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História de: Laura da Silva Dias Rahal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2014

Sinopse

Laura da Silva Dias Rahal nasceu em Piracicaba, SP, no dia 25 de novembro de 1965. Ainda jovem, mudou para São Paulo para estudar Nutrição na USP. Interessada por saúde pública, trabalha há mais de 20 anos como nutricionista do programa de merenda escolar de São Paulo.

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História completa

Meu nome é Laura da Silva Dias Rahal. Eu nasci em Piracicaba, interior de São Paulo, no dia 25 de novembro de 1965. Eu sou caçula temporã, então eu sou muito do final de uma geração. Meu pai chamava-se Gastão da Silva Dias, minha mãe Terezinha da Silva Dias. Minha infância foi muito boa, porque criança do interior há 48 anos atrás era uma outra vida, né? Sempre brincando muito na rua, andando de bicicleta. Lá em Piracicaba tem a Faculdade de Agronomia, a Esalq da USP, que é uma fazenda, e eu morava perto dessa faculdade, então é um lugar que a gente brincava muito, andava de bicicleta, de patins, subia em árvore, casa também com quintal grande. E sem os medos, sem essa forma como que hoje as crianças vivem, assim como foi diferente da minha filha que nasceu aqui em São Paulo, uma outra realidade.

Eu peguei uma fase da escola pública ainda interessante. Fiz Grupo Escolar, chamava Prudente de Moraes. Depois eu fiz da quarta série até a sexta numa escola do estado, daí ensino foi ficando muito complicado e eu fui pra uma escola particular chamada Colégio Salesiano Dom Bosco, em Piracicaba. A adolescência no interior é também uma coisa muito divertida, assim como a infância, porque os grupos se conhecem, se encontram sempre nos mesmos lugares, frequentam o mesmo clube. São duas escolas que são as escolas rivais e as pessoas se encontram nos lugares, né? E muita diversão também, dirigir sem ter carta, porque na época isso não era uma questão preocupante. Era uma coisa bem livre, era uma coisa bem tranquila, bem divertida. E era uma turma enorme, sempre foi muito gostoso. Eu terminei o terceiro ano, e prestei vestibular. Então foi um choque, porque eu saí dessa vida boa que eu contei, com os amigos e tal, morava perto da escola, não sei o quê. Vim parar aqui em São Paulo com 17 anos, sozinha. Quando eu vim pra São Paulo, o meu cunhado falou pro irmão dele: “Olha, a Laurinha entrou em São Paulo, ela não conhece nada, você dá uma força lá”. Ele deu uma super força, casei com ele (risos). A gente começou a namorar depois, no meio do curso, quando eu já tava mais pro final da faculdade. E daí casei com o irmão do meu cunhado (risos), então são duas irmãs e dois irmãos, e a gente acabou se aproximando muito por esse parentesco, que acabou sendo mais forte, né? Porque além dela ser minha irmã, ela é minha cunhada (risos).

Quando a gente tem 17 anos você é meio nova ainda, não sabe muito bem o que você quer fazer. E um dia eu tava vendo uma revista que estava falando sobre algumas profissões que estavam despontando, que seriam do futuro, e daí tinha falando sobre Nutrição. E eu me interessei, acabei prestando vestibular e entrei direto na Faculdade de Saúde Pública da USP. A Faculdade de Saúde Pública da USP dá uma formação muito mesmo de Saúde Pública mesmo, que tinha um foco muito grande nessas áreas de Sociologia, Educação, Nutrição em Saúde Pública. E eu sempre gostei muito mesmo dessa parte de Saúde Pública, enfim, e eu não gostava dessa parte de nutricionista de refeitório, de fazer cardápio, cuidar de compra de alimentos. Eu dei sorte que quando eu me formei, eu mandei meu currículo e eu comecei já a trabalhar com a parte de aula.

Daí prestei um concurso, fui chamada pra prefeitura em 90, então estou no meu trabalho dentro da Secretaria desde 90, já tem 23 anos de trabalho lá nessa área.  Era tudo o que eu queria, porque era Saúde Pública mesmo, era trabalhar com alimentação escolar, era um universo diferente e me interessou e estou lá nesse tempo todo. Foi legal porque você trabalhar com um programa do peso que é São Paulo, um programa enorme, é um dos maiores do mundo no sentido da alimentação pública infantil dessa forma centralizada. A gente fornece mais de um milhão e 800 mil refeições por dia, quase 2.800 pontos de abastecimento. Dentro de toda essa logística e dessa qualidade que é o programa de São Paulo é muito desafiador, é muito legal. E dentro do departamento você consegue se encaixar, conforme a sua aptidão, em qualquer área que você quiser da Nutrição. Pra mim o que foi difícil, e pra mim até hoje é difícil são essas mudanças bruscas que às vezes acontecem a cada quatro anos, quando vem um novo prefeito, um novo secretário, então às vezes muda bem os encaminhamentos.

Como não tínhamos muitas nutricionistas, a gente fez parceria com universidades e a gente formava esses estagiários, fazia um plano em parceria com as universidades e eles coletavam dados. E faziam um trabalho que a gente solicitava que era um direcionamento, e sobrava uma carga horária. A gente começou: “Vamos fazer trabalhos de Educação Alimentar e Nutricional dos estagiários com os alunos?”. Sempre com aquela vontade de estar trabalhando essas questões relacionadas à Educação Alimentar e Nutricional. E daí a gente começou a bolar trabalhos, elas faziam teatrinho, faziam isso, faziam uma série de coisas, tal. Então, o trabalho delas era de incentivo ao consumo de leite, importância do leite para as crianças de EMEI, pra escola de quatro, cinco anos. Elas colocaram uma caixa com várias embalagens de leite e derivados lácteos misturados com outras coisas pras crianças escolherem se aquilo estava certo, se tinha leite, o que era importante. E daí, a criança tava com um leite de UHT, pegou na mão assim e devolveu. E a estagiária: “Você não vai pegar por quê?” “Não, tá vazio”. Quando ela falou isso, eu falei: “Para! A gente não tem o mínimo conhecimento, nutricionista não sabe nada de Pedagogia!”.

A gente não sabe se ela avaliou que aquilo tinha o leite, mas ela não tinha porque não era o concreto do leite, isso tá errado nessa questão de avaliação. Isso foi uma coisa que me incomodou muito, eu cheguei pra esse pessoal e falei: “Olha, a gente precisa buscar parcerias”. Daí nós fizemos um microprojeto e fomos bater na porta da Secretaria de Educação. E daí que foi um descobrimento da educação alimentar e nutricional enquanto uma parceria junto com o pedagogo, que o nutricionista tem uma expertise de uma parte, o pedagogo do outro. E o projeto só dá pra ser legal se a gente tiver em sintonia, né? E nós fizemos um projeto em conjunto com a Diretoria de Orientação Técnica (DOT) na época, eu e mais duas colegas, de formação com professor e eu fui aprendendo muito com os pedagogos. Um dia uma colega minha falou: “Olha, eu estou aqui num site, dá uma olhada nesse projeto aqui”. E o projeto deles, eles tinham uma formação muito semelhante ao que a gente tinha feito sem conhecer o projeto, que era a formação do educador, da equipe, da cozinheira pra fazer um projeto. A gente falou assim: “Nossa, que legal, gente! Vamos ligar lá, ver se a gente consegue conversar pra gente apresentar o que a gente faz, o que eles fazem”.

O que foi o rico é a gente expandir essas formações, falar a mesma coisa para várias pessoas ao mesmo tempo, não só ficar numa ação, e inverter esse movimento. É importante que a gente trabalhe essas atividades relacionadas à alimentação e elas entrem dentro do projeto pedagógico da unidade, pra ser efetivo mesmo, não ficar uma ação pontual, só uma mera atividade, uma campanha. Se a gente falar de dez anos atrás pra cá, as escolas estão muito mais envolvidas nessa questão da alimentação. Eu acho que essas ideias vão ficando. Mas assim, mais como um programa dentro de um eixo pedagógico, é isso que a gente quer que eles pensem. Um programa, ele tem uma possibilidade pedagógica incrível do concreto ali. E qual é a proposta? Que essa criança adquira hábitos alimentares saudáveis. Essa criança não tem a alimentação só na escola, ela pode ser um agente transformador na casa dela, isso que seria o ideal dos mundos. Isso é uma coisa que acontece.

Eu acho que o que é rico dentro da Educação Alimentar e Nutricional, que é uma coisa que a gente precisa buscar, é a intersetorialidade. Você não consegue fazer sozinha, a Educação Alimentar e Nutricional tem pressupostos tanto da Educação, quanto da Nutrição, por isso que ela é composta, a gente tem que ter vários olhares e várias pessoas pensando sobre isso, né? Então eu acho que isso a gente já tem na secretaria como claro, mas quando vem uma outra instituição, um outro parceiro de fora, ele vai agregando outros olhares também, outras questões que são importantes e acaba dando uma viabilidade pra umas questões que, às vezes, a gente fica meio, no serviço público, uma coisa mais difícil, às vezes, de acontecer. Enfim, todo mundo sai feliz. Eu acho que é uma parceria, é uma simbiose mesmo, que todo mundo sai ganhando, não tem ninguém que está saindo melhor que o outro, acho que todo mundo cresce junto nisso.

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