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Agente Comunitário de Saúde sim, com muito orgulho

História de: Luiz Cláudio Pinheiro Chaves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2004

Sinopse

Nesta entrevista Luiz Cláudio Pinheiro Chaves conta um pouco sobre sua infância, do amor e respeito que sente por seu padrasto e do reencontro que teve com seu pai biológico. Luiz Claúdio conta ainda sobre as doenças que por muito tempo assombraram os moradores de Marapanim (PA) e de como hoje ele é responsável pela identificação e prevenção delas, atuando como Agente Comunitário de Saúde, profissão essa que sente um enorme orgulho de exercer.

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História completa

P/1 – Bom, então vamos começar com você me falando o seu nome completo, o local e a data de nascimento?

 

R – Eu chamo Luiz Cláudio Pinheiro Chaves, sou de 24 de novembro de 1973, nasci em Belém, retornei ao Marapanim com cinco anos de idade e até agora estou aqui crescendo justamente com a minha comunidade desenvolvendo o trabalho de agente de saúde.

 

P/1 – Foi bom isso, a gente relaxou mais um pouco...

 

R – Pois é.

 

P/1 – Agora, vamos começar lá dos seus avós. Você estava falando da origem dos seus avós, vamos pegar pelo lado do seu pai. Fala de novo o nome dos seus avós e aí a gente retoma aquela história da sua adoção.

 

R – Bem, no meu caso, os meus avós faleceram também, chamam Alcides Pinheiro e Angélica Pinheiro. E tem por outro lado o meu pai adotivo, que se chamam Osmarina Gonçalves e Américo Chaves, meus avós.

 

P/1 – Então pelo lado dos adotivos?

 

R – Isso, eu coloquei praticamente os dois, que no caso Osmarina Gonçalves é adotivo e Américo Chaves também.

 

P/1 – Então o seu registro de Chaves é pelo lado adotivo?

 

R – Isso, Pinheiro pela parte de minha mãe, minha família mesmo.

 

P/1 – Então pela parte da sua família, da sua mãe legítima?

 

R – Isso.

 

P/1 – Me conta um pouco da história do seu nascimento, a dificuldade que a sua mãe teve? Sua mãe legítima?

 

R – Bem, no meu caso a minha mãe morava em Belém, trabalhava como serviço doméstico. Conheci ambos, são daqui de Marapanim mesmo, de Bacuriteu. Em Belém se encontraram, namoraram muito tempo, no entanto o que aconteceu? A minha mãe engravidou e depois de tudo a minha mãe contou a ele e ele recusou-se.

 

P/1 – O que sua mãe fazia lá? Ela trabalhava?

 

R – Ela trabalhava em casa de família.

 

P/1 – E o seu pai?

 

R – E meu pai trabalhava em supermercado.

 

P/1 – Em supermercado? Ele fazia o quê?

 

R – Ele trabalhava, era balconista.

 

P/1 – Balconista? Aí não deu certo o caso e você nasceu?

 

R – Exatamente. E quando ele soube que a minha mãe estava grávida, ele saiu do emprego por duas vezes. Minha mãe atrás e nada. E o que aconteceu foi que com essa situação toda depois que eu nasci, eu tinha meus cinco anos, uma tia minha com casa em Marudá, eu vim morar com ela.

 

P/1 – Eles eram muito novos? Quantos anos tinha sua mãe?

 

R – Minha mãe estava com 21 anos.

 

P/1 – Seu pai?

 

R – Meu pai na faixa de uns 26 anos.

 

P/1 – Então depois você ficou com a sua tia alguns anos, mas bem criancinha?

 

R – Isso, na faixa de três até cinco anos. Depois meus pais se conheceram e se casaram, eu estava com cinco anos, comecei a fazer parte realmente da família.

 

P/1 – A família que te adotou?

 

R – Isso, exato.

 

P/1 – Mas como é que foi essa adoção?

 

R – Bem, meus pais primeiramente se conheceram aqui, mas o meu pai já sabia, podemos dizer assim, do erro que a minha mãe já tinha e, no entanto, ele não colocou dificuldade nenhuma; disse que me assumiria mesmo assim. Os dois casaram, comecei a morar com eles e desde lá nós temos uma convivência muito boa. Respeito bastante ele, comecei a chama-lo de pai logo do início, logo que nós começamos a morar juntos. E respeito até agora. Ele gosta muito de mim, não tenho dificuldade nenhuma com ele.

 

P/1 – Ele faz o quê?

 

R – Bem, é lavrador. É lavrador e também tem bar, trabalha um pouco de bar, mais na parte da lavoura.

 

P/1 – E ele se casou e te adotou logo em seguida?

 

R – Isso, exato. Quando os dois casaram, ele me adotou logo, logo de uma vez.

 

P/1 – E ele já te conhecia?

 

R – Já, já conhecia.

 

P/1 – Antes do casamento? Tinha já uma relação?

 

R – Já, como eu falei anteriormente, ele já conhecia minha mãe e já conhecia esse erro dela, no entanto, quando ele pediu a mão da minha mãe em casamento...

 

P/1 – Ah! Ele se casou com a sua mãe legítima?

 

R – Isso.

 

P/1 – Ah! Está certo, agora que eu entendi a história. Pensei que só o seu pai, vamos dizer padrasto, não é um casal que te adotou?

 

R – Tem um ditado muito bem certo: o pai é aquele que cria.

 

P/1 – É aquele que cria, está certo!

 

R – Então, foi o que aconteceu, ele já conhecia esse erro, no entanto, assumiu. Eu acho bonito nessa parte aí, ele me respeita muito; eu, claro, também respeito muito, comecei a chamar de pai lago do início até hoje, muita gente se surpreende: “Pô! Chama de pai!”. Mesmo até porque ele é um pouco baixo e eu sou alto. E o pessoal: “Poxa, mas é teu filho?”. Eu digo pra qualquer pessoa que eu sou mesmo e muita gente acredita mesmo que a gente tem alguma coisa de semelhante de aparência.

 

P/1 – É, e acaba pegando com a convivência?

 

R – E graças a Deus até hoje é perfeita nossa convivência.

 

P/1 – Então a sua mãe se estabeleceu aqui com ele. Ela trabalha também ou não? Faz alguma coisa?

 

R – É, exatamente, os dois se conheceram nesse tempo, eram mais fartas as coisas, hoje em dia é mais dificultoso, no entanto, ela saiu do emprego e começou a morar mesmo aqui. Ela perdeu uma grande oportunidade de ir para o Rio de Janeiro, porque a família que ela estava tinha uma estabilidade financeira boa, mas só que nesse tempo a minha avó – ela era viva – não quis deixar que a minha mãe fosse. Mesmo assim eu fui batizado por essa senhora, pela qual a minha mãe trabalhava e ela pediu para minha mãe se eu podia morar com ela, no caso nós íamos para o Rio e, no entanto, a minha mãe não quis, me trouxe assim mesmo e até hoje aqui estou.

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho dos seus avós. Eu ia começar pelos seus avós, depois você falou do seu pai adotivo e eu quis entender um pouco essa história. Mas pelo lado do seu pai adotivo então que é que você sabe da história dos pais dele? O que eles faziam?

 

R – Naquele tempo eles tinham também, podemos chamar de negócio de comércio.

 

P/1 – Comércio, aqui mesmo em Bacuriteu?

 

R – Porque naquele tempo Bacuriteu era muito desenvolvido, no entanto, Marudá, não é?

 

P/1 – Marudá, não?

 

R – Isso, Marudá de Bacuriteu tem cinco quilômetros, no entanto, não era desenvolvido.

 

P/1 – Aqui em Marudá?

 

R – Isso, e era só Bacuriteu, que se concentrava tudo, no comércio era muito grande. Depois as famílias foram morrendo, as pessoas saindo. Foi o que aconteceu com meu avô, ele tinha um grande comércio, depois morreu.

 

P/1 – Comércio de quê? Secos e molhados? Qual era?

 

R – Da terra, negócio de...

 

P/1 – Bar?

 

R – Isso, bar, mexia com tudo, bar, negócio de alimentação também.

 

P/1 – Vendia um pouquinho de tudo?

 

R – Isso, exato, um pouco de tudo ele mexia. Era isso e viajava muito também, negócio de comércio.

 

P/1 – Seu avô é de onde?

 

R – Olha, eles são descendentes de português.

 

P/1 – De português? Estão aí na região há muito tempo ou seu avô é que veio para cá?

 

R – Não, ele é que veio pra cá. No caso a minha avó já morava aqui, se conheceram.

 

P/1 – E você sabe de onde ele veio?

 

R – Não, não consigo lembrar de onde ele veio.

 

P/1 – E como é pelo lado da sua mãe? A sua avó você conheceu também? Ela ainda está viva?

 

R – Nesse tempo eu tinha meus quatro anos, recordo um pouco dela, nesse tempo ela estava de coma, ficava só na rede e ela é uma mulher muito batalhadora, desde novinha.

 

P/1 – Ela era doente?

 

R – Isso. Não, nem tanto. Foi ficar doente depois que ficou um pouco mais idosa, mas trabalhava muito na lavoura, carregava muito peso naquele tempo, era um trabalho dificultoso. Então ela desceu de uma queda que ela pegou, ficou de coma.

 

P/1 – Ficou em coma?

 

R – Isso, mas ela morava, sempre morou em Bacuriteu mesmo, sempre daqui. E pela parte desse meu avô, também tem descendência de português.

 

P/1 – Do pai da sua mãe?

 

R – Isso, também.

 

P/1 – Descendente de português?

 

R – De ambos, praticamente.

 

P/1 – Mas está lá em Bacuriteu há muitos anos?

R – Isso, há muitos anos. Só que o meu avô veio a falecer em 1996.

 

P/1 – Você conheceu ele?

 

R – Cheguei a conhecer. Era alto, no entanto, morreu lúcido. Nessa parte eu gosto muito. Tem vez que eu recordo, eu me emociono nessa parte, porque era um homem que sabia bastaste das coisas. Porque (felizmente?) os jovens de hoje não conseguem assimilar certas coisas. Se eu pudesse aprender tudo que ele me ensinava, eu gostava de... Quando eu fazia as visitas nesse tempo, eu comecei a atuar, no trabalho fazia as visitas, ele se surpreendeu quando eu comecei a trabalhar como agente de saúde, no entanto, ele me contava muitas histórias passadas dele; o trabalho dele, ele era pescador, pescava muito, sempre foi dificultoso o trabalho dele.

 

P/1 – Então ele morreu tem pouco tempo? Você já era agente?

 

R – Foi, pouco tempo. Foi agora em 1996. Morreu com 94 anos, lúcido. Teve uma morte lenta, que podemos dizer, essa é umas das partes que eu conto assim, porque eu acho bom. É a única recordação que eu tenho bastante dele.

 

P/1 – E do que ele morreu?

 

R – Ele morreu, podemos dizer assim, da velhice mesmo, 94 anos, já não enxergava mais.

 

P/1 – Noventa e quatro anos?

 

R – Isso, 94 anos. Não enxergava mais e a audição dele era pouca também. Só reconhecia as pessoas através das vozes. Quando chagávamos na casa dele, nós tínhamos que nos identificar primeiramente, aí a gente começava a conversar.

 

P/1 – Você disse que te contava histórias? Que histórias que ele contou de família que você achava bacana? Você se lembra de alguma? Não?

 

R – É. Tem algumas histórias interessantes pra você se lembrar assim.

 

P/1 – Alguma coisa ou do lugar ou da família? Você lembra?

 

R – Pois é?

 

P/1 – Bom, se você lembrar, depois você conta?

 

R – Isso.

 

P/1 – Mas como é que era Bacuriteu quando você era mais garotinho? Como você se lembra do lugar? Você disse que lá é maior?

 

R – É. Por exemplo, meu avô, sempre nas histórias quando nós conversávamos, ele contava que o Bacuriteu era muito povoado. Por exemplo, de Bacuriteu pra Marudá tem cinco quilômetros, no entanto, não era muito desenvolvido, e em Bacuriteu o comércio era muito desenvolvido. Em tempo de festa era movimentado. Nesse tempo diziam também que era o melhor time de futebol que tinha na época, eu não perdia nenhum, sempre o pessoal conta. Então Bacuriteu era muito desenvolvido, era muito povoado. Hoje mudei a minha estatística de 250 pessoas e naquele tempo tinha o dobro disso. Então, por que aconteceu isso? Porque muitas pessoas estão indo pra Belém. Aconteceu até com meus irmãos que estão indo pra Belém, só eu que estou aqui mesmo porque eu adoro interior. Então sempre o serviço foi dificultoso em Bacuriteu, mas era gostoso naquele tempo, porque era muito farto, era muito peixe. Temos a praia de Camará, que fica a três quilômetros daqui de Bacuriteu, no entanto, as pessoas não tinham dificuldades em termos de alimentação, qualquer pessoa arranja, alguma uma família. Era divertido quando tinha festa, todo mundo participava, era aquela alegria toda, era bacana, e agora...

 

P/1 – E que tipo de festa que tinha lá que você lembra? Era festa de Igreja?

 

R – Isso, era festa de Igreja, algumas festas particulares...

 

P/1 – Padroeiro?

 

R – Isso.

 

P/1 – Qual que era?

 

R – Do padroeiro de lá é São Benedito.

 

P/1 – São Benedito?

 

R – Até hoje nós temos essa tradição de fazer sempre a festa dele em julho. Naquele tempo se fazia em dezembro, que se comemora São Benedito. Mas em termos de população como está hoje em dia, Bacuriteu com 250 e poucas famílias, quer dizer, se você for fazer uma festa hoje em dia, não tem condições, então já fazemos esta festa sempre quando chega a partir do veraneio, em julho; sempre no terceiro sábado de julho nós fazemos a tradicional festa de São Benedito.

 

P/1 – E o que acontece nessa festa? Tem barraquinha?

 

R – Nessa festa, primeiramente, tem a... Começa logo pela parte da manhã com a alvorada e tem a missa; depois da missa, às cinco horas da tarde, tem a tradicional procissão do mastro de São Benedito.

 

P/1 – Procissão do mastro?

 

R – Isso, de mastro.

 

P/1 – Por que o mastro?

 

R – Bem, o mastro porque São Benedito foi um santo preto como ele é mesmo, no entanto, ele gosta muito de festa, assim de Carimbó, essas coisas folclóricas e pelo lado mais assim... Agora até esqueci. Eu sei que é uma festa tradicional de São Benedito que é muito religiosa, no entanto, tem a parte profana, muito movimentada.

 

P/1 – Esse mastro é o mastro de barco, de embarcação ou não?

 

R – Não exatamente, várias pessoas que levam chamam de cargueiro. Levam tudo no ombro, o resto das pessoas vai é atrás cantando. Tem banda de música que vem de Marapanim.

 

P/1 – Tem Carimbó também ou não?

 

R – Isso, tem Carimbó, a gente usa muito Carimbó, a parte folclórica mais. São Benedito é essa. Na festa dele tem a parte que nós usamos o Carimbó. Tem aqueles intervalos. É uma maravilha quando toca o Carimbó, todo mundo vai dançar, se lembra e a festa termina, é claro, pela parte da manhã. São seis horas da manhã, logo à tarde antes da festa tem a tradicional procissão do mastro e nessa procissão o que é que acontece? A gente vai fincar o mastro ali pra ser derrubado no dia seguinte, ou seja, no domingo às seis horas da manhã. Ele fica todo enfeitado e lá em cima a bandeira de São Benedito. Então na hora que estão derrubando, tem bebidas, frutas e, no caso, a bandeira está lá. Então nessa hora que o pessoal está derrubando, aquele que pegar a bandeira faz a festa no ano seguinte.

 

P/1 – No ano que vem?

 

R – Essa é a tradição lá e é muito divertido.

 

P/1 – E todo mundo quer pegar a bandeira?

 

R – Isso, é uma disputa tremenda, é. E cada ano que uma pessoa faz uma festa, esse quer fazer melhor – é bom por isso, e nesse caso fica muito divulgado com muitas pessoas participando. É por isso que nós fazemos a festa em julho, ou seja, que é comemorado em dezembro a festa de São Benedito, mas nós fazemos em julho porque arrecadamos mais alguma coisa pra parte da Igreja também, e por isso é feita e as pessoas que vem de fora gostam muito.

 

P/1 – Bom, é lembrar só um pouquinho esse período que você ficou até cinco anos. Que memória você tem, você se lembra de alguma coisa nesse período ou não?

 

R – Durante cinco anos.

 

P/1 – Até os cinco anos de idade que sua mãe ainda não estava casada, que você ficou com uma tia, não é isso? Você tem alguma memória desse período ou não?

 

R – Esse período, eu creio dos meus quatro pra cinco anos, eu comecei a me lembrar de certas coisas que eu ia vendo, no entanto, eu vim morar aqui pra Marudá com a minha tia. Eu me lembro que era muito bacana, mesmo até porque eu não conhecia a história dos meus pais.

 

P/1 – Era muito criança, não dava para entender nada?

 

R – Mas só que a minha tia já começava a contar por alto e eu ia pegando.

 

P/1 – Você já ia entendendo o por quê?

 

R – Isso, exatamente. E eu também não fazia pergunta; depois que minha mãe vinha passar as férias por aqui eu falava com ela, mas também não perguntava não, ligava pra isso um pouco. Eu queria saber só de me divertir quando meus primos chagavam, traziam presentes, começávamos a brincar, nós íamos pra praia, era muito divertido e a minha tia sempre morou um pouco perto, morava na praia, nesse tempo a maré enche, é o mês de março aqui na nossa região, no mês de março as marés são muito grandes e depois debaixo da casa e eu achava divertido e começava a brincar, era mais ou menos assim. A gente fazia passeio, ia pra Bacuriteu e voltava, no entanto, foi uma surpresa muito grande depois quando eu comecei a morar definitivamente com a minha família, com meu pai depois que ele assumiu, minha mãe me chamou pra contar o caso que aconteceu.

 

P/1 – Aí você tinha quantos anos?

 

R – Eu tinha na faixa de meus catorze anos.

 

P/1 – Aí você já era adolescente?

 

R – Isso. Ela estava lavando louça e ela me chamou assim na mesa, eu fiquei sentado e ela começou a falar. Eu fiquei quieto ali e depois que ela acabou de contar tudo... Porque diz a minha mãe que se ela fosse contar essa história dela, dava pra se virar tipo uma minissérie, ou seja, uma novela por aí assim, porque é longa e, no entanto, eu não consigo contar porque tem várias partes, tem muitas partes emocionantes. Quando ela começou a contar tudo, no caso quando ela acabou, ela ficou me olhando e depois eu olhei pra ela e perguntei por que ela estava tão surpresa, ela disse: “Não, surpresa estou eu de ver a tua reação”. Minha reação foi essa que eu disse que eu já sabia de tudo.

 

P/1 – Você já sabia mesmo?

 

R – Já sabia de tudo, porque a minha tia me contava antes por alto que esse rapaz com quem ela está não é pai verdadeiro meu. Só que pra mim foi normal. Ela esperava que minha reação fosse grosseira, mas não, foi tranquila; mais tranquila foi quando eu conheci meu verdadeiro pai.

 

P/1 – E quando foi?

 

R – Pois é. Isso aconteceu quando eu voltava de Marudá. Ele vinha de Belém e desceu ali no ramal que vai para Bacuriteu, que são três quilômetros do ramal andando. Ele ia andando de costas pra mim, quando eu passei de bicicleta.

 

P/1 – Você estava de bicicleta?

 

R – Isso, estava de bicicleta, no entanto, a bicicleta de garupa estava vazia. Eu ofereci carona, não conhecia nesse tempo, é claro. Ofereci carona e ele prontamente aceitou. Eu trouxe até a localidade de Bacuriteu e nesse tempo era julho, era o mês de julho e todo julho vem passar as férias e teve essa festa tradicional de São Benedito. Depois, mesmo assim não conhecia, mas depois que fui saber por alto quando as pessoas me contaram que eu tinha trazido meu verdadeiro pai e eu fiquei surpreso, querendo ver melhor meu pai, no entanto, nessa festa dizem que ele não tirava o olho de mim. Eu que nesse tempo também, ele começou a... Porque muito tempo, depois dos meus cinco anos ele nunca mais tinha me visto e ele não tirava o olho de mim. Eu percebia realmente. Aí nesse momento eu não fiquei com rancor, quis realmente conhecer meu pai. Minha mãe ficava meio assim, meu pai também.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Bem, esse meu pai chama-se Fernando.

 

P/1 – Fernando?

 

R – Fernando Magalhães, isso.

 

P/1 – Magalhães.

 

R – E depois nós fomos ter contato de anos seguintes, ele vindo, a gente batendo bola, uma parte que eu gosto muito e ele também. Ele começou a jogar no mesmo time que eu.

 

P/1 – É?

 

R – Negócio de toque de bola e o pessoal: “Toca com teu pai!”. Depois começamos a tocar bola, saímos do campo e começamos a conversar. Pronto, depois ele me apresentou a família dele. A família dele era muito excelente, toda vez que eu vou em Belém faz questão que eu vá na casa.

 

P/1 – Ele mora em Belém?

 

R – Isso, ele mora em Belém.

 

P/1 – Ele faz o que lá?

 

R – Bem, ele trabalhava na feira, trabalhava na feira, no entanto, agora a mulher dele trabalha de costureira e eles estão bem. E toda vez que vou à Belém fazem questão, é aquela festa, é muito bacana, é muito gratificante. É bom por isso.

 

P/1 – Quantos irmãos você tem por esse lado do pai?

 

R – Bem, nesse caso já tenho... Com ele três, somos seis, portanto, seis irmãos.

 

P/1 – Seis? Contando?

 

R – É, porque eu tenho três na minha família mesmo e na dele mais três.

 

P/1 – Três na família com a sua mãe e mais três por lado dele?

 

R – Isso, sem falar do meu irmão Patrick, que morreu com um ano, nesse caso seriam sete, mas vivo mesmo são seis. Agora eu acho surpresa o seguinte: ele não quis me assumir, mas assumiu um filho que também não era dele.

 

P/1 – Ah! É?

 

R – Surpreendente é isso. Ele tem dois filhos mesmo.

 

P/1 – Também a esposa dele já tinha outro filho?

 

R – Já tinha outro filho, mas eu considero esse outro como meu verdadeiro irmão, porque ele também gosta demais de mim, ele faz questão, no entanto, a primeira vez que eu entrei em contato mesmo na casa de Belém de meu pai, foi ele que me levou. A gente se encontrou por acaso na rua: “Vamos lá em casa?”; “Vamos embora”, e eu sem pensar que eu ia pra casa do meu verdadeiro pai, começamos a conversar.

 

P/1 – Aí você não estava sabendo?

 

R – Isso, eu não estava sabendo. “Vamos em casa”. Eu sabia que ele era filho dele, mas só de repente, sei lá, passou despercebido, mas isso não ia significar que eu ia recusar o convite dele, fui. Quando me deparei estava de frente a casa dele, me lembrei: “Puxa, essa casa é do meu pai, e agora? Vou ter um contato melhor ainda com ele”. No entanto, foi surpresa quando eu entrei, ele me recebeu muito bem, mas ficou muito nervoso, eu percebi, ficou logo vermelho. Nós começamos a conversar, foi surpreendente, eu achei bonito aquilo. A gente se dá super bem e também dá super bem também os meus pais, quer dizer, meu pai adotivo se dá super bem com ele também; só minha mãe que está meio assim, mas ninguém guarda rancor não, é muito bom. E com exemplo eu tenho, eu percebo, eu tenho 23 anos, mas jamais eu pretendo fazer o que ele fez, porque eu acho que é muito ruim, principalmente na situação de hoje em dia, uma família que não está bem estabilizada, constituir família, o que vai acontecer? Pode acontecer o que aconteceu comigo ou então em outras palavras a pessoa não tem certa estabilidade, vai sofrer seu filho, a mãe, o pai, principalmente quando chega na parte de saúde, então eu tenho isso como exemplo de não fazer jamais com minha família; se eu fizer, eu vou assumir.

 

P/1 – Já aconteceu alguma coisa na área da saúde?

 

R – Bem, nessa parte não, mas a gente vê muitos exemplos desses, ou seja, da parte de estabilidade da pessoa. Na minha comunidade eu me deparo com muitos casos assim, de famílias que não tem certa estabilidade de vida, mas constituem família. No entanto, tem um caso lá em Bacuriteu de um rapaz, que ele até se juntou esse ano agora em 1996 ainda, ano passado, aliás, com uma moça, a família não gostou, mas os dois se amam, o importante é que estão vivendo juntos, a criança tem cinco meses, vivendo super bem.

 

P/1 – Você se lembra de algum caso de doença, de algum problema de saúde na sua família, ou pelo lado da sua mãe ou na comunidade ali de Bacuriteu quando você era pequeno?

 

R – Bem, naquele tempo nós tínhamos muitos casos de diarreia, não é?

 

P/1 – Casos de diarreia?

 

R – Isso. Tinha bastante criança no rio, não muito, mas tinha alguns casos de diarreia, da pessoa procurar logo o posto médico. No entanto, aconteceu comigo, no caso eu perdi um irmão. Depois de mim, o Patrick, morreu foi de diarreia.

 

P/1 – Diarreia?

 

R – Isso, foi esse o caso, exato.

 

P/1 – Ele tinha... Era novinho?

 

R – Ele ia fazer um ano quando ele morreu de diarreia, foi. De lá pra cá eu comecei, tudo que era parte de saúde começou a me interessar; quando chegou o programa de agente de saúde, quando fomos fazer primeiramente o teste e tudo, eu vi logo de início que seria muito bom e me lembrei do caso do meu irmão, eu sabia que eu tinha uma grande responsabilidade na minha comunidade, mesmo até porque os casos anteriores de saúde as pessoas e muitas crianças morriam disso e o grande exemplo eu tive da minha própria família.

 

P/1 – Por que você teve? No caso do seu irmão? Ou teve outros casos?

 

R – Teve outros casos que morreram de várias famílias lá, depois desse meu irmão teve outros casos que morreram.

 

P/1 – De?

 

R – Diarreia. Então o único caso que teve de saúde que eu vejo em Bacuriteu, a parte negativa foi essa de diarreia que afeta mais a população.

 

P/1 – Depois que a sua mãe se casou então, você já estava com cinco anos, aí seus irmãos nasceram mais ou menos em que período?

 

R – Bem, esse, o Patrick que morreu.

 

P/1 – Foi o primeiro depois de você?

 

R – Isso, nasceu em Marudá, nessa casa da minha tia, essa tia que estava me criando. Depois veio a Tatiane que nasceu em Bacuriteu. Por último veio o Rodrigo; o Rodrigo nasceu também em Belém, na Santa Casa. Quer dizer, eu e o Rodrigo nascemos em Belém e os outros meus dois irmãos, a Tatiane que ainda está viva, nasceu em Bacuriteu e o outro que morreu, nasceu em Marudá.

 

P/1 – E você já ajudava a sua mãe, acompanhou os seus irmãos?

 

R – Isso, desde pequeno eu ajudava bastante a minha mãe, sempre ela me ensinava fazer as coisas. Nessa parte, eu creio que eu estou... Agradeço a minha mãe pelo planejamento familiar que ela tinha. Até mesmo os meus avós, eles eram muito rígidos em termos de família. Gostava de família, ou seja, não o tipo certinho, mas viver bem e, no entanto, é um caso surpreendente, no caso quando eu era pequeno – tem mais essa história que eu me lembrei agora – minha mãe tinha um asseio muito comigo, então as pessoas achavam que aquilo ali era demais, porque tinham até pessoas que pegavam, que vinham suados que tocavam em mim, ela passava álcool.

 

P/1 – Álcool?

 

R – Isso, até álcool, dizem. Diz ela que não, acho que o pessoal aumentou nessa parte, porque na criança passar álcool é demais, mas diziam que ela tinha o maior cuidado comigo. Durante eu estar engatinhando, no caso eu não ficava no chão, ou seja, descalço, colocava luva, tudo isso, ela tinha um cuidado.

 

P/1 – Luva?

 

R – Isso, luva, nesses momentos que ficava no chão. Criança quando está no chão começa a colocar a mão na boca.

 

P/1 – Não, ela estava certa, mas é muito surpreendente pra ela?

 

R – Pois é, ela colocava luva, pra ver só que ela tinha muito...

 

P/1 – Porque tem micróbio.

 

R – Exato. E não deixava eu ficar nu também no chão, era com a roupa quase completa, se tivesse que ficar no chão era assim. Então, outras pessoas ela não confiava em deixar na mão, tinha o maior cuidado comigo em termos de saúde. Mesmo até porque, eu digo que meus irmãos nunca chegaram a ter um tipo de vida, em termos de saúde, quanto a minha, sempre foi meio dificultoso. Eu ainda tive esse lado um pouco bom, posso dizer, esse lado meio burguês que eu tive nesse tempo até os cinco anos, fui muito bem tratado.

 

P/1 – Por que eles não tiveram?

 

R – Bem, não tiveram foi a parte financeira. Depois a minha mãe deixou o emprego, meu pai também não tinha emprego garantido. O que aconteceu é que os dois começaram a trabalhar.

 

P/1 – Trabalhar onde? Na lavoura?

 

R – Na lavoura.

 

P/1 – E eles então foram morar lá em Bacuriteu? Eles tem terra lá, como?

 

R – Tem, tem terra, tem roças, tem sítio.

 

P/1 – É um sítio pequeno? Quantos alqueires?

 

R – Não, é bastante grande, então tem esse caso que eu conto, que eu fico surpreendido em termos de saúde. Então desde lá, o nosso planejamento familiar, da minha mãe, foi perfeito. Eu ajudava muito ela fazer as coisas, lavar a louça, ela gostava da louça dela sempre bem limpinha, no entanto, quando ela ficava doente, era eu que lavava até a roupa dela.

 

P/1 – Você não falou o nome da sua mãe. Qual é o nome todo dela?

 

R – Bem, o nome da minha mãe é Maria das Graças, conhecida como Graça mesmo.

 

P/1 – Maria das Graças?

 

R – Maria das Graças Pinheiro Chaves.

 

P/1 – Pinheiro Chaves.

 

R – Pinheiro Chaves.

 

P/1 – E, bom, você se lembra só desse caso da diarreia que você perdeu seu irmão, deve ter sido muito dramático para sua mãe.

 

R – Foi demais, eu fiquei chocado, foi uma coisa surpreendente e o primeiro filho que minha mãe perdeu também.

 

P/1 – Não tinha assistência ali, Luiz? Ela não teve recursos, como é que foi?

 

R – Nessa parte, eu acho que ela não teve certa orientação. Eu me recordo que ele já nasceu com aquele problema, no entanto, ela dava bastante leite do peito, está certo que é bom, mas eu não sei o que foi que aconteceu que ele não conseguia resistir. Levaram vários tipos de remédio caseiro e ele não conseguiu ficar bom. Minha mãe conta que esse meu irmão não era pra ser dele, porque tinha uma inteligência... Ele tinha seis meses e já reconhecia as pessoas, quando é primeira, segunda vez, de longe ele começava a apontar a mão. Houve alguma luz, alguma coisa, toda criança que morre bem pequena chamam de anjo, no entanto, não sabe o por que, não tivemos a felicidade de viver na terra com ele, mas sei que ele já nasceu com esse problema e não teve como dela poder fazer com que ele pudesse ficar bom. Vários remédios caseiros ela fazia, ela tinha o maior cuidado de asseio com ele, mas veio a morrer, por incrível que pareça de diarreia, isso me deixou muito chocado.

 

P/1 – Você muito pequeno também? Deve ter acompanhado?

 

R – Isso, mas esse tempo eu já fiquei... Puxa, perder o irmão. Depois eu fui começando a saber, ela começou a contar os casos; eu fui saber de casa o que aconteceu na própria localidade e via que também morriam de diarreia.

 

P/1 – Os seus outros irmãos tiveram problemas de saúde ou não? Tudo normal?

 

R – Não, tudo normal. Só meu irmão que não queria comer muito, mas isso era parte de verme que ele tinha; a minha mãe sempre levava ao médico e ficou bom, no entanto, foi engordar depois que pegou os catorze anos em diante, aí tinha muita dificuldade, em termos de comer.

 

P/1 – Quando você começou a estudar, Luiz?

 

R – Bem, eu comecei a estudar com uns sete anos, como todos aos sete anos, mas sempre tive certa dificuldade nos estudos. No entanto, como eu disse, eu vim pra cá, pra região de Marapanim, com cinco anos, mas a minha mãe trabalhava em Belém na casa da família, ela tinha muito... Vamos dizer, em cada casa que ela trabalhava as pessoas gostavam muito, o que acontecia? O que aconteceu foi que comecei a pegar os meus sete, oito anos, uma família me chamou pra que eu fosse morar em Belém com ela. Minha mãe deu, eu começava a estudar, depois eu voltava. Só sei dizer quando eu estava na segunda série pra terceira, eu tive muita dificuldade. Essa família chamava pra trabalhar lá, eu ia, no entanto, quando eu chegava... Antes de completar um ano ela fazia viagem, minha tia que vinha me deixar, isso ia atrapalhando. Eu passei praticamente os três anos, logo no primeiro início do meu ano letivo eu tive dificuldade. Depois com meus dezesseis anos eu fui morar em Belém com uma senhora chamada Lurdes, é filha de Bacuriteu, mas formou-se, foi morar em Belém, no entanto, via lá a situação e ela quis que eu fosse morar lá com ela pra estudar pra progredir na vida. Com dezesseis anos eu fui, nesse tempo eu estava na quarta série, muito atrasado nessa parte. Eu comecei a estudar no Colégio Dom Pedro e no primeiro ano eu passei, que foi muito bom, já no segundo eu toda vez que tinha um feriado longo vinha pra cá, pra Bacuriteu e gostava muito, esquecia até de ir, no entanto, se coincidia um feriado longo de sexta, ou seja, sábado e domingo, já não ia na segunda-feira, ia só na terça, eu tinha que estudar de manhã, nisso ia perdendo aula, foi o que aconteceu. Eu vivia muito bem lá, as pessoas me tratavam muito bem, mas acontece que eu não conseguia ficar ali, tinha saudade do interior mesmo. Foi o que aconteceu, retornei pra cá, em Bacuriteu, comecei a estudar em Marudá. Nesse tempo, a fase da adolescência, eu já mais esqueço, eu quero que fique até como exemplo que é uma fase difícil a parte da adolescência da gente. Nesse tempo eu estava com dezessete anos já, comecei a estudar aqui em Marudá, eu repeti a quinta série que eu abandonei em Belém e o que aconteceu foi que eu repeti outra vez, não passei; comecei a me meter em sacanagem – influência dos amigos – e não passei. Depois eu comecei a trabalhar de pedreiro, minha condição estava um pouco ruim, tinha que ajudar a família. Trabalhava de pedreiro e tinha que trabalhar o dia todo; nesse tempo em Marudá tinha que estudar à tarde, foi o que aconteceu, que o dono da obra disse que eu tinha que ir até o fim ou então seria melhor eu estudar à noite, não é? Foi que então eu falei com um colega meu, chamava Nivaldo, ele trabalhava no colégio chamado Zarah Trindade, em Marapanim, ele trabalhava na secretaria, eu conversei com ele e ele me disse que arranjaria uma vaga pra mim, isso já estava no meio do ano. Ele conversou com a diretora, consegui a vaga, aí comecei a estudar pra lá. Pedi requerimento, fiz a primeira avaliação em Marudá, isso na quinta série ainda. Comecei a estudar em Marudá, ou seja, em Marapanim. Todos os quatro anos que eu passei foi muito bom, levei o estudo a sério mesmo.

 

P/1 – Lá em Marapanim?

 

R – Isso, lá em Marapanim. Tirei o meu segundo grau lá na escola Zarah Trindade e agora eu quero terminar o (segundo?) grau, só que já engatei. No ano passado não passei porque a minha mãe adoeceu, estava na eminência de se operar, foi pra Belém nos familiares, no entanto, todos os finais de semana eu estava lá e quando eu regressava...

 

P/1 – O que ela teve?

 

R – É problema de mulher. Problema de mulher que ela teve que se tratar, o médico falou para ela se tratar, o caso dela teve até operação. Eu ia lá dar assistência; levava um dinheiro pra ela quando eu recebia e sempre que ela precisava de mim eu tinha que estar lá em Belém. E o que aconteceu que eu perdi esse ano, o ano de 1996, não passei, tive que abandonar na terceira avaliação pra dar assistência a ela, no entanto, agora eu estou levando em frente, acredito que não vai haver como possa atrapalhar o estudo. Então, eu sempre tive dificuldade no estudo, mas sempre eu gosto de me atualizar bem, eu gosto de ler, como eu digo, meu esporte predileto é futebol, eu adoro, no entanto, não sou tão bom, jogo por esporte mesmo. Mas o que eu gosto muito é de ler, leio muitos livros.

 

P/1 – Que tipo de livro você lê?

 

R – Até espiritismo.

 

P/1 – Romance?

 

R – Isso, romance, espiritismo, parte de documentário, revista Manchete, Veja, eu gosto mais da parte documentário, principalmente que tenha ligado à saúde, ou seja, na parte de mídia, assim da televisão, eu gosto muito de jornalismo, gosto bastante. E isso acho que é bom para o jovem hoje em dia se aprofundar mais nas coisas atuais da vida.

 

P/1 – Como é que você foi para o PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde]? Você viu anunciar que tinha um programa?

 

R – Primeiramente veio uma equipe da FSESP [Fundação Serviços de Saúde Pública] de Castanhal, da região de Castanhal, no entanto, eu não estava em minha localidade. Esse tempo eu fui parece que fazer um passeio, mas perto dali. Depois, quando eu cheguei à noite, minha mãe falou que tinha uma equipe da FSESP querendo falar com os representantes da comunidade, onde o objetivo era que eles queriam fazer uma reunião e falar da importância do serviço comunitário de saúde, ou seja, pra ser implantado em Marapanim. Então em cada comunidade eles iam falar como é que era o programa, se a comunidade aceitasse... A comunidade que tinha que escolher, conforme o número de pessoas na comunidade, era um número de ACS [Agentes Comunitários de Saúde]; no caso Bacuriteu tem hoje em dia 250, nesse tempo tinha até pouco, tinha que sair dois de Bacuriteu. Essa foi a conversa deles lá e espalhou os panfletos. Quando eu cheguei minha mãe falou, eu comecei a ler e o pessoal começou a se reunir lá. Quem seria? Quem ia. Muita gente nesse tempo não levou a sério, muito menos eu. Eu li e depois fiquei ali na minha, achei bom, mas eu fiquei difícil de ser classificado de repente, tinha que fazer um teste, avaliação. Eu fiquei meio desestimulado: “Poxa, vou dar a oportunidade pra outro”. Claro, nesse tempo eu estava só estudando, não trabalhava – só de pedreiro. Seria uma grande oportunidade no caso de engajar. Eu olhava com vontade, mas meio desestimulado. O que aconteceu foi que na data seguinte que marcaram, eu estava lá. Isso foi no final de semana, num sábado que houve, que ia fazer esse teste e, quer dizer, a comunidade tinha que escolher. Muitos não quiseram, se recusaram, ficaram na dúvida, chegaram até a me apontar, assim como eu, mas muitos também que apontaram. Eu estava lá, no entanto, não me deu nem vontade de ir. Esperei que outros colegas fossem. Foi o que aconteceu: muitos não foram e isso já eram oito horas, o teste começava umas oito e oito horas em Marapanim, oito horas eu estava em minha localidade. Nesse momento veio uma representante da comunidade, dona Lourdes, e eles falaram se tinha ido alguém fazer o teste e o pessoal disse que não: “Ninguém foi, não sei o quê”. Tudo bem. E começaram a me estimular, me encher de coragem, que era pra eu ir, que seria bom, que aqui ninguém foi, por que não de eu ir? Eu, no entanto, quis recusar, mas aceitei e fui. Quando eu cheguei lá tinha terminado já o teste, já estava terminando, já estava fazendo a avaliação. E a estrutura lá, eu disse de onde eu era, me identifiquei, disse que eu era de Bacuriteu. Ela pensou e disse: “Olhe, já que é de Bacuriteu, no entanto, nós não temos ninguém de Bacuriteu”. Ela disse: “Não tem ninguém de Bacuriteu, mas tudo bem, você vai fazer. Já que não veio ninguém de lá”. Se tivesse alguém, evidentemente que ela não ia aceitar, mas já que não veio ninguém, ela deu a oportunidade. Só eu fui fazer o teste, mas claro, o pessoal tudo lá olhando E eu comecei a fazer o teste e depois fui classificado. Isso me surpreendeu, a minha nota foi boa, eu tirei sete e meio, eu digo que por causa dessa minha nota, como eu disse, que não foi ninguém de Bacuriteu, mas nesse tempo foi uma menina casada que casou-se com um rapaz de Marapanim, então no programa pede que todo agente de saúde tem que morar no mínimo dois anos, que esteja dois anos dentro da comunidade. Eu já morava há muito tempo, já conhecia. Esse rapaz que estava casado com essa menina em Bacuriteu foi fazer o teste lá sem a comunidade saber. Ela disse que não tinha vindo ninguém, mas esse rapaz estava fazendo, no entanto, na classificação ela disse: “Olha, aqueles que eu disser os nomes aqui vocês vão saindo, quem eu não falar fica”. Depois ela foi ver: “Olha, em Bacuriteu nós temos dois, que era esse rapaz, no entanto, ele é de Marapanim, não de Bacuriteu. Fui surpreendido quando a supervisora disse, mencionou o nome das pessoas, quer dizer, o dele saiu e eu fiquei. Disse: “Então eu fui classificado”. Não chamaram de novo, no entanto, estava o meu nome lá. Depois começamos a fazer entrevista e marcamos o dia do teste pra fazer a avaliação. Aí foi marcado, começamos a fazer, só que antes disso uma enfermeira chamada Marluci, que deu um problema no dedo do senhor lá, que teve que fazer curativo, pensava que o serviço de agente de saúde fosse parte de curativo, parte de enfermagem e eu, quer dizer, sabia e não sabia, mas fiquei surpreso porque nesse tempo tinha passado uma equipe da FSESP numa localidade chamada Camará e deixou o pessoal lá, no entanto, eu não recusei, eu quis ir. O pessoal disse que era pra eu estar lá acompanhando, eu era representante da comunidade. Eu fui. Então disse: “Você que é o Claudio, agente de saúde? Ela está fazendo curativo aqui, preste bem atenção, é assim, assim, assim. Eu não vou poder estar todo dia aqui e você vai ter que fazer esses curativos”. Eu fiquei assim: “Poxa!”. Aí está legal, o que aconteceu? Eu comecei a fazer os curativos e depois ela veio, foi olhar como é que estava o dedo do rapaz, estava bem e um senhor chamou pra que ela fosse aplicar uma injeções nele. Ela foi, aplicou a primeira, no segundo dia ela veio de novo e preparou tudinho e eu acompanhando ela. Ela disse: “Olha, agora você vai aplicar a injeção”. Eu disse: “Bem, Marluci, mas o meu serviço não é este, eu nunca apliquei injeção em ninguém”; “Não, mas você vai ter que aprender, porque são seis injeções e eles vão ter que tomar as seis injeções e eu não posso estar vindo aqui”. Eu fiquei surpreso, ela preparou tudo: “Olha, é assim, assim, assim”, me ensinou bastante e o próprio dito cujo, no caso o senhor que ia ser aplicada injeção nele, me encorajou bastante: “Rapaz, tu vai ter que me aplicar agora”. E isso me estimulou bastante. Eu apliquei a injeção nele e depois eu perguntei: “Que tal?”. Ele disse: “Surpreendente, foi muito bom, eu gostei”. Eu comecei a aplicar todas as injeções, no entanto, eu sabia que este não era o serviço do agente de saúde e o que aconteceu? Toda comunidade ficou sabendo e qualquer caso que coincidir algum caso, ou seja, curativo, aplicar uma injeção, a pessoa me procurava, no entanto, eu tinha todo material e ia fazendo e graças a Deus todos os curativos que eu fiz obtiveram sucesso. Até mesmo as injeções, nunca houve problema das pessoas estarem com caroço. Então eu cheguei a aplicar até nas nádegas das pessoas, até isso, mas nunca apliquei na veia. Depois de tudo, do teste que nós fizemos, eu vi que não era isso e chamei nossa coordenadora que é a Ieda e expliquei pra ela a situação. Eu disse: “Não, realmente é isso”. Depois ela começou a fazer as visitas na comunidade e disse que o meu serviço não era esse, eu não tinha que ficar aplicando injeção.

 

P/1 – Como é que foi no início? Você chegou e foi fazer um cadastramento das famílias?

 

R – É. Depois de tudo no teste o objetivo era esse. Nós tínhamos que chegar na casa, se identificar, dizer a importância do serviço do agente de saúde e depois cadastrar as famílias.

 

P/1 – Como é que as pessoas receberam quando você chegou pra fazer o cadastramento?

 

R – Bem, na minha comunidade eu digo que eu nunca tive problema. Isso é surpreendente e é raro de ver esses casos, logo de início você conseguir ter um contato com a comunidade.

 

P/1 – Ninguém ficou assim: “Isso é política, veio só pra enganação”?

 

R – Pois é, podia até acontecer isso, mas só que antes a comunidade já estava sabendo do programa. Quando chegou a equipe da FSESP, o pessoal fez a reunião, explicaram o objetivo, como devia ser; eu não tive tanto trabalho, mas mesmo assim isso não significou que eu não tive que explicar. Eu comecei a explicar todo o objetivo, como era o programa, os tipos de orientação que eu peguei. O pessoal aceitava numa boa, agora isso que creio que foi mais você saber. Tudo o que eu consegui aprender no nosso treinamento e os livros que nos repassaram, eu começava a ler em casa e fui ver que tinha que ser feito dessa maneira, me ajudou muito. Quer dizer, você tem que chegar na casa, você tem que escutar as pessoas, além de se identificar conversar com as pessoas e procurar entender o tipo de vida da pessoa, respeitar as suas crenças, o tipo de fala mais ou menos. Eu acho que tudo isso me ajudou bastante e eu não tive trabalho nenhum. De repente eu me deparava em algumas casas e perguntavam: “Pra que isso? Esse cadastramento é sobre o quê? Sobre o censo?”. Dizia: “Não”, e explicava. “Então é pra receber dinheiro, alguma coisa assim, INSS? [Instituto Nacional do Seguro Social]”. Alguns chegavam e faziam a brincadeira, mas era só brincadeira, nunca tive dificuldade nenhuma, eu fiz o meu serviço perfeito.

 

P/1 – O que tinha de doença na sua comunidade? O que você descobriu?

 

R – Quando eu comecei, anteriormente, tinha muito caso de diarreia. Isso eu já tinha levado em mente porque o meu irmão morreu de diarreia e outras pessoas vizinhas também e, nesse exato momento, eu tinha que fazer alguma coisa como agente de saúde pra combater a diarreia. Por que está acontecendo esse caso da diarreia? Será que é falta de informação das pessoas? Me perguntei e comecei a atuar. Graças a Deus, nós pegamos soro, nós pegamos todo o treinamento também, comecei a dar o soro para as crianças. A mãe ia preparar pra gente, com um ano depois não teve mais caso nenhum. Quer dizer, a mortalidade de crianças não tinha afetado nesse tempo, não tinha mais nada; eu coletava alguns casos, aí depois parou. As outras situações depois que eu comecei mesmo a atuar, foi caso de malária, aí começou a dar na minha localidade.

 

P/1 – Teve malária lá?

 

R – Teve malária. Então nós fizemos um treinamento de uma semana, eu e uma equipe da FNS [Fundação Nacional de Saúde]. então nós começamos a fazer o treinamento. Fizemos todo o treinamento, começamos a atuar e quando eu comecei a atuar na minha comunidade foi surpreendente, foram logo de cara sete casos positivos.

 

P/1 – O que você estava fazendo nesse período? A identificação?

 

R – Isso, nós estávamos fazendo o trabalho de agente comunitário de saúde; depois os guardas da FNS acharam melhor que o agente de saúde seria bom, pra estimular mais um pouco o trabalho.

 

P/1 – O que vocês fizeram exatamente nesse trabalho? Vocês começaram a identificar a doença?

 

R – Isso.

 

P/1 – E aí vocês identificaram seis casos?

 

R – Foram sete.

 

P/1 – Sete casos?

 

R – Sete casos que eu identifiquei.

 

P/1 – Como é que vocês faziam pra identificar?

 

R – Bem, eu identificava porque eu me deparava numa situação dos quintais das casas, via casca de caranguejo, de siri, casca de coco de boca pra cima; quando chegava o inverno chovia e ficava todo cheio e aquilo formava criadouros. E eu fui perceber nessa parte, no entanto, Bacuriteu é um lugar assim que não tem muita vargem. Mas era essa uma das coisas que acontecia. Depois fui identificar um bocado de febre, dava muita febre na pessoa, dor de cabeça, calafrio.

 

P/1 – E a identificação da febre de malária é fácil de fazer ou não? Você ficava em dúvida, como era?

 

R – Logo no início, quando eu comecei mesmo, eu ficava um pouco em dúvida, mas depois eu comecei, pegava todo treinamento, isso não foi uma dúvida pra mim, ou seja, quando eu via que a pessoa estava com dois, três quadros de febre, coincidia quase no mesmo horário, era uma suspeita. Aí eu colhia a lâmina, levava; se desse negativo e continuasse a febre eu chegava no indivíduo e fazia um encaminhamento pra Marapanim, para o Hospital.

 

P/1 – Aí vocês começaram a combater a causa?

 

R – Isso, exatamente, combatemos por inteiro e no ano seguinte foi um sucesso, não teve mais nenhum caso de malária; foi ter no outro ano dois casos, depois passamos mais dois anos sem ter caso nenhum. Já esse ano nós voltamos com dois casos de novo.

 

P/1 – Como é que você faz a prevenção?

 

R – A prevenção é o que eu sempre digo para as famílias: não irem ao rio às seis horas da manhã ou seis horas da tarde, manter o quintal sempre sequinho, sem garrafa, até mesmo porque tem a parte da dengue que é semelhante, ou seja, a malária é quase semelhante com a dengue, calafrio, dor de cabeça, vômito, febre muito alta; são semelhantes com a dengue na maioria das vezes. No entanto, garrafa que comporte água, tudo que comporte água assim e que fique ao ar livre, forma-se um criadouro.

 

P/1 – Você identifica o mosquito?

 

R – Bem, ainda não cheguei. Isso fica mais para o guarda da SUCAM [Superintendência de Campanhas de Saúde Pública]. A gente pega a larva, leva pra identificação e vê se é caso de dengue ou não, mas a parte de dengue não é praticamente o nosso serviço, ninguém está realmente muito atualizado nessa parte, pega uma informação assim por alto, mas é mais a parte preventiva da malária que a gente trabalha no início.

 

P/1 – E aí faz a dedetização pra combater?

 

R – Isso, os guardas fazem. A gente identifica se tem muito caso de... Nesse caso que tinha muito caso de malária quando eu comecei, o que aconteceu foi que eu participei com o inspetor do FNS e começou a fazer a borrifação lá. Foi o que aconteceu, no ano seguinte já não teve mais nenhum caso.

 

P/1 – Então a diarreia controlou, não teve nenhum caso, melhorou com malária e que outros casos tinham de doenças lá?

 

R – Bem, essa é outra coisa, eu quero dizer, eu não posso nem dizer que é o primeiro mundo porque não é, é meio difícil você dizer assim, mas hoje o Brasil em termos de saúde do jeito que está, o governo quase não investe, às vezes, principalmente a parte de malária. A parte do veneno não tem, o governo federal cortou quase pela metade os recursos, isso a gente vê, não fizeram mais borrifação por causa disso, foi cortado e borrifa naquelas partes que tem mais, que dá mesmo aquele surto. Em Bacuriteu foi esse caso logo de cara que eu vi quando eu comecei, caso de diarreia e depois a malária. São esses dois casos que acontecem lá.

 

P/1 – Que é mais grave?

 

R – Que é mais grave e o resto é gripe que dá, então eu não tenho mais hoje em dia problema de saúde com a minha comunidade, mesmo porque ela segue por inteiro o que o agente de saúde está transmitindo, esta pessoa. E pelo que eu vejo, hoje você indo, pode ver os quintais das casas, todos são bem limpinhos, seguem mesmo como deve ser e o importante é isso.

 

P/1 – As gestantes fazem pré-natal?

 

R – Isso, as gestantes fazem o pré-natal, a gente orienta bastante.

 

P/1 – Lá tem um posto de saúde?

 

R – Por enquanto não, mas o nosso prefeito, nessa gestão agora, se prontificou a fazer. Foi um pedido meu também porque fazendo reunião, política administrativa, ou seja, ele faria uma obra numa comunidade, isso se a comunidade se prontificar em que é melhor, qual a prioridade em termos de uma obra seria feita em uma comunidade? Isso em todas, ele faz. No momento seria bom um posto de saúde ali pra atender não só Bacuriteu já que eu lhe falei que hoje a gente não tem muitos problemas de saúde lá, mas nós temos nas localidades vizinhas como Crispim e Bacuriteu, quer dizer, Bacuriteu está no centro, então dá muito bem pra atender. Nós pedimos um PS [Posto de Saúde] ali, porque em julho às vezes acontecem acidentes por ali, e mesmo até porque nós temos um técnico de enfermagem, senhor Romeu, que trabalhou 32 anos no bairro Barreto, hoje se aposentou e está morando em Bacuriteu. Seria muito bom se...

 

P/1 – Qual o caso mais grave que já teve lá na sua comunidade que você atendeu ou pôde dar um encaminhamento?

 

R – O mais grave eu não me lembro, por incrível que pareça.

 

P/1 – Não tem um caso mais grave? Malária talvez seja o mais grave?

 

R – Isso, o caso mais grave foi malária, depois que eu comecei foi esse o caso mais grave que teve, foi o de malária. Quanto ao resto eu não tenho problema nenhum com minha comunidade nessa parte. Foi muito bom.

 

P/1 – Como é o dia-a-dia do seu trabalho? Como é que você faz? Você acorda, já pega a sua bicicleta, como é que você trabalha?

 

R – Exatamente. Antes ninguém tinha bicicleta, ninguém tinha mochila, um aparelhinho importante que nós temos é o termômetro, nada disso ninguém tinha antes. Era mesmo só uma prancheta, nisso a gente ia fazendo o serviço da gente e orientando; a orientação que a gente pegava da nossa coordenadora, ia fazendo. E depois nós recebemos todo esse material que foi doado pela Abifarma [Associação Brasileira de Indústrias Farmacêuticas]: bicicleta, mochila, termômetro, tudo isso aqui. Então ficou muito bom o serviço de agente de saúde, melhorou bastante. Eu costumo trabalhar das sete horas em diante, me levanto, vou às casas e começo a fazer as visitas e quando tem um caso de febre, pego o termômetro e vou, verifico se está com febre ou não, vejo o grau ali, oriento a mãe, colho também a lâmina muitas vezes, se não der positivo oriento a mãe que leve ao posto de saúde mais próximo e assim é feito. E oriento a mãe na parte preventiva também, gestante, pra fazer pré-natal. A criança recém-nascida é um trabalho também que a gente tem, a gente faz a pesagem, recebemos também a balança da Abifarma, tem tudo isso e antes não tinha. Hoje a gente pega a balança, pesa a criança e vemos como é que está a cada mês, se a criança está se desenvolvendo de peso ou não; depois a gente joga para o gráfico na ficha.

 

P/1 – Você tem casos de desnutrição?

 

R – Não, não, não consegui pegar mais nenhum graças a Deus. Não temos esse caso.

 

P/1 – Já tinha pegado alguma vez, não?

 

R – Não, nunca tinha pego.

 

P/1 – Na sua comunidade parece que o pessoal não passa fome assim porque tem o peixe, tem?

 

R – De repente você deve dizer: “Poxa! Por que será que acontece isso na minha localidade?”. Eu só tenho a dizer o seguinte: já que eu conheço a minha comunidade é porque eles seguem, eles colocam em prática o que o agente de saúde diz e mesmo até porque a minha comunidade aceita o serviço do agente comunitário de saúde, isso que é importante. De repente muitas comunidades aí não aceitam, então, eu que tenho uma visão sobre saúde... E isso é uma coisa básica. Muitas famílias já sabem praticamente orientar, ter um planejamento familiar adequado, então a família já tem em mente mais ou menos. O que eu passo, cobro deles, fica melhor, então por isso que não acontece casos. Por exemplo, tem localidades que acontece, muitas pessoas se cortam, cortes horríveis que tem até que amputar o dedo. Tem uma localidade vizinha que aconteceu isso. Em Bacuriteu não acontece isso. Tem lavrador, trabalha com machado pesado e até esse serviço eu oriento pra ter cuidado, paciência. Então são esses tipos de coisas que vai juntando, tudo isso e de repente a minha comunidade não fica tão assim, casos tão graves em termos de doenças. Isso que é importante. É porque o agente de saúde está sempre trabalhando, está orientando e as pessoas seguem o que a agente de saúde diz, não levam por brincadeira, isso que é importante. Então a minha comunidade leva a sério em termos de saúde. Isso que é importante.

 

P/1 – Luiz Cláudio, pra gente fechar, diz pra mim o que é que mudou pra você, na sua vida pessoal, depois que você começou a ser agente?

 

R – Eu creio que foi... Mudou bastante, olha, sinceramente, me deu mais estímulos nos meus estudos. Até na minha própria vida mesmo eu queria dizer que ganhei até mais caráter, mais confiança da própria localidade; me sentia mais reconhecido muitas das vezes. Isso é bastante, muito reconhecido. Então isso me ajuda muito. De repente, se alguém me oferecer outro emprego, jamais quero, porque por incrível que pareça eu acho muito bom.

 

P/1 – Mesmo se ganhar mais?

 

R – Pois é. Eu poderia deixar, mas confesso que ia ficar com muita saudade, porque é muito gostoso você trabalhar com comunidades, viver no dia-a-dia. Poxa! Mesmo até porque eu já cheguei a sair de minha casa sem tomar o café; isso não significa que não tenha, tem, mas eu saio e de repente o que acontece? Eu vou de casa em casa e lá me oferecem café e isso e aquilo e quando a gente volta pra casa. Então tudo isso é gratificante no serviço. Isso mudou muito minha vida e hoje em dia não tenho nem um pingo de vergonha de dizer: “Qual é a tua função?”. Posso até chamar de profissão: “Minha profissão é agente de saúde, sou estudante e agente de saúde”. Eu tenho esse orgulho comigo de dizer que sou agente de saúde. Por quê? Porque eu creio que está valendo a pena, pelo menos na minha localidade está valendo alguma coisa, o agente de saúde está sendo bem aceito, isso que é importante.

 

P/1 – Obrigado.

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