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História

Adauto de Assis Moreira

História de: Adauto de Assis Moreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2009

História completa

P - Pra começar, Adauto, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

R - Bom, o meu nome é Adauto de Assis Moreira. Eu nasci no Bairro da Saúde, em 1961, dia 25 de dezembro.

P - E o nome dos seus pais?

R - Meu pai se chamava Manoel Lourival Moreira, e a minha mãe Isaura de Assis Moreira.

P - E os seus pais são de São Paulo mesmo?

R - Meu pai é natural da Bahia, e a minha mãe de Minas.

P - E você sabe a história de como eles se conheceram?

R - Pelo que minha mãe até fala até hoje, meu pai saiu da Bahia com 13 anos. Ele subiu na carroceria de um caminhão, fugiu de casa e veio pra São Paulo com 13 anos, ele e meu tio Paulo, irmão dele. E a minha mãe veio de Pouso Alegre, de Minas, e vieram trabalhar aqui em São Paulo. E o encontro foi que meu pai era pedreiro, e num dos encontros pelo Jabaquara, encontrou a minha mãe, é o que eu sei.

P - Na rua?

R - No encontro, é.

P - Só uma coisa, da Bahia, você sabe que lugar da Bahia era o seu pai?

R - Meu pai era de perto da Conquista, perto de Conquista, na Bahia, é Santa Terezinha, se eu não me engano, que é o distrito de Conquista, 800 quilômetros de Salvador.

P - Você falou que seu pai a profissão dele?

R - Pedreiro.

P - E a sua mãe?

R - A minha mãe é costureira. Primeiro foi governanta de residência e com o tempo ela se formou em costureira, ela sempre gostou de costurar, trabalhou um tempo como costureira, depois se formou na área de auxiliar de enfermagem, que foi aonde ela se aposentou.

P - E você tem irmãos?

R - Tenho, tenho dois irmãos.

P - O nome, você fica onde nessa escadinha?

R - Eu sou o mais rebelde, o mais velho. Então tem o Evaldo, que é o caçulinha, é professor hoje, Evaldo de Assis Moreira, e tem a minha irmã que é secretária, e ela é a Silídia de Assis Moreira.

P - Então você é o mais velho?

R - Sou o mais velho.

P - E lembrando um pouco da sua infância, como é que era a sua casa, se você consegue descrever a sua casa?

R - Minha casa? Foi maravilhosa e, ao mesmo tempo, por questões de relacionamento do meu pai, da formação dele, a questão da bebida, meu pai era alcoólatra e com o tempo as coisas foram ficando um pouco complexas, confusas e difíceis no relacionamento dele com a minha mãe. Então tem aquela coisa de muita bebedeira, de escândalos e coisas de agressões, que acontecem, aconteceram, então foi difícil o começo. Mas meu pai, fora da bebida, ele era um cara maravilhoso, maravilhoso. Então eu me lembro que a minha infância foi muito boa, a parte de carinho da minha mãe, minha mãe era uma pessoa muito carinhosa. E o meu pai também era carinhoso, mas essa questão da bebida destoava totalmente a nossa casa, então não tinha um lar de calma e de afeto o tempo todo, sempre tinha atribulação. Mas, enfim, foi legal.

P - Só uma coisa, essa primeira casa, quando você era criança, era no bairro da Saúde?

R - Bairro Saúde, eu nasci lá.

P - E como é que era esse bairro, a rua?

R - A gente morava numa rua sem asfalto, tinha um córrego perto, eu me lembro, nossa casa era bem humilde. A gente bem humilde.

P - Quantos cômodos?

R - Era um cômodo, era só um cômodo de máximo oito metros quadrados, e era um barraco, o piso ainda era de chão batido, lembro disso.

P - O banheiro fora?

R - O banheiro fora e é isso, minha infância foi mais ou menos isso.

P - Eram aquelas fossas assépticas?

R - É, a céu aberto.

P - E tinha amiguinhos nessa rua?

R - Tinha, tinha um que eu não esqueço dele, o André, a gente cresceu junto, depois que eu mudei de lá, periodicamente a gente ia pra lá e a gente encontrava.

P - E você se lembra as brincadeiras da época?

R - Carrinho de rolemã, né, era o meu preferido o carrinho de rolemã e bolinha de gude, peão, pega-pega era a nossa brincadeira.

P - E você mesmo que fazia o seu carrinho de rolemã?

R - É, meu pai tinha essa coisa de, quando ele estava legal, ele era um parceiro, ele brincava e tudo, ficava na rua comigo, jogava bola comigo e ele me fazia carrinho de rolemã, patinete também, eu tinha um patinete. O próprio caminhãozinho, que às vezes o meu pai cortava madeira e tal, ele tinha uma facilidade pra fazer algumas coisas e ele fazia uns brinquedinhos.

P - E você falou que você morou aí até que idade, mais ou menos?

R - Eu morei até, na verdade, seis anos, acredito, porque como a minha mãe foi trabalhar depois no Morumbi, então eu fiquei um tempo com a minha mãe no Morumbi, foi uma transição que a gente teve, como a minha mãe morava no serviço, foi nessa época que eu saí de lá. Minha mãe e meu pai foram morar no serviço no Morumbi, depois nós viemos para Brasilândia. Aí eu vim pra Brasilândia com sete anos, é isso.

P - Mas nessa época não tinha os seus irmãos ainda?

R - Não, ainda não.

P - Aí vocês foram ser caseiros...

R - Isso, aí entra nessa faixa de cinco, seis anos.

P - Até essa época a sua mãe era costureira, que você falou?

R - Isso. Na verdade, a minha mãe, num primeiro momento, era dona de casa, meu pai não deixava a minha mãe trabalhar, até essa fase. Depois que foi pro Morumbi, sim.

P - Lá que ela começou...

R - Aí, a minha mãe trabalha, porque ela cozinhava, a minha mãe era cozinheira, essa coisa de costura junto, e os dois moravam lá.

P - E essa casa que você foi, como é que era? Que lembrança você tem?

R - Olha, era uma casa muito bonita. Eu lembro muito de uma piscina que tinha, e eu lembro um dado muito diferente, que os dois meninos que eram os filhos dessa dona Mercedes, que era a patroa da minha mãe, eu lembro muito bem que eles tinham um Autorama, que era aquelas, era uma sala e tinha aquela pista enorme, controle remoto, os carrinhos andavam... Eu me lembro disso, não lembro mais coisas. E lembro de um deles que ele era cadeirante, usava cadeira de rodas, um dos menininhos que eu brincava, não lembro o nome deles.

P - Mas você gostava de brincar?

R - Era muito legal.

P - E nessa casa você lembra o dia a dia, o cotidiano dessa casa, porque a sua mãe já podia fazer alguma atividade?

R - Era muito organizado.

P - Você levantava de manhã...

R - Eu levantava de manhã, não tinha, nessa época foi uma época que a minha mãe e meu pai já se davam um pouco melhor, porque lá o meu pai não podia beber... Teve um equilíbrio, aí os dois se deram um pouco melhor, teve um pouco mais de harmonia, me lembro um pouco disso.

P - Qual que era o trabalho do seu pai, o que ele fazia?

R - Meu pai ele virou jardineiro, cuidava do jardim, lavava os carros, cuidava dos cachorros, essa coisa...

P - E a sua mãe cozinhava?

R - A minha mãe tomava conta do restante, da limpeza dos quartos, cozinhava...

P - E você fazia o que, você só brincava ou você ajudava também em casa?

R - Eu não tenho nenhuma memória pra isso. Eu sei que eu me alimentava muito bem, eu lembro e brincava muito, essa coisa do carrinho, tinha brinquedos maravilhosos, essa coisa de robozinhos.

P - Eles deixavam você brincar?

R - Eles deixavam eu brincar. Então foi, eu lembro disso muito bem. Mas foi um período muito breve, não teve muita demora, eu lembro que em dado momento a gente já tava morando na Brasilândia, foi coisa de uns dois anos, foi uma coisa muito rápida. Muito rápida.

P - Aí quando vocês foram, você lembra da mudança como foi? Foi no caminhão?

R - Isso eu não lembro.

P - Você não lembra?

R - Isso eu não lembro, isso eu lembro que foi de madrugada, que eu vi a minha mãe arrumando as coisas e tudo, mas não lembro essa questão de chegada, de como foi.

P - E foi um choque pra você a mudança?

R - Não, porque eu não tenho tanta lembrança. Eu sei que quando a gente foi mudar a gente foi mudar pra casa da gente também, já era uma casinha legal.

P - E como que era essa casa?

R - Era uma casa de três, quatro cômodos, tinha quintal, meu pai, nesse meio tempo, já tinha montado tipo um barzinho na frente, então meu pai criava porco no fundo do quintal. Eu lembro muito bem que tinha uns pés de bananeira lá no fundo, eu ficava brincando lá. E meu pai já estava trabalhando com o bar, ele tinha o bar. Aí a gente foi fazendo mais amizades ali, na rua que a gente mora até hoje, nós fomos os primeiros moradores, a gente viu crescer toda a rua ali, povoar, era só nós e o seu Júlio, o mais antigo, um senhor.

P - E não tinha asfalto?

R - Nada, nada.

P - Água encanada?

R - Nada, nada, nada.

P - E como é que foram chegando essas coisas?

R - A gente viu, né, tudo isso...

P - Quando não tinha água o que vocês faziam?

R - Era poço, a gente tinha um poço lá.

P - No quintal.

R - É, água de salobra, aquelas águas salgadas, um pouco salgada, mas a gente se virava, né?

P - E toma banho?

R - Tomava banho normal.

P - Bacia?

R - Enchia o balde, minha mãe até improvisava um chuveiro com lata, furava a lata no fundo (risos) e ela jogava o balde...

P - E aí foi lá que nasceram os seus irmãos?

R - Os meus irmãos nasceram lá, a minha irmã principalmente eu vi muito bem o relacionamento do meu pai e minha mãe muito tumultuado, porque como aí voltou aquela fase de bebedeira do meu pai de novo, então essa parte da minha irmã, da gravidez da minha irmã foi muito tumultuada, a minha mãe sofreu muito com o meu pai. Então foi agredida, meu pai tinha tudo pra ter sido um pai exemplar, vamos dizer, que eu tento ser com os meus filhos hoje. Meu pai era muito influenciado, eu acho, pelas amizades, e tudo que ele ganhava ele não pensava muito em casa, gastava com os amigos na rua. Mas enfim, a minha mãe sofria muito com isso, né? Porque aí quando ela mudou pra lá de novo, não vai trabalhar de novo, ela ficava mais dona de casa, e aí vinha toda essa questão do mau trato, da falta de respeito e muita bebedeira, então a minha mãe sofreu muito. E a minha irmã ela vem dessa fase já difícil do meu pai. O meu irmão sofreu mais ainda, que meu irmão não tem uma referência do meu pai, porque ele era o mais novinho, né? Então a minha irmã sofreu um pouco, na gestação a minha mãe apanhou do meu pai. Acho que isso gerou um pouco... A minha irmã, até hoje, eu percebo que a parte psicológica dela, nesse sentido de lidar com as coisas, acho que deve passar alguma coisa pra criança, né?

P - Adauto, deixa eu pensar aqui, você falou que nesse local você começou a fazer outros amiguinhos e tal. E você lembra o tipo de brincadeira?

R - Sim, era uma outra coisa, aí já volta um pouco mais antes, antes de eu ir pro Morumbi, que as brincadeiras na periferia, com a comunidade, são um pouco diferentes, né? A gente é um pouco mais dado, essa coisa da rua, de brincar um com o outro, de pega-pega e pula-pula, esconde-esconde, queimada. Então aquela coisa de beijinho, de quem adivinhar ganha um beijinho e essas coisas que na época era muito bacana, né?

P - E você lembra se existia festa da comunidade que você se recorde?

R - Existe. Lá na minha casa meu pai era um cara muito festeiro, então por eu ser o primeiro filho, mais velho, e por ter nascido também no Natal, no meu aniversário, meu pai, tudo de errado que ele fez no ano inteiro, parece que no meu aniversário (risos) era um festão, a minha casa ficava cheia, vinham todos os nossos parentes. E meu pai sempre gostou de música, sempre teve essa ligação com música, e a minha mãe também. E sempre tivemos nosso som em casa, disco, meu pai sempre comprava, ele gostava muito. Então sempre tinha os bailinhos em casa no final, periodicamente.

P - E que músicas que você ouvia?

R - Uma música que marcou muito a minha infância com meu pai, minha mãe, foi Glenn Miller, uma coisa mais de orquestra de Chubby Checker, Bobby Rydell, Litlle Richard. Benito de Paula tocava muito, adoro até hoje, Jorge Ben nem fala, Tim Maia um pouco depois. Claudete Soares, Miltinho, Elis Regina. Então a minha casa musicalmente era isso, a nossa casa era musicalmente bem legal. E como foi se popularizando, foi crescendo a nossa rua, a nossa casa sempre tinha festa, de dois em dois meses sempre tinha uma coisa lá, meu pai tinha o bar, arrastava as cadeiras do bar e virava um bailinho. De dois em dois meses tinha um bailinho lá no salão. Então lá virou meio referência na nossa rua, na nossa comunidade ali. Então sempre: “Ah, Lourival, tem a festa no Lourival” “Ah, tem uma festa na casa do Lourival” E isso foi indo. Aí tinha uns primos um pouco maiores do que eu que iam em bailes, iam pra outros lugares mais longe e às vezes me levavam junto. Depois pintou uma equipe de bailinho, eu com 12 anos, 11 anos, já ia com eles, ia fazer bailinho com eles.

P - Você organizava?

R - Não, eu ia com eles, ia acompanhar eles. Meu primo já era mais velho, tinha o Eliezer, que deve estar com 58, ou 54, 58 anos, ele já tinha uma equipe com outro rapaz e eu ia ajudar eles, levava caixa, empurrava caixa e não sei o quê. E nessas oportunidades eu acabei integrando a equipe e novinho já começava a pôr disco, né?

P - E você lembra do primeiro bailinho que você teve que pôr disco? Como é que foi isso?

R - Eu lembro, foi uma passagem... Tinha um salão lá na Brasilândia, o primeiro salão, inclusive – isso foi em 1970, 69, 70, 71 por aí –, chamado Dalva. Eles tinham uma equipe que foi fazer o baile nesse Dalva, eu tinha dez pra 11 anos. E saiu o maior pau no baile. E na época era cabine de som que tocava, e eles saíram pra separar a briga, só fiquei eu na cabine, sentadinho, porque eles falavam: “Fica sentadinho aí” Eu tava sentadinho lá e vi eles saindo e a música estava acabando. Aí eu peguei um disco lá do Jorge Ben e peguei a música e coloquei a outra música, e continuou o pessoal dançando e tal. Eles voltaram: “Pô, rapaz, porque você mexeu no som, não sei o quê”. Eu falei: “Ah, a música tava terminando, eu pus a música”. O meu primeiro contato mesmo com pista foi isso.

P - E deu certo, você botou um som que segurou?

R - É, quer dizer, não destoou, porque se fosse todo mundo dar atenção pra briga... Eu nem pensei nisso, eu pensei que a música estava terminando.

P - E você lembra qual era a música?

R - Foi Charles Anjo 45, do Jorge Bem, foi a primeira música, e depois o Benito de Paula que eu peguei o disco e coloquei Retalhos de Cetim, foram as duas músicas que eu me lembro.

P - Eu quero voltar de novo na música, só queria pegar uma parte, pra gente não esquecer, em relação à escola. Como é que foi isso pra você a sua passagem pela escola?

R - A minha primeira escola foi Joaninha Graça Fagundes.

P - Lá na Brasilândia?

R - Lá, mesmo distrito ali, Vila Bancária... No entanto teve uma passagem lá na escola, foi bacana, a única coisa que me marcou, como era uma época ainda meio de repressão, aquela coisa de sairmos da ditadura e ainda tinha essa coisa um pouco do racismo, que prevalecia. Eu tenho uma passagem muito ruim com uma professora que me marcou muito, não que mexeu minha cabeça. Mas, eu acho, na minha classe eu era o único negro, o único. Eu fazia as minhas lições, a minha mãe sempre acompanhava, fazia a lição. Quando ela ia acompanhar quem tinha feito lição, ela pulava a minha carteira, toda vez ela pulava a minha carteira e eu não entendia por quê Eu não esqueço ela até hoje, o nome dela eu esqueci, mas a feição dela eu não esqueço. Eu falava pra minha mãe, minha mãe pegava o caderno “Pô, você não faz lição Você faz lição, mas a professora não olha O que você está fazendo de errado na classe?” Tomei uma dura, eu falei: “A professora pula a minha carteira”. Minha mãe não acreditava em mim... Aí chegou uma reunião, a minha mãe foi e ela falou que eu era indisciplinado na classe, que não sei o quê. “Mas ele faz a lição” E eu sempre passava como mentiroso. Até que a minha mãe brigou com ela um dia e eu falei: “Ó mãe, o que acontece é que ela pula a carteira”, mas a minha mãe não se atinou pra essa coisa, e nem eu, muito menos eu. Eu sei que eu apanhava porque a professora não olhava o meu caderno (risos), pra todos os efeitos eu era o errado. Isso foi na quarta, terceira pra quarta série, então foi um dado que marcou eu um pouco, mas depois mudou de professora, mudou de classe, porque era uma professora só para todas as atividades. Aí mudou, passei de ano, sempre passei de ano, sempre estudei, mas foi um dado que me marcou. E meu pai sempre me educou da forma de não brigar, respeitar, se eu brigasse na rua chegava em casa apanhava de novo. “Não brigue” Foi a única coisa. Passei sempre, sempre estudei, na minha infância. Eu fui empacar no ginásio, porque essa coisa do baile, essa coisa da noite, pegou muito em mim, então eu fui meio relapso, já comecei a dar mais atenção a baile, já cabulava pra ir pra outros lugares mais longe. Tinha um pessoal que frequentava o bar do meu pai, uns caras meio da pesada da região, e eles me levavam. Como meu pai era muito amigo deles, eu com 13, 12 anos, eles me levavam pra outros lugares. E eles pediam pro meu pai: “Ô Lourival, deixa o Dautinho ir com a gente...” Eu ia pra outros lugares com eles. Esse negócio da noite foi me impregnando, então com 14, 15 anos, estudar na sexta-feira... Aí tinha uns bailinhos bons, cabulava, ia pro centro da cidade com os amigos e a escola foi ficando. Aí já veio namorada, aí eu me perdi...

P - Mas você chegou até o colégio, né?

R - Eu cheguei até o segundo ano, não terminei, mas a duras penas...

P - Mas sempre na mesma escola?

R - A duras penas porque eu cabulava muito, muito. Com 15 pra 16 anos já fui pai...

P - Então você estava estudando quando você foi pai. Como é que você conheceu a menina?

R - Foi assim: esse meu primo, o Eliezer, tinha um clube chamado Alvorada, isso em 74, 75 e eu comecei no Alvorada muito novinho, um Black Power desse tamanho. Meu pai faleceu em 73, 74, ele não deixava ter cabelo grande, mas ele morreu e eu mais queria era ter um Black Power e dito e feito, deixei crescer e ficou. E comecei nos bailes. Daí era normal, né? As menininhas e tal. Foi indo, conheci a Maísa, que era mais velha do que eu, ela já tinha 22 anos, eu tinha 16 anos, e a gente começou a sair, sair, sair, sair, sair. Aí eu namorei um tempo com ela e pintou uma gravidez. Foi uma loucura, era pra ter casado e tudo, não foi porque eu não quis casar com ela, é que ela mudou pra muito longe e eu não tinha como visitar ela, não tava trabalhando, não tinha uma renda, eu chegava a fazer entrevista nos lugares, com o cabelo desse tamanho... Primeira coisa: “ou você corta esse cabelo...” “Não, o meu Black eu nunca vou cortar” Fui perdendo emprego, perdendo emprego, perdendo emprego porque eles não davam emprego, e a minha mãe ficando atacada comigo... Minha mãe, de madrugada, às vezes, pegava a tesoura e metia no meu cabelo, fazia uns buracos pra eu cortar o cabelo. Como o cabelo era enroladinho e tudo, eu enrolava, batia, ele ficava certinho, mas não cortava, não. Mas mesmo assim, entrava no emprego, o cabelo ia crescendo, saía do emprego... Então a minha mãe sofreu bastante comigo nessa adolescência minha meio revoltosa... Era um momento meu, mas as necessidades vêm em primeiro lugar, e eu não estava nem aí pra isso na época.

P - Mas e o nascimento desse filho?

R - Então, eu namorava com a Maísa nesse sentido e a gente já teve um desentendimento, ele muito novinho, eu já não acompanhei o nascimento dele e tudo, mas tinha aquela pressão de ficar junto com ela, de casar, de não sei o quê. Eu tinha 16 anos, então não que eu fugi, mas a família dela resolveu dar um fim no negócio, mudaram pra muito longe... Eles eram lá da Brasilândia também, e vieram morar aqui na Raposo Tavares, no final da Raposo Tavares. Quando ele nasceu eu vim vê-lo e tudo mais, mas é impossível.

P - Você perdeu o contato?

R - Aí eu fui perdendo o contato, fui perdendo o contato. E perdi o contato. E eu vim ter contato com ele de novo quando ele fez 16 anos, né? Ela se casou, teve uma outra pessoa e tal, mas aí com o tempo teve aquela necessidade, ele perguntando, tudo o mais. Aí um dia eu encontrei uma tia dele num baile que eu estava fazendo e ela me deu o telefone, e aí eu fui visitar ele, Tentamos ter um contato mais efetivo, isso até hoje.

P - E como foi a sua impressão, depois de tanto tempo encontrar o filho?

R - Dá uma impressão de vazio, uma coisa que você não teve contato, ficou uma coisa vazia. Uma coisa de muito amor no coração, mas, ao mesmo tempo, uma coisa de apego, faltou um pouco mais de apego. Mas é aquilo que a gente tenta se superar, porque ele não veio por canalhice, ele veio por amor, eu gostava da Maísa, ela gostava de mim, é que eu era muito imaturo, na época. Das duas partes, minha e dela.

P - Só pra registrar, a escola que você estudou sempre foi a mesma?

R - Isso, eu estudei no Joaninha, depois eu mudei pro Cacilda Becker. Meu ginásio foi no Cacilda Becker.

P - Só pra registrar. E o colégio também foi nessa época?

R - Isso, foi justamente essa época.

P - E nessa época você tinha algum, apesar de você ser impossível do jeito que você era, tinha alguma disciplina que você gostava mais?

R - Tinha, eu sempre gostei de inglês, eu tinha uma facilidade muito grande pro inglês. Geografia também. Educação artística era a melhor, sempre gostei. Matemática também sempre deu pro gasto, português mais ou menos, mas sempre deu pro gasto. História em geral, mas inglês, educação artística sempre eu despontei.

P - E nessa época que você estudava, apesar da dificuldade da época, você sonhava em fazer alguma coisa, falar: “Pô, eu vou querer fazer tal coisa”?

R - Minha mãe tinha um sonho, minha mãe e meu pai queriam que eu fosse dentista, coisa da área médica. Mas especificamente eles nunca... pela dificuldade da nossa infância. A dificuldade financeira, ainda mais quando o meu pai faleceu, mudou muito o nosso padrão de vida, já não era tão bom, mas com a morte do meu pai a coisa ficou muito difícil. Então a minha mãe tinha necessidade de eu ajudá-la. “O primeiro emprego que aparecer na frente você vai me ajudar”. Minha mãe foi trabalhar na casa de família, ela saía de manhã de casa, já tinha os meus outros irmãos, e eu ficava como o dono da casa, porque eu tinha que arrumar meus irmãos, levar a minha irmã pra escola, tomar conta do meu irmão pequeno, ir pra escola depois, fazia comida para os meus irmãos. Quer dizer, eu fiquei como, nessa faixa etária aí de 12, 13 anos, eu fiquei cuidando dos meus irmãos.

P - Segurando a onda.

R - Segurando a minha casa, que foi essa época. E junto com isso a escola, tentando conciliar a coisa da escola. Não teve uma preparação de escolher alguma coisa, foi mais o que pintar: “Vou fazer carreto, vamos na feira e vamos embora”

P - Sobre a morte do seu pai, você quer falar alguma coisa?

R - Foi difícil, foi uma morte boba, difícil porque meu pai ele tinha muita oportunidade de ganhar dinheiro, ele sempre ganhou dinheiro, mas ele nunca pensou, então o que ele ganhava ele gastava. Na rua em que a gente morou, mora até hoje, que eu tenho essa casa, a gente teve quatro casas lá, meu pai perdeu as quatro. Perdeu as quatro em jogo, em emprestar dinheiro e não pagar e, depois, perder. Até essa última casa que a minha ficou... Ele já tinha vendido essa casa pra um rapaz no mercado que tem lá perto, pegou o dinheiro e o cara foi lá ver a casa e a minha mãe falou: “O que foi?” “O Lourival me vendeu a casa, então eu vou montar um mercadinho aqui”. Como o meu pai já tinha um barzinho na frente, minha mãe falou: “Não, daqui eu não saio, não assino, que eu sou esposa dele, eu tenho os três filhos dele, não tenho como sair daqui”. Então foi a única coisa que ficou. Aí meu pai tentou matar a minha mãe, que foi essa fase mais difícil, meu pai tentou matar a minha mãe. E eu já tinha uma compreensão das coisas, eu me atraquei com o meu pai. Quando ele ia bater nela, eu sempre entrava na frente, então quem tomava as pancadas era eu, mas a minha mãe não apanhava mais. Ficou uma coisa assim: eu com 12, 13 anos, eu já tava peitando ele. “Vou apanhar, mas minha mãe não vai” Então eu fiquei como o protetor da minha mãe, então eu tomava pau igual gente grande, era cabeçada, murro mesmo, mas minha mãe não apanhava. Até o dia fatal em que meu pai comprou um revólver, a gente tomando café de manhã, eu vi que ele estava muito ansioso, porque ele foi trabalhar em Caraguatatuba, pegou uma empreitada de mansões pra fazer e ficava um mês fora, quando ele voltava, com muito dinheiro, mas muito bêbado. E eu acho, meu pai não foi só pelo lance da bebida, ele começou a ir pro lado da droga também, que era impossível só a bebida deixar ele tão transtornado do jeito que ele voltava... E numa oportunidade eu vi, de madrugada, no paletó dele, um revólver. Eu fiquei com aquilo na cabeça... Então, a gente tomando café, uma certa época, eu vi ele: “Vai brincar logo que eu tenho que fazer um negócio”, ele falou. Eu fiquei com aquilo na cabeça, porque eu tinha visto o revólver no bolso dele, e ele tinha chegado de viagem uns três dias antes, eu falei: “Pô, eu nunca vi o meu pai com revólver”. Eu estou ali tomando o café, mas em vez de tomar rápido, eu comecei a fazer cera mesmo. Aí ele se perdeu, pegou o revólver e falou: “Já que você tá aí, vai mesmo”, pegou o revólver, quando ele apontou para a minha mãe, eu pulei nele. Aí pegou a bala em mim e desviou da minha mãe, minha mãe estava no fogão. Deu tempo da minha mãe se atracar com ele também. Eu era pequeno, ele me jogou longe, que eu não tinha força nenhuma. Aí me jogou fora de casa, me jogou fora, eu caí na porta, pro lado de fora, só que a porta de casa tinha muita pedra, tijolo no chão, aí eu comecei a dar tijolada nele, pra ele não mirar o revólver na minha mãe, só que ela já se atracou com ele, ele conseguiu atirar na minha mãe. Só que, como foram duas balas, o vizinho ouviu o barulho, o seu Wilson, que já é falecido, era o alfaiate, que morava em frente, ele correu lá e viu o meu pai com o revólver e se atracou com meu pai. Falou: “Lourival, você está maluco?” Tomou a arma do meu pai... Meu pai, minha mãe no chão, sangrando e tudo. Aí meu pai correu pelos fundos da minha casa, dava outra rua, e depois disso eu nunca mais vi o meu pai. Meu pai sumiu, eu nunca mais vi o meu pai. A correria foi pra levar a minha mãe o mais breve...

P - Ele foi embora?

R - É, não vi o meu pai mais. Depois disso, eu me lembro muito bem como a gente morava, era um lugar que tinha três cômodos, então tinha uma porta e os meus irmãos, o Evaldo, mais pequenininho, e a minha irmã, eles vendo tudo, o olhinho assim, sabe? Teve toda aquela cena, eu lembro que quando eu caí na porta, a porta dava de frente pra onde eles estavam e eles congelados, vendo tudo aquilo, eu falei: “Meu Deus” Enfim, nunca mais eu vi o meu pai. Aí a minha mãe foi pro hospital, eu fui junto com a minha mãe, meus irmãos ficaram na casa de um primo nosso, e a minha mãe se despedindo no carro de mim: “Toma conta dos seus irmãos”, a gente chorando, eu falei: “Não, você nunca vai morrer, você não pode morrer, mãe” Aquela coisa da emoção mesmo, né? Mas enfim, a minha mãe foi pro hospital e operada voltou pra casa. Aí a gente retomou a vida, a vida da gente.

P - E aí você seguiu tocando, virou responsável...

R - É, tentei, pintou um trabalhinho de office boy...

P - Como é que foi esse primeiro trabalho?

R - Aí foi maravilhoso, eu conheci o seu Roberto, que foi uma pessoa que eu não esqueço até hoje. Foi no Grupo Fenícia, que fazia parte das Lojas Arapuã, eles tinham uma empresa chamada Fenícia, e eu fui trabalhar de office boy. Ele me deu força, tinha uma amiga da minha mãe, e ele conhecia essa amiga, e ela explicou o que a gente tava passando, e ele deu emprego pra mim. Foi maravilhoso

P - Mas como que era o seu trabalho? Você lembra de algum fato?

R - Lembro, lembro sim. Era um trabalho de muita responsabilidade, porque eu que ia no banco fazer pagamentos pra ele. Na verdade, eu trabalhava pro setor de contabilidade, mas eu me lembro que eu trabalhava muito ligado a ele. Eu que ia pagar Plano Expansão da Telesp pra ele, eu que ia depositar os cheques dele. Eu tava muito em função dele. Então era mais tomar conta da conta dele, depósito dos filhos dele de poupança... Eu trabalhava mais em função disso: de pegar papel no correio, mala direta, ficava mais nessa área.

P - Você andava muito na cidade?

R - Andava muito na cidade, aprendi a andar na cidade.

P - Você chegou a dar alguma mancada?

R - Ah, atraso, né? Atraso. Ia no bailinho, depois pra chegar no horário no serviço... Atrasava pra arrumar o cabelo, aquela coisa. E ele: “Adauto, corta esse cabelo” “Adauto, corta esse cabelo” “Vou cortar Vou cortar Vou cortar” Aí abaixava o cabelo. Mas eu trabalhei dois anos, dois pra três anos lá.

P - Bastante até.

R - Dois pra três anos. Mas...

P - O que você fazia com o seu salário?

R - Comprava disco...

P - E como que era isso? Onde você comprava disco na época?

R - A gente conhecia um pessoal que viajava e trazia discos do Rio de Janeiro. Eu conhecia um rapaz chamado Machado na época, tinha o Alemão, tinha várias pessoas que traziam discos, e eu encontrava esse pessoal nos bailinhos, tinha os festivais de equipe... Como eu tinha uma equipe, a gente participava de festivais... Era uma equipe contra a outra, tocando, mostrando quem tinha o disco mais difícil, aquela coisa toda... E eu comprava os discos deles, então a minha mãe pegava o cheque do serviço, porque como eu não podia receber na época, ela que tinha que receber, e era uma briga com a minha mãe, que eu queria pegar dinheiro, era uma coisa de louco. Então minha mãe pegava um pouco e me dava um pouco, só que sempre dava briga. Mas eu sempre ficava devendo, um mês pro outro: “Olha, eu vou levar três discos ou quatro”, levava mais quatro pra pagar no outro mês, então sempre meu salário estava comprometido já com disco... A minha mãe sofria comigo, nossa, minha mãe sofria, sofria muito

P - E desses discos você lembra qual você mais batalhou pra conseguir?

R - Ah, na época era muito difícil ter os discos, mas teve um disco especial que eu quis ter, que foi um disco chamado Save the children, uma música chamada Give me your Love, do Curtis Mayfield, que é um guitarrista de uma banda chamada Invasions, e ele faleceu há alguns anos. Era uma música que marcou a minha infância toda...

P - E aí você conseguiu o disco...

R - Eu consegui o disco, era um álbum...

P - E tem até hoje?

R - Era um álbum duplo, importado e tal.

P - Você tem até hoje?

R - Não, depois daquilo eu tive ele várias vezes, eu já me desfiz dele, depois eu fui e arrumei de novo. Hoje é um disco que pra mim, é difícil, mas pra mim é fácil ter, que hoje eu tenho mais acesso, com a internet acabou o problema do disco, você pede de lá, “nego” manda. Três meses atrás eu arrumei o disco lacrado aqui em São Paulo, disco de 1969, lacrado

P - Mas como é que você tinha esse contato com a música, essas novidades? Era nos bailes, como que era isso?

R - Nos bailes, e porque esse meu primo, o Eliezer, tinha equipe, ele sempre comprava disco e sempre estava antenado com as equipes, com o que eles compravam. Então sempre tava olhando na caixa, aí tocava, eu ia e olhava, pegava a capa, tinha essa curiosidade. E até porque, também, quando na década de 70 começou a entrar essa coisa da rádio, da AM e depois da FM, eu sempre ouvia muito rádio, então tinha um DJ carioca chamado Big Boy, às vezes de madrugada, em São Paulo, em 74, 75, entrava um programa no rádio chamado Mundial, eles retransmitiam esse programa em São Paulo, mas esse programa só entrava de madrugada, pelas ondas, vinha do Rio de Janeiro... E eu ficava bitolado com o radinho, escudando o programa dele toda sexta-feira. Então, eu anotava as músicas, ele falava o nome das músicas e enroladamente eu anotava, ou eu tentava marcar o refrão e cantar, chegava na loja e cantava... A minha referência do lançamento era isso, de tentar guardar o refrão da música, lembrar e cantar na hora (risos), era muito divertido.

P - Adauto, vamos voltar um pouquinho aí: você estava falando desse seu contato com a música, mas pera aí, um pouco antes disso, você era office boy, você ficou dois anos, depois você foi trabalhar em outra coisa? Como que foi isso?

R - Então, nessa fase que eu fui office boy, essa coisa da música ficou muito mais clara na minha cabeça, muito mais clara, eu estava pra 14, 15 anos, e isso era muito forte, porque aí tinha festa sempre, eu já tava com a cabeça na música. Na verdade eu estava com a cabeça na música. Mas a oportunidade de estar com ela e fazendo e ganhando era difícil, tinha que ajudar a minha mãe. Então o que ocorreu? Chegou uma época que foi insustentável pra minha mãe segurar essa minha coisa com a música, porque foi dando 15 anos, com 16 anos eu fui pai, a escola eu já abandonei, a questão do relacionamento com a minha mãe foi ficando difícil, e o que ocorre? Eu fui pro Exército, a única chance que tinha pra minha mãe ver eu endireitar era o Exército, então eu acabei servindo. Mas paralelamente a música sempre estava junto, sempre estava junto... Até que, quando eu saí do Exército, eu já fui morar sozinho, não voltei pra casa. Quando eu fui pro Exército eu já estava tocando na noite mesmo, eu já tinha as equipes em que eu tocava, quando eu tirava serviço eu não tocava, mas quando eu não tirava serviço... Então a minha cabeça já estava dentro da noite, resumidamente.

P - Mas essa equipe, como você conheceu esse povo?

R - Já tinha aquela coisa, eu já tinha tido a equipe da minha região, o pessoal já me conhecia um pouco de tocar, aí já tava indicando. Já tinha uma coisa em São Paulo acontecendo, que era o lance de mixagem, coisas que eu já estava muito integrado, que é essa coisa de tecnologia, de passar música que antigamente, na década de 70, aqui em São Paulo, não existia, aquela coisa do DJ tocar duas músicas, uma em cima da outra, sem intervalo, em 1974, 75, eu já tinha esse acesso, por causa da rádio, a gente escutava muito DJ de fora do país nessa rádio, na Mundial. Então eu ficava: “Como eles conseguem fazer isso?” Não tinha na época como fazer, só que quando eu tive a oportunidade em 74, 75, aquilo veio tão fácil na minha cabeça que eu consegui... “Já que eu não tenho, eu vou usar dois equipamentos e tentar fazer, pegar dois sistemas e ligar os dois sistemas, e tocar com os dois sistemas juntos”.

P - Foi você quem montou?

R - Eu montei, eu tive a ideia.

P - E como foi essa experiência?

R - Porque a gente tocava com um equipamento só, um toca disco, quando eu escutei aquele programa eu falei: “Meu, como o DJ conseguiu colocar duas músicas tocando junto, sendo que aqui eu tenho que pegar, termina a música, eu tenho que tirar o disco, pegar um outro disco, como que é isso?” Eu fiquei pensando, pensando, pensando até um dia que tinha umas vitrolinhas chamadas Sonata, que eram aquelas que você tirava o bracinho e tal, e o autofalante já era junto, já era um sistema, não era fechado. Os bailinhos eram assim, e eu fui tocar com duas, porque era pequena, então dava pra você colocar um disco, e dava pra você colocar outro disco, eram diferentes. A minha relação com a mixagem nasceu aí.

P - E que disco você utilizou pra fazer a primeira vez? Como é que foi?

R - Era aquela coisa bem jurássica, mas foi justamente assim: um pouco Jorge Ben junto com Tim Maia, foi essa mistura, Jorge Ben com Tim Maia, com Gilberto Gil, e Chiclete com Banana... A minha primeira experiência com mixagem propriamente dita foi isso. Mas depois avançou, já tive acesso a toca-disco um pouco mais sofisticado, começou a melhorar um pouco mais essa questão de você poder escutar os dois toca-discos juntos, já teve equipamento que facilitava isso.

P - Você pode falar um pouco pra gente que não manja disso, como que é essa evolução do equipamento?

R - Essa evolução é assim: existia na época a Gradiente, que é uma das empresas pioneiras no país a fabricar toca-disco... Anteriormente teve um primeiro equipamento de madeira, que era um toca-disco separado e você interligava em outros equipamentos. Então eu tive esse acesso a dois equipamentos juntos, e você podia ouvir o fone de cada uma independente, então facilitava a mixagem, tava tocando esse toca-disco do lado esquerdo, eu ia entrar com o direito, estava escutando pra depois eu tocar ele lá fora, abrir os controles do mixer e mixar os dois, de forma de quem esta dançando não tem aquela diferença de parar a música pra poder colocar outra. Então já mixavam, isso em 74, 75. Aí foi evoluindo muito mais, até que chegou em 78, 79 já tinha sofisticado, então eu já tinha dominado essa técnica de uma forma que muita gente me chamava pra tocar por causa disso. Quer dizer, muita gente não gostava, porque não tinha visto em nenhum lugar, mas ao mesmo tempo algumas equipes já estavam vendo uma outra coisa, uma outra luz vamos dizer assim,de aperfeiçoamento, e eu fui nesse bolo aí. Eu fui um dos primeiros DJs, na época não era nem DJ, era comandante do ritmo, nome que eu tenho usado hoje, tirei o DJ. Hoje qualquer um, eu sou “comandante do ritmo”, voltei no tempo. Então, era o comandante do ritmo, depois discotecário, depois Disc Jokey, aí abreviaram para o DJ, né? Tem essa história aí das nomenclaturas dos colocadores de discos, vamos dizer assim.

P - E nessa evolução do equipamento, como que é o hoje o equipamento?

R - Hoje está sofisticadíssimo, hoje a gente tem toca-discos Technics, que é o mais sofisticado. Technics SL-1200MK2, que é o modelo mais usado nos night clubs por todos os DJs, top DJs, as casas noturnas. E existem os CD Players mais profissionais também, que dá pra mixar, são muito sofisticados, lê em todas as mídias: MP3, OGG, Vorbis, iPod, você pode conectar e eles disparam música. Fora isso, hoje ainda tem uma outra coisa acontecendo que chama Serato que é você pegar um laptop, colocar as músicas dentro e ele tem uma placa que, via porta USB, você do toca disco, você simula que está tocando vinil, mas não é, ele está disparando de dentro do computador a música. Evoluiu de uma forma... e não para.

P - E você antenado?

R - Aparece, a gente sempre está se atualizando, é normal, a gente vai tocar no lugar tem que estar apto, saber que equipamento tem, porque antigamente eu levava os discos, levava o equipamento... Hoje não, tem lugar que eu vou tocar, eu levo o pen drive, dois pen drives as músicas estão todas ali dentro, você pluga os pen drives e faz o evento. Aí depende também do cachê, né? Se o cachê vale a pena levar os discos, eu levo os discos, se não vale a pena, eu levo os pen drives.

P - Agora deixa eu voltar. Você então estava no quartel e à noite você já estava indo com as equipes. E estava morando sozinho?

R - Morando sozinho.

P - Mas você morava sozinho aonde?

R - Eu morava na Lapa, ali tinha aquelas, não chega a ser albergue, é pensão, eu morei em pensão uns cinco anos.

P - E como foi essa experiência de morar só?

R - Não foi traumática, mas acho que me fortaleceu de alguma forma. Mas é ruim você morar com pessoas que você não conhece, eu não conversava muito, a pensão era muito baratinha.

P - Comida, como é que era?

R - Comida era horrível, tinha aquele horário, passou aquele horário não come. Então, pra me sustentar e segurar toda a onda, porque tinha pensão, tinha alimentação, tinha roupa, não sei o que, eu fui trabalhar de dia, né?

P - De quê?

R - De ascensorista, eu trabalhava no Hospital Sorocabana.

P - Ali na Lapa.

R - Eu trabalhei lá seis anos de ascensorista.

P - Nossa, no elevador?

R - É.

P - Uma pessoa que lida com som e ficar no elevador, como foi isso?

R - Então, como eu tinha saído de casa, agora eu tinha... Aquilo que a minha mãe queria que eu fizesse para ajudá-la, não importa com o que eu trabalhasse, eu fui fazer depois, porque a necessidade me obrigou a segurar a minha onda. Então eu vou trabalhar, minha mãe acabou me ajudando, ela que me indicou o serviço, eu fui e tal.

P - Nesse seis anos de trabalho no Sorocabana, você lembra de algum caso que marcou você?

R - Eu lembro que, como eu era o mais novinho dos funcionários do elevador, sobrava mais pra mim, porque elas não ficavam tanto tempo dentro do elevador. E o hospital tem um giro muito grande de problemas, porque chegam pessoas baleadas, chega gente com fratura exposta, coisas que na minha vida eu pensava nunca ver, eu fui obrigado a conviver e a ajudar... Então foi positivo esse lado, pra mim foi muito positivo. E aconteceram coisas legais, porque do hospital, desse setor, eu fui pra um outro setor no hospital, porque eu conheci um pessoal no Raio-X, aí comecei a fazer amizade com o técnico de Raio-X... Um dia faltou o cara que revelava as chapas de Raio-X na câmara escura. Aí eu entrava com ele na câmara escura, ele revelando, às vezes o plantão estava muito cheio, já tinha saído do elevador, eu subia lá. Era Valter o nome dele. E eu ajudava o Valter, ficava na câmara escura revelando chapa. Um dado dia ele falou: “Adauto, você não quer vir trabalhar aqui? Pô, você tem a maior facilidade, você pegou o serviço”. Eu falei: “Ah, se tivesse a oportunidade de vir trabalhar aqui eu viria, com certeza.” “Ah, tá bom. Então eu vou falar com o dono aqui do setor.” Porque era privatizado no caso, era independente do hospital, era particular na verdade. Aí ele falou com o doutor Roberto Muranaga, e o doutor Roberto: “Olha, vem trabalhar com a gente. Eu vou falar com a direção do hospital e eles transferem você pra cá.” “Tá bom” Quando ele foi falar com a direção do hospital, veio o lado ruim, a direção não queria me transferir. Falaram pra ele que eu era mau funcionário, que eu não trabalhava direito no elevador, arrumaram maior mentira. E eu perdi a vaga. Quando eu fui falar, me apresentar, ele me tratou mal até, falou: “Você eu não quero aqui, porque falaram que você é um mau funcionário, que você chega atrasado todo dia”. Eu falei: “Doutor Roberto, se o senhor me der uma oportunidade, já que eles estão falando isso, o senhor pode pedir os meus cartões pra dar uma olhada, eles estão mentindo, porque eu moro em frente ao hospital, moro na pensão, não tem como chegar atrasado” “Sério? Eles estão mentindo?” Falei: “Estão” “Por que eles não querem que você saia de lá?” Eu falei: “Porque eu acho que eu sou o único que mais trabalha lá no setor, eu não saio do elevador, as outras ficam tomando café o dia inteiro, ficam conversando, deixam o elevador sozinho, eu fico lá. Então: Ah, vou deixar o Adauto aí, não vou dar transferência pra ele. Eu não sei, mas se o senhor me der a oportunidade o senhor vai ver.” “Sério mesmo? Posso acreditar em você?” Eu falei: “Pode pedir os meus cartões”. Aí eles não quiseram mostrar os meus cartões pra ele. Aí eu falei: “Bom, então agora é o seguinte: eu sou tudo isso que vocês falaram? Então eu vou na delegacia, vocês vão ter que provar, vocês estão me prejudicando, se vocês quiserem tudo bem” Aí subi, falei com o doutor de novo, aí desmentiram tudo. Aí ele falou: “Então você vem trabalhar com a gente”. Aí eu comecei lá, foi bom. Aí, só que lá tinha, como era o setor de Raio-X e tinha várias salas, e tinha um quarto, aí eu saí da pensão, fui morar lá dentro. Lá no hospital, tinha um quarto lá dentro, aí o pessoal do hospital lavava a minha roupa, aí foi legal pra mim.

P - Nossa você morou dentro do hospital?

R - Morei dentro do hospital, foi um período curto, foram seis meses só. Mas aí eu já tava num clube em Osasco chamado Monte Negro, eu tava tocando lá toda sexta, sábado e domingo fixo. Então eu fechei um custo legal lá, aí eu me efetivei e fiquei nesse clube durante muitos anos lá.

P - Nos dois empregos.

R - É, eu fiquei no hospital e lá. Quando eu falei: “Bom, eu só quero tocar Agora eu posso só tocar” Aí eu fiquei só no clube, eu fiquei dez anos lá nesse clube. É um clube que era vazio, ele tinha uma proposta, uma programação muito ruim, e eu acabei indo pro clube e o clube cresceu muito na área de eventos. Aí eu fiquei bem lá, eu ganhava a portaria no clube, tinha um monte de coisas, tinha festas minhas, ganhava muito bem. Morei, passei a morar bem em Osasco também. Casei lá.

P - Aí pintou o outro filho.

R - É, pintou o Wellington.

P - Wellington.

R - É, foi nessa história aí.

P - Que você casou.

R - Que eu fui tocar lá, aí eu conheci a mãe dele lá.

P - Como é o nome?

R - Lúcia.

P - Lúcia.

R - Lúcia Helena. Aí a gente teve um romance, ficamos um tempo juntos e noivamos, aí foi tudo certinho, casei. Eu me casei.

P - Aí você ficou morando em Osasco.

R - Morando em Osasco. ,,,

P - E trabalhando no clube. Eu tocava no clube sexta, sábado e domingo e sempre conciliando a coisa de estúdio, coisa de gravação técnica, eu gravo, né?

P - Aí você ficou por dez anos no clube, aí depois...

R - Fiquei aproximadamente de oito a dez anos no clube, e eu saí de lá pra trabalhar no outro clube, em Osasco também, que chamava Clube Atlética Osasco, eu tava no Monte Negro...

P - Em Presidente Altino.

R - E fui pro Clube Atlético Osasco, aí trabalhei mais seis anos lá. Como lá tinha patinação, eu trabalhava quarta, quinta, sexta, sábado e domingo, aí era direito, com registro, tudo bonitinho, esporadicamente pintava algumas festas fora. Aí eu ia tocar em Minas, ia tocar em outros lugares, ia pra Santana do Parnaíba, Rio de Janeiro, aí eu viajava.

P - Foi a época que você mais viajou?

R - Foi foi, torço a Deus que ele me dê isso de novo, foi a melhor época da minha vida. Viajei, toquei em muitos lugares, fiz bastante coisa, e casado, né, foi uma época de mais estabilidade. E eu fiquei sem contato com a minha mãe depois de 80, eu perdi o laço com a minha mãe, depois que saí do quartel eu fiquei sete, oito, dez anos sem conversar com a minha mãe. Porque como eu tava tocando, voltando um pouco no Exército, eu não vinha muito pra casa. Então, quando eu comecei a voltar pra casa, vinha de vez em quando, passava um mês fora entre Exército, tocando e tal, eu vinha pra casa de vez em quando, aí minha mãe, óbvio, nova ela vai ter um relacionamento com alguém, e pintou alguém. Só que, no meu ponto de vista, o que deveria ser uma coisa natural de ela namorar uma pessoa e falar: “Eu tô namorando com uma pessoa”, quando eu chegava o cara saía de casa, de madrugada, porque eu sempre chegava de madrugada. Um mês eu chegava, o cara saía, eu chegava, o cara saía. Eu falei: “Mãe, o que tá acontecendo?” “Não, é um amigo” Falei: “Mãe, não é amigo, mãe” Daí demorou uns dois meses, eu chego em casa, “cadê meu irmão?” “Seu irmão não mora mais aqui” Falei: “O quê? O meu irmão não mora mais aqui? Como?” “Ele discutiu com o Edson” – que era o cara – “e foi embora”. Aí eu quase faço uma besteira, a mesma besteira que o meu pai ia fazer com ela, eu ia fazer com o cara. Eu peguei uma faca e queria matar o cara, e tudo aquilo. Aí deu uma calmaria, aí eu peguei, tinha um pouco de roupa lá minha ainda, peguei as minhas roupas, o resto que tava, e falei: “Tudo bem” E fui embora. “Só que se o meu irmão desviar nesse caminho da vida, por algum motivo, a senhora vai ter um arrependimento muito grande”. E fui embora. Passou o tempo, eu casei, tentei repensar essa situação. Porque a minha família é pequena, num sentido ela é grande mas, ao mesmo tempo, minha família é pequena, porque é só eu, minha mãe e meus dois irmãos. Porque a minha mãe é o elo da minha família, ela é igual a minha avó, tudo centralizava em torno da minha avó, a minha avó conseguia juntar os netos, filhos, tudo, a minha mãe é assim, parece que a minha avó encarnou na minha mãe. A minha mãe que vai na casa das irmãs, na nossa casa é difícil a nossa família vir, mas minha mãe vai na casa de uma, vai na casa de outra. E ela acaba agregando, aí as outras acabam trazendo a nossa família, né? E essa perda desses anos de eu ter ido embora, eu tava num sentido de um dia falar: “Puxa, já foi tão difícil a infância, essa questão toda, se eu um dia Deus permitir, eu queria estar mais junto da minha mãe.” Porque na verdade eu sou o mais carente, eu sou o mais velho mas eu sempre fui o mais sentimental. O meu irmão é um pouco mais ruim, o Evaldo, ele apanhava da minha mãe, porque minha mãe, como era costureira, tinha aquelas máquinas que tinha aquela correia. Minha mãe tirava aquelas correias e dava cada pisa no meu irmão, ele sentado do jeito que ele tava, ela batia nele, e ele ficava olhando para a cara da minha mãe, não saía uma lágrima e os vergões saindo. Eu sou o mais carente, e eu sempre quis voltar, ter família mesmo e tal. E com o tempo, como casei em Osasco, tive o Wellington, a gente se aproximou um pouco mais, até um dia que o meu irmão voltou pra casa da minha mãe de novo, minha mãe, mesmo com o Edson, um tempo, normalizou, minha mãe ficou bem, ficou legal, criou os filhos do rapaz, que ele tinha uns cinco filhos. Hoje estão criados, têm ela como mãe também. Mas quando eu voltei em 98, pra Brasilândia, 99, eles estavam numa transição.

P - Agora deixa eu voltar. Você então estava no quartel e à noite você já estava indo com as equipes. E estava morando sozinho?

R - Morando sozinho.

P - Mas você morava sozinho aonde?

R - Eu morava na Lapa, ali tinha aquelas, não chega a ser albergue, é pensão, eu morei em pensão uns cinco anos.

P - E como foi essa experiência de morar só?

R - Não foi traumática, mas acho que me fortaleceu de alguma forma. Mas é ruim você morar com pessoas que você não conhece, eu não conversava muito, a pensão era muito baratinha.

P - Comida, como é que era?

R - Comida era horrível, tinha aquele horário, passou aquele horário não come. Então, pra me sustentar e segurar toda a onda, porque tinha pensão, tinha alimentação, tinha roupa, não sei o que, eu fui trabalhar de dia, né?

P - De quê?

R - De ascensorista, eu trabalhava no Hospital Sorocabana.

P - Ali na Lapa.

R - Eu trabalhei lá seis anos de ascensorista.

P - Nossa, no elevador?

R - É.

P - Uma pessoa que lida com som e ficar no elevador, como foi isso?

R - Então, como eu tinha saído de casa, agora eu tinha... Aquilo que a minha mãe queria que eu fizesse para ajudá-la, não importa com o que eu trabalhasse, eu fui fazer depois, porque a necessidade me obrigou a segurar a minha onda. Então eu vou trabalhar, minha mãe acabou me ajudando, ela que me indicou o serviço, eu fui e tal.

P - Nesse seis anos de trabalho no Sorocabana, você lembra de algum caso que marcou você?

R - Eu lembro que, como eu era o mais novinho dos funcionários do elevador, sobrava mais pra mim, porque elas não ficavam tanto tempo dentro do elevador. E o hospital tem um giro muito grande de problemas, porque chegam pessoas baleadas, chega gente com fratura exposta, coisas que na minha vida eu pensava nunca ver, eu fui obrigado a conviver e a ajudar... Então foi positivo esse lado, pra mim foi muito positivo. E aconteceram coisas legais, porque do hospital, desse setor, eu fui pra um outro setor no hospital, porque eu conheci um pessoal no Raio-X, aí comecei a fazer amizade com o técnico de Raio-X... Um dia faltou o cara que revelava as chapas de Raio-X na câmara escura. Aí eu entrava com ele na câmara escura, ele revelando, às vezes o plantão estava muito cheio, já tinha saído do elevador, eu subia lá. Era Valter o nome dele. E eu ajudava o Valter, ficava na câmara escura revelando chapa. Um dado dia ele falou: “Adauto, você não quer vir trabalhar aqui? Pô, você tem a maior facilidade, você pegou o serviço”. Eu falei: “Ah, se tivesse a oportunidade de vir trabalhar aqui eu viria, com certeza.” “Ah, tá bom. Então eu vou falar com o dono aqui do setor.” Porque era privatizado no caso, era independente do hospital, era particular na verdade. Aí ele falou com o doutor Roberto Muranaga, e o doutor Roberto: “Olha, vem trabalhar com a gente. Eu vou falar com a direção do hospital e eles transferem você pra cá.” “Tá bom” Quando ele foi falar com a direção do hospital, veio o lado ruim, a direção não queria me transferir. Falaram pra ele que eu era mau funcionário, que eu não trabalhava direito no elevador, arrumaram maior mentira. E eu perdi a vaga. Quando eu fui falar, me apresentar, ele me tratou mal até, falou: “Você eu não quero aqui, porque falaram que você é um mau funcionário, que você chega atrasado todo dia”. Eu falei: “Doutor Roberto, se o senhor me der uma oportunidade, já que eles estão falando isso, o senhor pode pedir os meus cartões pra dar uma olhada, eles estão mentindo, porque eu moro em frente ao hospital, moro na pensão, não tem como chegar atrasado” “Sério? Eles estão mentindo?” Falei: “Estão” “Por que eles não querem que você saia de lá?” Eu falei: “Porque eu acho que eu sou o único que mais trabalha lá no setor, eu não saio do elevador, as outras ficam tomando café o dia inteiro, ficam conversando, deixam o elevador sozinho, eu fico lá. Então: Ah, vou deixar o Adauto aí, não vou dar transferência pra ele. Eu não sei, mas se o senhor me der a oportunidade o senhor vai ver.” “Sério mesmo? Posso acreditar em você?” Eu falei: “Pode pedir os meus cartões”. Aí eles não quiseram mostrar os meus cartões pra ele. Aí eu falei: “Bom, então agora é o seguinte: eu sou tudo isso que vocês falaram? Então eu vou na delegacia, vocês vão ter que provar, vocês estão me prejudicando, se vocês quiserem tudo bem” Aí subi, falei com o doutor de novo, aí desmentiram tudo. Aí ele falou: “Então você vem trabalhar com a gente”. Aí eu comecei lá, foi bom. Aí, só que lá tinha, como era o setor de Raio-X e tinha várias salas, e tinha um quarto, aí eu saí da pensão, fui morar lá dentro. Lá no hospital, tinha um quarto lá dentro, aí o pessoal do hospital lavava a minha roupa, aí foi legal pra mim.

P - Nossa você morou dentro do hospital?

R - Morei dentro do hospital, foi um período curto, foram seis meses só. Mas aí eu já tava num clube em Osasco chamado Monte Negro, eu tava tocando lá toda sexta, sábado e domingo fixo. Então eu fechei um custo legal lá, aí eu me efetivei e fiquei nesse clube durante muitos anos lá.

P - Nos dois empregos.

R - É, eu fiquei no hospital e lá. Quando eu falei: “Bom, eu só quero tocar Agora eu posso só tocar” Aí eu fiquei só no clube, eu fiquei dez anos lá nesse clube. É um clube que era vazio, ele tinha uma proposta, uma programação muito ruim, e eu acabei indo pro clube e o clube cresceu muito na área de eventos. Aí eu fiquei bem lá, eu ganhava a portaria no clube, tinha um monte de coisas, tinha festas minhas, ganhava muito bem. Morei, passei a morar bem em Osasco também. Casei lá.

P - Aí pintou o outro filho.

R - É, pintou o Wellington.

P - Wellington.

R - É, foi nessa história aí.

P - Que você casou.

R - Que eu fui tocar lá, aí eu conheci a mãe dele lá.

P - Como é o nome?

R - Lúcia.

P - Lúcia.

R - Lúcia Helena. Aí a gente teve um romance, ficamos um tempo juntos e noivamos, aí foi tudo certinho, casei. Eu me casei.

P - Aí você ficou morando em Osasco.

R - Morando em Osasco.

P - E trabalhando no clube. Eu tocava no clube sexta, sábado e domingo e sempre conciliando a coisa de estúdio, coisa de gravação técnica, eu gravo, né?

P - Aí você ficou por dez anos no clube, aí depois...

R - Fiquei aproximadamente de oito a dez anos no clube, e eu saí de lá pra trabalhar no outro clube, em Osasco também, que chamava Clube Atlética Osasco, eu tava no Monte Negro...

P - Em Presidente Altino.

R - E fui pro Clube Atlético Osasco, aí trabalhei mais seis anos lá. Como lá tinha patinação, eu trabalhava quarta, quinta, sexta, sábado e domingo, aí era direito, com registro, tudo bonitinho, esporadicamente pintava algumas festas fora. Aí eu ia tocar em Minas, ia tocar em outros lugares, ia pra Santana do Parnaíba, Rio de Janeiro, aí eu viajava.

P - Foi a época que você mais viajou?

R - Foi foi, torço a Deus que ele me dê isso de novo, foi a melhor época da minha vida. Viajei, toquei em muitos lugares, fiz bastante coisa, e casado, né, foi uma época de mais estabilidade. E eu fiquei sem contato com a minha mãe depois de 80, eu perdi o laço com a minha mãe, depois que saí do quartel eu fiquei sete, oito, dez anos sem conversar com a minha mãe. Porque como eu tava tocando, voltando um pouco no Exército, eu não vinha muito pra casa. Então, quando eu comecei a voltar pra casa, vinha de vez em quando, passava um mês fora entre Exército, tocando e tal, eu vinha pra casa de vez em quando, aí minha mãe, óbvio, nova ela vai ter um relacionamento com alguém, e pintou alguém. Só que, no meu ponto de vista, o que deveria ser uma coisa natural de ela namorar uma pessoa e falar: “Eu tô namorando com uma pessoa”, quando eu chegava o cara saía de casa, de madrugada, porque eu sempre chegava de madrugada. Um mês eu chegava, o cara saía, eu chegava, o cara saía. Eu falei: “Mãe, o que tá acontecendo?” “Não, é um amigo” Falei: “Mãe, não é amigo, mãe” Daí demorou uns dois meses, eu chego em casa, “cadê meu irmão?” “Seu irmão não mora mais aqui” Falei: “O quê? O meu irmão não mora mais aqui? Como?” “Ele discutiu com o Edson” – que era o cara – “e foi embora”. Aí eu quase faço uma besteira, a mesma besteira que o meu pai ia fazer com ela, eu ia fazer com o cara. Eu peguei uma faca e queria matar o cara, e tudo aquilo. Aí deu uma calmaria, aí eu peguei, tinha um pouco de roupa lá minha ainda, peguei as minhas roupas, o resto que tava, e falei: “Tudo bem” E fui embora. “Só que se o meu irmão desviar nesse caminho da vida, por algum motivo, a senhora vai ter um arrependimento muito grande”. E fui embora. Passou o tempo, eu casei, tentei repensar essa situação. Porque a minha família é pequena, num sentido ela é grande mas, ao mesmo tempo, minha família é pequena, porque é só eu, minha mãe e meus dois irmãos. Porque a minha mãe é o elo da minha família, ela é igual a minha avó, tudo centralizava em torno da minha avó, a minha avó conseguia juntar os netos, filhos, tudo, a minha mãe é assim, parece que a minha avó encarnou na minha mãe. A minha mãe que vai na casa das irmãs, na nossa casa é difícil a nossa família vir, mas minha mãe vai na casa de uma, vai na casa de outra. E ela acaba agregando, aí as outras acabam trazendo a nossa família, né? E essa perda desses anos de eu ter ido embora, eu tava num sentido de um dia falar: “Puxa, já foi tão difícil a infância, essa questão toda, se eu um dia Deus permitir, eu queria estar mais junto da minha mãe.” Porque na verdade eu sou o mais carente, eu sou o mais velho mas eu sempre fui o mais sentimental. O meu irmão é um pouco mais ruim, o Evaldo, ele apanhava da minha mãe, porque minha mãe, como era costureira, tinha aquelas máquinas que tinha aquela correia. Minha mãe tirava aquelas correias e dava cada pisa no meu irmão, ele sentado do jeito que ele tava, ela batia nele, e ele ficava olhando para a cara da minha mãe, não saía uma lágrima e os vergões saindo. Eu sou o mais carente, e eu sempre quis voltar, ter família mesmo e tal. E com o tempo, como casei em Osasco, tive o Wellington, a gente se aproximou um pouco mais, até um dia que o meu irmão voltou pra casa da minha mãe de novo, minha mãe, mesmo com o Edson, um tempo, normalizou, minha mãe ficou bem, ficou legal, criou os filhos do rapaz, que ele tinha uns cinco filhos. Hoje estão criados, têm ela como mãe também. Mas quando eu voltei em 98, pra Brasilândia, 99, eles estavam numa transição.

P - Você mudou pra lá com a família tudo?

R - Com a minha esposa, isso.

P - Perto da casa da mãe?

R - É, no mesmo quintal.

P - Mesmo quintal.

R - Porque meu irmão me procurou em 97: “Ó, a mãe tá querendo vender lá”. Eu falei: “Poxa, vender” Falei: “Primeiro, que ela vai vender para comprar o quê? O dinheiro que vai dividir hoje não compra uma casa”.

P - Aí você foi morar lá.

R - Eu falei: “Fala pra mãe que eu tô voltando, não quero vender, eu gosto de lá.” Aí eu voltei.

P - E esta lá até hoje.

R - Aí voltei. Aí eu voltei e o Edson foi embora.

P - E o emprego? Daí você saiu do Monte Negro?

R - Isso, eu saí do Monte Negro fui pro Atlético.

P - Aí você foi pro Atlético, aí você tinha falado, foi pro Atlético.

R - Fui pro Atlético, só que a minha ideia era já tá migrando de novo para algum lugar a mais na Zona Norte. Nesse meio tempo entre 83, 90 que eu fiquei lá no Monte Negro e tal, eu vinha fazendo trabalhos aqui em São Paulo em rádio. Então eu trabalhei também na Sunshine, que era uma empresa grande que tomava conta da Xuxa quando ela tava estourada. Eles tinham um estúdio de gravação e eu trabalhava no estúdio e na danceteria eu fazia de sextas-feiras no ABC. Aí tinha aqui na Freguesia tinha danceterias, tinha Playboy, Tocco. Às vezes eles me contratavam, esporadicamente eu estava tocando, por aqui já.

P - Então você pegou esse estouro das danceterias?

R - É, peguei essa fase legal. Então andei bastante nesse sentido, fiz rádio, programas de mixagem.

P - E tinha que fazer um teste pra entrar nessas rádios?

R - Na verdade tudo era muito indicação. No meu caso, como eu sou autodidata, eu aprendi muita coisa sozinho, então eu tenho uma facilidade nessa coisa de tecnologia, eu aprendo fácil. Mas eu fui em rádio... Só resumindo, quando eu saí do Atlético eu fui pro Floresta de Osasco, que são os melhores clubes lá, era o Monte Negro, o Atlético, Floresta, Rapsódia, que vem depois. Então, toquei no Rapsódia um tempinho também, não fiquei por causa de salário, como os donos tocavam, eles não vão pagar salário para um DJ, que os filhos também são DJ, né? Mas eles me contrataram numa época, me pagaram o que eu combinei, depois eles acharam que era caro, que não dava, não fiquei. Aí fui pro Floresta, e fiquei mais um tempinho. Do Floresta pintou uma possibilidade de viajar para o Rio de Janeiro e tocar na Furacão 2000, e eu fui pra lá, de um baile que a gente fez junto lá... Tocou uma discoteca de Osasco, que era a Hot Gang, tocou uma equipe chamada Zimbábue, Black Magic e veio a Furacão 2000 como participação especial, e o Rômulo me viu tocando e falou: “Meu, o que você tá fazendo aqui em São Paulo? Vai pro Rio de Janeiro, vamos pra lá com a gente e tal”

P - Quem é Rômulo?

R - É o dono da Furacão 2000, Rômulo Costa. Eu fui e morei dois anos lá no Rio de Janeiro. Só que, eu tava casado e eu tinha que viajar toda quarta-feira pro Rio de Janeiro, tocava quinta, sexta, sábado e voltava no domingo e viajava de novo na quarta-feira. O Wellington ficou mal, meu filho, ficou com problema quase de pneumonia numa época, e estava difícil conciliar. A Lúcia estava muito ciumenta, o nosso casamento deu uma balançada muito ruim. Então prejudicava muito eu ir, e os ciúmes dela estavam me desconcentrando. Aí já tinha passado um ano, no segundo ano o Wellington não estava muito bem de saúde, eu voltei pra Osasco, só que eu voltei desempregado, que eu abandonei tudo que eu tinha aqui. Aí eu comecei a procurar, em primeiro lugar eu fui no Atlético, já tinha mudado a diretoria. Aí eu fui no Floresta, que foi o último lugar que eu toquei e os caras até me humilharam: “É, você se acha muito bom. Você se acha não sei o quê”. O baile tava vazio. “É, não tem lugar pra você aqui porque você saiu na época que não era pra você sair”. Falei: “Tudo bem, legal”. Aí eu tava desempregado, eu cheguei, fui lá na Miruna, na época da Record, que era na Miruna, perto do aeroporto, falei: “Bom, eu vou ter que recomeçar”. E tinha um programa na Record chamado Lunch Break, os DJs tocavam, o DJ de casa noturna. Só que os DJs que tocavam, as casas noturnas pagavam pra eles fazerem o programa, e eu, como não tinha nenhuma casa noturna, falei: “Bom, vou tentar...” Fui lá, cheguei na porta da emissora, falei: “Gostaria de falar com o diretor artístico”. “Você conhece ele?” Eu falei: “Não, não conheço, quem é?” Aí o cara falou: “É o Edson Batagelo”, falei: “Ah, o Edson, tá” “O que você gostaria?” “Não, eu gostaria de fazer um teste aí e tal, eu sou disc jokey, queria fazer um programa, queria participar de um programa que vocês tem aí”. Aí ele ligou lá no ramal, e o cara, por sorte, estava lá e me atendeu. O cara foi muito gentil e tal, cheguei lá era uma segunda-feira, 11 da manhã, o programa entrava no ar ao meio dia. Aí me atendeu lá na sala dele, “Fala Adauto, tudo bem? Do que é que se trata?” Eu falei: “Olha, sou disc jokey, estou desempregado, eu acabei de voltar do Rio de Janeiro e eu tô precisando voltar pra casa noturna, cara, então eu vim aqui ver se eu conseguia fazer uma participação no programa, de mixar e de repente se você me desse essa oportunidade.” “Você é bom?” “Eu sou bom”. E fomos conversando, era um programa da Contra-Mão, que era uma danceteria lá na Zona Leste, e o DJ não chegava. Aí deu, que o programa entrava meio-dia, dez minutos, quinze minutos antes e o DJ nada, e o locutor falando: “Já, já, Ricardo Guedes por aqui papapá papapá”. Aí quando chegou meio-dia o cara não chegava. Aí o Edson chegou e falou: “Você é bom mesmo?” Falei: “Sou” “Então entra lá e faz o programa.” “Onde estão os discos?” “Lá atrás do locutor, ele tem um armário, lá tem os discos”. Aí eu fui lá, olhei o armário, escutei, vi uns discos lá, peguei os discos. Aí o locutor falou: “Bom, estamos com o DJ Fantasma hoje aqui, né?” E eu sei que eu toquei duas músicas, aí chegou o DJ, o Ricardo Guedes, e o Edson me chamou na sala dele e falou: “Você esta contratado pra trabalhar aqui na rádio. Você grava?” Falei: “Gravo.” “Estúdio?” Falei: “Gravo” Pegou a chave do estúdio e falou: “Vai lá no estúdio, grava alguma coisa e me traz aqui”. Aí eu fui, abri o estúdio, liguei o equipamento e tal, os gravadores e tal. Aí gravei umas montagens, pus umas locuções, levei depois de uma hora, uma hora e meia levei pra ele, ele escutou o K-7 “Nossa Então, você tem tempo de vir trabalhar na rádio?” “Tenho” “Então segunda a sexta, de manhã, aí você faz o Lunch Break toda sexta-feira, e nas festas da rádio você vai ser o DJ da rádio”. Aí me abriu de novo as portas, eu fiquei três anos lá, quando ela veio pra Paulista, a Nova FM, Record era Nova FM Record. Aí, na Paulista, eu saí e fui pra Metropolitana, daí já tocando bastante, já tava tentando migrar aqui pra minha casa. Comecei a construir a minha casa aqui na Freguesia, na Brasilândia. Aí em 97 eu mudei.

P - Aí você tá na Metropolitana?

R - Isso, aí fiquei na Metropolitana. Aí eu tocava na Metropolitana...

P - E qual que era o programa? Como que era isso?

R - Eu tinha o Metro Mix, é o Metro Mix, esta no ar até hoje. Aí eu fazia o Metro Mix de terça-feira e produzia dois programas, um programa chamado São Paulo à Noite, que saiu dois discos, dois álbuns, e um programa chamado Doutor Rap que eu produzi também.

P - Você continua lá?

R - Não. Aí em 97 eu saí da rádio e fui pra uma equipe chamada Mistura Fina, e pra Rádio Imprensa, 98, com o programa chamado Clássicos da Nostalgia, que é só de samba rock. É um programa que lançou um monte de gente aí: Clube do Balanço, Paula Lima, Seu Jorge, na época passaram por lá, fiz entrevista com eles bem quando começou esse movimento do samba rock aí. Então paralelamente eu mudei pra Freguesia e divorciei (risos), em 98.

P - Em 98 você se divorciou?

R - Divorciei.

P - Mas continuou com a Rádio Imprensa?

R - Isso. Aí eu fiquei até 2000 na rádio, aí eu saí do programa, que o programa era pago por uma casa noturna.

P - E você tinha que ter um vínculo?

R - E eu tinha um vínculo com a casa noturna, né? Então eles que pagavam o programa. Aí eu tive um desentendimento com a direção da casa noturna e saí. Aí eu fiquei só na casa noturna, não lá, em outras casas noturnas. Aí eu montei um estúdio de gravação com quatro, com três amigos músicos, no Jabaquara.

P - E qual o nome do estúdio?

R - Chamava WOAR, WOAR Estúdios. É WOAR que era: Waldir, Osmir, Adauto e Rubinho, WOAR Estúdio. E a gente passava a gravar, produzir alguns artistas lá, e eu tocando esporadicamente.

P - E nessa fase do estúdio, o que você destaca que foi super importante?

R - Foi essa questão de conhecer artistas, de estar gravando mais, pegando um pouco mais essa coisa da técnica de gravação, de finalização de áudio também, que eu acho importante, né?

P - E de artistas que você conheceu, o que você guarda de lembrança importante?

R - Eu gravei bastante coisa de samba enredo de escola de samba, então Royce do Cavaco, Vantuir do Rio de Janeiro que saía na Mocidade Independente, puxadores de lá. E alguns artistas no meio, por exemplo, que tiveram no estúdio: Leandro Learte teve lá, tem uma história bacana.

P - E no estúdio você está com o estúdio ainda?

R - Não, em 2003 eu saí do estúdio, a gente terminou a sociedade e eu montei, como eu já tava morando aqui na Freguesia, na Brasilândia, num dos quartos da minha casa eu montei um pequeno estúdio, onde eu venho trabalhando.

P - Até hoje?

R - É o meu quartel general.

P - E como é o seu dia a dia nesse trabalho?

R - Meu dia a dia? Como hoje eu casei de novo, então eu tenho mais um pequeno...

P - Nome da esposa?

R - É Adriana, a Drica. E aí eu tenho um pequenininho com ela, tenho o William. A minha atividade, de manhã, como ela trabalha, eu fico de manhã em casa produzindo, eu também olho ele, que ele está com seis anos. Então de manhã ele fica comigo e eu tento olhar ele e tento trabalhar, faço isso. Levanto, faço as atividades, dou banho nele, dou café e tudo o mais. Depois, eu vou pro estúdio, organizo na minha agenda que eu tenho lá o que eu tenho que gravar, produzir, então eu produzo algumas músicas, que eu já tenho alguns clientes, coisa de esporte pra rádio, vinhetas pra rádio. Eu tento conciliar no meu horário de manhã. Levo ele pra creche, depois eu volto, aí trabalho o dia todo, até umas sete da noite com produção de áudio, vinhetas, remix, tudo que for.

P - Ou seja, ele já esta iniciado, né?

R - Isso, justamente, tá ali já.

P - E dos trabalhos que você fez, qual pra você foi o mais marcante?

R - O mais marcante é um que eu terminei agora que é meu mesmo. Tem várias coisas que eu fiz, de remix pra rádio, de remix pra gravadora e tal. Mas uma coisa que eu venho me aplicando mais é trabalhar comigo mesmo, eu tô focando mais no meu trabalho de disc jokey de produção musical.

P - E o que é esse seu trabalho?

R - Esse é um projeto que eu terminei agora. Eu tenho vários projetos, de música eletrônica e de coisas mais conceituais com o samba rock que eu tenho feito. Tem um trabalho que eu lancei agora em agosto, que é uma coletânea, uma caixa com três CDs, e o pessoal das lojas de São Paulo está me apoiando. São músicas que eu venho tocando nas minhas apresentações. O pessoal: “Pô, Adauto” Muitas são minhas mesmo, coisas que eu tenho focado na minha produção, e alguns remix que eu pego de artista pra fazer. São três CDs numa caixa só, num total de 30 músicas, e nas lojas o pessoal compra. Estão revendendo e tem saído bastante. Aí eu já tô indo pro volume quatro agora.

P - Parabéns Adauto Adauto, a gente tá indo agora pro encerramento, tá legal?

R - Perfeito.

P - Você olhando a sua trajetória de vida, o que você tira?

R - É uma coisa de pura batalha. Se fosse pensar friamente eu fui abençoado, porque é só por Deus mesmo que ele me deu o dom e é esse dom que eu sigo, porque se eu tivesse pensado friamente há algum tempo atrás eu já tinha, com todas as dificuldades e problemas de percurso, de conciliação, de família, de problema familiar, de problema financeiro, eu já teria parado há muito tempo. Mas eu acho que eu tive um dom, esse dom é o que tem me fortalecido dia a dia. Hoje eu só tenho que agradecer, porque eu trabalho realmente com o que eu sempre acreditei. Eu tenho um espaço pequeno, mas um espaço de muita satisfação, e quando eu entro ali dentro, eu me sinto realizado. Acho que isso é sucesso

P - E se tivesse que escolher uma música que representasse a sua vida, que música seria essa?

R - Internacional?

P - Qualquer música.

R - Qualquer uma?

P - É. Essa é a minha música.

R - Puxa, agora você me pegou. Tenho várias, mas entre as que eu mais gosto, eu gosto de Rua Ramalhete, Tavito.

P - Seria a sua vida?

R - É uma música que é simples, mas ela é uma síntese do que eu penso das coisas.

P - Ah, eu não conheço essa música. Você consegue dar um toquinho?

R - É antiga, nossa também faz tempo olha Foi tema de novela da Globo, há muito tempo, década de 70, deixa eu ver se eu lembro um trechinho, pelo menos. É Rua Ramalhete: “Se tudo me lembra, uma rua e seus ramalhetes... do Clube da Esquina. Quanta saudade...” Acho que é isso. Acho que é isso.

P - Perfeito Adauto, tem alguma coisa que você gostaria de deixar registrado que a gente não tenha te estimulado a falar?

R - Ah, eu tenho que agradecer, acho que é um depoimento, de vida, né? É uma oportunidade que emociona a gente. A gente lembra, é um filme que passa, então a gente fica até emocionado de ter lembrado tanta passagem que a gente não lembra todo dia. Ainda ficam coisas que a gente não lembra, mas é um resumo mesmo. Pra mim foi um encontro maravilhoso, maravilhoso mesmo. Gostaria, eu acredito que inclusive isso é uma terapia muito grande, é um resgate eu acho, de comportamento, de alma. Tem uma passagem, só rapidamente, uma época eu fiz terapia, rapidamente, eu tava com problema muito sério no meu casamento e eu queria saber se eu estava agindo de acordo e entrei pra estimular a minha mulher a ir também. Na época, a Lúcia. E o terapeuta, o psicólogo, me fez uma colocação que eu achei muito interessante. Ele pegou um espelho, me colocou na frente do espelho, e ele falou: “Olha pra dentro desse cara aí. O que você acha desse cara?” Então eu me conheci ali. Eu já me conhecia, mas foi uma coisa que eu acho que todo ser humano deveria ter essa experiência, que às vezes a pessoa vive a vida e não tem uma experiência tão de dentro de si, de falar do que ele viu, da experiência de vida dele, que às vezes isso aí pode mudar o comportamento de pessoas. E só rapidamente também, teve uma passagem minha que eu passei pela Febem um tempo.

P - Ah, você pulou, hein?

R - É então, por isso que eu falo que são tantos detalhes. Uma das passagens lá eu trabalhei numa área de eventos, de criar atividades pros adolescentes...

P - Ah, você foi trabalhar lá

R - Então, eu trabalhei num setor.

P - Então só retomando, você falou que você teve uma passagem pela Febem.

R - Isso, pela Febem, e foi em 98.

P - Quantos anos?

R - E foi em 98, foi agora em 98.

P - Você foi fazer o que lá?

R - Eu fui convidado pra fazer parte da área de cursos e eventos. Então tem um setor lá que cuidava dessa área de eventos, artes. Eu fui fazer uma arte, ensinar o adolescente essa coisa da discotecagem, da gravação, essa coisa de MC que eles gostavam de compor, eu fui dar uns workshops lá de gravação. E acabei trabalhando de coordenador no pátio entre eles... Fui indo, fui indo, fui indo, fui entrando, aí a direção achou que eu tinha uma forma de lidar com eles diferente do que os coordenadores estavam fazendo, porque foi numa época de muita rebelião. Eu fui nessa época, em 98, eu acabei ficando lá cinco anos.

P - Qual Febem que é? Qual unidade?

R - Tatuapé. Comecei no Tatuapé e finalizei na Raposo Tavares, no Complexo Raposo Tavares. Foi muito bacana porque essa coisa do relacionamento de conversar, essa coisa desse psicológico que deu essa coisa do espelho: conversa, conversa com você, uma coisa que eu levava muito pra Febem. Porque eu acho, independentemente deles estarem lá e terem feito o que eles fizeram, eles já estão lá. Eu tentava tratar eles de acordo com o que eu fui tratado, dessa coisa da periferia. Eu acho que eu fui muito feliz nessa coisa, porque das unidades que eu trabalhei não teve uma rebelião em quase cinco anos, e eu saí por opção mesmo, porque sozinho não dava pra mim, então começou a gerar um monte de coisa dentro da instituição que acaba fazendo você sair... É o próprio funcionário, um fica jogando com o outro, um coordenador quer colocar um monitor de pátio na coordenação, então ele fica jogando um outro coordenador contra os adolescentes. Chegou uma época que eu falei: “Eu não vou mudar isso aqui. Eu acho que a minha contribuição eu já mostrei, que daria pra fazer uma coisa diferente.” Foi muito bacana, fiz amizades, tem adolescente que eu encontrei depois de muitos anos na rua, e foi muito bacana de conversar, e falar: “Pô, o senhor é seu Adauto”, falei: “Não, não sou senhor, sou o Adauto, sou normal.” “O senhor é igual lá dentro, aqui fora o senhor é a mesma coisa”. A gente é isso, não adianta. Existe a liderança, mas existe também o respeito. Eu achava melhor o respeito, porque às vezes a liderança é imposta, como era lá dentro, pelos coordenadores, de bater, de não sei o quê. Eu não tenho essa metodologia, o meu jeito é outro, então eu converso. A partir do momento em que você vai bater, já não tem muito diálogo, né? Então eu tinha uma coisa de conversar. E foi muito bom.

P - Foi um aprendizado também.

R - Foi muito bom pra mim porque eu lembro dessa coisa da passagem do psicólogo: “Olha pra você, conversa”. O adolescente chegava na minha sala, que eu tinha uma sala, eles tinham mania de sentar no chão, tinha duas cadeiras, tinha minha mesa, tinha cadeira, eles sentavam, eu falei: “Não, senta na cadeira” “Não, senhor” “Senta na cadeira” Sabe? Tem umas coisas que são básicas no relacionamento, poxa, você sentar no chão você já tá humilhado, eu falava: “Meu, senta aí na cadeira, meu, senta cadeira” Eu acho que as pequenas atitudes... Isso ajudou mais ainda a me entender comigo mesmo, falar: “Poxa, eu acho que foi bom pra mim, eu aprendi muito com eles, me fortaleceu bastante essa passagem, foi muito bacana, eu gostei”.

P - Adauto, a gente queria, em nome do Museu da Pessoa, agradecer o seu depoimento. Vai enriquecer o nosso acervo, com certeza.

R - Eu que agradeço.

P - Muito obrigada

R - Vocês não sabem a alegria que eu vim pra cá. Vim ansioso e muito bacana mesmo. Quero levar esses depoimentos, essas coisas, esses vídeos pra outras pessoas.

P - Tá OK. Obrigada.

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