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História

"Acreditava que não tinha mais jeito"

História de: Joana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Quando pequena, Joana era cuidada pelos irmãos e a história se repetiu depois que a irmã teve dois filhos e ela passou a cuidar dos sobrinhos. Aos treze anos entrou na exploração sexual para conseguir comprar o que a mãe não podia lhe dar. Abandonou a escola, começou a beber e a usar drogas. Chegou a pensar que não havia mais solução em sua vida. Com ajuda de pessoas próximas, ingressou no Projeto ViraVida e agora conta, como depois de muita desilusão, conseguiu mudar de vida e voltar a sonhar.

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História completa

Logo quando eu nasci, minha família morava em um prédio onde a minha mãe tomava conta de uma senhora. Minha mãe teve um problema no meu parto e passou mais de um mês internada. Quem cuidava de mim eram os meus irmãos. Quando ela retornou pra casa, foi trabalhar em uma boate como garçonete e os meus irmãos continuaram tomando conta de mim. Essa tarefa era meio difícil porque a minha irmã na época tinha onze anos e o meu irmão tinha uns doze, treze anos, por aí, era difícil pra eles.

 

A minha mãe trabalhava o dia todo, os meus irmãos iam pro colégio e eu passava o dia na creche. Fui crescendo até chegar aos onze anos, e com dezesseis anos, a minha irmã teve o primeiro filho, ela começava a ir pra festas, essas coisas... A minha mãe trabalhava e, como minha irmã só vivia de festas, era eu que ia cuidar dos filhos dela. Ela passava dois, três dias fora de casa, eu é que ficava em casa cuidando dos filhos que nem eram meus. Era complicado porque nesse tempo eu já era jovenzinha, queria brincar com as minhas amigas e não podia. Tinha que ficar dentro de casa olhando os dois meninos. Eu me sentia muito só.

 

Quando eu era mais nova, mamãe ia ao serviço e os meninos ficavam com os vizinhos até o meio dia, que era o tempo que eu estava na escola pela manhã, eu mesma ficava com os vizinhos. Meio dia, eu vinha pra casa, pegava os meninos na casa dos vizinhos, fazia comida, às vezes, a minha mãe já deixava pronto de noite, de um dia para o outro para eu poder esquentar. Eu passava o dia todo com eles, mamãe só chegava de noite, às vezes de madrugada.



Meus irmãos eram os meus brinquedos porque eu não tinha. Eles eram como se fossem os meus bonecos. Eu brincava como se fossem os meus bonecos, como se eu fosse a mãe deles, eu dava banho, ficava com eles, brincava, brigava, assim foi até eu completar os meus treze anos.

 

Quando eu completei os meus treze anos, eu estava indo à escola, eu via as meninas com celular, com roupa nova, com calçado, essas coisas e eu sempre pedia para a minha mãe. Ela não tinha como me dar, eu sempre pedia alguma coisa e ela não tinha como me dar. Eu procurei um meio de eu conseguir as coisas, de eu ganhar as minhas coisas. Aí tinha uma mulher que sempre me via passando e dizia: “Ah menina você vai ganhar muito dinheiro e não sei o quê”, aí ela acabou me levando e aí foi. Eu saía pra rua com quinze anos de idade. E assim foi até os meus dezenove anos. 

 

Logo quando eu ia entrar para o primeiro ano, eu parei de estudar, não quis mais saber de colégio. Vivia na noitada, eu me prostituía, saía com homem pra ganhar dinheiro pra eu comprar celular, comprar roupa, essas coisas, comecei a beber e a fumar também. Com o tempo, eu comecei a usar droga, isso nos meus quinze anos de idade. Com dezesseis anos de idade, eu entrei em uma casa noturna pra eu ser dançarina, sem a minha mãe saber. Escondida dela, eu ficava dançando.

 

Até uma vez que eu tinha pedido para a minha mãe para eu viajar, ela não deixou, não quis deixar de jeito nenhum viajar. Como tinha um homem me esperando no interior, ela não quis deixar de jeito nenhum, aí eu disse que eu ia pra casa de uma amiga minha e ela não deixou. Quando ela saiu para o mercado, as minhas coisas já estavam arrumadas, eu fui embora para o interior, passei três dias lá no interior. Quando eu cheguei do interior, eu soube que ela tinha caído, tinha quebrado a perna por minha culpa porque eu tinha fugido, eu não disse nada, não deixei nada. Isso foi horrível pra mim, mas mesmo assim eu queria mais e mais... E ela não tinha como me dar, só tinha a minha irmã trabalhando. Eu comecei a ficar doida, ela no hospital, eu saía, vinha pro centro e passava dois, três dias fora de casa, usando drogas nas ruas.

 

Isso foi até os dezenove anos de idade, eu dando dor de cabeça pra ela, eu não queria saber de estudar, e assim foi.

 

A primeira vez foi horrível, saber que eu fiquei mulher cedo demais, com um homem que eu não sei se ele ainda é vivo, com um homem que eu nem conhecia e por mixaria. Eu não gosto nem de me lembrar porque às vezes eu sinto raiva de mim mesma por conta disso. A primeira coisa que eu fui fazer com esse dinheiro foi comprar bala bombom, doce, biscoito, essas coisas.

Era o meio que eu conseguia dinheiro rápido e fácil, como a minha mãe não tinha como me dar. O que ela ganhava mal dava pra ela pagar o aluguel e botar comida na mesa. Não tinha como me dar o que eu queria, era o meio mais rápido, mais fácil de eu ganhar dinheiro, de comprar as minhas coisas, de eu ter as minhas coisas, mesmo que escondido dela.

 

Eu não sentia nada, eu só ficava pensando no dinheiro, quando eu saísse de lá, o que eu iria comprar, aonde eu ia, o que eu ia fazer. Na hora, eu não sentia nada, eu só pensava no que eu ia comprar.

 

Eu sentia medo de eu entrar em um carro sem eu saber quem era, de me matarem, de me fazerem algum mal e me deixar por lá mesmo, eu sentia medo, depois vinha: “Não, eu posso ganhar dinheiro, eles vão me dar tanto”, depois passava, eu encarava. Mas sempre quando eu saía de casa, eu ia com uma certeza de eu estar saindo, mas eu não podia retornar, eu sempre ia com isso, de eu sair de casa e não poder retornar.

 

“Uma vez que uma colega minha me convidou para ir a uma boate com ela, eu fui. Antes de eu ir para a boate, a gente tinha ganhado dinheiro, a gente foi para a casa dela, aí ela tinha umas bebidas, a gente começou a beber por lá, aí ela tinha pó, lá a gente começou a cheirar pó. Quando a gente chegou na boate, era mais de meia noite, eu já doida, ela doida, chegamos na boate e começamos a dançar, subi em cima do palco, comecei a tirar a minha roupa, fiquei só de calcinha dentro da boate, já doidinha… Eu dançava música eletrônica, eu dançava fantasiada, às vezes, de lingerie, às vezes nua mesmo, fazia strip, muitas vezes acontecia sexo ao vivo no palco, era uma loucura. 

 

Na boate só era de final de semana, era de sexta e sábado e na rua eram todos os dias, de segunda à quinta. Durante o dia, logo quando eu parei de estudar, eu não quis mais ir, eu ficava na casa das minhas colegas ou então ficava em uma praça, em algum beco ou então, passava o dia dormindo dentro de casa ou então bebendo, esse era o meu dia a dia.

 

A primeira vez que quis parar foi quando as minhas amigas, todas elas me deram as costas, eu passava e elas não falavam mais comigo, me abandonaram, eu também não ligava, eu dizia que elas estavam com inveja. Na segunda vez, foi quando uma chegou, teve essa coragem, veio na minha casa e conversou comigo, ela: “Joana eu posso falar contigo?.” Eu disse: “Pra que tu queres falar comigo pequena? Vai embora”. Ela: “Não é assim, tu vês o que estás fazendo? É certo? É bonito? Tu estás matando a tua mãe aos poucos, tu estás afastando os teus irmãos aos poucos, todo mundo que gosta de tu está afastando, parou de estudar por causa dessa vagabundagem. Tu acha que essas meninas que estão contigo, que te oferecem droga, te oferecem bebida, te dão macho, tu acha que essas são suas amigas mesmo? Elas não são tuas amigas, essas só são quando tu tem dinheiro, quando tu não tem... Fica doente pra ver, vão todas te dar as costas”. Eu disse pra ela que estava mentindo, que ela estava com recalque porque ela não era minha amiga, as minhas amigas eram as outras. Passou o tempo, eu continuava com as meninas. Teve uma vez que eu saí com elas, mamãe não estava em casa, eu disse que eu ia sair, a gente foi para uma casa, usei tanta droga nesse dia que eu quase morri de overdose. Nesse tempo, eu já estava com dezenove anos, eu fui parar no hospital, eu não queria que ninguém avisasse a minha mãe. A única pessoa que eu pedi para avisar foi uma amiga minha, ela foi a única que foi, as outras que tinham me dado, foram embora. Todas me deixaram abandonada, ela foi a única que ficou comigo, me trouxe para a casa dela sem a minha mãe saber. A mãe dela me apoiou depois, ela ficou comigo, me ajudaram a sair, desde esse dia eu disse pra mim mesma que eu não iria mais usar droga, elas falaram: “Joana, você quer morrer?”. Foi o primeiro passo que eu dei. Eu disse que eu não iria mais usar, eu não usei mais, mas ainda continuei com a prostituição. Passou um tempo, aí mais ou menos com onze meses para eu completar vinte anos, uma moça daqui, ela estava no ViraVida, ela disse que ela tem a Aprosma (Associação das Prostitutas do Maranhão), elas foram em casa atrás de mim, pediu pra eu fazer a minha inscrição, que eles fariam a seleção. Eu não queria, eu disse: “Eu não tenho mais jeito, é daqui pra morte. Eu nunca vou sair dessa vida, nunca vou querer limpar o meu nome que eu já sujei, não tem mais jeito”. E ela: “Não, faz!”, me deu força. Mamãe também: “Faz”. Eu fiz a minha inscrição, o tempo passou. Depois de muito tempo, eu já tinha até desistido, eu dizia que já não ia mais me chamar, que eu estava mesmo... Eu não queria mais saber de fazer isso, que isso aí não ia dar certo, que era uma besteira, uma bobagem, eu dizia um monte de coisas, até que me chamaram para a entrevista. Eu fui fazer a entrevista, eu passei.

 

Eu fui nos primeiros dias, quando eu cheguei lá eu pensei que era só eu, mas quando eu cheguei, eu me deparei com um monte de gente em situação igual ou pior do que a minha. Todos ali querendo mudar, todos ali com uma história para contar, e comecei a me empenhar.

 

No início ninguém tinha sonho, ninguém tinha vontade, ninguém tinha visão e, hoje em dia, não. Todo mundo já tem, uns falam que ao final do curso recebem uma bolsa, mas não sabem o que vão fazer com a bolsa, se vão montar negócio. Cada um viu que se identifica com uma coisa, outros querem trabalhar fora, querem viajar, eles falam: “Para aquela vida eu não quero voltar nunca mais”. 

Eu disse que não queria mais saber de prostituição, saí dessa vida. Foi difícil? Ixi, foi horrível pra mim! Mas eu sai dessa vida, graças a Deus, eu dei a volta por cima. Hoje em dia, as minhas amigas retornaram, falam comigo, as que me davam droga já morreram, (choro) mataram elas, tem uma delas que está com HIV (vírus da imunodeficiência humana). A que continuou também está com HIV, está no hospital quase morrendo, outra está com câncer e assim foi. E eu estou aqui: consegui limpar o meu nome perante a sociedade, voltei a estudar, terminei já o Ensino Médio, terminei esse ano, termino o meu curso no mês que vem. Eu vou ficar morrendo de saudade. Cada dia pra mim é um aprendizado novo e assim vai.

Hoje em dia, mudou tudo, eu posso dizer que mudou tudo na minha vida. Antigamente, eu não tinha vontade de aprender, eu não tinha vontade de fazer nada, agora, às vezes eu paro, penso e fico imaginando quando o projeto acabar – no mês que vem acaba, só tem esse mês – como é que vai ser isso porque eu me apeguei ali. Com o modo como transformou a minha vida, eu me apeguei com as pessoas, com as meninas de uma tal maneira que nem eu sei, mesmo eu terminando, eu não vou deixar de ir lá. Eu só viver lá, mas é bom. Hoje, eu me vejo realizada, não totalmente, não cem por cento, mas eu posso dizer que oitenta por cento eu estou realizada.

 

Quando me vejo no espelho, eu olho e vejo outra pessoa, com uma aparência mais alegre, menos envergonhada. Uma mulher com planos para o futuro, com vontade de realmente vencer, de crescer na vida, eu não quero viver o tempo todo nisso, eu quero ter algo meu. Eu quero poder dar uma estabilidade melhor para a minha mãe, agora a minha meta é essa, é fazer esse outro curso e em breve estar comprando a casa para a minha mãe, eu não quero parar só nisso porque a minha vida hoje em dia ela não se resume mais só nisso. Eu me sinto uma pessoa vitoriosa pela trajetória de vida que eu tenho, pelo monte de coisas que eu já passei e hoje estar aqui só contando o que foi. Eu me sinto uma vitoriosa, uma guerreira!

 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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