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História

Agora Nadia pode viver tranquila em sua comunidade

História de: Nadia Lúcia da Silva Garrido
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Seu pai era construtor de grandes barcos e Nádia conta como é feliz morando no meio da floresta e ao mesmo tempo estar conectada a tudo. Seus filhos jovens também não pretendem deixar o lugar onde vivem, pois há perspectiva de trabalho e não se sentem isolados.

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História completa

Meu nome é Nadia Lúcia da Silva Garrido, eu nasci no dia 11 de abril de mil novecentos e setenta e sete, aqui mesmo, na comunidade de Tumbira, na RDS do Rio Negro, na qual permaneço até hoje, no município de Iranduba, estado do Amazonas. A minha mãe, sempre cuidou de casa, o meu pai era carpinteiro naval, construtor de barcos. Fui muito apegada com ele... Eu só não acompanhava ele na carpintaria, mas sempre a gente ajudou muito, esteve junto. Ele trabalhava com barcos grandes, de 25, 30 metros, até hoje ainda tem muitos barcos que ele fez, grandes barcos turísticos. Aprendi a pescar com ele, com  malhadeira, nunca de linha, mas com a minha mãe a gente pescava com caniço, no igapó. 

Onde eu morava, quando eu era pequenininha, não tinha água encanada, então a gente carregava água do rio pra fazer alimentação, tomava banho no rio também. No final de semana, a gente carregava água na cabeça pra encher aqueles baldes pra passar a semana com água armazenada. Mas isso era uma diversão, porque a gente pulava n’água, carregava pra terra e enchia aquelas panelas. Lavava roupa na beira do rio, tomava banho, lavava louça, tudo era feito no rio... E geladeira, sempre tivemos, mas a gás, que na época não tinha energia, papai comprava a gás. Todos nós passamos nossa infância e juventude morando no sítio, saía pra estudar e retornava. O banho no rio até hoje é divertido, é inesquecível, dá pra reviver isso tudo, não como infância, mas como uma coisa boa. Aqui ainda tem gente que lava roupa no rio, por ser mais espaçoso, tem mais abundância de água, então os panos maiores são lavados no rio. Às vezes [brincava] de mergulhar e de manja pega, que chama mãe d’água, a gente nadava, o outro quando pegava, era aquele que ia pegar os outros... Estudei em Novo Airão, fui pra Manaus e depois voltei pra cá, eu conclui o Ensino Médio depois que essa escola daqui foi fundada. A minha primeira professora foi minha mãe, embora ela tenha estudado só até a terceira série, que quando era criança não tinha escola no interior, nenhum dos filhos foi pra escola sem saber ler e escrever. Até a quarta série eu estudei com Maria, minha irmã, ela ensinava na casa dela, fora do igarapé, mas aqui mesmo na comunidade. Eu passava a semana morando com ela pra estudar e no final de semana minha mãe ia me buscar, a gente vinha e voltava remando na canoa. Também o que eu gostava muito, que pra mim foi inesquecível, é que nós íamos em Manaus duas vezes por ano. Todas as vezes que a gente ia pra Manaus, minha mãe levava a gente no zoológico pra ver os animais. Manaus é só pra comprar alguma coisa necessária, mas viver bem mesmo é aqui... Pra mim lá é muito sufocante, aquele barulho, calor, aquela rua, tudo muito tumultuado. Então a 
gente vai só mesmo pra resolver alguma coisa que não pode ser resolvida aqui e voltamos, aqui é bem mais tranquilo, você poder dormir com a janela aberta, a casa aberta, sem medo. Só o fato da gente poder tá sentada aqui olhando tudo ao redor, a floresta, assim, em Manaus a gente olha pros lados, só vê parede quase, na maioria das casas é assim, então eu acho que é melhor aqui.

Na época da minha juventude e infância a comunicação era mais difícil. A gente não tinha telefone, então o meio de comunicação, quando eu era criança era por carta. Tinha uns barcos que chamavam de Regatão, que saiam no beiradão vendendo mercadoria e quando as pessoas necessitavam mandar uma carta pra Manaus pra informar alguma coisa mandavam por eles. Ele gastava um tempão pra chegar lá, mas quando chegava entregava a carta ao destinatário. Hoje, a gente tem acesso à Internet, tem o telefone, não de modo geral porque só pega na antena rural, mas já tem vários outros meios de comunicação, isso melhorou muito... Energia antes era do gerador, ele era movido a combustível e o horário de funcionamento era das seis às dez da noite, o gerador não tinha capacidade de poder ligar uma geladeira ou outra coisa, só era pra luz e pra televisão. Com o projeto da Villa Smart da energia solar, nós já pudemos usar a geladeira; quando ninguém tinha geladeira, não podia 
comer um peixinho fresco. Quando conseguia o peixe, tinha que tratar e salgar, era a única forma de armazenar o peixe. E hoje em dia, as pessoas podem ter uma fruta na geladeira, uma verdura, um peixe novinho, então melhorou muito. Há menos de um ano, chegou a Luz para Todos, a gente já pode ter acesso a todo tipo de eletrodoméstico, sem restrição, então melhorou muito pra todos, fez diferença! Tanto pra dentro de casa, como pro trabalho, as pessoas que trabalham com carpintaria tiveram como melhorar, compraram plaina elétrica, tudo elétrico, então melhorou muito a qualificação do trabalho, pessoas que fazem canoa, remo, construção de casas, então tem bastante trabalho. 

Quase toda família tem um sítio, lá mesmo no sítio do meu pai tem bastante árvore de laranja... A manga, a laranja, o abacaxi, essas coisas dá pra cultivar aqui mesmo. Por exemplo, se eu tenho uma fruteira que tá produzindo, eu apanho as frutas da minha fruteira e dou pros meus vizinhos, mas troca não. E assim eles fazem quando tem alguma coisa, eles dão pra gente, a vida de comunidade é isso... Não foram eles que vieram mudar nossa comunidade, nós sempre tivemos nossa comunidade bastante organizada, em termos de manter limpa, sem lixo. Então isso também valoriza muito, porque as pessoas que vêm de fora reparam muito nisso, então a partir daí a nossa comunidade ficou bastante reconhecida. 

Hoje em dia, todos sabem que pra gente ser reconhecido a gente tem que também fazer a nossa parte, trabalhar. Então eu acredito que tem pessoas aqui na comunidade que puderam ser reconhecidas pelo seu trabalho; não só o nosso trabalho da pousada, mas outros trabalhos que tem. A educação também foi fator principal, muita gente tinha parado de estudar, porque não podia, os pais não tinham condições de colocar os filhos em outro lugar pra continuar estudando. Hoje em dia ficou muito mais fácil, Ensino Fundamental e Médio, cursos que vieram pra cá de empreendedorismo, vários outros cursos. É ensino a distância, televisionado, tem os professores ministrantes e o professor presencial na sala de aula pra tirar dúvida dos alunos. Tudo começou de uma maneira muito impactante, porque as pessoas daqui trabalhavam muito com a madeira. Depois foram surgindo os órgãos de proteção ambiental, foram surgindo com mais frequência e isso causou um impacto, porque comunitários foram presos com a retirada de madeira ilegal. Isso causou uma revolta muito grande na reserva toda, hoje eu posso dizer reserva, e daí foi feita uma movimentação. As comunidades se reuniram, somos 19 comunidades aqui da reserva. Foi feito um movimento pra tentar solucionar esse problema, porque as pessoas que tinham sido presas eram bastante queridas aqui na reserva, e causou um impacto grande. Fizeram o movimento e foram pra Manaus, na sede do governo, fazer um protesto. Nesse protesto teve a presença de vários órgãos, houve um consenso e a Amazonas Sustentável resolveu dar apoio aqui.

Foi criada a RDS que é Reserva de Desenvolvimento Sustentável, porque éramos APA, Área de Proteção Ambiental. Como RDS, a gente poderia permanecer aqui, mas de uma forma mais organizada. Cada comunidade tem um projeto do manejo florestal, meus [dois] filhos, de 17 e 15 anos, moram aqui, estudam, estão fazendo o primeiro ano do ensino médio. Nunca falaram que queriam mudar. Eu acho que eles gostam daqui. Várias pessoas que saíram, hoje em dia tão voltando pra trabalhar, se qualificaram lá fora e estão voltando pra trabalhar aqui... Sempre foi pela falta de emprego, porque se fosse só pela qualificação dava pra ir e voltar, como tá acontecendo hoje. Mas só que a pessoa ia lá fora, se qualificava e não tinha como voltar pra cá e arranjar um emprego, e hoje em dia algumas pessoas já tiveram essa oportunidade... Peixes a gente compra daqui das comunidades vizinhas, a farinha, a macaxeira, verdura a gente compra lá no Saracá, que é uma comunidade, e galinha caipira também nós conseguimos aqui mesmo de pessoas que criam. Então isso tudo vai gerando renda pra várias pessoas. Não era muito costume, porque como não tinha pra quem vender, as pessoas não produziam; mas depois que passou a ter quem comprar, já tem pessoas que criam, que plantam pra vender. Então, deu um incentivo também pros produtores, além de ser mais saudável, uma verdura de boa qualidade, a própria galinha caipira, que é uma das preferências de muitas pessoas, uma carne saudável, comprada aqui mesmo, novinha; o peixe também, nós temos nossos fornecedores que pescam e já trazem pra gente. A organização da comunidade, nós temos aqui o nosso local de trabalho, mas a gente procura ser muito junto com a comunidade. Hoje em dia tem uma liderança, quando essa liderança faz a reunião, a gente participa com a comunidade... todo mundo coopera. Tem um grupo responsável pelo esporte, os meninos fazem parte do grupo esportivo. Todos eles estão tecendo a malhadeira, que é para as traves: um tá tecendo, o outro tá esperando a vez, quando um cansa, o outro pega, é uma maneira coletiva de produção. É o mesmo jeito de fazer rede, só que com os fios grossos, pra aguentar a bola.

Uma pessoa não vive sem sonhos, mas eu quero trabalhar cada dia, tentar melhorar mais, e ver os meus filhos se dedicando a fazer a mesma atividade que a gente tá fazendo. E eles estudando, eu vejo, assim, um futuro bem melhor pra eles. Eu penso em mim, mas também eu penso bastante neles e to feliz...Eu acredito que o futuro é aqui mesmo. Aqui a gente tem oportunidade e lá fora pode ter muita oportunidade, mas também tem muita gente no mesmo objetivo, então aqui tem o local, tem o trabalho e tem tudo, tem o apoio, eu acho que o futuro é aqui mesmo. Sim, eu acredito que esse meu sonho também seja o sonho deles, porque hoje em dia nós temos praticamente tudo aqui. E o que eles gostam, meu filho gosta muito de futebol, ele tem aqui. Tem os meios de comunicação também, Internet, tem o Face, tem WhatsApp, então a gente não tá isolado, tá em contato com o mundo mesmo, tá bem atualizado. E sempre nós saímos, vamos para outros lugares, Manaus, eles têm acesso 
ao cinema, shopping... Não é porque a gente mora aqui no meio da floresta que não tem conhecimento de outras coisas. Ou seja, nós temos conhecimentos de outras coisas, mas a gente acha que o nosso lugar é aqui, então a gente vive feliz e eu vejo que eles também querem isso pra vida deles.

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