Busca avançada



Criar

História

"Ler ou não ser, eis a questão"

História de: Ademiro Alves de Sousa (Sacolinha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/10/2012

Sinopse

Morador da periferia, ex-cobrador de ônibus e estudante de Letras, Ademiro "Sacolinha" é escritor de contos e já lançou seis livros em sua carreira. Viveu uma infância ativa, brincou na rua, rodou pião e empinou pipa. Quando um pouquinho mais adulto começou a trabalhar e se apaixonou pela leitura dentro do trem indo para Itaquera. De momento foi surpreendido pela literatura pois não gostava de ler na escola, porém, quando leu Carolina Maria de Jesus sua vida mudou: compreendeu que era possível ser escritor e periférico. Desde então deslanchou na carreira de escritor, no envolvimento com o movimento Hip Hop, sua militância política contra o racismo e seus projetos, dentre eles, incentivar a literatura dentro dos presídios

Tags

História completa

P/1- Vamos começar nossa entrevista peço para você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R- Meu nome é Ademiro Alves de Souza, nasci em São Paulo, tenho 24 anos de idade. Nasci no dia 9 de agosto de 1983.

 

P/1- Você tem um apelido?

 

R- Meu apelido é Sacolinha.

 

P/1- Por que “Sacolinha”?

 

R- Sacolinha pelo seguinte: quando comecei a trabalhar como cobrador de ônibus em lotação, trabalhei 12 anos no metrô Itaquera, fazia a linha Cidade Tiradentes/Metrô Itaquera, quando cheguei percebi que era outro mundo, até o seu apelido, se você tivesse, eles mudavam os cobradores e os motoristas. Quando cheguei no metrô Itaquera, havia um ambulante cujo apelido dele era Sacolinha, porque todas as vezes que as pessoas iam comprar salgado, pipoca e falavam “Ah, preciso de uma sacolinha”  ele nunca tinha, sempre pedia para o vizinho da direita ou da esquerda: “Ah, me arruma uma sacolinha que depois pago”. Ele nunca pagava então os amigos deles resolveram apelidar ele de Sacolinha. Quando cheguei ao metrô não aguentei, comecei a tirar muito sarro, como é que um ser humano pode ter o apelido de Sacolinha? Tirei sarro, tirei sarro, tirei sarro... Os cobradores do local já estavam tentando me apelidar há tempos e falaram: “Quer saber de uma coisa? Já que você está tirando sarro do rapaz, vamos te apelidar de Sacolinha para ver se você gosta”. Acabei não gostando e pegou, ficou Sacolinha Velho, era o que já tinha e o Sacolinha Novo, que era eu, também até por conta da idade. Acabou pegando, eu não gostei mas fui me adaptando, gostei e foi indo. Em 2002 quando virei escritor de fato, com livro publicado, resolvi usar como pseudônimo porque falei: “Puxa vida, vou arrumar um pseudônimo literário” e arrumei. As pessoas me conheciam como Ademiro, como Anthony, era o meu ainda com “TH”, eu tinha escolhido e, como Sacolinha, falei: “Nossa, mas tanto nome assim? Quer saber de uma coisa? Vai ficar como Sacolinha mesmo e pronto”. Aí ficou.

 

P/1 – Essa época que você começou a trabalhar no metrô Itaquera, quantos anos você tinha mais ou menos?

 

R- Tinha nove anos de idade, ainda estava estudando, morava em Itaquera. A partir de 1998, com 14 anos de idade, passei a morar na cidade de Suzano com minha avó, minha mãe morava em Guaianazes nessa época. Desde que morava na cidade líder ao redor de Itaquera é que trabalhei como cobrador de lotação, até os 20 anos de idade.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho antes dos seus nove anos, bem na sua infância mais tenra. O nome dos seus pais, o que eles faziam?

 

R – Só tenho o nome da minha mãe, pai não declarado, Maria Natalina Alves, mineira, veio para São Paulo, foi a primeira da família a vir aqui, trabalhava como doméstica. Depois veio a minha avó e outros tios... Então foi vindo a família toda. Eu nasci em São Paulo mesmo em 1983, e... Do um aos sete anos de idade fui criado com minha mãe, ora com ela, ora com minha avó. Não gostava muito de ficar com a mãe, porque ela sempre me prendia dentro de casa e nossa! Adorava a rua. Aos finais de semana quando a mãe estava de folga levava e me deixava na casa da minha avó e ela nem ligava, me deixava na rua mesmo, brincando... Gostava muito de ficar na casa da minha avó. Nos domingos à noite quando minha mãe ia me buscar, às vezes tinha que me levar para casa junto com a mesa da avó, porque eu agarrava e não queria voltar de jeito nenhum (risos). Quando tinha sete anos de idade, minha mãe trabalhava no Hospital Santa Marcelina como auxiliar de serviços gerais, ela não tinha como me levar para escola, não tinha uma escola próxima da onde eu morava então ela acabou me matriculando numa escola próxima à casa da minha avó. Dos sete anos de idade até os meus 20, morei junto com a avó.

 

P/1 – Como era esse bairro da Zona Leste? Era Itaquera mesmo ou Guaianazes?

 

R – Cidade Líder, Itaquera.

 

P/1 – Descreve para gente. Era muito diferente do que é hoje?

 

R – Trocaria tudo o que tenho hoje para viver novamente essa minha infância na Cidade Líder, em Itaquera, porque foi um momento histórico da minha vida mesmo. Hoje me arrependo de ser adulto e, por mais que tenha livros publicados, tenha uma vida, que estou para casar, por mais que tenha isso, trocaria tudo pela minha infância. Foi uma infância de subir no pé de goiaba e comer no pé, de chupar manga com sal no pé, sabe? Aquela coisa da infância mesmo. Chupar cana, descascar com o dente e não machucar o dente nem nada, porque você era saudável, estava imunizado disso na rua, jogar bola, todas essas brincadeiras. Não nos preocupávamos em trabalhar, nem em ter dinheiro, vez ou outra tinha que ter dinheiro para comprar uma Tubaína, quando sentíamos muita vontade. Um momento hiper bacana. Chegava as sextas e sábados, eram momentos de casamentos, curso na igreja, juntávamos aquela molecada, tirava no “dois ou um” para ver quem teria vaga de olhar os carros e ter dinheiro para comprar pudim na padaria do Seu Doca que tinha na vila. Era um momento hiper gostoso. Juntava uma molecada tudo... Quando não comíamos pudim com o dinheiro arrecadado olhando carro, a gente ia numa pizzaria, comprava esfirra, ia até uma ladeira que tinha na Cidade Líder, um ladeirão de paralelepípedo e ficava comendo esfirra, pudim, conversando, falando besteira, falando das mulheres, olhando revista de mulher pelada às escondidas. Uma infância mágica. Não tem dinheiro, mas foi uma infância muito criativa, tudo que queríamos, inventávamos e produzíamos nós mesmos. Empinava pipa, jogava bolinha de gude e rodava muito pião. Foi uma infância que não deixou a dever nada para ninguém, hoje me arrependo de ser adulto.

 

P/1 – Vocês faziam traquinagens tem alguma boa história?

 

R – Nossa, tenho bastante.

 

P/1 – Pode contar?

 

R – Tinha algumas de muito mal gosto que estou escrevendo um, aliás, já terminei um livro que provavelmente será editado em 2009, final de 2009, intitulado “Peripécias de minha infância”. Um livro narrado em primeira pessoa, só que um livro de ficção e realidade, o personagem principal é o Artur, baseado um pouco na minha vida, tinha algumas brincadeiras de muito mal gosto, como, por exemplo, nessa ladeira que nos reuníamos à noite para comer pudim e esfirra, costumávamos jogar pneus lá de cima. Muitas vezes também, a gente amarrava num fio, num cordão, e ia para o meio do mato que havia do lado do ladeirão, um matagal. No meio desse fio amarrávamos um sapato. Muitas vezes quando estava vindo um colega nosso, descarregávamos esse cordão e o sapato ia na cara deles. São algumas brincadeiras de mal gosto, mas tinham outras muito bacanas, principalmente em época de aniversário dos nossos amigos. Toda vez que chegava o aniversário de um amigo nosso, ele ficava uma semana, a semana do aniversário inteirinha sem sair para rua, sempre dávamos um jeito de fazer com que ele saísse para rua. E o que a gente fazia? Pegava um ovo, uma semana antes do aniversário, enterrava, comprava farinha de trigo, tudo que era possível para sujar o rapaz, a gente fazia. No dia do aniversário, a gente dava algum jeito dele sair para rua, depois tacava o ovo podre na cabeça dele, a farinha de trigo, e jogava pena de galinha... Um monte de coisa. Ele ficava mais ou menos um mês tentando tirar o cheiro podre do cabelo dele. Então a gente brincava muito com... Era uma infância muito gostosa, muito saudável mesmo, tirando alguma brincadeira de mau gosto, é claro (risos).

 

P/1 – Mas enterrava para apodrecer o ovo?

 

R – Enterrava para apodrecer...

 

P/1 – Onde vocês faziam isso? Num terreno?

 

R -... Três dias... Num matagal mesmo. O matagal que tinha era o nosso quintal, nosso Playcenter. Colocávamos fogo, fazia fogueira, assava batata roubada do quintal do vizinho, chupava cana, soltava balão com o ar da fogueira. A gente amarrava uma linha no balão e deixava-o encher com vapor da fogueira. Quando enchia, soltávamos, ia descarregando a linha e ele ia subindo. O pessoal da Rua Sete descia tudo, achando que era um balão que estava caindo, quando o balão estava caindo, puxávamos a linha e ficava chamando eles, xingando eles de tudo quanto é coisa (risos).

 

P/1 – Quem que fazia parte dessa sua turminha? Lembra-se dos nomes dos colegas?

 

R – São só apelidos por incrível que pareça e são todos estranhos: Casquinha; Zoião e Zóinho, esses dois eram irmãos, cariocas que trouxeram muitas ideias. Inclusive quando fomos roubar cana no quintal do Seu Benjamim, tinha dois cachorros grandes, o Zóinho e o Zoião trouxeram uma ideia de como atrair um cachorro sem gastar muito. A gente tinha um amigo na turma que era bem de vida, toda hora que precisávamos de alguma coisa, de dinheiro, ele: “Não, não, na minha casa tem...” A gente o chamava de Sou Rico  “Oh, Sou Rico...” Ele não gostava. A ideia era pegar um bife, temperar bem, colocar dentro de uma sacola, passar um pouco do sebo do bife em volta e jogar para o cachorro. O cachorro, ao invés de morder a sacola para tentar tirar o bife, ele vai ficar lambendo só, porque vai achar que aquilo é como se fosse aqueles ossos de borracha, não tem como você engolir, não tem como mastigar. De fato deu certo, a gente pegou muita cana, sempre jogávamos o Sucrilhos, o Sucrilhos era um rapaz da nossa turma muito magrelo e recebeu esse apelido porque toda vez que passava aquele comercial do Sucrilhos Kellogs, aquele cereal, falava assim: “O seu filho ta magrinho? Dê Sucrilhos Kellogs para ele”. Resolvemos apelidar ele de Sucrilhos. Então, sempre o jogávamos, porque era magrinho e era fácil de passar entre o arame farpado, no vão. Ele ia, corria, às vezes tinha medo, mas a gente empurrava, ia lá, quebrava as canas, voltava, enquanto os cachorros do Seu Benjamim estavam lambendo a sacola (risos). Pois é, a gente ria demais.  

 

P/2 – Qual que era o seu apelido?

 

R – Eu tinha dois: os que me respeitavam me chamavam de Mirão, que é de Ademiro, é o Miro, Mirão; os que não gostavam muito de me respeitar, me chamavam de Domingão. Por que Domingão? Tinha um personagem muito interessante na Cidade Líder, em Itaquera, um rapaz parece que teve uns problemas psicológicos, foi preso, apanhou da polícia, segundo o que algumas pessoas falam, ele saía às vezes batendo de porta em porta pedindo cueca.

Ele falava, às vezes, um linguajar que a gente não entendia: “Burigá, burigá. Tem cueca para me dá? Cueca para me dá?” e saía. Quando as pessoas mexiam com ele, ele corria atrás para bater, com pedaço de pau e pedra. Como ele era negro e um pouco parecido comigo, o pessoal me xingava de Domingão, o apelido dele era Domingão. Então falavam assim “Oh, Domingão”, e não gostava. Aí já viu né? Não gostou, pegava. Tinha dois apelidos (risos). As pessoas quando queriam alguma coisa minha, que ajudasse, falavam: “Oh, Mirão”. Agora, quando queriam tirar sarro: “Domingão, Domingão...” Eu não gostava e saía correndo. Aí acabava __________, porque o Domingão saía correndo atrás do pessoal, para ficar, tirar um sarro, bater neles e tal. Domingão porque ele só era visto aos domingos na rua, correndo, ele tinha um gingado meio estranho e ficava batendo na porta dos outros pedindo cueca.

 

P/1 – Vocês tinha medo dele?

 

R – Bastante. A gente tinha medo, mas tirávamos muito sarro dele. Corríamos atrás e, às vezes passava em silêncio na rua, a gente falava: “Nossa, mas que estranho”, para gente tinha alguma coisa errada. Começávamos a correr atrás dele e xingar: “Oh, Domingão... “, puxava a calça dele, ele vinha atrás da gente. Aí que era bom, porque era a nossa arte. Corria, corria e dava risada. Tinham muitos momentos que ele pegava algum de nós e sentava o reio.

 

P/1 – Agora, Sacolinha, nessa época na Cidade Líder, Itaquera, parecia um bairro de interior? Tinha muito carro, muito prédio? Como era isso?

 

R – Não, não tinha nem muito carro, nem muita bicicleta, nem muito prédio, não. Acho que até por isso era uma infância, quando falo que daria tudo para viver essa infância, não voltar a ser criança nos dias de hoje, de forma nenhuma. Hoje está tudo mudado, a globalização chegou a tudo quanto é lugar, inclusive na zona rural. E Cidade Líder que não é zona rural, acaba chegando também, carros é o que mais tem hoje em dia, bicicletas também, não tem muita coisa lá. Na época, uma vez ou outra tinha carro passando, tanto que a rua não era de lazer, foi justamente nessa época em 1992 a 1995, que surgiu a lei das ruas de lazer que eram fechadas aos sábados e domingos. A nossa rua não era rua de lazer, pelo contrário, a rua de cima não tinha tanta movimentação, a Rua Sete era uma rua de lazer. Mas a nossa rua, mesmo não sendo rua de lazer, armávamos redes de vôlei, jogava futebol. Uma vez ou outra, acho que de 40 minutos passava um carro. Às vezes as pessoas usavam a Avenida Líder, a avenida principal, para ir para os outros bairros e o nosso uma vez ou outra passava algum carro, era muito bacana. Hoje é difícil, muitas vezes quando volto para Cidade Líder, até parece que a rua encolheu, lembro quando estávamos aqui no ladeirão, do outro lado da rua, quando tinha que atingir o outro lado demorava uma eternidade, uns dez minutos para chegar. Hoje não, em dois, três minutos, parece que a rua encolheu, mas acho que é o nosso dia-a-dia hoje, vivemos tão “tem que produzir, tem que correr”, sempre mais, não importa como, parece que a rua também encolheu. Os moradores são outros também, está muito diferente.

 

P/1 – Me fala uma coisa, quando você começou, assim, a estudar mais formalmente?

 

R – Saí da escola sem gostar de ler e sem gostar de escrever, o que para mim é um fenômeno. Parei de estudar com 18 anos de idade, já estava morando na cidade de Suzano, ainda com essa idade comecei a ler bastante, depois que comecei a escrever, era muita coisa na minha cabeça, tinha que colocar no papel de alguma forma. Foi aí que comecei a dar mais atenção ao estudo, me arrependi de ter ido à escola só para não virar lixeiro, porque minha avó vivia falando “Olha, se você não estudar você vai virar lixeiro”. Então, ia a escola para não virar lixeiro, nem catador no ferro velho. Foi aí que comecei a dar atenção para o estudo, que comecei a fazer alguns cursinhos de informática, de inglês, em 2005, 2006, entrei na Universidade de Letras.

 

P/1 – Quando você começou tinha o que? Sete ou oito anos?

 

R – Quando comecei a estudar na escola tinha sete anos...

 

P/1 – Você detestava?

 

R-... Ah, ia mesmo, por que... Primeiro motivo de ir a escola era porque eu tinha um tio, hoje ele é padre, que vivia dizendo para mim que se não estudasse e se bagunçasse me mandaria de volta para casa da minha mãe. Tudo que menos queria nessa época era voltar para casa da minha mãe, ela ia me trancar dentro de casa. Ia a escola para isso, a partir do momento, da quarta, quinta série, comecei a ir porque não queria virar lixeiro, nem ser catador de lixo. Toda a vez que não faltávamos, que íamos direto a escola, ganhávamos um monte de brindes, caixinha de lápis de cor e minha avó, minha família, não tinham condições de comprar. Isso para mim era o paraíso. Ao invés de minha avó, minha mãe, aproveitar: “No fim do ano você vai ganhar um vídeo game se você for aprovado”, não, pelo contrário, elas não falavam isso. A gente não tinha certo incentivo material, quem não faltasse nessa época na escola, ganhava lápis de cor, giz de cera, ganhava... Muito dificilmente eu faltava. Fui da minha primeira série do primeiro grau até o terceiro colegial, dificilmente faltava, não fui reprovado em nenhuma matéria, não existia ainda essa lei da aprovação automática. Confesso que fui bom aluno, mesmo sem querer ser (risos).

 

P/1 – Sempre na mesma escola que você estudou?

 

R – Até a oitava série do ensino médio...

 

P/1 – Qual escola?

 

R – Na escola Oswaldo de Oliveira Lima, em Itaquera. Do meio da oitava série até o terceiro colegial na escola... Falei Oswaldo de Oliveira Lima, não, então, era na primeira escola a Luzia Queirós de Oliveira em Itaquera. A segunda foi da oitava em diante, o Oswaldo de Oliveira Lima, em Suzano, no Jardim Revista, é o bairro onde moro.

 

P/1 – Da convivência com a sua avó, quais foram os ensinamentos que ela te passou, os costumes da família...?O que ela... ?

 

R – Acho que a melhor coisa que ela fez foi me deixar livre na rua. Foi a rua que me ensinou muita coisa, me ensinou a ser o que sou hoje. Tudo que faço hoje devo à rua. Mas não que ela me deixava na rua largado, de forma alguma, era oito, nove horas, ela me procurava na rua, tanto que quando a gente ia ficar em volta da fogueira às dez horas da noite, é porque eu fugia da casa da minha avó mesmo. Mas por me deixar jogar bola, rodar pião, empinar pipa, foi o maior ensinamento que ela deu para mim, eu com 12 anos de idade, ela falou assim: “Você vai para o Parque Dom Pedro sozinho, vai fazer suas compras, vai se virar, porque senão você vai fazer 18 anos e vai parecer um rapaz bobo, sem saber nem pegar um ônibus.” A gente acostuma na rua a ter um pouco dessa ginga, precisamos dessa imunização. Acho que esse foi o maior ensinamento para mim.

 

P/1 – Você começou a andar por São Paulo sozinho?

 

R – Comecei com 12 anos de idade. Como já trabalhava como cobrador de lotação, então tinha algumas ideias. Lembro que para 1994, 1995, quando chegou o Plano Real, juntava a molecada da rua, eu, e íamos todos para Galeria do Rock, Galeria Pajé, comprar aquelas roupas, bermudas, porque era mais barato. Era legal chegar no bairro com uma bermuda nova. Os primeiros lugares que fui, foi no Parque Dom Pedro, a subida da General Carneiro, Francisco Glicério, tudo... Esses locais assim.

 

P/1 – Como vocês ouviram falar da Galeria do Rock?

 

R – Ah, chegou um momento, em 1994, que na Cidade Líder, Itaquera, era uma febre, né? Você falar que foi na Galeria do Rock era um status, “Esse fim de semana foi eu e o Sucrilhos na Galeria do Rock”, os caras ficavam com inveja. “Oh, legal.” Você pegava um ônibus, às vezes andava por trás, outras vezes a gente economizava o dinheiro da passagem para comprar alguma coisa lá e tal. Chegava ao local, paquerava as menininhas, comprava uma bermuda e ficava olhando. Andar no centro de São Paulo também era um passeio fantástico. Quando voltávamos era tudo de bom. Voltava à tarde para rua e: “Estava na Galeria do Rock”, era um falatório geral. Quem ia era um status.

 

P/1 – O que você achava do centro da cidade de São Paulo?

 

R – Ah, sempre fiquei fascinado por tudo, inclusive à noite, as luzes iluminando, tudo mais. Chama muito as crianças o centro de São Paulo, tudo mais. É tudo isso que me fascina, pessoas, calor humano, as pessoas passando por você, aquela variedade de coisas, guardas, ambulantes correndo da fiscalização, tudo isso me fascinava. Coisa que não acontecia no meu bairro, lá acontecia. Mas também tinha muito medo do centro, quando via a criançada na rua, pessoal que estava em situação de rua, algumas cenas que apareciam nos jornais, de policiais espancando, crianças aparecendo mortas. Ao mesmo tempo em que me fascinava, o centro, também tinha muito medo. Voltava para casa cedo  para não ter problema.

 

P/1 – À noite lá nem pensar?

 

R – Não, nem pensar. Já tive vontade de passar a noite no centro de São Paulo, mas foi depois de virar escritor que comecei a pesquisar muitas coisas, tive vontade de saber como é que era, mas com muita calma... Ainda não fiz isso.

 

P/1 – Já com outra curiosidade.

 

R – Outra curiosidade.

 

P/2 – Quando você trabalhava na sua infância o que fazia com esse dinheiro? Quanto que era o dinheiro que você ganhava? Como era essa sua relação com o trabalho e com o dinheiro?

 

R – Sempre fui muito organizado. Sou hoje um rapaz que acorda, aliás, antes de dormir, deixa a roupa toda arrumadinha, quando acorda deixa a cama arrumada, sempre fui muito organizado. Na minha família, em Itaquera, a família da minha avó tinha uma tradição, havia uma mulher que todos os dias íamos ao supermercado e falávamos assim: “Ir à venda”. Íamos ao supermercado para ela. Primeiro ia meu tio, esse que é padre, Arlindo, depois começou a ir meu outro tio, o Luciano, depois do Luciano, passou a ir eu ao supermercado para essa mulher. Ela sempre dava uma gorjeta para gente, uma gorjeta boa na época, tinham outras vizinhas que mandavam a gente ir e falava: “Ah, depois a gente te dá um trocado” e nunca dava esse trocado. Essa mulher sempre dava uma gorjeta legal para gente e eu sempre costumava guardar. Se ganhava, vamos supor, o que é nos dias de hoje, dois reais, guardava um e cinquenta e cinquenta centavos gastava no fliperama jogando vídeo game. Quando não jogava vídeo game, comprava doce. Mas esse um e cinquenta que ia guardando por dia, ia comprando as minhas coisas. A partir dos nove, dez anos de idade, costumava comprar meus doces, minhas roupas, costumava dizer que minha própria cueca comprava com meu dinheiro. Por ser muito organizado com essa grana, quando não gastava com besteira, doce e vídeo game, sempre comprava minhas roupas. Sentia-me com vontade de andar de skate, começava a comprar as minhas peças, minha bicicleta. Ia juntando meu dinheiro, gastava com coisas úteis também, até para não ter aquela sensação de estar pensando: “Nossa, ganhei dinheiro e estou gastando tudo com besteira”, porque sempre tive medo de pecado.

 

P/1 – Mas é uma prática religiosa?

 

R – Não, não, mas me sinto culpado às vezes em gastar todo dinheiro com uma coisa que não vai ser útil para mim. Depois fico me cobrando: “Poxa vida, poderia ter gastado com outra coisa que seria melhor, útil para mim, para os meus familiares e amigos”. Isso sempre veio na minha cabeça: “Estou fazendo a coisa errada”. Se ganhasse esses dois reais e gastasse tudo com fliperama ou doce, falaria: “Puxa vida e agora? Estou gastando com doce, estragando meus dentes, meu estômago e não...” Então ficava sempre com essa sensação de culpa. Sempre para não ficar com essa sensação, eu pecava, mas ao mesmo tempo pagava esses pecados guardando um real e cinquenta, para comprar as minhas roupas, alguma coisa que seria útil para mim.

 

P/1 – Sacola, você frequentava Igreja? Porque essa idéia de pecado é bem católica, tinha algum ensinamento religioso?

 

R – Olha quando eu queria pagar os meus pecados mesmo (risos). Tanto que passei a ir a Igreja todos os domingos. Vi uma vez um padre, padre não, o ministro da Igreja dizendo que “Poxa vida, Deus dá todo o tempo do mundo para você e não tem nenhum tempo para ele”. Isso ficou latejando na minha cabeça: “É verdade, preciso ter um tempo para Deus”. Foi quando passei a ira Igreja aos domingos para a missa das oito ou nove horas da manhã. Sempre ia e, como sempre chegava tarde, era melhor para mim, porque a Igreja lotava e eu ficava sempre na porta. Olhava para Igreja e olhava para trás, para rua, se a molecada já estava jogando bolinha ou empinando pipa (risos). Tinha domingo que acordava tarde, às vezes acordava, escondia o meu caderno da catequese e falava que tinha perdido, meu tio falava: “Poxa vida, te matriculei lá, consegui uma vaga para você e agora você não vai para catequese?” Então, ora falava que estava com dor de barriga, ora escondia o caderninho e falava que tinha perdido. Sempre vivia adiando, mas com aquela ideia na cabeça: “Olha, Deus vai me castigar, eu podia ter ido para Igreja hoje”. Quando conseguia ir à Igreja, ficar até o final da missa, ficava mais feliz: “Poxa vida, legal, agora vou empinar pipa, vou pecar, fazer de tudo, porque já dei meu tempo para Deus. Agora o tempo é meu”. Hoje em dia, a literatura, a arte, no fim acabou mostrando para mim que posso adorar o meu Deus, posso ter tempo para o meu Deus de outras formas, sem precisar ir a nenhuma Igreja, sem precisar praticar nenhuma religião também. Hoje sou católico mais por herança, toda a minha família é católica por ter um tio padre também, mas eu acabo não praticando e não sinto culpa por isso.

 

P/1 – Qual era o nome dessa Igreja que você frequentava nessa época?

 

R – Era Sagrado Coração. Inclusive tem uma em Suzano também, por incrível que pareça, atrás da casa da minha avó. Hoje não moro mais com ela, moro com minha mãe em Suzano, é um pouco de coincidência porque ficava na mesma rua em Itaquera, essa Igreja do Sagrado Coração, era uma comunidade, porque tinha a Igreja, o _______, hoje em dia chamamos de EJA, de Projeto Jovem, mas existia na época o _______, trabalhava com jovens e pessoas idosas que não tiveram oportunidade para estudar. Tinha o _______, um espaço onde se fazia quermesse, festa junina, era uma comunidade do Sagrado Coração de Jesus. A Igreja que tem hoje atrás da casa da minha avó, em Suzano, no Jardim Revista, chama-se Sagrado Coração de Jesus, mas não é uma comunidade, é só uma Igreja também.

 

P/1 – Sacolinha, a gente está falando de uma infância e  adolescência muito recente, você é muito novo. Mas para estarmos caracterizando esse período, conta assim, como vocês se vestiam nessa década de 90 que você já começava a sair para rua. Como que eram as roupas, as gírias, como era essa vida de moçada?

 

R – Era uma época que surgiu a bermuda calça, aqui no joelho, tinha um zíper, quando estava meio calor, ou você queria fazer alguma média para algum colega, ou para alguma garota, você tirava o zíper e ficava só com a bermuda, tinha uns bolsos largos, grandões. A gente enchia a carteira de papel, para ficar bem gorda, para dizer que tínhamos dinheiro e colocávamos. Era uma época que ou usávamos uma camisa de time ou a camisa do grupo musical preferido. Como ainda não curtia muito música, usava a camisa do Corinthians, mesmo sem muita vontade de torcer, aquela coisa de fanatismo, mas. Era assim, você era bem quisto na roda se usasse alguma camisa de time, ou de algum grupo preferido. Mas tínhamos grandes problemas, justamente nessa época estava aflorando muito essas brigas de punks, clubbers, skatistas e, nessa época, eu andava de skate também, tinha muito medo de usar certos tipos de roupa. Se você usava a camisa dos Racionais, que é um grupo de RAP, você tinha problema de encontrar num shopping Aricanduva, onde a gente mais frequentava os clubbers e os carecas, eles eram contra tudo isso, a ideologia, tal...

 

P/1 – Então eles partiam para cima?

 

R – Partiam, bastante, tinha muita briga. Eu mesmo já cheguei a correr muito, graças a Deus nunca apanhei, até porque sempre fui medroso, nunca gostei de me envolver em briga, quando via que o bicho ia pegar para mim, eu corria e não queria saber de nada. Então o meu negócio era só curtir, andar de skate, ser criativo, brincar, mas briga não era comigo não.

 

P/1 – E as gírias?

 

R – Nessa época, por incrível que pareça não tinha muita gíria, não. Tinha bastante apelidos, essa questão dos apelidos, surgia um apelido que você não gostasse, pegava na hora. Depois tinha que se acostumar, porque de qualquer forma acabava surgindo. Agora, gírias mesmo, eram poucas, no skate tinha uma gíria que tirávamos bastante sarro, era “chupar mangueta”. Fulano estava andando de skate, tomava um tombo, falávamos assim: “Chupou uma mangueta”. Eram bem poucas as gírias. O bom da época eram os apelidos. “Não gostou de um apelido, toma para você”. Era Casquinha, Sucrilhos, Cueca; Cueca era um rapaz que usava as calças do avô, as calças e as cuecas do avô. Muitas vezes quando brincávamos, tirávamos a camisa e jogávamos no fio de eletricidade para o rapaz tentar tirar e não conseguir. Uma vez a gente encontrou esse amigo nosso, o Gilberto, tiramos a camisa e a cueca dele estava bem aqui em cima, uma cueca toda frouxa, resolvemos apelidar ele de Cueca, porque a gente falava que usava a cueca do avô. Falava: “E aí, Cueca?”. Pegou muito a questão dos apelidos, gírias eram pouca coisa mesmo.

 

P/1 – Sacolinha, as paqueras, namoro, primeiros namoros...

 

R – Namorava muitas meninas na escola, mas elas não sabiam que eu as namorava, porque olhava, ficava paquerando e falava: “Nossa, que legal, que bacana, moça bonita, vou namorar com essa daí”. Às vezes, quando conseguia dar um beijo na bochecha de cumprimento já ficava todo contente, todo feliz, para mim tinha ganhado o dia. Mas de fato passei a namorar, passei a levar mais a sério mesmo, com 14 anos de idade, porque na escola sofri muito com a questão do preconceito racial. Tanto que sempre gostei de dançar, na escola Luzia Queirós de Oliveira tínhamos toda época, era verão, festa junina, primavera, sempre tinha danças. Tínhamos uma professora chamada Marli de Educação Física que coordenava as danças, a gente se apresentava, abria a escola para comunidade, vinha o pessoal ver a gente dançar.  Tinha sempre essa época de dança e eu sempre adorava danças, era tudo, festa junina: “Procura o Ademir, procura o Miro, o Miro gosta de dançar”. Sempre quando tinha danças, tinha que formar par, as professoras falavam: “Formem os seus pares” e eu sempre ficava por último, nunca queria chegar naquela moça bonitinha da sala, aquela moça branca, porque tinha medo de ser rejeitado, como muitas vezes eu era. Foi uma coisa que a literatura me ajudou muito, superar esse preconceito e exigir meus direitos também. De fato, comecei a namorar, dar o primeiro beijo, com 14 anos de idade, foi quando surgiu. Nessa época, quando chegava, por exemplo, nos ensaios de escola de samba, primeira da Cidade Líder, tínhamos mania de conhecer as mulheres. Quando a gente conhecia, era cumprimento, três beijinhos, então, cumprimentávamos, dávamos três beijinhos e saíamos todos contentes, para gente aquilo, nossa... Chegava em casa: “Onde você estava?” “Ah, estava namorando.” A avó olhava e dizia: “Quem vê pensa” (risos). Pois é.

 

P/2 – E a primeira namorada mesmo? O primeiro beijo, assim?

 

R – A primeira namorada mesmo que tive, posso considerar, é a minha atual que sou noivo, a Irlândia, ela mora em Barueri, olha a diferença, Barueri e Suzano zona oeste e região do Alto Tietê. Mas antes nunca tive alguém de namorar por mais de três meses, era mais aquela coisa de ficar, ficar... “Vamos ficar.” “Estou ficando com fulana...” “Estou ficando com sicrana.” Mas meu ruim é que sempre fui um sujeito muito sensível, me apegava muito, esse problema de ficar me prejudicou, eu ficava e quando estava começando a gostar... A moda do momento era que você só podia ficar, não podia namorar e tal. Ficava meio assim de pedir para namorar, acabava sofrendo até que arrumava outra e assim ia. A gente acabava ficando, ficando, ficando, era a onda do momento...

 

P/1 – Mas conta um pouco de quando você conheceu a Irlândia,, como foi isso? Namoro que é noivado, que vai virar casamento...

 

R - Isso, daqui um ano mais ou menos, em julho de 2009, estamos casando. Conheci-a num show de rap chamado Rap’ n Festa, que acontece todos os anos. Em 2002 a conheci em São Mateus, estávamos tendo esse movimento de hip hop, estava acontecendo um show do Gog, um rapper de Brasília super politizado. Nesse Rap’ n Festa que era bem organizado, antes de acontecer, tinha um preparo, oficinas, preparo de voz dos rappers, exposição de fanzine - é aquela revista artesanal que surgiu na década de 60, 70, que os grupos, os fãs, os fã-clubes da periferia que curtiam os grupos de rock faziam em homenagem aos seus grupos, colocavam, punham folha de sulfite, dobrava e ficavam quatro páginas, a capa e tal. Totalmente artesanal e ela fazia voltado para o Hip Hop, a Landi fazia isso. Ela foi nesse encontro de Hip Hop que ia ter encontro de fanzines também, eu fui lá para participar de uma apresentação musical de um grupo de Suzano, formado por duas mulheres, a Valéria Dídia e a Alessandra Félix que tinham um grupo chamado Denúncia Verbal. Na época me chamou para fazer uma participação, uma breve fala no grupo e eu falei: “Vamos lá”, elas se apresentaram nesse movimento e quando chegou, a Valéria Dídia que hoje é professora, me apresentou para Landi, elas faziam contato por cartas de fanzine, tudo mais: “Oh, esse aqui é o Sacolinha”, até lembro quando ela me apresentou e a Landi falou assim: “Quem?” Então a Valéria falou: “O Sacolinha”. “Ah, Sacolinha.” Nos cumprimentamos os três beijinhos, tudo mais e continuou rolando a festa, a Landi estava fazendo as suas articulações, entregando fanzine. Na hora de ir embora, já era mais ou menos nove horas, ela estava indo embora porque estava em São Mateus, zona leste e ela precisava ir para zona oeste, Barueri. Como trabalhava de cobrador na lotação daquela área, Itaquera, Iguatemi, Cidade Tiradentes, a Valéria veio perguntar para mim, falou: “Sacolinha, a Landi precisa ir embora, só que ela precisa pegar um ônibus para um metrô ou estação de trem mais próxima aqui”. Mesmo sem conhecer, vou aproveitar a oportunidade, falei assim: “Vamos lá”. Fomos para o lado de fora, a Valéria estava indo com o namorado dela até o ponto, ele precisava trabalhar, pegar o ônibus para ir embora também e ia levar ela para um ponto também. Comecei a seguir a Valéria  e o namorado dela falou: “Não, mas espera aí, o local que vou pegar ônibus não passa ônibus para algum metrô, para alguma estação” Aí falei: “Ah, é verdade, é verdade... É que vou para o outro ponto”, mas nem sabia que ponto eu ia. A Landi não sabia disso, fomos para o outro ponto e vi que estava passando alguns ônibus e falei: “Ah, acho que aqui passa”. Começamos a conversar e toda hora que apontava um ônibus, como ela usava óculos e eu não enxergava muito de longe, achávamos que era o ônibus dela e ia dar um abraço: “Olha, tchau, vamos trocar contato...” Aquela coisa gostosa, de beijar e tal. Até que passou meia hora, passou o ônibus e ela foi embora, passou uma semana me ligou e falou: “Olha, vamos trocar cartas”, era um grande momento dessa época, 2001, 2002, de trocar cartas. Nem tínhamos muito contato pela internet, não tinha esse acesso. Ela ficou de me mandar uma carta e mandou a primeira, já mandei a segunda, terceira. Ela namorava e, na época, eu também. Mas, ela tinha terminado com o namorado dela, voltou de novo e eu continuando com o meu namoro. Até que chegou certo momento que, de tanto jogar indireta, mandar carta, fui e me declarei. Ela tinha terminado já com o namorado dela e tudo mais, só eu que não. Quando ela disse “sim”, ela falou: “Olha, legal, beleza. Mas e a sua namorada?” “A gente está terminando agora.” Até porque não estava muito legal, não estava rolando bem e começamos a namorar. O primeiro encontro que tivemos foi no dia 20 de julho de 2003, no Playcenter, o primeiro local que nos encontramos, o primeiro beijo que demos foi na Estação Barra Funda porque era onde combinamos de nos encontrar, eu vindo de Suzano, ela de Barueri, nos encontramos e foi o primeiro beijo que demos e passamos o dia inteiro no Playcenter. Na semana seguinte, era quase Agosto, fui na casa dela, o mês de agosto inteiro na casa dela, para depois, só em setembro, ela ir na minha. Foi assim que sucedeu.

 

P/1 – Entre vocês se conhecerem direito no ponto de ônibus e se encontrar no Playcenter, quanto tempo vocês ficaram trocando cartas?

 

R – Um ano e meio.

 

P/1 – É mesmo? Nunca se viram, por telefone?

 

R – Não, foi assim, só tínhamos nos visto essa primeira vez, depois foram só ligações e cartas...

 

P/1 – Devem ser cartas lindas...

 

R - ... A segunda vez foi só para se beijar mesmo.

 

P/1 – Devem ser cartas lindas.

 

R – Bastante. Estamos organizando e a intenção é que, quando formos casar, o convite seja o próprio livro das cartas, que façamos um livro com elas e tal.

 

P/1 – Legal. A sua carreira como escritor, como que ela começa?

 

R – Então...

 

P/1 – Quando, como...? Por quê? (risos) Mudando um pouquinho de assunto.

 

R – De tudo isso que contamos, toda explanação que conversamos aqui agora, o momento mais importante da minha vida, que me fez ser quem sou hoje, foi o momento que entrei na literatura. Em 2000, 1998, quando mudei para cidade de Suzano e continuei trabalhando como cobrador de lotação, nesse ínterim de tempo, ainda dei um trampo de seis meses como empacotador de supermercado, num supermercado em Suzano. Quando vi que aquilo não era a minha cara, acabei voltando a trabalhar como cobrador de lotação. Eu pegava o trem todos os dias às quatro horas da manhã, que saía de Suzano e ia para Itaquera, hoje existe uma baldeação na estação de Guaianazes, a gente pega aquele trem espanhol, azul, antes não existia. O trem ia parando nas estações e não tinha baldeação e linha direta a Itaquera, então gastava 45 minutos. Chegou certo momento, quando entrava no trem em Suzano era um marasmo total. No trem de manhã, ou você cochila, ou fala de novela, ou de futebol, ou joga baralho. Como a partir do momento que acordo, tomo um banho, já não consigo mais dormir, não conseguia cochilar no trem, não sabia jogar baralho, não gostava de futebol e também não assistia novela, então o que ia fazendo? Alguma coisa tinha que fazer. Passou um ano mais ou menos, de 1998 para 1999, comecei a ler no trem só para passar o tempo. Veja bem, tinha saído da escola sem gostar de ler, sem gostar de escrever, apesar de ter feito umas boas redações - sempre tirava nota boa em redação - eu nunca gostei de escrever, nem de ler até os 18 anos de idade. Então falei: “Bom, para passar o tempo vou pegar uns livros”. Comecei a pedir uns livros emprestados do meu tio, esse que é padre, ele tinha muita influência em escola, diretor de grêmio estudantil, coordenador de sala de aula, então, ele recebia muitos livros de presente, caixas de livro fechadas e tudo mais. Como muitos livros ele já tinha lido, deixava embaixo da cama dele. Por ele estar estudando para ser padre era o único na casa da minha avó, quando eu morava com ela, que tinha um quarto só para ele. Como não queria pedir livros emprestados na biblioteca, porque você tinha sete dias para entregar, tinha que levar duas fotos, ir com um maior responsável, era uma burocracia total, falei: “Ah, nem gostar de ler eu gosto, vou ler por passatempo, acho que não vou conseguir ler um livro em sete dias”. Pedi um livro emprestado para  meu tio. Ele falou: “Não, você nem gostar de ler, você gosta. Para que? Você vai usar o livro para sentar no chão do trem quando o trem lota”, é isso que o pessoal faz. Então falei: “Ah, então deixa estar”. Ele saiu para tomar banho, deixou a porta do quarto aberta, entrei e peguei um livro, falei: “Vou ler, depois eu devolvo”.

 

P/1 – Que livro era?

 

R – Era um livro da Editora Ática, Coleção Vagalume, “Meu pé de laranja lima”. Peguei esse livro, li, gostei, passando o tempo no trem, então tinha 45 minutos ida e 45 minutos de volta. Falei: “Eu não vou devolver esse livro”, peguei para mim. Fui pegando outros livros, pegando e é por isso que digo hoje: o Brasil só vai melhorar, ou pelo menos algumas pessoas do Brasil só vão melhorar, se passarem a roubar livros (risos). O livro mesmo salva as pessoas, me salvou e continua me salvando até hoje.

 

P/1 – Por que você quis ficar com esse livro do “Meu pé de laranja lima”?

 

R – Porque sabia que o meu tio iria ao convento depois, ele ia ficar numa igreja e tudo mais. Aí falei: “Bom, depois ele vai querer doar esses livros para qualquer lugar, então vou pegar alguns livros para mim, para poder começar a montar a minha biblioteca também”. Também porque gostei do livro e queria que outras pessoas também gostassem dele como gostei. Falei: “Bom, vai ficar comigo que posso emprestar também”. Comecei a surrupiar, pegar alguns livros, a desviar alguns livros e foi ficando para mim. Ele não sabia até o momento que gravei uma entrevista para o programa do Jô, ele assistiu a edição e ficou sabendo: “Ah, então os livros que sumiram era você que estava surrupiando lá?” Em momento nenhum ele ficou sabendo. O mais interessante é que foi o seguinte, comecei a ler no trem apenar para passar o tempo. Chegou certo momento que quando o trem estacionava na estação de Itaquera e tinha que descer, ficava rezando para não ser verdade, que tivesse mais uma estação, ou que o trem demorasse com as portas fechadas para continuar lendo, para ler mais uma página ou mais um capítulo. Estava gostando de ler, às vezes descia a escada rolante lendo o livro, estava indo trabalhar, encontrar com o meu patrão e ia lendo, às vezes capotava porque estava fascinado. Chegou certo momento, acreditem se quiser, quando ia entrar no trem, rezava para acontecer duas coisas: primeiro para encontrar um amigo, segundo para não encontrar um amigo. Por quê? Se eu encontrasse um amigo, ele ia ver que estava lendo, ia ver que estava me dedicando à leitura e aquilo para mim era fantástico, alguém saber que eu estava lendo, estava gostando, aquilo para mim era status diferente.  Rezava também para não encontrar nenhum amigo, nenhum conhecido para eu conseguir ler no trem, ir lendo, sempre que você encontra um conhecido, ia ter que conversar e não podia ler meu livro. Então, imagina o Sacolinha, 18, 19 anos de idade com um livro debaixo do braço, assim, estufando o peito e entrando no trem. Sentia-me o cara mais poderoso com o livro na mão, sabe? De fato sou um cara poderoso quando estou com um livro na mão, contanto que sou o que sou por conta dele.

Foi um momento que passei da leitura para a escrita, ao invés de consumir só o livro, comecei a ser o produtor. Por quê?  Comecei a ler bastante, bastante, bastante mesmo, minha avó e minha mãe falavam que ia ficar louco de tanto ler, de fato eu concordo, as pessoas que leem bastante ficam loucas, ficam loucas se não colocarem o papel o que pensam, se não conversarem, dividirem com os amigos, se não jogarem bola, se não forem ao cinema, acabam ficando loucas também.

Comecei a colocar no papel algumas coisas que via e vivia, estava passando por um momento muito ruim na minha vida pelo seguinte, eu morava ainda com a minha avó, a minha mãe morava em Guaianazes com os meus dois irmãos por parte de mãe, junto com o meu padrasto. O meu padrasto saiu para trabalhar numa sexta-feira e desapareceu, até hoje a gente não sabe o que aconteceu. Fomos, saímos à procura, vasculhamos São Paulo de cima a baixo e acabamos não tendo nenhuma notícia dele. Minha mãe, com medo, morava em Guaianazes, no Jardim Moreno, foi morar na cidade de Suzano, comprou um terreno e, enquanto estava sendo construído, estava morando de aluguel. Passei a ser o chefe da casa, morar um pouco com a minha mãe, estava passando esse momento de ganhar 15 reais por dia, trabalhando como cobrador de lotação, não era nem registrado ainda, com dois irmãos, que tinha 12, 13 anos, minha mãe com 39 anos de idade não estava mais conseguindo arrumar emprego e todos os dias ia para estação de trem, não ia de ônibus, ia de bicicleta. Chegava à estação, amarrava minha bicicleta em algum poste e ia trabalhar, porque esse dinheiro que economizava da condução dava para comprar um arroz e um feijão para casa. Então eu estava passando por esse momento que o Tim Maia costumava cantar: (canta)“Se o mundo inteiro me pudesse ouvir/Tenho muito para contar...”, então, tinha alguma coisa para contar, queria dizer que tudo estava errado, que não podíamos passar por uma situação daquela. Estava para explodir mesmo e estava para explodir para um dos dois lados, que costumo dizer, um é o lado da pólvora e o outro é o lado do açúcar. O lado da pólvora é o lado do crime, das drogas, da violência e o lado do açúcar é o lado da cidadania, é o da cultura, acabei optando pelo lado da cidadania, pelo lado do açúcar, voltei um pouco para a cultura, mas que, infelizmente, costuma ser um pouco amargo, porque trabalhar com cultura no Brasil é uma coisa difícil, mas, graças a Deus, eu optei por esse lado. Comecei a escrever, primeiro porque ia explodir com tanta coisa na cabeça; segundo porque não queria ficar doido; terceiro, muita coisas que estava vivendo, de certa forma, queria colocar no papel. Comecei a colocar no papel, nem sabia o que estava fazendo, se era frase, ou poesia, se era conto, ou crônica, até que comecei a escrever umas letras de Rap e passar para alguns amigos meus que cantavam Rap. Levávamos para uma rádio comunitária que tinha em Suzano, a Comunidade FM 103.5, o pessoal costumava cantar essas letras de Rap, costumava ler algumas coisas, falava que era poesia e o pessoal ligava na rádio e elogiava: “Poxa vida, legal, bacana, queria dizer isso, eu passei por isso que você passou”. Aí falei: “Opa, esse negócio é legal”. Além de me aliviar o pessoal ainda liga, aplaudindo, falei: “Legal, vou continuar com isso”. Foi então que comecei a participar de algumas palestras, alguns escritores, conversar com outros professores de igual para igual, foi quando comecei a ter um embasamento literário, percebi que gostava mais de escrever prosa, no lado da crônica, do conto. Foi quando, em 2003, peguei o trem de manhã para trabalhar de cobrador de lotação, encontrei um amigo e conversando com ele até chegar à estação de Itaquera, ele começou a falar de um amigo de infância que estudou com a gente e que estava no tráfico. Falando desse amigo tive a ideia de escrever um conto intitulado “Graduado em marginalidade”. Como não tinha feito roteiro nenhum desse conto, fui escrevendo, foi tomando tantas proporções que acabou virando um romance. Saiu um livro de 167 páginas. Terminei esse livro em 2004 e fiquei de 2004, mais ou menos julho de 2004, até agosto de 2005 procurando editoras. Foi quando percebi que as editoras não iam publicar um autor que não era conhecido, porque não ia dar dinheiro tão rápido assim, comecei a passar por debaixo da catraca do ônibus, comecei a fazer rifa, churrasco, para arrecadar dinheiro em prol do livro. Foi quando lancei independente, terceirizei o livro, paguei as duas primeiras parcelas, fiz 500 exemplares do romance Graduado em Marginalidade, lancei o livro e saí vendendo por aí. Nessa época tinha criado uma associação chamada Associação Cultural Literatura no Brasil, hoje é uma entidade registrada em cartório, tem projetos, inclusive com o governo federal, com a Petrobras e a gente acabou fazendo esse projeto dessa associação por dois motivos, primeiro para incentivar a leitura, segundo para divulgar os escritores independentes. Foi criado um pouco por conta da minha dificuldade. Criei, fiquei uns dois anos sozinho com esse projeto, essa associação, até que mais para frente se uniram outras pessoas também, acabamos divulgando e incentivando a leitura também. Nesse ínterim de tempo, enquanto saía de Suzano e vinha até a Vila Madalena, Pinheiros, para ficar vendendo o livro de madrugada, tinha lançado 500 livros, todo dia que chegava a casa e via aquele munduera, aquelas caixas de livros, esperando para serem vendidos. Não conseguia colocar nas livrarias, tinha que ter nota fiscal, tinha que ser pessoa jurídica e falei: “Poxa vida, tenho que vender esses livros, porque tem que pagar as dívidas e preciso que o livro chegue nas pessoas”.

Foi aí que comecei a participar de vários eventos culturais, vender o livro, divulgar, ir a palestra de escritores e, enquanto o pessoal estava na fila para pegar o autógrafo do escritor, estava na fila para doar um livro meu para ele, divulgar e pedir que ele lesse o livro depois, para que me desse uma força também. Enquanto isso estava escrevendo um livro de contos, intitulado 85 letras e um disparo lançado em 2006, também edição independente, só que como estava com meio caminho andado acabei publicando mil exemplares por uma editora de Suzano, terceirizei o livro, só que essa editora, chamada Editora Ilustre, acabou dando um viés a mais, ela trabalha muito com autores independentes, então acabou colocando em algumas livrarias. Nessas idas e vindas, cheguei a conhecer muitas pessoas, de projetos sociais, canais de televisão, acabei aparecendo em alguns veículos de comunicação, algumas revistas, jornais impressos, na TV também e foi quando surgiu o convite para sair pela Global Editora, uma editora bem grande, conhecida no Brasil inteiro. Foi quando ela lançou a segunda edição do livro 85 letras e um disparo. Vejam bem vocês, comecei a escrever em 2002, antes só lia, mais ou menos comecei a ler em 1998, para 2000, 2001, só estava lendo nessa época. Depois que comecei a escrever me envolvi com o movimento Hip Hop, o movimento negro, vários movimentos relacionados à área da cultura e a área da cultura social. Até aí era apenas o Sacolinha, cobrador de lotação, que uma hora ou outra tinha três reais no bolso, não sabia conversar direito, tinha muita vergonha de fazer as coisas, metia o pau nos políticos, no panorama geral social do Brasil, mas não dava solução. Quando comecei a escrever, de 2002, até o presente momento, 2008, hoje sou o Sacolinha, tenho orgulho de bater no peito e dizer que sou o que sou graças aos livros, que se não fosse eles, estaria, no mínimo, a sete palmos abaixo da terra.

Se hoje tenho um carro é graças à literatura, se hoje estou fazendo uma faculdade é graças à literatura. Hoje estou trabalhando em uma Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo, graças à literatura, hoje tenho amigos maravilhosos, uma noiva maravilhosa, uma casa que eu construí, graças à literatura. Tento passar hoje para as pessoas o que a literatura fez na minha vida, não que queira incentivar que todos sejam escritores, mas só pelo fato das pessoas acordarem para a questão da leitura, ela lendo, ela pode ser tudo, está ótimo, é quando chego e digo assim: “Shakespeare disse ‘ser ou não ser’, eu digo ‘ler ou não ser’, se você lê você é, se você não lê não é nada”. Então, quem não lê hoje em dia não rende mais nada, no mínimo tem que ler um jornal. Gosto de incentivar as pessoas, não importa o que a pessoa está lendo, importa que ela esteja lendo. Então, não importa o que ela esteja lendo autoajuda, Júlia, Bianca, Sabrina, esses livrinhos que não contribuem em nada, importa que ela esteja lendo. Depois que ela tiver lido bastante, é que ela vai saber o que de fato quer para a vida dela, que tipo de livro ela quer ler. Um pouco da minha vida antes da literatura e depois da literatura.

 

P/1 – Você falou de alguns estilos, crônica, conto... Como foi aprendendo essas diferenças? Porque uma coisa é a gente querer escrever, outra coisa é a gente ter um pouco de técnica. Como é que você foi absorvendo essa técnica também?

 

R – Foi quando, justo na época que comecei a encher a paciência dos professores, escritores e encontrei alguns que falavam assim: “Poxa, é legal, você um talento, criatividade, mas precisa lapidar isso, precisa de uma técnica e tal”. Eu falei: “Poxa, mas que diacho de técnica?” sempre respeitei as pessoas mais velhas, as pessoas que tem mais conhecimento, então, se fosse outra pessoa, poderia falar: “Que nada, está com inveja... Está com preconceito da minha literatura e tudo mais”, mais aí falei: “Poxa, legal, vou absorver isso que eles estão dizendo, o que for bom, fica comigo, o que for ruim, eu jogo fora”. Ouvi muito eles falarem de livros clássicos, da literatura clássica, que para mim sempre foi uma literatura chata. Falavam do Jorge Amado, de Machado de Assis, livros que tentei ler e nunca conseguia. Até que chegaram algumas pessoas e falaram assim: “Você precisa ler. Você não precisa fazer uma faculdade para ser escritor, você não tem que ter dinheiro para ser escritor. Mas você lendo, você indo atrás dessas pessoas, você vai aprender como se escreve”. Aí falei: “Vamos ver como é esse diacho aí. Vamos correr atrás desse negócio”. Comecei a ler com muita calma Machado de Assis, o próprio Jorge Amado, foi quando busquei várias literaturas, vários tipos, porque antes, nessa época que comecei a compor, lia muito Paulo Lins, Ferréz, Jocemir, então era livro Cidade de Deus, Diário de um detento, Capão Pecado. Era assim, um tipo de literatura que lia e acrescentava bastante coisa para minha vida. Só que tinha de ler mais. Tinha que buscar na fonte, era onde esses escritores, Ferréz, Paulo Lins, Jocemir buscaram também. Então falei: “Vou buscar nessa fonte também”. Foi quando comecei a dar valor para esses livros clássicos que eu falava: “Poxa, eles são clássicos, chatos, porque foram escritos numa outra época, assim, nunca terminou de dizer o que tinha para dizer”, então você lê hoje e é atual. Eu falei: “Olha que coisa fantástica. Quero que uma pessoa daqui a 60, 70 anos também leia o meu livro e fale ‘nossa, mas esse tal de Sacolinha foi fogo, quero escrever como ele’”. Falei: “Legal” e comecei a sugar da fonte mesmo, comecei a ver como eles construíam os personagens, o tempo, o espaço... Foi aí que percebi: o meu grande dom mesmo era voltado para a prosa, para a questão do romance, para o conto porque a poesia era muito devagar, não que não escreva, escrevo algumas poesias também, foi aí que percebi: “Ah, legal, tem que se identificar”. Tanto que o conto tem mais mercado literário para isso, as pessoas lêem pouca poesia porque acham que não entendem, porque é difícil; uma literatura mais fácil de ser digerida também, mas não que o conto seja fácil de ser digerido, por vezes é mais complexo que uma poesia, mas, por ser essa pessoa, desde a infância, sempre gostei de calor humano, de estar no meio das pessoas, de brincar. Acho que o conto é mais isso, o conto é mais o carnaval, o conto é mais essa coisa do calor humano, agora a poesia é uma coisa mais solitária, mais subjetiva, por isso acabei voltando um pouco para a questão do conto.

 

P/1 – Quais foram, ou quem foi as pessoas que te incentivaram na carreira como escritor? Que te orientaram, ajudaram...

 

R – Por incrível que pareça, a pessoa que mais me incentivou foi a saudosa Carolina Maria de Jesus, falecida na década de 70. Ela escreveu um livro chamado Quarto de despejos, subtítulo Diário de uma favelada. Quando li esse livro, pensei: “Nossa, foi uma favelada que escreveu isso? Não, vou ler de novo”. Li uma segunda vez. Era um livro, inclusive que só achei na biblioteca do município, mas sempre tratei os livros com bastante carinho, mas esse livro eu não consegui tratar com bastante carinho. Lendo, sempre pegava o lápis e começava a circular, porque a autora falava umas frases bacanas, algumas frases que me deixavam muito mal, ficava refletindo muito sobre a minha vida, eu li uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes. Em sete dias, li ele seis vezes, porque como era um diário, era fácil de você ler. Quando terminei de ler esse livro, falei: “Vou ser escritor, igual a essa escritora”. Comecei a pesquisar sobre a vida dela e falei: “Nossa, quero ser um Sacolinha, escrever um livro também que venha da periferia, que venha do subúrbio e que seja conhecido no mundo inteiro, como a Carolina Maria de Jesus foi conhecida, traduzida em mais de 24 idiomas”. Por ela ser negra, ser favelada, vir de Minas Gerais, trabalhar como empregada doméstica, depois catar lixo, através do lixo, ela adquiriu sua cultura, porque não teve muitos anos de estudo, só dois anos e ter sido o que foi, falei: “Nossa, também quero ser assim”. Foi aí que comecei a compor, pensei que era possível mesmo, a partir daí, então, todas as pessoas que me circulavam, estavam ao meu redor, todas essas pessoas acabaram me influenciando muito. Não posso dizer que o Machado de Assis me inspirou sendo que uma vizinha minha pode muito bem ter me inspirado. A partir do momento que abro a janela de casa estou a ouvindo escutar forró domingo e cantando toda feliz, aquela cena me inspira a escrever um conto bem subjetivo. Todas as pessoas acabam inspirando também, agora, escritores que gosto, pode colocar na lista Jorge Amado, Machado de Assis, Carlos Drummond, Carolina Maria de Jesus, alguns estrangeiros também, como o próprio Charles Bukowiski que escrevia uma literatura totalmente fora dessa questão do formal, Manuel Bandeira, que escrevia umas poesias muito bacanas... Então, para mim tem vários escritores que acabam me influenciando também.

 

P/1 – Legal. E a faculdade de Letras? Como que ela surgiu nesse contexto?

 

R – Em 2005 foi quando comecei a trabalhar como coordenador literário na Secretaria de Cultura do Município de Suzano que comecei a ter uma estrutura financeira melhor para entrar numa universidade. Quando pensei: “Poxa vida, estou escrevendo, participando de vários movimentos sociais, só que não quero ser um mero militante e um mero artista, quero entrar na sala de aula e mostrar para os alunos que é possível também”. Hoje em dia a educação está bem difícil, na sala de aula você vê professor gritando com aluno, aluno gritando com professor, fica aquela coisa de animal e sempre aquela coisa do aluno sair da escola sem saber o que vai fazer com aquele diploma que não vale nada para ele. Se ele não tem um curso de informática, não tem um curso de inglês, não tem uma universidade, ou até uma pós-graduação, porque cada vez que vamos nos atualizando mais, aquele diploma acaba ficando para trás, acaba não servindo. Então falei: “Olha, vou fazer uma universidade, me graduar, me especializar, vou para sala de aula mostrar para esses alunos que é possível sim”. Quero também ser uma pessoa que pode debater de igual para igual, tanto na questão do talento, quanto nos termos acadêmicos, porque não basta ter o talento, tem que ter a técnica, precisamos saber falar bem, enfim, trabalhar com essa questão acadêmica. Por isso acabou surgindo essa questão do curso de Letras. Apenas com a ideia de fazer uma graduação, agora já estou querendo fazer uma pós-graduação, uma especialização na área de literatura brasileira que é o meu forte, não que eu não goste da literatura estrangeira, gosto sim, mas acho que antes da gente ir para lá, a gente que valorizar o que é nosso aqui. Sou muito voltado para nossa cultura, para questão do popular, do brasileiro. É aí que surge a universidade em minha vida.

 

P/1 – Além do mestrado, dessa coisa continuidade, quais são os seus outros planos para o futuro? Além de casar com o amor da sua vida.

 

R – Olha... (risos) Na área de especialização, acho que termina aí, nessa pós-graduação, mestrado, não sei. Mas meu projeto mesmo na literatura é querer muito escrever para teatro, para o cinema, para TV, fazer novela... Porque sempre reclamei do que está aí, quando comecei a ler, criticar política, dar sugestão, opiniões, faço a mesma coisa com o que está aí no cinema, no teatro, na TV. Se eu critico, tenho que mostrar como quero que seja, como pode ser feito, né? Se estou criticando, como seria, então, o padrão ideal? Como queria, por exemplo, que minha mãe, a minha vizinha assistisse uma novela, se sentisse dentro da novela, mas não como: “Vou digerir para passar o tempo, é a minha válvula de escape”. Não só isso, mas fazer com que a pessoa reflita também. Os meus projetos são escrever para tudo quanto é lugar e, especificamente, viver de literatura. Quero muito bater no peito e dizer: “Olha, vivo de literatura”. Se bem que já estou vivendo de literatura, porque se trabalho numa secretaria de cultura onde coordeno a área de literatura e tudo que eu faço, as vendas de livros, palestras, sempre sobram alguns trocados, de certa forma estou vivendo de literatura. Não estou vivendo diretamente dos livros, mas através dos livros que escrevi e estou escrevendo, estão surgindo outras coisas que estão fazendo com que eu viva disso.

 

P/1 – Sacolinha, você acha que ficou faltando falar alguma coisa?

 

R – Olha, acho que ficou faltando bastante coisa, mas não tem como a gente falar tudo isso, o que é mais importante, mais essencial, foi falado já, foi finalizado.

 

P/1 – Legal. Então, assim, para finalizar, a última pergunta, prometo (risos).

 

R – Pode ficar à vontade.

 

P/1 – O que você achou de ter passado esse tempo aqui com a gente, olhando o seu passado, sua infância, adolescência, ter deixado registrado a sua história toda aqui no Museu da Pessoa?

 

R – Uma iniciativa muito bacana, quando fiquei sabendo desse projeto, Museu da Pessoa. Mais bacana ainda é saber que não vão ligar lá para um cara lá do Rio Grande do Sul, que é famoso: “Vamos pagar a passagem de avião dele, para ele vir aqui e falar, é um medalhão e tal”. O mais bacana que achei é que qualquer um, qualquer cidadão, principalmente esse “qualquer cidadão” pode vir aqui, gravar o seu depoimento e é bem tratado, isso que é o muito bacana. É diferente, às vezes, quando você chega num local e não é bem tratado, você só está ali porque, de repente, apareceu na televisão, só está ali porque de fato é alguém, é muito diferente, então, a partir do momento que a gente vê, se vê e é bem tratado num lugar desse, acho que uma iniciativa dessa, o Museu da Pessoa está de parabéns, mostrar que não é um produto, não trata-se da pessoa como um produto, mas como um cidadão, que a pessoa pode ter sim o teu momento, a sua hora, pode aparecer onde você quiser, é muito importante o cidadão comum olhar e falar assim: “Olha, entra lá na internet, no site tal, um negócio do Museu a Pessoa, e você vai ver um vídeo meu gravado lá”. Isso para pessoa é fantástico. Ao invés de ela aparecer uma vez ou outra na TV, ou somente quando não Datena, ou qualquer um desses jornais sensacionalistas, fala: “Bota lá no VT a cara do vagabundo para todo mundo ver”. É muito importante quando o cidadão não aparece assim, quando ele aparece de outra forma: “Olha, tenho cultura, tenho o que falar, entendeu? Não sou ladrão, não sou bandido, onde eu moro não só tem isso, tem pessoas de bem também”. É muito bacana, o Museu da Pessoa está de parabéns. Para encerrar, só queria dizer o seguinte: as pessoas, por mais que não tenham condições, que leiam. Leiam mesmo, porque só lendo você vai ser alguém. O exemplo está aí, acabei de falar que só sou o que sou graças aos livros. Se não fossem eles, estaria, no mínimo, a sete palmos abaixo da terra. A literatura, os livros, me salvaram, continuam me salvando e vão continuar salvando outras pessoas também, se depender de mim. Vamos ler, ta? Ler não é um bicho de sete cabeças. Pega um livro aí que você se identificar mais, não gostou, então para, procura outro, mas leia, por que: “Ler ou não ser, eis a questão”.

 

P/1 – Maravilhoso. Então, em nome do Museu da Pessoa quero agradecer demais, Ademiro.

 

R – Sou eu quem agradeço, foi muito bom.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+