmente é alguma recompensa.” E a gente não foi pra lá nem com um tostão no bolso, nem pensamos nisso aqui e falamos: “Olha, o que nós podemos fazer é isso aqui, mostrar que foi um erro humano, mas dá pra fazer…” Na hora que nós saímos, por uma razão percebemos que tinha um microfone lá na mesa dela, levantamos a cadeira, tinha lá um fio. Na hora nós saímos no quintal, no jardim dela, era uma casa pequena, estava cheia de fotógrafos e pessoal nos querendo filmar, então eu falei pro Márcio: “Olha, Márcio, elas quiseram nos pegar para falar: “Olha, o Abílio mandou dinheiro, os caras quiseram me comprar.” E não aconteceu nada. Quer dizer, este foi um fato, uma das coisas que marcaram muito, marca que a honestidade no fim se paga. Mas, fora isso aqui, tem muita coisa, mas a gente não vai sair mais daqui. 

 

P/1 – Seu Oto...

 

R/1 – Casos que...

 

P/1 – A gente tem esse probleminha de horário, é meia hora pra cada um e eu já estou estourando já o horário.

 

P/2 – Eu queria só fazer uma pergunta.

 

P/1 – Pode fazer, Norma.

 

P/2 – Como você entrou, veio pro Pão de Açúcar? Você pegou mais a área comercial, cobria lojas…

 

R/1 – Não, eu peguei mais a área operacional.

 

P/2 – Operacional?

 

R/1 – É, é o que a gente chama de operacional. Cuidar das lojas, ver que mercadoria está no lugar certo, na hora certa, e ver se tem pessoal, mas a área operacional... Onde eu entrei, no comercial, foi fruta e verdura, frutas e verduras sempre foram minhas.

 

P/1 – Depois, a sua volta pro operacional, de fato, na divisão Jumbo, também foi desde a primeira loja?

 

R/1 – É, já tinha... É bom você tocar nesse assunto. Quando se projetou o primeiro Jumbo, eu participava das reuniões, do planejamento, o Abílio lá, o Carlos Novaes, o Luiz Carlos Prece Pereira, o Arnaldo, o Alcides, mas o Abílio sempre falou: “Olha, uma coisa nova que nós vamos por, colocar, precisamos... O que nós temos são supermercados. Continua, não desvie muito a sua atenção, trate do que nós temos e nós ficamos aqui, eu vou olhar.” Isso foi até duas semanas depois da inauguração, depois falou: “Olha, tem problema aqui, tem problema lá.” Mais tarde, depois, eu fiquei com o Jumbo e o Antônio Carlos Asquer ficou com os supermercados. Esta é a história, não é? Você tem mais uns trinta segundos?  

 

P/1 – Não tenho. Mas eu queria fazer mais uma pergunta. O que o senhor achou de contar as suas histórias, participar dessa nova fase do trabalho do Centro de Memória, que é o trabalho com a coleta de histórias de vida?

 

R/1 – Olha, quando eu esses dias atrás recebi a lista, fiquei emocionado e pensei: “É, isso é Pão de Açúcar. Precisa de gente nova, precisa de renovação, mas eles não esquecem dos velhos.” Eu sei que muitas vezes se pensa: “Bom, olha, o que que era não vale mais nada. Águas passadas não movem moinho.” Mas o que é importante, eu acho, é que a gente se sente bem e que faz parte do Pão de Açúcar não esquecer do ser humano.

 

P/1 – Seu Oto, muito obrigada. Eu tenho certeza que breve, muito breve, nós vamos nos encontrar de novo pra continuar essa entrevista, aprofundando todas as suas histórias. E a Norma vai estar junto, não é Norma?

 

R/1 – Eu agradeço pela oportunidade e estou disposto. 


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