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Agronomia por genética

História de: Veridiana Victória Rossetti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/07/2003

Sinopse

Antes mesmo de ser concebida, Veridiana já carregava história em seu nome. Ao “Veridiana”, nome herdado por conta de uma amissíssima do pai, acresecentou-se o “Victoria”, que marca uma vitória italiana na guerra no ano em que nasceu, em 1917. Filha de pais viajantes italianos, sua família possui uma profissão geracional: a agronomia. Pai, irmão, netos e bisnetos seguiram carreira na área, e foram todos bem sucedidos em seu projetos. Primeira mulher a se formar na ESALQ, dedicou-se sempre à ciência e ao Instituto Biológico, se aposentando com setenta anos de carreira no local. O contato com o Instituto é tão interminável quanto as boas amizades, tal como a de  Eline, com quem mantém a amizade ao longo doa anos.   

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História completa

P/1 – Gostaríamos de começar nossa entrevista perguntando para a senhora o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome inteiro é Veridiana Victoria Rossetti, tem um histórico esse nome. Eu nasci na fazenda Santa Veridiana, de Dona Veridiana Prado, que tem o nome da rua. Ela considerava meu pai um filho dela, adorava meu pai. Eu não existia ainda, mas depois eu nasci lá, porque quando meu pai foi buscar minha mãe na Itália, foi para a Fazenda Santa Veridiana, e foi lá que ele fez uma porção de coisas muito bonitas de agronomia que não existia no Brasil, saiu tudo no jornal, eu tenho os pedaços de jornal aqui. Ele era muito amigo do Navarro de Andrade, que depois foi Ministro da Agricultura, eles eram como irmãos, e o doutor Navarro pôs no jornal uma porção de coisas que ele fez.

Meu pai realizou muita coisa em agronomia. Ele era formado na Itália, tinha o doutoramento lá e sabia muita coisa que aqui não se sabia ainda, ele ajudou muito. Dona Veridiana Prado não podia ficar sem ele lá, mas um dia ela morreu. Puseram meu nome de Veridiana. Meu nome era para ser só Veridiana Rossetti, mas ficou Veridiana Victoria, porque foi durante a guerra, e os italianos tiveram uma vitória, vitória libacista, isso não diz nada. Tiveram uma vitória na guerra e mamãe quis acrescentar o nome de Victória, então ficou o nome de Veridiana Victória Rossetti.

 

P/1 – A senhora nasceu em que cidade e qual a data de seu nascimento?

 

R – Eu nasci na Fazenda Santa Veridiana, em Santa Cruz das Palmeiras, dia 15 de outubro de 1917. Estou velha, tenho 82 anos.

 

P/1 – A senhora poderia contar um pouco pra gente a origem da sua família, dos seus pais, por que eles vieram para o Brasil?

 

R – Eu já disse mais ou menos. O meu pai formou-se em Agronomia na Itália e a familia quis dar um prêmio para ele, um prêmio de viagem, ele escolheu como viagem o Brasil, chegou aqui e se apaixonou pelo Brasil, nunca vi uma paixão assim. Ficava parado no meio das árvores, diz que via as árvores crescerem sozinhas aqui no Brasil. Ele se apaixonou pelo Brasil, aí ele era noivo da mamãe, foi para a Itália, casou-se, e vieram para cá. Morávamos na Fazenda Santa Veridiana, com Dona Veridiana Prado.

 

P/1 – Mas como ele conheceu dona Veridiana?

 

R – Como é que ele conheceu? Quando meu pai veio para o Brasil, primeiro ele foi trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas lá. Ele e o doutor Navarro de Andrade, que vieram juntos. Aí a Dona Veridiana soube desses dois jovens, engenheiros agrônomos, chegados agora do exterior, e tinha o doutor Navarro, que vinha de Portugal. Mas eles viajaram juntos, mas papai veio da Itália. Lá ela chamou os dois para trabalhar para ela, porque o papai estava no Instituto Agronômico, ele começou lá, mas a Dona Veridiana foi buscá-lo, ele e ao Navarro de Andrade. Navarro de Andrade ela pôs em Rio Claro, para tomar conta das fazendas de eucalipto, e todas essas coisas. Introdução de novas plantas, que foi pelo Navarro de Andrade. Eucalipto mesmo não era... Não existia no Brasil naquela época, foram buscar. Navarro de Andrade que, a pedido de Dona Veridiana , foi buscar os eucaliptos, e o meu pai trabalhava com Dona Veridiana, inventou uma porção de máquinas que ele conhecia da Itália, e tudo isso. Inventou, colocou aqui máquinas de agricultura, de agronomia. E ele tocava bandolim, e Dona Veridiana, nós temos as cartas de Dona Veridiana para ele, cartas que diziam que ela tinha saudades do bandolim e tudo isso. Ela era como mãe para ele, queria que ele casasse com uma professora da escola, mas minha mãe estava esperando ele na Itália, então ele não quis saber da professora, não. Ele ficou na fazenda Santa Veridiana um grande tempo, eu nasci lá, todos nós nascemos na Fazenda Santa Veridiana

 

P/1 – Quantos irmãos, quantos filhos?

 

R – Quatro. Tem os quatro aí nessa fotografia. Sérgio, o mais velho, também é engenheiro agrônomo; Paulo, também engenheiro agrônomo; Sophia, casada com engenheiro agrônomo; e eu, também engenheira agrônoma. Todos os quatro metidos na Agronomia. É porque meu pai falava só de agronomia, de descobertas que ele fez, e a gente ficou encaminhado para agronomia.

 

P/1 – E essa Fazenda que vocês moravam, cultivavam o quê? O que seu pai introduziu lá?

 

R- Fazenda Santa Veridiana... Normalmente era de café, naquela época era só café. E foi meu pai que introduziu novas culturas lá. Introduziu a banana e várias outras plantas. Os eucaliptos mesmo o Navarro de Andrade foi buscar na Austrália, não existia eucalíptos aqui, foi o doutor Navarro de Andrade que foi mandado para a Austrália buscar os eucaliptos para plantar aqui. Agora, a fazenda era de café. Meu pai de café não sabia nada, porque ele era italiano, mas ele aprendeu. Aprendeu e fez um monte de coisas, fez coisas para colheita, para facilitar beneficiamento, tudo ele fez, tem nos jornais daquela época. Nós temos os pedaços de jornal daquela época. Navarro de Andrade que escrevia isso. O que mais você quer saber?

 

P/1 – Como é que foi  sua infância, nessa fazenda, o que a senhora lembra dessa época?

 

R – Eu lembro muito da época da fazenda, tem fotografias da gente pequenininha. A gente dava comida pros bois, na mão, assim. Primeiro nasceu o Sérgio, o mais velho, depois Paulo, depois Sophia e depois eu, fui a última. A gente vivia assim, no meio do gado que tinha lá, ia dar comidinha pro gado, enfim... O que fazia quando era pequena? Sei lá, aprendia português. A mamãe pôs uma professora de português que vinha todos os dias na fazenda, chamava-se Dona Amélia. Dona Amélia  ensinou português para nós, porque nós não falavamos uma palavra de português, só italiano. Ela ensinou o português para nós, vinha todo dia na fazenda. Daí nós entramos em um colégio, o Colégio São José, em Limeira, porque a fazenda era perto de Limeira, e a gente ia todos os dias para Limeira. Íamos todos, eu e Sophia estávamos no Colégio São José, o Paulo e o Sérgio no Colégio Santo Antonio, que era de meninos. O nosso era de meninas. Tinha um rapaz que ia guiando o automóvel que estava com o Sérgio e o Paulo no mesmo colégio, mas ele não cuidava muito do automóvel, e muitas vezes a gente parou por falta de gasolina, uma temporada cheia de epopéias. O Totó, que era nosso grande amigo, era quem guiava o automóvel, levava a gente para a escola. Ficamos nesse colégio bastante tempo nesse colégio de freira em Limeira, e depois fomos morar em Piracicaba, porque os meninos começaram a estudar agronomia. Só que o papai ficava na fazenda, e ia todo fim de semana para Piraciacaba para ver a gente, ficava trabalhando na fazenda. Bom, aí veio minha avó aqui, a mãe da mamãe, ela quis levar o Sérgio para a Itália para aprender bem o italiano, e levou o Sérgio, o mais velho, para a Itália. Ficou lá, estudou e tudo, depois voltou para o Brasil e começou os estudos na ESALQ [Escola Suprior de Agricultura Luiz de Queiroz], onde Paulo também estava indo e aonde eu fui mais tarde, muito depois que eles saíram, porque eles eram bem mais velhos que eu. Que mais você quer saber? Vai perguntando.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho a essa fazenda. Vocês moravam em uma casa dentro da própria fazenda? Como é que era?

 

R – Na Fazenda Santa Veridiana? Era uma casa muito boa, que ela nos deu. Ela tinha uma verdadeira paixão por meu pai e minha mãe. Ela recebia muitos políticos, dava muitos jantares, dava muitas festas, e nessas festas ela sempre chamava meu pai e minha mãe. Minha mãe porque era pianista e alegrava o ambiente, e meu pai porque ele sabia contar... Eles fizeram a viagem de núpcias deles pelo mundo inteiro, fizeram a volta ao mundo, então ele contava coisas muito interessantes e ela achava formidável ter esses dois italianos sentados à mesa onde ela dava os jantares, as festas, e tudo isso. Eram muito bem quistos por Dona Veridiana, muitíssimo. Para o Conselheiro Antonio Prado também, filho de Dona Veridiana. Eduardo Prado, que foi um escritor, eles adoravam meu pai, porque meu pai contava coisas do mundo inteiro. Eduardo Prado queria que meu pai pusesse um padre lendo o breviário, assim, no caminho perto do trem ________ O padre lendo o breviário de repente ele cai na água (risos)

 

P/1 – Como era o convívio com as outras crianças da fazenda? Porque tinham outras crianças, os filhos dos colonos.

 

R – Nós íamos muito bem. Mamãe ensinava as mulheres, tem uma fotografia. Essa fotografia eu não sei onde está, mas deve estar no álbum da família. Uma fotografia da mamãe, a única bem branquinha, bem vestidinha,  com um bando de mulheres. Ela ensinava, ensinava a ler, a escrever, ensinava aritmética, tudo para o bando de mulheres da fazenda. Ela ensinava, ensinou todo o tempo, e nós às vezes assistíamos as aulas para nos divertir. Mas quem dava aulas mesmo era minha mãe, que era italiana, mas já falava bem o português. Então a gente tinha convivência também com os filhos dessas mulheres. A gente tinha uma certa convivência, mas não muita, mamãe gostava que a gente ficasse mais assim perto dela e tudo. O que mais você quer saber?

 

P/1 – Você falou pra gente, antes de ligar o equipamento, que seu pai voltou para a Itália quando a senhora era criança. Como é que foi essa história? Conta pra gente.

 

R – Ele voltou pra Itália pra casar com a mamãe, né.

 

P/1- Depois, quando vocês já tinham nascido.

 

R – Depois, quando já eramos nascidos, papai nos levou para a Itália, fomos todos, só ficou o Paulo aqui. A mamãe queria que nós aprendessemos bem o italiano, nós ficamos em um colégio lá na Itália, em Alassio. Se você quiser vou contar uma historinha da minha estadia nesse colégio.

 

P/1 – Pode contar.

 

R - Era um colégio de freiras, muito bonito. E a mamãe ia nos buscar, eu e Sophia. Sophia era mais adiantada do que eu, eu era só principiante, só começando a ler. E tinha uma freirinha jovem que se chamava Sor Giorgina. Ela me levava, porque eu acabava  as aulas e minha irmã ainda continuava, porque era mais adiantada. Eu não tinha aula nenhuma, estava no Jardim da Infância. Ela me levava todos os dias na capela e contava histórias pra mim. Depois, nós viemos embora para o Brasil, todos de novo, porque o papai estava sozinho aqui com o Paulo  e ele ia de vez enquando para a Itália, mas não era sempre. No fim viemos todos para o Brasil, mas quando eu, depois de formada e tudo isso, fui trabalhar na FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura], em Roma... Tive um convite pra eu trabalhar. Você sabe o que é a FAO das Nações Unidas, e eu fui como fito__________, fui convidada para trabalhar lá, eu já era formada, já era tudo. Fui trabalhar em Roma, eu estava aqui no Brasil e fui para Roma, pras Nações Unidas. Um dia, que tinha um feriado, resolvi ir ver o meu colégio, que era em Alassio. O colégio se chamava... Eu não me lembro bem como ele se chamava. Era um colégio muito bonito, tinha uma escadaria e Sophia ficava até mais tarde do que eu, mamãe ia buscar a a gente, e eu era pequenininha e escutava as histórias da Sor Giorgina. Mas quando eu estava em Roma, no... Era em Roma esse colégio. Perguntei: “Aqui é o Colégio.... ”, “Agora não é mais um colégio, é um pensionato. Mas a senhora queria alguma coisa?” Eu e minha irmã fomos as únicas brasileiras que aprendemos a ler e escrever nesse colégio. “Ah, eu me lembro de vocês... Brasileiras, as únicas que aprenderam a ler e escrever nesse colégio”. Aí eu contei da Sor Giorgiana que sempre me levava, ela falou assim para mim: “Espera um pouquinho”.Desceu pela escadaria uma velhinha, bem velhinha, era Sor Giorgina, uma graça. Me levou para a capelinha, me contou história. Eu já era das Nações Unidas, já era formadíssima e tudo, e ela me levou lá, foi uma coisa muito bonita. Depois eles queriam que eu fosse lá fazer uma conferência sobre o meu trabalho, mas eu não fui não. Isso foi na cidade de Alassio, eu trabalhava em Roma, nas Nações Unidas. Fui num feriado ver minha escola, onde eu aprendi a ler e escrever em italiano.

 

P/1- A senhora estava falando de seus estudos. Vocês moravam em Limeira, depois foram para Piracicaba...

 

R- Na fazenda, depois fomos morar em Piracicaba, os dois rapazes entraram na Faculdade de Agronomia. Eu e Sophia estávamos em um colégio metodista, colégio Piracicabano. Mas papai falou com as professoras lá e disse que queria que nós ficássemos em uma  mesa onde só se falasse inglês, ele queria que nós aprendessemos bem inglês. Ele também dava aula pra gente, também sabia muito bem inglês. Mas então nós tínhamos isso lá. Papai sempre trazia coisa para o Colégio, trazia laranja, trazia... E as professoras ficavam super contentes. E nós duas numa mesa onde só se falava inglês, papai fazia questão absoluta, então nós aprendemos inglês correndo. Tanto eu como minha irmã falamos o inglês como o português e como o italiano, mesma coisa. O que mais você queria saber?

 

P/1 – Vamos continuar. Dona Victória, a senhora...

 

R - Nós estávamos no Colégio Piracicabano e os meninos estavam na Faculdade de Agronomia, na ESALQ, aí minha irmã começou a namorar o meu cunhado. Meu cunhado estava estudando Agronomia, formou-se Engenheiro Agrônomo e eles se casaram. Ele morreu outro dia, faz umas três semanas. Estava bem doente, coitado, estava com 87 anos. Mas eles sempre moraram em fazenda, minha irmã está numa fazenda agora. É uma fazenda da família, não minha, eu não... Da familia deles, do Antoninho. Antoninho, esse meu cunhado, foi secretário da Agricultura duas vezes aqui em São Paulo. Foi vice governador do Estado quando Laudo Natel foi governador. Ele era um cara muito bem preparado, engenheiro agrônomo, de familia rica (risos). Muito bem preparado, e ele fez coisas maravilhosas pelo Brasil, fez muito pelo Brasil.

 

P/1 – Como era o nome dele?

 

R – Sérgio, Sérgio Rossetti. Esse é o meu irmão mais velho.

 

P/1- Mas e o seu cunhado?

 

R – Ah, o meu cunhado, que fez muita coisa, Antoninho. Antonio José Rodrigues Filho, vocês devem ter visto. Era muito conhecido, na missa de sétimo dia estava cheíssima a igreja. Eu senti muito a morte dele porque... Mas ele estava muito doente, não falava e não andava, tinha um enfermeiro para a noite e um para o dia. E minha irmã está bem, graças a Deus, mas ela tem uma enfermeira também com ela, os filhos puseram para eles todas as facilidades possíveis da fazenda. A Sophia mora na fazenda, mas tem um apartamento aqui, porque eles moraram aqui no apartamento. Quando os filhos dela eram pequenos iam para a escola e tudo o mais, e ela tem esse apartamento, de vez em quando ela vem. Quando ela vem, almoço com ela, fico umas horinhas, senão eu não vejo mais, porque ela vai para a fazenda. Mas ela passa, às vezes, uma semana aqui, oito dias, sete dias, eu a vejo sempre. E os meninos dela eu os vejo de vez em quando, em reuniõezinhas em casa, eles vêm, todo mundo né. Eu já tenho sobrinhos, sobrinhos-netos, sobrinhos-bisnetos, tudo pequeninho.

 

P/1 – E tem algum que é engenheiro agrônomo?

 

R – Já tem oh, já tem 17 na minha família. Tem o Paulinho, filho... Tem o Roberto. Vocês não conhecem o Roberto. Roberto Rodrigues, é muito conhecido porque é o diretor da.. Ele é mundialmente... É diretor do Cooperativismo Internacional, Cooperativismo Agrícola Internacional, ele é agrônomo. Então ele viaja muito, pelo mundo inteiro, pra cá, pra lá. Outro dia ele fez um discurso em italiano (risos). Veja você, fez um discurso em italiano. Não é que ele saiba bem o italiano, mas ele pediu para alguém traduzir do português. Foi muito bem entendido. O Roberto é filho da Sophia, é o filho mais velho, engenheiro agrônomo e é tudo isso aí, uma personalidade internacional. Depois vem a Anita, a filha da Sophia que tem dois filhos agrônomos, um é meu afilhado. Gustavo e André, os dois são agrônomos. Gustavo casou-se agora e André não casa, não quer saber de casar. Esses são filhos da Anita.O Roberto tem o Paulinho, que é agrônomo, e é ele quem toca a fazenda agora, porque o pai viaja muito. Mas é um ótimo agrônomo, já saiu nos jornais, várias coisas que ele fez e melhoramento, tudo isso. É um ótimo agrônomo, jovem, filho do Roberto. Tem dois filhinhos, tiquinhos, e mora na fazenda, mas mora em Jaboticabal. Tem casa em Jaboticabal a 10 quilometros da fazenda, vai todo dia lá, tem piscina, leva as crianças. Tem uma piscina linda, as crianças se divertem na piscina, tem aquelas baleias... Tem uma porção de fotografias deles, mas eu não as trouxe aqui. Então nesse momento estamos assim: Sophia viúva, meu irmão Paulo faleceu há uns três meses, ficou seis anos... Três anos no hospital muito doente, infelizmente ele faleceu. Sérgio foi o primeiro que faleceu, o Paulo faleceu agora faz uns três meses, depois o Antoninho, três da familia que já foram, sem ser meu pai e minha mãe, né. A minha mãe está enterrada na Italia, toda vez que vou para a Itália eu vou ver o túmulo dela.

 

P/1- Mas ela morreu lá na Itália?

 

R -  Morreu na Itália, porque nós íamos muito para a Itália, passávamos uma temporada e tudo. E tem o túmulo dela com todos os irmãos, mãe dela, tudo, tem uma capela. E toda vez que eu vou para a Itália... Eu fui muito para a Itália, nas Nações Unidas, trabalhei bastante tempo. Dois anos, dois anos e meio, com isso eu ia muito para a Itália. Eu tinha um namorado italiano e daí... O que mais vocês querem saber?

 

P/1 – Vamos voltar, então. Vocês estavam estudando no Colégio Piracicabano, a senhora e sua irmã.

 

R – A Sophia.

 

P/1 – Sophia. A senhora resolveu fazer engenharia agrônoma.

 

R – Então eu fiz o ginásio no Colégio Piracicabano me preparando para a Universidade, e fui estudar agronomia na ESALQ. A Sophia não, a Sophia fez um negócio que era Colégio Americano, chamava-se Ciências Domésticas. Ela fez esse curso, era um curso de 12 anos de ciências domésticas. Ela aprendeu muitas coisas, fazia muita coisa. Ela não fez agronomia, eu que fiz. Agora, os filhos dela fizeram, e os netos. Filhos, netos, bisnetos, todos fizeram agronomia.

 

P/1 – Quando a senhora entrou na faculdade, que ano foi isso, a senhora lembra?

 

R – Quando entrei? Foi em 39.

 

P/1 – Foi vestibular? Como era o sistema de admissão para a faculdade?

 

R – Vestibular. Eu me preparei para o vestibular. Eu tinha aulas... Não eram bem particulares porque tinha um bandinho de gente, eram aulas para preparo, para entrar na faculdade. Eu entrei diretamente no primeiro ano, pulei os dois do colégio e a Cândida Helena, minha grande amiga, fez e depois entrou. Fomos sempre amigas, muito, muito amigas mesmo, porque, embora tivesse entrado depois de mim... Eu entrei diretamente, né, não fiz os tais dois anos que precisava fazer, pulei os dois e entrei diretamente na escola. Naquela época, porque agora não existe mais isso.

 

P/1 – Podia pular esses dois anos?

 

R – Na época podia, sabendo, podia, e eu passei, está tudo bom. Eu ia estudar medicina primeiro, então vim aqui para São Paulo, estudei, me preparei para medicina, depois não quis, fui para Piracicaba, meu pessoal estava lá, e fiz agronomia.

 

P/1 – A senhora foi a primeira mulher a entrar na faculdade? Como era estudar com um montão de homens e só a senhora de mulher?

 

R – Era muito bem tratada, viu! Era muito bem tratada, não fizeram nada. Eu tinha medo da... Quando entrasse né, eles faziam o trote, mas pra mim não fizeram nenhum, eu entrei tranquila. Eles ficaram apavorados, com os olhos abertos “deste” tamanho. Uma mulher no meio deles. Eu entrei diretamente e fiz agronomia, fui a primeira mulher a me formar na escola.

 

P/2 – E já tinham os apelidos que eles davam nas aulas? Quando a senhora entrou eles deram algum apelido para a senhora? Porque hoje em dia tem uma tradição de dar, todo mundo que entra tem um apelido.

 

R – Não, eu não tive nenhum, que eu me lembre não tive apelido nenhum. Mas os colegas gostavam muito, eu estudava junto com eles. O Baroni, Orlando Baroni, vocês conhecem? É muito meu amigo, ele e a mulher dele vão muito em casa, são amissíssimos, eu vou à casa deles. Ele estudava muito comigo, na casa da Sophia. Eu morava na casa da Sophia e do Antoninho, e ele ia muito lá, até agora nós somos grandes amigos. Entramos juntos, nos formamos juntos e agora fomos juntos na festa dos 60 anos de formados, nós dois e mais um, eram só três. Tinha turma de 50 e 60 e nós éramos só três: eu, o Baroni e o Luis Fercman Barbosa.

 

P/1 – Foram só três que se formaram?

 

R – Não, mais gente se formou. Uns morreram, outros moravam longe, não sei bem, mas não foram, uns não vão mesmo. Mas tinha turmas de 50 alunos, e nós eramos só três. Tinha turmas pequenas, também. Foi uma bonita festa, linda mesmo.

 

P/1 – Foi lá na escola?

 

R – Na escola mesmo. Minha familia foi todinha, em peso. Em peso foram ver ganhar a medalha.

 

P/1 – Conta pra gente sobre essa medalha. Como foi essa homenagem que a senhora recebeu?

 

R – Foi assim, eu recebi uma carta do diretor, essa aqui é a medalha, né. É uma medalha de ouro muito bonita. Aqui tem um discurso do diretor que fala dos três que foram homenageados, que fala de mim aqui, é interessante. Aqui foi do CREA [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia], que me homenageou e eu falei essas palavras aqui.

 

P/1 – A senhora se formou em 1939?

 

R – Acho que foi.

 

P/1 – Está aqui, 1939.

 

R – Aqui é do Secretário do Conselho de Citricultura. Aqui é o discurso que eu fiz, de agradecimento. Aqui é um recado de um francês, com quem eu trabalhei muito, trabalhei muito na França, no laboratório do Bove, trabalhei muito fora daqui também.

 

P/1 – Conte um pouco disso também. Depois de formada, onde a senhora começou a trabalhar? Conte de sua carreira nessa área.

 

R – Bem, eu comecei a trabalhar na ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz, mas eu fui convidada para trabalhar em vários laboratórios, um deles foi _________ (Laboratório francês). E esse (Car?) ficou muito meu amigo, ele e a Monique, ficaram amissíssimos. Quando eu tive a medalha ele mandou esse recado para o diretor, tinha um cartãozinho deles. Esse aqui foi da diretora do Instituto Biológico. Esse do Secretário de Agricultura. Tem do Ministro da Agricultura também. Tem muita coisa aqui dentro.

 

P/1 – A senhora foi trabalhar na Faculdade, quando a senhora se formou?

 

R – Fui trabalhar no Instituto Biológico.

 

P/1 – Ah, no Instituto Biológico?

 

R – Sessenta e três anos que estou no Instituto Biológico. Quando eu fiz 70 anos aposentei, mas continuei trabalhando. Tenho minha sala, os diretores sempre me deram apoio. Tenho minha salinha, uma secretária e um motorista que me leva e traz com meu carro.  Então eu trabalho no Instituto Biológico faz uns 63 anos, só trabalhei lá. Agora, a última coisa que eu fiz foi um livro, estou fazendo a revisão dele. Estão querendo que eu faça um outro projeto também. Aqui é quando o diretor me deu a medalha.

 

P/1 – A senhora se dedicou esses anos todos no Instituto Biolégico a que tipo de pesquisa?

 

R – Patologia vegetal, mas principalmente Citros. Tinha colegas novas e novos que eu ensinei, eram os meus pupilos. Nessa fotografia tem um pupilo, tem outros também. Tem pupilo a bessa aqui, um que escolhi pra me acompanhar na festa da medalha. Eles pediram que eu escolhesse um pupilo, Eduardo Faistemberg foi meu pupilo por 20 anos, a Maria Ligia Veiga Carvalho também começou comigo e está me ajudando no livro. Também era um pupilo, uma pessoa que trabalhava comigo e uma grande amiga. Eu tenho uma grande amiga, Eline Prado, é quimica. Ela não estudou agronomia, fez química, já é formada, já trabalhou muito, viajamos juntas, estamos sempre juntas. Amigas de 60 e tantos anos né.

 

P/1 – A senhora a conheceu aqui em São Paulo?

 

R – Não, eu a conheci em Piracicaba, era de Piracicaba. Depois eu vim para São Paulo, a familia dela resolveu vir para São Paulo também, ficamos amigas de todo sábado sairmos juntas, hoje mesmo ela já me telefonou: “Depois que você sair daí vamos num cineminha e tomar um lanchinho?” “Vamos”. É Eline, minha amiga incondicional. Tinha essas três pessoas: o pupilo, a pessoa que trabalhava comigo e a grande amiga, eles que tinham que me levar lá na frente, o negócio foi fantástico. Uma festa do tipo “tapete vermelho”, desenrolaram o tapete vermelho para eu passar, um negócio muito grandioso, uma festa muito grandiosa. Eu tenho umas fotografias pra...

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa para a senhora. Quando a senhora foi para a Itália para trabalhar na ONU, que trabalho a senhora desenvolvia lá?

 

R – Tem boletim na FAO em três idiomas, então eu ajudava a redigir esses três. Essa revista era uma revista só em três idiomas. Eu falo muito bem cinco línguas, e muito mal o alemão, como sesta. O meu trabalho era ler esses artigos, redigir, escrever para o autor se precisar de corrigir. O meu trabalho eram as revistas da FAO.

 

P/1 – A senhora não estava desligada aqui do Instituto Biológico?

 

R – Não, eu continuava. Depois voltei, fiquei dois anos e meio na FAO depois voltei pra cá, pro meu lugarzinho.

 

P/1 – E que época era essa, que a senhora morou na Itália?

 

R  - Essa época da FAO foi em 1960, por aí. Fiquei dois anos e meio lá, depois fui para os EUA fazer pós graduação, tenho fotografia do meu professor. E com ele fiquei dois anos e meio fazendo pós graduação e treinamento. O meu diretor aqui no Brasil era o doutor Agisilau Bittencourt, ótimo diretor, me ensinou muito, muito muito. Me mandou fazer o doutoramento na California. Fui na cidade de ______ - California. Vou mostrar que bonitão era o professor.

 

P/1 – Foi para os EUA e depois voltou para o Instituto Biológico? Sempre voltando para o Biológico?

 

R – Sempre voltando para o Biológico, aí eu viajei muito. É o seguinte: todas as pessoas que trabalham em Citros, ou na Patologia de Citros no mundo formaram − eu tenho o retrato do fundador − fundou uma Instituiçào que se chama Internation Organizazion of Citros Variology – Organização Internacional de Virologistas de Citros – mas não era só vírus, eram fungos e tudo, mas principalmente vírus. E eu fui Presidente disso durante três anos. Tinha sempre um presidente, e de repente fui nomeada e fiquei presidente durante três anos. Depois eu ajudei também a organizar outros dois, três: o meu, e depois tinha um na Argentina, mas os carinhas não sabiam nada, não sabiam o que fazer. Fui eu lá para Argentina e tudo  e organizei o Congresso e tal. Depois tem um outro ainda que eu organizei na Itália. Tinha brigas entre os italianos, “eta” gente briguenta. Brigavam que era uma coisa horrivel, eu fui lá, tinha que separar as brigas e fundar e organizar o Congresso. Na verdade eu organizei três congressos, do qual um eu fui a Presidente, durante três anos.

 

P/1 – Quer dar uma paradinha para tomar um suquinho, uma água? A senhora não está cansada?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Então a senhora foi presidente dessa associação. Quais outras associações...

 

R – Essa organização publica um livro a cada três anos, e tem os meus trabalhos, tem os trabalhos de todo mundo, tem os trabalhos da gente. É muito bom porque a gente pode consultar trabalhos modernos, a cada três anos sai o livro. Esse ano está demorando muito eu não sei o porquê; acho que estão com falta de dinheiro para fazer, não sei, são os americanos que fazem o livro, né.

 

P/1 – Mas a senhora ainda está particopando dessa organização?

 

R – Oh, claro, eu vou a todos os Congressos. Eu fui a todos os Congressos até agora. Agora eu estou me achando muito velha para ir longe, porque o próximo Congresso vai ser na Ilha de Chipre. Eu já conheço, nós tivemos um congresso lá perto e fomos passear na Ilha de Chipre, me fizeram dar uma volta, uma beleza, tem aquelas ruínas romanas dos tempos da minha avó, enfim, eu estou me achando muito velha, porque eu sofro do coração. Tenho marca passo para poder andar melhor e tudo, quer dizer que eu sofro do coração. Eu tenho um cardiologista aqui. Fui para Araraquara fazer uma conferência, e durante a conferência eu tive uma dor no peito fortíssima, mas fiquei firme, acabei a conferência e ainda ouvi a dos outros, mas telefonei para o meu cardiologista de São Paulo: “Você procure imediatamente um cardiologista aí que entre em contato comigo.”

Aí os colegas de lá me levaram a um cardiologista de Araraquara, e lá o cardiologista entrou em contato com o meu cardiologista, o doutor Munir Anania, daqui de São Paulo e fiquei boa. Não tive nada, parecia qualquer coisa, mas não era nada. Foi feito o cateterismo e tinha um nódulo que se arrebentou sozinho. “Você teve uma sorte que esse nódulo se arrebentou sozinho.” Então tudo bem, mas eu não estou querendo viajar pra longe, porque sofro do coração. Aqui o médico já me tirou um seio porque tinha um pequeno tipo de câncer, mas o meu sobrinho − que é médico − disse que não era propriamente um câncer, era uma parte gelatinosa, um câncer muito benigno. Mas o médico achou melhor tirar. Eu fui ontem nesse médico. Ele foi me ver, disse que estou muito bem, estou ótima mesmo, todos os exames formidáveis. Então ele me tirou o seio inteiro, esquerdo; na mamografia do direito não tem nada. Depois fui no homem do marca passo e está ótimo. Eu tenho esses médicos que eu vou sempre porque estou velha. Então eu falei para o doutor Munir: “Doutor Munir, eu não vou mais longe do senhor, não vou mais aos congressos da ACB”, ele falou assim: “Vá sim, eu vou também, vou junto.” “Sua familia não deixa.” “Deixa sim, sabe por quê? Chipre é pertinho do Líbano. Eu sou descendente de libaneses, vou visitar meus parentes.” Ele disse que vai junto comigo para Chipre, mas minha família não vai deixar, com todas essas coisas. O marca passo está aqui, já é o segundo que ponho, o primeiro durou quatro anos, depois pifou completamente. Agora eu tenho o segundo que eu fui (ver?) ontem e está ótimo.

Eu não estou com a saúde absolutamente boa. Dá para trabalhar muito bem, tudo isso, eu não tenho problema para trabalho. Mas não trabalho mais em campo como eu trabalhava antes. Trabalhava, antes, no campo, no meio dos laranjais. Eu trepava nas laranjeiras, fazia tudo. Agora não faço mais trabalho de campo, faço mais trabalho de laboratório.

 

P/1 – E a senhora vai todo dia ao Instituto Biológico?

 

R – Quase todo dia. Eu tenho meu carro meu motorista, que eu pago, e ele me leva quase todo dia.

 

P/1 – É na Vila Mariana, o Instituto Biológico, né?

 

R – É, Vila Clementino .

 

P/1 – O Instituto Biológico foi fundado quando, a senhora sabe?

 

R – O Instituto Biológico foi fundado na época do café. Foi fundado por causa da broca do café, então que ano foi isso? Eu não me lembro. Em todo caso, aí deve ter.

 

P/1 – E a senhora sempre trabalhou lá com Citros? Desde o começo que a senhora entrou lá?

 

R – Trabalhei com várias coisas, até com cacau, mas trabalhei mais com citros. O livro que eu publiquei é de citros. O livro que estou publicando, quer dizer, ainda não acabei a revisão.

 

P/1 – Quando a senhora veio para São Paulo, já veio para trabalhar no Biológico, ou a senhora veio para cá...

 

R – Não, eu já vim para trabalhar no Instituto Biológico.

 

P/1 – E a senhora veio morar onde aqui? Em que bairro?

 

R – Eu morava em Piracicaba.

 

P/1 – Sim, mas e quando a senhora veio morar em São Paulo?

 

R – Ah, em São Paulo eu morei... Espera aí, deixa eu ver quem veio para São Paulo. Minha mãe já tinha morrido, meu pai também. Eu vim com os meus irmãos apra São Paulo, eles também trabalhavam por aí, em agronomia. Mas eu morava em São Paulo... Em que ano?

 

P/1 – A senhora tem uns 60 e poucos anos de Instituto Biológico.

 

R – Tenho 64 anos de Instituto Biológico. Tenho 64 prêmios recebidos.

 

P/1 – Quase um prêmio por ano?

 

R – Quando ela entrou eu queria que ela subisse para ver o quadro que fiz dos prêmios, são placas de prata e medalhas. Tenho um quadro de medalhas e um quadro de placas.

 

P/1 – A senhora mora sozinha?

 

R – Eu moro sozinha, mas tenho uma empregada que há tempos está comigo. Ela é muito boa... Muito muito boa não, porque às vezes me responde mal. Eu vou aguentando, tem que aguentar, né.

 

P/1 – Mas ela há muitos anos mora com a senhora?

 

R – Faz cinco anos. Antes dela tinha outras também que demoraram pouco. Teve uma que me roubou até a alma, quase que chamei a polícia, mandei ela embora a pontapés. Eu devia ter chamado a polícia, porque o que ela me roubou... Ela mandou fazer todas as chaves da casa. Ah, eu tive uma empregada lá, aqui em São Paulo, sabe quantos anos ela ficou comigo? 43 anos, minha empregada. Ela era uma pessoa extraordinária, vem toda semana me ver na minha casa. Eu comprei uma casa e dei para ela morar, de prêmio por tudo que ela fez por mim. Ela tem o marido e duas filhas que eu fiz estudar, paguei os estudos delas. Estudaram inglês e a mais velha estudou outra coisa que não me lembro mais,ela dá aulas. Mas o que ela faz é dar aula, inglês ela sabe bem. Inglês dá aula e traduz. Esse outro negócio que ela estudou é fisiologia, dá aula no estado do Paraná, a mais velha. A mais moça estudou inglês, eu a fiz estudar inglês.

 

P/1 – A senhora nunca se casou, dona Victória?

 

R – Não.

 

P/1 – E foi por opção?

 

R – Por opção. Eu tive oportunidade de me casar algumas vezes. Era a tal história, eu gostava dos italianos, mas os italianos tinham que voltar pra Itália, e eu deixar o Brasil não podia, com toda minha familia aqui não queria saber de deixar o Brasil. Depois tinha meu trabalho, meu Instituto. A Lúcia ficou comigo 43 anos, e agora toda semana vai na minha casa, me leva um vaso de flores toda semana. E as revistas velhas , as Vejas velhas que eu tenho por aí, dou para ela ler. Ela tem essas duas filhas − que eu fiz estudar − e tem um marido que bebe que é uma desgraça, bêbado, bêbado, coitada. Ela é tão boa e o marido um bêbado. Ela já levou nos Alcoólicos Anônimos, em uma porção de lugares, de vez em quando ela melhora. Completamente bêbado, o Zé. Mas eles vivem nessa casa que eu dei para eles morarem. Porque ela ficou 43 anos comigo, né, não é “sopa”. Ficou 43 porque casou com o Zé, senão ela estaria agora comigo.

 

P/1 – Como é o dia-a-dia da senhora? Conta pra gente seu dia-a-dia.

 

R – O meu dia-a-dia... Eu tenho carro, o meu motorista vem me buscar... O meu carro está ruinzinho já, mas não tenho dinheiro para comprar outro. Ele vem nesse mesmo, ele arruma o caro, manda arrumar quando precisa, e me leva para o Biológico quase todos os dias. Às vezes... A minha secretária só chega lá a uma hora da tarde, ela mora muito longe. O meu motorista também mora muito longe. Em geral eu vou às dez horas, ele vem me buscar às dez horas, dez e quinze. Ele mora muito longe, então até ele vir, pegar meu carro e me levar às dez, dez e quinze... Eu vou todos os dias, menos sábado e domingo.

 

P/1 – A senhora almoça lá mesmo, perto do Instituto Biológico?

 

R – Lá tem um restaurante, mas eu não sou muito (afer?) para restaurante. Eu levo, a minha empregada compra danone para mim, levo danone... Eu tomo muito remédio por causa do coração trololo, sou meio doente. Agora, eu estive em todos os congressos da UsV . Usv ë Istituti ______ virology, todos, não faltei em nenhum, no mundo inteiro, eu percorri o mundo inteiro. Fui na Grécia, na França, na Arábia, na África do Sul, na Índia... Na Índia fui três vezes em congresso, sempre viajando a cada três anos. Esse congresso é a cada três anos. O último foi aqui no Brasil e eu fiz a conferência inicial, fui convidada para fazer a conferência inicial da doença que eu descobri e tinha que falar dela.

 

P/1 – Que doença era essa?

 

R – É Clorose Variegada dos Citros. Muitas pessoas chamavam de “amarelinho”, mas amarelinho não é o nome fito-patológico, porque o amarelinho, se você for traduzir para o inglês, “little-yellow”, e little-yellow é uma doença de vírus que existe nos EUA e não tem nada a ver com a CVC, CVC é uma doença bacteriana. Descobri a doença e descobri a bactéria, e agora fizeram os genômas, vocês viram nos jornais. Eu não trabalhei no genoma, mas mostraram minha fotografia nos jornais, porque eu descobri a doença, descobri a bactéria, e o pessoal que trabalhou no genoma – eu não trabalhei no genoma –, foi premiado. O meu só saiu fotografia.

 

P/1 – E o que essa doença faz?

 

R – Essa doença é causada por uma bactéria. Essa bactéria penetra nos vasos do xilema da planta, entope e a planta morre, mas antes de morrer, ela mostra sintomas nas folhas. Será que eu não trouxe fotografias das folhas doentes?

 

P/1 – Elas ficam amarela?

R – Ela ficam clorosa e variegada. Eu pus o nome Clorosa e Variegada dos Citros, chama-se CVC no mundo inteiro. “Clorosa e variegada” quer dizer que a folha não é toda clorótica, mas tem clorose variegadas dos citros. E quem forma essas cloroses é a bactéria que está dentro dos vasos e vai adoecendo a planta até ela morrer. Ela morre a menos se a gente faça um sério tratamento que nós sabemos como é. A gente tem que fazer uma poda dos galhos doentes, enfim, posso dar uma aula sobre o CVC.

 

P/1 – E o que mais a senhora poderia estar contanto pra gente? Pesquisas, viagens?

 

P/2 – Pesquisas interessantes...

 

R – Você não quer ler aquele trecho que está marcado que é do diretor da escola?

Esse trechinho aí, leia esse trechinho e você vai ver o que eu fiz.

 

Pausa para leitura

 

R – O Brasil é o primeiro produtor de citros e o primeiro exportador de suco. Nesse artigo eles dizem que meu trabalho é que fez isso, que o Brasil fosse o primeiro. Você leu isso?

 

P/1- Li. Essa região de suco aqui de São Paulo é a mais impoortante aqui do Brasil? Essas pesquisas que vocês faziam e que ainda fazem no Instituto, vocês passam para os produtores?

 

R – Claro, passamos para os produtores.

 

P/1 – E eles têm engenheiros agrônomos que trabalham nessas fazendas? Tem sempre intercambio com vocês?

 

R – Tem, e tem várias entidades, Fundecitros em Araraquara. Tem o Centro de Citricultura de Cordeirópolis, tem o Instituto Agronômico, o Instituto Biológico, tem vários Institutos em São Paulo. Fora de São paulo também tem, eu tenho um sobrinho que trabalha no Paraná, num Instituto de Citricultura do Paraná. E outros formados em Lavras, trabalha em Lavras, em várias escolas, não só da ESALQ, não.Um formou-se em Lavras, outro em Alfenas, enfim, a vida de uma cientista que trabalhou muito.

 

P/1 – A senhora chegou a lecionar ou só trabalhou na área da pesquisa mesmo?

 

R – Lecionei quando era jovem. Lecionava um pouquinho, mas não muito. Os colegas que vinham lá em casa... Fazíamos grupos de aulas.

 

P/1 – Dona Victória, a gente queria dar uma encerrada. Vamos fazer uma paradinha para senhora dar uma descansada. E eu gostaria de saber se a senhora gostou de vir aqui contar sua história.

 

R – Eu gostei muito de vocês, agora eu gostaria de mostrar as fotografias para vocês.

Aí você vê o diretor me dando a medalha.

 

P/1 – Agora vamos conversar sobre as fotos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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