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Agora consigo sonhar

História de: Eliane
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2013

Sinopse

Em sua entrevista, Eliane relembra do período em que foi para Escola Estadual e por influência dos amigos mais velhos começou a usar droga para se enturmar. Conta como foi o processo de começar com maconha até usar crack, suas duas gravidezes, as dificuldades que enfrentou por estar viciada, o abandono de sua primeira filha, sobre o período que se prostituiu para conseguir manter seus vícios e todo o processo de entrar no ViraVida e mudar drasticamente de vida, reconquistou seus familiares e sua autoestima, além de contar de como voltou a sonhar e quais são seus futuros sonhos.

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História completa

Sou Eliane, tenho 24 anos, e faço parte do projeto ViraVida. 

Fico feliz quando as pessoas dizem que sou parecida com minha mãe. Porque minha mãe é uma mulher muito bonita. Minha mãe é uma coroa de parar qualquer trânsito! Ela tem uma loja de confecção, uma lojinha de bairro. O meu pai é motorista de uma lavanderia industrial. Eles se separaram quando eu tinha onze anos. Ele tinha muito ciúme da minha mãe e a ficava ameaçando todo o tempo. Às vezes, a gente não podia nem dormir em casa, com medo das ameaças dele. Mas, graças a Deus, ele viu que realmente não dava mais pra continuar vivendo daquele jeito. Aí foi morar com outra mulher. Minha mãe também foi viver com outra pessoa e tudo se normalizou.

 

Quando completei 12 anos, fui estudar na Escola Estadual. Era uma escola maior, com mais de mil alunos. Comecei a me envolver com pessoas mais velhas. Elas usavam droga e eu me sentia na obrigação de usar também. Não queria ser diferente. Comecei a fumar maconha, mas não gostava, usava só por usar. Dos 12 aos 15 anos, foi só maconha. Aí comecei a engordar porque só comia e dormia. Fui ficando muito gorda e aquilo mexeu comigo. As pessoas faziam piada. Depois, comecei a usar maconha misturada com crack pra perder peso. Fui fumando, fumando, fumando... Fiquei bem magrinha, bem bonitinha. Aí eu disse: “Tá bom, vou parar, senão vou ficar magra demais e o pessoal em casa vai perceber.” Mas não consegui mais parar, já estava viciada.     

 

Por um bom tempo consegui sustentar meu vício apenas com o trabalho. Mas depois comecei a roubar, a me prostituir, a fazer de tudo. Fui morar nas ruas quando meus pais descobriram. Aos 17 anos engravidei e parei de usar drogas. Quando minha filha completou um ano e um mês, voltei ao crack. Queimava as mãos, os lábios, o nariz, a boca. A fissura era tanta, nem percebia que estava me queimando. Não comia, não dormia. Vivia só para as drogas. O pai da minha filha também começou a usar, aí ficou pior.

 

Nessa época fui morar com meus avós. Minha avó quebrou o fêmur e precisava de ajuda. Eu e meu companheiro consumíamos crack dia e noite. Para conseguir a droga começamos a roubar as coisas de dentro da casa pra vender e comprar mais droga. A situação chegou ao limite. Foi um choque muito grande pra minha mãe. 

 

Quando ninguém me aguentava mais, o jeito foi sair de casa. Me separei do pai de minha filha, porque a gente já estava brigando por droga. Se eu fumasse mais do que ele, já queria me bater. Não tinha mais de onde tirar dinheiro e eu vi que se fosse roubar, ia ser pior pra mim. Uma vez, na rua, eu e outra menina fomos tomar a bolsa de uma mulher. Não deu certo. A polícia veio, só não levou a gente porque ela decidiu não prestar queixa. A única saída que encontrei foi me prostituir. Quando as pessoas não sabiam pra que era, davam até um dinheiro legal, setenta reais, cinquenta reais. Mas quando todo mundo ficou sabendo que eu era drogada, ninguém queria dar mais do que dez reais por um programa. Foi ficando difícil. Dormia numa boca hoje e amanhã em outra. Não tinha mais um canto fixo.

 

Meus clientes eram homens de mais idade, que moravam sozinhos. Às vezes eram os vigias de rua, porque eu andava muito na madrugada. Eram 24 horas em busca da droga. Usava uma e já ia atrás de mais. Só fazendo programa mesmo que eu conseguia dinheiro pra me drogar. Eram cem reais por dia, em média. Uma pedra custa dez reais. Se você for com nove reais e cinquenta centavos, os traficantes te humilham, não veem um viciado como ser humano. Veem como objeto, como bicho.

 

Todas as vezes que meus pais me levaram pra centros de recuperação, eu fugi. Uma vez, minha mãe foi à polícia e pediu autorização pra me amarrar dentro de casa e eles deram. Ela me algemou, mas meu braço estava tão magrinho que consegui tirar a algema, abrir a porta do quarto e pular de um muro altíssimo. Eu fazia coisas inexplicáveis nos momentos de loucura.


Já não tinha esperança, a vida não fazia sentido. Perdi minha filha. Minha mãe não me queria por perto. Comecei a dever ao traficante e a ser ameaçada de morte. Fumava sempre com um menino. Uma vez ele me pegou à força. Me estuprou e pronto. Fiquei com medo, andava com uma faca, parecendo uma doida. A gente usa a droga, mas quando acaba vem a angústia, a depressão, o arrependimento. Todo viciado tem esse sentimento. Estava arrependida daquela vida, porque antes eu tinha uma vida boa. De repente estava morando na rua. Chorava. Não podia ver minha filha. Estava tão debilitada, tão magra, tão suja que tinha vergonha de ir pra casa e enfrentar minha mãe e as pessoas conhecidas.


Fiquei grávida novamente. Foi com o homem que eu tinha feito o meu primeiro programa. Ele gostava muito de mim e sempre me procurava. Ele sempre dizia: “Vem morar aqui comigo, sai dessa vida! Vem morar aqui.” Mas eu nunca aceitei, não sei por quê. Durante a gravidez continuei usando droga, ao contrário da minha primeira gravidez. Quando tive a minha menina, eu parei, mas dessa vez não.  Continuei usando, me drogando. O pai da criança dizia: “Ah, meu Deus do céu, o que eu vou fazer? Essa criança vai nascer doente!” Minha irmã, que sempre gostou de conversar comigo, hoje é evangélica, falava: “Eliane, tu já vai ter duas crianças, o que vai ser dessa criança que tá pra nascer? Uma, mainha cuida; a outra quem vai cuidar, Eliane?” Aí botou aquilo na minha cabeça. Foi quando uma amiga minha que estava no ViraVida me procurou. Ela disse: “Eliane, tem um projeto que é bom que só! Por que tu não vai fazer inscrição?” Ela me explicou o que era o projeto ViraVida. Quando ela falou em dinheiro, eu gostei e me inscrevi mais pelo dinheiro. Eu pensei: “Oxe, eu vou ter quatrocentos reais todo mês, tá ótimo! Vai dar pra eu usar droga até umas horas!” Quando eu fiz a inscrição, fazia pouco tempo que a primeira turma tinha entrado. Eu pensava que não seria mais chamada.

 

Quando o menino nasceu, fazia doze dias que eu não usava droga. Eu achei impressionante, porque eu não tive de pensar: “Ah, hoje eu queria...” Não tive mesmo. Porque a criança estava substituindo aquele vazio que eu sentia. Eu sofro muito por não ter cuidado da minha menina, aí eu queria fazer diferente com meu novo filho.

 

Quando ele completou seis meses, o ViraVida me chamou. Na seleção, perguntaram sobre a minha vida, eu falei tudo, aí fui selecionada. Quando eu fui selecionada, foi uma coisa muito boa, porque eu já estava querendo sair das drogas, aí eu vi como uma chance. O ViraVida foi uma chance pra eu sair daquela vida.

 

Sempre gostei de tirar notas boas, sempre fui uma boa aluna e aqui no ViraVida não foi diferente. Na primeira semana, foi aquele grupão. Eu ficava assim: “Ai meu Deus, tem tanta gente que eu não vou com a cara aqui, como vai ser?” Mas não. Parece que Deus escolheu as pessoas certas pra estarem na minha sala. E eu me dou bem com todo mundo e todo mundo se dá bem comigo, nunca tive intriga com ninguém.

 

Com o dinheiro que recebi da bolsa do Vira Vida, eu comecei a investir em mim, comecei a voltar a vender produtos de beleza. Eu vendia aqui pra todo mundo. Eu vendi à todos os alunos, funcionários... Comecei a voltar a viver novamente. Uma das primeiras coisas que eu fiz foi procurar uma babá pra tomar conta do meu filho. Até hoje, tem a menina que toma conta dele. Já faz um ano, desde que eu entrei no projeto ViraVida.  

 

Teve um momento, já no curso, que eu tive uma recaída, mas só foram dois dias. Eu tava num momento não muito bom. Tinha discutido com meu marido, aí passei dois dias fora de casa. Tava com um dinheiro e gastei todinho só em droga. Depois eu pensava que as pessoas iam se afastar de mim novamente, que eu seria expulsa do ViraVida, porque quando minha mãe ficou sabendo, imediatamente ela ligou pra o ViraVida: “Olha, suspenda a bolsa dessa safada que ela voltou a usar droga!” Mas não. Todo mundo do curso me apoiou, todo mundo chorou. Eles falavam: “Pelo amor de Deus, Eliane, não volte pras drogas não!” Aí eu vi que pra que voltar pras drogas, se eu estava tão bem, todo mundo gostando de mim? Eu vendo todo mundo chorando, eu digo: “Meu Deus do céu, como eu sou querida aqui, todo mundo chorando por mim!” Eu nunca tinha faltado às aulas. Naquele dia, eu faltei por causa da recaída. Os alunos que estudavam comigo não foram à aula, foram atrás de mim. Eu me senti muito querida e vi que não ia valer a pena eu desistir: “Pra que eu voltar pras drogas?”, pensei. Aí pronto. Teve só esse momento mesmo e espero que fique lá no passado.

 

Foi mesmo uma vitória, porque é tão difícil um viciado em crack sair, muito difícil. Hoje em dia eu passo, vejo os meninos lá vendendo, não sinto mais nada. Eu olho e tenho pena. Essa turma, quando me vê, fica tirando onda: “Piá santinha, a noiadinha santinha.” Eles que estão lá, fazendo a mesma coisa que eu fazia, por nada.

 

Meu dia a dia é isso. Vivo com meu filho, meu marido. Juntei um dinheiro, investi em perfume, comprei mais de mil reais em mercadoria e vendi no dia dos pais. Quando eu for repondo aquele dinheiro, vou comprando mais. Porque eu compro na promoção, aí com uma promoção, por exemplo, um perfume é oitenta reais, eu compro numa promoção de sessenta, já ganho vinte, e com minha porcentagem, eu vendo pelo preço normal e divido para o cliente. Aí dá pra ganhar uma grana boa. O sonho de consumo é ter uma moto, porque eu tenho muitos clientes e atualmente só ando de bicicleta ou a pé. Meu sonho de consumo é esse, mas meu sonho mesmo é ser feliz, esquecer tudo que aconteceu no passado. 

 

Hoje eu vejo que as pessoas já me olham diferente, dizem: “Como ela tá diferente, nem parece...” Já chegou uma vez deu estar no ônibus, com o uniforme do ViraVida, e uma mulher ficou olhando, olhando, olhando... Aí eu disse: “Tudo bem?” Ela: “Tu é filha da Cláudia?” Eu disse: “Sou.” “Aquela que era bem magrinha?” Eu respondi: “Aquela mesma.”

Hoje trabalho como vendedora.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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