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História

Adolescentes podem mudar o mundo

História de: Ieda Marilia Dias de Pádua
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Infância na casa dos avós e relação com a mãe. Primeiro emprego ainda criança. Adolescência e envolvimento com o Grupo TUMM. Falando de adolescente para adolescente em todo Brasil. Sonho do curso superior e pedagogia. Relação com o serviço social e Lar Maria Imaculada. Primeiro filho, susto e a recuperação. Segundo filho, síndromes e a luta pela sua acessibilidade. Trabalho como conselheira tutelar. Importância da família e amor pelos filhos.

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História completa

P1 – Boa tarde, Ieda, tudo bem?

R – Boa tarde, tudo bem e você?

P1 – Tudo ótimo. A gente vai começar sua entrevista, então, perguntando seu nome, o local e a sua data de nascimento. 

R – Certo.

P1 – Pode responder.

R – É Ieda Marília Dias de Pádua, 16 de novembro de 1980. E eu nasci em Araras, interior de São Paulo, mas moro em Mococa (SP).

P1 – Qual o nome dos seus pais?

R – A minha mãe [se] chama Araci Dias [e] o meu pai, eu não conheço.

P1 – Certo. E qual atividade da sua mãe?

R – Ela é dona de casa.

P1 – Certo. Eu queria, então, começar a falar um pouquinho sobre a sua infância e como era o seu dia a dia na sua casa, com a sua mãe.

R – Eu não morei com a minha mãe - morei com os meus avós e os meus tios - e, da minha infância, tenho pouca memória dos momentos com ela, embora os avós com quem eu morei fossem os avós maternos. Mas a minha rotina era a rotina de toda criança, né: gostava de brincar, fazia bastante arte, ajudava nos afazeres domésticos, desde cedo.

P1 – Do que você gostava mais de brincar, nessa época?

R – As coisas de menino: jogar futebol, bolinha de gude, soltar pipa… Pega-pega.

P1 – E isso foi em Araras, mesmo?

R – Não, eu nunca morei em Araras. Eu passei por Araras somente pela ocasião do meu nascimento mesmo e, depois, já voltei para Mococa.

P1 – Certo. E como era a casa dos seus avós e dos seus tios maternos, onde você morava com eles? Era uma casa grande [ou] pequena? Você se recorda como ela era?

R – Recordo. Sempre foi uma casa cheia de gente, né, porque os meus avós tiveram nove filhos, então sempre cercada de tios, tias, primos. Eu sou uma das primas mais velhas, então eu vi crescer os meus outros primos. E era nesse momento que eu ia morar na casa dos meus tios: quando nascia algum primo, eu sempre ia para a casa de alguma tia, de algum tio, mas depois acabava voltando para a casa dos meus avós. Meu avô era usuário de álcool, né? Então, tenho muitas lembranças dele fazendo uso, de muita discussão e muita briga na família por conta do alcoolismo dele e de outros, né? A minha avó sempre foi uma mulher trabalhadora, ela sempre trabalhou [e] os meus tios também. Era uma infância bem difícil, né? A gente precisava juntar as coisas, para poder fazer um almoço de domingo, então era... Tinha certos alimentos, por exemplo: carne, era só quando recebia, né? Não era algo que você tinha muito acessível, assim, como refrigerante e outras coisas, mas era... Sempre foi uma casa de muito afeto, de muito cuidado, e eu sou muito grata aos meus avós.

P1 – Certo. Qual era o nome dos seus avós?

R – A minha avó ainda é viva, [se] chama Joana e o meu avô, Marcílio.

P1 – Alguém te contava histórias, quando você era criança?

R – Meu avô, principalmente histórias de assombração, história que eu ia ficar com medo. E aí combinava com meus primos de vir por trás e me assustar, porque sabia que eu ia ficar assustada. E sempre eram muitas histórias! Meu avô gostava de contar história - de contar coisas do tempo dele - de quando ele era criança, então ele contava bastante.

P1 – Você tem irmãos?

R – Tenho duas irmãs, mais novas, e elas são filhas da minha mãe com o atual esposo da minha mãe, então eu não tive muito contato com elas na minha infância. [Quando eu] fui ter contato, já era bem maior. Não tenho lembranças da infância delas, por exemplo.

P1 – Entendi. E como eram as brincadeiras que você fazia? O tempo que você passava da infância, era num quintal, por exemplo, da casa ou era na rua? Como você brincava? Onde você brincava?

R – Era na rua, com muita gente na rua. Nós morávamos numa rua sem saída, então imagina: toda ‘criançada’ [se] juntava ali e a gente deixava os vizinhos loucos, porque a gente amarrava linha e fazia campo de vôlei; outra hora, a gente jogava “bets” (jogo de taco). Então, era o tempo inteiro brincando e com muita gente, muita criança.

P1 – Você se lembra de alguma coisa que aconteceu nessa época, de brincadeira ou esse tipo de coisa que marcou até hoje, para você?

R – É, eu brincava bastante, mas não tinha todo o tempo disponível, porque eu tinha os afazeres de casa - tinha que fazer almoço -, então não era tão livre assim, sabe? Então, o meu avô, a hora que ele chegava no portão e assobiava, era a hora de vir embora, hora de entrar para casa. E meu avô não gostava de bola e de barulho de bola, e era a única coisa que a gente brincava: jogar futebol, bolinha de gude, essas coisas. Então, quando caía a bola no quintal, ele cortava as bolas que eram da gente. A gente chorava, porque ele repreendia barulhos, qualquer tipo de incômodo de criançada, xingava as crianças - também por conta do uso de álcool - e quando tinha fruta - a casa da minha avó era uma mini chacarazinha - ele gostava de chamar toda ‘criançada’, entregava para todo mundo. Quando estava madura, porque verde não podia apanhar.

P1 – E que tipo de fruta tinha nessa, dentro da chácara?

R – Era mangueira, acerola, amora, caju, laranja, mexerica, vários tipos de frutas. Minha avó fazia muito doce com figo. Então, era bem frutífero.

P1 – Você tinha algum sonho de infância: de quando crescesse, se tornar alguma coisa específica?

R – Sim, eu pensava em ser advogada ou veterinária, gostava muito de brincar com os animais, cuidar dos animais. E essa questão de advogada era mais uma questão de justiça mesmo, de defender direitos, que sabia que eu tinha que me defender e defender os meus direitos também.

P1 – Certo. Passando, então, um pouquinho, avançando um pouquinho mais: você tem alguma lembrança de quando você começou a ir para a escola, algo nesse sentido?

R – Tenho lembranças que eu fazia muita arte na escola, porque eu falava demais. Naquela época, não tinha tanta classificação, né, dos comportamentos, como tem hoje, mas, provavelmente, se eu tivesse sido avaliada na minha infância, seria uma criança hiperativa, nua e crua, porque não parava, assim. “Muito esperta, muito inteligente”, as professoras falavam. Meu avô ia nas reuniões e ficava bravo, porque sempre ouvia: “Não para na carteira! Não para de mexer com os alunos! Não para de falar um minuto!”. Mas, também, ele não tinha reclamação de que a nota estava ruim ou que eu estava para ser reprovada, nada nesse sentido. Eu terminava as coisas muito rápido, então tinha muito tempo livre. Essas eram as reclamações dos professores, e isso me acompanhou até a faculdade. Então, eu sempre terminei as coisas mais rápido e sempre gostei de conversar bastante, fazia amizade com todo mundo. E sempre gostei de ir para a escola, adorava estudar, fazer tarefa. E tem uma coisa da minha infância que meu avô... Eu tinha a letra muito grande e o meu avô não gostava da letra grande, então ele arrancava a folha do caderno e fazia eu passar a limpo, para ver se eu diminuía o tamanho da minha letra. Isso era quase sempre, e era um martírio para passar tudo a limpo.

P1 – E você conseguiu diminuir sua letra? (risos)

R – (risos) Consegui, mas às vezes ela fica de uma forma que só eu entendo. E eu lembro dele falando: “Só você está entendendo o que está escrevendo e a escrita tem que ser pra que as pessoas entendam. Isso é um documento, um caderno é um documento”.

P1 – Você tinha algum professor ou alguma matéria predileta com que você se identificava muito nesse período de primeiros anos de estudo?

R – Tinha, sempre tive professores muito carinhosos comigo que, às vezes, traziam presentes, uma roupa, um calçado, que falavam que ficavam preocupados comigo. Assim, sempre carinhosos. Agora, de gostar, eu acho que gostava de todos professores, de todas as matérias. Eu, na minha adolescência, não gostava muito de inglês, mas nas outras séries, História, Geografia, porque sempre acabava sendo quase os mesmos professores. Um professor dando duas ou três matérias, então eu gostava muito. Gostava muito de redação e de escrever sobre aquilo que eu estava vivenciando, eu queria escrever um livro. Então, tinha essas ideias.

P1 – E a escola onde você estudava, nesses primeiros anos, era próxima da sua casa? Dava para ir a pé ou era mais longe?

R – Dava para ir a pé, um período. Depois eu troquei de escola, ficou um pouco mais longe, mas também era... Aí aumentaram os problemas, porque a gente subia numa ‘gangue’ para a escola e descia, aí eu demorava para chegar em casa, porque ia por outros caminhos, passando de casa em casa: “Agora vamos passar pela casa de fulano!”. Como a minha casa era a última rua, então tinha muita casa pra entregar, de amigos, de gente e pessoas, então, chegava mais tarde. Aí levava bronca do meu avô, [porque] tinha hora para chegar em casa, então não podia ficar dando mole, não.

P1 – Certo. E quando foi esse período de mudança? Ainda foi no ensino fundamental, que você demorava mais para voltar?

R – Ainda foi no ensino fundamental, na oitava série, que hoje é sétimo, né? Porque tem até o nono, né? É. Com doze anos, por aí. Doze, treze anos.

P1 – E o que você gostava de fazer com os seus colegas, com seus amigos, nesse período, já avançando um pouco o ensino fundamental? O que foi mudando, né, nas atividades de lazer, com os seus amigos?

R – Eu gostava muito de praticar esportes, então jogava vôlei. A gente ia todo sábado para uma pracinha próxima à minha casa, jogava futebol com as meninas também. E [fazíamos] sempre coisas assim, ligadas ao esporte. Eu não fui uma adolescente que deu trabalho, no sentido de namoro, porque, meu Deus, ai de mim se eu falasse que estava interessada em alguém. Meu avô me ‘matava’! Então, era sempre nesse sentido de brincar. Ia para a biblioteca fazer trabalho de escola, então era... A vivência com os meus amigos era assim: ia para casa, num final de semana, para fazer algum trabalho e voltava.

P1 – Certo. E passando um pouco, voltando um pouco para essa questão familiar, durante esse período que você morou com os seus avós, você tinha bastante contato com a sua mãe? Você chegou a morar com a sua mãe depois ou não?

R – É, me lembro [que] quando eu era bem pequena, que fui morar na casa dela. Acho que foi um teste que eles tentaram fazer, para ver se ia dar certo, mas o meu avô nunca permitiu também que eu ficasse lá, porque o meu padrasto também era alcoólatra, agredia minha mãe e meu avô tinha medo dele fazer alguma coisa comigo. Então, foi muito interessante, porque quando... A minha família não soube que a minha mãe estava grávida... Quando a minha família soube, a minha mãe já estava com cinco meses. E eu nasci de 6 meses e 2 semanas. Então, não deu nem tempo de [se] acostumar com a gravidez. Eu nasci de parto prematuro, com um quilo, cento e oitenta, lá em Araras. E aí meu avô disse: “Pode trazer a menina para cá, que eu vou cuidar”. E a minha mãe, eu não sei as justificativas dela, mas ela também não se opôs a isso. Então, assim, ela não ia [me] visitar na casa dos meus avós, porque meu padrasto não gostava. Ela não me pegava em dia no meu aniversário, Dia das Mães, Natal, Ano Novo. Eu não tenho lembranças de viver esse período com a minha mãe. Nós morávamos no mesmo bairro, né, assim, a poucas quadras de distância, então era... Não tenho essa lembrança. E quando, nessa única vez que eu fui morar na casa dela, eu era muito pequena: lembro que o meu padrasto me deixou trancada o período [em foi trabalhar] dentro do banheiro e eu comecei a chorar. Uma irmã dele, que era vizinha, foi lá e abriu a porta do banheiro. Estava tudo escuro, estava sem comer, estava... Não sei quanto tempo eu estava ali, mas foi nessa situação que me encontraram e aí já me levaram de volta para minha, para os meus avós.

P1 – Entendi, e depois disso você não chegou a voltar a morar com eles, justamente por causa dessas questões?

R – É, eu não morei mais com eles e também eu nunca tive desejo de morar, de fazer esse caminho de volta, para um dia [ele], [meu padrasto], tentar alguma... Mais uma vez. Então, assim, não fortaleceu o vínculo na infância, né? Eu sabia que ela era minha mãe, sabia que eu tinha um padrasto, que tinha minhas duas irmãs, mas era como qualquer outra pessoa da minha família.

P1 – Certo. Então, voltando para a sua vida escolar e para sua adolescência: quando você chegou no ensino médio, você chegou a mudar de escola, para uma escola mais longe ou você permaneceu na mesma?

R – Eu fui para uma escola um pouco mais longe. E, nessa época, eu já estava no Grupo Tumm, que é um grupo de adolescentes [e] jovens. Eu sou sócia-fundadora da instituição. E aí eu comecei a militância nesse espaço, já no ensino médio. E era longe, bem longe da minha casa. Ia a pé! Aí eu comecei a estudar à noite, para trabalhar durante o dia.

P1 – E você começou a trabalhar no que, durante esse período?

R – O meu primeiro trabalho foi com doze anos: eu era babá numa casa, e não foi uma experiência boa. Era uma família que veio de fora, de uma outra cidade, uma família que tinha dinheiro. Eles me colocaram nessa casa para poder trabalhar e eu tinha que cuidar de uma criança. Tenho o olhar da criança até hoje: menino, cabelinho preto, olhos bem pretinhos. E eu lembro que, na hora das refeições, eles me colocavam no lado de fora, me entregavam um pratinho e eu ficava ali, até a hora que podia voltar e pegar a criança de volta. Então, foi um período muito ruim. Depois, eu fui trabalhar numa outra casa de família. Aí eu já não era mais babá, já estava ajudando na limpeza da casa. Era dona de um restaurante, então as panelas eram muito grandes e eu sempre fui muito pequena. Eu passava sábado até quatro horas da tarde lavando aquele monte de panela, de louça, do restaurante. Chegava em casa, o meu avô ficava bravo, falava para mim onde que eu estava até aquela hora e eu falava que estava trabalhando. Aí, até que uma vez minha vó foi lá e viu que, realmente, era muita coisa para o meu tamanho e eu não voltei mais pra lá. E tinham outras questões, assim, de trabalho: não tinha recebido ainda, não sei dizer se já tinha dado tempo para receber também e o valor que eu iria receber. Nessa época, eu deveria ter uns doze, treze anos.

P1 – Entendi. E no ensino médio, você partiu para outro tipo de trabalho?

R – Aí, depois, eu fui fazer estágio. Fiquei como estagiária, como atendente numa loja de alarmes. Foi uma das minhas primeiras experiências. Depois, eu fui para... Não lembro agora. Acho que foi o Alerta Alarmes. Depois, trabalhei como... Ah, depois trabalhei como agente comunitária de saúde, aí eu já estava no Grupo Tumm, nessa época. E foi uma época, assim, que agente comunitário de saúde era uma coisa que estava começando, essas histórias de agente comunitário, e foi muito legal essa experiência.

P1 – E como foi? Conta um pouco mais para a gente como era essa experiência de ser agente comunitária.

R – Então, quando comecei [a] trabalhar, eu fui para uma reunião no Encontro Nacional de Adolescentes. Lá, eu conheci pessoas do Ministério da Saúde e eles me falaram que nos bairros tinham agentes comunitários de saúde, e que qualquer pessoa poderia trabalhar nas unidades de saúde: nós poderíamos fazer oficinas educativas com outros adolescentes, dentro da unidade de saúde. E aí eu prestei uma prova, passei e fui contratada para trabalhar ali, numa experiência. Ainda não estava regularizada essa questão do agente comunitário de saúde como um cargo dentro da prefeitura, mas eu trabalhei dentro do espaço da saúde, que era um dos espaços que me atraía muito, porque, já no Grupo Tumm, eu fazia oficina sobre saúde, sexualidade, orientação sexual nas escolas e, também, nos espaços de saúde. Então, era o que eu queria na época.

P1 – Quanto tempo você passou nessa atividade?

R – O tempo, em si, de trabalho, não foi muito, porque depois vieram as oportunidades de trabalho no Grupo Tumm. E aí, no Grupo Tumm, eu passei treze anos e meio.

P1 – Certo. Então, me conta um pouco sobre essa ideia, como surgiu o Grupo Tumm? E qual era a ideia que vocês tinham? Quais eram os objetivos? Como aconteceu isso?

R – Eu estudava no ensino fundamental, estava na oitava série e aí teve um encontro municipal de adolescentes - que foi um espaço onde reuniram adolescentes de todas as escolas de Mococa -, uma professora de Ciências passou na minha turma e perguntou que adolescente gostaria de ir. Eu já levantei a mão, porque queria ir. E eu fui para esse primeiro encontro de adolescentes. Conheci outros adolescentes, que eram da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Eles fizeram teatro, realizaram oficinas com a gente, de adolescente para adolescente, e eu falei: “É isso que eu quero fazer! Eu quero ser uma adolescente igual a eles também!”. E aí, nós começamos. Isso foi em outubro de 1996, eu tinha quinze anos. E aí foi muito legal! Eu participei de todo o encontro e aí, no final, a gente tinha um questionário: “Se você se interessa em fazer parte de um grupo de adolescente que vai se reunir uma vez por mês”, preenchi que ‘sim, quero fazer parte desse grupo’. E aí passou um tempo, logo eu fui chamada. Eu mudei de escola, porque foi bem no período de oitava série para o primeiro ano e fui chamada na outra escola que eu passei, para poder participar dessa primeira reunião. E aí já era 1997. Fui para essa primeira reunião, assim, feliz da vida e também pensando o que seria. Lá, eu conheci outras pessoas e nós começamos a nos reunir toda semana, todo sábado. Meus avós não entendiam muito o que eu ia fazer lá e falava para eles que era um grupo de adolescentes, que a gente ia lá para discutir alguns assuntos relacionado a adolescência, que eu não estava ficando com menino nenhum, que eles poderiam ir lá, né, porque tinha-se muito essa preocupação, se eu estava ficando, se eu ia engravidar. Então, assim, os meus tios eram muito preconceituosos... Os meus não, dois dos meus tios, eles falavam, um deles falava: “Você não vai encher a casa da mãe de filho. Fica atrás dessas coisas, não vai ser ninguém na vida, porque não tem nem pai, nem mãe”. Então, eu sempre ouvi isso na minha infância e um outro tio, que era evangélico, abominava saber que eu estava lá falando de orientação sexual, de prevenção, falando que as meninas têm que se cuidar e que não pode ir se entregando no primeiro encontro, coisas desse tipo, né, voltadas à orientação. E aí nós começamos [a] nos reunir nesse grupo. Aí a gente falou: “Bom, como é que a gente chama, né? Grupo de adolescente?”. Aí nós começamos a pensar nossa identidade, o que nós estávamos fazendo ali e o que a gente pretendia fazer dali para frente enquanto pessoas. Todo mundo na mesma faixa etária: quinze, catorze, treze anos. Foi quando surgiu Todos Unidos Mudaremos o Mundo, que é o Grupo Tumm, que hoje tem 24 anos de história aqui em Mococa. E foi um momento muito bonito, porque começaram as primeiras discussões dentro das escolas sobre a aula de orientação sexual nas escolas. Que o PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) garantia, mas a aula de Ciências não. Então, algumas escolas faziam contato com o Grupo Tumm, para que nós fizéssemos as atividades com os adolescentes, de adolescente para adolescente. E aí foi muito importante esse momento para mim porque, além de ir para as escolas com essas atividades educativas, eu também comecei a entender o que eu queria ser, né? O que eu já estava sendo dentro do município, dentro do meu grupo. E os encontros municipais de adolescentes aconteceram todos os anos, só não aconteceu em 1997, e ele foi até 2000 e pouco, todo ano. E aí a gente participava de encontros. O encontro municipal era em Mococa, o regional era no estado de São Paulo e o nacional era em algum lugar do Brasil. Então era assim: tudo que a gente queria era se preparar para o encontro nacional, porque ia conhecer gente de todo lugar do Brasil e que faziam as mesmas coisas que a gente fazia, trabalhava de adolescente para adolescente. E aí, nesse momento, criou-se uma identidade desse movimento de adolescentes também, chamado Movimento de Adolescentes do Brasil.

P1 – Certo. E como você se sentiu, de repente, com esse mundo se abrindo, no sentido de conhecer pessoas de outros estados? Como isso ficou para você? Você está bem? Você quer dar uma pausa?

R – Essa oportunidade do encontro nacional de adolescentes e de conhecer pessoas, eu acho que foi o que me salvou (choro) de tudo aquilo que eu poderia ter repetido como história da minha família e dos meus familiares. Então, eu sou a primeira da minha família que tem curso universitário. Eu não teria motivação para ter curso universitário, se eu não estivesse com pessoas que têm curso universitário e que acreditam que esse é o caminho, né? Então, a convivência com essas realidades, ela é assim, foi (choro) muito importante em toda a minha trajetória. São as pessoas que seguraram na minha mão na maioria das vezes, quando eu não sabia o que fazer, quando passava dificuldade em casa, quando não tinha dinheiro para pagar a faculdade. Então, assim, essas pessoas foram e são muito importantes para mim: elas estavam no altar do meu casamento, então são meus padrinhos. Muitos deles são pessoas que eu tenho contato até hoje, então são muito queridas. E eles sempre acreditaram em mim, no sentido: “Você vai chegar muito longe! Não tenha medo, é assim mesmo”. Então, eles me deram oportunidade de conhecer o mundo, de conhecer o Brasil, não só por conhecer, conhecer dentro de uma função, dentro de um espaço de discussão, que era a problematização sobre essa questão de adolescente e juventude no Brasil. Não dá para falar sobre a gente sem a gente. Então, era esse espaço que eu ocupava enquanto jovem e que é esse espaço que, infelizmente, nós não temos mais, né? Parece que a gente deu uma estabilizada e é o que a gente pensa em tentar retomar, mais pra frente.

P1 – Tudo bem? Você quer dar uma pausinha? Ou dá para continuar?

R – Não, dá para continuar. Não sei nem se eu respondi sua pergunta. 

P1 – Não, respondeu sim. Era justamente a ideia de saber como você se relacionou pessoalmente com isso, é isso mesmo. E, chegando mais para o final do seu ensino médio, você já tinha a ideia do que cursaria no curso superior? Já tinha essa ideia na cabeça?

R – A ideia eu tinha: queria mudar o mundo. Então, não precisava de muita coisa para mudar o mundo, sendo Ieda eu já estava mudando. O curso superior não era algo que me fazia a diferença para ser o que eu era, mas eu precisava para conseguir oportunidade de trabalho, porque sem trabalho eu não ia conseguir me manter. E aí, quais as oportunidades que eu tive na minha cidade? Fazer Pedagogia, que era um dos cursos que mais se aproximava. Por quê? Eu não tinha como pagar transporte para ir para uma cidade vizinha, eu não tinha essa possibilidade. Então, eu fiz Pedagogia e amei o curso de Pedagogia, por conta que tinha muito a ver, Paulo Freire tinha muito a ver com as coisas que eu acredito, com a maneira de educar e de ensinar. Só que eu não queria sala de aula, eu não fiz Pedagogia com a ideia de ir para sala de aula, para ficar lá lecionando Português, Matemática, História [e] Geografia. Não é essa a minha veia artística, digamos assim. (risos) Eu vim ao mundo para uma outra coisa, que não é para dar aula de grade, né? Então, eu comecei a olhar para essa questão da Pedagogia e falar: “E agora? O que eu quero é me manter dentro das escolas, mas nesse lugar de criar espaço e diálogo, para que adolescentes e jovens possam falar aquilo que eles pensam sobre os temas relacionados a eles e também dialogar com professores e eu era mais nova que os professores, fazendo oficinas com professores”. E era super legal, porque, às vezes, eu estava fazendo oficina com os meus professores, né? Então, era uma... Foi, assim, uma experiência muito legal, e eu sempre tive professores muito... Que falavam assim: “Você vai longe. Olha, se falar um pouco menos, vai mais longe ainda”, né, brincando comigo. (risos) Mas sempre tive muito claro que eu não queria sala de aula, mas queria esse espaço, esse ambiente escolar ou ambiente da área da saúde, na questão da prevenção e da promoção da saúde. E aí eu fiz Psicopedagogia clínica e institucional, achando que eu ia sobreviver abrindo uma clínica para atender crianças e adolescentes. Então, eu tinha um título de psicopedagoga. E eu lembro do último dia, quando eu fui entregar o meu estágio para minha professora orientadora, que foi lá em Ribeirão Preto (SP), e ela... Eu entreguei para ela [e] falei: “Sueli, eu estou muito feliz por concluir esse curso e, assim, muito feliz mesmo de te entregar pronto o meu estágio”. Aí ela falou assim: “Ieda, que bom que você gostou. É a sua cara, ‘não sei o que’ e tal”, eu falei: “Sueli, a partir de hoje, eu já sabia, mas hoje eu estou confirmando com você: é exatamente isso que eu não quero para minha vida. Eu não quero ficar numa sala, não quero ficar atendendo uma pessoa. Não quero ficar ali fechada nesse espaço com uma, eu quero o grupo. Então, foi muito importante essa experiência do estágio”. E aí, dentro dessa... Da faculdade clínica e institucional, fiz a parte de escrita de projetos, que foi onde eu também me encontrei: eu gosto de escrever projeto, gosto de formalizar ideia, de dar vida àquilo que as pessoas estão pensando, então, assim, de desenhar e pôr no papel: “Não, mas isso que você está falando é o quê? Ah, é isso”. Então, vai lá, vai desenhando, vai trazendo cor para aquilo que a gente, depois, vai experimentar num... Dentro de um financiamento, alguma coisa.

P1 – Eu queria que você me contasse um pouquinho mais em detalhe essa sua fase na faculdade. O que mudou no seu dia a dia? Como foi esse estágio que você fez? Conta um pouco mais para a gente.

R - A minha faculdade foi, assim, um espaço muito importante, porque eu... Aquilo que eu aprendia dentro da Pedagogia é o que eu vivenciava na prática, nos grupos com adolescentes. Então, queria escrever sobre isso, falar sobre o que de fato é esse espaço de ensino-aprendizagem, porque todo mundo está enfileirado, né? Nós precisamos ficar em círculo. E a proposta da roda de conversa que eu, nós, com o Grupo Tum, realizávamos, era em círculo. E eu viajava muito nesse período, então nunca estava muito tempo na faculdade, mas quando eu chegava, sempre tinha coisas para contar, das histórias da viagem e eu lia os livros que eram para fazer prova, para... Entendeu? Então, eu era boa aluna, porque eu me interessava pela matéria, porque estava vivenciando isso no meu campo de trabalho - que aí eu já estava no Grupo Tumm também como coordenadora, como monitora. - E, quando eu fiz estágio na Barão de Mauá, que foi o estágio clínico e institucional, eu estava trabalhando num projeto com adolescentes em medida socioeducativa, já estava num outro estágio como coordenadora desse programa, desse projeto aqui em Mococa, e experimentando também uma outra realidade, que é a dificuldade de ter recurso para atender crianças e adolescentes, para atender adolescentes em conflito com a lei. Estava olhando também para as instituições, como é e quais são as atividades que essas instituições de fato oferecem para as crianças e adolescentes em Mococa. Nesse momento, eu já estava engajada no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescentes, então, dialogando com esses espaços, fazendo parte de reuniões do Ministério da Saúde, para poder discutir a agenda jovem, a construção da Caderneta do e da Adolescente, dentro do Ministério da Saúde; participando de projetos do Ministério da Justiça chamado “A paz também é a gente que faz”, que foi o projeto piloto nacional, para desconstrução de violência e construção de cultura de paz. Então, a Pedagogia, a Psicopedagogia foi, assim, muito importante: eu me encontrei no meu campo profissional, e de jovem militante também, dentro das leituras que a Pedagogia me apresentava.

P1 – Certo. E, pelo que você está comentando, então, na época da faculdade, você já estava, de certa forma, complementando a prática que você já tinha com a teoria, que é o que você estava tendo na faculdade. E como você se enxergava com tantas atividades, ainda tão jovem, mas com tantas atividades e com uma militância forte, tanto profissional, quanto também na faculdade, no sentido de já ter realmente escolhido esse sentido dos direitos da criança e do adolescente? O que isso significava para você, empenhar tanto do seu tempo nisso, quando ainda era jovem?

R – Meu tempo era só para isso. Eu não tinha tempo para outras coisas, porque outras coisas não existiam no meu universo. A não ser isso que eu fazia. Então, todos os meus amigos compunham esse movimento de adolescentes do Brasil. Minhas experiências, minhas saídas, meus passeios, era envolvendo toda essa militância e todos esses espaços de diálogo e de discussões sobre essa pauta: adolescente e juventude. E eu sempre me vi com muita responsabilidade e eu não entendia por que é que todos os meus amigos saíam das suas cidades e eu não, como assim? “Por que que eu não consigo sair? Todo mundo voa e eu não consigo voar, eu estou aqui, todo mundo está fazendo diferente…”. Todo mundo ficou no seu cantinho e depois, ó, cresceu, e eu permaneci aqui em Mococa. Em alguns momentos, isso me trouxe muita angústia. E, depois, eu entendi que estava tudo bem, que o meu espaço é aqui, minha atuação é aqui e conseguia fazer aquilo que eu queria fazer estando em Mococa e viajando para outros lugares. Sempre foi um peso muito grande ser a Ieda que eu sou, né, que eu sempre fui. Por quê? Era intrometida, sabia do que estava falando, então muitas vezes questionava e mostrava o que eu estava pensando. Não era um questionamento, a crítica pela crítica, tinha fundamento para mim, então eu queria convencer as pessoas de que aquilo que eu estava falando, não estava falando à toa: tinha outros atores, autores falando daquilo também. Então, eu era muito provocativa nesse sentido, entendeu? De desacomodar, de tirar do lugar, principalmente as pessoas que traziam mais resistência para acolher o trabalho com crianças e adolescentes. E foi, assim, fantástica a experiência que eu tive com adolescentes em conflito com a lei, em dialogar e contracenar com uma instituição engessada, que é a Fundação Casa, né? E de entender que, em Mococa - que aqui não era a Fundação Casa, mas os meninos que nós atendíamos vinham de lá. - E aí, o que nós iríamos oferecer para eles aqui? Então, era a... Sempre foi esse peso de carregar: “Não, eu tenho de dar certo, porque ninguém acreditou em mim, né? A minha família não acreditava em mim, mas eu vou provar para eles que não é por aí não, que vou ter destaque. Eu vou ser, ainda, alguém que eles vão ter orgulho”. Então, em muitos momentos, eu queria ser o orgulho da minha família, embora minha família não tivesse dimensão de tudo aquilo que eu fazia e da grandeza que era fora, porque eles não tinham essa compreensão. Então, quando eu ia dar alguma entrevista na TV, eu falava coisas que nem sempre eles entendiam: “O que era ‘protagonismo juvenil’?”. Então, ficava, às vezes, distante. Só que era muito interessante, porque eu sempre... A minha família sempre esteve nos encontros municipais de adolescentes, a minha avó cozinhava nos encontros de adolescentes, ia para a cozinha, sabe? As minhas irmãs, quando tinham idade; as minhas primas iam participar dos encontros; a minha mãe também chegou a ir no encontro, ajudar na organização. Então aí eles começaram a entender o que eu fazia, o que era e que eu não ia engravidar cedo, que não ia encher a casa dos meus avós de netos, e que era essa a minha pegada, né, que eu queria viver tudo isso.

P1 – Então a sua família, houve um momento que a sua família foi se aproximando também na sua atuação, para conferir, para ter uma ideia do que você estava fazendo?

R – Sim. Num primeiro momento, logo que o Grupo Tumm foi fundado, eu era muito próxima da minha coordenadora da época, que era a Tuni - pessoa super querida para mim até hoje - e eu passava muito tempo no Grupo Tumm. Saía do Grupo e ainda ia para a casa dela, porque a gente gostava de escrever projeto juntas. E aí, ali eu ficava, então. Assim, a Tuni e o Paulo, que é o esposo dela, têm muita importância na minha vida, né? Porque a gente almoçava todos os dias juntas, aí saía do Grupo Tumm, passava na casa dela, lanchava, para depois a gente ir para a faculdade. Ela estudava na mesma faculdade que eu. Então, era ir em casa só para dormir e isso, em alguns momentos, gerou, assim, um pouco de incômodo, de ciúme, e aí teve confusão na minha família com a Tuni, né, no sentido de ir lá e reclamar: “Olha, ela está passando muito tempo aqui, você vai pagar todas as horas que ela está trabalhando para você?”. Então, teve essa situação e, na verdade, não eram horas de trabalho, era uma troca: eu estava ali, porque dali eu ia para a faculdade junto. Mas eles ficaram enciumados. No começo, com o Grupo Tumm, tinham, assim: “Ah, mas será que isso vai dar certo? O que será que ela fica fazendo lá?”. E aí, aos poucos, eles também foram entendendo, porque aí minhas irmãs vieram, meus primos vieram - eles gostavam de participar -, então aí eles começaram entender que não era nada de prejudicar as pessoas ou... Porque, assim: muitas pessoas achavam que era um grupo religioso, que era uma seita. Não era, era um grupo de adolescentes.

P1 – E depois, saindo da faculdade… Você terminou então a faculdade de Pedagogia, né? E o que você foi fazer depois?

R – Isso foi em 2000... Ah, eu casei. No último ano de faculdade, (risos) eu conheci meu esposo em 2003, meio de 2003, em julho, [e] em novembro eu já falei que ia ficar noiva. Foi um “boom” na minha família: “Como assim você vai ficar noiva com quatro meses de relacionamento?”. Eu falei: “E daí? Tempo não quer dizer nada”. Eu tinha namorado uma outra pessoa antes do meu esposo, durante dois anos e meio, e não tinha dado certo. E aí eu fiquei um ano e pouco sozinha, depois que eu conheci meu... O Reginaldo. E aí, no final da faculdade, no último ano, eu me casei. E o Reginaldo sempre foi aquele cara que foi em tudo, viajou com o Grupo Tum, conheceu as pessoas, participava de tudo e sempre, assim, com muito orgulho de me ver lá na frente falando, né, de dar palestras, essas coisas. Sempre foi, assim, um companheirão. É até hoje! E aí, quando eu saí da faculdade, já estava casada, numa outra vida, num outro momento. E aí foi um momento muito difícil, que o Reginaldo falou: “Olha, não dá para você ter essa vida, não dá para você ficar viajando tanto do jeito que você viaja, não dá para você ficar trabalhando até a noite na casa da Tuni. Agora você precisa... Você casou, nós estamos juntos, eu quero passar o final de semana com você e que ‘não sei o quê’”. Aí foi um sofrimento, porque eu não era prisioneira de ninguém: “Ele me conheceu nessa vida, como assim querendo me trancar numa gaiola? Agora não posso fazer as coisas que eu sempre fiz? Estamos juntos há dezessete anos. (risos) E aí eu falava para ele: “Olha, não vai dar certo se ficar me tratando desse jeito! Você querer que eu fique aqui limpando casa, lavando, passando, cozinhando, igual a todas as mulheres; eu não sou igual a todas as mulheres, tenho outros objetivos, outras metas. Eu quero terminar... Eu vou estudar e tenho que viajar, tenho as minhas coisas para fazer. Eu sou consultora”. E aí foi muito difícil ele entender quem era eu e eu entender que marido, com quem eu tinha casado e como é que a gente ia conciliar tudo isso dentro desse universo que eu já vivia e que eu não queria abrir mão. Porque eu não conhecia outra realidade, só conhecia e me preparei para viver aquilo que eu estava vivendo. Então, foram momentos, assim, que ou ele vem junto ou a gente não vai ficar mais juntos, porque não dava para abrir mão de tudo. E eu também fui mostrando para ele que a gente precisava, enquanto marido e mulher, a gente tinha que ter metas separadas, metas individuais, mas a gente tinha que ter meta enquanto casal, a gente não podia só ficar no individual. Qual é a nossa vida em comum? Então, o que nós vamos fazer de final de semana juntos? Para eu me organizar, porque se não tiver nada, eu vivo a minha vida e a gente se encontra só à noite, para dormir. Então, aí começou a gente a negociar e entender o que era coletivo, o que era individual, o que no comportamento dele eu precisava entender e ele não ia mudar, o que ele precisava entender no meu comportamento. E não foi fácil esse equilíbrio, né, nos primeiros anos. Acho que hoje está mais fácil a vida, nós já... Não tem mais tanto, não tem nem tempo para ficar discutindo muita coisa, hoje, né? Mas foi também um período de muito conhecimento. E o Reginaldo fala isso para mim, que eu falava para ele: “Você é muito inteligente. Não pode parar no ensino técnico, tem que estudar. Você tem que fazer uma faculdade, daqui a pouco eu estou fazendo pós e você está com ensino técnico. Daqui a pouco, eu estou indo embora e você vai ficar em Mococa”. Foi isso que nunca aconteceu, porque eu nunca fui embora, né? Mas eu falava isso pra ele e ele entendeu a sacada, que ele só tinha 29 anos e tinha que correr atrás da vida dele também. Ele foi o primeiro da família dele a fazer a faculdade e, assim, eu fiquei muito orgulhosa, porque foi um parto para ele poder... Prestou Enem, ele conseguiu uma bolsa 100%, porque senão a gente também não teria condições de fazer. Então, se não fosse o Prouni, o Reginaldo não tinha feito Engenharia Elétrica, que é o curso... Hoje, ele é engenheiro civil. - Ah, não tinha feito Engenharia Civil, desculpa, ele é engenheiro civil. - E isso foi muito importante, esse período, ter acesso ao Prouni.

P1 – Certo. E como começou esse seu envolvimento com o Serviço Social? Quando ele começou?

R – Como sempre, eu trabalhei com crianças, adolescentes e grupos, então sempre pensei que ser assistente social poderia me realizar profissionalmente. Já que eu não fui advogada, não fui veterinária, então [o] Serviço Social se aproximava muito das minhas ideias. Porque o Grupo Tumm está inserido dentro da assistência social, como segmento do terceiro setor, e todas as experiências profissionais que eu tive na minha adolescência e juventude até hoje, é nesse campo da assistência social. Então, eu fui coordenadora de projeto para adolescente em conflito com a lei; coordenadora de projetos relacionados à saúde, mas dentro do Grupo Tumm; hoje... Depois, eu fui coordenadora de projeto que desenvolveu serviço de convivência e fortalecimento de vínculos, que é dentro da assistência, durante sete anos; hoje, estou [como] conselheira tutelar também dentro da assistência. Aí eu fui fazer Serviço Social. E foi um período muito interessante, porque aí eu já tinha tido meu segundo filho, falei: “Meu Deus, encaro mais essa? Faço faculdade ou não faço?”. E, como já tinha experiência, essas experiências de trabalho, de relacionar com a área, eu fiz à distância, que é o que podia também, né, financeiramente falando e por já ter dois filhos. Eu fiz o Serviço Social e foi, assim, uma mega experiência. Foi fantástico! Aí fiz estágio também na Assistência, conheci a minha orientadora, que é uma pessoa, assim, muito importante. Ela me dava dicas: “Ieda, faz tal coisa. Ieda, é por aqui, não é assim. Ieda, pensa em tal situação”. Então, ela me abria muito, assim, os horizontes e é alguém bem especial também. Mas, nisso, eu já não estava mais no movimento social, já estava no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, como coordenadora dessa ONG que atua no terceiro setor, aqui em Mococa - que não é o Grupo Tumm. É uma outra instituição, católica. - E aí, imagina: eu entro numa instituição católica para falar dessa minha visão de mundo, para dialogar sobre direitos de crianças e adolescentes, numa instituição que via crianças e adolescentes como coitadinhos, os que não eram... Não tinham direito, né? Era mais assistencialismo, do que Assistência mesmo, em si. E foi muito bom ter participado dessa ONG, ter coordenado.

P1 – Qual era o nome dessa ONG?

R – Chama Lar Maria Imaculada. É uma instituição que existe há 85 anos, aqui, em Mococa. Durante um tempo ela foi abrigo, né, de crianças e adolescentes. Hoje, executa o serviço de convivência e fortalecimento de vínculos.

P1 – E me conta um pouco mais sobre essa questão, né, de você ter entrado para trabalhar nessa ONG e das diferenças que você encontrou entre a sua atuação e o que era feito lá.

R – Bom, no primeiro ano, quem era a coordenadora da instituição era uma irmã, porque o Lar Maria Imaculada era presidido por irmãs concepcionistas. Então, ela era presidente. Ela tinha uma visão do quê? De Irmã, que era o cargo que ela ocupava, né, com uma filosofia católica apostólica romana e eu lá, com o meu discurso de que o Estado é laico. Então nós não podíamos ter, dentro da instituição, dogmas, né? A gente tinha que ser aberto, porque tinha criança e adolescentes ali que praticavam outros credos e tinha que respeitar. E, inclusive, falar sobre esses credos ali, porque tinham outras crianças, não só os católicos. E foi um choque muito grande, o primeiro ano foi muito difícil, porque a irmã sacou que eu era muito diferente dela. E aí eu chegava lá para trabalhar e não podia fazer reuniões com os grupos de educadores. Ela tinha uma desconfiança de que as pessoas poderiam estar confabulando contra ela e quando, na verdade, eu só queria organizar quais seriam as atividades. Eu pensava que criança e adolescente tinha que ter, os educadores, um planejamento, coordenar isso, né? Você planejar aquilo que vai ser executado, a maneira que vai ser executado. Tinha que ter objetivo e meta para alcançar, não poderia ser algo solto. Eu comecei a mostrar isso para ela, só que ela não tinha essa compreensão, porque, naquele momento, a instituição entendia que você fazia uma atividade de reciclado e estava bom. Eu compreendo que isso é bom e sempre compreendi, só que fazer aquela atividade de reciclado tinha que ter um objetivo: onde quer chegar com aquela atividade? Não poderia ser a tampinha pela 'tampinha', atividade pela atividade, e ela não tinha essa compreensão que eu trazia para ela. Então era um choque de ideias muito grande. Na época, eu tinha só o meu primeiro filho e meu filho nasceu com problema de saúde, o Vinicius, né, que hoje tem 11 anos. Até os cinco anos, ele fez muitas... Ele fez quinze, quatorze cirurgias, então eu ia com frequência para a Unicamp, para retornos médicos e ela, quando ela foi fazer minha demissão no final do ano, falou: “Ieda, estou te demitindo por três motivos. - eu lembro disso como se fosse hoje – Primeiro, você não tem testemunho de vida cristã; segundo, você viaja muito com o seu filho; e terceiro, você não comunga”. E aí eu falei para ela: “Perfeito, irmã. Eu não vou estar aqui preenchendo quadro e um perfil profissional que não tem a ver com o que a senhora precisa, não vou começar a frequentar a igreja católica e a comungar para manter o meu trabalho, não faria isso jamais. Eu posso sair daqui hoje e decidir que eu vou frequentar a igreja católica, mas não porque a senhora está me falando isso e sim porque eu estou entendendo que isso é importante para mim, não para manter emprego". Então, eu… "E a questão da viagem com o meu filho, a senhora não tem filhos. Então, eu não estou viajando para passear, viajo por uma questão de saúde, que é direito dele ter acompanhante, mas eu acho que a senhora também não consegue entender isso para mim, enquanto mãe, mas eu respeito a sua decisão. Eu não preciso permanecer - acho que a nossa relação está muito desgastada - na instituição. A senhora não precisa esperar terminar o ano, pode falar para eu não vir a partir de amanhã e está tudo bem. Não tenho mais nada para falar com a senhora”, virei as costas e saí. Aí, no que eu saí, ela saiu atrás de mim: “Você não me deixe falando sozinha, porque você é muito autoritária” e falou, ficou brava comigo. Eu falei: “Irmã, não tenho mais nada para falar [e] a senhora já falou tudo que eu precisava ouvir. Eu também já falei. Quanto mais tempo a gente passar conversando, mais desgastante vai ser para nós duas”. Fui embora naquele dia e [fiquei] muito chateada, porque eu falei: “Poxa, eu falhei e agora não vou ter emprego mais em Mococa”, porque essa instituição é uma instituição de nome em Mococa e não deu certo. Eu fui embora, ela me ligou no outro dia, falou que era para eu voltar lá, para terminar o mês. Eu terminei o mês, entendendo que eu precisava passar por esse processo também, porque senão ia ficar sem salário. Aí terminei o mês e fui dispensada. Isso, em dezembro. Em janeiro, trocou a Irmã, veio uma outra Irmã, lá do nordeste. Eu já tinha sido demitida. Estava na praia, tocou meu telefone e [não] era essa Irmã, querendo me chamar para uma entrevista. Eu falei: “O quê? Uma outra Irmã querendo me chamar para uma entrevista? Ela deve ter falado horrores de mim, o que eu vou fazer lá?”. Bom, lá vai eu. E aí a Irmã me fez a seguinte pergunta: “Por que você saiu da instituição?”. Aí eu contei para ela que eu não me sentia com espaço para ser coordenadora, para fazer tudo aquilo que eu achava que a instituição tinha potencial para ser. Uma instituição com quase 80 anos de história no município, não poderia ser somente um espaço, uma redoma para receber crianças e adolescentes; as crianças tinham que entrar ali de um jeito e sair transformados no final daquele ano. E tinha que ter meta, objetivo. Não podia ser somente isso, e estava sendo isso. Eu não me alegrava e não consegui, me senti muito frustrada por não cumprir com a minha ideia de coordenação e falei para ela: “Olha, e outra coisa, eu não sou católica. Eu não frequento religião nenhuma. De vez em quando eu vou em culto evangélico, porque a minha família inteira é evangélica e, às vezes, quando me dá vontade, eu vou em igreja católica, mas eu não frequento nada. Então, se falar que eu tenho que frequentar alguma coisa, eu já não volto, porque não gosto dessas coisas, que eu tenho que 'Ah, senão perde'", porque a outra Irmã fazia chamada do que tinha caído na missa, no domingo anterior - então era coisa desse tipo -, e as pessoas tinham na ponta da língua porque tinham medo de perder o emprego. E era uma afronta não ir nem para decorar as coisas, para falar para ela, sabe? E a Irmã [nova] gostou do meu jeito. Era uma Irmã revolucionária, que tinha o desejo de mudar o mundo. Bom, nós mudamos a instituição. Foi, assim, uma experiência única, porque ela tinha essa visão de Paulo Freire, de educadora, de fazer círculo, de que as crianças não podem sair dali do jeito que elas estão, de que as crianças merecem mais, as famílias merecem mais: "O que nós estamos oferecendo para eles?". E aí, a partir do olhar da Irmã, a instituição entendeu que também não dava para chamar as crianças e adolescentes de coitadinhos, que eles não são. Nós começamos a fazer os espetáculos de dança, colocando as crianças no palco para dançar, para mostrar para o mundo quem eram elas, o potencial que elas tinham. Nós organizamos a primeira fanfarra do Lar, porque não tinha instrumento, [e] meia dúzia de 'gatos pingados' numa chuva. Nosso primeiro desfile de Sete de Setembro e nós estávamos lá, desfilando com as crianças e adolescentes. Então, a fanfarra, as reuniões de família começaram a ser mensais. Por quê? Não dá para trabalhar criança e adolescente sem você trabalhar a família, então a família tinha que estar lá dentro do Lar: família tinha que entender que aquele Lar era o lar de todos nós. E começamos a tratar as famílias como a gente acha que elas têm que ser tratadas, como a gente gostaria de ser tratada se eu estivesse chegando numa instituição. Meu filho também participava da instituição, de tudo. (risos) Depois eu falo do meu filho, sobre isso. E nós começamos a mudar a ideia de que o Lar não era mais aquele abrigo. O Lar tinha uma equipe de "telemarketing" muito forte, tem até hoje, e a captação de recurso era em cima desse discurso - desculpe o termo -: desgraçado, pobre, miserável, as crianças passavam fome, as crianças não tinham o que fazer; elas precisavam de sua ajuda por isso. E aí a gente começa trabalhar que essas crianças são mais do que isso e elas começam [a] se apresentar: foram conhecer o espaço da Câmara Municipal, a Prefeitura Municipal; o prefeito foi dentro do Lar, vereadores dentro do Lar. Fizemos uma Feira das Profissões em Mococa, onde nós chamamos as profissões que as crianças queriam ser quando crescessem: bombeiro, polícia, delegado, juiz, todo mundo estava lá. Então, cada dia da semana tinha pelo menos dois ou três profissionais. Fizemos um "ranking" das profissões do Lar. Tinha um [até] que queria ser o presidente do Brasil. Então, foi muito legal. Aí o Lar foi saindo de dentro de si para fora e Mococa começou a entender que o Lar era uma potência. Então, foram sete anos e isso eu falo com muito orgulho porquê, assim, nós mudamos a identidade da instituição. Eu permaneci lá durante sete anos - essa Irmã ficou lá 2014, 2015 e 2016, três anos -, [e] foi o suficiente para a gente participar de campeonatos de xadrez. [Antes], nem tinha xadrez no Lar. Nós conseguimos comprar xadrez e ia para campeonato, nós fazíamos atividades de interação com outras instituições. Então vinham, nós recebíamos outras instituições dentro de uma instituição que sempre foi fechada, né? Era só a gente ali no nosso cantinho. As reuniões de família e de educadores, porque eram reuniões semanais, uma vez no mês era com um profissional, para falar e capacitar os educadores sobre o tema relacionado a criança e adolescente. Então, por exemplo, a gente tinha dificuldade com as crianças com comportamento opositor, desafiador, [e] chamou um psiquiatra para falar sobre isso, com a equipe de educadores e também com os pais, porque essas crianças iam para casa no final de semana... Né, ao final do dia. Então, nós começamos a mexer nessa identidade e também a trazer um olhar de que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e precisam ter oportunidade, as mesmas que eu tive e que o Grupo Tumm me ofereceu, as mesmas que meu filho estava tendo. A gente precisa, junto com a família, mostrar que existe projeto de vida, projetos de vida, porque os projetos mudam no decorrer da história. Eles começaram a falar sobre isso e a entender que você precisa oferecer mais para o seu filho. "O que você oferece, hoje, para seu filho?". Só o trabalho infantil não dá, precisa oferecer mais! Além da proteção, além do cuidado, além da sua função de ser pai e mãe, que era uma outra coisa que a gente trabalhava muito, essa responsabilidade familiar, que a família também queria deixar lá e ir embora, não queria ter compromisso, mas não: "Para o seu filho estar aqui, a contrapartida é você também estar. E para você estar, uma vez no mês nós temos reuniões de família". Aí tinha as coisas da reunião de família, um ‘BISinho’: “Que bom que você veio!”. Sabe, essa coisa de motivação. Fazia o levantamento dos temas que as mães queriam ouvir: alienação parental, divórcio. Era o que elas tinham necessidade, não o que eu [e a] instituição queria conversar com ela. E aí, eu não sei falar sobre essas coisas, então chamava quem era da área: “Olha, as mães estão querendo saber sobre divórcio, Lei Maria da Penha, você pode ir lá?”, ia o advogado orientar essas famílias. Então, foi assim. A experiência no Lar Maria Imaculada foi a minha primeira experiência distante do Grupo Tumm e a minha primeira experiência como gente grande, sendo coordenadora da instituição, né? Já não era mais a Ieda que estava na barra da Tuni. E falo disso com muita alegria também, porque nunca foi um problema, sempre foi um prazer estar ao lado dela. Então, foi isso.

P1 – Certo. Então, vamos falar um pouquinho dessa questão dos seus filhos, né? Você já tinha o seu primeiro filho nesse período: eu queria que você me contasse como foi e como foi também ser mãe para você, com essas coisas que aconteceram.

R – É, eu já estava casada há cinco anos quando nós decidimos ser pai e mãe. Então nós conversamos sobre isso e falei: “Vamos... Então, vai ser agora!” Nessa época, meu esposo estava trabalhando em Marília (SP), como eletricista numa empresa. Então, ele ficava vinte dias fora e voltava. Eu engravidei, fiquei super feliz [e] falei: “Nossa, agora eu vou ser mãe!”. E foi uma gravidez de risco. Meu filho nasceu prematuro. [Quando] eu descobri, já estava com um mês e meio de gravidez. Fiquei cinco meses de repouso absoluto, levantava só para ir ao médico. Teve período que eu passei usando cadeira de banho, cadeira de rodas dentro de casa, porque eu tive sangramento, corria risco de perdê-lo. Só que eu achava que tudo… E, assim, foi muito interessante esse período do repouso: era um período de auge, em 2009. O que estava acontecendo aqui? Estava como coordenadora do projeto de adolescente em conflito com a lei e eu estava, assim, apaixonada nesse projeto: e como coordenadora na Escola Rotary também, de cursos profissionalizantes. Vem a gravidez e me para, literalmente. Eu já não podia mais ir fisicamente nos espaços onde eu estava. Não tinha tanta "internet" há dez anos, tinha WhatsApp. E eu fiquei de cama gestando essa gravidez, vivendo dia a dia essa gravidez. O que eu imaginava? Nasceu, acabou: "'Rua para que te quero', aí eu vou descontar tudo que eu fiquei deitada. Vou perambular pela cidade, porque eu não tive essa coisa de ir nas ruas e as pessoas me verem grávida", como toda grávida exibe a barriga. Eu não pude sair, era só deitada. E marcou o parto... Marcou não, já estava tendo contração desde o quinto mês e eu fui no médico, estava com... Eu estava entrando no oitavo mês naquele dia e o médico falou... Já estava na dosagem máxima do medicamento: “Ieda, você vai ter que parar o seu medicamento, porque você já está na dosagem máxima. Só que o bebê vai nascer nessa madrugada, então você se prepara”. Aí eu falei para ele: “Mas e o senhor vai lá fazer o meu parto?”. Era particular, só que eu estava na carência da Unimed, ele falou: “Olha, são três mil reais para fazer o seu parto”. Eu não tinha esse dinheiro [e] não tinha como conseguir emprestado, também porque ele já ia nascer naquela noite. Meu marido fora, eu falei: “E agora?”. Bom, foi exatamente o que aconteceu: Reginaldo veio embora, era um sábado, de sexta-feira para sábado era o dia dele chegar e, na madrugada, três horas da manhã, estourou minha bolsa. Ah, um parêntese: naquele período nós estávamos em discussão sobre a municipalização das medidas socioeducativas em Mococa e o convênio da prefeitura com o projeto que eu estava foi interrompido, sete meses sem salário: é o tempo da minha gestação. E eu fui. Estourou a bolsa, falei: “Maternidade, para a maternidade". O meu médico, naquele dia, estava chegando para fazer o parto de uma outra pessoa. Eu fiz o pré-natal com ele, todo o pré-natal, às vezes, mais de uma vez na semana, só que eu não tinha três mil reais para pagar para ele fazer meu parto. E, na época, o país estava vivendo a gripe H1N1, então não podia entrar meu esposo. Era álcool em gel para tudo quanto é lado, naquela época também. E eu lembro que cheguei na recepção, ele me encontrou, bateu a mão nas minhas costas e falou: “Vai dar tudo certo”. Ele foi fazer o parto e eu fiquei ali sozinha, porque meu esposo não pôde entrar. E eu angustiada, nunca tinha vivido um parto. Não sabia se ia ser parto normal, se ia ser cesárea, como é que ia ser. Eu já estava com dor e logo veio a médica, fez o toque, trocou o plantão, me colocaram na sala de pré-parto e veio um outro médico, o médico fez o parto, foi super rápido. Foi parto... Ele falou assim... Não, não foi rápido não: “Seu bebê vai nascer uma hora da tarde”. Eu internei na madrugada e trocou o plantão seis horas da manhã, eu falei: “Como assim uma hora da tarde? Tudo isso eu vou ter que esperar?”. Ele falou: “Vai ser parto normal, eu não posso fazer cesárea em você”. Aí eu falava para ele: “Mas eu estou sofrendo demais, eu internei na madrugada” e aí eu já tinha todos os meus direitos, eu já sabia dos direitos, gente, como é que ia me deixar ali? Tá, foi a melhor coisa que ele fez: me deixar esperando para eu ter o parto normal. Por quê? Na hora que o Vinícius nasceu, ele foi para a salinha ao lado e o pediatra passou aquela ‘sondinha’ no nariz, que sai do outro lado, a sondinha não saiu. Ou seja: ele não tinha esôfago por onde passar a sondinha e ir até embaixo, e ali começou o nosso primeiro desespero. Na hora que eu estava saindo da sala de parto e indo para o pós-parto, o pediatra disse assim para o médico: “Sabóia, nós temos um problema, a criança está com problema”. E eu estava passando, só olhei para cima e falei: “O que está acontecendo?”. Aí o Sabóia falou assim para as enfermeiras: “Pode levar” e me levaram. Só que eu ouvi, não tinha como negar e eu não sabia que não podia tomar banho depois do parto, eu não sabia as coisas que podiam acontecer. Aí eu fui lá para a cama, colocaram um monte de cobertor em cima, porque é um frio desgramado que a gente sente, acha que você está dentro de um cubo de gelo. E eu levantei, porque queria saber o que estava acontecendo com meu filho e tomei banho, o médico chegou no quarto, eu estava passando lápis, aí o médico falou pra mim assim: “O que você está fazendo de pé, na frente do espelho, passando lápis?”. Eu falei: “Doutor, eu já ouvi que nós temos um problema e não quero ficar com cara de abatida”. Foi essa a minha fala para ele. E toda vez que ele me encontra, ele lembra disso até hoje, né? Ele falou para mim assim: “Olha, precisa o seu marido aqui, para a gente poder conversar”. Eu falei: “Eu sou a mãe, como precisa do meu marido para conversar sobre o meu filho? Pode conversar comigo até ele chegar. Eu ouvi que ele tem problema, eu quero saber qual é o problema do meu filho”. E ele falou: “Calma, o seu marido vai chegar e a gente vai conversar. Termina seu banho, termina de se arrumar”. E aí o meu marido, o Reginaldo, chegou logo em seguida e as pessoas queriam, todo mundo queria visitar a criança. Era um evento, era quase um evento para a minha família, todo mundo do Grupo Tumm, todos os meus amigos, veio minha madrinha de Mogi Mirim (SP). Eu recebendo telefonema: era mensagem de um monte de gente parabenizando, porque o Vinicius tinha acabado de nascer. Só que o Vinicius não veio para o quarto, ele ficou lá. E aí o médico chamou a gente e falou: “Olha, ele não tem esôfago, vai precisar passar por uma cirurgia e vai ter que ser transferido para a Unicamp”. Eu falei: “Como assim? Eu fiz ultrassom todo mês, nunca deu problema de saúde no meu filho. Como assim ele vai... Eu vou junto!”, “Não, você não pode ir junto porque você acabou de ter um bebê”. Era um sábado, não tinha... A Unicamp fechada, eles estavam tentando contato, aí eu consegui através de uma amiga, que era do Movimento de Adolescentes do Brasil (MAB): o marido dela era médico na Unicamp e conseguiu a vaga para o meu filho. Então, o Vinicius foi, o Reginaldo foi, acompanhou, foi para lá para a Unicamp e eu fiquei em Mococa. Eu dei muito trabalho naquela madrugada, porque o bercinho do Vinicius estava ali. Eu não estava no quarto sozinha, estava no quarto com outras pessoas que tinham acabado de ter bebê, os bebês choravam e o meu não; os bebês amamentavam e eu não tinha bebê para amamentar. (choro) Então, eu cheguei a pedir para ir para outro quarto, porque eu não sabia se ia ver meu filho de volta. Eu não sabia o que estava acontecendo, eu não sabia nem o que ele tinha direito. Não me deixaram tirar uma foto dele, falaram: “Ele não está em condições de tirar uma foto”. Eu falei: “Doutor, uma foto, é o meu filho. Ele vai daqui para a Unicamp. Olha onde está a Unicamp, eu não sei como ele vai chegar lá, eu não sei quando vou chegar lá” e ele não me deixou tirar a foto. Ele falou para mim: “Você vai ver muito seu filho ainda, fica tranquila. Ele está indo para um dos melhores hospitais” e foi no mesmo dia, no sábado. Aquela noite foi uma noite muito longa, eu olhava as coisinhas dele, as roupinhas... Já comecei [a] brigar com Deus ali, falei: “Por que fazer essa patifaria comigo? Levar o meu filho. Eu já fiquei de repouso [por] mais de cinco meses, absoluto, fui uma boa filha, fiz tudo que era para fazer, agora, levar o Vinicius e me deixar aqui?”. Aí aquela noite foi muito “punk” e eu chamava o médico, eu apertava a campainha, falava que eu queria embora e já estava dando hora de ir embora. Era madrugada e eu tinha que ficar dois dias, falei: “Não, eu quero que chame... Chama a assistente social. Eu sei dos meus direitos, sou maior de idade e não preciso ficar aqui. Eu me responsabilizo por mim. Quero assinar qualquer termo, me dá um termo de ir embora. Eu vou embora! Se eu não for embora, vou fugir e aí vai ficar pior, mas eu vou embora!”. Aí foi um transtorno, eu dei muito trabalho aquela noite para elas. Sinto vergonha disso? Não! Sinto tristeza de ter passado aquela angústia. Acho que se eu tivesse ficado num quartinho sozinha, sem escutar choro de crianças, sem escutar as outras mães vivenciando a maternidade, eu acho que teria reagido diferente. Por isso que eu falo hoje em maternidade e nos lugares: “Perdeu a criança, deixa... Preserva porque é uma dor gigante você olhar para o seu bercinho e não ter a criança”. No outro dia, seis horas da manhã, veio a assistente social, veio a prefeita de Mococa - que era a provedora da Santa Casa -, veio meu médico e me deram alta. Aí eu peguei as coisas e fui para a casa da minha mãe nesse dia. Eu passei minha gravidez toda na casa das minhas tias, mas nesse dia da alta eu fui para a casa da minha mãe. Não lembro porque eu fui para lá, mas fui para lá. E a relação com a minha mãe, depois do meu casamento, ela se aproximou. Minha mãe entendeu que tinha filha e entendi que tinha mãe, então eu comecei a visitar mais a minha mãe na companhia do meu esposo, que ele também sempre foi muito família. Ele já conhecia minha mãe também, então teve essa situação. E aí, a esposa do meu chefe, na época, né, o coordenador, foi me visitar e ligam na Unicamp: “Só pode fazer cirurgia na criança com a presença da mãe”. Eu falei: “Que bom, né? Mãe sendo requisitada nesse momento”, porque o meu marido tinha vindo [de volta]. O Vinicius ficou internado lá, meu marido assinou o termo autorizando fazer o procedimento, só que precisava da presença da mãe e a mãe era eu, né? Então, só que, de Mococa para Campinas não tem ônibus o tempo inteiro, era meio-dia, três horas da tarde, seis horas e eram três horas e pouco de viagem. Eu lembro que atendi o telefone, falei: “Mas que hora que eu tenho que ir? Eu tenho que ver a hora de ônibus, porque...” e assim, eu tinha acabado de ter bebê, eu não podia estar andando tanto, mas você acha que eu estava lembrando que tinha tido o bebê? Estava focada no Vinicius. E a Rosária estava lá, que é esposa do Jorge e ela ouviu essa minha conversa. Eu fui no banheiro, ela ligou para o Jorge e a hora que eu saí do banheiro, ela falou para mim assim: “Se arruma que o Jorge vai levar você para Campinas”. (choro) Aí eu falei: “Tudo que a gente precisa nessa vida é de amigos. Então uma amiga conseguiu a vaga, o outro me levou e o Jorge levou eu, o Reginaldo, a minha mãe e ele foi dirigindo. A gente não tinha dinheiro para pagar pedágio, para abastecer, ele abasteceu, pagou pedágio e comprou as coisas para a gente comer lá no dia. Quando eu cheguei, a Doutora Rafaela veio falar comigo, falou: “Você que é a mãe daquela criança linda? Ele é um menino muito grande, né, ó”. Aí explicou, me levou lá na sala, eu o vi, falei: “Doutora, e que cirurgia que é essa?”. Ela falou: “Ele nasceu sem esôfago, mas a gente vai tentar juntar. Se não juntar, a gente coloca um caninho aqui e até um ano, depois faz a cirurgia e aí melhora”. Eu falei: “Mas como eu vou saber se ele está com o caninho ou não?”. Ela falou: “Reza aqui do lado de fora, na hora que abrir e ver que tem coto, a gente costura; se não tiver o coto, é o caninho”, “Quanto tempo dura a cirurgia?” “Uma hora e meia, duas horas”. Três horas de cirurgia e nada de alguém sair do centro cirúrgico. Três horas e dez, três horas e quinze, eu já tinha andado de um lado para o outro, daqui para lá, de lá para cá. Eu já tinha chorado, tinha tomado água, tinha feito de tudo, ela sai sorridente: “Ieda, deu certo! Tem coto e ele está indo daqui a pouco para a UTI e você vai poder visitá-lo”. Aí passa álcool em gel na mão por conta da H1n1 e aí nós fomos para... Passou um pouquinho, entrei lá para ver o Vinicius. Uma criança pequenininha e todo cheio de coisa, ainda com a cicatriz da cirurgia e ele ficou sete dias internado. A gente ia ter alta no sétimo dia. E nesse período, onde fiquei? Fiquei na casa daquela minha amiga que conseguiu a vaga, ela morava próximo da Unicamp. Ela é chilena, fez uma viagem para o Chile e eu fiquei na casa dela, com a funcionária dela cuidando, fazendo comida para mim. Eu passava o dia todo na Unicamp e ia lá só para dormir. Achava que eu ia ficar ali sete dias [e] quando chegou no sétimo dia, a médica veio, eu já tinha preparado todo mundo: “Oh, vai ter alta, vamos embora [e] todo mundo vai conhecer o Vinicius”. A Doutora Rafaela chegou em mim e falou assim: - Iêdinha, ela me chama -  “Iêdinha, a gente precisa conversar”. Eu super feliz, né, falei: “Pode falar!” Ela falou assim: “O Vinicius não vai ter alta”. Falei: “Eu já programei tudo em Mococa, está tudo certo para a gente ir embora. Como assim o Vinicius não vai ter alta?”, “Ele está numa situação muito grave, mais grave do que a que ele chegou. Ele está com infecção generalizada”. Eu falei: “Não, não!”. Aí eu desabei, xinguei Deus, falei: “Onde já se viu fazer um negócio desse comigo de novo! Ah, não! Eu estou sendo uma boa filha...”. Eu faço sempre esse discurso da boa filha, para ele entender. “Mas como assim, doutora? Que infecção generalizada que é essa? Esse menino não tem contato com nada, com ninguém, eu passo álcool toda hora, eu não descuido do álcool. Acho que meu filho, quando sente cheiro de álcool, acha até que é a mãe dele, de tanto que eu passo álcool”. Ela falou: “Ele vai ter que ficar pelo menos mais dez dias”. Aí foram mais dez dias de antibiótico. Teve momento dele reagir, momentos dele não reagir, momentos dele, da gente achar que ele não ia aguentar e ele ficou firme. E aí, com dezoito dias, tivemos alta da Unicamp. Eu cheguei na casa da minha amiga, da Magi e do Juan, tinha bexiga para todo lado, era uma festa, porque o Vinicius estava chegando. Então tinha muita roupinha, ‘shampoozinho’, banheira. Eu não tinha dado banho, aí a funcionária me ajudou, a Maria Rosa me ajudou [a] dar banho no Vinicius e foi, assim, um momento muito feliz, e viemos embora. Eu só não lembro quem que me buscou lá. Mas eu vim embora com o Vinicius no colo. E aí foram cinco anos de procedimentos cirúrgicos. Por quê? Conforme ele crescia, estreitava o esôfago, então tinha que dilatar e era no centro cirúrgico. Então, ele teve pedra nos rins com quatro meses de vida e ninguém sabia de onde vinha essa pedra no rim, porque ele se amamentava exclusivo. Consegui o direito dele ser amamentado exclusivo na escolinha, nenhuma mãe ia lá para amamentar, mas ele não podia com fórmula, era só o leite, então eu ia, de três em três horas. As professoras falavam: “Ele vai ficar com fome, tadinho”, que não sei o que, mas ele já estava habituado de três em três horas, por conta da Unicamp. A primeira escolinha que ele ficou foi muito parceira. Teve um período do Vinicius que ele teve alergia a chocolate e a escola suspendeu o chocolate para ele, todos nós suspendemos e o leite dele era com morango, o bolo dele era com morango ou de fubá e quando elas vinham trazer para ele, falava para ele assim: “Não deixa ninguém ver, porque é só você que come desse diferente”. E ele se sentia especial, não… Diferente de exclusão. A escola foi, assim, fantástica! E teve períodos de um dia eles me ligarem, o Vinicius estava roxo, chupetinha engasgada e eu tive que correr para Ribeirão Preto, que era mais rápido do que Campinas, direto para o centro cirúrgico, para ele desengasgar e fazer procedimento no esôfago dele. Então, foram cinco anos de Unicamp, de cirurgia de refluxo e de todo esse acompanhamento. E o Vinicius sempre foi uma criança muito iluminada, muito decidido, muito maduro para idade dele. É uma criança que tolera frustração, assim, com facilidade, sabe? Porque sempre tinha muitas proibições. Teve uma época na vida dele que ele ficou com restrição alimentar de muita coisa e ele sempre entendeu, ele não tinha problema cognitivo e aí a gente falava: “Não pode”, e não podia mesmo. Teve um Natal que eu me lembro certinho, nós fizemos a ceia aqui em casa: eu, o Reginaldo e ele e, como ele não podia comer das coisas que a gente estava comendo, eu ficava com ele no quarto, o Reginaldo vinha aqui e comia; e aí a gente trocava, eu ia, o Reginaldo vinha e comia. Esse era o nosso Natal, que era o sentido da unidade, né? A nossa família era daquele jeito e era isso que a gente queria preservar o Vinicius, de cuidar dele, para ele entender que ele tinha problema de saúde, mas ele era amado, tinha um ambiente saudável, um ambiente tranquilo, para ele poder crescer e se desenvolver.

1 – Bom, então, retornando, Ieda, na segunda parte da entrevista, eu queria que você contasse um pouquinho sobre a sua vida com o Vinicius, depois desse período das cirurgias e também sobre a sua segunda gravidez.

R – Bom, o Vinicius sempre foi uma criança muito inteligente, então desde pequenininho ele chamava atenção na escola pela liderança que ele apresenta. Ele fala bastante, expõe o que pensa, ele é tímido para poder... Ele não vai ter a iniciativa de fazer a coisa, mas quando questionado, responde, fala, ele... Dizem que é a mãe dele em miniatura. Brincam, né? (risos) Eu falo para ele: “E você não sabe o tamanho do problema que você está arrumando com isso”, né? Mas o Vinicius é muito amoroso, sempre foi muito amoroso, muito apegado a mim e ao pai dele, e ele sempre pediu um irmão, ele falava: “Ah, eu quero ter um irmãozinho”, tal. E quando nós decidimos engravidar... Antes disso, né, a infância do Vinicius foi marcada por essas questões de problema de saúde, que acabava trazendo algumas dificuldades para ele e para mim enquanto mãe. Eu consegui me aproximar de outras mães que também têm criança com problema de saúde e aí entender quais são esses problemas de saúde e me aproximei mais das questões de política pública relacionada às mães de criança prematura, que é o caso do Vinicius, de mães e de crianças que enfrentam longas distâncias para chegar a um centro especializado de atenção. Porque eu estou em Mococa e o Vinicius era acompanhado na Unicamp, então essa questão de transporte, de garantia mesmo de saúde, de medicamento, então começou a aparecer na minha vida com um destaque, assim, um pouco maior e eu comecei a entender um pouco mais sobre isso também e a orientar outras mães sobre essas questões e, principalmente, quando nascia prematuro, que ficava na incubadora, né? É tudo muito novo, principalmente mãe de primeira viagem, então eu já tinha um pouco de conforto para falar em relação a isso. A gente gostava muito de passear com o Vinicius, de ir no bosque, viajar, a primeira vez que a gente foi para a praia, ele gosta bastante e levá-lo para ver os animais no bosque, aqui em Ribeirão. Então, sempre... Depois que o Vinicius nasceu, não existiu mais nenhum programa meu e do Reginaldo que não o coubesse. Ou está todo mundo ou não está, porque ele é parte da nossa família, né? E nós não conseguimos ter programa de adulto, sem ter programa familiar. Tem pessoas que se organizam muito bem assim, nós não nos organizamos. Por quê? Nós não gostamos de deixá-lo com outras pessoas, embora para trabalhar muitas vezes ele ficou. Eu continuei trabalhando muito nessa primeira infância do Vinicius. Até o ano passado, eu trabalhava quarenta horas. Então, era sempre muito puxado, [com] reunião à noite. Mudar o mundo não é fácil, gente, é muita reunião, né? (risos) Então, ele sempre me acompanhou também nesses eventos, nesses espaços, as pessoas conhecem o Vinicius, sabem quem ele é, sabe que é meu filho. Eu sempre fui muito de expor as coisas nas redes sociais, as coisas que eu passo com ele, que eu passava com problema de saúde dele, as minhas experiências com a prematuridade, com UTI neonatal, tudo. E uma das coisas que eu tinha muito medo na infância do Vinicius é que os médicos falavam que, pela quantidade de anestesia, ele poderia ter problema mental e isso me assustava, porque ele era muito ativo, sabia as cores, falava o nome, desde muito cedo muito tagarela… Demorou para andar, isso me preocupou: “Ai, meu Deus, será que ele vai ter dificuldade para andar?”. Levei no pediatra, o pediatra: “Não, Ieda, é o tempo, ele é mais devagar. Os meninos demoram mais”, ele falou para mim. E eu vivia assim um pouco de angústia em relação ao desenvolvimento dele, principalmente o desenvolvimento neurológico. Por quê? Por conta da quantidade da anestesia, me falaram isso uma vez e eu fiquei muito apreensiva. Conforme foi passando o tempo, fui vendo que não tinha [porquê], o Vinicius estava se desenvolvendo normal. Como eu e Reginaldo somos considerados pais de risco, porque nós geramos uma criança de risco, a Unicamp fala isso para a gente, nós fizemos acompanhamento com um geneticista da Unicamp, fizemos exames e aí, depois... O Vinicius tinha dois anos e, durante dois anos, eu carreguei a culpa de não ter gerado uma criança saudável. Eu falava: “Poxa, eu nunca usei droga, não tomei nem refrigerante na minha gestação. Sempre cuidei da minha alimentação na gravidez, como que o meu filho foi nascer com má formação?”. E eles falavam que uma má formação nunca é isolada e, realmente, ele teve um probleminha no rim. Não precisou de cirurgia nem nada, mas teve um probleminha. Eu tinha muito medo de uma segunda gravidez e passar por tudo isso novamente. Imagina enfrentar mais cinco anos de Unicamp, né? Enfrentar criança prematura, problema de saúde, estrada. Eu sabia de cor e salteado que essa vida não dava mais, meu Deus! Já tinha aprendido muito nesse caminho, nesses cinco anos. E o médico, o geneticista disse para mim: “Olha, Ieda, a sua chance de ter um outro filho com problema de saúde é a chance de qualquer outra gestante, não tem nada em você que fale, que eu posso pensar: ‘Olhe, Ieda, tome cuidado, porque você tem um por cento de chance de ter uma criança com problema de saúde’”. Não havia nada. “Você é saudável, o seu esposo também, não tem nada que possa oferecer risco numa próxima gestação”. Tá! E três anos depois, foi que eu engravidei. E aí nós decidimos engravidar. O Vinicius teve alta da Unicamp em fevereiro, comemoramos, fomos para Porto Seguro (BA) e engravidei em Porto Seguro, né? Foi bem essa situação, em março. E aí, quando eu engravidei, fiz o pré-natal, trabalhei até na quinta-feira e o Felipe nasceu no sábado. Uma gravidez exposta nas redes sociais com foto, com tudo que eu tinha direito. Tudo o que eu não vivi na primeira, eu vivi nessa segunda. Inclusive, trabalhando. Era o ápice do meu trabalho no Lar Maria Imaculada. Então, eu estava muito bem, feliz, eu estava bem financeiramente, porque tinha aumentado a minha carga horária, e esperando o Felipe chegar. Bom, o Felipe chegou num sábado, o Vinicius também nasceu num sábado, e eu acompanhei a gestação do Felipe também com ultrassom mensal. Por quê? Eu tive um descolamento de placenta e aí fiz uma cirurgia chamada cerclagem, que é costurar o colo do útero, para o bebê não escapar, digamos assim. E foi monitorado todo mês, nunca foi visto nenhum problema de saúde no Felipe, nada. No Vinicius também não tinha sido visto. Um ecografista aqui em Mococa, excelente, que fez acompanhamento dos dois, falou: “Bom, chegou o grande dia, né, dia do parto”. O Felipe nasceu super bem, durante... Eu fiz cesárea, porque já laqueei. Durante o momento do parto, eu senti algumas coisas, eles me sedaram novamente. O momento do parto do Felipe é um momento muito confuso na minha cabeça, porque não tem tanta clareza, igual ao do Vinicius, que acho que foi por conta dessa, de ter sido sedada novamente. Ele chorou, ele foi... Eu não quis que ninguém assistisse [ao] meu parto, porque não era evento, era um parto, então já deixei bem claro: “Gente, ninguém na sala de parto, somente os médicos”. E outra coisa: estávamos numa epidemia de Zika vírus, então eram aqueles cuidados, restrição, gestante, era toda aquela complicação. O Felipe nasceu, foi lá para o quartinho. Logo, ele veio, sugou, mamou, nós tivemos alta no tempo certo. Tudo ia bem, até que chegou vinte dias de vida. Com vinte dias de vida, ele estava... Eu estava amamentando-o, era um feriado, 20 de novembro e ele ficou roxo, ficou cianótico (má oxigenação do sangue), roxo inteiro, eu falei: “Meu Deus e agora?”, fui direto para emergência. Chego na emergência, o médico, o pediatra que nos atendeu falou: “Olha, é refluxo”, mas logo eu que tive um filho com problema de esôfago e tratou cinco anos para refluxo! Não era refluxo na minha cabeça, não era igual a do Vinicius, não tinha nem vômito. Ele ficou roxo sem ter vômito. Tá! Mas comecei [a] observar, porque vai que é um refluxo diferente. Aí eu comecei observar e a notar que ele começou ficar roxo fora do horário da amamentação. Então, opa! Já não é mais quando está mamando, não tem vômito e agora é fora do horário da amamentação. Aí voltei, eu voltava na emergência: “Não, isso é coisa da cabeça”. Ele ficava roxo comigo, ele chegava lá, estava normal, eu falei: “Gente, não é possível, vou ter que começar a filmar”. Comecei [a] filmar e tirar foto dele roxo. Aí chegava lá, ele não estava mais roxo e voltava para casa. Eu falei para o médico: “O interna, para fazer algum exame, para saber o que é, porque como eu vou levá-lo embora?”. O médico disse: “Ieda, você está procurando ‘pelo em ovo’. Não é porque você teve um filho com problema de saúde, que o teu segundo vai ter. Para de procurar problemas no teu filho”. Eu falei: “Tudo bem, se ele não tem nada, melhor, mas interna e faz exame, que eu vou embora mais tranquila”. Ele não quis internar, aí voltei, onde que eu fui? Na casa da prefeita, porque eu havia trabalhado com ela na campanha, na primeira campanha dela, e levei o Felipe. O marido dela é médico. Ela foi a primeira prefeita mulher de Mococa, Maria Edna. Ela olhou, viu que ele estava roxinho fora do horário da amamentação, ligou para o departamento de saúde, para o diretor de saúde e aí internaram o Felipe. Ele ficou internado e aí, com 23 dias de vida, fez a primeira tomografia nele e aí veio o exame, o laudo: hidrocefalia. Falei... Eu não entendia muito de hidrocefalia, já tinha ouvido falar longe, vagamente. Aí a médica chamou o Reginaldo, para dar a notícia. Porque ela me deu a notícia, eu falei: “Olha, doutora, eu não vou dar essa notícia para o meu marido, não. A senhora chama e a senhora fala para ele, porque acho que ele não vai entender, porque a Unicamp enganou a gente”. Eu falei essa frase para ela: “A Unicamp enganou a gente”. Ela o chamou e foi uma das primeiras vezes que eu vi meu marido chorar. Na hora que falou que ele tinha deficiência, que ele tinha hidrocefalia e que ele era uma criança especial. Ele abaixou a cabeça e começou a chorar. E eu estava tão forte, porque eu precisava saber o que estava acontecendo. Agora já sabia, era encarar de frente essa situação. A médica foi embora, ele foi embora, eu peguei o Felipe no colo, estava internado ainda, falei: “Agora somos nós dois, filho. Agora eu vou fazer de tudo que você precisar, tudo!”. Eu comecei a ligar para as pessoas, porque eu precisava de um neuropediatra e isso era o quê? 23, 25 de novembro. “Daqui a pouco já é Natal e tudo para”. Conseguimos a primeira consulta com o Doutor Helder Zambelli em dezembro, né? Dia 18 de dezembro, lá em Sumaré (SP), neurocirurgião, excelente! E o Felipe tinha um mês e dezoito dias de vida. Nós fomos para lá, ele pegou a tomografia do Felipe e falou: “Olha, seu filho não tem só hidrocefalia, seu filho tem síndrome de Dandy-Walker”. Eu falei: “Doutor, ele vai viver? O que é isso?”. Aí ele falou: “Pode ser que ele viva dois meses, pode ser que ele não viva, pode ser que ele viva mais. Não tem prognóstico, não tem evolução. Cuide dele como um cristalzinho. E seu filho não tem só malformação de Dandy-Walker, ele não tem corpo caloso...”, aí foi falando as coisas que eu não guardei nada. Só guardei o Dandy-Walker no dia. Aí viemos embora, ele tinha um mês e dezoito dias, o prazo de validade é de dois meses, então tinha doze dias para cuidar dele feito um cristalzinho. Eu vivi esses doze dias, dia e noite, igual a um zumbi, procurando as coisas na internet, lendo, buscando ajuda, buscando informação, porque eu não podia aceitar que meu filho tinha prazo de validade e muito menos que eu não ia fazer nada, esperar doze dias como uma mãe espera uma encomenda? O que é isso? Foram dias de pesquisa, de angústia, de choro. O médico explicou naquele dia que o que ele teve foi uma crise convulsiva, ele tinha hidrocefalia, mas não ia colocar válvula na cabecinha dele. Aí nós começamos o acompanhamento dele lá em Sumaré e depois voltei para a Unicamp. A primeira internação longa do Felipe foi dia 6 de janeiro, Dia de Reis. Ele ficou muito mal aqui em Mococa, eu fui de Samu lá para Sumaré, o Doutor Helder já orientou a equipe do que era para fazer, que era para sedá-lo e medicar e para cuidar e ele falava assim para mim: “Mãe, você sabe que não tem muito o que fazer, você sabe que o estado de saúde do seu filho é gravíssimo”. Ele sempre reforçou isso para mim, Doutor Helder nunca mentiu sobre a condição de saúde do Felipe. E, assim, o Felipe me apresentou um mundo das crianças com deficiência, um mundo que eu não tinha acesso, um mundo muito distante de mim e do meu esposo, um mundo invisível, um mundo sombrio, um mundo triste... Num primeiro momento, porque hoje é um mundo de... Hoje, não, né? A caminhada, nesses cinco anos, é de aprendizagem, de vitórias, de conquista, dá um passo para frente e dá três para trás, tropeça, cai, chora, interna, entuba, desentuba. É assim! É uma montanha-russa o Felipe, mas não tem um dia que a gente não agradece pela vida dele, pelas suas deficiências. Ele tem visão subnormal, que é compatível à cegueira, mas tem uma sensibilidade para enxergar (choro) as coisas ao seu redor, de entender a energia das pessoas. E ele sorri para tudo, para tudo, ele é alegre, gosta de beijo e de carinho. Ele não anda, não fala, não entende o que é cor, o que é animal, o que são as coisas, porque ele é bem comprometido. Mas, ao mesmo tempo, é esse universo que ele... A missão dele é essa, né? Vir com tudo isso, para a gente aprender e ele também. Ele se sente muito amado. Por que eu falo isso? Porque ele sorri para gente, ele canta na hora de dormir, as coisinhas dele, ele fala: “Hããããmmm”. Eu falo: “Começou a cantoria. Isso aqui vai longe, viu?”. Ele... Todos os médicos que acompanham o Felipe falam [que] ele só chegou onde chegou por conta de uma coisa, duas coisas: o amor e a família que ele tem. Por quê? O Felipe não tem prognóstico e aí, o que acontece? A primeira síndrome, síndrome de Dandy-Walker, com um ano ele já estava com diagnóstico de síndrome de West. A síndrome de West é uma síndrome de epilepsia, muitas crises convulsivas por dia. Tem crianças, cinco por cento das crianças com síndrome de West podem evoluir para síndrome de Lennox-Gastaut, que também são crises convulsivas muito mais comprometidas e de difícil controle. Felipe evoluiu para a síndrome de Lennox-Gastaut. Depois, com quase três anos, mais uma síndrome, síndrome de De Morsier, que é uma má formação do nervo óptico, que é por conta dessa má formação que ele tem essa visão subnormal. Aí eu brinco com ele: “Felipe, quantas filas de síndrome você resolveu passar, meu filho? Chega, né?”, porque cada hora era uma história. E ele não se abate, assim, sabe? Ele encara as coisas com muita... Eu estaria esgotada. Ele está sorrindo, sereno e tranquilo. Ele se alimentou normalmente pela boca até um ano e meio, depois ele perdeu a capacidade de sugar, por conta das crises convulsivas, aí colocou uma sonda no nariz. Foi um período horrível, seis meses de sondinha no nariz [com] muito vômito, muita dificuldade. E depois ele fez a gastrostomia, que é um furinho na barriguinha, que coloca um “box”, por onde ele se alimenta. Hoje, ele não come nada pela boca, a dieta dele é exclusiva para epilepsia, chama KetoCal, que é uma fórmula única, né, só tem um fabricante aqui no Brasil. É um leite caro, [de] aproximadamente quatrocentos reais a lata, uma lata, que dá para um dia e meio. Então, Felipe me ensinou o caminho das ações judiciais: tem que entrar com ação contra o município, tem que entrar com ação contra o estado, para poder garantir o mínimo, o mínimo do mínimo. Através do Felipe, algumas conquistas, outras crianças também tiveram aqui em Mococa. [Vou] dar o exemplo de uma: quando Felipe nasceu, eu fiz a matrícula dele no berçário aqui e as escolinhas não queriam aceitar porque, além dele ter deficiência, ele tinha crises convulsivas e eu entendo o medo das professoras, entendo o medo das diretoras, em relação a ficar com essa bomba relógio na escola, porque ele tinha mais de cem crises por dia. E o que aconteceu? Nós procuramos a Apae e, na época, o Felipe frequentava a Apae uma vez na semana, só para fono, fisio e (T.O.?). Era meio período, uma vez por semana. E eu trabalhava, então precisava de um lugar para ele ficar e aí, nesse período, que as escolas negaram a vaga para ele, ele já estava frequentando a Apae meio período, mas ainda precisava de outro período. E aí foi feita uma reunião entre o promotor, prefeito e a Apae, onde foi colocado a necessidade das crianças com deficiência com menos de seis anos ser período integral. “Já que as escolas do município não oferecem berçário, onde que seria esse espaço?”, o promotor perguntou para prefeitura e a prefeitura combinou com a Apae, já que a Apae pagava meio período, a prefeitura ia pagar o outro meio período. E a Apae falou que não tinha demanda, aí o promotor falando: “Tendo um é demanda, o Felipe é demanda”. E aí iniciou o serviço de berçário período integral na Apae e, a partir daí, dez crianças se beneficiaram do berçário período integral. Então, foi assim, lindo! Você chega lá, as crianças estão lá, podem permanecer o período integral. Já não precisam ficar em casa, tem acesso a estímulo. As mães podem também trabalhar, se for a opção delas, assim como é a minha opção. Então, esse foi um caminho também de garantia de direitos e só foi possível com a minha trajetória anterior, porque senão não teria encarado uma Apae, né, encarado prefeitura, promotoria e essas coisas, porque tudo isso amedronta a gente, né? Quando você vai procurar e as pessoas falam que não, você volta para casa entristecido, se chateia, até se incomoda, fica bravo, mas você não dá um passo adiante, e nós tivemos que dar um passo adiante. E esse passo adiante garantiu o berçário [em] período integral. Então, isso, para nós, é uma realização muito importante, e foi através do Felipe. E as coisas do Felipe, ele faz acompanhamento lá no Hospital Lucy Montoro, em Mogi Mirim (SP), então tudo nós conseguimos. Como que eu consegui chegar em Mogi Mirim? Que aqui é a referência de ____. Eu entrei no “site” da Lucy Montoro, contei a história do Felipe e pedi uma chance, falei: “Me dê oportunidade de levar meu filho para vocês conhecerem e avaliarem. Se ele não puder participar das atividades aí, tudo bem, mas dê a chance dele ser avaliado”. Ele foi avaliado e conseguiu a vaga, começou fazer as terapias lá também. Só que é 110 quilômetros, né, de Mococa a Mogi Mirim, e ele... Já é a segunda vez que ele começa a fazer lá, aí ele perdeu as duas vezes pelo mesmo motivo: crise convulsiva. Uma das maiores angústias minha [vida], do Reginaldo e do Vinicius, que acompanha tudo isso, né, e também do Felipe, são as crises convulsivas. Elas nunca estiveram estabilizadas. Então, nós atravessamos o período de maio, o mês de maio foi o pior período de crise do ano: ele estava tendo cinquenta crises por dia. É muita loucura você ficar olhando para ele, contabilizando crise, fazendo tabela, você fazendo ajuste medicamentoso, num momento de pandemia, onde os médicos estão suspensos, né, algumas atividades, a comunicação com a Unicamp é por “e-mail” . Assim, eles não fazem orientação por “e-mail”, eles querem que leve o Felipe lá, porque o caso é complexo, eles reconhecem. E nós vamos. Eu comecei a dar o canabidiol para o Felipe, a Unicamp suspendeu, porque o Felipe já teve hepatite medicamentosa. Mas não comecei a dar por conta minha não, ele teve acompanhamento médico, de um prescritor de Cannabis. Foi uma pena a suspensão do canabidiol. Por quê? Ele estava com 150 e uma crises no mês de janeiro. Com o uso do canabidiol, ele veio para sessenta crises em fevereiro, para chegar em maio em cinquenta por dia. É demais da conta! Então, nesse momento, o que eu quero? Uma oportunidade dele ser avaliado lá na USP, em Ribeirão Preto, com a equipe de neuropediatras que prescrevem canabidiol, porque eu já entendi que esse medicamento faz sentido para o Felipe, né? Possibilita a melhora da qualidade de vida dele. Eu não vou brigar com a Unicamp, porque a Unicamp não tem isso no seu rol de medicamentos. No momento, inclusive, o próprio Ministério da Saúde acabou de suspender, não reconhece o canabidiol como tratamento para epilepsia. Não sei de onde vem essa situação, mas tem essa situação. Então, o uso do canabidiol para o Felipe foi super importante. As nossas maiores dificuldades são prover as reabilitações que ele precisa: ele não tem o BPC, que seria o benefício para ele, para a gente poder manter as atividades dele, e não tem porque eu trabalho e tenho renda, aí não dá, naquela questão de renda per capita, e é isso. O Felipe, hoje, está com cinco anos [e] ele continua em acompanhamento lá na Unicamp, ele frequenta a Apae daqui de Mococa. Nesse momento, nós entendemos que... Ele estava fazendo acompanhamento na Lucy Montoro, terça-feira e quinta-feira. Por quê? O que a gente entende, como mãe de criança com deficiência? Que quanto mais, melhor. Então quanto mais reabilitação ele tiver, melhor para ele. Isso é óbvio, pode ser óbvio para todas as crianças, [mas] para o Felipe não foi óbvio. Por quê? Essa exposição de pegar estrada dois dias da semana, de - ele se alimenta por sonda - se alimentar dentro da ambulância na ida e na volta, trazia muito estresse e estresse gera crise convulsiva. Crise convulsiva gera estresse e gerou uma úlcera. Eu só fui entender no dia 3 de junho. Quando ele vomitou sangue puro, eu falei: “Opa, o que é isso? O que está acontecendo?”. E aí eu entrei em contato com a gastropediatra que, por sinal, é a mesma gastro do Vinicius, e ela falou: “Iêdinha, é estresse. As crises convulsivas geraram estresse e o estresse gerou a úlcera. Dá uma olhada na rotina, vamos entrar com medicamento, ele vai estar em tratamento [por] dois meses” e aí deu uma diminuída nas crises convulsivas. De cinquenta crises que estávamos em maio, veio para trinta crises por dia. Hoje, nós estamos com 25 crises por dia. A cada uma crise que diminui, é comemorado com festa aqui em casa. Hoje... Ah, porque eu conto por período, então, o período da manhã ele costuma ter cinco… Nossa, hoje foi três, graças a Deus! Só três! Vai melhorar. Então, será que hoje é o primeiro dia de três e vai vir nessa sequência de três? A gente fica, assim, numa vibração, numa energia muito grande e nós entendemos que menos é mais para o Felipe, nesse momento.

P1 – E nesse período, Ieda, você continuou no mesmo local de trabalho durante esse período todo, né? Quando começou a sua atuação como conselheira tutelar?

R – Eu continuei no Lar Maria Imaculada. O Vinicius frequentou o Lar Maria Imaculada desde 2014, quando eu já estava lá e quando chegou a nova Irmã, né, que eu comentei lá atrás. Essa Irmã, que [se] chama Rosana, é madrinha do Felipe. Então, ela foi minha parceira lá dentro da instituição. Eu permaneci... Ela foi embora em dezembro de 2016 e eu fiquei dois anos na gestão da instituição, sem as Irmãs, com a diretoria, mas na gestão total. Esses dois anos também foram muito importantes, e eu comecei a trabalhar quarenta horas semanais. Então, foi um período, assim, muito intenso. Nesse período, o Felipe já estava período integral na Apae e o Vinicius ficava meio período na escola e meio período na instituição comigo, então terminava o dia, a gente ia embora juntos, né, para casa. Pegava o Felipe na Apae e ia embora todo mundo junto, salvo semanas que tinha reunião. Toda segunda-feira tinha reunião de equipe e toda quarta-feira e quinta-feira reunião de pais, uma vez na semana, né? E a reunião de pais, uma vez por mês. Nesse processo, eu comecei a pensar na eleição para conselheira tutelar e queria muito esse lugar. Comecei a me preparar, fazer campanha, conversar com as pessoas. Como eu já sou uma pessoa conhecida aqui em Mococa, pelo trabalho que eu já vinha desenvolvendo, desde o Grupo Tumm, depois o projeto aprendendo a conviver com meninos de liberdade assistida, né, adolescentes que eu te falei, na Escola Rotary e depois no Lar Maria Imaculada, então eu já tinha uma visibilidade na cidade, meu engajamento em... Nas conferências municipais de direito da criança e do adolescente, no próprio Conselho de Direito, Conselho de Educação. Então, eu comecei a pensar em me lançar candidata. Me lancei candidata, fui eleita em 2019 e assumi o ano passado, em 10 de janeiro de 2020. E aí vem a pandemia. Então, eu estou tendo a experiência de ser conselheira tutelar num dos momentos mais difíceis que nós estamos enfrentando para a questão de garantia de direitos, porque a gente sabe que os maiores violadores dos direitos das crianças são os familiares e os familiares estão dentro de casa com eles. Então, é muito triste toda essa situação. Nós não queremos que o mundo volte sem vacina, mas nós precisamos que essas crianças saiam de casa, para poder trazer as suas denúncias e a gente poder intervir enquanto garantidor de direitos que somos.

P1 – E vocês... Como, em que sentido, vocês têm conseguido ter sucesso com esse trabalho, nesse momento? No sentido do que você falou, né: nas dificuldades das crianças durante a pandemia e de como vocês conseguem retirá-las, né, de lá. Você acha que isso tem tido, a pandemia, impacto muito grande e negativo nesse aspecto?

R – Eu sou uma pessoa muito disponível no município, então, assim, nós realizamos “live” enquanto Conselho, eu sou convidada para fazer bate papo com escola, com adolescentes ou com grupos de educadores, com grupos de profissionais de instituição, então - grupo de famílias também, semana passada foi uma reunião sobre o trabalho infantil - os espaços que nós estamos aproveitando são esses espaços de reuniões virtuais, que aí você consegue orientar adultos para que fiquem atentos, se eles estão vendo que outras crianças possam estar em risco e os seus próprios também, né? Às vezes, na conversa ali, a profissional que está participando identifica alguma coisa e traz para o Conselho. Sem dúvida, a pandemia está sendo, assim, um catastrófico na vida das crianças e adolescentes, e isso nós temos dados que falam pela gente. Então, por exemplo: em 2019, nós tivemos, no ano todo, dezesseis abusos sexuais em Mococa; em 2020, esse número chega a 36. E isso porque nós estamos com as crianças confinadas: 2019, elas estavam livres; 2020, 36 [abusos]; e agora, só no primeiro trimestre, nos primeiros três meses do ano, dezessete. É mais do que 2019. O que 2019 inteiro teve, nós tivemos em três meses. E as questões de violência doméstica, violência contra criança e adolescente triplicou, quadruplicou. As crianças estão chegando sim marcadas, pai e mãe... Nós entendemos que estamos vivendo um momento muito difícil, está todo mundo dentro de casa, mas a questão de saúde mental, tanto de adulto quanto de criança e adolescentes requer ajuda, precisa que a gente olhe para isso. As crianças com deficiências e com dificuldades, com problemas neurológicos, que fazem uso de medicamento e que mudou a rotina estão sofrendo demais, por quê? No espaço da escola e da instituição, eles estão na sua rotina, em casa, já não tem rotina, então eles não conseguem se adaptar. Embora faz um ano e meio que nós estamos [na pandemia], já era para eles terem tido tempo de [se] adaptar. Só que eles não têm rotina, porque os pais saem cedo para trabalhar ou não saem, ou as coisas acontecem de forma... Cada dia está na casa de uma pessoa cuidando e não estou culpando a família por isso, porque o arranjo hoje é assim mesmo, né? Tem que sair para trabalhar. E quando não sai para trabalhar, tem outros irmãos, tem a rotina da casa. Então, a pandemia trouxe um impacto muito negativo, muita gente passando fome, não é nada fácil. Hoje, eu atendi uma mãe de uma criança de cinco anos, a idade do meu filho caçula e falou: “Olha, por favor, o coloque no abrigo, eu não tenho para onde levar”. Eu falei: “Como? Como eu vou levar seu filho para o abrigo? É seu filho!”. E, assim, é uma criança normal, que brinca, que fala, que anda, que assovia, que fez careta para mim ali na sala, sabe, assim? Vivendo a infância. Só que a mãe está no limite: não tem renda, não tem trabalho, mora de favor, está sendo ‘tocada’ de casa, então não tem onde ficar. E aí eu saí do Conselho Tutelar hoje pensando nessa criança e falei: “Se você, hoje, for dormir na rua com ele, você me liga, que aí eu vou buscar e nós vamos acolher”. Já acionamos a assistente social, para ver se a gente consegue o aluguel social. Está difícil. Para você entender: Mococa, no ano passado, passou por cinco prefeitos na última gestão. Então, está sucateado, não tem recurso, não tem nada. E aí, o que você pode oferecer para essas crianças e adolescentes? Então, me traz muita angústia voltar para casa com isso: onde vai dormir, com quem que vai estar? Quem que vai estar protegendo? 

P1 – Certo. E eu queria que... A gente vai entrar um pouquinho na parte final da entrevista e aí essas perguntas voltam a ser um pouquinho mais pessoais, tá? Primeiramente, eu gostaria de te perguntar quais são as coisas mais importantes para você hoje em dia. 

R – Minha família é o que eu tenho de mais importante, principalmente as coisas que eu ainda quero que meus filhos conquistem, é o mais importante, a família.

P1 – E quais os seus sonhos para o futuro?

R – Um grande sonho meu… Nós estamos num momento de troca de casa. Depois de dezessete anos, a gente vai conseguir ter a nossa casinha do jeito que a gente queria. Estamos tendo um problema com isso, porque nós compramos a casa, mas tem um inquilino dentro. Então, assim, meu maior sonho é que o Reginaldo, meu esposo, consiga ter maior destaque como engenheiro civil, porque ele tem potencial, ele sabe fazer as coisas muito bem-feitas, e é conseguir qualidade de vida para o Felipe, estabilizar as crises convulsivas dele e que o Vinicius conclua a sua faculdade... Entre, né, numa faculdade e que a gente possa garantir a faculdade para ele, que eu e meu esposo, [o] que eu e o Reginaldo não conseguimos, que a gente consiga para ele. E meu sonho é ter um mundo onde haja menos violação de direitos de crianças e adolescentes, de mulheres, ver diminuição de feminicídio, ver menos abusos sexuais de crianças e adolescentes. (choro) 

P1 – E uma grande alegria para você?

R – Meu trabalho é uma grande alegria para mim, eu sou muito feliz fazendo o que eu faço, sou muito feliz atendendo as famílias. Quando... Na semana passada, uma adolescente veio me falar que foi chamada para uma entrevista, ela estava apreensiva e perguntando para mim: “O que eu falo na entrevista?”. E essa é uma adolescente lá da ONG, do Lar Maria Imaculada, onde foi meu último trabalho e eu achei muito significativo ela me procurar e perguntar, porque é vínculo, né, e vínculo é algo que você constrói para a vida inteira. Então, eu fico muito feliz com aquilo que eu faço, com os sonhos que eu tenho e com essa nova casa que a gente está para ir, se Deus quiser! E quero fazer um cantinho de fisioterapia para o Felipe e arrumar, na casa, um cantinho para ele e um balanço acessível. 

P1 – E a Tumm, hoje em dia? Como estão os projetos, como as coisas estão acontecendo?

R – O Tumm nunca saiu do meu coração, né? Porque, como sócia-fundadora, eu sempre acreditei no trabalho do Grupo Tumm, porque eu me formei formando o trabalho da instituição. Então, é uma simbiose, né? Tudo que eu sei, tudo que eu sou, foi aprendido no Grupo Tumm, com as pessoas que estão lá, com as pessoas que passaram por lá, as oportunidades que eu tive de conhecer outros estados, pessoas, figuras importantes, foi estando no Grupo Tumm. E eu tenho um sonho de voltar para o Grupo Tumm, para fazer a formação de educadores e de adolescentes multiplicadores, que vão atuar nas escolas como eu atuei, de escrever projetos, contribuir naquilo que eu acho que posso contribuir. O grupo Tumm tem a minha filosofia, a minha... O meu jeito de ver o mundo passa pelo olhar de como o Grupo Tumm se posiciona no mundo também.

P1 – Voltando um pouquinho, você tinha falado que tinha o colégio do Rotary, onde você tinha trabalhado. A gente passou um pouco por cima disso. Eu queria que você só comentasse brevemente como foi sua experiência lá, o que você fazia. 

R – Lá, na Escola Rotary, tinha uma escola profissionalizante e ela oferecia cursos para adolescentes. Quando eu cheguei na escola, só tinha um curso, que era de informática básica e eu falava: “Como que eu vou chamar as pessoas aqui, só para fazer informática básica, né? Olha esse espaço, esse espaço é gigante e através dos computadores dá para trazer outros cursos”, mas não tinha dinheiro, então, o que... Eu chamei um professor de AutoCAD, falei: “Olha, o que você acha da gente fazer um curso de AutoCAD aqui?”, porque a nossa região é muito forte em empresas que precisa, né, de AutoCAD. Ele falou: “Uai, vamos fazer, mas o meu preço é tal”. Eu falei: “Eu não tenho dinheiro, mas a gente pode fazer uma coisa: o que você receber de mensalidade dos alunos é seu e a gente usa o espaço da escola. A escola oferece essa formação e a gente te paga com o dinheiro que entrar de mensalidade. Só que, se não entrar, a gente também não tem. É um contrato de compra e risco, né?”. Aí ele já me conhecia, a gente já tinha estudado juntos, ele falou: “Ieda...”. Eu falei: “Vamos divulgar, para ver se vai ter demanda, se vai ter gente interessada, porque pode ser que não tenha ninguém interessado”. E eu falo: ‘Olha, não vai rolar’”. Noventa pessoas interessadas em fazer o curso (risos) e aí, assim, a hora que as pessoas começaram ver que tinha um custo e o custo era cinquenta reais por mês, não era algo assim gigante, né? E nós montamos três turmas com a quantidade de gente, veio pessoas da região. Aí, o primeiro curso, informática já estava acontecendo, AutoCAD começou acontecer, sábado de manhã, sábado à tarde e sexta-feira à noite, então tinha três turmas de AutoCAD. Aí, depois, eu conversei com uma amiga, que é manicure e pedicure e também faz maquiagem para as mulheres, por uma questão de autoestima, de valorização porque, para você ser manicure, é um custo mais baixo para você abrir o seu salão: você pode fazer dos vizinhos, você não precisa tanta estrutura. Foram três anos de curso de manicure, maquiagem, de panificação, de AutoCAD, de SolidWorks, corte e costura, informática, jardinagem, não lembro se teve mais algum, mas, assim, a escola, teve uma época que tinha 540 alunos por mês frequentando a escola. E o Rotary é assim: eles iam lá - tinha os fundadores, né, da escola - e falavam: “Como estão as coisas aqui?”. Eu ia nas reuniões de quinta-feira contar para eles, mostrava planilha dos alunos. Fizemos formatura de aluno, num determinado momento, para eles verem que aquele espaço que eles estavam cedendo e que tinha objetivo de atender a comunidade, estava atendendo a comunidade e não era só adulto, era adolescentes também, porque a escola tinha... Um dos objetivos: atender crianças e adolescentes. Criança, a gente não tinha como atender, mas adolescente sim e principalmente os meus meninos lá em conflito com a lei. Então, eles fizeram curso lá no Rotary também. Eram famílias de crianças e adolescentes do Lar, porque aí eu ficava meio período no Rotary e meio período no Lar, no último ano, que foi o ano que eu fiquei grávida. Tudo aconteceu num período só. Então, foi uma experiência, assim, muito importante. Depois da minha saída, a escola ficou funcionando mais dois anos e hoje ela está fechada, infelizmente. Mas foi, assim, muito legal, porque é você trazer a questão da utilidade, as meninas na formatura, assim, indo maquiadas, que elas mesmo se automaquiaram, ou com as unhas que elas fizeram. Teve mãe que saiu de lá e abriu salão de manicure e pedicure, que até hoje trabalha como manicure em Mococa. Então, assim, foi muito importante. Eu acredito muito nessas oportunidades de aumento de renda, porque não dá para você criar a partir de uma coisa da minha cabeça. Lá, na escola, fizemos o levantamento do que as mulheres gostariam e quais mulheres? As que estavam no curso de informática básica, de corte e costura, que eram mães lá do Lar Maria Imaculada. Então, foi assim que a gente começou. E depois nós levamos os cursos de maquiagem e de manicure lá para o Lar Maria Imaculada, para as nossas adolescentes lá e para as mães de lá também, mas lá era... Não era... Era profissionalizante para as mães, [mas] para meninas era uma questão de autoestima, principalmente as meninas negras, que tinham muita baixa autoestima com essa questão do cabelo, com essa questão de tom de pele. E foi muito importante essa questão... Trabalhar isso, essa questão de construção de identidade, né? Você não precisa ser outra coisa, você é isso.

P1 – Certo. E você tinha falado também sobre essa questão da Fundação Casa, né? De pessoas que vinham, né, de jovens que vinham da Fundação Casa para Mococa e o seu trabalho com eles. Eu queria que você contasse também um pouquinho mais sobre isso.

R – É, os e as adolescentes em conflito com a lei eram pessoas que cometiam atos infracionais aqui em Mococa e que cumpriam a medida de internação na Fundação Casa. Nesse período de internação, nós acompanhávamos as famílias aqui em Mococa. Depois, esse adolescente voltava para Mococa e ele ficava por um período de seis meses, que é a chamada "liberdade assistida'', é um período que a gente precisa acompanhar o e a adolescente que sai da Fundação Casa. E quando eles saem, saem de lá muito sem perspectiva, né? São adolescentes que já tiveram sua primeira prisão, então assim: tem uma questão de baixa estima, a família muitas vezes acha que ele, ela não vai melhorar o comportamento, que piorou, que é... Que não vai dar certo. E aí nós começamos, no projeto, também, oferecer os cursos para que os e as adolescentes pudessem participar e se profissionalizar. Então lá teve curso de torneiro mecânico, teve curso de mosaico, teve curso de artesanato, teve informática básica. Teve EJA, porque muitos não sabiam ler e escrever, teve reforço escolar, que, na época, a gente não podia nem falar que tinha aula de reforço escolar, era meio escondido, porque na Assistência não pode ter reforço, mas como você vai fazer aula de informática, se eles não sabem ler? Então, tinha essa situação.

P1 – Então, vamos lá, a gente estava falando sobre os cursos de reforço, porque esses jovens, né, os jovens e as jovens, às vezes, não sabiam ler...

R – É, e aí, assim, o que nós percebemos no trabalho com os e as adolescentes em conflito com a lei? Que as famílias eram muito fragilizadas, elas tinham vergonha de ter um membro na família que já estava na Fundação Casa. E, às vezes, tinha famílias que era muito que natural esse percurso, outro já tinha cumprido medida, os pais estavam no sistema, mas para muitas famílias ainda era vergonhoso. Então, além das atividades socioeducativas que eram oferecidas, eram também oferecidos o apoio psicológico para essas famílias, então, reunião, atendimento psicológico para os atendidos e também para as famílias, porque em muitos momentos precisava de um apoio e, às vezes, a família não quer ir para a unidade de saúde, porque já tem muita dificuldade de acessar o serviço, com julgamento. Às vezes, o julgamento nem existe, mas dentro da cabeça dela existe e aí a impede [de] chegar até o serviço. Então, nós oferecemos esse atendimento que a gente falava que é humano. Como você quer ser tratado quando você chegar e precisar de um serviço? Nós só existimos porque tem adolescente em conflito com a lei. Se não tiver adolescente em conflito com a lei, nós não existimos mais. Então, nós precisamos fazer da melhor maneira possível, porque aí entrou o lance da municipalização, para que a municipalização aconteça e essa transição seja uma coisa tranquila, porque eles vão para outro ambiente, né, outros profissionais. Para mim não foi tranquilo, eu tive diabetes nessa época, emocional, por conta da transição.

P1 – Essa transição aconteceu, de fato, nesse período - a municipalização -?

R – Aconteceu a municipalização na minha... Eu estava grávida do Vinicius, de repouso. A municipalização, rolando as primeiras conversas sobre a municipalização, eu [estava] distante das discussões como coordenadora, então foi muito penoso para mim. E quando o Vinícius nasceu, que ele já estava com um ano, foi quando de fato concretizou a municipalização. E aí o serviço foi entregue para a prefeitura.

P1 – E aí você estava ainda atuando como coordenadora nesse período, ou não estava mais?

R – Eu estava como coordenadora nesse período, ainda. Lá nós tínhamos dois projetos, tinha um projeto financiado pela Fundação Telefônica e um projeto financiado pela própria prefeitura. Eu era coordenadora do projeto da Fundação Telefônica. Teve um período, no estado de São Paulo, que a Fundação Telefônica financiou alguns projetos e cinco cidades do estado de São Paulo tiveram dois projetos aprovados, Mococa foi uma delas, foi o Grupo Tumm e o outro projeto onde eu estava, os dois projetos escritos por mim e pela Tuni.

P1 – Certo. E voltando um pouquinho para essa questão dos seus sonhos para o futuro, um sonho profissional que você tenha para o futuro.

R – Eu não almejo cargo político partidário, então, assim, não almejo ser vereadora no município, assumir esses lugares político partidários, mas eu pretendo continuar dentro do Conselho, participando dos Conselhos de Direito, trabalhando essa questão política e essa questão de garantia de direito. Distante da discussão política, embora seja difícil a gente se eximir dessa discussão. Mas, o meu sonho político é continuar realizando conferência municipal dos direitos da criança e do adolescente, conferência de Assistência, conferências que precisam acontecer e ir ocupando esses espaços de diálogos, reunindo mães de crianças com deficiência. Nós estamos para formar o primeiro... A primeira comissão de pais e mães, de pessoas, né, com deficiência daqui de Mococa. Então eu tenho participado dessas discussões. Eu acho que vai ser, assim, muito importante. Então, é participar dessa construção de políticas públicas e também do controle das políticas públicas, mas desse lugar de conselheira tutelar, de mãe de criança com deficiência e de mulher.

P1 – Certo. Então, vamos para a última pergunta, Ieda: como foi para você contar a história da sua vida para a gente?

R – Olha, foi muito agradável, me trouxe memórias muito afetivas e lembranças que muitas vezes a gente acaba não acessando com tanta facilidade, né? E foi muito bom poder participar, poder me ouvir falar sobre isso depois de tanto tempo, né? Poucas vezes a gente tem a oportunidade de falar do que a gente é e quando a gente fala e ouve o que a gente está falando, a gente fala: “Nossa, eu já fiz tanta coisa bonita nessa vida”. (risos) Eu fiquei aqui pensando, sabe? E como tem alguns padrões, né, na minha fala, nesse sentido de... Os cursos que eu fiz aqui, fiz ali, fiz lá, é porque essa é a minha visão de mundo, de existência. Então, foi muito importante poder contar a minha história. Achei que seria mais difícil, que eu ia ter mais dificuldade no sentido de emoção, sabe? E achei que foi muito tranquilo, você foi muito tranquilo fazendo as perguntas, né, me deixou muito à vontade e isso foi muito importante. Não considerei as perguntas invasivas de forma alguma e me senti muito privilegiada nessa tarde, de estar aqui podendo contar um pouquinho da minha história e um pouquinho daquilo que eu acredito como ser humano.

P1 – Então, em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua participação. Sua entrevista foi ótima! Muito obrigado.

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