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História

Agricultura orgânica é o futuro

História de: Altamiro de Souza Lima Ferraz Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2021

Sinopse

Em seu relato, Altamiro fala com alegria de sua infância em São Luis, bairro do João Paulo, de sua família materna de origem agrícola e da inspiração de sua avó Eulina para que se dedicasse à agronomia. Conta sobre as agruras do solo maranhense e da família próspera da parte de seu pai, os Souza Lima. Em seguida, fala do futebol de sua rua e do colégio Batista, onde se formou. Depois, nos conta sobre sua formação em Agronomia e sua trajetória acadêmica como professor da UEMA. Altamiro nos conta sobre suas aulas e a construção do seu sítio, que passou da agricultura convencional para a experiência da agricultura orgânica. Altamiro também nos conta da interessante experiência do polo agrícola HortCanaã, onde por anos dá consultoria técnica. Nesse sentido, nos guia nos desafios da transição agroecológica, no prazer de conhecer a cultura tradicional agrícola e poder contribuir para a sua modernização, em especial no Paço do Lumiar.

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História completa

P/1 - Professor, obrigado pela presença. Eu queria perguntar pra começar o seu nome inteiro, o local de nascimento e em que dia. 

 

R -  Meu nome é Altamiro Souza de Lima Ferraz Júnior. Eu nasci em dez de maio de 1957, em São Luís do Maranhão. 

 

P/1 - O senhor nasceu em hospital ou em casa?

 

R - Eu nasci na Maternidade Benedito Leite. Minha mãe disse que eu era o bebê mais bonito….(risos) 

 

P/1 - Ela conta isso mesmo? 

 

R - Conta. 

 

P/1 - Ela contou pra você como foi o seu parto, o dia em que você nasceu? 

 

R - Não, esses detalhes eu não lembro, mas mamãe tinha muito problema de parto. Ela tinha pressão alta e os partos dela eram muito difíceis. Eu sou o terceiro, então ela fez ligação [das trompas] pra não ter mais filho, porque era muito complicado. 

 

P/1 - Você é o caçula. 

 

R -  Sou o caçula. 

 

P/1 - Qual é o nome da sua mãe? 

 

R - Minha mãe é Amância Carvalho de Lima. 

 

P/1 - E os seus avós por parte de mãe?

 

R - Meus avós são Eulina Carvalho de Oliveira Cunha, uma mulher muito forte, muito trabalhadora e meu avô era Irosé Cunha. Minha avó se separou do marido -  naquela época, imagina - e criou as filhas com a agricultura, trabalhando na agricultura de corte e queima na roça. Na minha tese de doutorado eu fiz uma dedicatória pra ela, porque eu trabalhei com sistemas de alternativa à agricultura de corte e queima, que é o principal modelo de agricultura no Estado do Maranhão. 

Ela lutou com muita dificuldade e teve uma hora que ela não conseguiu… Ela colocou as filhas pra estudar em São Luís, na casa dos parentes, que tinham mais condições. Dois se formaram, as outras não se formaram, mas todas trabalharam e seguiram a vida, graças a Deus. 

 

P/1 - Nesse período no roçado, onde a família da sua avó ficava em São Luís?

 

R - Meu bisavô era dono de engenho de cana de açúcar em Cururupu. Hoje você chega lá e só tem a pedra do engenho. Se você comparar com Pernambuco, ainda existem engenhos funcionando em Pernambuco; aqui no Maranhão todos os engenhos de açúcar não funcionam mais, quebraram. Por que quebraram? Porque os solos são muito inférteis, de baixa fertilidade. Tem muito solo arenoso, com baixo teor de nutrientes, então a cana de açúcar… Lá em Pernambuco, por exemplo, a cana dá por quinze anos; aqui não dá, no segundo ano você já não tem mais cana que preste. A viabilidade econômica do engenho não existiu e quebrou. 

Eles partiram de uma situação muito privilegiada economicamente e essa situação decaiu. A geração da minha avó, por exemplo, já sofreu bastante esse problema da quebra… Dessa degradação do solo, degradação de tudo. Foi isso. 

 

P/1 - Ela cresceu então nesse…

 

R - É, e minha mãe me disse que ia pra roça com a minha avó, fazer todas as atividades de roça. Ela diz que era a que tinha menos preguiça das irmãs; elas tinham preguiça, ela não tinha. Minha mãe era muito trabalhadeira, então ela ia com a minha avó e fazia todas aquelas atividades de roça. 

Aqui no Maranhão a gente diz o seguinte: quando o sujeito está numa pior, [ele diz] “eu tô na roça”. A roça maranhense é associada a um esforço, um trabalho muito grande e a um retorno econômico muito baixo, principalmente quando é feita em solo de baixa fertilidade natural. O retorno é menor ainda. 

 

P/1 - Você conheceu a sua avó. 

 

R - Conheci, minha avó morou muito tempo com a gente. Minha avó morreu [quando] eu tinha treze anos de idade. Ela ainda tinha terra lá em Cururupu, o pessoal pagava o foro pra ela e usava, trazia pra paneira… A gente diz aqui paneira, que são trinta quilos de farinha. Eu me lembro do pessoal chegando e pagando essa farinha pra ela, até que ela vendeu as terras que tinha por lá e não quis mais saber de… (risos)

 

P/1 - E o seu avô por parte de mãe?

 

R - Meu avô separou… Minha avó era uma mulher muito difícil, muito brava, então a convivência era muito difícil. Ele viu que a condição lá não estava boa; foi embora pra Uberaba e levou todas, ela e as cinco filhas. E ela, de repente, [disse]: “Eu vou embora, vou voltar pro Cururupu.” E veio embora, com as cinco filhas. É esse “vai na frente que eu não vou”... (risos) Não voltou com elas. Ficou lá, fez outra família e ela, muito orgulhosa, não pedia nada pra ele, cuidava das filhas sozinha. Deu conta, fez a parte dela. 

 

P/1 - Cuidou da sua mãe e das suas tias. 

 

R - Eram cinco mulheres, só teve mulher. Mulher pra trabalhar na roça, imagina, é mais complicado, né? (risos)

 

P/1 - O seu avô, então, você conheceu pouquíssimo. 

R - O meu avô eu não conheci, só de fotografia. Não tive convivência com ele. Mas ele era comerciante, acho que tinha um hotel em Uberaba. Tinha uma condição boa. 

 

P/1 - Por que sua avó quis voltar, então?

 

R - Minha avó dizia que tinha saudade das irmãs, da terra dela, e veio embora. Eu acho que ela gostava muito de agricultura, de roça, dessas coisas. E ela tinha terra, acho que ela não queria perder a terra dela. Tinha muita terra, mas a terra não valia nada naquela época. Era um engenho, imagina um engenho de cana; devia ser coisa de sesmaria, que foi passado pra… Então ela veio embora pra cuidar da terra dela, das irmãs e das filhas aqui. E ele não veio, então ela sofreu.

 

P/1 - E quando ela trocou o engenho, a atividade do engenho, o que elas plantavam e colhiam?

 

R - Roça de subsistência. O maranhense planta o arroz, o milho, os legumes, que aqui são maxixe, abóbora… E a mandioca, pra fazer farinha. Basicamente isso. É interessante, porque eles plantam isso nas áreas mais altas; próximo ao rio eles não plantam porque alaga, então a mandioca morre. Eu até inverto a ordem: no Maranhão não é a mata que preserva o rio, é o rio que preserva a mata. O cara não derruba a mata pra plantar porque alaga e ele não consegue produzir. Isso eu constatei lá. 

Minha avó pediu pra ser enterrada lá. Agora imagina, a minha avó morreu em setenta e poucos - não tinha estrada pra lá, então eu fui levar o corpo de avião monomotor e depois botava o caixão no carro de boi, ia duas horas de carro de boi da cidade pra lá. O lugar que tinha esse engenho, que o pai dela estava enterrado, se chamava Centro Grande, fica a duas horas de carro de boi de Cururupu. Elas foram, as filhas todas levando… Foi uma confusão danada. 

[Em] todo [feriado de] Finados a gente ia pra lá. Minha mãe ia com as irmãs e às vezes a gente ia - não toda vez, mas a minha mãe ia [em] todo [feriado de] Finados. Depois que eu me formei em Agronomia, eu fui e eu [fiquei] olhando… “Essa mata aqui, na beira desse rio… O pessoal não roça essa mata não é por questão de preservação não, é porque não dá pra plantar aqui.” Tanto que o pecuarista desmata tudo, até a beira do rio e o agricultor familiar não, porque não interessa, ele não vai plantar ali. 

Mas é dureza. A vida nessas terras nossas… O Maranhão é o seguinte: você tem quatro meses de muita chuva, chove dois mil milímetros na parte centro-norte, do norte pra cima. E é nessa parte que se concentram os piores solos, de baixa fertilidade. Então você tem muita chuva em quatro meses num ambiente de solo ruim; isso pra agricultura é muito ruim. Eu acredito que essa é uma das causas da nossa pobreza, da pobreza do Estado. E a maior parte da população está concentrada nessa área, então é muito difícil conseguir produção econômica. 

Tem um detalhe: o modelo é de corte e queima. Deixa a mata crescer, derruba, toca fogo, a cinza aduba o solo e aí as culturas crescem. Imagine um cenário de aumento da população e da concentração fundiária - você não tem área, não tem mata pra queimar, então o período de pousio é encurtado. Em vez de deixar quinze, vinte anos a floresta [se] restaurar e restaurar a fertilidade do solo, você deixa dois, três anos, aí não tem capoeira, não tem árvore pra produzir cinza pra adubar o solo. Tem um ciclo de degradação e de acirramento da pobreza, esse sistema. 

A gente, na universidade, trabalha com isso, busca alternativas pra plantar sem tem que queimar, sem ter que mudar de área - a gente chamava ‘parar a roça’. Pra não parar a roça você precisa de adubo, calcário, semente boa, assistência técnica e o nosso agricultor não tem isso. 

 

P/1 - Posso dizer que você puxou essa preocupação do que aconteceu na sua família?       

 

R - Eu acho que foi, mas não foi assim… Talvez intuitivamente, mas eu comecei a… Com doze anos eu decidi que ia ser agrônomo. Tinha um tio que era agrônomo, eu conheci a Faculdade de Agronomia - minha tia cursava Zootecnia lá - e eu disse: “Eu quero fazer isso aí, eu quero ser agrônomo.” 

Eu tive uma influência muito grande do meu pai também. Meu pai era louco por planta - meu pai faleceu em 2019. Ele morava em um sítio aqui próximo e todo sábado ele vinha pro sítio. Dos três filhos, eu sempre ia com ele. Ele queria ser agrônomo, mas dizia que não sabia matemática e na época era [o curso de] Engenharia, então precisava de muita matemática pra entrar. Ele fez Odontologia e aí eu acho até que fiz Agronomia por conta dele. 

Esse foco de trabalhar com alternativas já foi depois da… No meu mestrado eu trabalhei com variedades de arroz, proteína e arroz, mas no doutorado eu já fiz nessa linha de tentar alternativas pra agricultura de corte e queima. Foi uma preocupação que a gente observou depois. 

 

P/1 - Você falou um pouco da sua avó, mas como era a figura dela? Você consegue descrever como ela era, o jeito dela? 

 

R -  A minha avó… Fisicamente? 

 

P/1 - O físico e o jeito dela. 

 

R - Ela devia ter um metro e sessenta e pouco. Morena, os cabelos lisos. E muito brava, eu lembro que ela brigava muito com a gente. A minha mãe trabalhava dois expedientes e era ela que tomava conta da gente, então ela era linha dura. Mas era uma linha dura meio mole - não batia na gente, mas era um carão, como a gente diz aqui, uma bronca dela a gente respeitava muito. Ela era muito zangada, um gênio muito difícil.

 

P/1 - Ela cozinhava pra vocês?

 

R - Ela fazia doce. E brigava muito com meu pai - meu pai também tinha um gênio forte… Ela dizia: “É assim mesmo, quem tem filha toma cachorro por genro”, chamando meu pai de cachorro indiretamente. Mas gostava dele, era aquela coisa: briga, mas gosta. 

Ela ficava mais tempo lá em casa. [Quando] ela se zangava, [ela dizia]: “Eu vou embora pra Belém”, que é [onde fica] a casa da minha outra tia. Brigava com meu pai [e dizia]: “Vou embora pra Belém.” Passava umas duas semanas em Belém, aí ligava pra minha mãe. “Manda minha passagem que eu quero voltar.” (risos)

O que ficou da imagem dela é a severidade. Ela também perdeu a mãe, a mãe morreu no parto dela, então tem tudo isso. Ela foi criada pela irmã mais velha, então tem que dar um desconto, coitada. 

 

P/1 - Vamos passar pra parte da família do seu pai. Como é o nome dos seus avós por parte de pai?

 

R - Meu avô é Adauto de Souza Lima e a minha avó é Elvira de Souza Lima Ferraz. 

Meu Ferraz é todo trocado, era pra ser o Ferraz na frente e o Lima depois, mas meu avô fez a inversão, botou o Ferraz por último porque o dele era mais importante, o Lima. (risos) E eu uso mais o Ferraz.

Meus avós são da Paraíba, de Santa Rita. Fica próximo a João Pessoa.

Meu avô tem uma história de vida muito interessante. Ele era muito pobre, fazia balinha pra vender. Ele começou a comprar açúcar da usina pra fazer as balinhas dele. Ele era muito bom de negócios, um exímio comerciante; o dono da usina passou todo o açúcar da Usina Santa Rita pra ele revender e ele fez uma fortuna, foi um dos homens mais ricos de João Pessoa. 

Ele era tão econômico que tinha coqueiros lá na casa dele… Ele morava de frente pra praia em João Pessoa. Conhece João Pessoa?

 

P/1 - Não conheço.

 

R - Tem uma praia chamada Tambaú e logo depois tem Manaíra. Muito esperto, ele comprou muitos terrenos na praia e tinha um terreno enorme que era a casa dele, bem de frente pro mar. Nas férias a gente ia pra lá e ficava um mês. Até os coqueiros da casa dele, ele vendia os cocos. Pra gente tomar um coco era uma zanga, ele não queria que tomassem. Os netos! A gente tirava escondido pra tomar os cocos dele.  

Ele gostava muito de fazenda. Ele era comerciante, mas chegou a ter umas quatro fazendas. Criava gado, na outra fazenda ele plantava coqueiro e mamão e criava peixe. 

Quando eu comecei a fazer Agronomia, todas as férias a gente ia pra lá e eu ia pra fazenda, passava mais tempo lá, andando a cavalo, olhando as coisas com meu tio. Fui fazer Agronomia lá, estudar em Areia, que ficava a duzentos quilômetros de João Pessoa. 

Eu vinha aos finais de semana pra casa dele. Ele estava reformando a casa;  derrubou toda a casa, mudou pra casa vizinha. Fez uma casa enorme, bonita, a casa dos sonhos dele. Isso em 1985. Eu ia ficar com ele, aí a gente ia pra fazenda olhar os plantios. 

Eu não terminei Agronomia lá, arrumei uma namorada aqui e lá na Paraíba teve duas greves, perdi um semestre por conta de uma greve. O curso de Agronomia lá na Paraíba era em Areia. Areia era uma cidade muito ruim, na serra, fria, úmida. Quando tinha uma assembleia pra decidir greve, os estudantes iam de mala na mão, pra ir embora, não aguentavam. Eu disse: “Vou embora daqui também”, aí consegui transferir pra Belém, terminei minha graduação no Pará. 

Acho que essa veia agronômica eu herdei do meu avô. Ele fazia uns cálculos… “Vou plantar tantos pés de…” Isso na orelha do jornal, ele lia a Folha de São Paulo todo dia. “Tantos pés de mamão, tantos frutos por pé, tantos reais por fruto. Dá pra ganhar um bocado de dinheiro.” Ele plantava o negócio, não dava aquilo que ele esperava… Mas eu acho que foi também dele que eu herdei esse gosto pela agricultura, pela agronomia.

 

P/1 - E a sua avó, a dona Elvira?

 

R - A minha avó era uma pessoa muito doce com a gente, mas ela tinha um problema: era bipolar. Tinha férias que a gente ia e ela estava toda ruinzinha, cheia de medicamentos. E tinha férias que a gente ia que ela estava o oposto: doidona, falando muito, brigando com o meu avô. Era a parte dos altos e baixos. Mas era uma pessoa muito boa de coração.

Ela faleceu antes que ele. Meu avô se cuidava muito, ele dizia: “Vou chegar aos cem anos com saúde.” Ele andava todo dia na praia. Pra acompanhar ele era difícil; eu andava com ele, ele tinha uma passadona… 

Ela faleceu e não demorou muito ele faleceu também, porque ele cuidava dela. Botava ela pra tomar sol, tirava do sol, então não demorou muito. Faleceu com 93 anos. 

 

P/1 - Faz quanto tempo?

 

R - Meu avô faleceu em 98, por aí. 

 

P/1 - Ele era um homem que deve ter visto muita coisa, então. Noventa e três anos…

 

R - É, ele tinha muita experiência de vida. Ele contava as histórias que ia a cavalo de… Ele era do interior da Paraíba, de Mamanguape, e ia pra João Pessoa a cavalo. Ele contava muita história. São interessantes esses opostos. Ele dizia: “Eu só tenho medo de encontrar gente viva, morto não tenho medo nenhum de encontrar. Morto não faz mal pra ninguém.” (risos) E a minha avó materna contava muita história de ‘visagem’ - chamam alma [de] ‘visagem’ lá na Soledade. São dois opostos, meu avô não queria nem saber disso. 

 

P/1 - E que histórias de visagem ela contou? Você pode contar pra mim alguma história? 

 

R - Minha avó disse que tinha um lugar lá que toda vez que o irmão dela passava no cavalo… O engenho era na Soledade e tinha um lugar lá chamado Cacilhas. Esses nomes vêm de Portugal, tem cidade em Portugal com o nome de Cacilhas, então os portugueses colocaram esse nome. Ele dizia que vinha de Cacilhas pra Soledade e tinha um lugar que ele passava que o cavalo começava a [se] agitar. Ele ouvia uma voz: “Me perdoa, meu pai! Me perdoa!” 

Teve um dia que ele se zangou [e disse]: “Tá perdoado, desgraçado!” Aí a voz parou, nunca mais… (risos)

Tinha várias histórias, que eu não me lembro mais. É muito interessante. 

 

P/1 - Seu avô… Isso me chamou a atenção: por que ele lia a Folha de São Paulo?

 

R - Pois é, ele não lia o jornal de João Pessoa. Ele tinha negócios em São Paulo, trazia caminhão de… Ele tinha tipo um armazém de secos e molhados em uma cidadezinha chamada Guarabira. 

Eu tinha um tio que morava em São Paulo. Esse tio, marido da minha tia, comprava charque e mandava pra vender na Paraíba. Ele ia muito a São Paulo, comprava coisas do pessoal lá pra vender em João Pessoa, então ele tinha uma ligação muito forte com São Paulo. E ele só lia a Folha de São Paulo. (risos)  Eu lembro bem dele sentado na cadeira todo dia com o jornal.

P/1 - Agora, qual o nome do seu pai?

 

R - Meu pai também é Altamiro, Altamiro Souza de Lima Ferraz. 

Meu pai era irmão mais velho da família e ia ser padre. Naquela época, o primeiro filho ia ser padre. Ele estudou seis meses num seminário, mas aí largou; ele não disse direito porque, só disse: “Eu larguei.” Às vezes dizia que era por causa de mamãe, mas nem conhecia mamãe na época, é só história dele. 

Meu pai era muito estudioso. Ele fez o vestibular pra Odontologia e meu avô brigou com ele. “Rapaz, por que você foi fazer esse negócio? Devia ter feito Medicina.” Ele disse: “Tá, pai, então é o seguinte: eu não vou fazer. Vou trabalhar com o senhor, vou ser comerciante.” Aí veio pra cá, pro Maranhão. 

Montaram um negócio aqui de venda de álcool e açúcar na Rua da Estrela, lá naquele centro histórico. Eu me lembro bem desse armazém, a gente ia pra lá. Meu avô mandava o açúcar e o álcool e ele vendia aqui, só que meu pai era um péssimo comerciante, totalmente o contrário do meu avô, não sabia… Acho que ele dava os negócios pros pobres. Aí eu sei que o negócio quebrou. 

Meu avô contava isso com uma raiva… “Rapaz, teu pai era pra ser um dos homens mais ricos do Maranhão e jogou os negócios lá fora, não foi pra frente.” 

Meu pai já estava casado com a minha mãe, já tinha a gente e queria voltar pra João Pessoa. “Vou voltar pra casa de papai, lá eu faço alguma coisa.” Minha mãe disse assim: “Rapaz, você não tem um negócio de Odontologia, um curso que começou a fazer? Você vai terminar o seu curso e a gente vai trabalhar aqui.”

Não sei, ele conseguiu transferir [o curso] pra cá, conseguiu terminar Odontologia aqui e minha mãe já trabalhava, desde os dezessete anos trabalhava no INSS. Naquela época, um político arrumou emprego pra ela, ela entrou e ficou a vida toda.

 

P/1 - No serviço público.

 

R - Serviço público. 

Ela disse: “Pra casa do seu pai eu não vou não. Nós vamos ficar aqui.” Aí [ela] segurou, ele [se] formou e foi trabalhar como dentista. Ele ficou por aqui. 

Meu pai era muito trabalhador. Ele saía… Tinha uns negócios lá em Icatu, um município… Na época não tinha estrada, tinha que atravessar a baía; ele pegava essa lancha, trabalhava a semana toda. No fim de semana ia pra lá trabalhar. 

A imagem que ficou dele é que ele não tinha hora pra trabalhar. Tinha muitos clientes. E gostava muito de agricultura. 

Ele [se] aposentou e… Eu me formei, comecei a trabalhar; comprei um sítio em 97 aqui em São Luís, eu e meu irmão. Um sítio de uns dezoito hectares, um sítio até [que] grande, e eu disse: “Pai, bora trabalhar lá comigo.” Ele ainda estava trabalhando como chefe do Hospital do Pam Diamante, na odontologia. “Quanto é que o senhor ganha lá? Rapaz, é muito ruim, o senhor está pagando pra trabalhar.” Ganhava quinhentos reais pra chefia. “Vamos trabalhar lá no sítio, o senhor gosta disso.” 

Ele saiu de lá. Ele já estava aposentado como dentista, de lá e do consultório dele; estava com essa chefia só pra ir lá de manhã e ficar lá, administrando. Aí ele começou, ia lá pro sítio. Eu criei uma empresa com ele e a gente começou a produzir, certificou como orgânico - tem várias reportagens, tem um programa aqui de agricultura da TV Globo, TV Mirante. 

Teve uma hora que ele disse: “Rapaz, esse negócio só está te dando prejuízo. Vamos parar com isso, vamos voltar do jeito que a gente plantava, com veneno. Eu disse: “Pai, esse orgânico lhe deixou famoso, o senhor saiu na televisão.” (risos) É muito engraçado. 

Depois ele adoeceu, teve um câncer de próstata que ele descobriu. Ele descobriu só depois de oito anos; quando foi operar, o câncer já tinha saído da próstata, tinha dado metástase. Quando acontece isso, não tem mais o que fazer. Tem uns remédios que vão inibindo a proliferação das células cancerígenas, mas tem uma hora que elas conseguem outro caminho pra se alimentar e atacam osso… Ele faleceu quando elas alcançaram a medula óssea dele e não conseguia produzir plaquetas. Não resistiu. 

Depois que ele faleceu, eu parei de ir lá no sítio, não tinha mais aquela… Ele faleceu em 2019. Mas depois a gente foi retomando. 

 

P/1 - Você sabe como ele conheceu a sua mãe?

 

R - Eles moravam no mesmo pensionato - era pensionato que chamava. Não tinha hotel, era uma casa [em] que moravam as pessoas que vinham de fora estudar, trabalhar.

 

P/1 - Aqui em São Luís?

 

R - Aqui em São Luís. 

Casaram e tiveram os três filhos. 

 

P/1 - Conte pra mim como foi essa coisa da sua avó mandar as filhas pra estudar. De onde veio essa ideia?

 

R - Isso foi o seguinte: a minha tia mais velha, Cândida, foi morar em Belém, na casa de algum parente, pra terminar o ensino porque no interior não tinha escola. Então ela foi pra fazer o ensino que hoje é o Científico e fazer a faculdade. Depois ela levou a minha tia Gracinha, ela também se formou em Enfermagem. 

A minha mãe veio pra cá, mas já veio trabalhar, não veio só estudar. Ela pensava o seguinte: “Eu preciso trabalhar pra ajudar a mais nova” - minha outra tia, a tia Nazaré. Ela começou a trabalhar com dezessete anos e estudar, mas ela dizia que meu pai não deixava ela fazer o vestibular. Meu pai era machista. Ela trabalhava, mas acho que ele não queria que ela fizesse faculdade, porque todo ano… O vestibular normalmente era no início de janeiro; ele levava todo mundo pra João Pessoa. A gente ia logo antes do Natal, passava o Natal e o Reveillon na casa do meu avô e ficava um mês lá, então ela dizia que não conseguia fazer o vestibular.

Acho que ela também se acomodou, né? Trabalhando…

 

P/1 - Ela queria fazer o que, você sabe?

 

R - Acho que ela queria fazer Direito. E se ela tivesse feito Direito, ela teria sido auditora fiscal do INSS. Como ela não tinha nível superior, ela tinha uma chefia de… Ela chegou a um cargo de nível médio. E ela tinha essa coisa: “Poxa, eu podia ter feito e não fiz.” Mas a ideia da minha avó era essa: como a condição lá estava ruim e não tinha onde as filhas estudarem também, ela mandou… A minha outra tia, por exemplo, ficou na casa do tio da minha avó, que tinha muita condição - era agrônomo, chefe do Ministério da Agricultura, do senhor Demóstenes. 

A minha mãe ficou na casa do Viegas, o Niomar, que também... Era o Carvalho Neto, que também tinha condição, então ela morava lá, só que ela não era hóspede, ela trabalhava na casa. Era parente, mas lavava louça, cozinhava, fazia as coisas de empregada doméstica. Ela tentava conciliar os estudos, até que conseguiu esse emprego, aí ela saiu da casa dos parentes pra morar no pensionato e conheceu meu pai.

 

P/1 - Eles eram novos?

 

R - Eram novos. Meu pai, quando casou, tinha 26 anos. 

 

P/1 - Quem veio primeiro de filho?

 

R - Foi o meu irmão Adauto. Aí casa um ano, um atrás do outro - 1955,54,53.

 

P/1 - Então é o Adauto…

 

R - Adauto, Fernando e eu. Todos os três são professores: o Adauto é professor da UFMA [Universidade Federal do Maranhão], o Fernando é professor do IFMA [Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão] e eu sou professor da UEMA [Universidade Estadual do Maranhão]. 

Os dois são engenheiros eletricistas; eles dizem que eu não sou porque eu meti uma tesoura na tomada e peguei uma surra quando era pequeno. (risos) Mas não é isso não, é porque eu gostava mesmo era de Agronomia. 

 

P/1 - Eles se formaram em Engenharia Elétrica?

 

R - Os dois. O mais velho não quis fazer mestrado, nem doutorado, mas o do meio fez doutorado. Eu também fiz. Mas esse meu irmão mais velho tinha uma empresa muito grande, prestava serviço para várias… Ele dava aula também, mas não tinha muito tempo pra fazer pós-graduação. 

 

P/1 - Quando você nasceu, você se lembra de qual foi a primeira casa que  moraram?

 

R - Eu me lembro já da gente morando no [bairro] João Paulo, não me lembro de outro lugar. Lá a gente morou até os meus dezesseis anos. Era atrás do nosso colégio - tinha o Colégio Batista, onde a gente estudou, e uma quadra depois era a nossa casa. A gente ia a pé pro colégio, era muito bom. 

A gente era moleque de rua mesmo, naquela época a molecada brincava na rua. Era muito bom, não tinha violência, não tinha nada. A gente não ouvia falar em assalto, era muito tranquilo.

 

P/1 - Vocês brincavam de quê?

 

R - A gente brincava de chutar lata, tinha ‘preto fugido’... Era muito boa a curriola lá da rua. A gente se encontra aí pela rua, conversa, lembra dos tempos de moleque. Empinava pipa, jogava bola no asfalto quente. De manhã, até dez anos; de onze pra frente, só tinha à tarde lá no colégio. A gente jogava bola às onze e meia, no asfalto; as cabeças dos dedos eram todas comidas de chutar asfalto. (risos) 

[Pra] esse negócio de jogar bola o sujeito tem que ter talento, tanto que eu joguei e não aprendi a jogar. (risos) Tem que ter o jeito, a genética, porque não é pra todo mundo. (risos) 

 

P/1 - Nesse lugar, era um apartamento ou uma casa?

 

R - Uma casa. Rua Dois, casa três. Depois, [quando] eu já tinha dezesseis anos, a gente mudou pro sítio do meu pai, que é próximo daqui. Até casar, a gente morou lá com ele. 

 

P/1 - Como era o dia a dia nessa casa? 

 

R - Lá no João Paulo? A gente era muito unido. Eram três quartos só para os três [irmãos], a gente quase não brigava. A gente era tão unido que banhava junto, os três. 

Depois que a gente mudou, tinha um quarto pra cada [e] dormiam os três num quarto. Tinha aquelas briguinhas bestas, mas era tranquilo.

 

P/1 - Vocês tinham rádio, TV em casa nessa época?

 

R - Tinha TV preto e branco. Depois chegou a TV colorida, era uma festa, um negócio diferente. Minha avó ouvia muita novela em rádio, eu lembro dela ouvindo as novelas, mas eu não gostava de ouvir rádio. Nem música eu gostava muito de ouvir. Meu irmão gostava, meu pai comprou uma daquelas radiolas antigas e meu irmão comprava aqueles discos de vinil, daqueles roqueiros… Kiss, não sei o que… Eu nem ligava. Ele gostava muito desses rocks. 

 

P/1 - E vocês tinham muitos amigos na rua?

 

R - Tinha, nossa curriola lá era grande. Tinha vizinho de frente, vizinho do lado, era muito legal. 

 

P/1 - Vocês tinham time?

 

R - A gente jogava na hora. Sorteava, dividia os times. Era engraçado quando você joga assim: saíam dois, os melhores, pra formar os times, aí eles saíam chamando. A gente sempre ficava por último, os piores ficam por último. (risos) Era assim que [se] fazia. 

 

P/1 - Além disso, vocês torciam pra algum time daqui do Maranhão?

 

R - A gente tinha… Era muito legal, campeonato de botão. Todo mundo tinha um time e os torneios eram lá em casa. Tinha um quarto lá atrás; a gente tinha um estrelão, aquele campo de futebol de botão, e era campeonato, tinha chave, sorteio, os jogos. Era muito legal. Normalmente, a gente torcia pelo time… Eu torcia pelo Corinthians, meu irmão mais velho era Fluminense, o do meio era Flamengo. Cada um tinha um time e começou a torcer. 

Eu não acompanhava futebol. Só torcia pelo Corinthians porque o meu time de botão era Corinthians, mas nem ligava pra futebol. Só assistia jogo de Copa, do Brasil, nunca fui… 

Eu digo assim: tem coisa que se dependesse de mim, era tudo pobre. Jogador de futebol era um, cantor sertanejo era outro… 

Eu fui ao campo duas vezes assistir jogo. No primeiro, o meu time levou. Pra eu ir a um campo assistir um jogo de futebol, _________ Campeonato Brasileiro, eu não assisto. Só assisto à Copa do Mundo. 

Eu jogo handebol. Desde os onze anos, quando eu entrei no colégio… Passa pra quinta série e tem que definir um esporte. Eu comecei a jogar handebol, joguei três anos aqui pela seleção maranhense, no campeonato brasileiro. Joguei quatro campeonatos. E hoje a gente tem um time master, Master 42 mais. Em 2019, a gente foi vice-campeão no Nordeste. É um lazer, então eu não ligo muito pra futebol.

 

P/1 - Como foi a sua primeira escola?

 

R - Minha primeira escola foi um jardim de infância chamado Pituchinha. Era lá no centro. Eu chorava, porque meu pai me deixava lá pra ir buscar depois e tinha uma coleguinha minha que era terrorista. Ela dizia assim: “Teu pai não vem te buscar hoje.” Eu me danava a chorar. Meu pai chegava lá, eu estava chorando. (risos)

Estudei [lá] com quatro anos, porque na época a gente começava a estudar com quatro anos. Com cinco anos, eu entrei no Colégio Batista, aí fui até o terceiro do Científico, como a gente chamava, que é o segundo grau. De lá, já fui pra faculdade. 

 

P/1 - Como é essa escola? 

 

R - O Batista era uma escola muito boa na época. Tinha Batista e Marista, eram os principais colégios. Tinha um diretor muito bom - escola é direção, né? - o professor Emílio. Ele era diretor de disciplina, então ele botava todo mundo [na linha]. A gente cantava o hino em pé, num sol quente de uma hora, antes de entrar na sala, todo santo dia. E ele ficava olhando na fila quem estava fora da fila, quem estava conversando. Ele chegava e chamava a atenção. Todo mundo tinha medo dele, ele era muito rigoroso na disciplina. 

Enquanto ele esteve à frente, o colégio era excelente. Depois foi… Meu filho chegou a estudar lá, mas não estava mais do jeito que era na época da gente. O Batista era um colégio muito bom. 

 

P/1 - Você pode me descrever um pouco como ele é?

 

R - O Batista? A unidade [em] que a gente estudava era no João Paulo. É grande, ele ocupa uns três quarteirões. Tinha um campo de futebol, tinha uma quadra em que a gente treinava os esportes coletivos - quadra de vôlei, uma quadra de basquete. Tinha um pátio de recreio e o resto [era] tudo sala, tinha uns dois andares de salas. Tinha um pátio no meio. Era muito legal.

 

P/1 - As salas eram grandes? 

 

R - Eram, na minha turma de ensino médio a gente tinha 55 alunos, no último ano. Eram bastante grandes. 

Os professores eram bons, a maioria eram professores de universidade que davam aula pra gente, o professor de eletricidade… Eram bons mesmo.

 

(PAUSA)

 

P/1 - Naquela época o currículo era diferente de hoje. Você pode contar como era? 

 

R - Eu comparo com o dos meus filhos. Acho que a gente estudava menos coisas que eles. Hoje eles têm uma grade muito maior. 

Eu sei que a nossa formação no Batista era muito boa. Quando eu entrei na universidade em Areia eu não tive nenhuma dificuldade com Matemática, com Química - pelo contrário, eu achava mais fraco que no meu colégio. [Eu pensava:] “Lá no Batista eu estudei muito melhor que isso aqui.” 

Naquela época também tinha aquelas matérias: OSPB [Organização Social e Política do Brasil], Educação Moral e Cívica. Era a ditadura, o governo militar, então você ainda tinha essas disciplinas. Depois de Educação Moral e Cívica, virou OSPB. Mas as outras matérias eram muito boas. Matemática, Física, os professores eram bons. 

Tive só um problema com um professor de Matemática porque ele era muito confuso, mas foi tranquilo. A gente teve um professor de Português muito bom, o professor Furtado - é um daqueles professores que te marcam. O Furtado chegava um dia e dizia assim: “Vamos fazer um ditado, valendo ponto pra prova. Puxa um papel aí, botem o nome de vocês e bora lá. Dostoiévski...” (risos) Tinha que escrever Dostoiévski, era desse jeito. (risos) Muito engraçado. 

Muito culto, ele, muito bom. Era professor da UFMA. Ele fez concurso pra UFMA pra ensinar grego. Um tempo depois, eu encontrei com ele e perguntei: “Ei, professor, como que está lá?” Ele respondeu: “Não, larguei aquele negócio. Uma fofocada, tem que puxar saco de não sei quem…” Largou a UFMA e foi montar um curso de redação pra ele. (risos)

                         

P/1 - Teve mais algum professor que o marcou?

 

R - Teve o professor Furtado… Ele é o que a gente tem mais lembrança forte. Ele era muito diferente. 

Uma vez ele passou um trabalho… Olha esse trabalho que ele passou pra gente. Ele se zangou com a nossa turma porque tinha uma colega nossa que era muito metida, porque tinha morado nos Estados Unidos, falava inglês fluente, não sei o quê. Ele pegou raiva da nossa turma e passou um trabalho assim: “Eu quero que vocês peguem um livro do Machado de Assis” - não sei se foi o Dom Casmurro - “e quero que vocês coloquem num papel todas as concordâncias verbais, todas as concordâncias nominais” - aquela parte toda da gramática - “e me entreguem por escrito.” 

Rapaz, minha turma se revoltou. “Nós não vamos fazer esse trabalho. Um absurdo, é muita coisa.” Fomos ao diretor. Tinha o diretor da escola e tinha o professor Emílio, que era o diretor….

 

P/1 - Pedagógico.

 

R - Isso, e tinha o chefão da escola, que era o professor Figueiredo. A gente foi lá. 

O professor Figueiredo mandou chamar o professor Furtado. Disse: “Professor Furtado, nesses anos todos que o senhor está na nossa escola, eu nunca lhe pedi nada. Eu queria pedir que o senhor trocasse esse trabalho, passasse outro trabalho.” Ele disse: “Professor Figueiredo, eu também nunca lhe neguei nada, mas o trabalho está mantido.” (risos)

Aquilo foi muito interessante, rapaz. Como é que se tem uma firmeza desse tanto? A gente teve que fazer o trabalho dele e foi bom demais ler Machado de Assis. As concordâncias de Machado de Assis ajudam a escrever pelo resto da vida, né? (risos)

 

P/1 - Vocês fizeram do livro todo? 

 

R - Fizemos o livro todo, não teve jeito. (risos)               

                                                   

P/1 - Em quanto tempo? Vocês tiveram que sair correndo pra fazer isso. 

 

R - Muita coisa. A gente teve que fazer, porque ele não abriu mão. Eu achei aquilo interessante; o chefão ele podia demiti-lo, mas não, “o trabalho está mantido.” 

 

P/1 - Nesse período, você era um bom aluno? 

 

R - Lá em casa era o seguinte, papai dizia bem claramente: “Não tenho nada pra deixar pra vocês. O que eu posso fazer por vocês é pagar um colégio bom e vocês têm que se virar.” E ele ameaçava da seguinte forma: “Quem não passar por média não viaja comigo no final do ano.” O que a gente mais gostava na vida era dessa viagem, aí ninguém se atrevia a não passar. A gente se danava pra estudar e não tinha pra onde correr. (risos) Mas todos os três ganhavam prêmio na escola, ganhavam medalha de bom aluno, essas coisas. Sempre estavam no meio dos bons alunos.

 

P/1 - Vocês viajavam muito pra onde? 

 

R - A gente ia pra João Pessoa, pra casa do meu avô. Agora imagina: daqui a João Pessoa são 1700 quilômetros. Iam meu pai minha mãe, eu, Fernando, Adauto e mais Juju - a minha babá, vamos dizer assim. Juju, quando eu nasci, veio pra cuidar, pra ajudar mamãe. 

Naquela época, o pessoal tinha essa coisa de trazer… As pessoas não tinham condição no interior e traziam pra cá, botavam pra trabalhar em casas e estudar. Juju se formou professora, ela tem magistério.  

Viajávamos nós seis num Fusca sem ar condicionado. 1700 quilômetros, com papai andando a oitenta por hora. Imagina como eram essas estradas naquela época. 

Era uma aventura, essa viagem pra João Pessoa. A gente passava dois dias viajando. A gente normalmente dormia em Tianguá, que é friozinho, é serra, lá no Ceará, e no outro dia chegava em João Pessoa. 

Todo ano tinha essa viagem e a gente ficava contando os dias. Era a arma que ele usava: “Se não passar por média, não viaja comigo.” (risos)  

 

P/1 -  Conte pra mim como era essa viagem. Vocês acordavam a que horas?

 

R -  A gente acordava de madrugada, saía às três, quatro horas da manhã e ia nesse Fusca. Às vezes a gente brigava… Tem uma cena muito interessante: minha avó não tinha o que fazer, deu uma caixa daqueles [chicletes] Ploc pra gente. A gente ia mastigando o Ploc. Meu irmão mais velho, muito danado, pegou uma maçaroca de Ploc e tacou no meu cabelo. 

Papai parou o carro. Ele viajava com uma frasqueira e inclusive com um revólver dentro dessa frasqueira. Ele tirou uma tesoura, levantou o meu cabelo assim e meteu a tesoura. E meu irmão, do lado, ficou rindo. Ele pegou: “Vem cá”, pegou o cabelo dele também e cortou do mesmo jeito. (risos) 

Aquilo enfadava, criança… Já pensou passar doze horas num carro apertado, suando, porque não tinha ar condicionado… Era enfadonho, aí a gente tinha aqueles momentos. Mas papai não alisava, ele botava ordem na casa. 

 

P/1 - Era seu pai e sua mãe na frente?

 

R - Era. Quando eu era menorzinho, eu ia com a minha mãe, ficava no banco junto com ela. Um dia, eu fui passar a marcha; ele bateu na minha mão porque eu passei a marcha antes da hora. 

Eu ia com ela na frente e os três atrás, mas eu fui crescendo, tinha que ir pra trás. Mas era bom demais.

 

P/1 - E a Juju atrás também.

 

R - Juju com a gente. Quando a gente cresceu mais, Juju passou a ir de ônibus e nós três íamos atrás, no carro. (risos)

 

P/1 - Esse Fusca tinha um nome?

 

R - Não. Papai teve uns três Fuscas. Depois ele comprou um Corcel, na época, aí era mais folgadinho - Corcel I, depois Corcel II. Ele comprou um Passat também, quando lançaram ele comprou - um Passat novinho, 78, eu acho. A gente foi nesse Passat também, uma vez. 

 

P/1 - Você achava bonita ou enfadonha a vista?

 

R - Era muito bonita. A gente passava pela Serra de Tianguá. Não sei se você conhece. São dez quilômetros de subida, é muito bonita a paisagem. Aí a gente ia lembrando das coisas que estudava no colégio - a vegetação, cocais, caatinga. A gente aprendia muito na estrada; conversando, o papai ensinava coisas pra gente, mostrava como era. Era muito bom, aquilo. 

 

P/1 - Vocês dormiam nessa serra.

 

R - A gente tentava ajustar a viagem pra dormir nessa serra porque era friozinho e ele tinha um amigo lá que tinha um hotel, o seu Antão. A gente dormia no hotel do seu Antão. Eu me lembro bem, a gente pegava na cama à noite e estava friozinho, porque era serra. 

Às vezes, a gente ia pelo sertão. Tem dois caminhos pra ir pra João Pessoa: você pode ir pela Serra de Tianguá, vai por Fortaleza, ou você pode ir por Pico, vai pelo sertão e entra por Cajazeira, entra no sertão brabo mesmo, na Paraíba. É um pouco mais perto, mas a viagem por Fortaleza é mais tranquila - as cidades são melhores, pra parar pra almoçar é melhor. Mamãe levava uma galinha frita pra não parar pra almoçar e às vezes não tinha onde parar pra almoçar, um restaurante. Hoje é difícil, imagine naquela época, quarenta anos atrás. Não tinha nada, mesmo. 

 

P/1 - Vocês foram crescendo… Com doze, treze anos você decidiu ser agrônomo. 

 

R - Sim. Eu conheci a faculdade de Areia, queria estudar lá porque era muito bonita.

 

P/1 - Quem te levou lá?

R - Minha tia era zootecnista e estudava lá, na época. Eu fui com ela e olhei aquele pessoal de botas, trabalhando com uns cavalos bonitos que eles criavam. Eu disse: “Rapaz, eu quero mexer com isso aqui. Vou estudar nessa faculdade.” Aí pronto, fui fazer o vestibular, passei e fiquei estudando lá. Depois eu me transferi pro Pará. 

 

P/1 - Você se mudou pra Paraíba com dezesseis, dezessete?

 

R - Dezessete, depois fiz dezoito quando entrei na faculdade. Com dezessete, a gente morava num alojamento lá. Teve dois aqui do Maranhão que foram: a Vera, que estudava comigo no Batista, e o Leo, que era do Marista. O alojamento eu dividia com o Leo. Lá era separado o alojamento feminino, a Vera também arrumou umas colegas pra dividir o alojamento.

A cidade é muito ruim, você não tinha muito o que fazer lá. A cidade ficava a dois quilômetros da universidade, então às quartas e sábados subia um ônibus com os estudantes, pra comprar coisas no supermercado… E depois descia à meia-noite. A gente ia nesse ônibus e bebia lá, comprava as coisas, depois voltava. Só tinha isso pra fazer na cidade: beber e voltar. 

 

P/1 - Nesse época, você já tinha tido alguma namorada? 

 

R - Eu tinha uma namorada no colégio. Namorei com ela oito meses, mas a gente já tinha terminado. Quando eu fui pra lá, eu não tinha mais namorada. Comecei a namorar com a minha esposa no carnaval de 86, quando eu estava no segundo ano de faculdade. 

 

P/1 - Aqui em São Luís.

 

R - Aqui em São Luís. 

 

P/1 - Você voltou pro carnaval. 

 

R - Voltei e fiquei namorando à distância. Naquela época era só telefone, eu ficava ligando pra ela. Depois eu vim pro Pará pra ficar mais perto dela, além do problema da faculdade. Pará era beleza, [quando] tinha um feriadão eu vinha embora, são só doze horas de viagem. Ficava aqui, depois voltava. Aí eu terminei [me] formando no Pará. 

 

P/1 - Como é o carnaval de São Luís?

 

R - O carnaval daqui era muito bom. Quando a gente era adolescente, tinha aqui dois clubes bons, o Jaguarema e o Lita. Tinha o carnaval nos clubes, os bailes iam até três horas da manhã. Muito bom mesmo, a gente encontrava todo mundo do colégio. E tinha o carnaval da rua, você descia a rua jogando maisena, água… Era muito legal. Tinha aquelas brigazinhas, mas ninguém andava armado, não tinha problema de assalto, essas coisas. 

A gente brincava o carnaval. Depois você casa e o carnaval vai ficando meio sem graça. (risos)

 

P/1 - Qual o nome da sua esposa? 

 

R - Patrícia. A gente começou a namorar em 86, casou em 94. Tem dois filhos, Ian e a Ilana, estamos juntos até hoje. 

 

P/1 - Você a conheceu no carnaval de rua?

 

R - Na verdade, meu irmão namorava com a irmã mais velha dela. Eu já a conhecia. A gente tinha amizade, mas nesse carnaval a gente começou a namorar e ficamos namorando até casar.

 

P/1 - Você se mudou pra Belém do Pará. Você já tinha ido lá?

 

R - Já, mas eu não conhecia a faculdade. Eu tinha ido com dez anos. 

Um primo da minha mãe, que é agrônomo também, ele conseguia a transferência. Ele me dizia: “Lá é muito bom, você vai gostar.” E realmente, a faculdade lá é boa. 

Foi bom eu ter ido pra lá porque o ambiente parece mais com o nosso do que o ambiente lá da Paraíba. Acho que foi melhor pra minha formação, me formei mais próximo daqui. 

Agronomia é diferente de Engenharia Elétrica - eletricidade é igual em todo lugar, mas Agronomia não. Tem solo, tem clima, então é bem diferente. Ficou melhor pra gente entender as coisas. 

 

P/1 - Como eram São Luís e Belém do Pará nessa época?

 

R - Belém era uma cidade maior, mas não tinha violência. Eu ia pra faculdade de ônibus, descia e ia andando pra casa. Meu primo foi assaltado assim: levaram o relógio dele. Já tinha uns trombadinhas lá, mas era coisa boba, não era como é hoje.

Eu estive lá pra fazer um curso em 2005. Rapaz, o negócio já estava muito violento - assalto em ônibus, essas coisas que na época a gente não tinha. 

[Belém] era bem maior que São Luís. Não tem praia, o ruim de Belém é isso e aí você estranha. Mas tinha muitos bares, festas à noite; a vida noturna de lá era bem melhor que aqui, mais agitada. Era um pouquinho mais violenta. 

 

P/1 - São Luís era menor, então. 

 

R - Era menor. A vantagem de São Luís é a praia, mas tinha menos opções pra sair à noite, era mais tranquila.

 

P/1 - Contaram pra mim que aqui você tem o centro velho e o novo. 

 

R - Você tem a cidade velha, que é ali em torno da Praia Grande, onde a cidade surgiu, praticamente. Não sei se você já foi lá no Palácio dos Leões; ali era um forte. Tem os dois rios, o Rio Bacanga e o Rio Anil; fizeram um forte no meio dos dois rios, pra defender a cidade dos invasores. 

A cidade surgiu ali, na Praia Grande. Tinha um porto e dali foi expandindo. A parte nova é o Calhau, o Renascença, do outro lado da ponte. É a parte mais bonita, mais moderna. 

O centro é meio maltratado, o pessoal não cuida direito. Estavam até fazendo uma licitação dos casarões pra iniciativa privada pegar e administrar. E isso vai piorar, porque estão fazendo um aeroporto em Barreirinhas, então o turista que vai pra Barreirinhas não vai nem passar por aqui. Ele vai descer direto lá, vai pros lençóis e não vai vir aqui. Antes ele ainda vinha pelo aeroporto, descia, dava uma voltinha pelo centro e depois ia pra Barreirinhas. Então acho que isso vai piorar o turismo no nosso centro histórico. 

 

P/1 -Você se formou… Quantos anos você fez em Belém?

 

R - Em Belém foram quatro, mais ou menos quatro e meio. Eu perdi um semestre nessa brincadeira. Entrei em 85, saí em 90; era pra ter saído em 89. Perdi mais ou menos um semestre, um ano, nessa transferência. 

Foi assim: perdi um semestre numa greve e um semestre na transferência.

Fiz trinta anos de formado agora, em 29 de setembro. O tempo voa. 

 

P/1 - Como era a Agronomia no Pará, os professores?

 

R - Tive bons professores. Tinha o professor Gazel, que dava aula de Culturas - arroz milho… Ele era produtor também e tinha uma área experimental dentro da faculdade. 

A faculdade lá tem uma coisa que eu até implantei aqui, na minha disciplina. Você tinha duas notas teóricas, de dissertar, e uma nota era prática. A gente fazia um trabalho prático pra poder apresentar e normalmente era um experimento. A gente fazia nessa área lá. 

Eu me lembro que a gente fez com arroz; colhemos em várias épocas pra determinar a umidade, ver o efeito dessa umidade no rendimento de grãos. A gente fez uns trabalhos interessantes lá. 

Eu adoto a mesma coisa aqui, num semestre normal eu faço duas provas e um trabalho prático pra terceira nota. Lá isso era obrigatório. 

Teve professores das outras culturas. A professora de Nutrição de Plantas, fui monitor dela e acabei fazendo pós-graduação também nessa área. 

A área de Solos eu sempre gostei muito. Eu fui estagiário do laboratório de Solos, estagiário voluntário; depois fiz um concurso pra monitoria, passei. Era rico, tinha um talão de cheque, recebia salário pra ser monitor. Minha mãe ainda mandava um dinheirinho, então foi a fase mais rica da minha vida, eu tinha dinheiro sobrando. (risos)

Era legal. A faculdade tinha uma biblioteca boa. Eu passava o dia na faculdade, almoçava lá, ia à biblioteca. 

Tinha muita parte prática. Chegando lá, tinha as culturas: um plantio de café, um plantio de pimenta-do-reino. Quando não tinha cultura, o professor levava um vaso com uma planta, plantada no algodão pra gente ver. Foi uma formação muito boa. 

 

P/1 - Daí surgiu o interesse em fazer mestrado, doutorado?

 

R - Assim que eu [me] formei, não teve emprego fácil. Aí eu pensei: vou fazer mestrado. 

A minha mãe tem um primo de segundo grau, o professor Manlio [Silvestre Fernandes]. Ele é professor lá na rural do Rio e deu uma aula aqui no curso de Ciências Biológicas da UFMA, deu parte do curso. Uma vizinha minha foi aluna dele. 

Eu fui falar com ele e ele disse: “Rapaz, faz o mestrado lá comigo.” Na época não tinha prova, era só o currículo. Era primo da  minha mãe, então me aceitou lá como orientando. Depois que eu terminei, ele disse assim pra mim: “Olha, eu não estava mais aceitando estudantes do Maranhão, porque me deu muito trabalho. Não queriam estudar”, não sei o quê. (risos)

Fiz o mestrado lá com ele na área de Nutrição, de aumento de proteína bruta em grão de arroz com variedade nativa. A gente publicou os trabalhos e depois eu fiz o doutorado, só que eu fiz assim: “Eu não vou fazer o experimento aí, vou fazer aqui no Maranhão.” Só fiz os créditos lá, o experimento eu fiz aqui na universidade, porque eu já tinha meu laboratório, tinha alunos pra ajudar nas coletas. Fui pra lá defender a tese. 

Foi muito bom, tenho uma relação muito boa com ele. Ele está aposentado hoje, mas ele ainda vai à universidade como professor emérito. Ele vai ainda toda semana e tem alunos. Semana passada, ele me disse que não vai mais orientar ninguém;  cansou, não tem mais condições. 

O professor Manlio é muito inteligente, tanto é que ele editou o último livro da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, de produção de plantas. Ele é o editor-chefe. Ele é muito inteligente, o pensamento científico dele é muito bom.

 

P/1 - Você fez os dois na Rural do Rio?

 

R - Fiz. Ele queria que eu fosse pra fora, mas quando eu voltei eu engravidei Patrícia. Aí eu disse: “Como é que eu vou agora pra fora?” 

Podia também ter feito um curso no Egito. Apareceu uma oportunidade de fazer um curso de especialização no Egito, na área de solos, mas como eu iria largar a mulher grávida aqui e estudar… Dei um tempo, deixei a poeira assentar. 

Entrei na universidade, comecei a trabalhar, aí voltei pra fazer o doutorado. Era mais fácil aproveitar todos os créditos, conseguiria fazer os créditos mais rápido lá.               Ainda cheguei a me inscrever na ESALQ [Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz, na Universidade de São Paulo], mas mudar de universidade… Já conhecia todo mundo na Rural, tinha estrutura lá - a casa da Sônia, professora que estudou comigo; fiquei lá, hospedado. 

 

P/1 - No Rio?

 

R - Lá em Seropédica, no interior do Rio. Tinha uma estrutura que eu não ia achar em outro lugar. Aí fiz. E ela doida pra eu fazer o pós-doutorado lá. Eu disse: “Não, já chega. Tá bom.” (risos)

 

P/1 - Nasceu o seu primeiro filho [nessa época]?

 

R - Foi o Ian, nasceu em 94. No ano em que eu casei, ele nasceu. Em 98, nasceu a Ilana. 

 

P/1 - Como foi quando nasceu o Ian, você se lembra?

 

R - Lembro, foi bonitinho. Fiquei emocionado quando ele nasceu. 

Era um menino muito esperto, muito inteligente. Ele dizia: “Pai, minha cabeça não para de pensar. Penso em um monte de coisa.”  Mas você sabe o que ele tinha? Ian foi um menino normal até os quatorze anos; depois ele desenvolveu esquizofrenia.

Foi uma luta cruel, essa doença é um negócio muito complicado. 

Ele está hoje com 26 e está nessa luta, tomando remédio controlado. Mas é uma tristeza, uma doença muito ruim. 

Ilana está tranquila, está terminando esse ano Direito na UNDB. 

 

P/1 - Ela mora aqui?

 

R - Mora aqui. 

 

P/1 - Mora todo mundo junto?

 

R - É, a gente mora junto, lá no [bairro] Planalto Vinhais II. Desde que eles nasceram a gente mora lá. 

 

P/1 - Você terminou o doutorado e entrou na UEMA ou depois do mestrado?

 

R - Antes, quando eu terminei o mestrado. Eu entrei na UEMA como professor substituto, porque na época não tinha gente qualificada, poucas pessoas aqui com mestrado. A gente entrou e começou a pensar em montar um curso de… Aumentar as disciplinas de Solos e formar um grupo de pesquisa. Quando eu entrei, um dos objetivos também foi dar início a um programa de pós-graduação, que hoje é o programa de pós-graduação em Agroecologia da UEMA. Desde 96, já tem um bocado de tempo. 

Eu entrei, depois eu fiz concurso pro quadro de professores de lá e fui nomeado em 97. 

O salário da UEMA era horroroso e a gente não conseguia fazer greve, porque os caras do nosso sindicato eram colocados pelo reitor. O reitor fechava tudo e na hora de votar, botava alguém dele no sindicato. Tudo que o governador não quer é uma greve na universidade pra ficar perturbando, então… O cara do nosso sindicato não deixava a gente fazer nem assembleia, nem greve. Eu dizia: “Rapaz, eu vou morrer com esse salário aqui.” 

Aí apareceu um concurso no Ministério da Agricultura. Eu disse: “Vou fazer esse troço.” Nem estudei e fui fazer a prova. Passei e fiquei no ministério com quarenta horas e vinte horas na universidade. 

Ainda continuei na pesquisa, ainda estou na pós-graduação, mas fica mais difícil você orientar, é pouco tempo com os alunos. Eu só dou aula de uma disciplina, participo de banca, mas não estou mais orientando. 

 

P/1 - Qual o seu trabalho no Ministério?

 

R - Meu trabalho é como um auditor, lá no porto, na inspeção e certificação de soja, milho. É um trabalho muito chato, né? Não gosto disso, faço mais porque é uma segurança financeira. 

 

P/1 - E as suas disciplinas na UEMA…

 

R - Eu dou aula de Bioquímica. Como eu fiz nutrição de plantas… O primeiro concurso que surgiu foi Bioquímica e a minha amiga, a Sônia, era professora de Bioquímica. Ela disse: “Não, você vai fazer logo isso aí. Faz porque é melhor.” Eu fiz, passei e dou aula de Bioquímica Vegetal pra [Faculdade de] Agronomia.

Na pós-graduação, eu divido uma aula com o professor Gusmão. Dou metade da aula de Desenho de Agroecossistemas Sustentáveis - pensar em formas de associar árvores, espécies nativas, fruteiras nativas, espécies de grãos no mesmo espaço pra que isso seja sustentável ao longo do tempo. Agrofloresta, né?  

Tinha essas duas disciplinas que a gente ministra lá. Tem muita aula, eu dou aula [às] segundas, terças e quintas, praticamente a tarde toda. 

 

P/1 - De quantas horas é a aula, quatro?

 

R - Da pós-graduação são quatro horas, da graduação são duas de três horas. É corrido. E agora, com essa pandemia, está… Eu sempre fico perguntando: Vocês estão aí?” Eu acho que eles largam lá o negócio e vão embora, fazer outra coisa. Ficou meio complicado. 

 

P/1 - Como é a sua relação com os alunos? 

 

R - Meu alunos são interessantes. Bioquímica é uma disciplina difícil. Você imagina estudar o que acontece dentro de uma célula que você não está enxergando. Tem que imaginar como uma proteína, uma enzima funciona. Isso pra eles é difícil.

Eu fui convidado pra homenagem de professor uma vez só, porque eu tinha um orientando de monografia se formando. Eu ouvia os depoimentos deles e a  maioria falava assim: “Minha maior dificuldade aqui foi Bioquímica, tirei um três, um quatro…” (risos) Eu dizia: ”Ô, meu Deus…”

Eles gostam de mim, não gostam muito é de Bioquímica, porque é difícil mesmo. E eu apertava muito, agora estou mais tranquilo. No início eu apertava, reprovava aluno, mas não adianta muito você… Eu estou tentando outras formas de ensinar. 

Nessa pandemia mesmo eu mudei, pedi pra eles… Tem um capítulo que é [sobre] estrutura de proteína, estrutura tridimensional. Pedi pra eles fazerem em vídeo, pegarem coisas que pudessem imitar essas estruturas, representar… E fizeram um negócio interessante, vídeos bons. 

Acho que tem que mudar a forma, senão… É melhor do que exigir muito deles e dar nota baixa, funciona melhor. Mas é isso, ao longo da vida a gente aprende. (risos) 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Não sei se eu estou enganado. Seu avô teve alguma conexão política? 

 

R - Parece que ele foi candidato a vereador lá em Santa ____, mas não ganhou.

 

P/1 - Ele não é nome de rua, alguma coisa assim?

 

R - Não, não. Meu bisavô é, lá em Cururupu, o nome da praça é Coronel ____ Carvalho, da parte de mãe. Ele era figura política, dizem que ele é quem decidia quem ia ganhar a eleição. (risos)

 

P/1 - Eu tenho parentes em Pernambuco, cresci lá. O nome do seu avô não é desconhecido. 

 

R - Meu avô tinha muito dinheiro. Ele tinha carro importado, naquela época ninguém tinha. Hoje você vê aqueles terrenos na beira da praia, quanto não vale aquilo ali? Era um monte de terreno dele. 

 

P/1 - Professor, me conte agora como surgiu o contato da Eneva com você.

 

R - Na época era MPX. Na verdade, foi o seu Zacarias, né? 

A MPX montou o polo, tirou o pessoal de lá e trouxe pro polo. Contratou uma consultoria de Minas Gerais pra orientar. Eles tinham esse projeto. 

Eu andava aqui pela Pindoba. Tinha a dona Concita, que era minha amiga, e eu comprava algumas coisas dela pra revender. [Se] faltava rúcula lá no sítio - eu tinha uns clientes que compravam rúcula - eu vinha aqui e comprava dela. Na época... Acho que foi em 2008 que o polo surgiu, foi em 2009 que eu andei por aqui. Ela falou do meu nome pro seu Zacarias, que eu era agrônomo e trabalhava com hortaliças. Eu já era professor do mestrado de Agroecologia, tinha vários trabalhos nessa área. Ela falou pro seu Zacarias e ele falou [sobre mim] pra empresa. 

Mudou a consultoria; saiu a empresa de Minas e ganhou a concorrência a empresa do Maurício, a Florest, que ficou fazendo a gestão técnica do polo. O Maurício me ligou: “Altamiro, você quer trabalhar como consultor lá?” Eu disse: “rapaz, eu tenho pouco tempo.” “Não, você vai uma vez por semana e vai ter dois agrônomos lá pra você interagir, dois técnicos.” Aí eu disse: “Tudo bem.” A gente estipulou um valor de consultoria e eu vinha toda semana, passava quatro horas no polo, andava tudo. 

O primeiro trabalho que eu fiz foi a análise de solo de todos os telados. Condenei as estruturas, porque eles tinham uns telados que fechavam a roça, os canteiros de hortaliças ficavam todos lá dentro e os pássaros não entravam pra interagir. E proliferava muita praga, a gente fez umas armadilhas pra pegar paquinha, que é uma praga de solo que acaba com a hortaliça. Juntou meio balde de paquinha, porque ela fechava as hortas. Eu comecei a sugerir que se abrisse aquilo, mudassem esses telados. 

Foi mudando aos poucos e a gente foi introduzindo a agroecologia, a produção orgânica. Alguns agricultores toparam, outros não, e a gente começou a trabalhar com aqueles que queriam fazer a produção sem veneno, usando adubo de baixa solubilidade. A gente conseguiu mudar alguns agricultores. 

Aí a Florest saiu. Mudou o contrato, foi licitado de novo. Quem ganhou foi a Sempre Verde. A Fabrícia tinha sido minha aluna num curso de especialização; ela me convidou pra continuar como consultor. E tinha o Jardiel, que era esposo dela, que também era agrônomo e estava trabalhando no contrato, então éramos eu, o Jardiel e o Leandro a equipe que ficou. 

A gente ficou na mesma sistemática, eu consegui alguns projetos pra lá. Todo ano a gente fazia um dia de campo financiado pela Fapema [Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão]. Eles abriam um edital, a gente concorria. Recebia o recurso, comprava as coisas, fazia um dia de campo: trazia as escolas públicas, os alunos da universidade pra conhecer o trabalho do polo. 

A gente montou minhocário, montou compostagem, foi muito interessante. Biofertilizante… Eu tinha dinheiro pra pagar os alunos, então chamava os alunos, trazia, eles ficavam nas estações. Os estudantes passavam por cada estação: biofertilizante, como faz, como aplica; compostagem, como faz; controle de pragas, irrigação… Eles têm um sistema de irrigação muito bom aí. Foi montada uma irrigação automatizada que é muito interessante. 

Durante essa consultoria, todo ano a gente fazia, na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia a gente fazia um dia de campo, pra divulgar. E o polo ficou realmente um centro, um modelo de produção agroecológica. 

No último ano, consegui um projeto da Fapema também - era um edital de agricultura familiar. Submeti um projeto pra criação de galinha caipira e a gente conseguiu o galinheiro, as aves, ração. A gente montou a estrutura lá. No último ano que a gente estava na consultoria, a gente conseguiu - foi mais o Jadiel, eu trabalhe muito pouco nisso - um recurso da Fundação Banco do Brasil. Era assim: tinha esse recurso pra vir pra cá; a única associação que estava toda organizada era a do polo. Veio o recurso, eles compraram carro, trator - um trator que eu não concordo  muito, menor e uma caminhonete maior, mas essas coisas são complicadas. 

A gente conseguiu fazer uma OCS - organização de controle social; eles não podem usar o selo de orgânico, mas são produtores orgânicos. Eles conseguem vender em feiras como produto orgânico, conseguem a venda direta como produto orgânico e também um aumento no preço quando vendem no PAA [Programa de Aquisição de Alimentos]. No programa governamental o preço deles é um pouco mais alto, porque trabalham com manejo orgânico.

Esse foi o ápice do nosso trabalho no polo. Aí o polo ganhou dois prêmios, o prêmio de ecossustentabilidade e um prêmio do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], que foi um reconhecimento do trabalho que foi feito pela Eneva no assentamento.

Foi muito bom esse trabalho do polo, foi muito interessante.

 

P/1 - Como é a estrutura do polo? O que tinha lá quando você chegou?

 

R - Quando eu cheguei no polo, eles tinham… Eles ganharam muita coisa. A estrutura que a Eneva deu pra eles foi muito interessante. Eles tinham estufa, telados eu não concordo muito; tinha um sistema de irrigação que não foi dos melhores, quem desenhou não foi muito bom. Eles tinham umas caixas d’água, pra jogar pra caixa e depois descer por gravidade, não acho que seria interessante. Se eu fosse fazer desde o início, eu faria a água sair diretamente do poço pra irrigar. Teria só uma bomba e você conseguiria fazer isso. 

Quando entrou a nova consultoria, a gente tentou fazer uma cisterna pra jogar a água e fazer um segundo bombeamento pras áreas. 

 

(PAUSA)

 

R - Depois a gente pediu um segundo poço, a Eneva fez, pra aumentar a oferta de água e garantir… A gente conseguiu também um medidor pra irrigantes, pra tomar conta de energia baixa. Eles têm um sistema automatizado que foi implantado pela primeira equipe de consultoria, muito bom; ele irriga por setores automaticamente, você programa lá o quadro, então eles têm uma estrutura muito boa de produção. 

No início, ganharam bolsa de quinhentos reais. Depois a Eneva suspendeu a bolsa, mas se você pensar: quem no Maranhão tem uma estrutura igual a essa pra produzir? Você não acha. E tinha assistência técnica. 

Esse projeto de assentamento da Eneva, do polo, foi um dos projetos mais completos que eu já vi. O que acontece nos projetos de assentamento do governo? Pegam a terra, distribuem, entregam os lotes, dão um dinheiro de fomento e largam a pessoa lá, não tem assistência técnica. A Eneva deu assistência técnica desde o início, por oito anos, até o pessoal conseguir se organizar.

 

P/1 - Além da estrutura, parece que teve todo um processo de aprendizado.

 

R - Sim, eles tiveram capacitação. Eu dei várias oficinas práticas de compostagem, biofertilizantes, adubação, manejo de pragas. Eles tiveram oficina com técnicos do Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural], tiveram oficina de pós-colheita… Tiveram um monte de capacitações. Você tem agricultores lá bem formados, que dominam bem a técnica de produção orgânica de hortaliças. 

Em termos de estrutura, de apoio, é difícil achar um assentamento nessa condição que eles têm hoje, com veículo, trator, máquina, estrutura pra criação de animal. É muito bem equipado. 

 

P/1 -  Como foi a receptividade deles de aprender? São pessoas mais velhas, a maioria.

 

R - Eu fiz alguns trabalhos aí… Eu tinha uns alunos da pós-graduação, a Ceália foi minha aluna. A gente viu um trabalho numa revista sobre indicadores de sustentabilidade e eu pedi pra ela aplicar aqui no polo. Ela fez, a gente até mandou pra revista, pra publicar esse artigo. 

Comparando com os outros assentados em volta, os indicadores do meio ambiente e econômicos são bons, mas quando você vai pro indicador social, ele vai lá embaixo porque a faixa etária deles é muito alta, é muito avançada a idade deles. Esse é um problema, mas não é só do polo; é um problema da agricultura no Brasil todo. Os jovens não estão se envolvendo com a agricultura; eles preferem sair de lá e fazer outra coisa porque agricultura é vista como uma coisa atrasada, que não dá dinheiro. Esse problema não é só aqui. 

O BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] lançou um edital pra inclusão de jovens. A gente concorreu, mas não foi contemplado. A gente tentou inserir os jovens em algumas etapas, colocando algumas parcelas experimentais pra eles tocarem e depois venderem, mas a gente não teve muito sucesso nisso. Esse é um problema que o polo enfrenta. 

 

P/1 - As pessoas que originalmente foram trabalhar receberam bem [a ideia], quiseram aprender?  

 

R - Sim, receberam porque eles estavam… Boa parte, outros não participaram. Os que participaram tinham muito interesse, porque sabiam que iriam depender dali pra tocar a vida. Muitos seguiam e participavam bem, interagiam. 

E tem aqueles que “ah, não, eu sei isso aí, sei tudo”, não querem participar. Mas isso é normal no processo. A gente ia lá, conversava, tentava fazer com que eles mudassem algumas práticas, mas é um trabalho que tem que ser no dia a dia mesmo. Você tem que ir tentando convencer, fazer algumas parcelas experimentais pra ele ver que funciona.

Por exemplo, quando a gente chegou o solo era todo descoberto. Os canteiros eram descobertos. Aí a gente começou: “Aqui é muito quente, chove muito, temperatura alta. As plantas sentem muito, então vamos cobrir os canteiros.” Hoje você chega lá e eles já cobrem os canteiros deles, então tem coisas que eles incorporaram mesmo.                         

Uma coisa que eu não consegui fazer foi com que eles deixassem de usar foi a grade aradora. A grade aradora, no nosso solo arenoso, degrada muito. E eu fiz trabalho, a gente plantou macaxeira com plantio direto, sem revolver o solo. A gente fez várias coisas, mas essa cultura no agricultor, essa mania da grade aradora é muito forte porque aquilo limpa a área. Tem aquela área com mato em cima, ele limpa ela com a grade, fica tudo limpinho, aí ele planta. Pra você mudar isso é difícil. Alguns mudaram, mas outros não, então você tem essa dificuldade no processo.

        

P/1 - Parece que há um embate entre a cultura tradicional e a moderna.

 

R - É, alguns ainda queimavam. Seu Antônio ainda tacava fogo; a gente teve de convencê-lo que não precisava, que ele podia usar adubos em substituição à cinza. E a gente conseguiu. 

Essa questão da grade é porque eles acham que facilita o trabalho, mas não facilita porque aquilo degrada o solo. Nosso solo é muito frágil. Quando você passa a grade, vira uma areia de praia branca, a matéria orgânica oxida e piora, depois a raiz das plantas não consegue crescer no ambiente. Isso a gente tinha de conversar com eles e alguns acabaram acreditando, não usam, mas boa parte ainda usa. 

Chegou ao absurdo de… Eu tenho foto de lá. A pessoa vai plantar abóbora numa cova; você vai cavar a cova, botar os adubos e plantar. Pra que você precisa arar e gradear a terra?  E a abóbora toda feia, sofrendo por conta disso. 

Esse trabalho é o que o governo não faz, porque ele não quer pagar os extensionistas com um salário digno e aí eles também não fazem o trabalho como deveria ser feito. Às vezes não tem nem formação pra fazer. Essa é a dificuldade dos assentamentos. 

Eu escrevi um texto, todo ano que tinha a reunião de… A gente chama de devolutiva: a empresa faz uma reunião e pediu pra escrever um texto num livreto. Eu escrevi falando sobre o polo como um exemplo de assentamento, pra servir como um exemplo de política pública pro Brasil. Não adianta você só dar a terra e deixar o pessoal lá. Você precisa dar esse acompanhamento, essa assistência que foi dada aqui. 

Lógico que a coisa passa por problemas mais profundos. Por exemplo, a gestão é muito difícil num assentamento, numa cooperativa, associação. Eu conversei uma vez com um professor lá de Santa Catarina; a gente estava numa reunião do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], tinha um projeto de segurança alimentar do CNPq em Brasília. Eu perguntei: “Rapaz, como aquelas cooperativas funcionam? Aqui no Maranhão, cooperativa e associação não funcionam.” Ele disse: “Lá a administração é profissional, não é o presidente que administra. Eles têm um conselho de administração, mas quem toca é um gerentão que eles apertam até tinir. O cara é que vai comprar, vender.” O conselho administrativo serve só pra ver as contas do cara e apertar o administrativo, aí funciona.        

Olha como esse modelo é ruim: o presidente de uma associação dessas tem que administrar tudo sem ganhar nada, tirar hora do trabalho dele pra fazer esse trabalho administrativo e não ganhar nada. Isso não vai funcionar. Uma hora o cara vai pegar mais pra ele ou vai… Esse é um gargalo que tem em todas as associações, não é uma questão exclusiva do polo. 

 

P/1 - É uma questão social, digamos assim. De cultura.

 

R - Uma questão social, de cultura. É difícil você ter uma administração que consiga levar. E se você tem uma associação organizada como essa do polo, com tudo certinho - até declaração de interesse público a gente conseguiu na Câmara dos Vereadores… Conseguir política pública, conseguir recurso a fundo perdido é fácil. O difícil é administrar isso de forma que beneficie todo mundo, todo mundo consiga bons resultados. Todas elas têm essa dificuldade. 

 

P/1 - Você poderia contar alguma história, algum exemplo de agricultor que realmente absorveu esse conhecimento?

 

R - Tem sim. O irmão Ivaldo segue à risca a prática da agroecologia. Você chega na área dele e tem uma diversidade grande, o solo está todo coberto, ele não usa defensivos agrotóxicos. O seu Zulu também, a dona Gelcina também são dois exemplos. 

O seu Zulu é muito trabalhador. O que a gente falava ali ele cumpria, só que ele tinha uma certa resistência - por exemplo, ele não abria mão de usar ureia no milho porque ele via que tinha resultado. Eu disse: “Seu Zulu, vamos trocar isso aí por esterco. Vai fazer o mesmo efeito. O esterco libera mais lento, a planta fica mais sadia.” A gente conseguiu convencer aos poucos. 

Seu Zacarias também é outro exemplo de agricultor que… Eles viram vantagem, viram que o pessoal começou a procurá-los por conta de eles plantarem dentro do sistema orgânico, agroecológico. Vinha muita gente comprar coisas aqui por conta disso, então eles foram seguindo o caminho.

Acho que as dificuldades existem, mas o que eu sempre falei pra eles: eu senti isso na própria pele. [Quando] eu comprei o sítio, eu trabalhava com manejo convencional, jogava tudo quanto era veneno. Tinha uma contradição: eu era professor do curso de Agroecologia da UEMA e tinha um sítio manejado no sistema convencional. Os alunos me questionavam: “Professor, como é lá no seu sítio?” Eu dizia: “Lá no sítio eu uso veneno.”

Eu participei de um edital pra criar um Centro de Apoio à Agricultura Urbana aqui. Trouxe o Quaresma lá de Minas pra dar o curso de agricultura orgânica pros agricultores. Eu o levei lá no sítio e ele disse: “Altamiro, isso aqui você devia mudar pro sistema orgânico.” “Rapaz, como é que eu vou fazer isso?” “Aqui tá fácil”, ele me disse. Tinha um curral. “Compra umas vacas, para de usar esses venenos e começa a produzir.” Aí eu mudei. 

Não produzia nada no início, tinha muita dificuldade. Depois eu fui ajustando. Consegui um edital da Fapema empresa-universidade, consegui recurso pra comprar adubo, montar o sistema, certificar, e consegui produzir num modelo orgânico.

Hoje você chega lá no sítio e vê que as pragas que acontecem são muito poucas.  Você controla com grande facilidade, porque o sistema todo está em equilíbrio. E eu não acreditava nessa história; achava que aqui, com essa umidade muito alta, a gente ia ter dificuldade, mas não tem. 

Quando eu plantava convencional, eu plantei um hectare de milho. Disse: “Quando eu colher isso, eu vou trocar meu carro.” Deu um ataque de lagarta que eu não conseguia controlar; botava dois caras com a bomba de agrotóxico e não conseguia controlar as lagartas. Hoje eu planto milho toda semana em porções menores; se tiver um ataque de lagarta, eu aplico um defensivo chamado Dipel - que é um inseticida biológico, uma bactéria - e controlo na maior tranquilidade. 

Quando você tem o sistema equilibrado, as pragas diminuem. Isso é que a gente tem que mostrar pro agricultor, conversar com ele, porque é uma realidade. Em vez de ele estar se envenenando e envenenando o ambiente, se ele conseguir equilibrar, ele consegue o controle de pragas tranquilamente. 

O que o governo precisa? Políticas públicas pra o que se chama de transição agroecológica. Pra mudar tem um custo. Até ele aprender isso, até o sistema [se] equilibrar, tem uma demora e alguém tem que bancar esse custo, mas é tranquilo.

 

P/1 - Essa transição você acha que funcionou no polo?

 

R - Funcionou. Alguns agricultores passaram por essa transição. Eles viram que não precisava usar veneno, que conseguem produzir sem veneno. 

Você tem que mudar a adubação, tem que usar composto, biofertilizante. Eles sentiram isso na prática, viram que funcionou com eles.

 

P/1 - Isso é uma coisa que eu tenho perguntado pra eles também. Como é a questão da viabilidade econômica, de mercado?

 

R - Isso pra mim é um gargalo. O que acontece no meu sítio? Eu não estou lá dentro direto - tem a universidade, tem o porto, outros trabalhos com a Eneva, com alimentos. Eu tenho um problema de gestão, não estou lá gerenciando as coisas. 

O mercado, a gente pode dizer que já foi praticamente inexistente e está expandindo. O mercado está bom, melhorando, vamos dizer assim. No caso deles, que a mão de obra é familiar, ele viabiliza o negócio. Se ele tiver de contratar mão de obra, a viabilidade vai ficar mais difícil. E a maioria deles contrata mão de obra, porque estão velhos, a família não se envolveu. 

No modelo orgânico e com hortaliças, a mão de obra ocupa uma fração boa dos custos de produção e é crescente, todo ano o salário sobe. O preço dos produtos não acompanham isso, então esse é um gargalo. 

Pra viabilizar economicamente, você precisa resolver a questão da mão de obra. Algumas tarefas podem ser mecanizadas e você alivia o problema, mas… Pra você ter noção, no meu sítio eu cheguei a ter dez funcionários trabalhando, produzindo orgânico. Você não pode usar herbicida, então pra capinar o milho você tem que pelo menos usar a roçadeira costal ou a enxada. No convencional, você aplica o herbicida e não volta mais lá pra capinar o milho, então esse custo é muito reduzido.

No orgânico você não tem isso, é mais intensiva a mão de obra e isso é um gargalo pra viabilizar economicamente.

 

P/1 - Mesmo assim, com a renda que eles têm, você acha que o polo está se sustentando?

 

R - Olha, não são todos. Alguns, sim. Eu diria que a dona Gelsina e depois que o seu Zulu faleceu, ela pegou um baque. Seu Zulu, o esposo dela, plantava uma área boa, era um agricultor muito produtivo. Seu Zacarias reclama muito, não dá pra gente saber se realmente ele se sustenta ou não, mas acho que eles pelo menos complementam renda ali. O irmão Ivaldo, por exemplo, também tem uma renda de lá. Seu Paraíba também. 

O problema é esse: ajustar a mão de obra. Eles têm um mercado muito bom, que são as entregas pro governo, pras escolas. Isso é uma renda certa, então ajuda na viabilidade. O preço é melhor que o preço de mercado, então eu acredito que alguns estão conseguindo se manter de lá. Não são os dezenove, são menos pessoas, mas tem alguns que conseguem.

 

P/1 - Então você vê ali realmente como um modelo…

 

R - Eu vejo como um modelo. O que deveria acontecer lá agora? A Eneva passou oito anos na gestão e assistência técnica. Agora é a vez do Estado, agora eles têm a assistência de Paço do Lumiar. Deveria manter a mesma qualidade, mas não dá porque você tem poucos extensionistas. O cara não tem carro, não tem gasolina, então começa a dificultar. 

O agricultor precisa ser assistido, tem várias dificuldades. Precisa de alguém pra estar no dia a dia com ele. Esse é um dos problemas que eles estão enfrentando. 

 

P/1 - Indo já para as perguntas finais: como você analisa ou vê a mudança de um alimento massificado, com agrotóxicos, pra um alimento orgânico? Como você vê o futuro disso?

 

R - O movimento orgânico é crescente e necessário. Eu falo quando dou palestras sobre isso, você comer um… A gente é o que a gente come. Nossas moléculas e átomos são formados pelas moléculas e átomos do que comemos, isso é renovado. Se você comer um organofosforado, ele vai ficar no seu organismo, fazendo parte de alguma coisa. E com certeza alguma coisa ruim, então a gente precisa mudar essa forma de alimentação. 

Tem outro problema muito sério que está acendendo a luz vermelha, que é a resistência microbiana a antibióticos. Você vê que morre muita gente nos hospitais porque não conseguem combater algumas bactérias, que têm resistência alta aos antibióticos já descobertos. Uma das suspeitas é que os transgênicos, que não podem ser usados na agricultura orgânica, mas que podem ser usados na tradicional, possam estar induzindo essas mudanças na resistência aos antibióticos. 

Essa alimentação orgânica, pra mim, é o futuro. O que precisa ser feito? Massificar pra baixar custo. Se você tem mais escala de produção, mais pessoas produzindo, a tendência é que o preço dos alimentos orgânicos caia. Eu, por exemplo, como orgânico lá do sítio, mas não compro um café orgânico porque é muito caro. 

A gente precisa ter uma escala maior de produção pra que mais pessoas tenham acesso a esse tipo de alimentação, porque com certeza ela é diferente. Não em termos nutricionais, eu não acredito que… Tem vários trabalhos, alguns mostram que sim, outros que não. Não acredito que sejam melhores em termos de proteínas, vitaminas, mas só de não ter resíduos de veneno já é um diferencial importante.

Eu trabalho na soja, no milho, na certificação de exportação e trabalho com agricultura orgânica no sítio. Vivo os dois mundos e eles são muito diferentes, porque não tem jeito: se o cara vai produzir soja e milho [de forma] convencional, em larga escala, dez mil hectares, como vai controlar praga naturalmente? Se você desmata um cerrado, uma floresta e plantou monocultura, não tem como controlar praga sem usar agrotóxico. Os modelos são diferentes.

Não sei como seria essa mudança de modelo, é muito difícil. E o Brasil é extremamente dependente da agricultura, a nossa balança comercial é praticamente de soja, que dá o diferencial na balança. Como mudar isso?

A agricultura orgânica é diferente. Eu falo muito isso pros alunos, você não vai ter um hectare de soja, isso não existe. Você vai ter uma fazenda com sistema de produção que um dos componentes vai ser soja. Não vai ter uma fazenda orgânica produtora de soja, é monocultura do mesmo jeito. Quando você fala em agricultura orgânica, em agroecologia, são sistemas de policultivo, de várias culturas no mesmo lugar, com rotação, com consórcio. 

 

P/1 - Pelo menos pra alimentação das pessoas, não de gado…

 

R - Pois é, isso é outro problema ruim da soja e do milho - das nossas commodities.

Produz, joga no trem, vai pra China, pra Europa e não fica nada [aqui]. Você chega [na cidade de] Balsas, o que… Se você pensar que um navio de soja custa em torno de cinquenta milhões de reais a carga e saem vários daqui por ano, o que isso deixa lá em Balsas? Pouca coisa. O que fica na cidade? Pouca mão de obra, porque é praticamente tudo mecanizado - 0,3 homem por hectare. Combustível talvez pare nos postos, mas adubo, veneno, isso é comprado de matriz pra matriz. O cara da fazenda que planta trinta mil hectares não compra adubo em Balsas, compra direto do exportador lá fora. O dinheiro não circula muito pela cidade. 

Tem um amigo nosso aqui que é capixaba. Chegou em Balsas [e disse]: “Rapaz, se o ônibus não parasse eu acharia que não tinha chegado em Balsas.”  A cidade não é muito diferente das outras cidades do Maranhão, porque o modelo não é distributivo de renda. 

No Maranhão, é mais perverso. Você chega no Paraná, as fazendas são de cem, duzentos, trezentos hectares; aqui ninguém tem menos de mil hectares, as fazendas são muito grandes. Muita terra na mão de poucas pessoas, o dinheiro circula menos ainda. É um modelo muito ruim.

 

P/1 - Nesse sentido, você acha que o polo aponta pro futuro? 

       

R - Eu sempre faço essa provocação pro pessoal do agronegócio: pegar um hectare de soja, mesmo com esse preço agora, de cento e tantos a saca [e] pegar um hectare aqui do polo. Num ano agrícola, quem produz mais dinheiro? Um hectare do polo. Ele produz mais alimento que um hectare de soja. Só vai produzir 3600 toneladas; no polo, se o cara tiver galinha, milho verde, alface, essa diversidade, ele consegue em um hectare produzir mais de dez toneladas de comida, de alimento.

Nós não vamos poder fugir desse modelo de commodities - falando do Brasil. Mas pelo andar da carruagem,  a agricultura orgânica aumenta 20% ao ano - de área plantada, de volume de dinheiro gerado. Acredito que é um caminho que pode não acabar com o modelo da soja, mas vai chegar num ponto de competir bastante.

Muita gente já está optando por isso, por comer frango orgânico, produtos sem agrotóxico, sem transgênicos. O caminho é esse.  Mas os sistemas são totalmente diferentes. 

 

P/1 - E o modelo do polo, em relação à distribuição de renda também.

 

R - O modelo do polo segue o modelo da agricultura orgânica. Seria interessante pra distribuição de renda, pra circulação de renda no local. É muito melhor que “vamos desmatar tudo no polo e fazer um plantio só de mandioca pra fazer farinha, mecanizado.” Isso não funciona. Tem que seguir nesse modelo de policultivo, de integração com animais, que foi uma coisa que a gente não conseguiu. A gente fez o embrião, eles fizeram quatro ciclos de produção de frango, mas… Fizeram um fundo de recurso pra continuar criando, mas depois gastaram esse fundo com outras coisas e não conseguiram manter a criação de animais.

Quando você pensa em agroecologia, você tem que ter o animal produzindo esterco pra adubar as plantas. Até pra segurança alimentar - dona Isabel dizia: “Tem dia que eu não tenho o que comer, eu pego um frango dos meus.”  Eles dividiam os frangos. “Eu pego um frango meu e mato.” É a segurança alimentar, proteína é importante. 

Desde o início, quando eu entrei no polo, eu já sentia falta disso. Não tinha um componente animal. A gente tentou introduzir as galinhas. Alguns criam isoladamente - seu Zé Domingos, o pessoal do seu Zé Maria, lá em cima, criam galinha. Essa integração é importante e isso ajuda na sustentabilidade como um todo, na segurança alimentar e também na renda.   

 

P/1 - Mais duas perguntas, as últimas. O que o senhor pensa ou planeja pro futuro? Tem algum sonho hoje em dia?   

 

R - Eu tô trabalhando na Alimentum, a minha empresa. Quando a gente assumiu a consultoria, chegou uma altura no polo que o dono da Sempre Verde se zangou e não queria mais, entregou todos os contratos que tinha com a Eneva. Aí eu assumi com a Alimentum, que é a empresa que eu tinha criado com meu pai pra produzir orgânico, vender. Agora eu a transformei numa consultoria de prestação de serviços e a gente já tem outros programas na Eneva, então minha ideia agora é me dedicar mais a ela, como uma ferramenta pra aumentar a produção orgânica e estender isso pra mais agricultores. 

A gente tem conseguido algumas coisas, tem dado assistência a alguns agricultores. Meu sonho é que a gente consiga aumentar a produção orgânica pela nossa consultoria e que a nossa empresa cresça também, consiga ser uma referência no Estado nessa área. 

Eu saí de uma coisa que gosto muito, que é a pesquisa. Tenho uma formação boa em pesquisa, mas cheguei num ponto em que não consegui mais. Fiz muita pesquisa lá no sítio, tenho vários trabalhos publicados que foram feitos em parceria com os estudantes lá, colhendo dados lá, no manejo orgânico. 

Meu sonho é esse, que a Alimentum consiga, por meio de pesquisas aplicadas na área e consultoria, expandir esse modelo orgânico pra produzir alimentos saudáveis pra mais pessoas. Isso não pode ser um negócio só de quem tem dinheiro pra comprar, tem que ser massificado.

 

P/1 - Onde você está fazendo consultoria com a Eneva, além do que fez no polo?

 

R - Com a Eneva a gente está com um programa muito interessante. A Elisabeth fez um programa chamado Horta Sustentável. São 44 hortas aqui, no interior e no Ceará. A gente está fazendo com manejo orgânico, com irrigação automatizada, compostagem, minhocário, pra que elas se sustentem e também pra que quando a gente volte ao normal, que as crianças tragam seus resíduos e a gente produza o composto com o uso de minhoca e use na horta. A gente já vai induzindo colocando na [cabeça das] crianças a importância de se reciclar resíduos orgânicos. Isso pode virar adubo, pode virar dinheiro pra elas.                    

Pena que a pandemia pegou aí no meio, mas as hortas estão sendo instaladas. Tem uma horta aqui instalada e a gente vai tocar isso. É um projeto muito interessante porque você vai trabalhar com crianças desde cedo na formação… Você pode melhorar também a qualidade de ensino - a gente colocou um termômetro, um pluviômetro pra eles terem noção dos milímetros de chuva, temperatura. A horta é um laboratório a céu aberto; você pode ter aula de Ciências, de Matemática, de Biologia, de Português, tudo ali na horta. Eu tô muito empolgado com esse trabalho.

 

P/1 - Professor, como foi contar um pouco da sua história pra gente hoje?

 

R - Foi bom. A gente se emociona, lembra das coisas. Eu gostei, foi legal. 

 

P/1 - Muito obrigado. 

 

R - Eu que agradeço.   


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