Busca avançada



Criar

História

Administrando a vida

História de: Paulo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Paulo relembra da sua vida na infância, marcada por traição de seu pai, violência doméstica, abuso sexual de um primo, agressões, entre outros acontecimentos. Conta como começou a trabalhar vendendo drogas e sua perspectiva era ser traficante, além de também ganhar dinheiro com a prostituição. Conta que um amigo o convidou para se inscrever no Projeto e ele foi, sem grandes pretensões, e que acabou concluindo o curso de Auxiliar Administrativo e atualmente está trabalhando como Jovem Aprendiz. Revela que seu sonho é constituir uma família, ter uma casa própria e estabilidade no emprego.

Tags

História completa

Me chamo Paulo e nasci na Região Nordeste do Brasil, meus pais trabalhavam vendendo bebidas, quando ficava no trabalho com meus pais eu juntava com meus coleguinhas, ficava brincando, passava o tempo, esquecia a fome. Criança esquece a fome quando está brincando, mas quando voltava, ficava sentado, às vezes via discussão entre os dois lá.

Quando eles chegavam em casa, ele não só tinha minha mãe, não, tinha outra mulher também. Ele chegava em casa, o apurado do dinheiro, ele não trazia para dentro de casa e sim dava para a outra mulher. Chegava em casa, batia na minha mãe, batia em mim, nos meus irmãos também. E chegava embriagado. Ele deu um tapa na cara da minha mãe na minha frente. Isso é o que eu me lembro, isso foi o que me chocou. Foi a primeira vez. Minha mãe retribuiu com agressão, tinha dez anos na época. Ele chegava em casa embriagado, começava a bater nas coisas, minha mãe ia falar, ele não gostava e partia com agressão para cima da minha mãe. Ele bateu em mim depois de mim já velho (risos)... Em uma discussão, em uma briga que teve lá. Uma briga muito grande aí ele quebrou uma cadeira, foi jogar na minha mãe, mas eu atravessei na frente. Não jogou diretamente em mim, jogou para bater na minha mãe, mas me joguei na frente da minha mãe. Ainda chegou a se atracar com minha irmã mais velha, deu um aperto de goela na minha irmã mais velha e eu fui para o hospital com minha tia. De lá, o Conselho Tutelar conversando com minha mãe, perguntou: “O que foi isso?”, minha mãe explicou. A gente foi para o Conselho Tutelar, fui para a delegacia, tive que dar parte e fazer exame de corpo de delito.

Minha mãe continuou com ele até os meus dezessete anos. Até os meus dezessete anos ele não estava mais dormindo muitas vezes em casa e sim na casa dessa mulher dele. Depois dos dezessete anos, quando eu completei os dezoito anos, minha mãe resolveu com ele para pegar o divórcio. Ele foi embora para casa da mulher dele e até hoje está com ela.

Apesar de que eu não conseguir perguntar como eles se conheceram, minha mãe me diz que ele foi o primeiro homem dela e o único até hoje. Isso é o que minha mãe me conta. Mas depois que ele separou da minha mãe, minha mãe foi à justiça procurar os direitos dela e ela ficou com 2% da aposentadoria dele. Ele se aposentou porque tem um problema no braço, um deslocamento que ele teve no braço que não voltou ao normal.

No meu bairro tem a rua, calçada, tudo perfeito lá, só tem uma coisa: a violência. Ser violento é você ver homens passando armados. Você ver homens matando o outro em frente a sua casa. Rapaz, eu acho que tinha nove anos... Foi a primeira morte que eu vi. Eu estava no terraço de casa. Em frente a minha casa tinha um orelhão público. Tinha um rapaz no telefone, aí veio o outro sem mais nem menos e matou ele. Começou a atirar nele, ele caiu, eu olhei para ele, corri para dentro de casa. Acho que eles se matavam por causa de droga mesmo. 

A primeira vez que eu vi droga foi com dezesseis anos, até porque com essa idade eu cheguei a experimentar droga. Muita. Experimentei maconha, loló, foi numa festa. 

Festa de adolescentes mais velhos do que eu, me levaram nessa festa, já começou: “Vem cá, vem fumar uma taba”, como eles chamavam, uma taba. Aí sem saber o que era, experimentei. Naquele tempo, gostei e continuei usando. Mas graças a Deus hoje em dia não uso mais, nenhum tipo. Dava adrenalina e com isso a vontade de brigar. Mas só briguei essa vez, porque depois quando eu completei os meus dezoito anos eu fui ser católico, fui à igreja. Aí de lá para cá não conheci mais a droga. MInha mãe me levou à igreja.

Minha mãe me dizia muito que ela, antigamente, era escrava. Não escrava como era antigamente, mas sim porque ela ia para roça cortar cana, ralar mandioca, chegava em casa ainda apanhava da mãe dela. Ela me contou poucas coisas, porque o meu momento não é muito dentro de casa, não. Do meu pai eu não sei nada mesmo. Ele não era... Era um pai ausente para sentar e conversar com os filhos.

Quando eu tinha uns sete, oito anos eu ficava direto na creche, mas não era boa. Tinha umas pessoas lá que... Sempre tem pessoas que não tratam as crianças bem. Lá não era um local de bem-estar, era cheio de lixo no canto, esgoto aberto. Ficava lá desde de manhã até às cinco da tarde, porque minha mãe trabalhava, era dona de casa, trabalhava fazendo bicos, lavando roupa, cuidando da casa de pessoas. Meu pai era servente. 

Pensando no meu dia-a-dia, tenho lembranças ruins pela falta de comida, a falta de carinho, amor e afeto, porque se fosse do jeito que eu queria, eu teria o afeto, carinho da minha mãe e do pai. Não só da mãe.

Todo o dia o pai batia na mãe, quando chegava embriagado. A gente ouvia e como era pequeno não podia fazer nada com ele. Não lembro dessa época, porque a minha mente viu muitas coisas sobre violência, aí queria agir com o mesmo jeito, com ele. Tinha vontade de  bater nele também, ir para cima dele, falar coisa com ele.

Minha primeira relação acho foi aos doze anos. Não fui bem abusado, vamos se dizer. Foi tipo um combinado. Sempre tive mais interesse por meninos. Mas comecei a transar por dinheiro quando eu conheci outro amigo meu que me levou para conhecer, eu tinha treze anos e ele dezoito. Eu fui, fiz a primeira vez, ganhei bastante dinheiro, gostei. Achei o dinheiro fácil. Aí continuei indo. Ganhava cinquenta reais por pessoa.  Era muito dinheiro, para quem não tinha um real por dia.

Eu passei um bom tempo me prostituindo, também vendendo droga para ter o que trazer para dentro de casa, o dinheiro. Muitas vezes eu me prostitui, mas não era aquilo que eu pensava. Pensava que ia trazer um bom dinheiro para casa. Pensava que ia chegar em casa sem uma marca, mas muitas vezes eu chegava em casa com marcas e sem dinheiro. 

A gente ficava nas calçadas e passavam  os carros perguntando, a gente ia lá, perguntavam o valor. Se o cliente gostava, quando o cliente gostasse do valor, ele ia, se ele não gostasse, ele ia embora. Os homens que paravam eram casados, homens velhos, homens novos, playboyzinhos, vários tipos. O bom cliente eram aqueles que pagavam bem, os mais velhos.

O primeiro dia que fui fazer programa deu medo, porque eu não sabia para onde ele ia me levar. Aconteceu de uma vez um cliente que por eu não querer dar a ele, ele chegou a me bater, me mordeu e me deixou no meio do caminho. Deixou na BR, no meio da BR, tinha uns que iam para a BR. Mas saia pra fazer programa todo dia. Com o dinheiro que eu ganhava no programa, eu comprava maconha, revendia. Ganhava mais dinheiro vendendo e comprando droga. Se eu vendesse dez papelotes de maconha a cinco reais, dava o quê? Cinquenta reais. No sexo não, sexo tinha que ralar, esperar, às vezes não vinha. Fazia isso desde os meus quinze a dezesseis anos. Fiz isso até o dia que meu irmão me viu, aí foi uma facada. Ele falou para minha mãe, falou para meu pai. Minha mãe não chegou a bater, meu pai também não me bateu, com cintada. Conversaram comigo, meu pai só falou: “Se oriente” e, saiu de dentro de casa. Minha mãe sentou, conversando, disse que não era certo, que se eu não parasse ou ela ia sair de casa ou ia mandar eu para casa da minha tia lá em São Paulo. Nessa hora senti arrependimento do que eu fiz, porque eu sabia que não era certo. Mas fiquei uns seis, sete anos fazendo programa sem que eles soubessem. Aí depois que eles descobriram eu fui parando aos poucos, porque eu vi que não estava dando mais para mim. Eu já estava começando a fazer o meu curso de Informática Básica, já estava vendo as coisas com outros olhos. Futuro, foco. Vendo o que é bom para mim, porque eu sabia que aquilo ali estava me prejudicando, não sabia o que eles tinham no corpo, se tinham alguma doença. Porque se o cliente não quisesse usar preservativo, não usava. Tinha medo de pegar Aids, doença, mas eu ia fazer o quê se eu estava ganhando o dinheiro? Tinha que fazer o gosto do cliente.

Depois comecei a fazer meu curso de Informática, fazendo novas amizades, deixando aquelas amizades que me influenciavam para o mau caminho de lado. Aí fui fazendo as amizades que me levavam para festas, que no meio da festa não via droga, menores não bebiam.

Quando eu entrei no Projeto ViraVida eu acho que estava com dezessete, dezoito anos. Conheci através de um colega meu. Ele me falou que estava tendo inscrição do Projeto ViraVida. Ele me chamou para ir para lá... Eu, sem mais nem menos, fui. Falei com ela, conversei, preenchi minhas fichas lá, fiz uma redação. Ele também fez, até ele me pediu uma ajuda para fazer a redação. Aí eu conversei com ele, expliquei como fazia a redação, porque eu sempre me saí bem em redação.

Aí contei que um primo meu me abusou a primeira vez. Eu não gosto muito de tocar nesse assunto não. Eu não lembro a idade, mas foi dentro da minha casa. Eu era pequeno. Me machucou. Não contei pra ninguém, porque eu tinha medo dele, porque se eu contasse para alguém ele disse que ia acontecer alguma coisa comigo. Ele dormia em casa, só que eu nunca dormi, depois de um momento eu não passei a dormir com meus irmãos, ficava dormindo com minha mãe, de medo. Eu não gosto de pensar nisso. Quando vem, cai nesse momento na minha cabeça, eu procuro alguma coisa para tirar isso da minha mente. Isso não se repetiu porque ele se envolveu totalmente em um crime e foi morto.

Mas aí eu recebi uma ligação, estava na praia, recebi uma ligação para fazer umas entrevistas, porque eu entrei no Projeto ViraVida. Aí eu vim, fiz a entrevista, participei das dinâmicas, pronto. Me interessei pelo projeto porque eu fiquei sabendo que era curso profissionalizante e eu queria ter um trabalho.

Terminei a escola agora, eu não larguei a escola, eu repeti de ano. Tinha desistido. Desisti já na metade do ano, mas sempre fiquei com foco na escola. Repeti três anos. Repeti o segundo ano do Ensino Médio, três anos, porque eu não gostava de estudar à noite, quer dizer, eu nunca gostei de estudar à noite, para ser sincero. Eu fui assaltado duas vezes a caminho e a escola se tornava longe para mim. Aí peguei e parei na metade do ano. Senão eu ficava abusando, não assistia aula, reprovava...

O curso profissional que eu escolhi foi de Auxiliar Administrativo, porque é a área mais procurada hoje em dia. E também que eu sempre me identifiquei com Administração. Fiz amizade com o pessoal do Ensino Médio e com o ViraVida, eles eram diferentes das pessoas que eu tinha como amigo, em tudo, da amizade, até a conversa que eles tinham, não era conversa de má intenção. E isso mudou muita coisa na minha vida, como a minha índole. Do jeito que eu era antes, para o jeito que eu sou hoje, totalmente diferente. Eu não faço mais as coisas que eu fazia. Não tenho mais o pensamento que eu tinha antes.

Na sala, o que me chamou atenção foi a forma dos professores ensinarem. Eles ensinavam, tinha uma dinâmica, não era totalmente focada, “Abre o caderno. Lê esse livro. Faz isso, faz aquilo”, não. Era uma dinâmica, sempre foi uma dinâmica as aulas dos professores.

Tive que falar muito com as psicólogas, elas fizeram um bom trabalho comigo, porque eu era muito danado aqui. Eu ficava dançando em cima das cadeiras. Ficava falando alto, gritando no corredor. 

Depois que eu entrei aqui no projeto vi que o dinheiro do programa não estava mais influenciando em nada E eu recebia um auxílio ao final do mês, eu preferi receber o auxílio ao final que era um dinheiro limpo, do que receber um dinheiro sujo. Não estava mais me dando prazer também, até porque eu acho que o que me dava prazer ali não era o sexo, acho o que mais dava prazer ali era fazer o sexo e estar com o dinheiro na mão.

Eu só vim a namorar a partir dos meus dezenove anos. Meu pai e minha mãe, quando souberam que eu era homossexual… Minha mãe sentou comigo, meu pai me rejeitou, disse que preferia que eu não tivesse nascido, preferia me ver com o corpo cheio de formiga, todo perfurado de bala do que um homem em cima de mim. E é para ver o que te falo, dá revolta até hoje com ele. A minha mãe mandou eu ter respeito, respeitar ela, não ficar com anarquia no meio da rua.

AÍ passei um tempo namorando já no projeto, mas não com ninguém do projeto, depois terminou, arrumei outro namorado, não deu certo também, acabou. E hoje em dia estou namorando, graças a Deus, já estamos fazendo hoje seis meses e, em dezembro vai ser nosso noivado.

Hoje eu moro com minha mãe, com uma irmã minha. Meu pai mora com a mulher dele. Mora eu, minha irmã e minha mãe. Agora minha mãe já sabe que eu sou homossexual, me apoia. Eu estou vendo um respeito muito grande. Estou vendo que ela está ali do meu lado para tudo. O namorado vai na minha casa, ela aceita o meu namorado, conversa com ele. Dentro da minha casa ele não dorme, até porque eu não gosto, porque isso fica muito constrangido para minha mãe.

Quando fui arrumar trabalho fui fazer várias entrevistas. Mas quando eu fui fazer essa entrevista do shopping, eu já fui com a certeza: “Esse trabalho é meu”. Também não sabia qual era o cargo que eu ia ficar no trabalho. Fui, fiz a entrevista, entreguei meu currículo, já sabia que tinha uma vaga que era minha ali. Aí eu e outro menino da minha turma entramos no trabalho, aí passou um tempo, mas não era o cargo que eu queria. Aí eu fiquei até o máximo tempo, liguei pro Projeto, falei: “Por favor, arruma outro emprego para mim. Que seja de gari, mas me tira daqui que eu não estou me identificando com isso não”. 

Eu ficava no estoque de roupa. Eu achei horrível, porque eram uns corredores apertados e muita roupa. E tinha um deficiente auditivo lá, e não falava também. Eu organizava correto, ele vinha e não organizava correto. Ele não tinha um timbre para corrigir as coisas. E também eu ficava, às vezes, falando sozinho dentro do estoque, com aquelas roupas todas, sem ter ninguém para conversar. Eu ficava me vendo louco ali. O trabalho inteiro era ficar só dentro do estoque. Quando descia era para tomar um copo com água e subia novamente. Estava me deixando louco. Eu queria trabalhar em um cargo que tivesse pessoas ao meu lado que eu pudesse pelo menos olhar para a pessoa. E ver que estava tendo pessoa naquele canto, não só roupas. Eu saí desse trabalho, passei um mês desempregado, foi quando me ligaram para eu fazer essa entrevista numa empresa que aluga carros. Chegou lá, a supervisora fez, “Você quer ficar? A gente tem cinco vagas, você quer ficar?”, falou com os outros rapazes também, “Vocês querem ficar?”, eu: “Quero”. Aí cinco vagas foram preenchidas.

Nessa empresa eu fico na parte do atendimento, só que eu não fico no atendimento, eu fico por trás do atendimento, fico na parte de administração. Eu fico responsável para recolher os e-mails de contrato, pegar os contratos no arquivo, editar o contrato e enviar. O que me faz gostar desse trabalho foi o local, também o cargo que eu estou e tem pessoas legais lá.

O próximo passo é arrumar um trabalho fixo, na área de Administração, porque eu estou como Jovem Aprendiz lá. Quero arrumar um trabalho fixo, ter minha casa própria, uma família própria. Família pra mim sou eu e aquela pessoa que eu estou, formarmos uma família. Ter um vínculo muito formal. 

Olhando para tudo que vivi, a parte que eu mudaria seria a parte da minha infância. Mudaria ela toda. Eu queria uma infância que meu pai chegasse em casa, abraçasse os filhos, abraçasse minha mãe. A gente sentasse em uma mesa para jantar. Meu pai saísse com minha a mãe, com os meus irmãos, ia à um parque, ia ao cinema. Ele nunca fez isso. Sentar para conversar, ter uma reunião em família. Mudaria tudo, não teria nem conhecido o meu primo.

O que o Projeto ViraVida representou na minha vida? Tudo de bom. Tudo o que você imaginar de bom, ele representa na minha vida. Conhecimento, profissionalização, forma de visão, de olhar o que eu tenho. Não olho mais pra atrás, olho para frente. Foco, visão, futuro.

O ódio pelo meu pai e pelo meu primo ficou lá no porão. Hoje em dia o meu pai está reconhecendo o filho que ele tem. Eu não sou de guardar ódio. Pronto, é isso.

 

"Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações."

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+